quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

MARÍLIA, FILHA DA PROFESSORA EUNICE E EDU ROCHA, SE ETERNIZA

MARÍLIA, FILHA DA PROFESSORA EUNICE E EDU ROCHA, SE ETERNIZA

A Radialista Marília Rocha, Filha da Professora Eunice Ajala Rocha e do Vereador Edu Rocha (assassinado covardemente em 1959), se eterniza aos 74 anos, no interior de São Paulo. No início dos anos 1990 veio a Corumbá para resgatar a produção acadêmica da Mãe, oportunidade em que fez contato com os membros da Sociedade dos Amigos da Cultura.

Por meio do Jornalista Luiz Taques, tomamos conhecimento de que a Radialista Marília Rocha, Filha da Professora Eunice Ajala Rocha e do Vereador Edu Rocha (assassinado em julho de 1959, depois de uma sessão da Câmara Municipal em que denunciara o líder da máfia dos carros “rabos de peixe”), se eternizou, aos 74 anos, neste 19 de fevereiro, em decorrência de infecção generalizada, em Peruíbe (SP).

Segundo o Jornalista e Radialista Adolfo Rondon, Marília Rocha iniciou nos anos 1960 seu ofício de locução em Corumbá, na então Rádio Difusora Mato-grossense S/A (ZYA-2, 1490 KHz). Depois seguiu para São Paulo, tendo marcado época em grandes emissoras, como a Rádio Mulher, pioneira nesse segmento.

Marília Rocha esteve em meados da década de 1990 em Corumbá para resgatar a obra acadêmica da Mãe, a Professora Eunice Ajala Rocha, aluna da primeira turma do curso de História do à época CPC (Centro Pedagógico de Corumbá), então vinculado à UEMT (Universidade Estadual de Mato Grosso). Sob orientação dos Professores Valmir Batista Corrêa e da Professora Lúcia Salsa Corrêa, desenvolveu importantes pesquisas sobre a contribuição dos afrodescendentes escravizados e a cultura popular, como o resgate do siriri e do cururu, da viola de cocho e das celebrações do São João na região de Corumbá e Ladário, tema de sua dissertação de Mestrado. Docente da UFMS, Eunice caracterizou-se pelo empreendedorismo e a inovação, tendo promovido um curso pioneiro de arquivo público, para o qual vieram docentes da Universidade de São Paulo (USP), oportunidade em que criou um núcleo de arquivo no então CEUC (Centro Universitário de Corumbá).

Em uma de suas últimas estadas em Corumbá, Marília Rocha se encontrou com membros da Sociedade dos Amigos da Cultura, quando expôs as razões de seu projeto. Ao lado do escritor Augusto César Proença, que conhecera no tempo em que trabalhava no rádio corumbaense, ela tentava publicar o legado da Professora Eunice mediante patrocínio da Lei Rouannet de Incentivo à Cultura. Diante da falta de apoio pelas autoridades da época, preferiu publicar por seus meios a íntegra da dissertação de Mestrado de sua Mãe, hoje disponível graças a essa sua iniciativa.

De personalidade forte e convicções bem definidas, Marília herdou dos Pais o caráter e a determinação, provavelmente o que a tenha afastado da sociedade em que a hipocrisia e o mau-caratismo, sobretudo a partir do golpe de 1964, passaram a reinar em sua cidade-natal. Além de ter perdido o Pai Edu Rocha na infância, vítima de um atentado covarde quando denunciava o crime organizado sob a proteção do mandonismo udenista (o líder local da UDN, Caribaldo Salles, apesar das evidências de ter sido mandante do crime, ficou impune), viu a Mãe ser a única condenada, pelo fato de simpatizantes do vereador assassinado terem feito um panfleto em que questionavam a conduta do juiz do caso, conforme denúncia de reportagem de capa da revista O Cruzeiro da época.

Assim como a Professora Eunice não pôde ver a memória do Vereador Edu Rocha ter sido reparada, Marília Rocha se eterniza sem ter podido ver o reconhecimento, pelos órgãos oficiais, das generosas contribuições a Corumbá e região de Eunice Ajala Rocha como pesquisadora e gestora da Educação e Cultura, bem como de Edu Rocha como paladino do combate à corrupção institucional vigente em seu tempo, exatamente por aqueles que, cinco anos depois, promoveram um golpe de Estado em nome da “moral e dos bons costumes”.

A História, disciplina que a Professora Eunice escolheu não apenas por vocação, costuma oferecer tribunais mais justos: sem o oportunismo imediatista ou as odes desprezíveis, escancara de maneira límpida os interesses inconfessáveis que os mandarins de plantão conseguem encobrir, geralmente ao custo de muito sangue e medo. Passaram-se anos, décadas inclusive, mas não demorará o dia em que a História, que amedronta meliantes de todos os tempos, traga a luz para toda a população, a verdade que outrora foi silenciada com balas, injustiças, intimidações, censura e opressão.

Nós, que não tínhamos idade para conhecer pessoalmente Edu Rocha, podemos dizer que a Vida nos presenteou pessoas como a querida e saudosa Professora Eunice Ajala Rocha e a Radialista Marília Rocha, cuja memória honrada qualifica a humanidade, sobretudo nestes dias funestos em que canalhas travestidos de patrioteiros enxovalham a República e o Estado Democrático de Direito.

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Mino Carta: Militares no governo são uma sequência de crimes contra o Brasil - CartaCapital

 

Presidente Bolsonaro, durante solenidade do Exército. Foto: Marcos Corrêa/PR (CartaCapital)

Militares no governo são uma sequência de crimes contra o Brasil

'Esta deplorável situação é da conveniência da casa-grande, e mantém intocadas a medievalidade do País', escreve Mino Carta

MINO CARTA  22 DE FEVEREIRO DE 2021 - 05:00... Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/artigo/militares-no-governo-sao-uma-sequencia-de-crimes-contra-o-brasil/?utm_campaign=novo_layout_newsletter_-_22022021&utm_medium=email&utm_source=RD+Station.

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domingo, 21 de fevereiro de 2021

FOLHA DE S. PAULO: 100 ANOS | BALAIO DO KOTSCHO


Ricardo Kotscho fala sobre o jornal em que passou a maior parte de sua carreira como jornalista e sobre a importância de separar news de fake news.

FAUSTO MATTO GROSSO:  CERCADOS PELO EXÉRCITO(Esta crônica será publicad...

FAUSTO MATTO GROSSO:  CERCADOS PELO EXÉRCITO(Esta crônica será publicad...:   CERCADOS PELO EXÉRCITO (Esta crônica será publicado no livro Histórias que ninguém vai contar) O Centro de Educação Rural de Aquidauana ...

DE SUCUPIRA/MACONDO PARA O MUNDO

DE SUCUPIRA/MACONDO PARA O MUNDO

Nem o saudoso Dias Gomes, genial criador de Odorico Paraguaçu e sua inimitável Sucupira de O bem-amado, teria imaginado tamanho surrealismo... Longe de ser algo cômico - pelo contrário, uma tragédia de doer -, a realidade bizarra em que o Brasil está imerso desde abril de 2016 é um lodaçal cada vez mais generalizado e de difícil superação, tamanho parasitismo em seu entorno, de fazer inveja à criação do também saudoso Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, a sua Macondo de Cem anos de solidão.

Os brasileiros e as brasileiras que hoje tiverem mais de 50 anos conhecem e têm motivos de sobra para compreender por que esta realidade bizarra em nada deve às geniais criações de dois imortais do século XX: o Nobel de Literatura Gabriel García Márquez e sua magistral Macondo de Cem anos de solidão e o não menos notável e irreverente Dias Gomes com a provocadora Sucupira de Odorico Paraguaçu, em O bem-amado.

Vamos aproveitar que ainda não voltou o Departamento de Censura e Diversões Públicas, a temida dona Censura, que castrou, silenciou e matou geniais criações de parte dos anos de 1960 e 1980 e toda a década de 1970. Na maior cara de pau, obscurantistas seguidores de Emílio Garrastazu Médici (que em nada deve a facínoras como Augusto Pinochet, Alfredo Stroessner ou Antônio Salazar), com a certeza da impunidade e proteção de figurões do Palácio do Planalto, preparam o terreno para dar o enterrar a baioneta no coração da República e consolidar o golpe de 2016, preparado por ineptos democratas de araque que foram passados para trás por uma alcateia de cadelas fascistas no cio...

Aos crédulos e crédulas de plantão: o golpe está em marcha, e celeremente. Só não vê quem não quer... Enquanto pobres ilusos se jactam com as tímidas ações da mais alta corte do Judiciário e umas cenas acanhadas de um Congresso claudicante, fascistas e sequazes travestidos de patrioteiros já iniciaram a contagem regressiva para o retorno ao infernal período das trevas. A sorte da maioria dos desassossegados e desassossegadas já está lançada, é apenas questão de tempo, e isso já se sabia desde o fatídico dia em que esse cruzamento de parasita insaciável e serpente peçonhenta se declarou vencedor do sinistro certame de cartas marcadas que selou o destino da soberania nacional e popular neste país-continente.

As gerações que tiveram a honra e o prazer de derrotar esses insanos nas décadas de 1970 e 1980 em toda a América Latina e de lhes dar a dedada fatal com a instauração do Estado Democrático de Direito têm clareza de que não se brinca com a cadela no cio representada pelas hordas do fascismo. No entanto, voluntaristas inconsequentes vêm se precipitando como suicidas com provocações pueris e incendiárias, na ânsia de fazerem o que acham que é “resistência”. Pura palhaçada, equívoco velhaco...

Ou os que tiverem conhecimento, experiência e maturidade entram em cena, de modo humilde mas eficaz, para o embate inadiável, ou será um processo autofágico, suicida e vexatório para as forças democráticas, progressistas e socialistas. Assim como a História, a Vida não tem ensaio nem “desfazer”.

Insisto: não há lugar para aventuras de qualquer natureza, pois cada passo mal calculado terá um custo elevado em vidas humanas e na preservação do pouco que ainda resta do Estado Democrático de Direito.

E não há como não levar em conta esta equação. Os delinquentes que estão na linha de frente, em apoio incondicional e a serviço dos fascistas de plantão, têm a vantagem da iniciativa. Seu recado, inclusive, foi dado no atentado contra a saudosa Marielle Franco e seu motorista Anderson (reiterado pelo estúpido bravateiro que está preso por ordem do Supremo Tribunal Federal, quando, em campanha eleitoral, quebrou a placa de homenagem à vereadora, ao lado do então juiz-candidato Wilson Witzel, hoje afastado do governo do Rio de Janeiro por indícios de participação no roubo de dinheiro para o enfrentamento da pandemia).

Verdadeiros meliantes, valem-se da impavidez de uma sociedade em estado de choque, pelas ações por eles mesmos protagonizadas, ora pelas rajadas midiáticas de ódio a toda prova, ora pelas ações intimidadoras impactantes pelos canalhas executores, o tempo todo, sem qualquer comiseração.

Quem tiver tido o cuidado de ler ou assistir a alguma das obras imortais desses geniais autores ora mencionados saberá quais são as pistas propostas por eles, até porque eram cidadãos conscientes de seu papel histórico, sempre à frente de seu tempo. Mais que mera citação de dois grandes revolucionários, trata-se de desassossegar aqueles que têm muito a contribuir mas que até agora não tomaram alguma iniciativa, bem como alertar aos bem-intencionados e voluntaristas de que brincar com fogo neste momento é fazer o jogo dos fascistas, que estão à espreita, prontos para dar o bote.

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

O OVO DA SERPENTE

 O OVO DA SERPENTE

A serpente do fascismo que escapou incólume à punição lícita e legal no governo de José Sarney, quando Leônidas Pires Gonçalves, então ministro do Exército da Nova República, poupou-lhe a honra, renasce como um ovo fétido, mas atraente, para uma elite de índole parasita e golpista desde os imemoráveis tempos coloniais.

Tamanha é a certeza da impunidade desses meliantes travestidos de patrioteiros, que com o maior acinte aquele que deveria inspirar compaixão - mas destila ódio e exala enxofre - debocha de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e, ao ser apoiado por um estúpido bravateiro, felizmente causa a reação do pleno da Alta Corte da República e, por unanimidade, é decretada a sua prisão (do bravateiro, não da serpente nem do entrevado).

Em qualquer outro país, servidor público - detentor de cargo eletivo ou de carreira seja civil ou da caserna -, conscientes de seu papel de cidadão, sabe que está subordinado à lei e que não pode alegar desconhecimento como álibi. Como, então, se explicam esses reiterados e compulsivos atos de deboche, ameaça, incitação e agressões de instituições emblemáticas para o pleno funcionamento do Estado Democrático de Direito.

Esse estúpido bravateiro que quando candidato, num ato orgástico, quebrou uma placa de homenagem póstuma à Vereadora Marielle Franco (assassinada por meliantes dessa mesma horda ainda impunes, sobretudo pela proximidade da familícia que integra a base de apoio ao mefistofélico que diz ser dignitário), é um dos porta-vozes da quadrilha fascista instalada no andar do gabinete do cargo mais importante da República.

A maior evidência desse fato é o apoio manifestado pelo ex-sinistro da (des)educação, Abraham Weintraub (criminosamente alçado à condição de representante do país em instituição multilateral em Nova York, para fugir ao processo similar pelos impropérios execrados em reunião de gabinete ministerial em abril de 2020. Em mensagem de rede social, Weintraub reitera suas convicções totalitárias, que não teve hombridade para defendê-las vis-a-vis (como soem agir os fascistas, que agem como camaleões, à tocaia, sem qualquer dignidade, honradez ou caráter).

A eleição de um psicopata só se explica elucidando os sucessivos estupros, digo, golpes de que a jovem República foi vítima por calhordas disfarçados de cristãos, patrioteiros e democratas. Na verdade, farscistas (misto de farsantes e fascistas), que vivem a mentir o tempo todo, ensinamento de Joseph Goebbels, a quem pedem bênçãos todos os dias...

A farsa eleitoral só foi usada para, uma vez “eleitos” esses facínoras de que o saudoso Doutor Ulysses Guimarães já batizara no memorável discurso do ato de promulgação da Constituição de 1988, qualquer ato de impedimento fosse transformado em tentativa de golpe (como, aliás, eles fizeram, conforme memórias recém-publicadas de um recalcado auriverde que deveria ser alvo de compaixão, mas provoca nojo, desprezo e repugnância toda vez que sai do ninho para onde deveria ter sido exumado).

Esses meliantes continuam a gestar as bases do fascismo que querem instalar, a toque de caixa, ante a impavidez da maioria da sociedade. Tal qual o livro do entrevado, as imbecilidades do bravateiro travestido de parlamentar e os decretos inconstitucionais flexibilizando a compra e posse de grande quantidade de armas e munições fazem parte de mesma estratégia da aparente inação no enfrentamento à pandemia e do inoperante programa “nacional” de vacinação: desacreditar as instituições democráticas e armar as hordas de facínoras para, desmontado o Estado, iniciar uma temporada de caça aos oposicionistas (sejam eles democratas, progressistas ou socialistas), como nos tempos de fétidos grupelhos paramilitares como o Esquadrão da Morte e da Scuderie Le Cocq, além da nefasta Oban (Operação Bandeirante).

Não há mais tempo a perder: ou setores sinceramente comprometidos com a Democracia e o Estado Democrático de Direito deixam suas vaidades e picuinhas de lado e, ombro a ombro, se irmanam em uma urgente estratégia comum de resistência para barrar agora o regime em gestação, ou as novas gerações pagarão caro (talvez com o próprio porvir) pelo obscurantismo e autoritarismo fascista pronto para esmagar os lampejos de racionalidade ainda renitentes.

A propósito, a CNBB e o CONIC já deram o primeiro passo, a sua contribuição oportuna e relevante, agora é hora da OAB, SBPC, ABI, FENAJ, IAB, centrais sindicais e movimentos populares fazerem jus à sua história honrada e de imediato se somarem à estratégia efetiva para barrar o fascismo em gestação.

O ovo da serpente eclodiu há muito tempo e a fétida serpente está pronta para dar o bote. Mais que soro antiofídico e tratamento homoterapêutico, trata-se da adoção de remédio previsto na Constituição de 1988, dentro da normalidade democrática, para desarticular a fera e os facínoras parasitas de seu entorno.

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2021: CORAGEM E EMPATIA

 CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2021: CORAGEM E EMPATIA

Coragem e empatia marcam a Campanha da Fraternidade de 2021. A CNBB e o CONIC desenvolveram um tema ecumênico que vem ao encontro dos clamores da sociedade brasileira. Desde 1964, quando as reflexões da Quaresma foram coordenadas em nível nacional, houve poucos temas tão palpitantes como o desta campanha.

A despeito das pressões de setores conservadores minoritários, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), em eloquente demonstração de coragem e empatia, lançaram nesta Quarta-feira de Cinzas, em edição ecumênica, a Campanha da Fraternidade de 2021.

Com o tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade”, a quinta edição ecumênica (realizada, em média, a cada cinco anos desde 2000) se propõe a promover uma reflexão engajada, voltada para a efetiva transformação da sociedade, fortalecendo a cultura de paz e o respeito à diversidade, no âmbito da teologia da esperança, em que amor não seja uma palavra vã em uma sociedade de vândalos.

Além de católicos, luteranos e batistas, entre outros evangélicos não fundamentalistas, se irmanaram neste momento de reflexões que coincidem com a Quaresma (período de 40 dias que antecede a Páscoa), em favor de um processo de pacificação e diálogo no interior da sociedade brasileira, profundamente dividida pela difusão do ódio e da intolerância, sobretudo nos últimos três anos.

O Papa Francisco, durante a missa da Quarta-feira de Cinzas, enviou mensagem de apoio à Campanha da Fraternidade, num claro gesto de sintonia com a postura cidadã da CNBB e seu parceiro CONIG. Como nunca, o amor, a empatia e a esperança se revestem de caráter transformador, pela solidariedade inerente.

A campanha ecumênica se revela alvissareira ao tratar de temas álgidos em nossa desalentadora realidade imediata. Seja no frio enfrentamento à pandemia, na desmotivada campanha de vacinação ou no cotidiano em que apoiadores e membros do atual governo se declaram a favor do regime do temido Ato Institucional nº 5 (AI-5) e contra a Ciência e a Vida.

Não passa despercebido o real objetivo de medidas aparentemente desconexas: lançar as bases de um regime de caráter autoritário, inspirado nas piores ditaduras existentes nas décadas de 1960, 1970 e 1980 na América do Sul. A maior evidência deste propósito está, de um lado, nas reiteradas manifestações favoráveis ao regime de 1964 e, de outro, em decretos inconstitucionais de flexibilização das normas de controle de armas (com evidente propósito de armar simpatizantes do atual governo contra a oposição, tratada como inimiga).

Mais uma vez, a CNBB e o CONIC, de maneira lúcida e generosa, vêm contribuir efetiva e corajosamente para a reafirmação da cultura de paz, a teologia da esperança, a prática do respeito à diversidade e a comunhão baseada na verdade. Mais uma vez, o amor como instrumento de libertação vencerá o ódio, o recalque e a intolerância, que tanta dor e infelicidade têm trazido à nação nestes últimos anos.

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

A MENTIRA COMO POLÍTICA DE GOVERNO

 A MENTIRA COMO POLÍTICA DE GOVERNO

Desde antes da campanha que elegeu os áulicos do regime em gestão, a mentira tem sido a coluna dorsal (ideológica, até) dos ocupantes do primeiro escalão do (des)governo. Seus líderes, aliás, não têm priorizado o bem comum, mas apenas e tão somente os bens individuais de menos de 5% da população.

As pessoas que tiverem boa memória haverão de lembrar-se que já na campanha de 2018 a mentira fazia parte da estratégia que levou à vitória os áulicos que passaram a povoar a esplanada de Brasília.

Antes mesmo da célebre “fakeada” que poupou o medíocre candidato dos debates que o teriam nocauteado no começo do primeiro turno, o uso sistemático de mensagens mentirosas - as tais “fake news” - foi recorrente e meticulosamente planejado.

Mentiras aparentemente pueris até verdadeiros atentados à dignidade de adversários, desde então tratados como inimigos (próprios daqueles que, na falta de argumento e propostas de governo, recorrem ao delírio e ao pânico dos desavisados para angariar credibilidade e prestígio), tornaram 2018 o ano do estupro à democracia.

O uso das redes sociais foi, de longe, a principal trincheira de uma guerra ideológica. A propaganda pela televisão, também ao estilo da guerra fria, com uma voz grave como a utilizada nas campanhas imemoráveis dos anos 1960-1970, não apenas deu o contorno subliminar castrense que avalizou um inepto quase desertor como salvador da pátria, mas eixo-motriz de recursos nada ortodoxos, nas democracias modernas, maquiados de patrioteiros.

Aliás, o rótulo auriverde foi em parte responsável pelo triunfo de uma campanha destituída de propostas, planos e projetos. Era o negacionismo e a orgástica patriotada se misturando a uma perniciosa vontade de destruir tudo que pudesse lembrar o período Lula-Dilma, que inegavelmente distribuiu oportunidades a todos os segmentos sociais do país-continente que despertava para uma fase soberana.

A “aglomeração cívica” (ou, melhor, cínica!), quase um condomínio como o da Barra, nunca apresentou qualquer esboço que pudesse ser chamado de plano de governo. Apenas “fake news”, ofensas gratuitas e ameaças. Tanto que quando chegou ao Planalto não tinha qualquer medida de impacto para “causar”, para servir de divisor de águas.

Rótulos à parte, por que Guedes, Moro e Malafaia passaram a integrar o condomínio verde-amarelo? Qual é o traço de união entre essas personalidades aparentemente tão díspares?

A mentira. Cada qual em sua atividade, o abuso da mentira é uma característica comum. O chefe, grande blefador, desde os tempos da caserna (e mais ainda em sua obscura trajetória parlamentar de quase três décadas). O pinochetista e banqueiro falido (e que também ajudou falir o Grupo Abril ao assumir o comando da Abril Educação), engrupiu seu líder ao se apresentar como “posto Ipiranga” e dizer que o mercado lhe daria apoio incondicional ao seu lado. O vaidoso e medíocre juizeco provinciano que achou que podia enganar todo mundo, idem (só se esqueceu de combinar com os seus perseguidos, muitos deles com grande respaldo popular, como Lula). Talvez o mais habilidoso de todos, até por força da elevada concorrência que hoje seu ofício encontra, seja o autoproclamado bispo neopentecostal, do tipo “vende mas não entrega” (não precisou estar no ministério, tem vários deles ao seu serviço).

O grande problema que o mentiroso, de tanto mentir, acaba acreditando nas próprias mentiras, aí vira refém de si mesmo. É o que passou a atrapalhar as relações entre os “superministros” e seu chefe. Não que fossem incompetentes, mas os problemas foram avolumando (os reais, em especial).

Aquele que diz ser o dignitário queria que seu “posto Ipiranga”, seu juizeco-ministreco e os demais ocupantes de cargos do primeiro escalão tirassem de suas cartolas a panaceia milagrosa do Messias (sic), e pronto, o Brasil verde-amarelo já estaria como por encanto nas prateleiras dos supermercados, pronto para o consumo.

Para muitos, são os aliados do mercado os que o mantém no palácio. Pode até ser. No entanto, se pensarmos bem (e isso vale como autocrítica para os setores progressistas), a oposição o tem ajudado com seu excesso de vaidade. Principalmente do Ciro Gomes, muito ensimesmado, arrogante e contraditório. Mas não é o único, logo aparecerão os outros, igualmente precipitados, sobretudo num momento como este.

Se algum parlamentar bem articulado tivesse a iniciativa de elaborar um projeto de lei na Câmara dos Deputados tornando a mentira de agente do Estado crime passível de sanção penal, não duvido que muitos integrantes desse (des)governo iriam para o olho da rua, aliás, de onde saíram para chegar ao poder, sem qualquer comedimento nem prudência.

Mais que medida saneadora, trata-se de um mecanismo de defesa da democracia, pois é recorrente o desejo dos mais poderosos de inaugurar um regime, sob a capa auriverde e o manto da impunidade...

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

REFLEXÃO, DEBATE E AÇÃO EM DEFESA DA SAÚDE

 REFLEXÃO, DEBATE E AÇÃO EM DEFESA DA SAÚDE

Em razão de vários comentários ponderados e, sobretudo, reflexivos, volto ao tema de “Cenas surreais na Maternidade de Corumbá”. Não foram poucas as observações relativas a diversos aspectos do episódio, fato que evidencia tratar-se de questão represada pelo compasso de espera que tem caracterizado a longeva crise da Associação Beneficente Corumbaense.

O episódio que culminou com a ação de efetivos da Polícia Militar em dependências da Associação Beneficente Corumbaense - sob mais uma intervenção municipal há quase 10 anos - expõe a ponta do iceberg de uma crise com quase quatro décadas, cujo ponto nevrálgico é a gestão, sempre a gestão, do único hospital do SUS da região, que atende uma população superior a 120 mil habitantes, inclusive do outro lado da fronteira.

Na tentativa de equacionar os graves problemas financeiros da Sociedade Beneficência de Corumbá (entidade mantenedora do Hospital de Caridade e da Maternidade), em 1994, a administração municipal se decidira por uma malograda intervenção municipal. Com o agravamento da crise financeira, foi procurada uma saída honrosa, avalizada pela credibilidade de Dom José Alves da Costa, com a indicação do binômio Padre Antônio Müller e Doutor Lamartine Costa. Assim que a gestão começava a desvendar os gargalos administrativos, o Padre Antônio Müller adoeceu gravemente, precisou ser transferido para o Paraná (onde se eternizou), e o Doutor Lamartine Costa tentou de todos os meios prosseguir com as medidas acordadas quando de sua indicação.

Anos depois, em 1999, assim que o Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais (FORUMCORLAD) protagonizou, na memorável gestão da Doutora Rosemeire Fernandes Arias, a coordenação do processo transparente de eleição dos membros dos segmentos dos usuários do SUS e dos trabalhadores em saúde do Conselho Municipal de Saúde, sob a fiscalização do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, aquele lócus promoveu dois seminários memoráveis para debater a questão, com a participação de diversos agentes públicos das diferentes instâncias. Foi, então, construída uma agenda para equacionar o velho problema, com o aval da Secretaria de Estado de Saúde e o Conselho Estadual de Saúde, além do acompanhamento pelo Ministério Público.

No período em que o Doutor Mário Sérgio Kassar foi gestor municipal de Saúde (entre 2000 e 2004), memoráveis medidas saneadoras foram adotadas, devidamente discutidas entre as partes, muito bem representadas: usuários do SUS, trabalhadores em saúde, prestadores privados e o gestor público (que como então a gestão era compartilhada com o estado, havia uma parceria bem objetiva e racional). A implantação do Conselho Gestor de Saúde do Hospital se realizou nessa ocasião, sob condução da saudosa Heloísa Helena da Costa Urt. Destacou-se então um importante interlocutor do segmento de prestadores privados como um parceiro do SUS, o saudoso Doutor Humberto da Silva Pereira, embora a direção do hospital insistisse numa postura intransigente.

Outro momento em que o diálogo, ainda que muitas vezes sob tensão, teve a necessária efetividade, foi na gestão do Doutor Lauther da Silva Serra, ora contundente na defesa de suas posições, mas efetivo quando convencido pelos membros do Conselho Municipal de Saúde. Tentou-se efetivar nesse ocasião, em caráter permanente, o atendimento à população ribeirinha e à população Guató, com a aquisição de “ambulanchas” e recursos tecnológicos para assegurar dignidade àquela população historicamente esquecida, mas que não avançaram na gestão da Professora Dinaci Ranzi.

Como a partir de então o FORUMCORLAD deixou de coordenar e monitorar os processos de eleição e composição do Conselho Municipal de Saúde e conselhos gestores de saúde (bem como similares de outras políticas públicas), um dos primeiros conselhos gestores a ser colocado na berlinda foi o do Hospital de Caridade. Depois do empenho de membros do Conselho Municipal de Saúde junto à Procuradoria da República quando a Doutora Maria Olívia Pessoni Junqueira se encontrava em Corumbá é que o Conselho Gestor de Saúde do Hospital, bem como a situação geral da Santa Casa, foi objeto de atenção pelo gestor e pelo próprio lócus. Mas com a pandemia, indiscutivelmente, houve um refluxo nas atividades de controle social.

Isto exposto, e graças ao recebimento de comentários bastante ponderados, compartilho três deles, preservando a identidade do(a)s Amigo(a)s que os fizeram, por razões óbvias.

O primeiro comentário é de um profissional jovem, que tenho a honra de acompanhar desde tenra idade, cuja competência e dedicação têm sido elogiadas em nossa região:

“Boa tarde, amigo!

“O ocorrido não foi na Maternidade, e sim na Pediatria.

“Infelizmente, o cenário foi bem diferente do divulgado.

“Toda a equipe foi mobilizada na tentativa de resolver o problema, mas não houve colaboração por parte da família.

“Nossa estrutura é péssima, mães recém operadas ficam em poltronas inadequadas para acompanhar seus filhos durante a internação.

“Seria justo, ético, humano, deixar que apenas uma criança tivesse todo esse amparo?

“E as outras que estavam internadas pelo SUS, por que não teriam o mesmo direito?

“Infelizmente há a crença de pagar e dar o ‘jeitinho’.

“O Regimento Interno é para todos.

“Acredite, nossa equipe Maternidade/Pediatria, mesmo desvalorizada, trabalha com o melhor que temos, o amor!!!

“Grande abraço.”

O segundo comentário é de um profissional de competência igualmente reconhecida e que também tenho a honra de acompanhar há décadas. Participou da gênese de espaços públicos a que nos referimos, mas por razões pessoais precisou se desligar, sem, no entanto, ter perdido de vista o compromisso com a cidadania e o rigor profissional.

“Olá, bom dia, Ahmad!

“Assisti às cenas do episódio a que você se refere. E, realmente, são impactantes. Mas, fiquei tentando entender o que realmente aconteceu. Por um lado, o que levou a senhora envolvida a ‘descumprir’ uma regra tão propagada, constante em lei, alvo de um sem fim de apelos pela vida? E mais, segundo informações, a se recusar a colocar a máscara? Afinal, ela estaria em visita a uma parente no interior de um local onde as pessoas estão, de certo modo, debilitadas... (???). Por outro lado, qual teria sido a atitude imediata dos funcionários daquela casa de saúde diante do ocorrido? Qual teria sido a resposta da senhora a essa atitude? O que aconteceu que levou os funcionários a recorrerem à força policial?

“Enfim, desprovidos desses dados, só podemos refletir que apesar da avalanche de informações e apelos diante dos estragos que essa pandemia tem nos trazido, nada disso conseguiu sensibilizar verdadeiramente muitas pessoas, que continuam se aglomerando por diversão ou mesmo por medo (negacionismo) de acreditar no risco iminente que correm e espalham. Que assumem atitudes de afronta aos meios possíveis, disponíveis, de preservação da vida diante de uma ameaça real, à preservação da vida dos seus em que a dos outros não importa mesmo.

“Talvez, sejamos reféns do medo que nos leva às mais diversas formas de respostas. Então, é um momento de mantermos o equilíbrio para não piorarmos mais a situação. E, lamentavelmente, são atitudes como essas que continuarão levando mais pessoas queridas para o cemitério.

“Na cena em particular, entendemos que houve exagero de todos os envolvidos. Realmente, não precisava ter chegado onde chegou. Lamentável como o ser humano não consegue se identificar, se reconhecer como ser humano. Vou parando por aqui porque o assunto dá margem para longa reflexão que não cabe no momento. Só não podia deixar de refletir o mínimo que fosse. Forte abraço.”

O terceiro comentário é de autoria de uma profissional que também tenho a honra de acompanhar há décadas. É pioneira nas pesquisas em saúde social e controle público, e que, graças à sua sensibilidade cidadã, foi determinante na disseminação da pioneira, mas modesta, experiência do FORUMCORLAD, não só em nível estadual, mas nacional e internacionalmente (era representante da Rede Brasil quando foi possível construir o monitoramento do Programa BID Pantanal e a Plenária Permanente de Fóruns de Políticas Públicas de Mato Grosso do Sul).

“Compa Schabib, os hospitais em seus rompantes de autoridade impõem à população o controle sobre os corpos de acordo com a classe social. E, nos hospitais ditos ‘filantrópicos’ isso ainda fica à mercê do poder dos donos... Esse episódio me dói, mas não é exceção, infelizmente! Que dor é essa que não cessa nenhum dia e nenhuma hora?”

Acredito que o debate - sadio, necessário e inadiável - esteja apenas começando, em benefício de toda a coletividade, sobretudo daqueles que não têm voz e vez, preteridos historicamente. Apesar das limitações impostas pela pandemia, nos empenharemos para que a dialética, reflexão-debate-ação, encontre eco entre os agentes públicos.

Porque a centenária entidade hospitalar, patrimônio histórico de nossa população, é a que acolhe, nos momentos de fragilidade, a todos os moradores e visitantes de nossa região. Até como prova de gratidão e carinho por essa casa de saúde cujos dedicados profissionais, com denodo e compromisso ético, têm se doado diuturnamente, expondo-se aos riscos de infecção pela covid-19, muitos dele(a)s tendo ofertado a própria existência no exercício de sua labor, muitas vezes incompreendida.

Obrigado a todo(a)s o(a)s Amigo(a)s que altiva e generosamente nos enviaram seus comentários, os quais serão oportunamente compartilhados, desde que o(a)s autore(a)s autorizem previamente.

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

CENAS SURREAIS NA MATERNIDADE DE CORUMBÁ

 CENAS SURREAIS NA MATERNIDADE DE CORUMBÁ

Em sã consciência, não há nada que justifique intervenção policial no sagrado espaço em que nosso(a)s filho(a)s vêm ao mundo. Onde estão o Humaniza SUS e demais programas criados com base na ciência, no amor e em valores civilizatórios? Cadê os Conselhos Municipal e Estadual de Saúde, o Conselho Gestor do Hospital, os FUSUS municipal e estadual? É hora de tomar atitude!

Vídeos com imagens surreais de familiares de uma parturiente na Maternidade de Corumbá e a ação de efetivos da Polícia Militar vêm causando perplexidade e indignação em todos os segmentos da população. Assim como não devemos criminalizar a família da mãe que estava internada com o(a) recém-nascido(a), obviamente não podemos a priori condenar os policiais que foram chamados a intervir no interior do sagrado espaço onde nosso(a)s filho(a)s vêm ao mundo. Mas podemos e devemos questionar a hipotética “gestão de crise” que não soube agir com base em programas há décadas implantados no Hospital de Caridade e na Maternidade de Corumbá, entre os quais o Humaniza SUS.

Qualquer que fosse o cenário de crise, a Maternidade é um local que não pode nem deve admitir forças de segurança em seu interior, sobretudo em tempos de pandemia. Além disso, aquela casa de saúde dispõe de profissionais de todas as áreas para uma eventual gestão de crise, como psicólogos e assistentes sociais, ademais de médicos, enfermeiros, nutricionistas e técnicos de enfermagem. Não é um administrativo que deve atuar num momento de adversidade, até porque há vidas inocentes em questão. Parece termos voltado um século atrás nestes tempos sombrios em que a racionalidade e todo o avanço protagonizado pela cidadania depois de 1988 se diluíram inexplicavelmente.

Graças à imprensa e às redes sociais foi possível que a população local tomasse ciência desse episódio que nos envergonha não só como moradores do coração do Pantanal e da América do Sul, mas como a primeira região em Mato Grosso do Sul a efetivar o controle social de políticas públicas de saúde, assistência social, direitos da criança e do adolescente, das pessoas com deficiência, do negro, da cultura etc. Desde 1993, fomos protagonistas de conquistas exemplares, por meio do incansável Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (Forumcorlad), que durante quase 20 anos atuou, com independência e desenvoltura, na composição/monitoramento de pelo menos 14 lócus (entre conselhos, conselhos gestores e comitês).

Durante o período de 1993 a 2012, Corumbá e Ladário foram referência no controle social não só no estado como em Mato Grosso e no Distrito Federal, a ponto de pelo menos quatro fóruns estaduais terem adaptados o regimento interno e os princípios norteadores do Forumcorlad para disciplinar seu funcionamento e dinâmica interna: o FUSUS/MS, o FEDCA/MS, o FORMADS/MS, o FORMAD/MT e o da Cultura de MS. Em 2000, momento de uma intervenção qualificada dos setores organizados da sociedade civil sul-mato-grossense, chegamos a criar a Plenária Permanente de Fóruns de Políticas Públicas de Mato Grosso do Sul (PPFPP/MS), que, em decorrência do governo centralizador e de cooptação de representantes não governamentais instalado em 2007, aos poucos todas essas importantes conquistas foram deixando de existir, como em efeito dominó.

Inegavelmente, foi um tempo de total sintonia entre a sociedade civil organizada e os promotores de Justiça e procuradores da República. Isto é, o Ministério Público Federal e de Mato Grosso do Sul, sobretudo a Doutora Sara Francisco da Silva, a Doutora Andréia Cristina Peres da Silva e o Doutor Ricardo Mello Alves (do MP/MS) e o Doutor Carlos Humberto Prola Júnior e o Doutor Wilson Rocha Assis (PR/MS). Cada qual ao seu tempo e graças à desenvoltura com que desempenharam seu cargo, rigorosamente à luz da legislação, a cidadania local teve assegurados importantes direitos durante esse período. Honroso e fecundo período, aliás.

Felizmente, temos na atualidade excelentes promotores de Justiça e procuradores da República, sempre pautados nos mais rigorosos critérios de Justiça e de compromisso com o Estado de Direito. Para não incorrer em qualquer temeridade, não farei citação de seus honrados nomes, mas a sintonia é igualmente profícua e republicana. A atuação do Ministério Público, seja de Mato Grosso do Sul como da União, tem sido uma garantia para a atuação da cidadania no exercício de seus deveres/direitos junto aos órgãos colegiados de controle público. Não por acaso, é recorrente a procura de representante dessa importante instituição por membros de diversos conselhos e comitês, na ânsia de assegurar cumprimento das garantias constitucionais.

Entretanto, hoje, além de, lamentavelmente, vermos esses lócus (conselhos, conselhos gestores e comitês) reduzidos a instâncias burocráticas destituídas de iniciativa própria, seus membros, salvo honrosas exceções, têm se restringido a papéis subalternos da burocracia estatal, em todas as instâncias. E, me permitam a sinceridade, como permitir que um conselheiro apenas se licencie da função relevante para a qual foi eleito em foro próprio (é o que determinam as leis federais que tratam, cada qual em seu texto próprio, da composição do conselho) para se candidatar para vereador ou qualquer outro cargo eletivo? No memorável tempo do Forumcorlad, nada disso era permitido: ninguém estava impedido de ser candidato ao que quisesse, mas para sê-lo precisava abrir mão da (renunciar à) função de conselheiro, até porque não se pode ser conselheiro com vínculo com os grupos políticos que controlam o Executivo ou o Legislativo.

Não tenho dúvida de que, em 2012, por tal razão, nos enxotaram como representantes do Forumcorlad, por meio de ameaças de toda sorte. Resistimos até o último momento, mas o(a) então promotor(a) de Justiça da época não se manifestou, embora tivéssemos reunido diversos documentos expondo as arbitrariedades. Ao contrário, membros de uma conduta comprovadamente ilibada foram alvo de acusações absurdas, felizmente repelidas com altivez e serenidade. A bem da verdade, a Prefeitura de Ladário, sob a condução do Professor José Antônio Assad e Faria, teve um comportamento íntegro e, com total transparência, permitiu o exercício pleno dos membros do Forumcorlad. Os então gestores de políticas públicas de Corumbá, à revelia do então prefeito, tentavam o tempo todo deslegitimar ou duvidar da competência dos cidadãos eleitos no âmbito do mais antigo e modelar espaço público não estatal.

Decorridos quase 10 anos, o resultado é este: o controle social diluído e invisibilizado, as unidades de saúde sem o efetivo monitoramento dos lócus legal e legitimamente criados por força de lei federal e respectivas legislações estadual e municipais e, mais grave, em plena pandemia o não cumprimento dos princípios que devem reger a administração pública, levando a episódios lamentáveis como o ocorrido na Maternidade de Corumbá. Mais que questão policial, trata-se do esgotamento de um modelo de gestão em que o improviso e a falta de transparência levam a qualidade dos serviços de saúde ao campo do embate literal.

É hora de parar com isso. É hora de respeitar o usuário do SUS como cidadão, não como integrante de horda de meliantes sobre as quais as forças policiais têm que intervir. Em respeito, sobretudo, à memória de generosos cidadãos que dedicaram seus melhores momentos de suas vidas em favor dessas conquistas, como o Padre Pasquale Forin, Dom José Alves da Costa, Padre Ernesto Sassida, Padre Antônio Müller, Pastor Antônio Ribeiro de Souza, Pastor Cosmo Gomes de Souza, Irmã Beatriz de Barros, Doutor Humberto da Silva Pereira, Heloísa Helena da Costa Urt, Aurélio Mansilha Tórrez, Ariodê Martins Navarro e José Batista de Pontes, entre tantos outros não menos importantes.

Ainda que vivamos sob a sufocante pressão de tempos sombrios, em que o argumento da força teima sobrepor-se à força do argumento, precisamos exercer nosso inalienável direito-dever de transformar essa lógica perversa. Somos todos usuários dos SUS, somos todos cidadãos: é hora de somar para multiplicar, não podemos silenciar diante de atos e intentos funestos de retroagir aos tempos medievais. Um mais um é sempre mais que dois, portanto, somemos nossa indignação e transformemos esta realidade bizarra que nada tem a ver com nossa história coletiva recente, e muito menos com a história de cada um dos protagonistas dos generosos tempos conquistados.

Ahmad Schabib Hany

 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

O COMITÊ POPULAR E A CONJUNTURA DE PANDEMIA

O COMITÊ POPULAR E A CONJUNTURA DE PANDEMIA

Dedicamos este momento à memória das mais de duas centenas de milhares de vítimas fatais da covid-19 no Brasil, na pessoa do grande e querido Companheiro Padre Pascoal Forin, que nos deixou na madrugada do dia 10 de janeiro.

A História, para os que a compreendem como meio de emancipação popular, representa o conjunto de saberes coletivos, se apropriados, capazes de transformar a realidade, sempre adversa para a imensa maioria da população.

Sem nos pretendermos donos da verdade - ao contrário, dando voz e vez ao verdadeiro protagonista da História, a classe trabalhadora -, desde 1993 incessantemente tentamos, e insistimos continuar tentando, que cabe a todas as pessoas invisibilizadas a construção do novo tempo há tanto tempo esperado, há tanto tempo prometido.

Nós, do Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa - como passou a denominar-se desde abril de 2013, depois de aproximadamente 20 anos como Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (FORUMCORLAD) -, temos como eixo motriz a prática, e somente a prática, como critério da verdade.

Assim, quando a pandemia de covid-19 impôs novas relações sociais, nos somamos às trabalhadoras e trabalhadores da Educação de Corumbá e Ladário e às demais entidades, categorias, segmentos, movimentos e instituições desassossegados para construirmos um espaço popular para o enfrentamento do novo coronavírus, e por extensão dos grupelhos que, sob a proteção de um (des)governo cada vez mais fascista, vão se fortalecendo de modo crescente, na ânsia de impor ao povo brasileiro um regime aos moldes de 1964.

O enfrentamento à covid-19 é, sim, uma questão política. Ao contrário do que aparenta, não se trata de assistencialismo, mas uma ação política planejada, com definição de estratégia e tática, de modo a construir um protagonismo afirmativo, proativo, no momento em que o país está sendo submetido a um cenário sombrio e autoritário.

Por se tratar de ação que requer estratégia, e hoje o voluntarismo e o espontaneísmo predominam entres nossos Companheiros e Companheiras de gerações mais jovens, pode e deve ter causado incômodos entre os menos experientes ou mais afoitos.

Apesar de avanços e recuos, o simples fato de estarmos resistindo de forma proativa já nos motiva e mobiliza para continuarmos a jornada. Até porque o CPEP não veio para substituir o centro operacional integrado por técnicos e cientistas. Nosso papel não é outro senão construir, articular e fortalecer a rede popular de controle e participação cidadã, seja junto aos fóruns e, sobretudo, aos conselhos e gestores de políticas públicas (tanto em Corumbá como em Ladário).

Para concluir, a dinâmica do CPEP é totalmente horizontal e adotou três frentes de ação em seu início de atuação: a) a de solidariedade (encarregada da atenção emergencial de famílias em situação de vulnerabilidade, com foco para desempregados e migrantes, que, aliás, já fez entrega de donativos a famílias atendidas pela Pastoral da Mobilidade Humana e pela CRIPAM); b) a de educação popular (frente a se encarregar da formulação de campanha educativa, que inclui a prevenção à contaminação pelo novo coronavírus e de difusão de proteção de direitos individuais, coletivos, sociais e difusos), e c) a de controle social (com foco na transparência da aplicação e efetividade dos recursos para o enfrentamento da pandemia, bem como o fortalecimento do SUS).

Obviamente, se for possível ampliar nossa articulação com a participação de entidades e movimentos de âmbito estadual, o tensionamento, a correlação de forças, será muito mais favorável para as camadas populares, seja no monitoramento da campanha de vacinação, bem como na efetivação de estratégias de contenção do contágio pelo novo coronavírus. Como nunca, é preciso somar para multiplicar.

Avante na luta!

Corumbá (MS), 5 de fevereiro de 2021.

ODJAC (Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa), um espaço público não estatal, instituído em assembleia-geral ordinária de abril de 2013 do FÓRUMCORLAD (Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário), fundado em setembro de 1994, que durante aproximadamente 20 anos atuou no processo de composição dos órgãos colegiados de controle social de Corumbá e Ladário.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

POBRE PAÍS, POBRE SOCIEDADE SUICIDA...

 POBRE PAÍS, POBRE SOCIEDADE SUICIDA...

A vacina Sputnik V não é aprovada pela Anvisa porque, em plena pandemia, não seguiu os trâmites da burocracia; no maior acinte, o governo integrado por fascistas assumidos estupra mais uma vez a República e os autoproclamados democratas fingem que não é com eles; a quadrilha da “Leva Jeito” fica com os glúteos expostos, mas o cartel do golpe (Globo, Abril, Folha e Estadão) protege os justiceiros porque “as gravações foram obtidas ilegalmente”. Como nunca, fica escancarada a hipocrisia de uma sociedade de míopes cujas elites insistem em dar as costas para o próprio futuro...

Neste Dia da Padroeira de Corumbá, Nossa Senhora da Candelária, o planeta não pôde ter ficado indiferente diante da revelação, por uma renomada revista científica, de que a vacina russa de nome sugestivo, Sputnik V, apresenta uma eficácia de 91,6% - portanto, superior a muitas ocidentais e à similar chinesa, estigmatizada anteriormente pelos “impolutos” membros da corte senhorial que agora usa a “soberania” como defesa quando há muito abriu as pernas e escancarou suas fétidas vergonhas para o mundo...

E o que têm esses senhores “impolutos” a ver com este fato histórico?

Enquanto seus sinistros e tacanhos chefetes lançam mão de toda ordem de mezinhas para sustentar seus ignóbeis argumentos de negação da ciência - como que ignorantes da medicina pudessem opinar ou prescrever “tratamento preventivo” pelo simples fato de estarem ocupando cargos do primeiro ou segundo escalão e, mais grave, disporem dos recursos públicos para comprar e distribuir para todo o país a garrafada verde-amarela (sic) enquanto faltam medicamentos e insumos imprescindíveis para a imensa maioria de usuários do SUS -, a ANVISA não autoriza o uso emergencial da Sputnik V porque - ah, sim! - os seus representantes no Brasil não seguiram os trâmites legais.

Aos amigos tudo; aos inimigos os rigores da lei. Aliás, era assim como “O Pasquim”, o mais odiado e perseguido semanário brasileiro da história, escancarou a “justissa” (com dois “ss”, não sabemos se de SS, a temida legião hitlerista, ou da inépcia própria dos pouco letrados obscurantistas patrioteiros cujos órfãos tentam ressurgir com a abertura da caixa de pandora em 2016) praticada nos tempos de “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Esses mesmos monstrengos, de competência duvidosa e pouco chegados ao trabalho desde que assumiram postos-chave por eles tão cobiçados, dedicam a maior parte do tempo a verdadeiras conspirações contra o Estado Democrático de Direito. Não gostando de jogar o jogo limpo, recorrem a todo tipo de ardil, para o qual criam inimigos imaginários, e assim justificar a inobservância à boa prática republicana. Não por acaso impuseram sem constrangimento seus áulicos nas duas casas legislativas, de modo a blindar o presidente e seus dependentes diretos e indiretos.

Mas como é possível estuprar impunemente a República à luz do dia?

Simplesmente porque há uma grande maioria de pseudodemocratas que foram eleitos para agir como representantes cartoriais de interesses muitas vezes inconfessáveis, como a famigerada bancada “BBB” (da bala, da Bíblia e do boi). Além de bem articulada e poderosíssima, usa a pressão, de cima para baixo, ao contrário da lógica democrática. Agora, com a ascensão do grupo declaradamente fascista, o mecanismo passa a ter uma dinâmica, digamos, “aritmética”, prescinde de qualquer engenharia política, do jeito que o pouco iluminado líder gosta.

Como se isso não bastasse, há aqueles autoproclamados democratas de uma tibieza insólita, para os quais, sem quaisquer escrúpulos, é preferível conviver com a extrema-direita (para se vangloriar como arautos da democracia) a ter que construir uma sólida base parlamentar de sincera e autêntica defesa das liberdades democráticas, da soberania nacional e popular e do conjunto de conquistas consignadas na legislação pós-Constituição Cidadã, entre elas a rede de proteção social, o controle cidadão das políticas públicas e o conjunto de leis ambientais, de acessibilidade e de redução das desigualdades sociais.

Embora o golpe de 2016 tivesse sido gestado pela trupe de Aécio Neves (que inclui todo o tucanato e seus aliados de passado democrata), a horda fascistoide do chamado baixo clero do parlamento brasileiro é que soube, pela mão de Eduardo Cunha, se apossar com toda destreza do serviço sujo, isto é, do desmonte do Estado Democrático de Direito. É mais ou menos o que ensina o adágio popular: “Vergonha é roubar e não poder levar.”

Todo o ardil dos “democratas arrependidos” esteve baseado, sobretudo, na quadrilha da Leva Jeito (ou seria Luva Justa?), de triste memória. Seus principais expoentes, Sérgio Moro e Daltan Dallagnol (que flertaram com os mefistofélicos da Barra, acreditando dar-lhes o golpe durante o início do mandato), ficaram com os glúteos expostos com a liberação das gravações de conversas nada republicanas, próprias de serviçais golpistas de quinta categoria. Ainda têm o partido da imprensa golpista (PiG), como o saudoso Jornalista Paulo Henrique Amorim costumava chamá-lo: Globo, Abril (ainda que falida), Folha e Estadão insistem na blindagem aos seus “heróis” com patas de barro, teimando na tese desbotada de que os vergonhosos diálogos entre o juizeco e uma das partes devem ser ignorados porque a interceptação das mensagens “foi obtida ilegalmente”.

Todos esses meios usaram e abusaram de gravações ilegais ao longo de todo o processo de desgaste do governo de Dilma Rousseff e de criminalização da política com base na estigmatização da esquerda, em especial do Partido dos Trabalhadores e de seu líder máximo, o ex-presidente Lula, até conseguir levá-lo à prisão sob os holofotes da Vênus platinada. A “classe mé(r)dia”, que não saía das ruas em sua “luta contra a corrupção”, hoje finge não saber de escândalos como a flexibilização da regulamentação ambiental, do esvaziamento da fiscalização do Ibama e ICMBio, da demora no enfrentamento das queimadas criminosas na Amazônia e Pantanal, do corpo-mole no enfrentamento da pandemia de covid-19, da demora na vacinação, do esquema de “rachadinhas”, do leite condensado superfaturado e do leilão de cargos do primeiro e segundo escalões do (des)governo Bestassauro para impor seus candidatos a presidente das casas legislativas.

As elites míopes e excessivamente egoístas podem até enganar seus contemporâneos, mas sua postura cinicamente suicida, por fingir que desconhece o desmonte do Estado brasileiro pela horda que tomou de assalto os destinos da nação, será registrada pela História. Trata-se de uma ignóbil atitude de ema diante do risco iminente de pôr a perder todas as conquistas dos últimos dois séculos, obtidas a um elevado custo humano, com o vexatório propósito de jogar na lata do lixo os avanços sociais que culminaram com a Lei da Empregada Doméstica, a Lei Maria da Penha e a Lei de Cotas (sociais e raciais), entre outras.

Pobre país, tão longe da razoabilidade das elites e tão perto do entreguismo cínico dos patrioteiros de plantão... Não restará aos poucos seres minimamente indignados ter que refundar a República, mas desta vez com a efetiva participação da sociedade, por meio dos setores organizados e forjados na luta pelas liberdades democráticas. Mais uma vez, o reencontro do país-continente com a História se dará mediante a efetiva participação dos setores organizados da sociedade, sob pena de enveredarmos num perigoso rumo de recolonização de consequências imprevisíveis.

Ahmad Schabib Hany