sexta-feira, 29 de abril de 2022

NELSÃO, TESTEMUNHA DE SEU TEMPO

Nelsão, testemunha de seu tempo

Nelson Fernandes, barbeiro filho de barbeiro, não só lutou pela sua categoria como exerceu sua cidadania como testemunha ocular de seu tempo.

Todo corumbaense com mais de 40 anos conheceu o emblemático Salão Imperial em seus apoteóticos tempos, à rua Delamare, bem próximo da gloriosa Rádio Clube de Corumbá, do saudoso Café Ouro Verde (do típico mate gelado) e do concorrido e longevo bar O Corujão, além do inesquecível MultiCoffee que marcou época na década de 1990. Diferentemente de hoje, aquela quadra era o centro dos acontecimentos jornalísticos da cidade, como fora em décadas anteriores a quadra da rua Treze de Junho ao lado da capela do agora saudoso GENIC, onde à época inovadora Pioneira, a Rádio Difusora Mato-grossense S/A, também atraía protagonistas, testemunhas e consumidores da notícia em tempo real.

Foi nesse ambiente que o então jovem cabeleireiro Nelson Fernandes -- que fazia questão de ser reconhecido como ‘barbeiro’, profissão que herdou do pai em seu paradigmático Salão Imperial -- se tornou profissional desenvolto e, sobretudo, cidadão atuante não só na defesa da categoria (chegou a ser vice-presidente da Associação dos Cabelereiros Profissionais de Mato Grosso do Sul, quando a querida Amiga Elígia Ada Meza, murtinhense com orgulho, foi presidente, em fins da década de 1990), como no acompanhamento dos desdobramentos políticos locais e regionais.

Como bem o Professor Valmir Corrêa o definiu quando militava na política corumbaense: “O Nelsão não faz só o cabelo, ele colhe o depoimento da gente também...” Embora o conhecesse do tempo em que a saudosa Doutora Laurita Anache generosamente me emprestava o telex da emissora que dirigia para transmitir meu material, foi no convívio com o saudoso Márcio Nunes Pereira, diretor do aguerrido Diário de Corumbá, que nos aproximamos, até porque o Nelsão não só era Amigo do Márcio, como uma de suas mais confiáveis fontes, vez que transitava em todos os meios políticos.

Certa feita, tomei a liberdade de lhe fazer uma pergunta sobre essa longeva relação, e o agora saudoso Nelsão, enigmático, saiu-se pela tangente: amizade é amizade, o Márcio era merecedor das notícias mais fidedignas, tanto que nunca perdeu um processo de seus desafetos, embora o Doutor Joilce Viegas de Araújo fosse um grande causídico. Pois é, nem sim, nem não. Nada a declarar. Esse era o grande Nelsão, grande de estatura, de dignidade e de coração.

Quando o querido Chicão não pôde mais acolher o saudoso Professor e Amigo Augusto Alexandrino dos Santos, o querido Malah, em sua sala, porque precisou vendê-la para procurar novos horizontes profissionais no início da década passada, foi o Nelsão que o acolheu, fazendo de sua sala sua morada derradeira em Corumbá, é que depois precisou se mudar para Campo Grande e tratar de sua saúde, e pouco tempo depois se eternizou. Aliás, o mesmo problema que abateu o Nelsão, o diabetes, essa enfermidade silenciosa que castiga seus portadores.

Nelsão foi a verdadeira testemunha ocular da história nas últimas décadas. Mas não se limitara a ‘assistir de camarote’, e muitas vezes protagonizou iniciativas históricas, que, como ninguém, o querido Amigo e Jornalista Adolfo Rondon Gamarra sabe narrar em detalhes. Uma delas, reveladas pelo Malah, é aquela em que os dois se viram envolvidos em processo judicial por um gestor municipal que havia se ofendido por uma charge do inesquecível artista gráfico e o Nelsão se encarregara de organizar um bloco informal nos dias de carnaval. Ainda que o bloco não conseguira concluir sua peregrinação cívica durante o reinado de Momo, o processo judicial continuara, para surpresa dos dois. Mas o fato de não terem grafado o nome correto dos acusados, acabaram não precisando contratar um advogado para defendê-los.

É claro que Nelsão nunca foi uma unanimidade. Para muitos ele era o ‘língua preta’, mas nem por isso ele se acanhava, declinava de sua vocação cidadã. Quando Malah integrava um projeto editorial, dez anos atrás, ele, solidário, recorreu aos mais diferentes amigos seus para tentar tornar exequível o projeto de seu Amigo. Mas a Vida foi breve para o Malah, e acabou desistindo da iniciativa. É que para ele, Amizade é Amizade, e não era qualquer um a merecer seu esforço, seu apoio. Como também ele se julgava no direito de criticar quem merecesse sua indignação, sua ira santa.

Corumbá não mais será a mesma sem a sua percepção apurada. Com ele se encerra uma plêiade de cidadãos de diferentes profissões, classes sociais e posições políticas que priorizaram o zelo, o amor pela Corumbá de todos os clamores, todos os povos, sem se submeter à (má) vontade dos mandarins de plantão. Por maiores as diferenças de opiniões políticas com o Nelsão, é inegável sua coragem e lealdade por aqueles que ele admirava ou com quem se identificava. Coisa para poucos, pouquíssimos, pelo que será lembrado sempre.

Hoje Nelsão já se encontrou com o Malah, o Farid Yunes, o Márcio Pereira, o Joilce Araújo, o Armandinho Anache, o José Carlos Cataldi e, obviamente, seu querido Pai. Por certo nesse reencontro, além da festa, estarão a comentar os atuais fatos e factoides (hodiernamente fakenews) nestes bizarros tempos em que os sem graça e pobres de mentes teimam em levar este país-continente à Idade Média, quando o negacionismo e obscurantismo calavam as vozes dissonantes, porque iluminadas pelos raios de sol, este, sim, astro rei que não se submete a qualquer tipo de tirania.

Até sempre, Nelsão! Fraternal abraço a todos os Amigos que está a reencontrar, e obrigado pelas inúmeras lições de lealdade e coragem por aqueles que Você julgou merecedores de sua estima sincera e vibrante.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 26 de abril de 2022

PATRIOTISMO MOVIDO A VIAGRA

Patriotismo movido a Viagra

Estas semanas têm sido reveladoras do nível inimaginável da patriotada que, sem ter feito qualquer esforço para defender a soberania, vem auferindo vantagens abissais de causar vergonha aos pracinhas que deram a Vida para combater o nazifascismo em solo europeu.

Se arrependimento matasse, o número de, digamos, ‘equivocados’ superaria de longe o das vítimas da pandemia de covid-19. Que, aliás, atingiu essa dimensão pelo desatino de um psicopata de há muito deveria ter sido interditado.

Não que os arrependidos não devam se redimir de um erro crasso, grotesco, no afã de manifestar seus recalques ‘y otras cositas más’ não resolvidas. Têm mais é que fazer penitência pelas consequências nefastas de seu erro. Porque quem faz de seu voto uma arma não é meramente eleitor, mas cúmplice de um crime de proporções continentais...

Mas, com quantos Viagras se faz um patriota? Essa é a pergunta que não quer calar. Meu Amigo João Amorim, um atento cidadão brasileiro que não foge à luta e, do alto de seus 65 anos, ainda não se aposentou, dias atrás me cobrou ‘um texto indignado’: “Não é possível que, em tempos de paz, haja promoção dos altos oficiais e que ressurjam os marechais sem ter merecido tamanha honraria.”

O Amigo João não é político, não vive da política -- como, aliás, a família consorte, incapaz de trabalhar e chegadinha numa contravençãozinha aqui outra acolá --, e se há algo que o deixa indignado é ver espertalhão se dando bem até demais com o suado dinheiro do povo trabalhador.

João é trabalhador desde a infância, que ao voltar do grupo escolar engolia às pressas seu almoço e tirava o uniforme para ajudar o Pai, um nordestino trabalhador que precisou engrossar as fileiras dos retirantes para oferecer um futuro digno à sua querida prole. Ao se separar da esposa, os filhos é que passaram a dar um grande ajutório à Mãe, o que demonstra a sabedoria e o rigor na educação do povo brasileiro.

João, que sempre gostou de trocar ideias comigo, não votou no ex-capitão. E olhe que a pressão foi medonha: ele me confidenciou que até pastores que nunca tinha visto se achegaram para ‘orientar’ e, ‘em nome de Jesus’, pedir para procurar o livramento seu e de seus filhos. Como ele é quem garante o seu sustento, não revelou seu voto, e se sente livre de qualquer arrependimento quando vê as patacoadas feitas à luz do dia...

Fomos vizinhos por mais de quatro décadas. Desde a juventude conversamos de todos os temas, inclusive dos desmandos administrativos nos três níveis. É que, no breve período em que fui correspondente de um jornalão da capital, certa vez o entrevistei sobre os preços das mercadorias na véspera de Natal (de 1984) e me surpreendeu com o nível de informação. Isso nos aproximou muito, até porque passou alguns anos fora do Brasil como técnico de manutenção de fogões a gás, ex-empregado de Paulo Leandro, “o cartão de visitas da Praça Uruguai”, representante exclusivo da Pibigás.

Dias atrás nos encontramos perto da casa do Neder, outro velho Amigo, fotógrafo aposentado. É dele esta crítica certeira, muito próxima de um analista de política tarimbado: “Você viu o decreto para indultar aquele deputado Silveira? Você acha que esse ato foi de graça? Pode acreditar que, se ele não desse essa graça o cara punha a coisa no ventilador, e aí o fedor, digo, o prejuízo era maior...”

“E essa de comprar Viagra, Você pode me explicar? Só falta mandar fabricar supositório de Viagra... O azulzinho já foi adquirido, a prótese de pênis, também, tem até gel lubrificante! Na próxima prestação de contas pode acreditar que terá supositório de Viagra...” Em síntese, João dissecou a lógica do patriotismo movido a Viagra. Agora não é mais verde e amarelo, é azulzinho...

Como todo brasileiro que vive de seu trabalho cuja renda não passa do salário-mínimo, anda descontente com a liberalidade com a carestia. O combate ao custo de vida não é prioridade deste governo. Para ele, este governo é dos ‘tubarões’, lembrando a parceria caracu, dos tempos de Figueiredo: “eles, os ‘grandes’ entram, bonitos, com a cara, e nós, trabalhadores, entramos com o resto...”

Não é à toa que dizem que patriota amarela quando vê uma urna em sua frente... Ou foi por acaso o jejum de 21 anos da dita cuja? Para João, o Viagra não é só para combater a impotência, mas para revigorar o patriotismo, em especial diante das urnas e a vontade do povo dar o troco e mandar os caras para o lugar de onde não deveriam ter saído.

Nós, que já tivemos Paulo Henrique Amorim para comentar o dia-a-dia da política, bem que poderíamos ter agora João Amorim para elucidar os intrincados casos da política em tempos de guerra... Na Ucrânia.

Ahmad Schabib Hany

domingo, 24 de abril de 2022

BYE, BYE, BIBI...

Bye, Bye, Bibi...

Já descansei! Fui me encontrar com a Mel, minha maninha de todas as horas, minha mamãe Tictac, a Nina, o Pretórius, o Samurai e meus outros quatro lindos maninhos que a cegonha natureza nos deixou aqui na terra em 30/01/2005. A ancestralidade me requisitou que abandonasse aquele corpo. Ele estava perecendo… não tinha domínio mais sobre ele. Agora, sou um anjo. Anjinho da Fatinha 😇. Devo a ela a minha sobrevida neste plano! Ela me deixava feliz 🥰. O melhor de tudo, é que o meu tutor Massao foi massa, ABRIU sua casa, dia e noite, noite e dia, para me resguardar… Fui muito amada. Aqui deixo meus últimos registros, foram de ontem…. Minha vó Waded me amava muito e rezava por mim… beijos, até…😘

 

PS: Em 30/01/2006. Esqueci de lembrar do paizão maravilhoso do Léo ♥️

 

Agora sou luz, Sofia. São os desígnios da vida 🥰😍😘♥️🌷🙏

 

Waded Schabib Hany

 

Que pena😭

 

Sofia Galeano Schabib

 

Bom dia. Virou estrelinha a Bibi.

Janan Schabib Hany

 

Um ser em evolução,  que deixou muitas lições e partiu. ❤️

Solange Gomes Galeano

 

Hoje às 8h da manhã a Bibi fez sua passagem! Mas ontem ela estava assim, animadinha e como sempre lutando para viver, sobreviver à sua grave doença e à sua idade que já era muito elevada.

Ela deixa a gente com saudades mas com alívio também de saber que descansou.

Bibi virou uma estrelinha! 🦮⭐⭐💫🌟🌥

Fatmato Schabib Hany

 

Bom dia Schabibinho e família, a Bibi foi se encontrar com os familiares dela, agora a família está completa e feliz, assim penso. Abcs a todos e até amanhã.

Masao Uetanabaro

 

 

Em busca da Mel...

Bibi se encantou numa manhã de domingo, 24 de abril, em busca da Mel, sua irmãzinha e parceira de uma vida inteira. Determinação, resistência, dignidade e luta são sua marca, seu legado, além da meiguice, do poder de sedução e da baita saudade com a qual a partir de agora haveremos de conviver...

Depois de resistir estoica e caninamente a um tumor insaciável na garganta que a foi consumindo sem piedade, Bibi -- a eterna e terna irmã da Mel -- se despediu, às 8 horas da manhã de domingo, 24 de abril, para sair em busca de sua irmã e parceira de vida. Ou, melhor, nos dizeres da Mana Waded e do Cunhado Masao, foi se encontrar com toda a sua família canina (“a mãe Tictac, o pai Léo e os irmãos Nina, Petrórius, Samurai e os quatro outros lindos irmãozinhos que a cegonha natureza deixou aqui na Terra em 30 de janeiro de 2006”, nas emocionadas e emocionantes palavras da Waded).

As Manas Janan e Fatmato, por seu turno, entendem que Bibi virou estrela. Vamos, pois, olhar para o firmamento e ver a mais cintilante das estrelas e constelações e lhe enviar nossas saudações, nossa gratidão, nossos cumprimentos, nossa torcida. Jornada linda a sua, pelo tanto que nos deixou. Seu legado -- ah, esse legado! -- é magnânimo e imenso.

Não é que aquela cachorrinha, de aparência franzina na infância e juventude, nos deu inesquecíveis lições de vida? Sem dúvida, a maior delas foi a dignidade, resistência e luta com que enfrentou uma doença insaciável, que todo dia ‘aprontava’ uma com a incansável Bibi. Quando parecia ter vencido uma difícil ‘provação’, vinha mais um duro sintoma, uma tenaz manifestação da nefasta moléstia, cada vez mais ávida e arrasadora.

Nem por isso, Bibi perdeu a meiguice e o poder de sedução. O que fazia o Masao resistir ao lado dela, sem cogitar de qualquer hipótese de recorrer à eutanásia. Porque ela, do alto de sua sensciência (a consciência dos animais arrogantemente classificados pelo ser humano como “irracionais”), dava demonstrações inequívocas de determinação, querer viver e resistir condignamente. Tanto que fitava os olhos, altivamente, de seu tutor e de todas as pessoas com quem ela interagia, sempre com meiguice e -- por que não? – traquinagem, quando era o caso.

Enquanto vemos seres humanos sendo ‘abduzidos’ pelas doenças do século, desistindo da Vida, se entregando às drogas, ao álcool e a outras formas de submissão (inclusive ao fanatismo religioso, talvez o maior dos vícios da contemporaneidade), Bibi sabiamente é prova viva de superação, determinação, resistência e dignidade. Talvez uma de suas missões em sua longa, ou melhor, longeva jornada, de mais de 16 anos (dois dos quais vividos sem a parceria de sua irmãzinha Mel). Afinal, eu mesmo, nestas idas e vindas para cursar o que decidi cursar, me peguei tomado pelo cansaço, mas ao vê-la, do meu lado, com o brilho nos olhos, retomei o fôlego e criei vergonha na cara...

Semana passada, como quem estivesse sabendo que era chegado o fim de sua infindável e extenuante luta, nos dias que generosamente Masao me concede hospitalidade, Bibi me fitara os olhos como a dizer que estava de “malas prontas” rumo à eternidade. Tanto na hora da reunião de Família para comemorar o aniversário da Mana Wadia como na atropelada hora de ir para a rodoviária, de volta para Corumbá, seu meigo e sedutor olhar, cheio de ternura, tinha um quê a mais, que só agora o compreendemos. E depois nos pretendemos “racionais”, “seres superiores”...

Mel e Bibi. Bibi e Mel. Parceiras de uma vida inteira. Durante o tempo em que Mel viveu, a Bibi, sábia e generosamente, lhe deu a liderança, desde tenra infância. Mel era a líder e responsável por todas as iniciativas, cabendo à guerreira Bibi o papel de coadjuvante. Até parece que ela sabia que sua jornada era mais longa, de modo que permitiu que sua maninha querida, enquanto vivesse, tivesse para si toda a liderança e protagonismo. Não era de disputar absolutamente nada (só com sua gata rival, a Gorda, longeva como ela), a ponto de pensarmos que fosse submissa, ou até dependente da irmã de saga e ofício na missão de vida canina para ninguém botar defeito.

Como não pretendo disputar com seu tutor qualquer homenagem à única, eterna e terna Bibi -- porque algo me diz que veremos lindas e reveladoras memórias de sua lavra --, ponho um ponto final, com um até sempre. Com muita saudade e carinho.

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 21 de abril de 2022

CARNAVAL DEPOIS DA PÁSCOA, COM DIREITO A INDULTO DE NATAL

Carnaval depois da Páscoa, com direito a indulto de Natal

Termos sobrevivido à pandemia de covid-19, entre os tantos benefícios -- de estarmos, sobretudo, vivos --, nos dá a chance de dizer, em algum tempo, que fomos testemunhas de um carnaval ocorrido dias depois da Páscoa, além de um indulto natalino durante o reinado de Momo...

Que vivemos tempos bizarros ninguém duvida. Nem mesmo os negacionistas e os mais recalcitrantes adoradores do ‘mito’. Hoje somos testemunhas, quando não participantes, da realização de um carnaval literalmente fora de época, ocorrido dias após a Páscoa, com direito a indulto natalino em pleno reinado de Momo.

Não vamos negar, é contagiante a alegria do povo, que por meio da folia vem agradecer, bem do seu jeito irreverente e sedutor, pela Vida, esse grande dom que nos é dado sem qualquer imposto ou chantagem de tiranetes de plantão, que usam e abusam do cargo para dar canetadas, como a de dar ‘indulto presidencial’, também fora de época (não é Natal, ainda que o carnaval tenha sido posterior à Páscoa), a um canalha fascista que atentou acintosamente contra o próprio Estado Democrático de Direito que lhe concedeu uma potestade parlamentar eletiva, mas que não o imuniza contra atos criminosos -- razão pela qual a corte suprema o condenou à prisão e lhe cassou o mandato.

Até então, a bizarrice maior era um alucinado estar posando de estadista, depois de ter sido chamado de ‘mito’, poluído as águas do rio Jordão (na Palestina), incentivado a desobediência às medidas de biossegurança no enfrentamento à pandemia de covid-19 e atraído para si todas as hordas de delinquentes confessos, a começar pelos recalcados, milicianos, matadores de indígenas, devastadores de biomas, madeireiros, garimpeiros, sonegadores de tributos, contraventores de toda natureza, negacionistas e fanáticos da ‘fé’, que, em vez de amar o próximo como a si mesmo, vivem a disseminar ódio, intolerância, fornicação e o mau exemplo de se locupletar com o dinheiro público pela crença de que, por meio de suas orações, estarão livres e expiados de seus pecados.

Aliás, quando de sua impensável eleição (graças aos ardis mais surreais e inimagináveis, incluindo o ‘heroísmo’ de Moro da ‘Leva Jeito’, o ‘patriotismo’ auriverde de canalhas remanescentes da mal-dita-dura, a fakeada providencial, a covardia de servidores públicos de diversos Poderes que prevaricaram acintosamente no afã de não deixar explícita a farsa em execução), já nos pegávamos dizendo que tínhamos que viver para testemunhar tamanha desfaçatez. É que nos praticamente duzentos anos de existência soberana deste país-continente não se havia visto tanta patacoada junta e misturada.

Como, agora sim, estamos sob a jurisdição do rei Momo e, portanto, as bênçãos da folia que exala o sedutor e contagiante cheiro do povo -- ao contrário dos saudosos daquele que amava o cheiro dos cavalos, lembram-se? --, dizemos que sem as liberdades democráticas, conquistadas com muito denodo, não há chance alguma de sobrevivência da soberania popular e dos encantos do povo. Sinônimo de amor, generosidade, empatia e acolhimento, este povo de coração do tamanho do Brasil merece, sim, ser feliz e amar sem limites e candura seu próximo do jeito que quiser.

E não serão os recalcados, fanáticos, desatinados, soberbos e delinquentes contumazes os que tirarão esse direito, uma sagrada prerrogativa, do povo brasileiro. O qual, a bem da verdade, perdeu inúmeras conquistas destas últimas décadas: postos de emprego, oportunidades de estudo e capacitação, programas sociais, políticas culturais, esportivas e de desenvolvimento científico e tecnológico. Tudo por causa de falsos democratas que não aceitaram ser derrotados quatro vezes pela vontade soberana do povo em eleições limpas e livres, cuja soberba nos condenou a um retrocesso de cinquenta anos e à perda de milhões de vidas, humanas e de outras espécies, por conta das mazelas proposital e deliberadamente promovidas pelo falso messias e a corja de meliantes que o acompanha.

Que o rei Momo os reconheça como desditados e os condene à felicidade infinita, pois com gente mal-amada e sordidamente recalcada, só o amor verdadeiro para tirá-los do desatino, da obsessão e da aleivosia. Porque só quem é verdadeiramente feliz é capaz de compartilhar uma graça chamada felicidade e exalar amor, muito amor, ao próximo.

Ahmad Schabib Hany

sábado, 16 de abril de 2022

PATRIOTAS E O FANTASMA DA IMPOTÊNCIA

Patriotas e o fantasma da impotência

Viagra, prótese peniana, lubrificante íntimo... Aos patriotas, tudo; aos inimigos da pátria, balas. Simples assim!

Nossa! Até a Globo, que entre 2014 e 2019 era o carro-chefe da patriotada, faz um ar de perplexidade quando as contas públicas revelam aquisição de, digamos, produtos pouco ortodoxos para a Defesa: Viagra, prótese peniana, gel lubrificante íntimo...

Paremos de hipocrisia. Por que tanta indignação? Patriota é gente, tem sentimentos e “otras cositas más”, merece ser feliz. Em tempos bizarros como estes, quando a sua principal ‘arma’ precisa cuidados, nada mais justo que o país pague pelos reparos. Pena que o mercado não ofereça prótese cerebral, lubrificante mental ou tônico intelectual.

Talvez poucos saibam, mas os adolescentes da década de 1960 não se esquecem dos torneios clandestinos em que a garotada ia para a moita testar seu ‘vigor’, ora apostando quem conseguia ejacular mais longe ou, os mais ‘avançados’, trocando ‘faquinha’ em revezamento. O querido Amigo Augusto Lawrentz me contou com riqueza de detalhes, e coincide com a faixa etária dos centuriões majorais.

Se na caserna não há cachorro, caça-se com gato. É o que nos ensina o saber ancestral. Machismo à parte, é a formação da ‘sagrada’ família. Depois, na hora da reza, expia-se dos pecados da carne, do ódio, da cobiça e do sobrepreço...

Está tudo dentro da mesma lógica. Elegeram-se atribuindo ao inimigo a autoria do kit gay e, entre outras coisas do gênero, da ‘mamadeira de piroca’ (sic). Até porque a musculosa mente dos patriotas sempre esteve focada ‘naquilo’, como bem Dona Bela, do saudoso ‘ex-comunista’ Chico Anysio, já advertira...

Lembram-se do mito, então deputado federal, que disse que sua colega de parlamento, a Deputada Maria do Rosário, não era merecedora de seu honroso estupro? Houve alguma punição pela conduta? Na época, auge do conluio golpista, sequer a mídia corporativa (inclusive a rede dos filhos de robertomarinho, como bem o velho ‘O Pasquim’ grafava) deu o destaque que o caso requeria.

Não, porque naquele momento era preciso ‘aglutinar’ forças para executar o plano de tirar Dilma da Presidência. Depois, todo patriota é ‘espada’, e essa conduta é própria de sua ‘comunidade’. Além do que, cá pra nós, o ranço machista está impregnado, sob os hipócritas lençóis de seda da burguesia fétida, no comportamento ‘ocidental’.

É o que a ‘sagrada’ família ensina em casa: macho é macho, e fêmea é fêmea. Não se deve inibir a ‘altivez’ do caçador... Aí o ‘caçador’ vira predador, sai da caixa de pandora e apeia do cargo cobiçado ‘a gente de bem’ (ou seria ‘agente de bens’?).

Aos patriotas tudo; aos inimigos da pátria bala! Não demorou muito e, com tiros de advertência, executaram a Vereadora Marielle Franco -- demonstração de seu poder de fogo (e para rebater, o idiota usado para a fakeada, travestido de filiado ao mesmo partido da vítima cuja memória foi enxovalhada e os mandantes permanecem impunes).

Dizem que Sigmund Freud tem explicação precisa. Como não o conheço o suficiente, prefiro ficar na superfície. Basta observar o formato fálico das munições, em especial os mísseis balísticos e as balas de grosso calibre. Isso é de e para macho. E macheza não combina com coisa murcha, ainda que esteja por baixo das ceroulas.

Tanto nas tropas de Nero como nas de Hitler, havia um seleto grupo ‘de elite’, cujo maior privilégio era sentir ‘aquilo’ no meio de suas pernas: a orgia era terrivelmente ‘sodomita’, para lembrar de outra turma promíscua, a dos sacerdotes que servem a dois senhores -- mas isso era segredo de Estado, só podia ser revelado ‘cem anos depois’.

Senhores e senhoras de ‘bem’, está tudo ‘conforme’, tudo no seu lugar. Deixem em paz (ou, ‘em guerra’?) os ‘rapazes’, que, afinal, brincar com o ‘bilau’ é treino para macho nenhum botar defeito. O que importa é que a ‘sagrada’ família continua a comer caviar. Ainda que para isso seja preciso rifar todas as riquezas nos próximos meses, até porque ‘o futuro adeus, pertence...’, no sábio dizer do bom e velho ‘O Pasquim’, remetendo-se ao legado de Stanislaw Ponte Preta, o imortal Sérgio Porto, do Febeapá, o festival de besteiras que assola o país.

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 14 de abril de 2022

BOLÍVIA: 70 ANOS DA REVOLUÇÃO DE 9 DE ABRIL DE 1952

Bolívia: 70 anos da Revolução de 9 de Abril de 1952

Nove de abril de 1952, uma insurreição popular sentenciava as oligarquias entreguistas que, desde 1850, rifaram o território, a soberania e as riquezas da Bolívia. Mas em pouco mais de uma década ‘la nueva rosca’ abandonava os ideais revolucionários e, em novembro de 1964, um obscuro militar, René Barrientos Ortuño, dava o tiro de misericórdia e submetia o povo a um nefasto ciclo de ditaduras sanguinárias que no ápice promoveram o tráfico de drogas, com Banzer Suárez, Pereda Asbún e García Meza.

Sem a adesão popular de outrora, completou 70 anos, neste sábado, dia 9 de abril, a Revolução Nacionalista de 1952, sob a liderança de Hernán Siles Suazo (presidente constitucional duas vezes), Victor Paz Estenssoro (presidente três vezes, uma delas em aliança com os militares, que o golpearam em novembro de 1964) e Juan Lechín Oquendo (lendário líder da poderosa Central Operária Boliviana, COB, vice-presidente constitucional que, como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Magalhães Pinto no Brasil, morreu sem ter realizado o sonho de ser presidente).

Por que o mais emblemático levante do povo boliviano no século XX, reconhecido como Revolução de 1952 e responsável pelas mais importantes mudanças sociais, econômicas, culturais e institucionais operadas na Bolívia até então, perdeu adesão popular?

Primeiro, porque Victor Paz Estenssoro e o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) se distanciaram do ideário de Nove de Abril de 1952 da maneira mais cínica, em pouco mais de 10 anos, em 1964. Isso permitiu que seu vice, o até então obscuro general René Barrientos Ortuño, o traísse e em novembro daquele ano o golpeasse acintosamente. É bom lembrarmos que foi o general Barrientos, serviçal estadunidense, quem acertou a execução do líder revolucionário Ernesto Che Guevara em outubro de 1967. Dois anos depois ele seria executado em seu helicóptero ‘doado’ pelo governo de Lyndon Johnson, como reconhecimento dos, digamos, relevantes serviços prestados aos Estados Unidos.

Segundo, em razão da desagregação da liderança daquela emblemática insurreição popular ocorrida um par de anos depois do linchamento e imolação do major Gualberto Villarroel, então ditador, no palácio presidencial boliviano, que a partir de então passou a ser chamado ‘Palacio Quemado’. Victor Paz rompeu com o lendário líder da COB, Juan Lechín, que fundou seu próprio partido, o Partido Revolucionário da Esquerda Nacional (PRIN, em espanhol), e com o próprio Hernán Siles Suazo, que também fundou o Movimento Nacionalista Revolucionário de Esquerda (MNRI, em espanhol). Os primeiros mandatos foram importantes pelo cumprimento da agenda política da Revolução, como a extinção do ‘pongaje’ (uma forma de escravidão para os povos originários, em pleno século XX), a Reforma Agrária, a Reforma Urbana, o direito do voto do analfabeto, as leis trabalhistas, a criação de empresas estatais mineiras, petrolífera e de outros setores econômicos.

O reencontro das camadas populares bolivianas com o Estado, quase 130 anos depois da emancipação do jugo espanhol, ocorreu sob inspiração dos ideais revolucionários do pós-guerra de 1945. De um lado, o socialismo que derrotou o nazifascismo em seu próprio território, e de outro o resgate da heroica luta dos povos originários, como homenagem à memória de mártires como Túpac Amaru, Túpac Katari e Zárate Wilka, entre outros não menos importantes.

O Estado boliviano, aliás, foi fruto da determinação dos líderes originários aliados aos Libertadores Simón Bolívar, Antonio José de Sucre e Andrés de Santa Cruz de emancipar a população do Alto Peru, no coração da América, então integrante do opulento Vice-reino do Peru, que encheu de ouro e prata a coroa espanhola ao longo de mais de três séculos.O nome Bolívia, não por acaso, é homenagem a Bolívar, seu primeiro estadista.

No entanto, as elites bolivianas, descendentes dos colonizadores espanhóis, desde logo se mostraram entreguistas, nada ‘patrióticas’ (não tão diferentes das demais, em toda a América Latina, inclusive do Brasil). Desde a proclamação da independência da república do Alto Peru (e logo depois Bolívia), em 1825, as oligarquias impunham seus interesses sobre os coletivos, oprimindo ainda mais os povos originários e manipulando os mestiços, que estavam, como pêndulo, ora com os oligarcas, ora com os líderes originários.

Assim como em 1952, não demorou o desencanto com a luta pela democratização pós-narcoditaduras sanguinárias de Banzer Suárez, Pereda Asbún e García Meza (“La Veta Blanca”, do Jornalista René Bascopé Aspiazu, demonstra didaticamente com fartos documentos), cujo ponto alto foi a homologação pelo Congresso Nacional da coligação vencedora, a Unidade Democrática Popular (UDP), composta pelo Movimento Nacionalista Revolucionário de Esquerda (MNRI), Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), Partido Comunista da Bolívia (PCB) e Partido Democrata Cristão (PDC). A posse em 10 de outubro de 1982 dos dois ícones da UDP, Hernán Siles Suazo (MNRI) e Jaime Paz Zamora (MIR) à frente do governo constitucional boliviano, sem contar com um projeto de Estado e um programa de governo efetivamente democrático e transformador, levou ao empobrecimento de ampla parcela da população pela desestabilização econômica e a crise política dentro da UDP, que levou à renúncia do grande democrata Hernán Siles Suazo um ano antes do fim de seu mandato.

Essa crise se agravou com os governos seguintes: Victor Paz Estenssoro, desta vez com toda a tropa de choque neoliberal, sob o comando de Jeffrey Sachs, o mesmo das reformas econômicas na Polônia de Lech Walessa, que acabou com direitos trabalhistas, as estatais da mineração e do petróleo e a estrutura sindical da COB; Jaime Paz Zamora, travestido de neoliberal, com o apoio do narcoditador sanguinário Banzer Suárez, e concretiza o sonho entreguista das ditaduras de 1960 a 1980, assinando o acordo de construção do gasoduto Bolívia-Brasil e a venda do gás natural boliviano para o Brasil a preço aviltante; Gonzalo Sánchez de Lozada, ex-ministro da Economia de Victor Paz, executor das reformas neoliberais de Jeffrey Sachs na Bolívia, em aliança com o chamado setor autêntico do antigo MIR, agora denominado Movimento Bolívia Livre, MBL; Hugo Banzer Suárez, que repaginou sua biografia ao ser eleito presidente constitucional e tentar se eximir dos narcovínculos e da carnificina que fez quando de sua sanguinária e corrupta ditadura, e que contou com o apoio declarado do que restava do velho MIR de Paz Zamora; Jorge Tuto Quiroga, vice de Banzer que, com a doença terminal do ‘ex-ditador’, assume no último ano do mandato no afã de revigorar sua pífia carreira política; Gonzalo Sánchez de Lozada, de novo, acreditando que terá o apoio de seus amos e protetores neoliberais, mas fracassa em seu intento de leiloar o que resta das estatais e riquezas nacionais, como fez em 1987 o seu líder Victor Paz, o que o leva a renunciar ao cargo, em clima de guerra civil em toda a Bolívia; Carlos Mesa, que assume como vice de Gony e, em vez de virar a página do neoliberalismo, do qual foi crítico enquanto analista político, submete-se às pressões patronais e de corporações transnacionais insistindo com a pauta econômica de seu antecessor, para decepção de seus incrédulos apoiadores -- o que o leva a renunciar em plena “Guerra da Água”, quando é reafirmada a liderança do então influente líder sindical originário, Evo Morales Ayma; e Eduardo Rodríguez, que, como presidente da Corte Suprema de Justiça, assume interinamente o cargo, garantindo uma eleição limpa e que dá a vitória a Evo Morales.

Ao contrário dos ‘líderes’-fantoches do império que o antecederam, Evo Morales não só realiza uma verdadeira revolução sociocultural sem balas como reorganiza o Estado e acaba com as ‘saúvas’ que sugavam o erário boliviano desde os tempos coloniais. Ao resgatar direitos inalienáveis dos povos originários e consignar na chamada Constituição Política do Estado as conquistas legítimas de todos os povos que constituem a Bolívia em um Estado plurinacional, Evo não só se consolida como o segundo estadista em quase duzentos anos de história boliviana, e acaba comprovando o que as elites claudicantes nunca quiseram admitir -- aquilo que no Brasil Lula chamou de ‘complexo de vira-latas’: tigrão com o seu povo e tchutchuca com as poderosas transnacionais, de quem sempre se comportaram como fiéis serviçais.

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 8 de abril de 2022

LUIZ EDUARDO, MENINO-LUZ

Luiz Eduardo, menino-luz

Luiz Eduardo de Oliveira, meu querido vizinho de bairro e de longas conversas reflexões, se eterniza precocemente, mas o brilho de sua mente privilegiada, de menino-luz, vive em nossos corações.

Conheci Luiz Eduardo de Oliveira, o querido Eduardo, ainda adolescente. Foi em uma das visitas derradeiras que fiz à saudosa Professora Tereza Ávila de Oliveira, Avó paterna dele. A casa da Professora Tereza era literalmente um templo. E a presença daquele garoto muito educado e bastante sociável me dera a impressão de que se tratava de um Anjo na face da Terra.

Mais tarde fui saber que Eduardo era Filho do querido Jair, Irmão de meu Amigo-Irmão-Companheiro-Camarada Juvenal Ávila de Oliveira, e Sobrinho de minha queridíssima Amiga Soely Ivacquia de Oliveira, dos tempos de minha adolescência no então Centro Educacional Julia Gonçalves Passarinho. Foi o próprio Eduardo que me contou, porque ele era de uma desenvoltura, que parecia ler pensamentos.

Décadas depois, quando fui morar no bairro Universitário, reencontro-me com Eduardo, já casado, muito feliz. Senão me engano, ele estava trabalhando numa mineradora e sua Companheira era professora recém-formada. Nossos encontros, esporádicos, casuais, eram longos por causa das conversas intermináveis, interrompidas pela premência do tempo. Por conta disso, sempre lhe insistia para que me visitasse, pois morávamos a poucas quadras -- e assim ficava a promessa que lamentavelmente nunca se realizou.

Nosso encontro derradeiro foi na padaria de Dona Raquel, que fica no meio do percurso entre as nossas moradias. Confesso ter ficado impressionado com o estado de ânimo dele -- o sempre animado e desenvolto Eduardo estava indiscutivelmente mais maduro, mas me revelara uma sucessão de tragédias que demorei absorver, e ele percebeu.

A premência do tempo, como sempre, nos fez interromper a conversa, mas insisti com ele de que me visitasse. Como se tratava de um assunto pessoal, não comentei nem com o meu Amigo-Irmão Juvenal, mesmo porque, pelo que conheço, como grande Psicólogo e Tio que é, ele acompanhava de perto o querido Sobrinho.

E foi pelo Tio, Juvenal, que soube do coma diabético sofrido por Eduardo, dias atrás. E ontem, o fatídico desenlace. Sem palavras, sem chão. O Anjo desenvolto e querido se fez saudade...

Nossos profundos sentimentos à querida Família do Jair Ávila de Oliveira, bem como às igualmente queridas Famílias do Juvenal e da Soely, e muita força neste duro momento de dor e imensa saudade.

Até sempre, e obrigado, Eduardo, por sua Amizade e por ter-nos ensinado tanto em tão pouco tempo! O seu afetuoso convívio, suas sábias palavras, estão gravados em nossos corações e mentes.

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 7 de abril de 2022

FAUSTO E "HISTÓRIAS QUE NINGUÉM IRIA CONTAR"

Fausto e ‘Histórias que ninguém iria contar’

Emblemático dirigente do velho Partidão, Fausto Matto Grosso escreveu em tempo recorde “Histórias que ninguém iria contar”. O lançamento do livro será dia 29 de abril, às 18h30m, na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (esquina das avenidas Mato Grosso com Calógeras, quase em frente da antiga ferroviária da capital).

Fausto Matto Grosso -- emblemático dirigente do velho Partidão, ex-vereador da capital, ex-secretário de Planejamento e Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul e ex-pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) -- desafiou-se a realizar a façanha de reunir episódios emblemáticos da história das lutas políticas protagonizadas pelo PCB nas décadas de 1960 a 1980.

Estoicamente disciplinado e metódico, o engenheiro civil Francisco Fausto Matto Grosso Pereira, no começo de sua carreira, foi arbitrariamente demitido do cargo de docente da extinta Universidade Estadual de Mato Grosso (UEMT) pelo ‘crime’ (sic) de participar de pioneiro movimento reivindicatório nos anos de chumbo (início dos anos 1970). Apesar de qualidades reconhecidas até pelos adversários, o ônus de ser comunista representou um óbice em sua exitosa trajetória política.

Em seu blog, o atento personagem político conta que, com a colaboração de Camaradas e Amigos/as, foi (re)construindo, de modo interativo, fatos inusitados e emblemáticos do cotidiano político de diversas gerações de militantes comunistas, aliados/as e simpatizantes ao longo de décadas. Além de resgatar importantes episódios da história política do estado, sobretudo da incessante perseguição à organização dos trabalhadores desde os primórdios de um dos mais antigos partidos brasileiros, replicada também no sul de Mato Grosso uno e mais tarde em Mato Grosso do Sul.

Em 1978, como membro da emblemática Associação de Engenheiros e Arquitetos de Campo Grande, ao lado do inesquecível Engenheiro Euclides de Oliveira, foi um dos fundadores do Movimento Mato-grossense de Anistia e Direitos Humanos. Com ele estavam Advogados (com letra maiúscula) como Dr. Ricardo Brandão, Dr. Plínio Barbosa Martins (Irmão do Dr. Wilson Barbosa Martins, cassado pelos golpistas em 1965), Dr. Roberto Moaccar Orro, Dr. Onofre da Costa Lima Filho e Dr. Carmelino de Arruda Rezende, entre outros não menos representativos da vanguarda da sociedade civil, que começava a se mobilizar em defesa da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, da Assembleia Nacional Constituinte e do Estado Democrático de Direito.

Referência do movimento estudantil nas décadas de 70 e 80 do século XX, Fausto, com sua Companheira de Vida, a Doutora Maria Augusta Rahe Pereira (competentíssima cardiologista), não hesitou desafiar, mais uma vez, a besta-fera do obscurantismo emprenhado inclusive nas hostes da Oposição (o então MDB, que nada deve ao seu homônimo destes bizarros tempos de pós-verdade da Leva Jeito mussolinista). Apoiaram e elegeram o hoje saudoso Dr. Roberto Orro deputado estadual constituinte em 1978, vice-líder do MDB na primeira Assembleia Constituinte de Mato Grosso do Sul.

O Deputado Sérgio Cruz, então líder do MDB na Assembleia Legislativa, contava com dois influentes assessores com excelentes relações com o velho Partidão: o competentíssimo Jornalista Edson Moraes e o saudoso Sr. Mário Corrêa Albernaz, em cuja juventude, como metalúrgico em São Paulo, havia militado em sindicatos dirigidos por Camaradas. Isso, obviamente, servira de anteparo, certas ocasiões, para as investidas de emedebistas conservadores como a Professora Nelly Bacha, a despeito de sua lealdade à liderança do Dr. Plínio Barbosa Martins, primeiro Senador moral de Mato Grosso do Sul.

Em 1982, na histórica campanha eleitoral que legitima o primeiro governador eleito pelo voto direto em Mato Grosso do Sul, o grande democrata Dr. Wilson Martins, os então membros do PCB lançaram dois candidatos pelo PMDB, a Frente Democrática da época: o engenheiro Fausto Mato Grosso e o advogado Marcelo Barbosa Martins, que foram eleitos com respeitável votação. A atuação dos dois vereadores comunistas foi reconhecida como democrática inclusive por conservadores recalcitrantes, como o falecido advogado e radialista Giordano Neto. Marcelo Martins, no final do mandato, optou por se filiar ao PSB de Miguel Arraes, permanecendo na esquerda até a presente data.

Como pró-reitor na UFMS, Fausto realizou iniciativas memoráveis, como a criação, na década de 1990, do Festival de Corumbá, inspirado no Festival de Ouro Preto, como ele mesmo revelou. As duas edições realizadas durante sua gestão na pró-reitoria foram marcantes, um avant première do atual Festival América do Sul. No primeiro mandato do Governador José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, foi secretário de Planejamento e Ciência e Tecnologia bastante prestigiado. Entre suas marcas a realização do Projeto MS-2020, baseado em planejamento estratégico, em que eram apresentados cenários possíveis para Mato Grosso do Sul, a médio e longo prazo.

Amigo há quatro décadas, Fausto Matto Grosso tem dado verdadeiras aulas de lealdade ao seu partido, hoje denominado Cidadania, e determinado a integrar uma coligação de partidos do chamado centro democrático, entre eles o União Brasil (Dem e PSL), MDB e PSDB, ao lado de João Dória, Sérgio Moro e Simone Tebet. A despeito de abissais diferenças políticas da atualidade, Fausto Matto Grosso é uma referência indiscutível de determinação no cenário político brasileiro da atualidade.

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Cidade Dom Bosco, 61 anos (Vídeo)

"Nas terras quentes de Corumbá, soube um louvor
Em preces, cantos e alegrias chegamos ao 61 anos com muito labor
Graças aos mestres e padres salesianos
A quem agradecemos tanto por todos esses anos"
(Paulo Bruno - Oficina de Teatro/PCAF)

A Cidade Dom Bosco está em festa! 61 anos de muito amor, educação e carinho pelas crianças e adolescentes!
Agradecemos a todos que colaboraram e colaboram com nossas ações na escola e na ação social!

Parabéns, CDB ❤🥳

(Professor Thiago Godoy, abril de 2022)

terça-feira, 5 de abril de 2022

BERÇO DE PROJETOS PIONEIROS

Berço de projetos pioneiros

Um dos mais antigos centros urbanos do estado, Corumbá, ao lado de Ladário, é berço de projetos pioneiros, como Cidade Dom Bosco, CRIPAM, Conselho de Entidades de Classe, Pacto pela Cidadania, Fórum (intersetorial) de Entidades Não Governamentais etc.

Nas últimas décadas, sobretudo a partir da realização da Conferência Mundial sobre Meio Ambiente -- que gestou a emblemática Agenda 21 e o conceito de ‘desenvolvimento sustentável’ --, a popular Rio-92 (e lá se vão 30 anos), o chamado terceiro setor ganhou expressão, embora com credibilidade efêmera por conta de oportunistas que usaram as organizações não governamentais para auferir vantagens, fossem pecuniárias ou políticas.

A propósito, é pertinente diferenciar terceiro setor do setor terciário da economia (a classificação convencional dos setores de atividades econômicas existentes na sociedade: setor primário -- agricultura, pecuária e atividades extrativas; setor secundário -- indústria de transformação, isto é, química, metalúrgica, de montagem, eletroeletrônica etc; setor terciário -- comércio, turismo e serviços).

Já o vocábulo terceiro setor se insere em mais recente classificação, pré-neoliberal: primeiro setor, o setor público, isto é, o Estado; segundo setor, a iniciativa privada, ou seja, o mercado; terceiro setor, iniciativas sem fins lucrativos, isto é, as organizações não governamentais. O problema é que, no auge da popularidade das ONGs, empresas de consultoria se travestiam de ‘entidades sem fins lucrativos’, mas lucravam muito, sonegando impostos e competindo mercadologicamente com as iniciativas voluntárias de ONGs emblemáticas, como a Pastoral da Criança, por exemplo.

Nesse sentido, Corumbá (ao lado de Ladário) é berço de projetos pioneiros de inclusão social, defesa de direitos, proteção ambiental e de monitoramento de políticas públicas. Um dos mais antigos, do início da década de 1960 (precisamente em 2 de abril de 1961), é a Cidade Dom Bosco, de iniciativa do saudoso Padre Ernesto Sassida, que dedicou sua existência por sua consolidação. Trata-se de projeto pioneiro interdisciplinar, cujo carro-chefe é a educação, e articula em suas ações a assistência social, saúde, cultura, defesa de direitos (da criança e do adolescente, das mulheres, do idoso, da pessoa com deficiência e da juventude), inclusão social, protagonismo cidadão, trabalho e renda, meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

A Casa de Recuperação Infantil Padre Antônio Müller (CRIPAM), constituída durante o episcopado do saudoso Dom José Alves da Costa por iniciativa do saudoso Padre Pascoal Forin, então Vigário-geral da Diocese de Santa Cruz de Corumbá, tem também caráter interdisciplinar: além de focar aspectos nutricionais e de saúde, tem ações na área da assistência social, educação, inclusão social e defesa de direitos. Assim como o Padre Ernesto, o Padre Pascoal dedicou os seus anos mais caros para consolidar o generoso projeto do saudoso Padre Antônio Müller, que se eternizou prematuramente no início dos anos 1990.

Entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, com o esvaziamento político de Corumbá e Ladário durante a instalação do governo de Mato Grosso do Sul, o Padre Ernesto percebeu a necessidade de fortalecer a sociedade civil do coração do Pantanal e da América do Sul. Para tanto, propôs a criação do Conselho de Entidades de Classe, que serviu de canal de interlocução enquanto a representação política regional estava abaixo das demandas da população. Graças à iniciativa, importantes ações governamentais possibilitaram a manutenção de projetos anteriores à criação do novo estado.

Embora de vida efêmera, essa articulação resultante da sabedoria do grande salesiano que adotou Corumbá como sua terra natal conquistou um conjunto de experiências que foram fundamentais para potencializar a efetividade do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (mais tarde transformado em Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa) como lócus-espaço público não estatal para o monitoramento das políticas públicas. Ao lado do Pacto Pela Cidadania, o FORUMCORLAD serviu de modelo para organizar a participação pública em diversos municípios do estado e de vários estados do Brasil.

À exceção da Cidade Dom Bosco e da CRIPAM, os demais projetos pioneiros ora citados não tiveram fôlego para continuar depois da eternização desses sacerdotes. Ocorre que a cidadania local tem uma prática pendular: ora atua com protagonismo, ora opta por um comportamento subalternizado a interesses menores, de caráter sectário ou mesmo a reboque de pretensos caudilhos de existência efêmera, muito comuns em nossa região (até pela debilidade e falta de consistência dos ditos caudilhos).

Depois de mais de 20 anos de protagonismo incessante e exemplar da cidadania local (de Corumbá e de Ladário), constatamos a partir de 2012 um processo claudicante em todos os espaços de participação milimetricamente consolidados por cidadãos abnegados, muitos dos quais já não mais estão entre nós. Além de uma autocrítica corajosa coletiva, é preciso a retomada pela cidadania desses espaços de participação, não por disputa de um poder inexistente, mas em respeito à memória dos que dedicaram seus melhores dias para a sua construção.

Com isso, Corumbá e Ladário estarão se reencontrando com a História e fazendo justiça à memória de grandes cidadãos, como os saudosos e queridos Dom José, Padre Ernesto, Padre Pascoal, Pastor Antônio Ribeiro, Pastor Cosmo Gomes, Heloísa Urt, Aurélio Tórrez, Seu Ariodê Martins Navarro e Seu José Batista de Pontes, cujo legado inspirador servirá de orientação para as novas gerações, libertas do caudilhismo empedernido.

Ahmad Schabib Hany