Corumbá, capital da cultura, do cinema
Salim Haqzan -- cineasta corumbaense que iniciou sua talentosa obra trilhando pelos caminhos de Lobivar Matos e Manoel de Barros e literalmente caminhando pelas ruas sesquicentenárias do coração do Pantanal e da América do Sul, do Sol e do Sal -- nos presenteia, dia 30 de julho, com 'Os Colegas' em nossas cidades carentes de cinema, de perspectivas para a juventude e de projeção para a prosperidade. Mas não aquela da mentirosa teologia que depois de conquistar o inocente útil se transforma em dominação. Porque cultura é emancipação, evolução, liberdade, cidadania. É disso que precisamos, e da UFPantanal.
Nesta quinta-feira, dia 30 de julho, às 19 horas, o Cine SESC Corumbá [Antônio Maria, 493, centro, entre Cuiabá e Dom Aquino] exibirá 'Os Colegas', filme de aventura e comédia de Marcelo Galvão em que três colegas de instituição para pessoas com síndrome de down decidem viver u'a saga e realizar seus sonhos, narrados pelo jardineiro. Após a exibição, Salim Haqzan -- cineasta, produtor e ativista cultural corumbaense cuja trilha inicia nas ruas sesquicentenárias de Corumbá e nos caminhos poéticos de Lobivar Matos e Manoel de Barros para hoje se projetar sem limites com seu talento -- fará comentários e uma fala sobre o cinema como experiência.
Dá orgulho ser conterrâneo e contemporâneo (embora bem mais velho) de Salim Haqzan. Tem vencido, mais que os obstáculos atávicos próprios do atraso a que nossa região pantaneira foi relegada, importantes certames nacionais, sendo o mais recente o importantíssimo "Histórias de Vida da PNAB", do Ministério da Cultura [eis uma das boas razões para comemorar a gestão da Ministra Margareth Menezes, nomeada pelo Presidente Lula para reconstruir as políticas da Cultura depois do descalabro promovido pelo negacionismo golpista de nefasta memória].
Num triste momento da História, em que endinheirados predadores sem pudor investem em guerras, ruínas e mortes, o irrequieto e talentoso Salim Haqzan expressa eloquentemente com sua arte a resiliência do cosmopolitismo corumbaense, que se recusa a sucumbir ante patrolas demolidoras e tratores perfuradores a atentar contra o patrimônio cultural, populacional e ambiental do coração do Pantanal e da América do Sul, do Sol e do Sal.
Cultura, arte, ciência e educação são alavancas para o progresso da humanidade. Isso humildemente Salim nos ensina com seu inesgotável talento e renova nossa teimosa esperança por tempos auspiciosos. Daí por que é preciso da UFPantanal (Universidade Federal do Pantanal) e da grande usina de talentos que virá a ser, não lugar de passagem de fazedores de currículo, cuja estada em Corumbá não passa de três anos; ou da fábrica de diplomas apoiada com dinheiro público (a velha prática de 'fazer cortesia com chapéu alheio').
O cinema, como toda arte e a cultura por extensão, é instrumento de evolução e fomento de cidadania. Aliás, não por acaso o ciclo de filmes seguidos de debates que ele inaugura traz a inspiradora 'travessura' dos três colegas que acabaram se influenciando com certa personagem de um filme assistido por eles (e que não nos cabe adiantar para não quebrar o encanto). Quando Corumbá era detentora de nada menos que quatro salas de cinema (incluindo o Dom Bosco) -- além do Cine Ladário, tão concorrido quanto os demais --, a efervescência do talento juvenil se expressava nas letras, música, artes plásticas e cênicas, além dos excelentes profissionais egressos de instituições locais, nacionais e estrangeiras.
Não se trata de saudosismo, mas constatação do quanto é nociva a hegemonia das redes de televisão corporativas que reproduzem acintosamente o subproduto da Hollywood refém dos piores empresários decadentes e belicistas da história. E o mesmo ocorre com as plataformas digitais e redes sociais das big techs, cujos trilionários, bilionários ou milionários donos -- os novos tecno-oligarcas destes mesquinhos dias -- nos submetem a um obscurantismo deliberado, parte do plano do tecnofascismo em ascensão pelo mundo do caos e da destruição.
Recordando os tempos fecundos do movimento cineclubista do qual Corumbá é pioneira -- o próprio Salim, em 1998, fundou o Cineclube Sala de Cinema, com o qual realiza a parceria que nos abre a possibilidade de assistirmos à produção cinematográfica liberta do jugo hollywoodiano --, quando o Diretório Acadêmico Dom Aquino Corrêa (DADAC), do CPC/UEMT, sob a direção da saudosa Heloísa Urt (1979-1980), e o Cineclube Universitário, com filmes da DINAFILME (Distribuidora Nacional de Filmes), abriam aos fins de semana, com a mesma programação do Diretório Acadêmico Félix Zavattaro (DAFEZ), da FADAFI/FUCMT. Bem antes, porém, a Cidade Dom Bosco já fazia sessões de cineclubismo, sob a coordenação de voluntários da Operação Mato Grosso, movimento salesiano que apoiou a gênese da obra social do saudoso Padre Ernesto Saksida, entre 1968 e 1972.
Foi com o Cineclube Universitário que me iniciei no movimento estudantil em Campo Grande, e conheci verdadeiros clássicos. Na mesma semana do início do semestre letivo de 1979, o DAFEZ, por meio do saudoso Amarílio Ferreira Júnior, da também saudosa 'Gestão Semente', nos apresentou duas sessões de cineclube aos sábados. A sessão inaugural foi com a exibição do antológico 'Vidas Secas' (inspirado na obra homônima de Graciliano Ramos), de Nélson Pereira dos Santos (sendo produtor e diretor de fotografia o recém-falecido Luiz Carlos Barreto), marco do Cinema Novo com que a cinematografia brasileira foi reconhecida no Festival de Cannes de 1964 e na Resenha de Gênova de 1965, a despeito das frustradas tentativas de sabotagem do regime recém-imposto à nação.
Como homenagem póstuma ao eterno e terno Barretão, que, mais que discípulo do grande Nelson Pereira dos Santos, foi ícone da produção cinematográfica contemporânea, verdadeiro mestre, pela genialidade, discrição e coerência (eis que nunca se deixou cooptar pelo poder).
Ahmad Schabib Hany
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