sexta-feira, 17 de novembro de 2017

MARLENE MOURÃO, A QUERIDA PENINHA, LANÇA NOVO LIVRO EM CORUMBÁ



A querida Amiga Marlene Terezinha Mourão, a Peninha de todos os encantos e criações, está lançando seu novo livro -- Um altar para as valorosas sandálias do Frei Mariano de Bagnaia --, nesta quinta-feira, dia 23 de novembro (Dia Municipal da Cultura, em homenagem à eterna Helô Urt), às 19h30min, no SESC Corumbá (rua Treze de Junho, 1703, centro, esquina com a Vinte e Um de Setembro, fone 3232-3130). O preço do livro é de R$15,00 (quinze reais), em razão de ter sido contemplado com recursos do FIC Pantanal (Fundo de Investimentos Culturais do Pantanal).

A obra da artista plástica, poeta e cartunista busca resgatar a memória do frade franciscano que durante a ocupação paraguaia de Corumbá assistiu crianças e famílias cujos pais haviam partido para os combates da Guerra da Tríplice Aliança. No pós-guerra, quando ele conseguiu concluir a construção da Igreja Matriz, acabou sendo vítima de uma campanha difamatória que causou sua transferência para o interior de São Paulo, onde veio a falecer depois de longa e penosa agonia decorrente de um corte na garganta. Os descendentes de seus desafetos, na década de 1950, quando Corumbá amargava o início do declínio econômico, se encarregaram de promover um segundo linchamento moral, ao difundir uma bizarra lenda de que "as sandálias do Frei Mariano teriam amaldiçoado Corumbá".

Muito discreta, a Peninha não é muito chegada a divulgação (sobretudo quando se trata de suas obras), mas graças ao igualmente querido Jornalista Luiz Taques, que nos enviou desde Londrina a notícia e a ilustração do convite, aproveito de compartilhar com Vocês. Quem estiver em Corumbá na quinta-feira, aproveite de participar do Café Literário, coordenado pela querida e incansável Marcelle de Saboya Ravanelli, competente gestora e promotora cultural do SESC Corumbá, e levar para casa o novo livro da Peninha.

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

RÉQUIEM PARA RUITER CUNHA DE OLIVEIRA



Esta véspera de Dia de Finados entra para a história de Corumbá como a data em que Ruiter Cunha de Oliveira, um dos poucos prefeitos a conquistar três mandatos pelo voto popular –- direta, secreta e democraticamente -–, teve interrompida a sua existência humana. Data em que Corumbá se enluta e que doravante terá para celebrar a memória de um de seus filhos mais queridos.

Ruiter não foi apenas o primeiro prefeito petista na história bicentenária do município mais antigo de Mato Grosso do Sul. Foi, sobretudo, o primeiro prefeito de origem popular, um “filho do povo”, no dizer embolorado dos cultuadores de pedigree: ele era filho do saudoso Oswaldo de Oliveira, o popular “Rolinha” da pequena mas concorrida Drogaria Dom Bosco –- instalada, na Frei Mariano, estrategicamente defronte à Farmácia Santa Maria, dos Irmãos Bertazzo, quase ao lado da Farmácia Santo Antônio, do saudoso Heldo Delvizio.

Ruiter não foi apenas eleito e reeleito pelo voto popular por conta da identificação com que o povo o acolhera: ele não só trazia estampada no semblante a identidade da miscigenação pantaneira, mas, sem qualquer dúvida, era a expressão da veia afrodescendente no empoderamento tão caro e custoso na história da construção da democracia étnica brasileira.

Nosso primeiro contato com Ruiter foi durante o profícuo processo de fundação do Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER), entre 2000 e 2001. Na residência do senhor Jorge José Katurchi e da agora saudosa Dona Anna Thereza, que carinhosamente acolheram a ideia, os também saudosos Padre Ernesto Sassida e o Doutor Salomão Baruki, ao lado de outros poucos Amigos, foram construindo as bases daquilo que viria a ser o CENPER. Não por acaso a proposta do Senhor Jorge, e logo apoiada pelo Doutor Salomão, de que o primeiro presidente da entidade fosse Ruiter, que reunia os atributos para encabeçar a gênese da entidade. Padre Ernesto, de pronto, assumiu com simpatia a proposta, e com a aquiescência de Ruiter, acabou por acontecer.

Nessa oportunidade, Ruiter deu provas de sua sensibilidade social, e logo explicitou o gosto pelas políticas inclusivas emanadas de dois governos de forte perfil popular: o do governador José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca, e o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Independente de qualquer simpatia ideológica, os dois primeiros mandatos de Ruiter tiveram a marca da inclusão social plena, daí por que a ineludível simpatia de que gozava junto às camadas populares em toda a região do Pantanal. Obviamente, a saudosa Helô Urt foi determinante nesse direcionamento, que exigiu sempre do gestor municipal uma convicção inarredável.

Podemos dizer que fomos testemunha do compromisso de Ruiter, já fora da administração municipal, quando, por acaso, ao lado do igualmente saudoso Professor Deusmar Espíndola, manifestou sua preocupação com alguns procedimentos administrativos de seu então aliado e sucessor, entre os quais o lamentável episódio com os bolivianos. Quando de sua candidatura para deputado estadual, ainda em seu primeiro partido, tentou ser um vaso comunicante entre as expressivas camadas populares e as instituições, já em clima de fragmentação, sob a influência dos movimentos conservadores que hoje permanecem inertes diante das comprovadas falcatruas cometidas pelos que tomaram de assalto os destinos da nação.

Nosso derradeiro encontro foi numa casual fila de banco, bem antes da deflagração da campanha eleitoral de 2016. Na oportunidade trocamos algumas ideias sobre a conjuntura nacional, e ele, sempre discreto, se manteve atento aos comentários indignados que na ocasião emitíamos. Na verdade, até então, eu não acreditara nas notícias de que sairia da agremiação que mais identidade tinha com seu proceder enquanto cidadão e dirigente político. Desde os tempos da criação do CENPER, Ruiter fazia questão de ouvir a todos com muita atenção, o que o tornou popular e simpático para os amplos setores sociais na região.

Os primeiros meses de seu terceiro mandato foram marcados por muitas dificuldades políticas, financeiras e, sobretudo, institucionais. Não temos dúvida de que a opção pela legenda com a qual se elegeu muito contribuiu para isso: partido de perfil conservador e com profundos compromissos com um governador com precários vínculos populares, as dificuldades acabaram por se ampliar. As suas entrevistas derradeiras conformam esse contexto de cortes e cancelamentos de compromissos, sobretudo do emblemático Festival América do Sul, diferentemente dos generosos tempos anteriores.

Mas, a despeito de eventuais equívocos que o tempo haverá de explicar, Ruiter passa para a história como um dos mais queridos gestores de seu tempo e da história de Corumbá. Pena que muitos de seus correligionários, atuais e anteriores, não tivessem clareza ou generosidade para admitir tal fato e, aceitando-o como realidade, transformar aquilo que hoje é adversidade em fator de superação, sobretudo das condições sociais da imensa maioria da população corumbaense.

Que este modesto réquiem para Ruiter permita uma reflexão sincera, ainda que solitária e tardia, àqueles que tiveram muito mais tempo e oportunidades de convivência com um “filho do povo” cuja razão de ser, sem dúvida, foi sua cidade, independentemente das opções por ele feitas.

Até sempre, Ruiter! Que sua Família encontre forças e fé para superar este momento doloroso, compartilhado por pessoas anônimas que sempre se identificaram com seu semblante popular.

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

CORUMBÁ E A EDÍCULA DA CALÓGERAS


Anos derradeiros do regime de 1964. Na esquina da avenida Calógeras com a rua Dom Aquino, defronte à imponente agência da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e à primeira agência do banco Itaú, em Campo Grande, havia um modesto mas histórico edifício pomposamente denominado “Corumbá”. Relativamente funcional, abrigava vários escritórios de advogados e outros profissionais liberais. Diziam, na década de 1980, ser de propriedade do advogado Salomão Francisco Amaral, um pernambucano, corumbaense por adoção, engajado às causas sociais, o que lhe custou muitas dores de cabeça no início do regime. No período mais duro, com a sua nomeação como secretário de Interior e Justiça pelo amigo e contraparente José Manuel Fontanilhas Fragelli, governador de Mato Grosso entre 1971 e 1975, fez uma próspera carreira pública, encerrada em 1998 como procurador-geral do Estado no derradeiro governo de Wilson Barbosa Martins, outra vítima da “dita cuja”.

O edifício Corumbá tem um sentido simbólico para a história política de Mato Grosso do Sul por ter sido palco de importantes reuniões pela redemocratização do Brasil, antes e depois da Anistia de 1979. Pelo menos uma de suas modestas salas abrigou importantes legendas engajadas na inimaginável construção do Estado Democrático de Direito, em tempos mais cruentos. O emblemático Movimento Mato-grossense de Anistia e Direitos Humanos, presidido inicialmente pelo saudoso advogado Ricardo Brandão, foi praticamente concebido lá, embora suas reuniões públicas fossem sediadas na imponente sede da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil, na esquina da então Cândido Mariano com a Pedro Celestino, presidida à época por ninguém menos que Wilson Barbosa Martins. Como calouro da extinta FUCMT e modesto integrante do movimento estudantil, pude conhecer personagens históricos, como o próprio Ricardo Brandão, o igualmente saudoso Plínio Barbosa Martins, os Amigos Fausto Matto Grosso, Marcelo Barbosa Martins, Carmelino de Arruda Rezende, Américo Antônio Flores Nicolatti e o agora saudoso Mário Corrêa Albernaz.

É bom que se esclareça que o ilustre advogado não tem qualquer parentesco com o ex-senador Delcídio Amaral Gómez, humilhantemente preso e cassado em pleno exercício do mandato sem a devida defesa de seus pares, ao contrário de seu colega igualmente denunciado Aécio Neves da Cunha (mais que neto de Tancredo de Almeida Neves, filho do arenista Aécio Ferreira da Cunha), objeto de uma generosa votação não só no Senado como no Supremo Tribunal Federal. Muito diferentemente que o engenheiro lobista que entrou para a história como o primeiro senador preso e destituído de seu mandato em plena vigência do Estado de Direito, o advogado Amaral se caracteriza por ser um incansável defensor do patrimônio público, como quando patrocinou a ação popular contra o enigmático leilão da Metamat, estatal mato-grossense detentora da maioria das ações da Urucum Mineração, em que a então Companhia Vale do Rio Doce saíra vencedora numa conta que não fechou: oito milhões para Mato Grosso e seis milhões para Mato Grosso do Sul (quando o total divulgado foi de dezoito milhões). Ironia da história, pelo menos quatro corumbaenses estavam em posições opostas: Fragelli, Salomão e Armando Carlos Arruda de Lacerda versus Delcídio, então ministro interino de Minas e Energia de Itamar Franco.

No entanto, uma semana depois das comemorações oficiais pelos quarenta anos da sanção da Lei Complementar nº 31, de 11 de outubro de 1977 (que dividiu Mato Grosso em dois estados), ouso fazer este desabafo para compartilhar com o(a) leitor(a) que Corumbá – não o edifício, mas o município –, trinta e oito anos depois da criação de Mato Grosso do Sul, não passa de edícula da Calógeras, isto é, de reles “puxadinho” do quadrilátero central de Campo Grande. Menos relevante que o edifício homônimo abordado no início. Explico-me: depois que o governador-tecnocrata Harry Amorim Costa, empossado em 1º de janeiro de 1979, foi destituído, em 13 de junho do mesmo ano (um dia depois da promulgação da primeira constituição do estado, por ingerência do então senador Pedro Pedrossian, ávido por mais espaço político), Corumbá e sua população não obtiveram conquistas, mas retrocessos, além de infindáveis promessas jamais realizadas – é, aliás, atribuída ao próprio Pedrossian a cínica lógica de que, para alegrar Corumbá, é só anunciar o cancelamento de alguma obra em Ladário, e assim reciprocamente.

A bem da verdade, com exceção de breves momentos de fugaz atenção durante os governos de Wilson Barbosa Martins e de José Orcírio Miranda dos Santos, Corumbá e sua população não passam de figurantes, muitas vezes inconvenientes ou folclorizadas, de uma história protagonizada quase o tempo todo por medíocres “líderes” políticos de si mesmos. Ou o que são, no frigir dos ovos, Marcelo Miranda Soares, Levy Dias, Mariza Joaquina Serrano, André Puccinelli, Nelsinho Trad, Carlos Marun, Waldemir Moka Miranda de Brito, Simone Tebet, Reinaldo Azambuja, Delcídio Amaral Gómez, Pedro Chaves dos Santos Filho e Ruben Figueiró de Oliveira. Até a comemoração dos “40 anos de Mato Grosso do Sul” – um verdadeiro erro grosseiro histórico! – patrocinada pelo governo do estado, ficou restrita a Campo Grande, numa acintosa celebração excludente, como quase tudo neste estado.

Afinal, é só recorrer às hemerotecas dos diários de circulação nacional da década de 1970 (não preciso citá-los, pois estão disponíveis na internet) para entender por que Rio de Janeiro e Guanabara foram fundidos (o termo era fusão Rio – Guanabara) e Mato Grosso dividido: suprimir três vagas de senadores e algumas vagas de deputados da oposição no Rio, além de criar três novas vagas de senador e algumas vagas de deputados da situação em Mato Grosso do Sul. A lógica perversa obedecia à necessidade de sobrevivência da Arena, o partido da ditadura, que estava prestes a perder a maioria no Senado. Não por acaso, em abril de 1977 (portanto, meses antes da divisão de Mato Grosso), o Planalto decretara o recesso do Congresso Nacional para impor uma reforma autoritária no Poder Judiciário e outra no Poder Legislativo, em que o Senado, por decreto, ganhou um terço de senadores sem votos, os chamados de senadores biônicos.

Herança maldita da ditadura, Mato Grosso do Sul, até a presente data, não representa nem atende aos interesses da maioria da população, sobretudo do Pantanal. Sem qualquer ranço bairrista, mas o reencontro de Corumbá com o porvir passa pela reunificação do Pantanal Mato-grossense, de Cáceres até Porto Murtinho. Não é para nossos dias, mas a exemplo da luta empreendida pelos divisionistas das décadas de 1930 a 1970, os, digamos, reunificadores do Pantanal deverão ir reunindo força política para fazer história, em que a redenção de Corumbá e das demais cidades pantaneiras será uma consequência política, uma conquista cidadã. Esperemos – de pés juntos! – que sem recorrer ao casuísmo de algum temerário ditador de plantão...

Schabib Hany

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Jucá, Temer e Renan: governo foi formado para barrar a Lava Jato, segundo Janot

Deu na CartaCapital!
Política

Corrupção

Formação do governo Temer visava proteger organização criminosa, diz Janot

por Redação — publicado 07/02/2017 10h46, última modificação 07/02/2017 10h47
Para PGR, nomeações de Jucá, Sarney Filho e Fabiano Silveira tinham objetivo de criar "ampla base de apoio" para conter a Lava Jato






















Jucá, Temer e Renan: governo foi formado para barrar a Lava Jato

A formação do governo de Michel Temer teve, ao menos em parte, o intuito de proteger a organização criminosa que vem sendo investigada na Operação Lava-Jato. Essa é a conclusão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em petição apresentada na noite de segunda-feira 6 ao Supremo Tribunal Federal (STF).

No documento, Janot pede a abertura de um inquérito criminal contra o ex-presidente José Sarney (PMDB), os senadores Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ex-diretor da Transpetro Sérgio Machado por possível crime de embaraço às investigações da Lava Jato.

A base do pedido de Janot são as gravações feitas por Machado com os caciques do PMDB e que foram vazadas à imprensa em maio de 2016. Nos áudios, o grupo trata do impeachment de Dilma Rousseff, discute a "solução Michel" e Jucá afirma, em meio a um diálogo sobre a preocupação com as delações premiadas de executivos de empreiteiras, que a forma de "escancar a sangria" é "mudar o governo".

No pedido entregue ao STF, Janot aborda tangencialmente o impeachment, mas afirma que indicados de Temer para o ministério tinham o intuito de aprovar "medidas de alteração do ordenamento jurídico em favor da organização criminosa".
Na página 28 da petição, Janot afirma que Jucá "explicita em uma das suas conversas com Sérgio Machado que na solução via Michel Temer haveria espaço para uma ampla negociação prévia em torno do novo governo". Na conversa, Jucá afirma que a "solução Michel" pode ser negociada "antes de resolver" colocá-la em prática.







Na sequência, Janot afirma que "pode-se inferir destes áudios que certamente fez parte dessa negociação" a nomeação de Jucá para o Ministério do Planejamento, além da nomeação do deputado Sarney Filho para o Ministério do Meio Ambiente e de Fabiano Silveira para o Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle, que substituiu a Controladoria-Geral da União.
Jucá também cita na lista "cargos já mencionados para o PSDB", mas não diz quais são. Antes, na petição, Janot cita diálogos de Romero Jucá com Sergio Machado nos quais o senador afirma que "caiu a ficha" do PSDB sobre a necessidade de embarcar no plano, e cita especificamente os senadores tucanos Aloysio Nunes Ferreira (SP), José Serra (SP) e Aécio Neves (MG).

O intento dos nominados de Temer, afirma Janot, "é conseguir construir uma ampla base de apoio político para conseguir, pelo menos, aprovar três medidas de alteração do ordenamento jurídico em favor da organização criminosa".































Essas medidas, diz Janot na petição, "seriam implementadas no bojo de um amplo acordo político — tratar-se-ia do propalado e temido 'acordão' — que envolveria o próprio Supremo Tribunal Federal, como fica explícito em intervenções tanto do senador Renan Calheiros, como do senador Romero Jucá".

Ainda de acordo com o PGR, o "acordão" tinha o objetivo de conter "os avanços da Operação Lava Jato em relação a políticos, especialmente do PMDB, do PSDB e do próprio PT, por meio de acordo com o Supremo Tribunal Federal e da aprovação de mudanças legislativas".
Jucá foi ministro de Temer por apenas 11 dias. Deixou o cargo em 23 de maio de 2016 em meio ao escândalo provocado pelo vazamento justamente dos áudios que, agora, ensejam a ação criminal de Rodrigo Janot. Hoje ele é o líder do governo Michel Temer no senado.

Fabiano Silveira durou mais tempo no cargo. Ficou até 30 de maio e caiu após a divulgação de áudios também feitos por Sérgio Machado. Na gravação, Silveira orientava investigados da Lava-Jato sobre como proceder diante das investigações do Ministério Público enquanto tinha um cargo de conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão que fiscaliza o poder Judiciário.
Sarney Filho ainda é ministro de Temer. 
A petição da PGR segue agora para o ministro Edson Fachin, que herdou a relatoria da Lava Jato após a morte de Teori Zavascki. 

Leia a íntegra da petição:

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

POR QUE ROMERO JUCÁ QUER "TRANSPARÊNCIA" NA LAVA-JATO?

NÃO É ESTRANHO, DE REPENTE, TODOS "ELES" QUEREREM FIM DO SIGILO DAS DELAÇÕES PREMIADAS? ISSO É BOM PARA AS INVESTIGAÇÕES?

É de causar, no mínimo, estranheza a repentina ladainha, bem entoada, para que o Supremo Tribunal Federal libere a íntegra das delações premiadas, a título de “transparência”, em benefício da sociedade. O discurso, bem afinado, vai de Cássio Cunha Lima, passa por Romero Jucá (a dispensar comentários) e Aécio Neves e tem continuidade com o ex-presidente do Senado, Renan Calheiros. Por que essa repentina mudança de postura?

Até pouco tempo atrás, não era esse o argumento dessas raposas, pegas agora com as patas untadas de seu próprio barro fecal.

Quando o foco da Lava-Jato era (como, a rigor, continua a ser, dentro da ótica do discípulo-mor de Pôncio Pilatos, lapidado nas instituições agora comandadas por Donald Trump) Lula e seu partido, os representantes das quadrilhas que começam a ser desmascaradas com seus esquemas anteriores a 2003 (posse do primeiro presidente de origem operária da história do Brasil, e por isso vítima explícita perseguição das famílias donas da mí(r)dia conservadora, do(a)s concurseiro(a)s ávido(a)s de seus quinze segundos de fama e dos banqueiros e rentistas ávidos do ganho fácil), usavam discurso falso-moralista para deslegitimar as conquistas palpáveis para o povo brasileiro e execrar a honradez do mais popular de todos os ex-presidentes do país nas últimas décadas.

Valdo Cruz, analista político da outrora vanguardista Filha, digo, Falha, perdão, Folha de S.Paulo, chama a atenção para este discurso “redondinho”, que nos remete aos inglórios tempos da Arena de Petrônio Portella e Golbery do Couto e Silva, fins da década de 1970. É que medíocres, “estrategistas” e cartomantes do igualmente pouco iluminado Temer são incapazes de grandes sacadas, e se limitam a requentar velhas soluções para resolver seus problemas, não os do país. Assim, sob a receptiva e bem empolgante retórica da “transparência”, representantes de quadrilhas organizadas conspiram mais uma vez contra o Estado Democrático de Direito, a Nação e a própria Lava-Jato, da qual nunca gostaram e, na verdade, apenas usaram como pretexto para um impeachment sem crime tipificado, o golpe.

Não é preciso ser Sherlock Holmes para compreender os nada honestos propósitos desses meliantes que ofendem a memória dos democratas que deram a vida para ver instalada a jovem, mas já estuprada, democracia brasileira. A liberação do conteúdo das delações premiadas prejudica as investigações para reunir provas (documentos, testemunhos e pistas) que levem para a cadeia os correligionários de Cunha e Cabral, entre outros, curiosamente do mesmo partido do capo golpista, que sem qualquer pudor está a entregar o patrimônio do povo brasileiro aos abutres da globalização, ao mesmo tempo em que destrói conquistas sociais, seja na forma de políticas públicas ou de direitos sociais duramente instituídos nas últimas décadas.

Prova disso é a obsessão com que Temer envia para o Congresso Nacional sucessivas “reformas”, ostensiva e acintosamente contrárias aos interesses da maioria da população, dentro da lógica (ou, melhor, dos interesses) do capital especulativo internacional e, pior, do crime organizado, que atua no desmonte das economias formais como a do Brasil, potência que começava a ganhar reconhecimento no planeta, dentro da política externa soberana implementada pelo chanceler Celso Amorim, que trabalhou com os presidentes Itamar, Lula e Dilma. Por que o ameb..., digo, S(f)erra foi guindado para lá? É que ele foi e continua a ser o mascate do Brasil. Tanto é verdade, que ainda antes do consumado o golpe, como senador, enviou uma série de projetos para, digamos, “flexibilizar” os mecanismos (para ele entraves) para privatizar a Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil, Correios, Caixa e subsidiárias.

E só para concluir, refém que é dos tucanos, o inquilino-fantasma do Planalto, depois de insinuar que, como oriundo do Ministério Público de São Paulo, faria uma “indicação técnica” para a vaga do finado ministro do STF, causa mais uma perplexidade em cadeia com o anúncio do nome do rábula do PCC, aquele cuja biografia mais parece uma folha corrida, para a mais alta corte do país. Sem comentários...
Ahmad Schabib Hany

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"DEUS LHE PAGUE..." (Chico Buarque, "Construção")

“DEUS LHE PAGUE...” (Chico Buarque, “Construção”)

PARA GISA, GABRIELA, RICHAM, MICHAEL E SÉRGIO

Dias atrás, quando escrevi “Perdão, Doutor(a), por existir”, perplexo com a leviana desumanidade de médico(a)s e membros do Judiciário que mais parecem discípulos de Pôncio Pilatos – aquele nefasto governador do Império Romano na Palestina que julgou Jesus Cristo e entrou para a história pelo ignóbil gesto de se lavar as mãos depois da condenação de alguém que incomodava os poderosos mas não havia cometido crime tipificado pelo código romano – diante da angústia e da dor da família de Dona Marisa Letícia num leito de hospital, jamais poderia imaginar que uma (suponho, pois não conheço) mãe e avó pudesse, igualmente, incorrer em atos tão maledicentes e condenáveis como o dos já conhecidos algozes.

Não importa o sobrenome, vou chamá-la apenas de Gisa. Deve ter mais de 50 anos. Trata-se de uma pessoa medianamente informada e com um nível de escolaridade acima da média. Eis a íntegra de seu comentário, leviano e inoportuno, em postagem sobre o desabafo do Presidente Lula ao final do velório de sua Esposa numa das redes sociais: “É ridículo o que Lula fez no velório da esposa. Cada um colhe o que planta. Não podemos defender quem fez mal ao Brasil. E a lava jato não é culpada da morte dela, que já teve aneurisma. Quem sofre nos hospitais é que sofrem. Quem tem plano de saúde não se preocupa com os outros que morrem a cada minuto. Primeiro porque não tem força política pra resolver essa situação. E os políticos corruptos não estão nem aí.”

Quanta desumanidade junta! Quem pretenderá ser? Mas, vamos por partes. Pergunto-me, ela e sua família não são tão mortais como todos nós? Ainda que houvesse alguma etiqueta, protocolo a ser observado em velórios (supondo que por se tratar de ex-presidente da República), ele não pode ter o comezinho direito ao desabafo na hora em que “vai ser fechado o caixão”? Enquanto aquela pessoa que traz um nome feminino (mas tem todo o ranço do machismo inoculado nas entranhas de uma sociedade hipócrita e bizarra) se atribui o direito de agredir – e não apenas usufruir do direito de manifestar sua opinião, pelo qual, aliás, minha geração, entre outras, lutou para que ela o dispusesse –, um homem da dimensão de Lula, tomado pela dor e no fatídico instante da separação eterna, não pode ter direito de dizer o que não só pensa, como há evidências do que ele (e os melhores jornalistas e analistas políticos também) declarou.

É “ridículo”, Gisa, porque partiu da boca de um retirante nordestino que ousou não obedecer à sina da maioria de seus conterrâneos e acabar confinado à Zona Leste de São Paulo, no máximo, servindo de massa de manobra para o malufismo, quercismo, janismo, alkminismo, dorismo e outros ismos? Quando passou a ser a encarnação do (chamado por eles, com maldade) lulopetismo, aí é banditismo, “organização criminosa” – e põem as polícias, paparazzi, x-9, penas de aluguel, cronistas chapa-branca e interceptadores de telefonemas atrás dele (policiais só, não: fugindo à histórica praxe inquisitorial, promotores e procuradores, auditores e juízes à cata dos quinze segundos de notoriedade). Não “deixa ele” virar ministro. Mas o impopular agregado de Amaral Neto e ex-governador fluminense mais rejeitado de todos os tempos, delatado como representante no esquema de propina da corja que tomou de assalto os destinos da população daquela que já foi maior democracia do planeta, sim, ele pode, pois tem “pedigree”, tem “um pé na corte” e, acima de tudo, tem folha corrida, digo, currículo: por tudo isso pode, e cinicamente ele ganha o tal status quando o pária do Lula está velando sua “Galega”, altiva e honrada como ele!

“Cada um colhe o que planta.” Sim, Gisa, foi Marisa que pediu para Lula priorizar a Lei Maria da Penha e implantar uma rede de proteção social para as mulheres, fossem elas vítimas de violência doméstica, sexual ou para seu empoderamento. Políticas afirmativas de igualdade de gênero, social e racial, idem. E Lula plantou programas de inclusão social – dados da ONU confirmam que no país não há mais pessoas abaixo da linha da pobreza, o que os donos da mí(r)dia ideológica não divulgam –, políticas de geração de trabalho e renda e elevação do poder aquisitivo de amplas camadas sociais, criou programas habitacionais que não só deram casa como dignidade, sobretudo à mulher chefe de família, como imagino, Gisa, você deva ser. Se você fez algum curso universitário (graduação e/ou pós-graduação) deve saber que ele e Dilma são os pioneiros, em quase duzentos anos de existência do Brasil, na expansão de cursos e vagas em universidades e institutos tecnológicos espalhados por todo o território nacional com diversos tipos de bolsas (de iniciação científica, de permanência, de assistência, de desenvolvimento científico, de iniciação à docência etc). Isso além do mais ousado programa de infraestrutura já empreendido no país desde os tempos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek: os dois PACs incluem transposição do Rio São Francisco, despoluição de vários rios contaminados, expansão de redes de captação de água e de criação (sim, criação) de sistemas de esgotamento sanitário e de destinação de resíduos sólidos, construção de ferrovias e rodovias etc.

Sim, Gisa, nisso eu concordo com você: “Não podemos defender quem fez mal para o Brasil.” Esse não é o Lula. Quem parou o Brasil desde antes das eleições de 2014 foram os golpistas, que já previam tomar de quatro – serei explícito: 2002, 2006, 2010 e 2014 – e, raivosos por não terem competência para ganhar uma eleição no voto, partiram para o “quanto pior melhor”. Não sei se você e sua família têm meios de se sustentar fora do mercado de trabalho. Mas quem, como eu e a maioria da população deste país continental, depende de seu trabalho sabe que quando a crise desaba não há quem se salve. Até o especulador, o agiota e o usureiro levam a pior, pois é maior o número de inadimplentes. Mas para Serra, Aécio, Cunha, Aloysio e Roberto Freire (esse comunista arrependido que hoje é “sinistro” da Cultura, que por décadas apoiei sem saber que era um traidor), elevar o nível de renda, assegurar os programas sociais, reaquecer a economia para promover a distribuição de renda possível, ainda que na lógica capitalista, não é prioridade. A prioridade para eles é o tal “superávit primário”, eufemismo (nome bonito) da cobiça de banqueiros, dos ávidos especuladores internacionais que se apossaram do Banco Central, que não é mais do Brasil. Como a Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, Correios e até a Eletrobrás serão entregues para o capital especulador internacional (do mesmo jeito que FHC deu, a preço de banana, a Vale, Telebrás, Embratel, todas as teles estaduais e centrais elétricas, deixando-nos com os mais caros serviços e os piores deles). O (des)governo que eles instalaram depois do golpe (por isso golpistas) é a prova disso: há limite para tudo, menos para os juros (nome bonito de especulação), os mais altos do mundo pra cima de nós, cidadãos anônimos.

Ah, sim, Gisa: o mal do Lula foi a roubalheira, a rapinagem que está instituída no Brasil... Sinto ter que desapontá-la, porque as delações começam a revelar o que os golpistas temiam (e está provado na fala do ex-ministro golpista e hoje líder de Temer no Senado Romero Jucá com o ex-senador tucano e ex-dirigente da Petrobras Sérgio Machado, amplamente divulgada depois do impeachment): o propinoduto (ou esquema da propina) da Petrobrás e de outras estatais são anteriores à posse de Lula, em 2003. Há delações que dão conta de detalhes que, não sei por quê, os “jornalistas” que comandam a Central Gloebbels se recusam a tornar públicas. Bom, dizem que, também, havia uma “bolsa-mí(r)dia”, desde os tempos da (mal)dita cuja que a Dilma resolveu cortar, e que por isso ela perdeu o “apoio” que nunca, em verdade, teve. Por quê? Porque, por exemplo, na Bahia, a família Marinho é sócia da família ACM.

Mal que lhe pergunte: estudou (ou gosta de estudar) História? Sabia que os primeiros colonizadores degredados de Portugal eram, em sua grande maioria, criminosos, enviados para cá mais para cumprir condenação que como oportunidade para se reinserir à sociedade lusitana? Sabia que os colonizadores, como demonstração de gratidão pela receptiva acolhida pelos povos originários, exploraram, caçaram, expulsaram, mataram e corromperam os povos originários? Sabia que a Inglaterra virou potência naval graças ao comércio de escravos capturados na África e vendidos nas colônias da América? Sabia que o capital (e o próprio capitalismo) se desenvolveu por meio de saques de piratas e corsários, do uso e abuso da mão de obra escrava dos povos africanos e povos originários da América? Sabia que, graças Marx e Engels (e não à “dupla sertaneja” do procurador pouco letrado das terras bandeirantes), dois estudiosos bastante dedicados no século XIX, foi possível demonstrar que o salário pago a um(a) operário(a), por maior que seja, não remunera totalmente sua força de trabalho gasta para seu patrão, e que é possível mudar o modo de produção quando a classe trabalhadora tem consciência de sua vontade política? Mas, em resumo, Gina, os empreiteiros e banqueiros sempre mantiveram vários esquemas de propina, tanto assim, que quando tentaram derrubar Getúlio a UDN usou esse expediente, tal como foi usado na tentativa de deposição de Juscelino e no golpe contra João Goulart. E durante os 21 anos do regime de 1964 houve, apesar da violenta censura, vários casos de corrupção denunciados, como o Banco Halles de Investimento, da Caderneta de Poupança Delfin, Caso Coroa Brastel, Projeto Jari, Caso Ponte Rio-Niteroi, Caso Angra I, Caso BNH, Caso Transamazônica, Caso Codrasa, Caso Transpantaneira, Caso Lutfalla, Caso Caixa Econômica Federal, Caso Capemi, Caso Finor, Caso Light, Caso BrasCan, Caso Paulipetro, Caso Baumgarten, entre muitos outros.

Perseguiram Lula sem provas – apenas por (sic) “convicção” de um imaturo concurseiro galgado a um cargo maior que sua rasa mentalidade, e por representar as ideias de uma dupla (sertaneja?) “Marx & Hegel”, segundo um medíocre, ignorante e sobretudo pedante procurador de justiça de São Paulo –, aquele discípulo de Pilatos deixou vazar conversa telefônica entre Lula e Dilma sem observar o que estabelece a legislação, como se estivesse acima da lei. Alguém de direito o advertiu, repreendeu ou, ao menos, determinou que pedisse desculpas à Presidenta Dilma e ao então Ministro Lula? Não. Isso o fez repetir o abuso, quando já havia sido diagnosticada a morte cerebral. Tudo isso, é claro, contribuiu para o agravamento da saúde de Dona Marisa Letícia, que abandonou as caminhadas para não ter que ouvir desaforos e ofensas. Se eu estivesse no lugar dele, não tenha dúvida, teria processado, um por um, todo(a)s o(a)s que contribuíram de alguma forma para que se chegasse a esse desfecho trágico. Mas esse sou eu. A grandeza de Lula não permite rancor e retaliação. Ele cresce na dor, ele se fortalece na adversidade. Não por acaso (a menos que os covardes golpistas o impeçam por todas as vias), ele irá subir a rampa do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro de 2019, e nos braços do povo brasileiro, de quem é fiel representante. Então, a sua estrela Galega irá iluminá-lo, com a mesma discrição de sempre, no mandato presidencial em que se repararão os danos causados pela quadrilha que quer dilapidar o patrimônio do Brasil para entregar aos especuladores internacionais. Amém!

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

DONA MARISA LETÍCIA VIVE!

DONA MARISA LETÍCIA VIVE!
Dona Marisa Letícia –- a “galega” que cativou, 43 anos atrás, o coração solitário do retirante de alma peregrina que se tornou o maior estadista brasileiro dos últimos 50 anos –- personifica a alma guerreira da mulher brasileira. Empregada doméstica aos 9 anos e operária da indústria da alimentação a partir dos 13 anos, deu-se o gosto de trabalhar por alguns anos como servidora da educação, já que não pôde realizar o sonho de ser professora, postergado pela maternidade e viuvez precoce. Assim como Lula, que ficou viúvo de sua companheira grávida, Marisa perdeu o primeiro companheiro quando estava grávida de seu primeiro filho.
História de vida como de tanto(a)s brasileiro(a)s anônimo(a)s que produzem a riqueza de uma das sete maiores economias do mundo e cujas elites, desde os tempos coloniais, jamais se preocuparam com seu verdadeiro drama: viver sem direitos, trabalhar como escravo(a)s, morar precariamente, sonhar com os estudos, adoecer para morrer (tanto que o casal conheceu a viuvez precocemente, porque trabalhador/a ia para o INAMPS ou INPS e sua sobrevivência dependia da sorte de encontrar algum/a profissional sério/a, a bem da verdade não muito diferente de hoje).
Ao contrário da lenda cafajeste de que Lula teria pedido para amputar o dedo a fim de se aposentar, Marisa e o único presidente a eleger e reeleger sua candidata (a primeira mulher a presidir um país de machistas, inclusive mulheres machistas), desde os tempos em que se conheceram, faziam horas-extras para melhorar sua renda. Assim como o sindicalista ranheta como era caricaturado, a querida “galega” era altiva e cheia de valores para (jamais) pedir vantagens aos chefes e patrões. Nos primórdios do Partido dos Trabalhadores, foi ela que confeccionou a primeira bandeira, tudo da cabeça dela, envolvida como estava com os propósitos do primeiro (e único até hoje) partido a nascer das massas trabalhadoras do Brasil.
Por isso, o casal fez a diferença na presidência da República. Simplesmente porque foram diferentes de todos os antecessores. Seu comportamento, espontâneo, desestabilizava o embolorado protocolo, tão bizarro quanto a conduta das elites que o impuseram ainda nos tempos da corte imperial, caduca e hipócrita. O raro senso de oportunidade de Marisa impediu a protelação sistemática de conquistas sociais e econômicas já no primeiro mandato. (Por favor, não confundir senso de oportunidade com o oportunismo atávico da burguesia meliante brasileira, aquela que “faz qualquer negócio”, inclusive a barganha, a propina, a cooptação e a corrupção que começam a vir à tona por meio das delações dos corruptores, pelos esquemas anteriores a 2003, ano da posse de Lula.)
Daí a identificação do povo e o ressentimento transformado em ódio pela chamada classe mé(r)dia, que, a rigor, é uma ficção, pois não passa de um extrato de classe, eivado de pretensões e preconceitos e destituído de identidade: projeta-se, ilusoriamente, nas aspirações dos poderosos e seus agregados, popularmente definidos como aqueles que “comem farofa e arrotam caviar”. O pior é que as políticas distributivas, compensatórias e de inclusão foram as responsáveis por “inchar” a tal classe mé(r)dia, cooptada a partir da incessante campanha da mí(r)dia e dos grupos de mercenários autodenominados de “movimentos”, como o “Tchau Querida”, o “Vem Prá Rua” e o “Movimento Brasil Livre”. A propósito, onde estão agora? Nos gabinetes de Brasília, São Paulo (governo e prefeitura), Porto Alegre, Rio de Janeiro etc.
Ao reconhecer publicamente meu erro de avaliação, durante a luta contra a ditadura, e ficar ao lado de traidores como Roberto Freire, Alberto Goldman e Augusto Carvalho (é só ver de qual lado eles estão no atual contexto político), perdi a oportunidade histórica de conhecer mais de perto pessoas de uma grandeza humana ímpar. Em 1980, ao participar do Primeiro de Maio Unificado, pude ver a aguerrida atriz, depois deputada do PT, Bete Mendes em Campo Grande. Mas nunca tive a honra de estar perto de Dona Marisa Letícia, lamentavelmente. Lula mesmo, fui conhecer, lado a lado, em 1998, em Corumbá, quando o saudoso Bispo Diocesano Dom José Alves da Costa me deu a honra de acompanhá-lo a um encontro de quase duas horas, em sua residência. Ele aceitara o convite por ser coordenador-geral do Pacto Pela Cidadania (o Movimento Viva Corumbá), e graças à sua gentil atenção, fui a única testemunha do encontro, com a obrigação de participar da conversa, de alto nível.
E, confesso, foi ao conhecê-lo pessoalmente que me convenci de que ele é o melhor representante do sacrificado povo brasileiro. Em todos os sentidos: na sinceridade, fluência e espontaneidade (quando entregamos um documento protocolar do Pacto Pela Cidadania, Lula com a desenvoltura de sindicalista que lhe é peculiar esqueceu-se de que era o candidato à presidência da República e nos orientou como encaminhar tais reivindicações junto às autoridades constituídas, com a maior sinceridade: “Devem entregar este mesmo documento a todos os candidatos que vierem à região, e sobretudo àqueles que disputam o governo do estado, e neste caso, o Zeca tem chances reais de ser o futuro governador.”). E, assim como meu Amigo octogenário que antes fora arenista, eu também acabei virando um admirador do Lula e de Dona Marisa Letícia, por tudo o que fizeram, e só não puderam fazer mais porque tinham que ceder à chantagem dos “éticos” cínicos que tomaram de assalto os destinos daquela que um dia foi a maior democracia do planeta.
Como dizem, #ForçaLula! #DonaMarisaLetíciaVive! Em nossa memória e em nosso coração! Em cada mulher consciente de seu papel e de seu valor humano, político e social. Em cada trabalhador(a) que produz as riquezas do país. Em cada criança cujo coração só tem espaço para o amor e a esperança. Até sempre, Dona Marisa, e obrigado por existir!

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

"PERDÃO, DOUTOR(A), POR EXISTIR..."

“PERDÃO, DOUTOR(A), POR EXISTIR...”
Dia 2 de fevereiro, data da celebração de Nossa Senhora da Candelária – portanto, Dia da Padroeira de Corumbá, feriado municipal no Coração do Pantanal e da América do Sul – não é, por si, um fatídico dia, marcado pela consternante eternização de Dona Marisa Letícia, esposa do Presidente Lula, depois de ter resistido por dez dias na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Sírio-Libanês (indiscutivelmente, um dos melhores hospitais do Brasil).
Mais ainda, é dia de contrição, de penitência para a espécie humana toda: ceifaram o mais elementar dos valores humanos, construídos ao longo de milênios, que é o respeito à dignidade humana. A morte de um ser vivo – inclusive humano, mesmo que não prive de nosso convívio – costuma consternar toda e qualquer pessoa minimamente civilizada. Sobretudo, nestes tempos em que até verdadeiros facínoras se declaram cristãos, arrependidos e convertidos, repletos de testemunhos de fé e transformação. O que vimos, no entanto, em todas as redes sociais e seções de comentários da mídia brasileira foi a explícita manifestação de ressentimento e ódio contra a ex-primeira-dama brasileira e seu esposo, eleito e reeleito democraticamente, pelo voto direto e secreto, além de ter conseguido eleger a sua sucessora, com os mais elevados índices de popularidade – e, curiosamente, sem “comprar” os donos dos grandes grupos de comunicação, que nunca lhes deram trégua.
É de causar perplexidade, quando não indignação, a leviandade com que se jactam da tragédia humana. E, pior, não se trata de pessoas com baixa escolaridade. São “elementos” (como diria a caquética crônica policialesca) frequentadores dos mais requintados círculos sociais, cuja formação, via de regra, custou aos cofres públicos (pois se formaram nas melhores universidades, que são as públicas – estaduais ou federais) vultosos recursos financeiros. Que nunca foram devolvidos para a sociedade, fosse como prestação obrigatória de serviços profissionais (como na maioria dos países europeus) ou mediante quitação pecuniária, alguns anos depois, constatado o sucesso profissional.
Nem a temida morte é capaz de aplacar esse maldito (na acepção da palavra) rancor, curtido nas vísceras de detentores de diplomas universitários que juram (ou perjuram?) sobre o legado de Hipócrates? São esses que, quando estudantes, ouvem de certos professores que o bom profissional se revela quando depois de tantos anos adquire o mais caro dos modelos de automóvel; num período maior, já ostenta um belo casarão, e coroa sua brilhante carreira ao obter uma boa fazenda repleta de centenas, não, milhares de cabeças de gado.
O sábio provérbio espanhol adverte: “Lo que natura no da, Salamanca no presta.” [“Aquilo que a natureza não proporciona, a Universidade de Salamanca – ou a USP, a Sorbonne – não tem como emprestar.”]
O que esperar, enfim, dos jovens filhos de elites bizarras, que desde os primórdios coloniais ficam de cócoras (por não ser chulo; a posição não é essa) diante dos descendentes de piratas e corsários e agressivas ante os povos originários, que generosamente acolheram seus ancestrais, em sua maioria criminosos enviados como degredados no começo da colonização lusitana e castelhana, e como gratidão os condenaram à morte em vida, seja como mão de obra escrava ou relegados à condição de miseráveis, “indolentes”, “silvícolas”, “desalmados”...
Perdão, Doutor(a), por existir... Talvez fosse isso o que gostariam de ouvir, tamanha a sua soberba. Mas nem o mais poderoso milionário ou descendente de rei, sultão, emir, imperador, césar ou faraó está livre de passar por um drama desses, de perder um ente querido. Quem lhes garante não passar por uma experiência dessas a qualquer momento? Em sã consciência, desejo e rogo que não conheçam essa dor. Desejo, sim, e rogo para que, num lampejo de humildade cristã, sincera e leal, se penitenciem, façam a devida contrição, resgatem sua dignidade humana que se encontra latente, adormecida, pois ainda há tempo. Nunca é demais lembrar que para ser bom profissional é imprescindível ser ótimo cidadão, ser humano e solidário. Tudo isso não subtrai, só acrescenta e, sobretudo, faz bem para si e os seus.

Ahmad Schabib Hany