Cinquenta anos e muitas Vidas
Em 17 de julho de 1976, um sábado inesquecível, um amor inocente começava a se transformar em uma maturidade precoce, dividida entre um vazio doído e um sentimento amadurecido por perdas acumuladas. Passaram-se 50 anos, o sentimento evoluído para algo maior e menos inflamável está vívido e serve de ancoradouro para 'invertidas' que a Vida nos dá quando menos esperamos...
Nesta sexta-feira, 17 de julho, completaram-se 50 anos de uma data que, ano após ano, nunca passou despercebida. Nem quando, em 1980, o golpe militar sanguinário, protagonizado pelo narcogeneral boliviano Luis García Meza, que não perdeu tempo e aproveitou de matar, a um só tempo, o emblemático líder do Partido Socialista 1 (PS1) Marcelo Quiroga Santa Cruz (promessa da esquerda boliviana e autor do 'Juicio del Siglo' contra o verme ditador Hugo Banzer Suárez e sua quadrilha) e dirigentes sindicais de grande relevância, cujos corpos até hoje, 46 anos depois, não foram encontrados.
Seria uma leviandade dizer que foi fácil ou indolor. Para quem entende que a Vida, como a História, é um processo -- e, portanto, penoso, com boa dose de sacrifício --, teve seu custo, sim, até porque todo aprendizado tem seus tombos e lamúrias. Nada é impune.
Em 4 de agosto de 1975, uma segunda-feira, primeiro dia de aula do segundo semestre letivo do segundo ano do segundo grau, quis a Vida tornar menos álgido o devir dos dias depois da perda abrupta de minha referência humana, intelectual e cidadã até então: Mohamed, meu Irmão, que encontrei inerte em 21 de setembro de 1974, sábado importante, não apenas por ser aniversário de fundação de Corumbá, mas porque nessa data tínhamos -- Benedito, João, Juvenal e eu -- feito uma conquista didática marcante no âmbito do curso (meu Irmão tinha sido fundamental nesse triunfo).
É claro que, a despeito do vazio que representa continuar a crescer sem a imprescindível troca de ideias com a referência como a que eu tinha -- mas, inadvertidamente, essa ausência me aproximou ainda mais ao meu querido e saudoso Pai, que já era um parceiro, como minha igualmente querida Mãe --, talvez uma conjunção dos afetos paternais e fraternais associados aos Amigos (porque nunca foram 'apenas' colegas!) levou a mim e aos três Amigos citados a propor ao nosso inesquecível Amigo e Professor Octaviano Gonçalves da Silveira Junior a desenvolvermos um projeto de jornal interescolar, que ele sabiamente soube conduzir em doses homeopáticas (sabia dos riscos que nós ignorávamos, por pura ingenuidade).
Dessa forma, 1975 foi um ano de renascimento. O primeiro semestre voltado para a efetivação do 'Clarim Estudantil' e, obviamente, nossa formação (afinal, para isso frequentávamos a escola) intelectual, em que o Professor Octaviano -- ao lado dos igualmente queridos Augusto Alexandrino dos Santos (Malah, que se tornaria décadas depois Companheiro e sócio de um projeto editorial igualmente interrompido não por falta de competência, mas pelas mesmas razões históricas que tornam Corumbá refém do atraso), Maria Auxiliadora Maia (excelente não só na docência, mas na pesquisa e na formação cidadã de seus alunos, uma grande Amiga para toda a Vida), Joaquim dos Santos (docente que lamentavelmente não mais vimos nem tivemos notícias, e que fora da escola era um conselheiro, sobretudo no cuidado com os olheiros do regime no ambiente escolar, inclusive um ex-aluno hoje expoente da direita em Brasília), Domingos Sávio de Souza (oriundo de Lins, São Paulo, ensinou-nos não apenas Biologia, mas cidadania e o cuidado com o contexto histórico em que vivíamos) e o decano deles, o saudoso e querido Professor Dilermando Luiz Ferra (fundador e ex-diretor da Escola Técnica de Comércio de Corumbá, que se tornou conselheiro de nossa turma, tendo explicado por que renunciou ao mandato de vereador da Arena e se afastou da confraria da qual chegou ao máximo grau).
Luz (como a chamarei) chegou de Cuiabá, depois de ter passado alguns anos na capital de Goiás, onde havia concluído o primeiro grau. Olhos azuis da cor do mar e comportamento discreto, despertava a curiosidade dos colegas, mesmo assim não perdia a espontaneidade. Conversava com todos, embora em todo o segundo semestre preferisse focar nos estudos para ganhar tempo, pois a transferência no meio do ano a deixara um tanto prejudicada, como ela dissera à nossa turma -- convidada a estudar conosco, porém, acabou terminando o ano só (talvez por conta de seu compromisso sentimental, eis que estava noiva e se casaria no meio do ano seguinte).
Chegou de duas capitais conhecidas na época pelo nível de civilidade -- parece que o chamado modão sertanejo as fez perder o charme de então -- e, talvez sem que percebesse (digo talvez porque para a inteligência feminina, anos-luz à frente da pretensa 'esperteza' masculina, nada escapa despercebido), acabou por aportar em meu coração inexperiente, 'virgem', desejoso de novas emoções. Mas não houve tempo, nem coragem, para dizer o que ocorria. Um de meus Amigos era contraparente da Irmã dela e foi quem me deu o banho de água gelada: "Ela é noiva e vai casar no próximo ano."
Atordoado, passei a fingir que não sabia de nada. Por duas vezes não perdi a chance de ficar por mais de meia-hora conversando a sós com ela. Conversa de amigo, de colega preocupado com o calendário escolar: 1975 foi um ano que, a despeito da morte sob tortura do Jornalista Vladimir Herzog e da repercussão mundial do crime, voou. Quando nos demos conta, estávamos em novembro, na última quinzena do segundo semestre letivo. Às pressas, corremos para fazer uma edição especial do natimorto 'Clarim Estudantil', com a síntese do que significou aquele ano. É claro que o nome de Luz ficou mencionado, pelo menos duas vezes, nos parágrafos mais caros de nossa edição histórica [zeloso, o bom Amigo Juvenal, para minha surpresa, guardou por décadas um exemplar entre suas relíquias até que, ao acompanhar a Filha já médica a um curso por mais de seis meses, perdeu para os cupins, que destruíram até documentos pessoais].
Em de 1976, na festa de formatura da primeira turma do curso de tecnólogos do CPC/UEMT (que duas Irmãs fizeram), numa loja maçônica, acabei por rever Luz, já casada, mas ainda não gestante (teve dois Filhos desse casamento, que não foi lamentavelmente longevo). Três anos depois, quando eu cursava História em Campo Grande, a Vida nos permitiu um reencontro: ela morava em Aquidauana e também fazia História. De novo faltou coragem para perguntar como ela estava e o que pretendia da Vida. Eu me convenci que ela era boa Amiga e que não me competia qualquer abordagem de cunho pessoal.
Para minha surpresa, em 1986, Luz, acompanhada do Amigo paulistano de minha Amiga Iara (por incrível que possa parecer, não consigo recordar seu nome), vem à pensão de meu saudoso Pai e fico muito feliz com o reencontro. Ela me conta sobre o fim de seu casamento e o rumo que sua Vida tomou. Creio que foi o tempo em que mais conversamos depois de nosso convívio escolar, uma década antes. Solta, madura, sedutoramente adulta. Trocamos alguns livros e, como veio, se foi como por encanto. Só a reencontrei em uma loja de móveis em 2005, meses depois de eu ter casado. Ela também me apresentou o Companheiro dela, militar. Trocamos votos de felicidade conjugal e nos prometemos voltar a ver.
E não é que em 2007, quando Solange estava gestante de nosso Filho Omar, a reencontrei numa faculdade particular em que as duas faziam Serviço Social? Foi muito bom que, graças à coordenadora do grupo de trabalho, grande Amiga que a Vida me presenteou, estiveram em casa por pelo menos duas vezes. Como era época de conclusão do curso, Sofia já havia nascido, elas foram muito gentis e carinhosas trazendo presentes para nossos dois bebês. Esse gesto jamais me passou despercebido, sou muito grato e cativo até hoje.
Depois disso, foi possível vê-la por mais vezes, agora como Assistente Social. Em 2016, tive a felicidade de conhecer e conversar por um tempo considerável com sua querida Mãe, que pouco tempo depois se eternizou. Foi muito triste para Luz, pois era a sua Companheira de Vida, desde sempre. E pior, logo quando seu novo casamento se dissolveu e ficou sozinha. Felizmente resolveu acompanhar os Filhos fora de Corumbá, já casados e com Filhos. Apesar da distância, temos nos mantido em contato, como Amiga que a Vida me presenteou. Afinal, graças a Luz, aprendi a compreender -- e praticar -- que amor não é sentimento de posse, mas libertário.
Hoje trocamos confidências e damos risadas dos tropeços do passado, mas sem deboche. Até porque sem esses tombos não teríamos amadurecido e, a bem da verdade, nos tornado o que, bem ou mal, somos. Aliás, nossa geração vive a se questionar por que os jovens hoje se maltratam tanto, ao extremo de ameaçar tirar a vida -- e às vezes indo às vias de fato -- do ser que dizem amar? Jamais serviremos de exemplo, mas uma lição podemos tirar de nossas tentativas de acerto: que não causemos dor se não soubermos fazer feliz a quem amamos.
Continua...
Ahmad Schabib Hany
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