quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Jucá, Temer e Renan: governo foi formado para barrar a Lava Jato, segundo Janot

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Política

Corrupção

Formação do governo Temer visava proteger organização criminosa, diz Janot

por Redação — publicado 07/02/2017 10h46, última modificação 07/02/2017 10h47
Para PGR, nomeações de Jucá, Sarney Filho e Fabiano Silveira tinham objetivo de criar "ampla base de apoio" para conter a Lava Jato






















Jucá, Temer e Renan: governo foi formado para barrar a Lava Jato

A formação do governo de Michel Temer teve, ao menos em parte, o intuito de proteger a organização criminosa que vem sendo investigada na Operação Lava-Jato. Essa é a conclusão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em petição apresentada na noite de segunda-feira 6 ao Supremo Tribunal Federal (STF).

No documento, Janot pede a abertura de um inquérito criminal contra o ex-presidente José Sarney (PMDB), os senadores Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ex-diretor da Transpetro Sérgio Machado por possível crime de embaraço às investigações da Lava Jato.

A base do pedido de Janot são as gravações feitas por Machado com os caciques do PMDB e que foram vazadas à imprensa em maio de 2016. Nos áudios, o grupo trata do impeachment de Dilma Rousseff, discute a "solução Michel" e Jucá afirma, em meio a um diálogo sobre a preocupação com as delações premiadas de executivos de empreiteiras, que a forma de "escancar a sangria" é "mudar o governo".

No pedido entregue ao STF, Janot aborda tangencialmente o impeachment, mas afirma que indicados de Temer para o ministério tinham o intuito de aprovar "medidas de alteração do ordenamento jurídico em favor da organização criminosa".
Na página 28 da petição, Janot afirma que Jucá "explicita em uma das suas conversas com Sérgio Machado que na solução via Michel Temer haveria espaço para uma ampla negociação prévia em torno do novo governo". Na conversa, Jucá afirma que a "solução Michel" pode ser negociada "antes de resolver" colocá-la em prática.







Na sequência, Janot afirma que "pode-se inferir destes áudios que certamente fez parte dessa negociação" a nomeação de Jucá para o Ministério do Planejamento, além da nomeação do deputado Sarney Filho para o Ministério do Meio Ambiente e de Fabiano Silveira para o Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle, que substituiu a Controladoria-Geral da União.
Jucá também cita na lista "cargos já mencionados para o PSDB", mas não diz quais são. Antes, na petição, Janot cita diálogos de Romero Jucá com Sergio Machado nos quais o senador afirma que "caiu a ficha" do PSDB sobre a necessidade de embarcar no plano, e cita especificamente os senadores tucanos Aloysio Nunes Ferreira (SP), José Serra (SP) e Aécio Neves (MG).

O intento dos nominados de Temer, afirma Janot, "é conseguir construir uma ampla base de apoio político para conseguir, pelo menos, aprovar três medidas de alteração do ordenamento jurídico em favor da organização criminosa".































Essas medidas, diz Janot na petição, "seriam implementadas no bojo de um amplo acordo político — tratar-se-ia do propalado e temido 'acordão' — que envolveria o próprio Supremo Tribunal Federal, como fica explícito em intervenções tanto do senador Renan Calheiros, como do senador Romero Jucá".

Ainda de acordo com o PGR, o "acordão" tinha o objetivo de conter "os avanços da Operação Lava Jato em relação a políticos, especialmente do PMDB, do PSDB e do próprio PT, por meio de acordo com o Supremo Tribunal Federal e da aprovação de mudanças legislativas".
Jucá foi ministro de Temer por apenas 11 dias. Deixou o cargo em 23 de maio de 2016 em meio ao escândalo provocado pelo vazamento justamente dos áudios que, agora, ensejam a ação criminal de Rodrigo Janot. Hoje ele é o líder do governo Michel Temer no senado.

Fabiano Silveira durou mais tempo no cargo. Ficou até 30 de maio e caiu após a divulgação de áudios também feitos por Sérgio Machado. Na gravação, Silveira orientava investigados da Lava-Jato sobre como proceder diante das investigações do Ministério Público enquanto tinha um cargo de conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão que fiscaliza o poder Judiciário.
Sarney Filho ainda é ministro de Temer. 
A petição da PGR segue agora para o ministro Edson Fachin, que herdou a relatoria da Lava Jato após a morte de Teori Zavascki. 

Leia a íntegra da petição:

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

POR QUE ROMERO JUCÁ QUER "TRANSPARÊNCIA" NA LAVA-JATO?

NÃO É ESTRANHO, DE REPENTE, TODOS "ELES" QUEREREM FIM DO SIGILO DAS DELAÇÕES PREMIADAS? ISSO É BOM PARA AS INVESTIGAÇÕES?

É de causar, no mínimo, estranheza a repentina ladainha, bem entoada, para que o Supremo Tribunal Federal libere a íntegra das delações premiadas, a título de “transparência”, em benefício da sociedade. O discurso, bem afinado, vai de Cássio Cunha Lima, passa por Romero Jucá (a dispensar comentários) e Aécio Neves e tem continuidade com o ex-presidente do Senado, Renan Calheiros. Por que essa repentina mudança de postura?

Até pouco tempo atrás, não era esse o argumento dessas raposas, pegas agora com as patas untadas de seu próprio barro fecal.

Quando o foco da Lava-Jato era (como, a rigor, continua a ser, dentro da ótica do discípulo-mor de Pôncio Pilatos, lapidado nas instituições agora comandadas por Donald Trump) Lula e seu partido, os representantes das quadrilhas que começam a ser desmascaradas com seus esquemas anteriores a 2003 (posse do primeiro presidente de origem operária da história do Brasil, e por isso vítima explícita perseguição das famílias donas da mí(r)dia conservadora, do(a)s concurseiro(a)s ávido(a)s de seus quinze segundos de fama e dos banqueiros e rentistas ávidos do ganho fácil), usavam discurso falso-moralista para deslegitimar as conquistas palpáveis para o povo brasileiro e execrar a honradez do mais popular de todos os ex-presidentes do país nas últimas décadas.

Valdo Cruz, analista político da outrora vanguardista Filha, digo, Falha, perdão, Folha de S.Paulo, chama a atenção para este discurso “redondinho”, que nos remete aos inglórios tempos da Arena de Petrônio Portella e Golbery do Couto e Silva, fins da década de 1970. É que medíocres, “estrategistas” e cartomantes do igualmente pouco iluminado Temer são incapazes de grandes sacadas, e se limitam a requentar velhas soluções para resolver seus problemas, não os do país. Assim, sob a receptiva e bem empolgante retórica da “transparência”, representantes de quadrilhas organizadas conspiram mais uma vez contra o Estado Democrático de Direito, a Nação e a própria Lava-Jato, da qual nunca gostaram e, na verdade, apenas usaram como pretexto para um impeachment sem crime tipificado, o golpe.

Não é preciso ser Sherlock Holmes para compreender os nada honestos propósitos desses meliantes que ofendem a memória dos democratas que deram a vida para ver instalada a jovem, mas já estuprada, democracia brasileira. A liberação do conteúdo das delações premiadas prejudica as investigações para reunir provas (documentos, testemunhos e pistas) que levem para a cadeia os correligionários de Cunha e Cabral, entre outros, curiosamente do mesmo partido do capo golpista, que sem qualquer pudor está a entregar o patrimônio do povo brasileiro aos abutres da globalização, ao mesmo tempo em que destrói conquistas sociais, seja na forma de políticas públicas ou de direitos sociais duramente instituídos nas últimas décadas.

Prova disso é a obsessão com que Temer envia para o Congresso Nacional sucessivas “reformas”, ostensiva e acintosamente contrárias aos interesses da maioria da população, dentro da lógica (ou, melhor, dos interesses) do capital especulativo internacional e, pior, do crime organizado, que atua no desmonte das economias formais como a do Brasil, potência que começava a ganhar reconhecimento no planeta, dentro da política externa soberana implementada pelo chanceler Celso Amorim, que trabalhou com os presidentes Itamar, Lula e Dilma. Por que o ameb..., digo, S(f)erra foi guindado para lá? É que ele foi e continua a ser o mascate do Brasil. Tanto é verdade, que ainda antes do consumado o golpe, como senador, enviou uma série de projetos para, digamos, “flexibilizar” os mecanismos (para ele entraves) para privatizar a Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil, Correios, Caixa e subsidiárias.

E só para concluir, refém que é dos tucanos, o inquilino-fantasma do Planalto, depois de insinuar que, como oriundo do Ministério Público de São Paulo, faria uma “indicação técnica” para a vaga do finado ministro do STF, causa mais uma perplexidade em cadeia com o anúncio do nome do rábula do PCC, aquele cuja biografia mais parece uma folha corrida, para a mais alta corte do país. Sem comentários...
Ahmad Schabib Hany

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"DEUS LHE PAGUE..." (Chico Buarque, "Construção")

“DEUS LHE PAGUE...” (Chico Buarque, “Construção”)

PARA GISA, GABRIELA, RICHAM, MICHAEL E SÉRGIO

Dias atrás, quando escrevi “Perdão, Doutor(a), por existir”, perplexo com a leviana desumanidade de médico(a)s e membros do Judiciário que mais parecem discípulos de Pôncio Pilatos – aquele nefasto governador do Império Romano na Palestina que julgou Jesus Cristo e entrou para a história pelo ignóbil gesto de se lavar as mãos depois da condenação de alguém que incomodava os poderosos mas não havia cometido crime tipificado pelo código romano – diante da angústia e da dor da família de Dona Marisa Letícia num leito de hospital, jamais poderia imaginar que uma (suponho, pois não conheço) mãe e avó pudesse, igualmente, incorrer em atos tão maledicentes e condenáveis como o dos já conhecidos algozes.

Não importa o sobrenome, vou chamá-la apenas de Gisa. Deve ter mais de 50 anos. Trata-se de uma pessoa medianamente informada e com um nível de escolaridade acima da média. Eis a íntegra de seu comentário, leviano e inoportuno, em postagem sobre o desabafo do Presidente Lula ao final do velório de sua Esposa numa das redes sociais: “É ridículo o que Lula fez no velório da esposa. Cada um colhe o que planta. Não podemos defender quem fez mal ao Brasil. E a lava jato não é culpada da morte dela, que já teve aneurisma. Quem sofre nos hospitais é que sofrem. Quem tem plano de saúde não se preocupa com os outros que morrem a cada minuto. Primeiro porque não tem força política pra resolver essa situação. E os políticos corruptos não estão nem aí.”

Quanta desumanidade junta! Quem pretenderá ser? Mas, vamos por partes. Pergunto-me, ela e sua família não são tão mortais como todos nós? Ainda que houvesse alguma etiqueta, protocolo a ser observado em velórios (supondo que por se tratar de ex-presidente da República), ele não pode ter o comezinho direito ao desabafo na hora em que “vai ser fechado o caixão”? Enquanto aquela pessoa que traz um nome feminino (mas tem todo o ranço do machismo inoculado nas entranhas de uma sociedade hipócrita e bizarra) se atribui o direito de agredir – e não apenas usufruir do direito de manifestar sua opinião, pelo qual, aliás, minha geração, entre outras, lutou para que ela o dispusesse –, um homem da dimensão de Lula, tomado pela dor e no fatídico instante da separação eterna, não pode ter direito de dizer o que não só pensa, como há evidências do que ele (e os melhores jornalistas e analistas políticos também) declarou.

É “ridículo”, Gisa, porque partiu da boca de um retirante nordestino que ousou não obedecer à sina da maioria de seus conterrâneos e acabar confinado à Zona Leste de São Paulo, no máximo, servindo de massa de manobra para o malufismo, quercismo, janismo, alkminismo, dorismo e outros ismos? Quando passou a ser a encarnação do (chamado por eles, com maldade) lulopetismo, aí é banditismo, “organização criminosa” – e põem as polícias, paparazzi, x-9, penas de aluguel, cronistas chapa-branca e interceptadores de telefonemas atrás dele (policiais só, não: fugindo à histórica praxe inquisitorial, promotores e procuradores, auditores e juízes à cata dos quinze segundos de notoriedade). Não “deixa ele” virar ministro. Mas o impopular agregado de Amaral Neto e ex-governador fluminense mais rejeitado de todos os tempos, delatado como representante no esquema de propina da corja que tomou de assalto os destinos da população daquela que já foi maior democracia do planeta, sim, ele pode, pois tem “pedigree”, tem “um pé na corte” e, acima de tudo, tem folha corrida, digo, currículo: por tudo isso pode, e cinicamente ele ganha o tal status quando o pária do Lula está velando sua “Galega”, altiva e honrada como ele!

“Cada um colhe o que planta.” Sim, Gisa, foi Marisa que pediu para Lula priorizar a Lei Maria da Penha e implantar uma rede de proteção social para as mulheres, fossem elas vítimas de violência doméstica, sexual ou para seu empoderamento. Políticas afirmativas de igualdade de gênero, social e racial, idem. E Lula plantou programas de inclusão social – dados da ONU confirmam que no país não há mais pessoas abaixo da linha da pobreza, o que os donos da mí(r)dia ideológica não divulgam –, políticas de geração de trabalho e renda e elevação do poder aquisitivo de amplas camadas sociais, criou programas habitacionais que não só deram casa como dignidade, sobretudo à mulher chefe de família, como imagino, Gisa, você deva ser. Se você fez algum curso universitário (graduação e/ou pós-graduação) deve saber que ele e Dilma são os pioneiros, em quase duzentos anos de existência do Brasil, na expansão de cursos e vagas em universidades e institutos tecnológicos espalhados por todo o território nacional com diversos tipos de bolsas (de iniciação científica, de permanência, de assistência, de desenvolvimento científico, de iniciação à docência etc). Isso além do mais ousado programa de infraestrutura já empreendido no país desde os tempos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek: os dois PACs incluem transposição do Rio São Francisco, despoluição de vários rios contaminados, expansão de redes de captação de água e de criação (sim, criação) de sistemas de esgotamento sanitário e de destinação de resíduos sólidos, construção de ferrovias e rodovias etc.

Sim, Gisa, nisso eu concordo com você: “Não podemos defender quem fez mal para o Brasil.” Esse não é o Lula. Quem parou o Brasil desde antes das eleições de 2014 foram os golpistas, que já previam tomar de quatro – serei explícito: 2002, 2006, 2010 e 2014 – e, raivosos por não terem competência para ganhar uma eleição no voto, partiram para o “quanto pior melhor”. Não sei se você e sua família têm meios de se sustentar fora do mercado de trabalho. Mas quem, como eu e a maioria da população deste país continental, depende de seu trabalho sabe que quando a crise desaba não há quem se salve. Até o especulador, o agiota e o usureiro levam a pior, pois é maior o número de inadimplentes. Mas para Serra, Aécio, Cunha, Aloysio e Roberto Freire (esse comunista arrependido que hoje é “sinistro” da Cultura, que por décadas apoiei sem saber que era um traidor), elevar o nível de renda, assegurar os programas sociais, reaquecer a economia para promover a distribuição de renda possível, ainda que na lógica capitalista, não é prioridade. A prioridade para eles é o tal “superávit primário”, eufemismo (nome bonito) da cobiça de banqueiros, dos ávidos especuladores internacionais que se apossaram do Banco Central, que não é mais do Brasil. Como a Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, Correios e até a Eletrobrás serão entregues para o capital especulador internacional (do mesmo jeito que FHC deu, a preço de banana, a Vale, Telebrás, Embratel, todas as teles estaduais e centrais elétricas, deixando-nos com os mais caros serviços e os piores deles). O (des)governo que eles instalaram depois do golpe (por isso golpistas) é a prova disso: há limite para tudo, menos para os juros (nome bonito de especulação), os mais altos do mundo pra cima de nós, cidadãos anônimos.

Ah, sim, Gisa: o mal do Lula foi a roubalheira, a rapinagem que está instituída no Brasil... Sinto ter que desapontá-la, porque as delações começam a revelar o que os golpistas temiam (e está provado na fala do ex-ministro golpista e hoje líder de Temer no Senado Romero Jucá com o ex-senador tucano e ex-dirigente da Petrobras Sérgio Machado, amplamente divulgada depois do impeachment): o propinoduto (ou esquema da propina) da Petrobrás e de outras estatais são anteriores à posse de Lula, em 2003. Há delações que dão conta de detalhes que, não sei por quê, os “jornalistas” que comandam a Central Gloebbels se recusam a tornar públicas. Bom, dizem que, também, havia uma “bolsa-mí(r)dia”, desde os tempos da (mal)dita cuja que a Dilma resolveu cortar, e que por isso ela perdeu o “apoio” que nunca, em verdade, teve. Por quê? Porque, por exemplo, na Bahia, a família Marinho é sócia da família ACM.

Mal que lhe pergunte: estudou (ou gosta de estudar) História? Sabia que os primeiros colonizadores degredados de Portugal eram, em sua grande maioria, criminosos, enviados para cá mais para cumprir condenação que como oportunidade para se reinserir à sociedade lusitana? Sabia que os colonizadores, como demonstração de gratidão pela receptiva acolhida pelos povos originários, exploraram, caçaram, expulsaram, mataram e corromperam os povos originários? Sabia que a Inglaterra virou potência naval graças ao comércio de escravos capturados na África e vendidos nas colônias da América? Sabia que o capital (e o próprio capitalismo) se desenvolveu por meio de saques de piratas e corsários, do uso e abuso da mão de obra escrava dos povos africanos e povos originários da América? Sabia que, graças Marx e Engels (e não à “dupla sertaneja” do procurador pouco letrado das terras bandeirantes), dois estudiosos bastante dedicados no século XIX, foi possível demonstrar que o salário pago a um(a) operário(a), por maior que seja, não remunera totalmente sua força de trabalho gasta para seu patrão, e que é possível mudar o modo de produção quando a classe trabalhadora tem consciência de sua vontade política? Mas, em resumo, Gina, os empreiteiros e banqueiros sempre mantiveram vários esquemas de propina, tanto assim, que quando tentaram derrubar Getúlio a UDN usou esse expediente, tal como foi usado na tentativa de deposição de Juscelino e no golpe contra João Goulart. E durante os 21 anos do regime de 1964 houve, apesar da violenta censura, vários casos de corrupção denunciados, como o Banco Halles de Investimento, da Caderneta de Poupança Delfin, Caso Coroa Brastel, Projeto Jari, Caso Ponte Rio-Niteroi, Caso Angra I, Caso BNH, Caso Transamazônica, Caso Codrasa, Caso Transpantaneira, Caso Lutfalla, Caso Caixa Econômica Federal, Caso Capemi, Caso Finor, Caso Light, Caso BrasCan, Caso Paulipetro, Caso Baumgarten, entre muitos outros.

Perseguiram Lula sem provas – apenas por (sic) “convicção” de um imaturo concurseiro galgado a um cargo maior que sua rasa mentalidade, e por representar as ideias de uma dupla (sertaneja?) “Marx & Hegel”, segundo um medíocre, ignorante e sobretudo pedante procurador de justiça de São Paulo –, aquele discípulo de Pilatos deixou vazar conversa telefônica entre Lula e Dilma sem observar o que estabelece a legislação, como se estivesse acima da lei. Alguém de direito o advertiu, repreendeu ou, ao menos, determinou que pedisse desculpas à Presidenta Dilma e ao então Ministro Lula? Não. Isso o fez repetir o abuso, quando já havia sido diagnosticada a morte cerebral. Tudo isso, é claro, contribuiu para o agravamento da saúde de Dona Marisa Letícia, que abandonou as caminhadas para não ter que ouvir desaforos e ofensas. Se eu estivesse no lugar dele, não tenha dúvida, teria processado, um por um, todo(a)s o(a)s que contribuíram de alguma forma para que se chegasse a esse desfecho trágico. Mas esse sou eu. A grandeza de Lula não permite rancor e retaliação. Ele cresce na dor, ele se fortalece na adversidade. Não por acaso (a menos que os covardes golpistas o impeçam por todas as vias), ele irá subir a rampa do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro de 2019, e nos braços do povo brasileiro, de quem é fiel representante. Então, a sua estrela Galega irá iluminá-lo, com a mesma discrição de sempre, no mandato presidencial em que se repararão os danos causados pela quadrilha que quer dilapidar o patrimônio do Brasil para entregar aos especuladores internacionais. Amém!

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

DONA MARISA LETÍCIA VIVE!

DONA MARISA LETÍCIA VIVE!
Dona Marisa Letícia –- a “galega” que cativou, 43 anos atrás, o coração solitário do retirante de alma peregrina que se tornou o maior estadista brasileiro dos últimos 50 anos –- personifica a alma guerreira da mulher brasileira. Empregada doméstica aos 9 anos e operária da indústria da alimentação a partir dos 13 anos, deu-se o gosto de trabalhar por alguns anos como servidora da educação, já que não pôde realizar o sonho de ser professora, postergado pela maternidade e viuvez precoce. Assim como Lula, que ficou viúvo de sua companheira grávida, Marisa perdeu o primeiro companheiro quando estava grávida de seu primeiro filho.
História de vida como de tanto(a)s brasileiro(a)s anônimo(a)s que produzem a riqueza de uma das sete maiores economias do mundo e cujas elites, desde os tempos coloniais, jamais se preocuparam com seu verdadeiro drama: viver sem direitos, trabalhar como escravo(a)s, morar precariamente, sonhar com os estudos, adoecer para morrer (tanto que o casal conheceu a viuvez precocemente, porque trabalhador/a ia para o INAMPS ou INPS e sua sobrevivência dependia da sorte de encontrar algum/a profissional sério/a, a bem da verdade não muito diferente de hoje).
Ao contrário da lenda cafajeste de que Lula teria pedido para amputar o dedo a fim de se aposentar, Marisa e o único presidente a eleger e reeleger sua candidata (a primeira mulher a presidir um país de machistas, inclusive mulheres machistas), desde os tempos em que se conheceram, faziam horas-extras para melhorar sua renda. Assim como o sindicalista ranheta como era caricaturado, a querida “galega” era altiva e cheia de valores para (jamais) pedir vantagens aos chefes e patrões. Nos primórdios do Partido dos Trabalhadores, foi ela que confeccionou a primeira bandeira, tudo da cabeça dela, envolvida como estava com os propósitos do primeiro (e único até hoje) partido a nascer das massas trabalhadoras do Brasil.
Por isso, o casal fez a diferença na presidência da República. Simplesmente porque foram diferentes de todos os antecessores. Seu comportamento, espontâneo, desestabilizava o embolorado protocolo, tão bizarro quanto a conduta das elites que o impuseram ainda nos tempos da corte imperial, caduca e hipócrita. O raro senso de oportunidade de Marisa impediu a protelação sistemática de conquistas sociais e econômicas já no primeiro mandato. (Por favor, não confundir senso de oportunidade com o oportunismo atávico da burguesia meliante brasileira, aquela que “faz qualquer negócio”, inclusive a barganha, a propina, a cooptação e a corrupção que começam a vir à tona por meio das delações dos corruptores, pelos esquemas anteriores a 2003, ano da posse de Lula.)
Daí a identificação do povo e o ressentimento transformado em ódio pela chamada classe mé(r)dia, que, a rigor, é uma ficção, pois não passa de um extrato de classe, eivado de pretensões e preconceitos e destituído de identidade: projeta-se, ilusoriamente, nas aspirações dos poderosos e seus agregados, popularmente definidos como aqueles que “comem farofa e arrotam caviar”. O pior é que as políticas distributivas, compensatórias e de inclusão foram as responsáveis por “inchar” a tal classe mé(r)dia, cooptada a partir da incessante campanha da mí(r)dia e dos grupos de mercenários autodenominados de “movimentos”, como o “Tchau Querida”, o “Vem Prá Rua” e o “Movimento Brasil Livre”. A propósito, onde estão agora? Nos gabinetes de Brasília, São Paulo (governo e prefeitura), Porto Alegre, Rio de Janeiro etc.
Ao reconhecer publicamente meu erro de avaliação, durante a luta contra a ditadura, e ficar ao lado de traidores como Roberto Freire, Alberto Goldman e Augusto Carvalho (é só ver de qual lado eles estão no atual contexto político), perdi a oportunidade histórica de conhecer mais de perto pessoas de uma grandeza humana ímpar. Em 1980, ao participar do Primeiro de Maio Unificado, pude ver a aguerrida atriz, depois deputada do PT, Bete Mendes em Campo Grande. Mas nunca tive a honra de estar perto de Dona Marisa Letícia, lamentavelmente. Lula mesmo, fui conhecer, lado a lado, em 1998, em Corumbá, quando o saudoso Bispo Diocesano Dom José Alves da Costa me deu a honra de acompanhá-lo a um encontro de quase duas horas, em sua residência. Ele aceitara o convite por ser coordenador-geral do Pacto Pela Cidadania (o Movimento Viva Corumbá), e graças à sua gentil atenção, fui a única testemunha do encontro, com a obrigação de participar da conversa, de alto nível.
E, confesso, foi ao conhecê-lo pessoalmente que me convenci de que ele é o melhor representante do sacrificado povo brasileiro. Em todos os sentidos: na sinceridade, fluência e espontaneidade (quando entregamos um documento protocolar do Pacto Pela Cidadania, Lula com a desenvoltura de sindicalista que lhe é peculiar esqueceu-se de que era o candidato à presidência da República e nos orientou como encaminhar tais reivindicações junto às autoridades constituídas, com a maior sinceridade: “Devem entregar este mesmo documento a todos os candidatos que vierem à região, e sobretudo àqueles que disputam o governo do estado, e neste caso, o Zeca tem chances reais de ser o futuro governador.”). E, assim como meu Amigo octogenário que antes fora arenista, eu também acabei virando um admirador do Lula e de Dona Marisa Letícia, por tudo o que fizeram, e só não puderam fazer mais porque tinham que ceder à chantagem dos “éticos” cínicos que tomaram de assalto os destinos daquela que um dia foi a maior democracia do planeta.
Como dizem, #ForçaLula! #DonaMarisaLetíciaVive! Em nossa memória e em nosso coração! Em cada mulher consciente de seu papel e de seu valor humano, político e social. Em cada trabalhador(a) que produz as riquezas do país. Em cada criança cujo coração só tem espaço para o amor e a esperança. Até sempre, Dona Marisa, e obrigado por existir!

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

"PERDÃO, DOUTOR(A), POR EXISTIR..."

“PERDÃO, DOUTOR(A), POR EXISTIR...”
Dia 2 de fevereiro, data da celebração de Nossa Senhora da Candelária – portanto, Dia da Padroeira de Corumbá, feriado municipal no Coração do Pantanal e da América do Sul – não é, por si, um fatídico dia, marcado pela consternante eternização de Dona Marisa Letícia, esposa do Presidente Lula, depois de ter resistido por dez dias na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Sírio-Libanês (indiscutivelmente, um dos melhores hospitais do Brasil).
Mais ainda, é dia de contrição, de penitência para a espécie humana toda: ceifaram o mais elementar dos valores humanos, construídos ao longo de milênios, que é o respeito à dignidade humana. A morte de um ser vivo – inclusive humano, mesmo que não prive de nosso convívio – costuma consternar toda e qualquer pessoa minimamente civilizada. Sobretudo, nestes tempos em que até verdadeiros facínoras se declaram cristãos, arrependidos e convertidos, repletos de testemunhos de fé e transformação. O que vimos, no entanto, em todas as redes sociais e seções de comentários da mídia brasileira foi a explícita manifestação de ressentimento e ódio contra a ex-primeira-dama brasileira e seu esposo, eleito e reeleito democraticamente, pelo voto direto e secreto, além de ter conseguido eleger a sua sucessora, com os mais elevados índices de popularidade – e, curiosamente, sem “comprar” os donos dos grandes grupos de comunicação, que nunca lhes deram trégua.
É de causar perplexidade, quando não indignação, a leviandade com que se jactam da tragédia humana. E, pior, não se trata de pessoas com baixa escolaridade. São “elementos” (como diria a caquética crônica policialesca) frequentadores dos mais requintados círculos sociais, cuja formação, via de regra, custou aos cofres públicos (pois se formaram nas melhores universidades, que são as públicas – estaduais ou federais) vultosos recursos financeiros. Que nunca foram devolvidos para a sociedade, fosse como prestação obrigatória de serviços profissionais (como na maioria dos países europeus) ou mediante quitação pecuniária, alguns anos depois, constatado o sucesso profissional.
Nem a temida morte é capaz de aplacar esse maldito (na acepção da palavra) rancor, curtido nas vísceras de detentores de diplomas universitários que juram (ou perjuram?) sobre o legado de Hipócrates? São esses que, quando estudantes, ouvem de certos professores que o bom profissional se revela quando depois de tantos anos adquire o mais caro dos modelos de automóvel; num período maior, já ostenta um belo casarão, e coroa sua brilhante carreira ao obter uma boa fazenda repleta de centenas, não, milhares de cabeças de gado.
O sábio provérbio espanhol adverte: “Lo que natura no da, Salamanca no presta.” [“Aquilo que a natureza não proporciona, a Universidade de Salamanca – ou a USP, a Sorbonne – não tem como emprestar.”]
O que esperar, enfim, dos jovens filhos de elites bizarras, que desde os primórdios coloniais ficam de cócoras (por não ser chulo; a posição não é essa) diante dos descendentes de piratas e corsários e agressivas ante os povos originários, que generosamente acolheram seus ancestrais, em sua maioria criminosos enviados como degredados no começo da colonização lusitana e castelhana, e como gratidão os condenaram à morte em vida, seja como mão de obra escrava ou relegados à condição de miseráveis, “indolentes”, “silvícolas”, “desalmados”...
Perdão, Doutor(a), por existir... Talvez fosse isso o que gostariam de ouvir, tamanha a sua soberba. Mas nem o mais poderoso milionário ou descendente de rei, sultão, emir, imperador, césar ou faraó está livre de passar por um drama desses, de perder um ente querido. Quem lhes garante não passar por uma experiência dessas a qualquer momento? Em sã consciência, desejo e rogo que não conheçam essa dor. Desejo, sim, e rogo para que, num lampejo de humildade cristã, sincera e leal, se penitenciem, façam a devida contrição, resgatem sua dignidade humana que se encontra latente, adormecida, pois ainda há tempo. Nunca é demais lembrar que para ser bom profissional é imprescindível ser ótimo cidadão, ser humano e solidário. Tudo isso não subtrai, só acrescenta e, sobretudo, faz bem para si e os seus.

Ahmad Schabib Hany

sábado, 21 de janeiro de 2017

GERALDO ESPÍNDOLA COMENTA "UM RIO, UMA GUERRA", DE LUIZ TAQUES

O rio e a guerra
Por Geraldo Espíndola

Meu querido amigo:
gostei muito do seu livro
Um Rio, Uma Guerra.

Quanta memória!

Levou-me ao Forte Coimbra,
à guerra na nossa terra, e que agora faz 150 anos.

Lembrei-me do Marçal de Souza, AMERÍNDIA, lembra?
Meu coração tem uma sombra
entristecida pela grande Nação Indígena,
massacrada e espoliada injustamente.
Sem a presença deles, os índios,
nem água de rios teríamos para beber.

Parabéns pelo seu trabalho, guerreiro poeta do meu tempo.
Seus livros estão na minha cabeceira a me emocionar.
E o velho rio que passa em sua cidade natal,
a Corumbá que eu tanto amo, a me inspirar.

Saudações pantaneiras.

Geraldo Espíndola é cantor, autor de

“Vida Cigana”, entre outros grandes sucessos da MPB.

"SI SE CALLA EL CANTOR, CALLA LA VIDA..."

"SI SE CALLA EL CANTOR, CALLA LA VIDA..."

"Qué ha de ser de la Vida si el que canta no levanta su voz en las tribunas, por el que sufre, por el que no hay ninguna razón que lo condene a andar sin manta!" (Horacio Guarany, “Si se calla el cantor”)

Compositor e cantor de iluminada capacidade criativa -- e, sobretudo, imenso compromisso com a emancipação e verdadeira integração dos povos latino-americanos --, Horacio Guarany se eternizou no fatídico dia 13 de janeiro, a segunda sexta-feira do ano em que a humanidade celebra o centenário da Revolução Bolchevique. Ano também, não nos iludamos, em que a corja de meliantes que saqueiam o mundo, inclusive nossa América Latina cada vez mais rastejante, ganha um novo amo e senhor na Casa Branca (ou seria casa mal assombrada?).

Dono de uma voz grave e de uma estatura imponente, suas melodiosas e reflexivas composições ganharam o mundo e povoaram docemente os generosos sonhos, a utopia por justiça e igualdade, de mais de quatro gerações de jovens pelo mundo afora, provavelmente pela doce e eterna Mercedes Sosa. Quem não se sentiu, alguma vez, tentado a cantarolar, ao menos, o hino da liberdade intitulado "Si se calla el cantor", cujo clamor à consciência e à rebeldia nos contagia com seus versos permanentemente contemporâneos: "Si se calla el cantor, calla la Vida, porque la Vida, la Vida misma es todo un canto..."

Fins de 1974, dois meses depois da trágica eternização de meu querido Irmão Mohamed Schabib Hany, eu ouvia pela primeira vez, na terna e telúrica voz de nossa saudosa Mercedes Sosa, numa fita cassete (de áudio) trazida desde Cochabamba pelas minhas Irmãs Wadia, Zamzam e Soad, "Si se calla el cantor". Foi amor à primeira vista. Mas era, como todo amor proibido, para se guardar em segredo, escondido, pois, assim como Geraldo Vandré, Chico Buarque e Taiguara, esses compositores e intérpretes eram a razão de ser da censura que cerceou por uma ou duas gerações os horizontes da juventude amputada de nosso tempo. Sequelas que ainda teimam minar nossas esperanças e anseios por um mundo igualitário, justo, solidário e libertário.

Quando a (mal)ditadura de Rafael Videla, Emilio Massera e Orlando Agosti condenou à morte o presente e o futuro da Argentina (e, por extensão, de toda a América Latina), ao lado de Augusto Pinochet, Emílio Médici, Alfredo Stroessner e Hugo Banzer, com o abominável "Plano Condor" (eu diria "Plano Kissinger") e sua peçonhenta Operação Cone Sul, Horacio Guarany, Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanqui estavam em verdadeira peregrinação humanitária por todos os nossos países, levando a "luz e a esperança aos de embaixo" do Trópico do Equador, disseminando, no meio das trevas assassinas, o melhor que a espécie humana pode produzir, isto é, arte, amor pelo próximo, consciência de classe, solidariedade e resistência democrática, legado usufruído por todo(a)s nós!

Eraclio Catalín Rodríguez Cereijo, o eterno Horacio Guarany, não saiu de cena, não deixou sua missão. Foi somar-se, com sua inesgotável inquietude juvenil e talento intrépido, aos seus companheiros de luta e ofício na eterna lide-lira da utopia transformadora, generosa, solidária, criativa, companheira e libertária. Ao lado de eternamente grandes, como Mercedes Sosa, Jorge Cafrune, Benjo Cruz, Victor Jara, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Nicolás Guillén, Mario Benedetti, Eduardo Galeano, Pablo Neruda, Gabriel García Márquez, Vinícius de Moraes, Elis Regina, Papete, João Cabral de Mello Neto, Fernando Brant e Nara Leão, está agora a partilhar o cântico de luta e de amor da juventude desassossegada de todos os tempos com as novas gerações, os jovens de hoje e de amanhã, para que, no dizer do também eterno e terno Charlie Chaplin, "o sonho que sempre nos acalentou renasça em outros corações".

Até sempre, eterno e altivo Horacio Guarany, como o povo que homenageou com o seu emblemático nome artístico, ou melhor, nome de guerra, da boa guerra, da luta pela paz, luz, esperança: "Pueblo, escucha, únete a la lucha! / Lucha, lucha, no deja de luchar... / Pueblo unido, nunca vencido!" (“Pueblo, escucha!”)


Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

"DE MÃOS DADAS" (OU POR QUE LUÍZA RIBEIRO MERECE TOTAL SOLIDARIEDADE)

DE MÃOS DADAS

(OU POR QUE LUÍZA RIBEIRO MERECE TOTAL SOLIDARIEDADE)

A ex-vereadora Luíza Ribeiro (PPS), de Campo Grande, foi nomeada, há pouco mais de uma semana, para assessorar Roberto Freire, novo ministro da Cultura no governo golpista e antinacional de Michel Temer. No entanto, nove dias depois, Luíza preferiu pedir demissão a ter que se submeter ao constrangimento de ter que se explicar por suas posições políticas em defesa do Estado Democrático de Direito.

Em vez do maniqueísta deboche e apedrejamento – igual, aliás, ao cometido contra a Presidenta Dilma pelos seus algozes –, Luíza Ribeiro é digna de todo apoio, solidariedade total e irrestrita. Por tudo que fez antes e depois dessa malograda nomeação, sobre a qual tenho minhas considerações mas que não vem ao caso. É só lembrarmos que a ex-vereadora, por sinal coerentemente atuante e corajosa (ao contrário de muito misógino-machista que tremeu de medo quando o Puccinelli e assemelhados falaram grosso por não haver obedecido suas ordens), é agente político, e não Madre Teresa de Calcutá.

Reiterando: Luíza merece todo nosso apoio e solidariedade pelo constrangimento a que foi submetida pela maior decepção da história da esquerda brasileira (que, depois de Mikhail Gorbatchev, a maior fraude da história da esquerda mundial), Roberto Freire – que não está à direita, mas em franca decadência –, este espectro de político que simplesmente foi abduzido nos momentos mais decisivos da história nos últimos anos, e reaparece no colo da direita golpista para ocupar um cargo-recompensa sem nunca ter gerido política cultural em seu estado (Pernambuco), do qual se evadiu para a São Paulo de Alkmin, Goldman, Serra e Nicomedes, digo, Aloysio.

Luíza Ribeiro é das pioneiras na política do estado coronelista de Mato Grosso do Sul. Desde o início de sua militância, ainda adolescente e em plena ditadura, foi e é do mesmo partido, o ex-PCB, hoje PPS. Conheci-a ainda adolescente, membro da gestão “Coração de Estudante” na União Campo-grandense de Estudantes (UCE), e com a mesma contundência e convicção foi assumindo funções (e não cargos) por acatar as decisões de seu partido. Assim como Fausto Matto Grosso, Marcelo Barbosa Martins e Carmelino Rezende, o fato de ela ser “do Partidão” encontrou muito mais dificuldades de empreender uma carreira rápida na política (esse é o custo de ser socialista, ainda que de um partido que nos últimos anos tem perdido a sua identidade socialista).

A despeito dos sucessivos erros do PPS (como o próprio PT, o PDT e o PSB, que na ânsia de ganhar eleições, se deixaram descaracterizar ideologicamente nas últimas décadas), particularmente Luíza Ribeiro se revelou uma hábil e competente gestora de políticas públicas durante a primeira gestão do Governador Zeca do PT, quando ela foi secretária de Justiça e Cidadania, bastante elogiada pelo primeiro governador de esquerda da história de Mato Grosso do Sul. Disciplinada, ela somente deixou o governo, ao lado do Professor Fausto Matto Grosso, então secretário do Planejamento, e da vereadora licenciada Célia Costa, da Cultura, por uma decisão do PPS regional, de se afastar de Zeca do PT, embora em todo o Brasil, em 2002, o PPS apoiasse a eleição de Lula à presidência da República, tanto que Ciro Gomes, na época pelo PPS, foi ministro da Integração Nacional.

Execrar, ou permitir execrar Luíza Ribeiro impunemente, é consolidar o atraso, o golpismo, essa misoginia doentia, que vem crescendo, ganhando espaço (inclusive nas últimas eleições) em todos os cantos do Brasil desde que Dilma Rousseff foi golpeada com o maior acinte, como jamais visto na história. Aliás, como ato de desagravo, é preciso acolher essa aguerrida mulher para o interior da grande frente em defesa do Estado Democrático de Direito, do qual também participam outras grandes mulheres como Kátia Abreu, ex-presidente da Federação Nacional da Agricultura e ex-ministra da Agricultura de Dilma Rousseff.

O sectarismo, irmão-gêmeo da intolerância, não pode dar lugar à política de alianças em favor de um novo tempo para o povo brasileiro, a razão de ser da política, do Estado de Direito, da Democracia e, sobretudo, da inesgotável luta por uma sociedade melhor, mais justa, solidária e libertária, qualquer que seja o nome que quiserem dar a esse estágio civilizatório.

Nos sábios versos de Carlos Drummond de Andrade, em “De mãos dadas”: “Estou preso ao mundo e vejo meus companheiros. Andam taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”


Ahmad Schabib Hany

domingo, 1 de janeiro de 2017

11 frases selecionadas do livro que é a maior cacetada que Moro já levou

11 frases selecionadas do livro que é a maior cacetada que Moro já levou
Por Paulo Nogueira
Postado em 01 Jan 2017
O maior petardo contra Moro em 2016 veio na forma de um livro: O Caso Lula. É uma reunião de artigos e ensaios de advogados e juristas sobre o confronto crescente entre Moro e Lula no âmbito da Lava Jato. Alguns dos autores pertencem à equipe de defesa de Lula.
O único pecado do livro é seu linguajar. É uma coisa de advogado para advogado. Um esforço para tornar os textos mais simples — não estou dizendo superficiais — teria multiplicado consideravelmente o alcance do livro.
Um capítulo particularmente merece atenção especial. O autor é Sílvio Ferreira da Rocha, e o título “A imparcialidade do juiz”.
Rocha nos relembra sobre o atributo essencial de um juiz: não apenas ser imparcial — mas parecer imparcial. Quando isso não acontece, a sociedade não respeita a Justiça.
Selecionei onze frases deste capítulo, e compartilho-as aqui.
1) Todo juiz em relação ao qual possa haver razões legítimas para duvidar de sua imparcialidade deve abster-se de julgar o processo.
2) A imparcialidade é uma garantia processual de que o processo será justo. A imparcialidade judicial reclama a neutralidade do órgão julgador; ela significa desinteresse e neutralidade; consiste em colocar entre parênteses as considerações subjetivas do julgador. É a ausência de preconceitos.
3) A imparcialidade é o fundamento de legitimidade do poder de julgar.
4) A imparcialidade é essencial para o apropriado cumprimento dos deveres do cargo de juiz. Aplica-se não somente à decisão, mas também ao processo de tomada de decisão.
5) A imparcialidade é a qualidade fundamental requerida de um juiz e o principal atributo do judiciário. A imparcialidade deve existir tanto como uma questão de fato como uma questão de razoável percepção.
6) A percepção de imparcialidade é medida pelos padrões de um observador razoável. A percepção de que o juiz não é imparcial pode surgir de diversos modos. Por exemplo, da percepção de um conflito de interesses, do comportamento do juiz na corte, ou das associações e atividades de um juiz fora dela.
7) Basta a percepção de que um juiz não é imparcial para afastá-lo da condução do processo.
8) Qualquer juiz a cujo respeito houver razão legítima para temer uma falta de parcialidade deve retirar-se.
9) O juiz deve estar alerta para evitar comportamento que possa ser percebido como uma expressão de parcialidade ou preconceito. Fora da corte, também o juiz deve evitar deliberado uso de palavra ou conduta que poderia razoavelmente dar margem a uma percepção de falta de imparcialidade.
10) A percepção de parcialidade corrói a confiança pública, pois se um juiz parece parcial a confiança do público no judiciário se corrói.
11) Um observador razoável terá a impressão de quebra de imparcialidade ao ver um magistrado que conduz procedimento criminal ser sistematicamente homenageado por declarados desafetos dos investigados ou dos réus.

Compartilhado do Amigo Joel de Carvalho Moreira

CRISE NO MPF:"Dallagnol não se preocupa com crise, pois seu salário está garantido", diz Eugênio Aragão

CRISE NO MPF
"Dallagnol não se preocupa com crise, pois seu salário está garantido", diz Eugênio Aragão
Por Sérgio Rodas
Postado em 31 dez. 2016, 13h28
O ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão afirmou ao chefe da força-tarefa da operação “lava jato”, Deltan Dallagnol, que ele e os demais procuradores da República que atuam no caso ajudaram a jogar a economia brasileira no buraco, mas que não se preocupam com isso porque “seus empregos não correm risco”.
Para Eugênio Aragão, Deltan Dallagnol tem que "baixar a bola" e atuar com discrição.
Reprodução
Em carta aberta a Dallagnol, Aragão — que também é procurador da República — criticou a postura messiânica dele nas redes sociais. Recentemente, o membro da força-tarefa da “lava jato” chamou a atenção daqueles que “vestem a camisa do complexo de vira-lata” e disse era “possível um Brasil diferente”.
Para o ex-ministro da Justiça, quem tem complexo de vira-lata, na verdade, são os integrantes do Ministério Público Federal que atuam no caso. A seu ver, eles idolatram os EUA sem conhecer a história desse país, que foi, pelo menos, tão “banhado em sangue” quanto o Brasil.
E essa idolatria aos norte-americanos e a atitude moralista de Dallagnol e seus colegas jogou o Brasil em uma recessão que já dura três anos e acabará por dar as chaves do mercado da construção civil a empresas dos EUA, declara Aragão.
“E vocês, narcisos, se acham lindinhos por causa disso, né? Vangloriam-se de terem trazido de volta míseros dois bilhões em recursos supostamente desviados por práticas empresariais e políticas corruptas. E qual o estrago que provocaram para lograr essa casquinha? Por baixo, um prejuízo de 100 bilhões e mais de um milhão de empregos riscados do mapa. Afundaram nosso esforço de propiciar conteúdo tecnológico nacional na extração petrolífera, derreteram a recém-reconstruída indústria naval brasileira.”
De acordo o último ministro da Justiça de Dilma Rousseff, Dallagnol, “à frente de sua turma, vai entrar na história como quem contribuiu decisivamente para o atraso econômico e político que fatalmente se abaterão sobre nós”.
Porém, o chefe da força-tarefa da “lava jato” não deve estar preocupado com a situação econômica do país, avalia Aragão. Afinal, “não são os seus empregos que correm risco”, diz ele ao seu colega de MPF. E eles não têm do que reclamar, ressalta o ex-ministro. Isso porque os integrantes do órgão ganham “muito bem”, recebem auxílios alimentação e moradia no valor de quase R$ 1 mil cada um e mais um “ilegal” auxílio-moradia “tolerado pela morosidade do Judiciário que vocês tanto criticam”.
“Vivemos numa redoma de bem-estar. Por isso, talvez, à falta de consciência histórica, a ideologia de classe devora sua autocrítica. E você e sua turma não acham nada demais se milhões de famílias não conseguirem mais pagar suas contas no fim do mês, porque suas mães e seus pais ficaram desempregados e perderam a perspectiva de se reinserirem no mercado num futuro próximo”, acusa Aragão.
E mais: Eugênio Aragão diz na carta que seus colegas de MPF usaram a bandeira do “combate à corrupção” como cortina de fumaça para derrubar Dilma Rousseff e aumentar o poder dos promotores e procuradores. Na visão do ex-ministro, eles também erraram o alvo ao fixar a corrupção como o pior problema do Brasil, quando esse “troféu” é, na realidade, da desigualdade econômico-social.
Devido a isso tudo, Aragão pede que Deltan Dallagnol “baixe a bola”, pare de perseguir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de “fazer teatro com PowerPoint”. “Faça seu trabalho em silêncio, investigue quem tiver que investigar sem alarde, respeite a presunção de inocência, cumpra seu papel de fiscal da lei e não mexa nesse vespeiro da demagogia, pois você vai acabar ferroado. Aos poucos, como sempre, as máscaras caem e, ao final, se saberá quem são os que gostam do Brasil e os que apenas dele se servem para ficarem bonitos na fita! Esses, sim, costumam padecer do complexo de vira-lata!”, finaliza.
Outros ataques
Essa não é a primeira carta de Eugênio Aragão a um integrante do MPF. Em setembro, o ex-ministro da Justiça enviou missiva ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apontando que sua atuação não condiz com o que ele pregava antes de chegar ao cargo.
De acordo com Aragão, se antes ele era crítico da postura adotada pelo MPF durante a Ação Penal 470, o processo do mensalão, ele repete a fórmula de crucificar acusados na operação “lava jato”.
Posteriormente, Eugênio Aragão acusou o juiz federal Sergio Moro, responsável pelos processos da operação “lava jato”, de ser um criminoso. Em mensagem enviada ao professor alemão Markus Pohlmann, cuja universidade (de Heidelberg) recebeu o juiz para uma palestra, Aragão afirma que “Moro é um criminoso, também sob a perspectiva alemã. Ele se tornou punível quando violou sigilo funcional, para não falar em prevaricação”.
O e-mail do ex-ministro foi enviado junto com uma carta, assinada por 28 professores de Direito, História e Ciência Política, que questiona o fato de a Universidade de Heidelberg convidar Moro para falar sobre combate à corrupção. O evento ocorreu no dia 9 de dezembro, mas a carta foi enviada no dia 6. O documento elenca acusações contra o juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba.
Além de citarem que Moro determinou a ilegal condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para depor e vazou, “criminosamente”, gravações de conversas entre Lula e a então presidente Dilma Rousseff, os professores dizem que o juiz viola a Constituição, leis e a soberania nacional, entregando informações à Justiça dos Estados Unidos, “com quem dialoga frequentemente, sobre andamento de processos brasileiros, permitindo que réus brasileiros firmem acordo de colaboração com a justiça dos EUA, em detrimento do interesse das empresas nacionais brasileiras”.
Leia abaixo a íntegra da carta:
Carta aberta ao jovem colega Deltan Dallagnol
"Dennnichtsistschwerer und nichtserfordertmehrCharakter, alssich in offenemGegensatzzuseiner Zeit zubefinden und lautzusagen: Nein."
(Porque nada é mais difícil e nada exige mais caráter que se encontrar em aberta oposição a seu tempo e dizer em alto e bom som: Não!)
Kurt Tucholsky
Caro colega,
Acabo de ler por blogs de gente séria que você estaria a chamar atenção, no seu perfil de Facebook, de quem "veste a camisa do complexo de vira-lata", que seria "possível um Brasil diferente" e que a hora seria agora. Achei oportuno escrever-lhe esta carta pública, para que nossa sociedade saiba que, no Ministério Público, há quem não bata palmas para suas exibições de falta de modéstia.
Vamos falar primeiro do complexo de vira-lata. Acredito que você e sua turma sejam talvez os que menos autoridade têm para falar disso, pois seus pronunciamentos são a prova mais cabal de SEU complexo de vira-lata. Ainda me lembro daquela pitoresca comparação entre a colonização americana e a lusitana em nossas terras, atribuindo à última todos os males da baixa cultura de governação brasileira, enquanto o puritanismo lá no Norte seria a razão de seu progresso. Talvez você devesse estudar um pouco mais de história, para depreciar menos este país. E olha que quem cresceu nas "Oropas" e lá foi educado desde menino fui eu, hein... talvez por isso não falo essa barbaridade, porque tenho consciência de que aquele pedaço de terra, assim como a de seu querido irmão do Norte, foram os mais banhados de sangue humano ao longo da passagem de nossa espécie por este planeta. Não somos, os brasileiros, tão maus assim: na pior das hipóteses somos iguais, alguns somos descendentes dos algozes e a maioria somos descendentes das vítimas.
Mas essa sua teorização vulgar não diz tudo sobre SEU complexo. Você à frente de sua turma vai entrar na história como quem contribuiu decisivamente para o atraso econômico e político que fatalmente se abaterão sobre nós. E sabe por que? Porque você e sua turma são ignorantes e não conseguem enxergar que o princípio fiatiustitia et pereatmundus nunca foi aceito por sociedade sadia qualquer neste mundão de Deus. Summum jus, summainiuria, já diziam os romanos: querer impor sua concepção pessoal de justiça a ferro e fogo leva fatalmente à destruição, à comoção e à própria injustiça.
E o que vocês conseguiram de útil neste País para acharem que podem inaugurar um "outro Brasil", quiçá melhor do que aquele em que vivíamos? Vocês conseguiram agradar ao irmão do Norte, que faturará bilhões de nossa combalida economia, e conseguiram tirar as empresas nacionais do mercado global altamente competitivo da construção civil de grandes obras de infraestrutura. Tio Sam agradece. E vocês, narcisos, se acham lindinhos por causa disso, né? Vangloriam-se de terem trazido de volta míseros dois bilhões em recursos supostamente desviados por práticas empresariais e políticas corruptas. E qual o estrago que provocaram para lograr essa casquinha? Por baixo, um prejuízo de 100 bilhões e mais de um milhão de empregos riscados do mapa. Afundaram nosso esforço de propiciar conteúdo tecnológico nacional na extração petrolífera, derreteram a recém-reconstruída indústria naval brasileira.
Claro, não são seus empregos que correm risco. Ganhamos muito bem no Ministério Público, temos auxílio-alimentação de quase mil reais, auxilio-creche com valor perto disso, um ilegal auxílio-moradia tolerado pela morosidade do Judiciário que vocês tanto criticam. Temos um fantástico plano de saúde e nossos filhos podem frequentar a liga das melhores escolas do País. Não precisamos de SUS, não precisamos de Pronatec, não precisamos de cota nas universidades, não precisamos de Bolsa-Família e não precisamos de Minha Casa, Minha Vida. Vivemos numa redoma de bem-estar. Por isso, talvez, à falta de consciência histórica, a ideologia de classe devora sua autocrítica. E você e sua turma não acham nada demais se milhões de famílias não conseguirem mais pagar suas contas no fim do mês, porque suas mães e seus pais ficaram desempregados e perderam a perspectiva de se reinserirem no mercado num futuro próximo.
Mas você achou fantástico o acordo com os governos dos EEUU e da Suíça, que permitiu-lhes, na contramão da prática diplomática brasileira, se beneficiar indiretamente de um asset sharing sobre produto de corrupção de funcionários brasileiros e estrangeiros. Fecharam esse acordo sem qualquer participação da União, que é quem, em última análise, paga a conta de seu pretenso heroísmo global, e repassaram recursos nacionais sem autorização do Senado. Bonito, hein? Mas, claro, na visão umbilical corporativista de vocês, o Ministério Público pode tudo e não precisa se preocupar com esses detalhes burocráticos que só atrasam nosso salamaleque para o irmão do Norte! E depois você fala de complexo de vira-lata dos outros!
O problema da soberba, colega, é que ela cega e torna o soberbo incapaz de empatia.Mas como neste mundo vale a lei do retorno, o soberbo também não recebe empatia, pois seu semblante fica opaco, incapaz de se conectar com o outro.
A operação de entrega de ativos nacionais ao estrangeiro, além de beirar alta traição, esculhambou o Brasil como nação de respeito entre seus pares. Ficamos a anos-luz de distância da admiração que tínhamos mundo afora. Vocês atropelaram a Constituição: segundo ela, compete à presidenta da República manter relações com Estados estrangeiros, não ao musculoso Ministério Público. Daqui a pouco vocês vão querer até uma representação diplomática nas capitais do circuito Elizabeth Arden, não é?

Ainda quanto a um Brasil diferente, devo-lhes lembrar que "diferente" nem sempre é melhor e que esse servicinho de vocês foi responsável por derrubar uma presidenta constitucional honesta e colocar em seu lugar uma turba envolvida nas negociatas que vocês apregoam mídia afora. Esse é o Brasil diferente? De fato é: um Brasil que passou a desrespeitar as escolhas políticas de seus vizinhos e cultivar uma diplomacia da nulidade, pois não goza de qualquer respeito no mundo. Vocês ajudaram a sujar o nome do país. Vocês ajudaram a deteriorar a qualidade da governação, a destruição das políticas inclusivas e o desenvolvimento sustentável pela expansão de nossa infraestrutura com tecnologia própria.
E isso tudo em nome de um "combate" obsessivo à corrupção. Assunto do qual vocês parecem não entender bulhufas! Criaram, isto sim, uma cortina de fumaça sobre o verdadeiro problema deste pais, que é a profunda desigualdade social e econômica. Não é a corrupção. Esta é mero corolário da desigualdade, que produz gente que nem vocês, cheios de "self righteousness", fariseus com apretensão de serem justos e infalíveis, donos da verdade e do bem estar. Gente que pode se dar ao luxo de atropelar as leis sem consequência nenhuma. Pelo contrário, ainda são aplaudidos como justiceiros.
Com essa agenda menor da corrupção vocês ajudaram a dividir o país, entre os homens de bem e os safados, porque vocês não se limitam a julgar condutas como lhes compete, mas ousam julgar pessoas, quando estão longe de serem melhores do que elas. Vocês não têm capacidade de ver o quanto seu corporativismo é parte dessa corrupção, porque funciona sob a mesma gramática do patrimonialismo: vocês querem um naco do Estado só para chamar de seu. Ninguém os controla de verdade e vocês acham que não devem satisfação a ninguém. E tudo isso lhes propicia um ganho material incrível, a capacidade de estarem no topo da cadeia alimentar do serviço público. Vamos falar de nós, os procuradores da República, antes de querer olhar para a cauda alheia.
Por fim, só quero pontuar que a corrupção não se elimina. Ela é da natureza perversa de uma sociedade em que a competição se faz pelo fator custo-benefício, no sentindo mais xucro. A corrupção se controla. Controla-se para não tornar disfuncionais o Estado e a economia. Mas esse controle não se faz com expiação de pecados. Não se faz com discursinho falso-moralista. Não se faz com homilias em igrejas. Faz-se com reforma administrativa e reforma política, para atacar a causa do fenômeno e não sua periferia aparente. Vocês estão fazendo populismo, ao disseminarem a ideia de que há o "nós, o povo" de honestos brasileiros, dispostos a enfrentar o dragão da corrupção como um São Jorge redivivo. Você e eu sabemos que não existe isso e que não existe, com sua artificial iniciativa popular das "10 medidas", solução viável para o problema. Esta passa pela revisão dos processos decisórios e de controle na cadeia de comando administrativa e pela reestruturação de nosso sistema político calcado em partidos que não merecem esse nome. Mas isso tudo talvez seja muito complicado para você e sua turma compreenderem.
Só um conselho, colega: baixe a bola. Pare de perseguir o Lula e fazer teatro com PowerPoint. Faça seu trabalho em silêncio, investigue quem tiver que investigar sem alarde, respeite a presunção de inocência, cumpra seu papel de fiscal da lei e não mexa nesse vespeiro da demagogia, pois você vai acabar ferroado. Aos poucos, como sempre, as máscaras caem e, ao final, se saberá quem são os que gostam do Brasil e os que apenas dele se servem para ficarem bonitos na fita! Esses, sim, costumam padecer do complexo de vira-lata!
Antes da próxima homilia diante de correligionários incautos, reflita sobre a lição do Evangelho:
"Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? Ou como poderás dizer ao teu irmão: 'Deixa-me tirar o cisco do teu olho', quando tu mesmo tens uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão." (Evangelho segundo São Mateus 7, 3-5)
Um forte abraço de seu colega mais velho e com cabeça dura, que não se deixa levar por essa onda de "combate" à corrupção sem regras de engajamento e sem respeito aos costumes da guerra.

Eugênio José Guilherme de Aragão
Compartilhado do Amigo Joel de Carvalho Moreira