Doutor Benedito e a Liga Árabe
Presidente da Liga Árabe-Brasileira de Corumbá em fins da década de 1980, Doutor Benedito Gattass Orro dedicou seus vastos conhecimentos, tempo e, sobretudo, generosidade para consolidar a entidade representativa de toda a Coletividade Árabe radicada no Coração do Pantanal e da América do Sul.
Por meio do Amigo Jornalista Luiz Taques tomei conhecimento da eternização do agora saudoso ex-vereador, agente político ativo e médico afetuosamente chamado de Doutor Benedito Gattass Orro. Taques, admirador como eu do querido Amigo Jornalista Edson Moraes, lera a crônica emocionada e emocionante que nosso admirado Amigo comum fizera em memória de um descendente de libaneses que, enquanto viveu, fez da sua jornada uma arena em defesa de suas convicções.
Primo-irmão por parte de mãe do também saudoso médico Fadah Scaff Gattass, o Doutor Benedito Gattass Orro era primo do igualmente saudoso Deputado Roberto Moaccar Orro, com cuja Companheira, a querida Professora Ionne Ribeiro Orro, tive o privilégio de partilhar, em Campo Grande, da interminável pugna pela conquista das liberdades democráticas, culminada em 1988 com a promulgação da Constituição Cidadã em outubro daquele emblemático ano.
Diferentemente de hoje, quando a intolerância promovida pelo ódio daqueles que nunca aceitaram o Estado Democrático de Direito, os três primos tinham as suas posições políticas antagônicas e conviviam civilizadamente sem óbices ou ressentimentos. Cada qual em seu partido e com as suas convicções políticas, sempre se reconheciam como cidadãos plenos e sinceros em suas posições.
Doutor Benedito Orro, politicamente conservador, ligado ao grupo do saudoso Deputado Armando Anache, militara na Arena e depois no PFL. Só ao final de sua longa carreira política é que se filiou ao PDT, suponho que pela amizade com o saudoso Advogado Lício Benzi Paiva Garcia, histórico trabalhista.
O Doutor Fadah era oriundo do PSD de Juscelino Kubitschek e foi, ao lado dos saudosos Doutor Salomão Baruki e Doutor Cleto Leite de Barros, então jovens políticos com formação universitária ligados ao PSD, das vítimas do regime de 1964 (carreiras políticas promissoras interrompidas pelos desmandos golpistas). Eleito o saudoso Doutor Wilson Barbosa Martins (cassado em 1965) para o governo de Mato Grosso do Sul no primeiro pleito democrático pós-1965, é que o Doutor Fadah retoma a vida política em 1983, como prefeito nomeado, graças à indicação do Doutor Wilson, que antes da cassação pertencera à UDN.
Já o Doutor Roberto Orro, desde a infância com domicílio em Aquidauana, era politicamente o mais progressista dos três. Advogado e defensor do Estado de Direito desde a juventude, não só militou na grande frente democrática em que se transformara o MDB (não o de hoje, por favor!) durante os anos de chumbo, como abraçou a pauta política mais combativa, aquela que reunía a ideologia que defendia os direitos dos trabalhadores, muito além da social-democracia. Não por acaso, como deputado foi líder do governo na Assembleia Legislativa durante o primeiro mandato de Wilson Martins.
Oriundo de um contexto familiar em que a diversidade congregava e iluminava as ideias, os ideais e a prática social, Doutor Benedito em sua atividade política era, de longe, um conciliador. Isso eu pude constatar quando, acompanhado de meu saudoso Pai, libanês como os dele, conheci o então diretor da BEMAV, a clínica de radiologia de sua propriedade, situada num imponente prédio à rua Antônio Maria, defronte ao célebre Santa Mônica Hotel, de Seu Netinho.
Mas meu contato pessoal com ele se deu, por indicação do saudoso Amigo Doutor Márcio Toufik Baruki, em maio de 1987, quando, ao lado do saudoso Camarada Jadallah Safa e do querido Amigo Najeh Abdel Hamid Mustafá, então presidente da Sociedade Árabe-Palestino-Brasileira de Corumbá, estávamos organizando a coleta das peças, indumentárias e obras árabes para a realização da Primeira (e única até hoje) Mostra da Cultura Árabe-Palestina de Corumbá, no espaço da Biblioteca Pública Estadual Gabriel Vandoni de Barros, na Casa de Cultura Luiz de Albuquerque (o ILA de todas as culturas, de todas as artes).
Presidente da Liga Árabe-Brasileira de Corumbá, o Doutor Benedito nos listou nomes de árabes de diferentes nacionalidades -- libaneses, sírios, palestinos e jordanianos -- residentes havia anos em Corumbá e Ladário. Contara-nos que no ano seguinte, 1988, seriam celebrados os 40 anos de fundação da Liga. Saudou a iniciativa, mas se desculpara por não poder contribuir diretamente, pois os demais membros da diretoria não participavam desde a posse. Também como o Doutor Fadah, o então prefeito Doutor Hugo da Silva Costa, os vereadores Jonas de Souza Ribeiro e Valmir Batista Corrêa (padrinho da competente Professora e biblioteconomista Elenir Lena Machado de Melo, organizadora da Mostra) esteve na abertura solene, numa gelada noite de julho de 1987, em que membros do primeiro escalão do governo de Marcelo Miranda Soares vieram prestigiar, entre eles os saudosos Doutor Roberto Orro, secretário de Justiça, e Cândido Alberto da Fonseca, diretor-executivo da Fundação de Cultura de MS.
Desde meu retorno a Corumbá, em 1984, tive a honra de compartilhar diversos momentos memoráveis com o Doutor Benedito, sobretudo entre 1988 e 1998 na mesa dos saudosos Debates Populares da Jovem Clube, quando o programa era semanal, aos sábados, apresentado pelo jovem radialista João Luiz Gonzales e produzido pelo saudoso Professor Deusmar Jatobá Espíndola, mais tarde sob a condução do também jovem radialista Andersen Urt Navarro, que acabou por se apaixonar pela jovem debatedora, convidada pelo Deusmar, Rose Verão, ainda aluna do curso de Psicologia do CEUC. A partir de 1991, com a vinda do saudoso radialista, jornalista e advogado José Carlos Cataldi, o programa, produzido por ele, passou a ser diário, com a participação fixa do Professor Valmir Corrêa e dos saudosos Doutor Lício Benzi, Doutor Benedito e empresário Hélio Benzi, e apresentação do também saudoso Jornalista Armando de Amorim Anache.
Nossa sincera e profunda solidariedade à Doutora Alair Orro, enfim, a toda a Família Gattass Orro, e tenha a certeza de que seu legado cidadão inspirará muitas gerações pela conduta com que agiu como vereador e agente político durante décadas.
CONTRAPONTO
Como toda eternização, lamentada a partida eterna do Doutor Benedito Orro, quando estamos por celebrar 80 anos de fundação da Liga Árabe-Brasileira de Corumbá, pioneiro clube árabe em todo o estado de Mato Grosso uno (Surian e Sírio-Libanês, de Campo Grande, são posteriores). Mais triste saber, logo na mesma semana de sua eternização, que sorrateiramente a sede da Liga Árabe-Brasileira de Corumbá, na calada da noite, tenha sido vendida ilicitamente, e ficam as indagações: autorização de quem, com que direito, por quê? Vergonha e indignação...
Estamos em plena pugna desgastante pela preservação da histórica sede do não menos glorioso Riachuelo, cujo destino foi decidido em Campo Grande. E não é mera coincidência que o comprador de um prédio histórico como o da Liga seja oriundo, também, de Campo Grande. Mas os tentáculos fincados aqui precisam ser identificados e punidos, nos dois casos, sob pena de nossos Filhos e Netos se envergonharem de nossa conduta como cidadãos.
Em respeito à memória do Doutor Benedito Gattas Orro e de outros Cidadãos (letra maiúscula), como o saudoso Doutor Rômulo do Amaral (autor da ação que impediu a desapropriação do Riachuelo pelo município em 2008), cuja contribuição para a afirmação da identidade cosmopolita do Coração do Pantanal e da América do Sul está escrita na história. E ninguém pode se atrever a apagar.
A Liga Árabe-Brasileira de Corumbá e o Riachuelo Futebol Clube nos pertencem por direito, defendê-los e preservá-los é um dever!
Ahmad Schabib Hany
Nenhum comentário:
Postar um comentário