segunda-feira, 14 de setembro de 2020

MÁRIO MÁRCIO EM SEU PRIMEIRO ANIVERSÁRIO NA ETERNIDADE

 

MÁRIO MÁRCIO EM SEU PRIMEIRO ANIVERSÁRIO NA ETERNIDADE

Neste dia 15 de setembro, semana de véspera da primavera, um Pai chora a ausência eterna de um aniversariante. Trata-se do Senhor Jorge José Katurchi, que do alto de seus quase 94 anos, chora incontidamente a dor da partida de Mário Márcio Maldonado Katurchi, sem ter podido se despedir dele.

Embora o Pai e o Filho tivessem muitas afinidades e uma personalidade muito parecida, a Vida, em seus labirintos inexplicáveis, em momento algum permitiu, no entendimento do sábio nonagenário, um momento de confidências. Foi na longa agonia da esperada recuperação de Mário Márcio primeiro em Campo Grande e depois em São Paulo que Seu Jorge foi descobrindo a alma-gêmea que sempre esteve ao seu lado.

Sobretudo depois da dolorosa partida do Filho, quando ao Pai coube a dura missão de reunir papéis disciplinadamente acondicionados e que, como um filme, permitiram rever a trajetória de Mário Márcio desde o seu retorno a Corumbá, depois de ter-se formado em uma das melhores faculdades de Economia do país.

Mais que a competência profissional, discretamente revelada em anotações minuciosas, Mário Márcio era um observador arguto da realidade, que sob o manto da irreverência habitual se permitia alertar os mais próximos. Quem dera que seus contemporâneos tivessem um lampejo dessa luz, para a felicidade do povo de sua letárgica Corumbá...

Além disso, dono de um coração generoso e gigante, nunca postergou suas iniciativas solidárias, sempre mantidas a sete chaves. Isso jamais deixou relatado. À medida que as pessoas são informadas de sua partida extemporânea, inúmeras são as revelações de uma personalidade capaz de compartilhar todo bem material.

No entanto, e Seu Jorge se entristece também por isso, guardava com o mesmo zelo as suas aflições, decepções e, sobretudo, seus problemas de saúde, próprios da maturidade que alcançara. Ainda que fosse um paciente disciplinado, não permitia que alguém se preocupasse com sua saúde, até porque ele sabia se cuidar.

Surpresa maior para um Pai zeloso como Seu Jorge é saber que seu Filho, agora ausente para toda a eternidade, não era diferente dele, até na forma de anotar tudo. Até sua preocupação com Corumbá, seu amor pela Família...

Já diz a sabedoria popular, Deus escreve certo por linhas tortas. A longa agonia vivida pelo Pai e toda a Família nos últimos dois meses, antes de sua eternização, permitiu, a despeito da angústia e do sofrimento, que Seu Jorge se preparasse para esse momento e recebesse a surpresa de ter um grande Filho, talvez maior que ele mesmo, afinal, acrescido das virtudes de Dona Anna Thereza, sua saudosa Companheira de Vida.

Em vez de lamentações públicas e cenas dramáticas, Mário Márcio deixou esta surpresa, como forma de mitigar a dor de sua partida. Um pingo de esperança e de conformação, ao se revelar ao Pai que sempre amou e com quem se espelhou naturalmente.

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

CHOVE SOBRE SANTIAGO







Filme de Helvio Soto, em produção franco-búlgara, mostra como se processou o golpe sanguinário, coordenado pela CIA e financiado pela ITT, contra o presidente constitucional do Chile, Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. "Chove sobre Santiago" era a senha da resistência para alertar a eventual deflagração de um golpe militar apoiado pelas forças conservadoras aliadas aos estadunidenses, planejadores e financiadores da quebra da ordem constitucional.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

COMITÊ POPULAR PROMOVE MESA SOBRE SAÚDE INDÍGENA E A PANDEMIA NO PANTANAL E FRONTEIRA

 COMITÊ POPULAR PROMOVE MESA SOBRE SAÚDE INDÍGENA E A PANDEMIA NO PANTANAL E FRONTEIRA

 Com a histórica participação de Sônia Guajajara, estudiosos dos povos Guató e Camba, procuradora da República, simpatizantes da saúde indígena, representantes indígenas, da SESAI, CIMI e CNBB, definem-se estratégias para a proteção das populações originárias e tradicionais do Pantanal e fronteira.

Elaboração de termo de cooperação no âmbito do Ministério Público Federal para fazer valer o enfrentamento à pandemia junto às populações indígenas do Pantanal e fronteira. Além disso, formulação de plano de ação intersetorial voltado para os povos originários e tradicionais no Pantanal e fronteira; designação de representante indígena da região de Corumbá e Ladário para a articulação nacional indígena; confecção de projeto a ser executado pelos povos originários da região. Esses são, em síntese, os resultados alcançados de imediato pela mesa de diálogo realizada nesta quarta-feira, 9 de setembro, por meio de plataforma de videoconferência.

Articulação de mais de 30 entidades, movimentos e sindicatos de Corumbá e Ladário, o Comitê Popular de Enfrentamento à Pandemia reuniu a líder indígena Sônia Guajajara, os pesquisadores dos povos Guató e Camba Ruth Henrique da Silva (UFPB) e Jorge Eremites de Oliveira (UFPEL), a procuradora da República Samara Yassine Dalloul, a ex-superintendente da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) em Mato Grosso do Sul Regina Célia de Rezende, o técnico da SESAI na região Elson Fonseca de Almeida, o assessor jurídico do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) Anderson dos Santos e o secretário-executivo do Regional Centro-Oeste 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Irmão Sílvio da Silva.

Sob a coordenação da Professora Simone Yara Benites da Silva, facilitadora do Comitê Popular e membro da Marcha Mundial de Mulheres; o apoio técnico do Professor Thiago Godoy, coordenador da Pastoral da Comunicação; e a articulação do Professor Anísio Guilherme da Fonseca, do Coletivo Indígena, e da Professora Cristiane Sant’Anna de Oliveira, do Grupo de Trabalho e Estudos Zumbi (TEZ), a reunião foi bastante produtiva. Ficou evidente a fluidez com que se realizou, sem disputas entre os participantes da mesa que, ao contrário, foram construindo coletiva e solidariamente um efetivo plano de enfrentamento à pandemia, a ser formalizado por meio de um termo de cooperação na Procuradoria da República, em Corumbá.

Ao agradecer, em nome do Comitê Popular de Enfrentamento à Pandemia, o Padre Marco Antônio Ribeiro Alves, coordenador da Pastoral da Mobilidade Humana, a todas as pessoas e instituições que se empenharam na realização do evento, como a Procuradoria da República, salientou o papel dos trabalhadores em saúde que estão na linha de frente e dos pesquisadores e suas universidades, como a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), esta por meio das Professoras Cláudia Araújo de Lima e Elisa Pinheiro de Freitas, cuja generosidade tem permitido respaldar cientificamente as ações proativas do Comitê Popular.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 25 de agosto de 2020

DONA SEBASTIANA DA SILVA E MÁRIO MÁRCIO MALDONADO KATURCHI (IN MEMORIAM)

 

Como lidar com tantas perdas nestes tempos de pandemia?

 

Em menos de uma semana, Dona Sebastiana da Silva e Mário Márcio Maldonado Katurchi se eternizaram em meio à pandemia. As famílias queridas de Anísio Guató e de Seu Jorge Katurchi perdem referências que, cada qual ao seu modo, marcaram seu tempo com sua identidade, comportamento e trajetória de Vida. E deixaram um vazio que não será preenchido ao longo de nossas existências...

 

Tempos adversos estes em que vivemos. Na mesma semana em que fomos impactados pela eternização de Dona Sebastiana da Silva, Mãe do Amigo Anísio Guilherme da Fonseca, depois de resistir a uma série de problemas de saúde ao longo dos últimos dois anos, chega-nos a notícia de que o Amigo Mário Márcio Maldonado Katurchi, Filho do igualmente querido Amigo Seu Jorge José Katurchi, depois de sobreviver à covid-19, foi ao encontro das saudosas Dona Anna Thereza, Dona Rosa Maria e Dona Amélia, por causa de sequelas irreversíveis da parada cardíaca que o mantiveram em coma por várias semanas.

 

As duas famílias Amigas vivem o luto em meio a esta pandemia. Anísio está inconsolável. Dona Sebastiana, uma verdadeira Matriarca Guató, nascida, como ele mesmo costuma dizer, à beira do Rio Taquari, e de cujo sagrado ventre trouxe ao mundo uma geração de valorosos pantaneiros, incansáveis resistentes às agressões aos povos originários, à cultura ancestral e ao bioma do Pantanal, como nunca submetido a labaredas criminosas que impunemente incendeiam a diversidade de seres vivos e de culturas tradicionais e contaminam com o veneno das queimadas o ar que respiramos. Com a firmeza da aroeira e a delicadeza das pétalas dos ipês, Dona Sebastiana viverá nos corações valentes dos descendentes dos povos canoeiros do Pantanal, a semear o lindo porvir pelo qual a Matriarca-mor, Dona Josefina Guató, deu a própria Vida.

 

Da mesma forma, Seu Jorge Katurchi, do alto de seus quase 94 anos, está desolado. Sua inabalável devoção por Nossa Senhora e Santa Terezinha foi posta à prova, tamanha a dor da inimaginável separação de Mário Márcio. Nesses mais de dois meses de agonia por notícias do Filho mais novo, sua fé se fortaleceu, trazendo para junto de si Santo Tomás de Aquino e São Francisco Xavier, além de resgatar de sua longeva memória cantigas de ninar que Dona Amélia cantava aos Filhos e Netos, algumas em espanhol, em árabe e em português, e sem esquecer-se do Hino a Corumbá, uma de suas maiores paixões, depois da Família, obviamente. Sábio, Seu Jorge sabe que Mário Márcio agora se tornou saudade e seu dever de verdadeiro Patriarca o chama para o compromisso com José Eduardo, Tereza Cristina, Zequinha, Camila e Marina.

 

Como lidar com tantas perdas nestes tempos de pandemia? O grande mestre Paulo Freire já o disse, que a vida não carece de ensaio. Afinal, não é espetáculo, e não tem marcha à ré. Corações valentes têm direito de chorar, viver o luto, para depois retomar a luta sagrada, em que o amor, e somente o amor, vence, supera adversidades e transforma horizontes nebulosos em manhãs radiantes, em promissão. Que as queridas Famílias hoje enlutadas, de Anísio Guató e de Seu Jorge Katurchi, por meio da imorredoura saudade e da inesgotável fonte do amor ao próximo, possam encontrar a resignação necessária e a esperança nas próximas gerações para, como fênix pantaneira, renascer das cinzas e da dor para celebrar a Vida.

 

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 13 de julho de 2020

DONA LIANE, SINÔNIMO DE DIGNIDADE...


Dona Liane, sinônimo de dignidade...

A disseminação virulenta do ódio e da intolerância como pano de fundo do assassinato com requintes de crueldade de uma incansável mulher que trabalhou com honradez e dignidade até as horas derradeiras de sua exemplar existência.

Por meio de um telefonema emocionado do Amigo Augusto Antelo, sogro de um parente da vítima, é que recebo a trágica notícia do cruel assassinato de Dona Liane Arruda, a incansável proprietária da Espeteria Darmanceff, há décadas referência de frango assado em Corumbá, e nos últimos anos concorrido “point” para os degustadores do bom espeto pantaneiro.

Como num filme, me reportei ao final da década de 1980, quando vivíamos ainda o caos na economia provocado pelos sabotadores do Plano Cruzado (1986). No mesmo endereço em que se encontra hoje a espeteria funcionava havia décadas o armazém Darmanceff, do ex-sogro de Dona Liane, então recém-casada com Estêvão, para onde fui comprar caixas de água mineral em garrafas pet, pois as distribuidoras de bebidas se recusavam a vender o produto, com preço controlado, ainda engarrafado nas antigas embalagens retornáveis de vidro.

Fui atendido, com a gentileza e educação que marcaram sua existência, pela jovem nora de Seu Darmanceff, a quem sempre fiz questão de chamar de senhora. Os anos passaram mas permaneceram a cordialidade e a discrição, creio que unânimes entre os que tiveram a sorte de haver encontrado uma pessoa que, sem exagero, dignifica a espécie humana, sobretudo nestes mesquinhos tempos de tanto ódio, intolerância e preconceito.

Ao retornar de Campo Grande, em um período em que trabalhei por lá, surpreendi-me quando soube da separação do casal, mas ela continuou firme no batente, cuidando dos filhos, ainda adolescentes. Pouco antes do isolamento social, fiz contato telefônico para que reservasse um frango assado e fui pegá-lo, mas por conta de um contratempo demorei um bocado. Chegando lá, ao pegar minha compra pedi desculpas, ao que ela, com a gentileza que lhe era peculiar, me respondeu que não houve incômodo, pois era a hora da faxina.

Como toda pessoa bem sucedida que lida com produção de alimentos, Dona Liane era generosa, e se demonstrava realizada com o que fazia, com amor e dedicação. Por tudo isso, não é compreensível como alguém, em sã consciência, possa ter praticado um crime cruel, torpe e injustificável. Seja latrocínio ou feminicídio, que cabe à polícia desvendar, não há palavras para definir tamanha aberração, desumanidade e sordidez.

Aliás, desde a eleição e posse daquele que se diz presidente mas não faz mais nada que tuitar o tempo todo, os índices de violência com requintes de crueldade aumentaram assustadoramente. Não só pela sensação de impunidade, mas pela apologia ao crime com que os deslumbrados que, por vias indizíveis, alçaram ao poder não para governar, mas para destruir o Estado Democrático de Direito que nossas gerações levaram mais de duas décadas para conquistar milimetricamente.

Embora não haja relação direta, é óbvio que este contexto de bizarrices anacrônicas dignas da imaginação do saudoso Dias Gomes e sua imortal Sucupira (em “O Bem-Amado”, dos idos da década de 1970) tem contribuído para o desplante de mentes obtusas e pervertidas, ávidas de sangue, entre os pretensos justiceiros, em sua maioria praticantes de um fundamentalismo religioso que em nada segue o legado de Cristo, de oferecer a outra face em vez de praticar a lei de Talião, do olho por olho, dente por dente.

Descanse em paz, Dona Liane, e que seu exemplar legado de integridade, honradez e dignidade permaneça vívido e palpitante nos corações, mentes e atitudes destas e próximas gerações, encorajando mulheres de garra a continuar as conquistas infindáveis por uma sociedade melhor, em que a mulher não só seja protagonista, mas respeitada e efetivamente protegida, material e humanamente.

Ahmad Schabib Hany