30 anos de saudade...
Depois de sair de uma consulta médica e antes de dar entrada no hospital, o Peregrino que a Vida nos presenteou como Pai se eternizou, repentinamente, diante de nós. Trinta anos depois, seu legado se reproduziu e suas convicções humanistas se fortaleceram no seio das novas gerações.
Parece que foi ontem. Aconteceu há 30 anos. Era uma quinta-feira fria, dia 4 de julho, quando, próximo do meio-dia, o nosso querido Pai, Mahoma Hossen Schabib, esboçava um doce sorriso ao se eternizar, dentro do Gol 1993 de minha Irmã caçula, quando saíamos do consultório médico em que tinha sido atendido e íamos ao hospital (distância de aproximadamente 70 metros).
Nessa época o CTI estava desativado. O Pronto-Socorro Municipal tinha sido transferido de seu prédio original (onde passou a funcionar o Centro de Saúde da Mulher) para um compartimento do Hospital (então sob intervenção), ao lado da Maternidade, defronte do consultório de onde saíramos. Em poucos segundos, o habilidoso motorista encostara na entrada do Pronto-Socorro.
O querido e saudoso Amigo Augusto Lawrentz Bruno Antelo, que nos fazia o favor de dirigir o carro, perplexo e lacônico se aproxima de mim, que estava na portaria com os documentos para fazer a internação, e diz com muita dificuldade que meu Pai já estava sendo atendido no Pronto-Socorro porque tivera um mal súbito. Ao ir até a entrada do Pronto-Socorro é que me dei conta de que o caso era mais grave do que imaginara.
Apesar das incansáveis tentativas de reanimação (não havia desfibrilador no Pronto-Socorro) e reforço de alguns colegas do médico plantonista (inclusive com a vinda às pressas do médico que atendera meu Pai minutos antes), não houve jeito. Estava constatado o óbito. Agradecemos aos médicos, em sua totalidade Amigos da Família, recebemos as condolências e, em meio ao inevitável pranto contido, ficamos a pensar, minha outra Irmã e eu (com o apoio do Amigo Augusto, que também partiu subitamente há dois anos), como comunicaríamos à nossa querida e hoje saudosa Mãe e a todos os membros de nossa Família, a maioria fora de Corumbá.
É como se mentalmente estivesse passando o filme da partida de nosso Irmão Mohamed, ocorrido praticamente 22 anos antes (1974). Não era fuga, era forma de internalizar um fato trágico mediante o reforço da memória. Eu percebia minha Irmã fazendo um esforço sobre-humano para manter-se de pé, e em momento algum se desorientara. Era esse meu medo, pois ocorrera o mesmo comigo quando da eternização de Mohamed.
Enquanto a minha Irmã conversava com os técnicos de enfermagem sobre os procedimentos de retirada do corpo de nosso Pai, a mim coube ligar para casa e avisar discretamente sobre o ocorrido (para não alarmar Mamãe, cardíaca), recorrendo ao telefone dos Amigos da Drogaria Virgílio Aleixo que me fizessem esse favor. Daí mesmo liguei para o local de trabalho de minha Companheira para que me ajudasse na contratação de serviços funerários e toda a dolorosa tarefa que é preciso desenrolar em uma hora crítica como essas.
Ainda tratávamos do embalsamamento do corpo de nosso Pai com pessoas do hospital (então não era fácil conseguir esse serviço na cidade), e quando ela chegou foi resolvido, com sua desenvoltura e delicadeza. A empresa que estava defronte ao Pronto-Socorro foi contratada e tratou dessas pendências, para nosso alívio parcial. Cumprida essa etapa, seguimos de volta para casa, sem nosso Pai e na companhia da hoje querida Amiga de todas as horas.
Assim que entramos em casa, era visível que algum pressentimento tivesse tomado conta de nossa Mãe. Não houve necessidade de recorrer a todas as palavras que havíamos acordado usar: ela, por intuição, já sabia, abraçou nossa Irmã e desabou em prantos, como quando o nosso Irmão mais velho havia se eternizado, precisando ser sedada. Nossa Sobrinha caçula, ainda bebê, estava inquieta, como que soubesse que seu Avô não mais lhe faria cantigas de ninar em árabe. A minha Irmã, Mãe dela, foi a Puerto Suárez depois de telefonar para os familiares no Brasil. O saudoso Tio Hussein Khalil Schabib, Primo de nosso Pai, havia chegado poucas semanas antes, com uma súbita vontade de vê-lo, que fora seu sócio e uma espécie de padrinho. Ele também já pressentira e se recolhera ao quarto da antiga pensão para chorar sem ser visto por nossa Mãe.
Não demorou muito, e as Amigas mais próximas começaram a chegar, ora para tranquilizar nossa Mãe e a nós todos, ora para nos contagiar no choro. Augusto e os demais Amigos ficaram para almoçar conosco. Na verdade, a bebê, Tio Hussein e os Amigos almoçaram, porque por nossa garganta não conseguia passar água, muito menos comida. Como a manifestar nossa contrariedade, as 36 horas de velório na casa da Família foram de jejum absoluto, não porque fosse forma de despedida fúnebre ou cultural do falecido, mas o que ocorrera foi uma total inapetência ante o luto inimaginável.
Centenas de Amigos, ao longo do velório de praticamente três dias, passaram por casa. Lembro-me mentalmente da maioria deles, solidários e incrédulos com o ocorrido. Exaustos, no meio da madrugada da primeira noite fomos mexer em documentos, até para obter os papéis necessários para o funeral e a devida certidão de aforamento perpétuo do jazigo), coisas que aprendemos no meio daquela madrugada, a solidão total diante de papéis intermináveis.
Minhas Irmãs, Cunhado e Sobrinhos residentes em Campo Grande chegaram na noite de quinta-feira. As Irmãs residentes em São Paulo e o Sobrinho Mustafa (Filho do saudoso Primo Zoheir Schabib Khatib), na manhã de sexta-feira, coincidentemente com a nossa saudosa Tia María Teresa May Hany de Paz ('Nena'), que partiu há pouco mais de oito anos, e a Tia María Clara Daad Hany Ascimani ('Chichita'), querida Irmã caçula de Mamãe, a mais resiliente das Tias. Nosso Irmão residente desde 1980 no México, Pai de duas Sobrinhas mexicanas, chegou na tarde de sábado, depois do funeral. À exceção do Tio Hussein, que foi embora dois dias depois do funeral, todos eles ficaram quinze dias conosco, em Corumbá.
Na noite de véspera de sua eternização, Papai pedira para falar com nosso Irmão no México, cujo aniversário é no dia 5. Apesar do argumento de que poderíamos ligar no dia seguinte, na véspera, ele nos disse que não estaria mais entre nós, razão pela qual tivemos que fazer seu desejo. Nesse telefonema ele dissera o que pressentia, como despedida, e, apesar do gemido disfarçado de alguma dor que não conseguia esconder, sua mensagem era de ânimo, afago, consolo. A todos queria deixar uma recomendação, uma missão. E deixou.
Na realidade, no dia que uma de nossas Irmãs aniversariara, dois dias antes de sua partida, ele, ainda internado em uma das clínicas da cidade, contara que não conseguia 'voltar', que estava caminhando pelas ruas de Corumbá e, na tentativa de retornar para casa, ele se distanciava. Até o final daquilo que parecia mais pesadelo que sonho ele não conseguira encontrar o caminho de volta, embora tivesse reconhecido as casas da vizinhança e perguntado a algum vizinho que identificara.
Nosso Pai era de forte convicção, ainda que soubesse aceitar e conviver com opiniões opostas às suas. Mas jamais transigira de princípios. Desde o tempo em que vivera na Bolívia entre 1939 até o início da década de 1960, seus Amigos o apreciavam por sua cordura e sinceridade. O carinho e a gratidão pelo Irmão mais velho, Ale Hossen Schabib, que o trouxe para a Bolívia, jamais se confundiu com submissão ou subordinação, tanto que preferiu morar fora da capital do Beni (Trinidad), na distante Magdalena, onde construiu a sua Vida, sua história pessoal e familiar, trazendo seus Primos mais jovens para que também conquistassem um futuro mais digno, pois a herança colonial francesa e a anterior, turca, haviam deixado feridas profundas na sociedade libanesa, como em toda a Arábia.
Na Bolívia não só construiu seu patrimônio, mas uma história de evolução de suas ideias, afinal, havia sido obrigado a abrir mão de seu projeto de vida intelectual ao ter que deixar a Universidade de Al-Azhar, no Cairo (Egito), por causa da sanha colonial da Grã-Bretanha (Reino Unido), no prenúncio da Segunda Guerra Mundial. E a sua chegada à Bolívia pós-Guerra do Chaco, com o Paraguai, entre dois países ricos em petróleo e vítimas de duas grandes corporações -- uma inglesa e outra estadunidense -- na disputa de grandes reservas, era um desafio social e cultural mais que pessoal, e que o levou a compreender a tragédia social e econômica da pátria que escolheu para seus descendentes.
Soube conquistar um patrimônio consistente à base de muito trabalho como mascate e depois atacadista, e nove anos depois de sua chegada à Bolívia decidiu formar a sua Família ao se casar com a exuberante jovem de fortes convicções Wadia Al Hany Ascimani, da bucólica San Joaquín de Aguas Dulces, também do Beni, a Amazônia boliviana. De ascendência libanesa, sua Família eclética e miscigenada formada pelo Pai Youssef Al Hany, druso (denominação espiritualista árabe expressiva na sociedade libanesa), e a Mãe Guadalupe Ascimani Ojopi, católica, de ascendência libanesa (Pai maronita) e ascendência originária Joaquiniano (Mãe católica).
Ele nos deixou a maior prova viva de que os árabes são praticantes convictos da pluralidade, da diversidade, isto é, oposto ao mito da intolerância de fé e cultura atribuída aos árabes muçulmanos, que desenvolveram vasto domínio comercial durante aproximadamente oito séculos, sem ter imposto a cultura e sobretudo sua religião. Por alguma dúvida, a história da Península Ibérica é uma referência desse ecumenismo e laicismo, diferente, aliás, da prática castellana e lusitana, que em muito menos tempo não só acabaram com as verdadeiras civilizações pré-colombianas, como impuseram sua fé, como os demais europeus, a ferro e fogo: América, Ásia, África e a parte colonizada da Europa são testemunhas dessa tragédia até nossos dias.
Depois de precisar retornar ao Líbano, com toda a Família, por perseguições injustificadas em Cochabamba (para onde se mudou nos primeiros anos de vida conjugal, já com o casal de Filhos mais velhos, antes da Revolução de 9 de Abril de 1952, tendo participado da vida cultural e organizado a juventude árabe, escrevendo e apresentando programas radiofônicos a propósito do pan-arabismo e a Revolução Árabe de Gamal Abdel Nasser), constatou que em sua terra jamais conseguiria viver em segurança para a sobrevivência de sua Família numerosa e com seus jovens Filhos desassossegados.
Antes de completar quatro anos de permanência no Líbano e depois de tentar atividades comerciais em sociedade com o Tio Hussein (que estava visitando-o em Corumbá quando de sua súbita partida) em Trípoli (Líbano), além de uma tentativa de empreender uma saga jornalística no coração da África Magrebina durante as revoluções libertadoras das novas nações árabes soberanas, não lhe restou outra opção que vir de volta com toda a Família para a América do Sul -- desta vez para o Brasil, tendo escolhido Corumbá, fronteira com a Bolívia, pela proximidade com Cochabamba, encantado com o coração do Pantanal e do subcontinente sul-americano.
Transformou sua loja de armarinhos em sorveteria -- graças à orientação e generosidade de seu Amigo Fauze Rashid e sua Esposa Pura Ceballos de Rashid, proprietários da bem-sucedida Sorveteria Superbom, no centro de Corumbá -- e, meses depois, agregou aos seus negócios modesta pensão, com a qual se tornou referente para os comerciantes bolivianos e, anos depois, uma espécie de cicerone da Rota do Sol (cidades incaicas) e do Pantanal, entre 1964 e 1994. Um modesto empreendimento que ganhou visibilidade, por puro mérito seu, constando dos principais manuais turísticos por mais de duas décadas, entre eles o 'South America Handbook' e o 'South America on a Shoestring' (as Bíblias dos mochileiros). Em essas como em outras, entre os anos 1970 e 1996, eram estas as recomendações, gratuitas: informações confiáveis, proprietário afável, ambiente limpo e acolhedor, preços módicos. Nosso Pai era uma das referências para turistas de todas as classes, idades e profissões, inclusive pesquisadores e jornalistas que passaram ou permaneceram em Corumbá por algum tempo.
Quando, em plena vigência dos anos de chumbo, no meio da madrugada, tropas militares entravam nas casas para vasculhar livros e apontamentos dos suspeitos de subversão (e não sabíamos por que nossa casa era tão assediada por essas 'visitas noturnas', sempre recebidas com educação por nossos Pais, a despeito de alguns serem arrogantes e exaltados). Não faltaram ocasiões em que precisavam recorrer à colaboração de alguns árabes letrados que se prestassem ao trabalho de ler e traduzir para os militares tais livros e revistas, aos montes, em casa.
Nosso Pai era um homem, que além de trabalhar com afinco, dava-se ao direito de ler, como lazer, horas por dia (no final da Vida, dei-me ao trabalho de contabilizar o tempo dedicado à leitura: quase oito horas diárias, ora em árabe, ora em português, ora em espanhol, ora em inglês, ora em francês), e o fazia com enorme prazer. Mais que terapia, a leitura era um verdadeiro prazer, para afugentar as angústias, sobretudo pela interminável guerra israelo-árabe e o desmoronamento da barreira soviética ao avanço imperialista sobre a Arábia (ele abominava o pseudolíder Mikhail Gorbatchov; não o achava um equivocado, mas um agente do imperialismo a serviço do sionismo).
Desde crianças, todos nós temos a lembrança de nosso Pai a sintonizar rádios internacionais em árabe, espanhol, inglês, francês e portugês, como Rádio Cairo, Moscou, Paz e Progresso, Havana, Pequim, Berlim, Belgrado, Deutsche Welle, França Internacional, Exterior da Espanha, RAI, Quebec e, óbvio, Voz da América, "para saber o que 'eles' dizem". Sintonizar rádios brasileiras e latino-americanas era com as Filhas e Filhos -- Bandeirantes, como quando da cobertura jornalística ao vivo sobre o golpe contra Salvador Allende no Chile, com o célebre Jornalista Newton Carlos e o Professor Júlio G. Atlas, sírio-brasileiro que dirigia o semanário bilingue árabe "Al-Anbá" (o original, não a versão eletrônica meramente mercantil que existe hoje), LRA Radio Nacional de Buenos Aires e Panamericana de La Paz --, e que gostava de ouvir conosco.
Também o gosto pelo Jornalismo de qualidade foi introduzido por ele, crítico da imprensa vira-lata, embora as principais revistas e jornais que recebia por correio fossem em inglês, francês e árabe, poucas publicações em português e espanhol, até por causa da censura imposta pelas ditaduras sul-americanas. Assim que começávamos a ser alfabetizados, pedia para que lhe lêssemos em português e espanhol algumas notícias, e essa estratégia deu tão certo, que quando adolescentes fazíamos fila, ele no meio, para lermos o jornal do dia. A presença tardia da televisão em nossa Família foi providencial, pois ajudou a nos desenvolver o espírito crítico por meio da leitura.
Em 1967 duas grandes tragédias acompanhamos pelos jornais, conhecendo as mais diferentes versões: a chamada no ocidente de 'Guerra dos Seis Dias' (em árabe Terceiro Assalto), de junho de 1967, em que Moshe Dayan se destaca como um grande general (quando, na verdade, os serviços secretos de todo o ocidente haviam dado de bandeja a vitória para o ente sionista, com o intuito de desmoralizar Gamal Abdel Nasser e a utopia de República Árabe Unida), e, de outubro de 1967, a execução depois de capturado, a pedido de Lyndon Johnson (o mesmo vice que herdou de John Kennedy o governo dos EUA e que patrocinou os golpes no Brasil e na Bolívia de 1964), do comandante das guerrilhas libertárias na América Latina e África, Ernesto Che Guevara, cujas mãos foram decepadas para enviá-las como trofeu à metrópole imperial (era para terem decapitado, tirado a cabeça do líder guerillheiro, mas o policial federal da Argentina enviado para o reconhecimento oficial do cadáver não permitiu, dizendo que ele não poderia ser conivente com um crime contra um cidadão argentino, pois isso era tipificado em seu país como flagrante crime de profanação de cadáver).
E assim uma série de episódios que fazem parte da história contemporânea tivemos o privilégio de acompanhar ao lado de um cidadão do mundo e à frente de seu tempo, um verdadeiro Peregrino que viveu civilizadamente as terras e as culturas por onde esteve, tendo-as como sua terra-natal, com respeito e reconhecimento. Muitas vezes divergimos de sua opinião, mesmo assim respeitava com afeto os nossos pontos de vista, sempre questionando mediante quais critérios havíamos chegado a tal conclusão.
Não me arrependo de, no início da década de 1980, ter aceitado a proposta dele de assumir a pensão com a qual nos havia instruído e formado como cidadãs e cidadãos. Foi um aprendizado. Ao retornar a Corumbá, o convívio profícuo com ele, por quase 12 anos, foi mais que uma pós-graduação. A hora diária de caminhada, quando possível feita ao seu lado, era uma verdadeira aula de cosmopolitismo e cidadania.
Como em todo relacionamento familiar, havia momentos duros, não só pelas adversidades da hospitalidade, sujeita aos (dis)sabores dos mandarins de plantão, aliás, razão pela qual, em abril de 1994, chegamos à conclusão de que o turismo de aventura no Pantanal, o pioneiro -- ao lado do querido Amigo ítalo-britânico William 'Bill' Sefusatti dos Barcos Califórnia; de Jota Carneiro do Expresso do Pantanal; da Família Nader, do pioneiro La Barca Tour; de Clóvis Brandão Carneiro, do 'Gato Frio', com as excursões terrestres pioneiras; de Hermann Petersen e Dona Maria, do 'El Pacu'; de J. Rodrigues, Dona Solange e Seu Guilherme Karsten, das excursões familiares; de Roberto Kassar, das excursões à fazenda da família Kassar; de Armando Duprat, Tony, Joaquim, Catú, Gilberto Magalhães, Zé Paraguaio, Johnny Índio e Sebastião Bobadilha, da cooperativa de guias, etc --, já não era o mesmo com a saída dos precursores e havia se tornado algo perigoso não só para os turistas, mas também para os donos de pensões e pousadas, pois os 'aventureiros' que os sucederam eram impostores de 'Indiana Jones', não mais os autóctones guias que cativavam por sua sinceridade.
Decorridos 30 anos de sua ausência, 17 deles (completados em 15 de junho) sem nossa querida e saudosa Mãe Wadia Al Hany de Schabib, além da saudade interminável, fomos compensados pela felicidade de constatarmos que tivemos a sorte de ter um casal de Peregrinos a nos preparar a base de nossa existência e, também, de nossa capacidade de resistir, não nos submetermos a nenhum jugo, tirano ou mesmo ao 'mercado', fonte de doutrinação das gerações contemporâneas. E o mais importante: ensinaram-nos a não nos pretendermos 'donos da verdade', mas a questionar infindáveis vezes, pois é como os tais 'donos da verdade' acabam se contradizendo e revelando a inconsistência de seus argumentos e ações sórdidas.
Na memória e no coração, levamo-los (os nossos Pais) como referência, sem, contudo, querer que eles sejam nossos reféns de consciência, porque essa é intransferível e única, como também nos ensinaram na Vida. Assim, somos gratos à Vida e à História, porque, embora vivendo em um contexto adverso e hostil aos árabes, bolivianos e descendentes de muçulmanos, entendemos que nossa existência só se justifica na medida que partilhamos, sem qualquer pretensão, o que nos é caro, importante -- o que não tem preço, mas valor, muito valor.
Como o sábio curtido de ancestralidade Atahualpa Yupanqui escreveu e entoou por décadas a fio, em sua paradigmática "Los Hermanos", eternizada nas saudosas vozes de Mercedes Sosa e de Elis Regina: "Y así seguimos andando / curtidos de soledad / nos perdemos por el mundo / nos volvemos a encontrar / y así nos reconocemos / por el lejano mirar / por la copla que mordemos / semilla de inmensidad / y así seguimos andando / curtidos de soledad / y en nosotros nuestros muertos / pa que nadie quede atrás / yo tengo tantos hermanos / que no los puedo contar / y una hermana muy hermosa / que se llama Libertad." ("Los Hermanos", Atahualpa Yupanqui.)
Ahmad Schabib Hany
Nenhum comentário:
Postar um comentário