terça-feira, 29 de agosto de 2023

CINQUENTA ANOS DO SANGRENTO GOLPE CONTRA ALLENDE

50 anos do sangrento golpe contra Allende

Pela Rádio Bandeirantes, a voz embargada do Jornalista Newton Carlos, perplexo, narrava ao vivo o sangrento golpe militar contra Salvador Allende, o primeiro presidente socialista eleito na América do Sul.

Santiago do Chile, 11 de setembro de 1973. O mundo assiste, perplexo e consternado, ao mais sangrento e brutal golpe militar cometido em solo sul-americano, em um país cuja democracia era até então inabalável. O La Moneda, palácio presidencial, foi bombardeado impiedosamente por aviões da força aérea, no afã de entregar o serviço aos seus amos de Washington, cujo sinal (além do pagamento em dólares, pela transnacional da telefonia ITT) havia sido dado dias antes por Richard Nixon (o mesmo do Caso Watergate) e seu secretário de Estado, Henry Kissinger, aliás, Heinz Alfred Kissinger, alemão ex-nazista (existe ‘ex’?) naturalizado estadunidense depois de fugir, com Werner Von Braun (o ‘pai’ da tecnologia espacial dos Estados Unidos) e outros, e levar segredos nazistas para se garantir no poder no ocidente.

Pelas ondas da Rádio Bandeirantes, ouvíamos a narração, com a voz embargada, do analista e Jornalista Newton Carlos, enviado especial ao Chile desde a véspera do golpe. Apesar da censura e do apoio declarado do general-presidente Emílio Garrastazu Médici aos militares golpistas chilenos capitaneados por seu colega Augusto Pinochet, até então comandante do exército chileno, o eterno Newton Carlos (colaborador de O Pasquim e da agência Inter Press Service, IPS, por meio da qual prestou um grande serviço ao Jornalismo de Análise em toda a América Latina) soube driblar a censura e transmitir fidedignamente a resistência da sociedade civil chilena.

O sanguinário Pinochet não estava só na sórdida traição: sob estreito monitoramento da CIA e do Departamento de Estado no governo Nixon, além dos comandantes das forças armadas e da polícia militar chilena, empresários e segmentos privilegiados da sociedade chilena conspiraram contra o Estado de Direito no Chile, motivo de orgulho dos chilenos em todo o mundo. Até então, o Chile e o México se gabavam por acolher exilados inclusive perseguidos da Europa durante as ditaduras nefastas de Adolf Hitler, Benito Mussolini, António Salazar e Francisco Franco, dos quais os discípulos chilenos (e outros golpistas latino-americanos) são seu continuísmo.

Com a brutalidade de facínoras nazifascistas cultivada desde a juventude, essas bestas-feras, monstros que usaram armas pesadas contra civis, em sua imensa maioria sem o preparo para lutar em trincheiras meticulosamente espalhadas pelas principais cidades do país andino, executaram nas vias públicas, em plena luz do dia, quem atravessasse seu percurso. Não pouparam mulheres em tenra idade e idosas, religiosos, escritores (como o Poeta Pablo Neruda, já idoso e doente, Prêmio Nobel de Literatura), compositores (como Victor Jara, autor de ‘Te recuerdo Amanda’, cujos verdugos foram condenados dias atrás, depois de 50 anos de impunidade) e familiares de ativistas políticos, como se o fato de ser parente de dirigentes políticos justificasse uma sentença marcial.

A cobertura da Rádio Bandeirantes, sob a condução de Newton Carlos (o sinal da Rede Bandeirantes de Televisão ainda não tinha chegado ao estado, então Mato Grosso) era tão fidedigna, que quando chegavam os jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e La Paz com as imagens (transmitidas por belinógrafo como radiofoto ou telefoto) eram confirmados os fatos narrados pelas ondas de rádio. Consternação e incredulidade tomavam conta dos que acompanhavam o cotidiano latino-americano, que então tinham como contraponto ao obscurantismo fascista a esperança existente no Oceano Pacífico, com destaque para o Chile e o México.

Truculentos até com o entretenimento, submeteram à censura ferrenha a emblemática revista Condorito, de criação de Pepo, desenhista chileno que fez escola nos países de língua hispânica, ao lado do argentino Quino (o célebre criador de Mafalda) e do espanhol Francisco Ibáñez (criador de Mortadelo e Salaminho, em espanhol ‘Mortadelo y Filemón’). Durante as décadas de 1970 e 1980, a ditadura chilena, que mantinha estreito vínculo com as ditaduras do ‘Cone Sul’ (Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai, Peru e Uruguai), realizou diversas operações repressivas transfronteiriças, um crime que ainda não foi devidamente punido pelos tribunais internacionais.

Na famigerada ‘Operação Condor’, da qual o inominável (e agora inelegível) disse ser simpatizante, Pinochet e seus sequazes disponibilizaram diversos campos de extermínio, onde os corpos de vítimas da repressão das ditaduras latino-americanas foram descartados da maneira mais sórdida e aviltante. A impunidade ainda protege os carrascos chilenos, como muitos nos demais países, à exceção da Argentina, que, graças às Mães de Maio e à altivez do povo argentino, todos os comandantes militares e seus comparsas civis foram condenados em sentenças históricas, depois de realizados os trabalhos da Comissão da Verdade, sob a coordenação do pensador e ativista dos Direitos Humanos Adolfo Pérez Esquivel, por isso Prêmio Nobel da Paz em 1980.

O Chile, durante o governo de Michele Bachelet e agora com Gabriel Boric, timidamente retoma o resgate da memória dos mártires da democracia chilena, mas a resistência dos setores castrenses inspira prudência, como em outros países latino-americanos. A Bolívia ainda não conseguiu concluir os processos judiciais dos envolvidos nos crimes de lesa humanidade e lesa pátria durante as ditaduras de René Barrientos, Hugo Banzer, García Meza e Jeanine Áñez. Igualmente o Brasil, depois do golpe travestido de impeachment contra Dilma Rousseff, não mais retomou os trabalhos da Comissão da Verdade, e muitos suspeitos de envolvimento em crimes de lesa-humanidade estão impunes e por isso com a empáfia de se considerarem inatingíveis, posando de ‘patriotas’.

A História tem demonstrado, a propósito, que, senão a Justiça, o tempo, esse senhor da razão, se encarrega de desmascarar as farsas, ou, melhor, de despir o rei, ainda que isso ocorra em eras em que os protegidos pela impunidade não estejam de corpo presente para ouvir a sentença inevitável. Um deles foi Filinto Müller, que tentou de todas as formas impedir que o jornalista David Nasser publicasse seu emblemático livro ‘Falta alguém em Nuremberg’, de 1966, início da segunda ditadura a que ele serviu. Não conseguiu, e ainda que fosse o todo-poderoso nos anos de chumbo (inclusive contra muitos getulistas que o protegeram na ditadura do estado novo), nunca conseguiu ser governador de seu próprio estado, o de Mato Grosso.

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

PROFESSOR NIVALDO, HUMILDADE A TODA PROVA

Professor Nivaldo, humildade a toda prova

O Professor Nivaldo Ferreira da Silva se eterniza eclipsado por lideranças ensimesmadas, muitas delas narcisistas, quando deveria ter sido referência de humildade e retidão para aqueles que amam de verdade Ladário e seu povo, de angústias e esperanças mil.

A eternização do primeiro prefeito eleito pelo voto direto de Ladário, Professor Nivaldo Ferreira da Silva, deixa um vazio irreparável na cidadania, como mestre incansável, ser humano humilde e cidadão exemplar. Leal filiado à Oposição, representado na época pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), durante todo o regime de 1964 fez da política um bastião de resistência ao arbítrio e opressão que vigiam totalitariamente nos anos de chumbo.

Tive a honra de conhecer o Professor Nivaldo durante o processo de implantação do PMDB, em 1980, quando ele solitária e corajosamente enfrentava em Ladário o campeão de votos da Oposição, Deputado Cecílio de Jesus Gaeta, ao lado de, em Corumbá, Dona Eva Granha de Carvalho, Rubens Galharte, Joilce Araújo, Rômulo do Amaral, José de Oliveira, Jonas Ribeiro e Beatriz Viegas de Araújo, que mais tarde optaram fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) ou o Partido Democrático Trabalhista (PDT), de acordo com as suas convicções políticas.

Nas décadas de 1970 e 1980, o então jovem vereador Nivaldo Ferreira expressou a vontade do eleitorado de Ladário, majoritariamente contrário ao casuísmo praticado pelo governo federal, em plena vigência do regime de 1964. Porta-voz de um coletivo altivo e atuante, a despeito da censura e da falta de liberdades democráticas, soube, inteligente, leal e prudentemente, enfrentar os cães ferozes da ditadura à espreita da legítima inquietude da civilidade cidadã.

Diferentemente do que circulou nos dias que se seguiram à sua repentina eternização (e corretamente registrado pelo Correio de Corumbá), em meio a uma injusta e perversa invisibilidade por décadas, o Professor Nivaldo foi eleito pelo PMDB (sucedâneo do MDB histórico) no primeiro ano da Nova República prefeito de sua amada Ladário, em novembro de 1985, quando em Corumbá era eleito, também pelo PMDB, o Doutor Hugo Silva da Costa -- dois dirigentes municipais que fizeram história, cada qual com suas convicções, não só por terem sido os primeiros a serem eleitos pelo voto direto, depois de vinte anos de cerceamento, em nome de um instituto chamado ‘Segurança Nacional’, mas pela retidão e compromisso com as liberdades democráticas.

A última eleição municipal anterior ao pleito pelo sufrágio popular ocorrera em 1966, mas sob severas restrições, pois, com a cassação política dos adversários e a edição do Ato Institucional nº 2, os partidos até então existentes no Brasil (PTB, PSD, UDN, PSP, PDC etc) haviam sido extintos e criados por ato do então chefe do Executivo, sob a égide de um regime de exceção, a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e o MDB, que na região tinha como líderes Cecílio Gaeta e Rômulo do Amaral, cuja virtual eleição a prefeito de Corumbá fora garfada por meio de um flagrante ato lesivo à vontade popular, quando uma seção eleitoral da área rural foi fraudada depois de uma inusitada, senão curiosa (por desarranjo intestinal), retirada de combate dos fiscais emedebistas da urna, em que ‘sumiram’ os votos ao candidato do MDB, e perdeu a eleição por ínfima diferença de votos, conforme ação judicial peticionada por Amaral junto ao TRE/MT, ganha dias antes do fim do período administrativo de seu oponente e, sob censura, a imprensa sequer repercutiu o fato.

Esse importante registro histórico foi feito, com base em farta documentação da Justiça Eleitoral e do acervo de A Luta Mato-Grossense, pelo Professor Valmir Batista Corrêa em artigo intitulado “Um caso de corrupção eleitoral em Corumbá”, no Jornal da Cidade (6 set. 2015). Embora cosmopolita e celeiro de iluminados expoentes das artes, da cultura e da política, a nossa região desde tempos pretéritos está exposta à voragem de falsos ‘messias’, muitos dos quais alardeando seu amor suspeito, ‘desde criancinha’, pelo povo do Pantanal ou por um dos torrões pantaneiros. E, a bem da verdade, essa sina se acentuou depois da divisão de Mato Grosso uno.

O próprio Professor Nivaldo Ferreira da Silva também foi vítima dessa injustiça. Durante décadas, mesmo depois de ter realizado uma administração benfazeja e pródiga, amargou um deliberado ostracismo por conta da deslealdade de muitos que se beneficiaram de sua trajetória política, mas preferiram se deixar levar pelo canto das sereias. No entanto, ele não se deixou levar pela mágoa ou qualquer sentimento menor, tendo-se dedicado de corpo e alma ao sagrado ofício de Professor, que desempenhou com honradez e talento até o último dia de trabalho. O querido Professor João de Souza Alvarez, com quem, por alguns anos, conviveu na Escola Leme do Prado, confidenciara-me meses atrás sobre a cordura e companheirismo desse grande ser humano.

Durante a pandemia de covid-19, num breve encontro com o querido Psicólogo Juvenal Ávila de Oliveira, lembrávamos do período em que o Professor Nivaldo era prefeito de Ladário e de seu empenho pelo assentamento, em condições dignas, das famílias que ocupavam a área daquilo que consumira vultuosos recursos públicos para a construção do famigerado Pôlder de Ladário para o cultivo de arroz irrigado e que ficou então conhecida por Codrasa (sigla da empresa que deveria ter executado o milionário projeto inacabado, Companhia de Dragagem S/A). Graças à luta da incansável e saudosa querida Julinha do PT, a imortal Júlia González, e à gestão do Professor José Antônio Assad e Faria no governo da Presidenta Dilma Rousseff, a Codrasa hoje tem um nome e um destino à altura, Área de Proteção Ambiental, ou APA, Baía Negra.

Em meu derradeiro e providencial encontro com o Professor Nivaldo, há pouco mais de três meses, no entorno do Sexto Distrito Naval de Ladário, ao acompanhar meu Amigo-Irmão Luiz Taques à Pérola do Pantanal, pude constatar a firmeza de caráter e consciência tranquila do Professor Nivaldo Ferreira da Silva, sempre focado no presente e de bem com a Vida. Contara-me da alegria de sua Companheira de implantar uma conveniência nas imediações do campus do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), onde ficamos de nos voltar a ver, mas a Vida, imponderável como a História, se encarregou de postergar indefinidamente esse reencontro.

Que a Cidadania ladarense, oportuna e meritoriamente, denomine algum logradouro público central com o nome do honrado Professor Nivaldo Ferreira da Silva, de modo a perenizar o inestimável legado material e imaterial desse grande ladarense, incansável combatente e exemplar democrata que seus contemporâneos, lamentável e injustamente, preteriram, a despeito de seus incontáveis e eloquentes atos de lealdade e honradez. Sou grato, muito grato à Vida, por ter tido a honra e o privilégio de conhecê-lo pessoalmente.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 15 de agosto de 2023

ATÉ SEMPRE, MARCOS BOAVENTURA!

Até sempre, Marcos Boaventura!

Marcos Boaventura não era apenas fotógrafo talentoso, mas poeta da imagem: tinha a sensibilidade de captar a alma das pessoas e o dom de estar presente para registrar a história no momento em que ela acontecia, tomava conta da passarela da Vida.

Pela consternada mensagem do Professor Erisvaldo Ajala tomei conhecimento da súbita eternização do querido Amigo Marcos Boaventura, encontrado inerte pela Filha por volta do meio dia desta terça-feira, 15 de agosto, mesmo dia da eternização da diva brasileira da interpretação audiovisual Léa Garcia, ex-Companheira do igualmente grande Abdias Nascimento, em Gramado (RS), onde acontece a 51ª edição do Festival de Cinema em que ela receberia pessoalmente uma homenagem em Vida.

Marcos Boaventura, mais que fotógrafo de raro talento, era o poeta da imagem. Tinha o dom de estar no local e no momento preciso para registrar, com sensibilidade peculiar, a hora em que a história acontecia, tomava conta da passarela da Vida. Ele não apenas fazia retratos, mas da maneira mais explícita e eloquente fazia seu testemunho ocular da Vida, da própria História.

Como bem disse o Amigo-Irmão Arturo Castedo Ardaya, tratava-se de um ser humano de rara sensibilidade e de atitude precisa, em tudo, o tempo todo. Só que, no momento em que se eternizou, não havia ninguém por perto, discreto como foi em toda a sua generosa existência.

A saúde de Marcos Boaventura se fragilizou muito depois de ter perdido a sua Companheira de Vida, depois de lutar por uns três meses num CTI de hospital da capital vitimada por um acidente vascular cerebral. Tentou, por meio de seu sagrado ofício, superar a solidão e procurar manter-se conectado à Vida prosseguindo sua labuta, mas a aposentadoria veio a dificultar essa providência.

Tive a honra de conhecer esse querido Amigo quando ele, adolescente, começou o ofício de fotógrafo profissional ao lado de seu Primo Edson, um dos Filhos do querido e saudoso Seu Waldemar, proprietário da Mercearia Primeiro de Maio, situada na esquina das ruas Cabral e Sete de Setembro, onde seus cinco Irmãos também ajudavam os Pais ao tempo em que estudavam.

Reencontrei Marcos Boaventura já maduro, casado e com a Família praticamente formada em 2009, quando ele estava lotado na Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura de Corumbá, gestão do saudoso Prefeito Ruiter Cunha de Oliveira. Ao lado de um Jornalista ele estava fazendo a cobertura de um evento de que participávamos, e ao me aproximar dele pude reconhecê-lo.

Desde então, encontrávamos periodicamente, quando trocávamos ideia sobre alguns projetos, ora seus, ora nossos. Generoso, aceitara de bom grado participar de um projeto editorial de que o também querido e saudoso Augusto Alexandrino dos Santos (Malah), mas nosso sócio capitalista acabou enveredando por outros projetos e posteriormente, para tristeza nossa, caminhos tortuosos.

Aliás, sobre essa experiência, traumática para todos os seus participantes, conversávamos com alegria, e irreverência até, não com ressentimento ou mágoa. Essa compreensão da Vida, e de tudo que ocorre durante nossa existência nesta dimensão, era própria dele.

Ao lado da sensibilidade, a generosidade fazia parte de sua maneira de ser e de viver. Em momento algum reclamou das adversidades, dos reveses que a Vida aprontou com ele e os seus. Mais que resignado, era a personificação de um incansável resistente, resiliente e humilde. Verdadeiro Cristão, desses com letra maiúscula.

Parte da infância, Marcos e seus Primos, como Edson, congregavam na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Antes de se decidir pelo ofício de fotógrafo, ele e o Primo faziam divulgação dos produtos Superbom, como geleia real. Desde cedo ele demonstrou responsabilidade e dedicação em todos os desafios, todas as labutas, com dignidade e determinação.

A precoce eternização desse grande ser humano deixa uma lacuna, um vazio irreparável, e, como forma de demonstrar nossa gratidão por termos partilhado de alguns de seus momentos inesquecíveis, fazemos esta modesta, mas sincera homenagem.

Até sempre, querido Marcos Boaventura, e obrigado por ter existido!

Ahmad Schabib Hany

PATRIOTAS, 'PERO NO MUCHO'

Patriotas, pero no mucho

Nem a genialidade de García Márquez e Dias Gomes com todo o seu realismo fantástico anteveria as façanhas surreais protagonizadas pelos ‘patriotas’ “cansados de guerra”, no dizer do não menos genial Jorge Amado. Trata-se de inteligência às avessas a de delinquentes canastrões, acostumados à impunidade de outrora.

Os fatos falam por si. Não é preciso explicar. O conjunto da obra é um misto de horror e perplexidade, tamanhas as aberrações comportamentais: ávidos de ‘ouro, ouro, ouro!!!’, locupletaram-se todos. E que a ‘pátria (m)amada’ se dane!

Hitler e Mussolini, quando criaram as nefastas consignas ‘Alemanha acima de tudo, Deus acima de todos’ e ‘Deus, Pátria e Família’ -- requentadas nos últimos anos em nome de um suposto patriotismo embolorado e comprometedor (porque o nazismo e o fascismo são fora da lei pelos crimes contra a humanidade cometidos nas décadas de 1930 e 1940) --, não tinham outro propósito que o de submeter seus semelhantes aos seus delírios funestos.

Obviamente, em nome do que é mais caro para as pessoas de boa-fé, eles (tanto Hitler e Mussolini quanto Franco, Salazar, Stroessner, Médici, Banzer, Pinochet, Videla e seus sequazes da atualidade) não só atentaram contra as imensas maiorias da população como se apropriaram de bens do Estado em nome de seu bizarro ‘patriotismo’, dentro da lógica insana de que ‘o Estado sou eu’, do tempo do ‘rei sol’, Luiz XIV, pioneiro do absolutismo.

Ver o pai do ex-ajudante de ordens do canastrão que levou o Brasil ao retrocesso envolvido no mascaramento de apropriação indébita e prevaricação daquele que se dizia ‘messias’ (sic) e queria, mais que governar, liderar, igual Moisés pouco mais de três milênios atrás, rumo a uma Canaã de seus delírios insanos.

Como assim?

Aos poucos vamos nos inteirando que o inominável (agora inelegível) não passou quatro anos de um mandato desastroso para a imensa maioria da população postando fakenews e levando muita gente de boa-fé literalmente à morte (durante a pandemia, quando quis passar por cima da ciência, da medicina, para ‘sugerir’ -- na verdade, induzir, quase impor -- um tratamento fruto da mente alucinada de quem confundiu o cargo republicano de dignitário com o de um suposto ‘messias’, mas com as patas sujas de muita coisa, inclusive do sangue de indígenas. Ele passou todo esse tempo (e algum tempo depois, também) se locupletando, como a Polícia Federal revelou por meio das mensagens do pai do ex-ajudante de ordens e do advogado com nome e cara de ‘brimo’.

Agora dá para entender por que a intentona foi tão atrapalhada, tão amadora, que causou tanto estrago ao patrimônio público e nenhum resultado do que era pretendido. Tal qual o pelotão de ‘Pantaleão Patoaparte’, caricatura criada pela Disney na década de 1960, os seguidores de Sylvio Frota -- por si um fracassado, ao ser flagrado e demitido pelo general-presidente Ernesto Geisel, gostemos ou não, estadista igual a Getulio Vargas e a Juscelino Kubitschek --, como ‘patriotas’ “cansados de guerra”, nas sábias palavras do grande Jorge Amado, naufragaram em um copo de cafezinho!

Ora, movidos pela certeza da impunidade -- ‘aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei’, lembram-se? --, esses ‘filhos da pátria’ sequer se preocuparam em proteger literal e efetivamente a própria imagem, que acabou refletida numa foto das joias mal havidas, leiloadas nos Estados Unidos e depois resgatadas por meios pouco ortodoxos. Isso os geniais Gabriel García Márquez e Dias Gomes, expoentes do gênero literário chamado ‘realismo fantástico’, jamais ousaram criar, ainda que a irreverência fosse uma de suas marcas.

São grandes, imensuráveis, os estragos feitos por esses ‘patriotas’ de meia pataca, verdadeiros mentecaptos, seres perturbados que se pretendem referência quando sabem de suas fraquezas e limitações. Decorridos oito meses do fim do desgoverno do inominável (agora inelegível), o longo inventário (ou seria espólio?), em levantamento, dá pistas do estrago de Vidas e tempo perdidos. O Brasil não merecia um retrocesso abissal como esse. Claro que muitos ganharam com isso, sobretudo os rentistas que vivem do parasitismo, os banqueiros que desde os tempos da ‘redentora’ vivem dos lucros exorbitantes em franco superávit, os milicianos que expandiram seu poder de atuação sob o beneplácito do desgoverno, os garimpeiros, grileiros e madeireiros que contaminaram e mataram diversas formas de Vida, inclusive humana.

Tudo pela desfaçatez das elites caducas, tomadas pela soberba e falta total de empatia: por não quererem aceitar que humildes que sempre tiveram algum ou vários tipos de privação pudessem viajar de avião, frequentar as melhores faculdades e fazer o curso que quisessem, concorrer a carreiras profissionais ‘de elite’, desfrutar do bem-estar propiciado pelo progresso, enfim, serem cidadãos e cidadãs em sua plenitude. Porque, segundo a ‘lógica’ (?) das elites, o povo deve permanecer na mendicância, na exclusão, na senzala, jamais na ‘casa grande’, que é só para os ‘filhos da pátria’.

E tudo isso ocorre trinta anos depois da malograda tentativa de ‘collorir’ o Brasil mediante o inominável fantoche da década de 1990, aquele que não hesitou em confiscar a poupança e a esperança do Povo Brasileiro, além de desmontar o Estado da maneira mais torpe, tendo amaldiçoado seu irmão Pedro e sua cunhada Tereza por terem escancarado a sua personalidade, igualmente mefistofélica. É hora, pois, da chamada ‘classe média’ (eis que não existe ‘classe média’, ela não passa de uma ficção, pois como extrato de classe ela se presta ao papel de pelego nos choques de interesse existentes na sociedade, apenas isso) tomar consciência e deixar de ser ‘maria-vai-com-as-outras’ e se aperceber de que o que é bom para si (ela) é bom para todos, e não ‘quanto pior melhor’.

Em outras palavras, passou da hora de essa minoria barulhenta e imprevisível da população brasileira praticar a empatia, em especial as camadas avantajadas da sociedade: a economia só vai bem quando todos ganham, não apenas os banqueiros, os rentistas e os especuladores estrangeiros. Em vez desse complexo de inferioridade que tanto infelicita o Brasil, mais esta experiência golpista, detonada por meliantes travestidos de ‘Leva Jeito’, a serviço de interesses inconfessáveis (vinculados ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos, sem a devida autorização do STF, como a lei determina), aliados a falsos democratas como Aéreo Never e a políticos rapinas como Eduardo Cunha, Romero Jucá e Michel Temer e aos ‘patriotas, pero no mucho’, seguidores de Sylvio Frota e Garrastazu Médici, de tristes memórias, agora e sempre desmascarados, como os fatos mais recentes e pretéritos falam por si.

Finalmente, as pessoas conservadoras de bom-senso despertem e se organizem inteligente e salutarmente para não mais embarcar em aventuras piroctécnicas e mirabolantes como as oferecidas por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, Romero Jucá e Eduardo Cunha, o ‘brimo’ e o inominável, Aéreo Never e Augusto Heleno. Com coerência, civilidade, espírito democrático e sinceridade, defendam suas convicções de modo honesto, transparente e legítimo: sem golpistas e, sobretudo, pessoas destituídas dos mais comezinhos princípios éticos e de cidadania, como essas hordas vis que, em nome de falsos valores e muita mentira, tramaram contra os verdadeiros valores cívicos, democráticos e civilizatórios para promover farras, proxenetismo (como a cínica ‘festa da cueca’ patrocinada por ‘impolutos’ membros da ‘Leva Jeito’), genocídio (como os fora de lei ligados às milícias do inominável e seus degenerados capangas), destruição e contaminação de biomas e rios (por meio da flexibilização criminosa das normas infralegais e do desmonte das instituições de Estado, como a FUNAI, o IBAMA, o ICMBio, o CONAMA, a PRF etc) e o fatiamento não menos criminoso do patrimônio público, da soberania nacional, popular e científica.

É preciso separar o nazismo e o fascismo da direita civilizada, porque democrática e com uma história coerente com os valores que ela defende dentro do Estado de Direito. Embora não concorde com as ideias conservadoras (porque em minha concepção elas estão fora do contexto histórico em que vivemos), reconheço que elas tenham sua razão de ser no espectro ideológico de uma Democracia, pela qual nossa geração deu os seus melhores dias para conquistá-la. Ter ideias conservadoras não é ser de ultradireita, nazista, fascista ou golpista -- estas correntes extremistas são, sim, fora de lei e, como vemos agora, suas práticas são predadoras, decadentes e comprometem a essência não só da Democracia, mas do próprio processo civilizatório, que a humanidade levou milênios a construir, por meio de diferentes atores, nações, concepções de mundo e épocas.

Feito contraponto (e contrassenso!), o desvario das massas argentinas levou à projeção de um estridente fascistoide chamado Javier Milei nas eleições primárias da terra da querida Mercedes Sosa, mas, depois do desastre causado pelo inominável no Brasil e pelo seu assemelhado do Reino Unido (ainda se lembram do trapalhão chamado Boris Johnson?), o mercado reagiu imediatamente, reprovando uma saída dessa natureza. Voltaremos ao tema em oportunidade próxima, eis que serve de alerta sadio e didático para as elites soberbas, mentecaptas e irracionais. Que a estridência do inominável de lá sirva de ponto de inflexão para as ‘marias-vão-com-as-outras’ de cá...

A humanidade é diversa, generosa, civilizada e pacífica. A história está repleta de milhares de exemplos ao longo dos milênios, em todas as civilizações e nações que existiram, dessa capacidade de construir caminhos, transições, transformações rumo a sociedades mais justas, livres e generosas, rumo a um mundo mais pacífico e sustentável. Não para nós, mas para as gerações que vierem depois de nós. Desde que o mundo é mundo, esse é o sentido da Vida, a razão de ser da inteligência humana e, sobretudo, da política como ciência e arte do convívio entre os diferentes, legítimos ainda que antagônicos.

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

TARDA MAS NÃO FALHA

 Tarda mas não falha

Desde os mais remotos tempos coloniais, a impunidade dos pretensos ‘filhos da pátria’ é o verdadeiro incentivo da criminalidade encravada no DNA das elites recalcadas. Instrumentalizaram todos os artifícios para incriminar, criminalizar, o maior estadista do século XXI, mas a farsa se dissolveu como suspiro em copo d’água.

O que, afinal, move as elites caducas desta América Latina de tanto sofrimento e saques intermináveis?

Inveja? Vocação para a traição? Entreguismo compulsivo? Ganância? Parasitismo? Complexo de inferioridade? Soberba? A certeza da impunidade?

A história demonstra de modo eloquente a total falta de razoabilidade, prudência, no comportamento serviçal e doentio das e dos ‘filhos da pátria’ desde os mais remotos tempos coloniais: de origem parasitária, lumpesinato em sua essência, as elites latino-americanas têm suas patas sujas do sangue honrado e leal dos povos originários e dos povos africanos escravizados, que constituem a maioria da população.

Desde sempre, protegidos pelo manto nefasto da impunidade: obtido pela troca de favores mal havida e contaminada pela corte feudal que se enriqueceu por meio do mercantilismo, sem ter saído de seu universo medievalista, destituído de lei, ética e sensatez. Isso, aliás, facilitou a chegada dos ‘novos ricos’, chegados tempos depois, mas que reproduziram sem qualquer pudor o respeito essa ilógica relação de exploração e opressão.

O assassinato, no Equador, de um dos oito candidatos à presidência, expõe a insensatez e ausência de princípios de humanidade e democracia dessas elites. Fernando Villavicencio estava em quarto lugar nas pesquisas pré-eleitorais, liderada por Luisa González, que é correligionária do ex-presidente perseguido Rafael Correa. A eleição foi antecipada em um ano e meio pelo golpismo do banqueiro e atual ocupante da presidência, Guillermo Lazo, cuja vitória foi obtida por meios duvidosos e, incapaz de governar democraticamente, teve seu mandato encurtado, mas que teima em colocar um dos seus, a despeito da rejeição explícita do povo equatoriano.

Tal qual Peru e Bolívia, o Equador tem uma imensa maioria de origem Quéchua (povos originários de ascendência incaica) e riquezas naturais incomensuráveis. Não é país pobre, mas a distribuição de renda é vergonhosa, pois desde os tempos coloniais as elites serviçais oprimem seu povo e se entregam ao parasitismo entreguista das ex-metrópoles coloniais (atuais potências ocidentais). Confesso não esconder a vergonha de ver famílias de imigrantes árabes vivendo em condições nababescas, pirateando o futuro daquele país, tratado igual ao valoroso povo palestino pelo estado sionista de Israel.

Ao contrário da hospitalidade do povo andino e amazônico, os criminosos instalados no Equador no século XX, muitos de origem árabe e europeia, teimam em fazer do país terra de ninguém, onde a pirataria campeia solta e as quadrilhas internacionais o tornaram um paraíso de todas as formas de tráfico (armas, drogas, pessoas e científico, pois há o banco genético amazônico). Assim como o Peru, governado por uma fantoche de interesses transnacionais, o Equador paga caro por suas reservas naturais, além de importantes destinos de turismo e universidades centenárias de grande trajetória histórica.

O desmonte do Estado equatoriano e de suas políticas sociais inclusivas desenvolvidas no período de governo de Rafael Correa -- daí porque a sua correligionária hoje é a favorita nas eleições para mandato-tampão -- foi fator determinante para o aumento da miséria, da violência e das atividades criminosas ligadas ao narcotráfico transnacional. Pelo menos a partir de 1998, quando reascenderam as escaramuças de uma guerra interminável com o Peru pelo controle da região de Cenepa (ou Twinza), que se arrasta desde 1928, o aumento da corrupção das forças de segurança serve de biombo para o fortalecimento de quem é pago para dar segurança ao país andino.

Pouco mais de dez anos atrás, Rafael Correa, professor universitário com sensibilidade social, inspirado nas transformações promovidas no Brasil pelo Presidente Lula e na Bolívia por Evo Morales, fazia um governo de grande inclusão social, interrompida pelo traidor ex-vice-presidente Lenin Moreno quando eleito em sua sucessão, que por trinta moedas se vendeu para o império (não esqueçamos de que estava refugiado na embaixada equatoriana em Londres Edward Snowden, jornalista sueco que desmascarou os Estados Unidos com sua rede de espionagem atentando contra a soberania nacional de todos os países do Planeta).

Esse trágico atentado à democracia e ao convívio político compromete todo o cenário das democracias latino-americanas. A ousadia com que organizações criminosas ligadas ao parasitismo econômico e social acende o sinal de alerta de todas as nações do continente. Tanto a Argentina, cuja vice-presidenta Cristina Kirchner, meses atrás, escapou de um atentado a bala, quanto o Brasil no início deste ano, encontram-se enfrentando o pior tipo de político, porque, além de fascista, sem qualquer respeito pelo convívio democrático e social, é ligado ao crime organizado, como milicianos, garimpeiros e madeireiros.

No caso brasileiro, esse comportamento se revelou entre 2013 e 2022, tendo atingido seu mais cínico ápice em 8 de janeiro deste ano, quando da vergonhosa intentona fascista, de triste e vergonhosa memória. Mas a tradicional impunidade caiu por terra: como ensina a sabedoria popular, a justiça tarda mas não falha, independentemente da patente dos réus e dos cargos dos golpistas: um a um, estão a pagar pelos seus crimes contra o Estado de Direito, a soberania nacional, popular e tecnocientífica. Pairam até hoje dúvidas em relação a dois acidentes aéreos, que mataram respectivamente o então candidato Eduardo Campos (PSB) e o ministro Teori Zavaski, do Supremo Tribunal Federal (STF), crítico da turma da Leva Jeito, que acintosamente comemorou “We trust in Fux”.

De um lado, a ‘cançeira’ (com cedilha, como grafavam seus cartazes) das madames que, sem qualquer pudor e sensatez, saíram às ruas nas maiores metrópoles deste país de dimensões continentais para se mostrar, entre um gole e outro dos mais caros champanhes importados, ‘cançadas’, ou melhor, indignadas, com as conquistas sociais do povo brasileiro, que então podia viajar de avião, comprar o que quisesse nos mercados e portais do e-comerce, estudar os cursos universitários que quisesse nas universidades que melhor lhe aprouvesse e, sobretudo, a Lei das Empregadas Domésticas, que sepultou de vez a senzala no cotidiano da residência daquelas madames que não saem das rodinhas da casa grande mas que se ‘esquecem’ de que todo e qualquer trabalhador ou trabalhadora brasileira tem seus direitos assegurados em lei.

De outro, os viúvos e órfãos da (mal)ditadura, que, com implantação da Comissão da Verdade, por ato do governo da Presidenta Dilma Rousseff, viram seus ‘heróis’ de meia pataca serem desmascarados por atos de tortura, de lesa-humanidade, uma série de atos e atentados sistemáticos contra a Vida e os valores civilizatórios construídos ao longo de milênios pelas sociedades humanas. Feito pavio de pólvora, pronto para explodir, espectro do obscurantismo que ceifou Vidas, hoje estão associados a milicianos que tomaram de assalto os moradores das periferias das metrópoles (e, por tabela, garimpeiros, traficantes de drogas, armas e pessoas, matadores de aluguel, madeireiros, grileiros e similares), ao lado de ‘cristãos’ sionistas que, em vez de pôr em prática o ensinamento de Jesus Cristo, disseminam a intolerância, a mentira e o ódio com o maior cinismo por meio de milícias digitais.

Não era preciso ter passado pelo que passamos: retrocessos abissais nas políticas públicas construídas ao longo de décadas, desmonte do Estado, ‘empoderamento’ das milícias e dos falsos patriotas, fardados ou não, endividamento bilionário para saciar o apetite das corporações financeiras e parasitárias mundo afora. Todos perdemos com essas aventuras. Como hoje, quando é velado um candidato a presidente do Equador, todos os democratas do mundo perdem muito, inclusive a sua razão de ser.

Ao contrário da ‘lógica’ perversa dos cretinos que tomaram de assalto os destinos das nações latino-americanas até há pouco tempo, de que “aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei”, a Justiça tarda, mas não falha.

Ahmad Schabib Hany

domingo, 6 de agosto de 2023

SÉCULOS DE SUPREMACIA GENOCIDA

Séculos de supremacia genocida

O ‘ocidente’ se livrou da fome, da miséria, da ignorância e da imundície graças à generosidade dos povos submetidos a seu jugo de intolerância, truculência e saque. Mais de 600 anos depois, as atuais potências se fingem de ‘donas’ dos valores civilizatórios e seus líderes posam de paladinos do progresso e da civilização. Mas com que moral?

São séculos de supremacia escravista, genocida e saqueadora. E ainda têm o cinismo de posar de detentores dos valores civilizatórios, construídos ao longo de milênios por toda a humanidade, por diversos povos, em diferentes regiões do Planeta.

O processo civilizatório não tem senhores nem lacaios. Não esqueçamos que os primeiros passos foram dados simultaneamente na África, América, Ásia, Oceania e Europa, sem qualquer hierarquia. Diferentemente da versão eurocêntrica que dá um atributo irreal aos brancos de olhos azuis como que fossem os ‘pais’ da civilização, tendo se apropriado até do legado e da imagem de Jesus Cristo -- pintado louro de olhos azuis quando, nascido na Terra Santa, a Palestina milenar, sua tez morena, tanto que os sumos sacerdotes saduceus Anás e Caifás denunciaram Jesus ao representante do Império Romano na Palestina, Pôncio Pilatos, o que o levou à condenação pelas leis romanas e o apoio dos seguidores desses sacerdotes judeus, que o consideraram ‘falso Messias’.

Depois da perseguição aos cristãos por três séculos, o Império Romano, no tempo de Constantino, se converteu ao cristianismo e adotou como oficial a religião que antes reprimia. Foi a solução encontrada para manter a unidade do império, ameaçado pelas divisões internas. Passaram-se mais dois séculos, mas a decadência do Império Romano se deu com a vitória das rebeliões germânicas, em conflito com corruptos generais romanos, que em troca de títulos nobiliários e territórios sob seu mando abusavam de seu poder. É quando o feudalismo prosperou numa Europa obscurantista, esfomeada, miserável e suja.

Decorridos alguns séculos, a estratégia dos reinos medievais, abusivos e corruptos, foi se mancomunar com o clero corrompido pelo poder e, com a venda de indulgências e outras tramoias, e recorrer às guerras fraticidas para manter uma unidade real em torno de uma fé cega e um patriotismo que se resumia à lealdade ao rei, que com a cúpula clerical, funcionava como elemento aglutinador de cada reino. Assim, de guerra em guerra e de disputa em disputa entre pretendentes na sucessão em cada reino, a Europa viveu a Idade Média em meio ao medo e ao fanatismo religioso. Terreno ideal para a promoção das Cruzadas, mais de doze, dependendo do critério de cada historiador.

Em nome da ‘guerra santa’ desencadeou-se uma série de campanhas contra os árabes que se espalhava pelo norte da África, oeste da Ásia, leste e sul da Europa e, apenas para refletir, se caracterizaram pela tolerância religiosa e cultural (tanto que em quase 800 anos na porção hispânica da Península Ibérica, desenvolveram o que hoje é Granada, Sevilha, Córdoba e Andaluzia, e 600 anos no centro-sul das terras lusitanas, como Estremadura, Baixo Alentejo, Algarve e sul do Douro, não impuseram às nações castelhana e lusitana a religião, a língua nem a cultura árabe), diferente do período em que os turcos otomanos, europeus como os germânicos e celtas, impuseram um regime tirânico, muito parecido ao regime colonial ocidental, seja castelhano, lusitano, inglês, holandês, belga ou francês, muitos dos quais recorreram à Inquisição para perseguir muçulmanos e judeus, até então protegidos pelos árabes em todos os territórios em que estes eram hegemônicos.

Desde o início da hegemonia ocidental, simplesmente mais de75% da população humana vivem literalmente de pires na mão, a pedir perdão por existir, senão a pedir ‘esmola’ aos ‘donos do mundo’. Não fosse pouca a tragédia humana promovida nos tempos do Império Romano, seus sucessores ocidentais, a partir das Cruzadas, não só reproduziram a cultura de opressão e saque como foram autores do aperfeiçoamento de todas as técnicas de dominação, exploração, opressão e espoliação da maioria da humanidade.

Desde que o ‘ocidente’ -- a porção europeia (e sua área de influência) que a partir das Cruzadas voltou à hegemonia que o antigo Império Romano detinha e a expandiu por meio do mercantilismo, da colonização dos continentes africano, asiático, americano e da Oceania, mediante genocídio, etnocídio e escravização de povos africanos e originários por séculos a fio -- se autoproclamou porta-voz dos valores civilizatórios que jamais -- jamais! -- fez por merecer, todos os povos da África, Ásia, América, Oceania e boa parte da Europa vivem a reboque das decisões arbitrárias e excludentes da OTAN e União Europeia.

Para não incorrermos em algum tipo de ‘eurofobia’, fazemos questão de recorrer aos mais evidentes processos de afirmação civilizatória da Europa em plena Idade Média. Pois, enquanto os celtas, germânicos e bretões se digladiavam em intermináveis guerras fraticidas, ou melhor, suicidas por anos a fio (algumas chegaram a vinte anos, cem anos, como eles mesmos registraram em seus manuscritos), a Península Ibéria se desenvolvia à luz do legado árabe (‘mouro’), livre de intolerância religiosa e do supremacismo cultural. Ou teria sido mero acaso o fato de tanto lusitanos quanto castelhanos, depois da expulsão dos ‘mouros’, serem a vanguarda nas chamadas ‘grandes navegações’, que precederam ao mercantilismo e à colonização em todo o chamado ‘novo mundo’ -- América e Oceania, sobretudo, além da subjugação de parte da África e da Ásia?

Além de terem contribuído com o legado de conhecimento milenar próprio de povos de uma riqueza cultural generosa e diversa (tanto que seus líderes receberam seus invasores de braços abertos acreditando serem de boa índole, a exemplo do encontro do amistoso imperador asteca Montezuma com o conquistador Hernán Cortez, ou a emboscada de Francisco Pizarro contra o imperador inca Atahualpa em resposta à recepção amigável do Sapa Inca do Tahuantinsuyu, em seu próprio território), ouro e prata, milho e batata, carnes e especiarias de várias procedências permitiram saciar a fome e curar as doenças, incuráveis até então, dos europeus. Não foi diferente o ocorrido no cobiçado território africano, nas terras ambicionadas que mais tarde se chamariam Brasil ou no território colonizado pelas metrópoles ocidentais na Oceania e na Ásia.

O pretexto usado pelos ‘civilizados’ para justificar esses crimes hediondos era que, por serem ‘pagãos’, tais povos ‘não tinham alma’ (sic), e, portanto, poderiam ser mortos, explorados, escravizados e oprimidos por não serem ‘cristãos’. Nada, aliás, diferente do que hoje acontece, quando essas novas seitas, ditas ‘cristãs’ mas são sionistas, promovem exploração, morte e espoliação (além da escravidão) pelo mundo todo. O que ocorreu no Brasil por meio do inominável (e agora inelegível) é parte de um conjunto de ações políticas planejadas pelos ‘donos do mundo’ pelo menos há vinte anos.

Quando Ronald Reagan e Margareth Thatcher pactuaram o Consenso de Washington, o fim da guerra fria (com a dissolução da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, obviamente) e o mundo unipolar travestido de ‘globalização’ havia a presunção de que o processo de submissão aos ‘donos do mundo’ ocorreria sem resistências, seria ‘indolor’. Não foi. Tanto na América Latina, como na África, Ásia, Oceania e parte da Europa houve um processo de rebeldia histórica e emancipação que impediu qualquer tentativa de submeter o mundo ao totalitarismo globalitário, dando origem às reuniões anuais do Fórum Social Mundial, em que a sociedade civil e, sobretudo, os povos originários passam a fazer o protagonismo transformador, dando vez e voz aos proletários do Planeta.

Foi nesse processo emancipador que governos populares com o mesmo perfil do presidente Lula se afirmaram na maioria de países latino-americano e cuja repercussão se projetou em outros continentes, inclusive no europeu. Isso desagradou tanto o establishment que, desde 2006, foram criadas estratégias de ‘golpes brandos’ no Haiti contra Jean-Bertrand Aristide, em Honduras contra Manuel Zelaya, no Paraguai contra Fernando Lugo, no Brasil contra Dilma Rousseff (e a farsa lavajatista contra Lula), no Equador contra Rafael Correa, na Bolívia contra Evo Morales e no Peru contra Pedro Castillo, além das tramas contra a Argentina de Cristina Kirchner, Uruguai de Pepe Mujica, Venezuela de Nicolás Maduro e Nicarágua de Daniel Ortega.

A onda nazifascista espalhada em todos os continentes, aliadas a seitas ‘cristãs’ sionistas, foram preparadas, desde a década de 1990, pelos estrategistas ‘duros’ do establishment ocidental em parceria com o serviço secreto israelense, dentro, aliás, da mesma estratégia dos grupos extremistas plantados no Oriente Médio, que em substituição às lideranças anti-imperialistas de esquerda, estimularam o surgimento de organizações religiosas islâmicas fundamentalistas (como ‘Mujahidin’, ‘Al-Qaeda’, ‘Estado Islâmico’ e congêneres), todos com um pé no Pentágono e outro no Mossad, a espionagem sionista.

É bem verdade que, a partir de fins do século XIX, uma corrente pretensamente liberal da História abriu caminho para a hoje hegemônica linha, chamada social, e que descambou para uma espécie de ‘micro história’, ou história fragmentada, em que curiosamente, não fatos, mas narrativas sobre hipóteses ou ‘interpretações’ do que teria sido a ‘verdadeira’ Idade Média, em que aspectos descontextualizados do obscurantismo e da opressão feudal mostram um cotidiano de uma inocência digna dos contos de fadas. Uma de minhas Irmãs, irreverentemente, chama de história das futilidades ou das calcinhas da princesas.

Mas os fatos falam por si mesmos. A humanidade marcha célere para um mundo multipolar em que o embate é civilização (no sentido mais amplo, sem o ranço eurocêntrico) ou barbárie. Em outras palavras, a despeito da sanha ensandecida do atual império que teima em impor riscos iminentes de uma guerra de dimensões planetárias apenas para manter sua insana hegemonia, a saída saudável para as sociedades contemporâneas (no plural, pois somos diversos) é uma nova ordem internacional, sem ‘amos’ ou ‘senhores’. Para isso precisamos construir um mundo comprometido com a cultura da paz, o desenvolvimento sustentável, o respeito à diversidade e pluralidade e, sobretudo, a responsabilidade política e social, baseada na empatia e solidariedade universal.

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

AINDA SOBRE O TRÁFICO DE PESSOAS

Ainda sobre o tráfico de pessoas

A vinda da Assistente Social Estela Scandola a Corumbá e Ladário com uma plêiade de combatentes do tráfico de pessoas, exploração sexual de crianças e adolescentes e violência contra a mulher permitiu a retomada oportuna de uma série de lutas, entre elas a do fortalecimento da rede de proteção social infanto-juvenil.

Até agora repercute em nossa consciência a profética fala introdutória da Assistente Social Estela Scandola, que ao lado da Psicóloga Tania Comerlato, da Cientista Política Andréa Cavararo (superintendente de Políticas de Direitos Humanos, da Secretaria de Direitos Humanos de MS), da Psicóloga Suzete dos Santos e da Assistente Social Renata Papa, de que precisamos mais de atitudes e menos de ‘eventismo’ no enfrentamento à maior das mazelas sociais de nosso tempo, o tráfico de pessoas.

Importantes, sim, as iniciativas interinstitucionais de sensibilização e reflexão coletiva em todo o Brasil, até porque uma série de políticas públicas essenciais foram descontinuadas criminosamente desde 2016, quando o ‘brimo’ Temer e seus aliados em atitude nada ortodoxa tomaram de assalto os destinos da nação, e, de mal a pior, deu no que deu. Foi graças ao lançamento da campanha mundial do Coração Azul, que estamos recomeçando a incansável pugna do enfrentamento ao maior crime contra a humanidade.

Chega a ser um acinte não só às Famílias -- geralmente humildes, cujas Mães e Pais ficam a acalentar a esperança de um dia voltar a ver seus queridos entes desaparecidos --, mas ao Estado Democrático de Direito e a toda a Sociedade Civil (maiúsculas, por favor!) esta aparente atitude de prevaricação reiterada de quem de direito (e dever). É o caso, sim, de Lívia Gonçalves Alves, de Larissa (por enquanto sem sobrenome) e tantas outras gurias em plena inocência e tenra idade arrancadas de seus lares com propósitos inconfessáveis.

Como seria bom que a rede de proteção jurídico-social -- sobretudo o Conselho Tutelar, o Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), a Delegacia de Proteção e Atendimento à Criança e a Promotoria da Infância e Juventude -- retomasse os trabalhos de elucidação do caso e também o de Larissa (entendendo que elucidar implica em achar as gurias ou a situação em que elas se encontram, ‘com materialidade’) para que, enfim, a Família possa ter alguma resposta depois de mais de uma década de angústia e sofrimento.

Como seria bom que nossos Jornalistas em pleno exercício desse sagrado e dignificante ofício fossem visitar a Família de Lívia para, além de dar o conforto da empatia à Mãe e demais familiares, ver como têm procurado encontrar a resposta que as autoridades até o momento não conseguiram lhes dar, ainda que decorridos longos treze anos de infindável angústia, ansiedade, desespero, sofrimento, torpor e tragédia.

Como seria bom, também, que nossos Jornalistas em pleno exercício desse sagrado e dignificante ofício fossem aos respectivos órgãos competentes para saber a quantas anda o longuíssimo e interminável processo de investigação. Não se trata de uma ‘provocação’, mas de um acompanhamento à intrincada caminhada de elucidação. Mas o tempo urge, porque se trata de uma criança desaparecida; trata-se não de uma, mas de várias Vidas; trata-se de um evidente crime hediondo, cujos agentes e seus tentáculos devem estar em plena atividade.

Como seria bom que logo saíssemos dessa inércia a que fomos submetidos pelos atos e ‘manifestos patrióticos’ artificiais promovidos entre 2013 e 2022 para retomarmos os atos cidadãos reais, em defesa dos sem voz e sem vez, como as crianças, adolescentes, jovens e mulheres vítimas dessa e de outras formas de violência. Assim, a exemplo da passeata feita em 2010 pela comunidade, reivindicando urgência na elucidação do caso. Então, as manifestações não eram convocadas pelas redes sociais, mas no corpo-a-corpo, cabendo aos organizadores a solicitação de acompanhamento pela Guarda Municipal ou Pelotão de Trânsito da Polícia Militar.

Caso que não é elucidado não é caso concluído, é caso abandonado. Isso entra para as tristes estatísticas da impunidade, e é essa impunidade a principal responsável pelo aumento vertiginoso da criminalidade. Senão vejamos o crime organizado -- seja no tráfico de armas, drogas, pessoas e até científico e tecnológico, nas milícias, nos ataques ao meio ambiente (desmatamento, contaminação de solos e águas pelo garimpo criminoso, pesca ilegal ou derrubada de árvores centenárias por madeireiros e fazendeiros ilegais) --, que faz a cooptação de servidores públicos com ou sem farda (ou o que são os milicianos que mataram Marielle Franco e seu motorista e tomaram conta do Rio de Janeiro, a maioria deles com patentes e altos cargos hierárquicos das forças de segurança?), empresários nada éticos e políticos cinicamente oportunistas.

Aos leitores mais jovens gostaria de lembrar que nos momentos de aparente maior falta de ação de quem de direito (e dever) é que a Cidadania (maiúscula) sai da de sua ‘zona de conforto’ e passa a pautar as autoridades. Foi como fizemos entre 1991 e 2016, como podem testemunhar remanescentes do Pacto pela Cidadania (Movimento Viva Corumbá), da Sociedade dos Amigos da Cultura e do Comitê de Corumbá e Ladário da Ação da Cidadania contra a Fome e pela Vida, além do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (FORUMCORLAD), e a partir de 2013 o Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa.

Foi no instigante processo de construção da Constituição Cidadã de 1988, durante a Assembleia Nacional Constituinte (entre 1987 e 1988), que a Sociedade Civil se organizou em todo o território deste país-continente e passou a protagonizar as transformações que permitiram o soerguimento de um Estado de Bem-Estar Social como este em que vivemos, e graças a isso as conquistas milimétricas são possíveis, apesar do golpismo das elites caducas que sonham com a volta do tempo da casa grande e da senzala. Não por acaso dia sim e outro sim vemos casos flagrados de trabalhadores em situação parecida à de escravidão.

E é bom que fique claro que o combate ao tráfico de pessoas tem uma poderosa rede de enfrentamento formada por cidadãos de todas as profissões, todos os ofícios e todos os credos e filosofias. A despeito das inúmeras tentativas dos dois últimos ex-presidentes -- o ‘brimo’ e o inominável (e agora inelegível) --, essa rede de enfrentamento não só resistiu como cresceu e se revigorou, ao contrário dos fascistazinhos de meia pataca que voltam à sua insignificância igual guri sujado (perdoem o neologismo), muitos deles tendo que responder a processos tão compridos quanto as capivaras de seus líderes bizarros, incompetentes e covardes. Porque ser patriota não é bravata nem ameaça: é começar a defesa do País desde os mais vulneráveis, da soberania nacional, popular e tecnológica. O que foi sistematicamente abandonado e desmontado nos últimos quatro anos.

Finalmente, quero agradecer com penhor a sensibilidade cidadã do Jornalista Alle Yunes e equipe pelo generoso destaque à consigna publicada em meu modesto texto da semana passada no Correio de Corumbá, o mais antigo jornal em circulação de Corumbá e região. Em respeito aos Jornalistas e demais trabalhadores da imprensa, para não tirar-lhes o honrado ‘pão de cada dia’, até porque tive a honra de acompanhar os primeiros passos da pioneira Associação Profissional de Jornalistas de Mato Grosso do Sul, ao lado das queridas Lúcia da Silva Santos e Margarida Marques e dos queridos Edson Moraes e Luiz Taques, entre 1980 e 1982. Por isso não preparei um texto jornalístico (os que têm que fazer texto jornalístico são os Jornalistas), embora entre 1979 e 2003 tenha tido a honra e o privilégio de estar nesse sagrado ofício, um dos principais bastiões da Democracia e do processo civilizatório, hoje em franco processo de ameaça pelos que alardeiam patriotismo, como, aliás, seus bizarros mitos já o praticavam nos anos de chumbo.

Ahmad Schabib Hany