domingo, 3 de maio de 2026

WILLIAN, O MENINO-GENTILEZA

WILLIAN, O MENINO-GENTILEZA

Willian, o Menino-Gentileza, foi-se com a idade de Cristo. Subitamente. Deixou dois descendentes, ainda em tenra idade, para dar chance à humanidade continuar a acreditar em si e nos valores maiores. Fica a dor da saudade, sobretudo para Dona Antônia, uma guerreira de Luz que sozinha cuidou de dois rebentos com muito amor e consciência.

Willian Aparecido Brito Guerra. Willian (com 'n'), como a Grande Mãe, Dona Antônia Brito, sempre o chamou, sem disfarçar a ponta de orgulho por seus dois rebentos -- Willian e Leonardo --, cuidados por ela, sozinha, com muito amor e consciência. Ela mesma uma vencedora em sua própria emancipação, ainda adolescente, revoltada pelos maus-tratos do Pai, que não deixou de visitar, já adulta e morando a milhares de quilômetros de seu lar paterno.

Considero-me um privilegiado por ter compartilhado momentos únicos com Willian, quando ele ainda era pré-adolescente e fazia questão de visitar o Professor Masao Uetanabaro pelo menos duas vezes por semana. Nessa época Omar e Sofia tinham apenas 5 e 3 anos e Willian, o primeiro Amiguinho deles, ficava a brincar generosa e criativamente por horas. Não me esqueço de sua habilidade para se comunicar com eles e, sobretudo, de dois brinquedos feitos por ele, de artesanato, à base de arame, que ele manipulava com maestria.

Nessa época fiquei por quase dois anos tratando de minha saúde e ele, gentil e prestativo, se ofereceu para me acompanhar ao centro de Campo Grande. Não foi pouca a minha surpresa: Willian, a despeito da idade, se comunicava como adulto com todos os seus interlocutores e, mais, muitos motoristas de ônibus acenavam para ele como velhos Amigos. Perguntava a ele: Você o conhece? Ele respondia com desenvoltura: sim, é Seu Fulano, meu Amigo motorista da Linha tal. Também com donos de banca de jornais [naquela época ainda havia várias bancas de jornais, e ele, que colecionava figurinhas da Copa do Mundo e de Pokémon, não se limitava à aquisição do produto, mas comentava com eles, e acabava fazendo amizade].

Foi uma experiência marcante. Na época cheguei a fazer um texto sobre essa verdadeira jornada ao mundo da gentileza, vivência cidadã única, nunca antes conhecida, apesar de meus 50 anos bem vividos. Esse era Willian, o Menino-Gentileza que na tarde desta sexta-feira, Dia Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador, se transformou em Menino-Luz. Eis que na manhã deste sábado um telefonema do Professor Masao me dá conta da eternização, com a idade de Cristo, desse verdadeiro Anjo em forma humana, durante o trabalho.

O Masao, desolado, me participava a partida precoce do Menino-Gentileza, depois de sofrer uma parada cardiorrespiratória no local de trabalho, deixando órfãos dois também meninos, de apenas 4 e 3 anos, que terão a memória do Pai como em sonho. É claro que têm, além da companhia da Mãe, a afetuosa atenção da Avó, Dona Antônia, que por gerações entendeu que a infância é um estado de espírito e a assistência amorosa e formativa é base de tudo.

Neste momento de dor pela partida do querido Willian queremos dizer a essa brava lutadora, à querida Dona Antônia, que é uma vitoriosa: sozinha, soube não apenas educar, formar e forjar cidadãos corajosos, sobretudo numa cidade como Campo Grande, em que o conservadorismo excludente não esconde seu ranço. Dona Antônia é mais que uma vencedora, é referência: os seus Filhos formaram suas respectivas Famílias à luz de seu legado generoso, sólido, intrépido, determinado.

Quando a humanidade vive tempos sombrios, o mundo se depara com tiranos de uma falta de noção abissal, a sociedade se encontra atônita diante de seres que, em nome de 'Deus, pátria e família' e  'família, tradição e propriedade', se jactam e cometem atropelos jurídicos e constitucionais para forçar a redução de penas de crimes abomináveis -- tal qual atentar contra o Estado de Direito e a democracia, cometer feminicídios, fazer chacinas contra pessoas indefesas de comunidades de explorados, indígenas e quilombolas --, como querem adiar a redução da jornada de trabalho dos brasileiros. Antes o sistema dizia 'bandido bom é bandido morto', hoje o sistema prega que 'bandido bom é bandido solto'.

Aprendemos muito com o agora Menino-Luz, o querido Willian: gentileza, generosidade e urbanidade. Continuamos a aprender muito com Dona Antônia, cuja dignidade irradia consciência de classe desde sempre. É a dignidade a que forja a consciência de classe, como vive a nos ensinar, sincera e humildemente.

Força, fé e resiliência (que sempre teve), querida Grande Mãe! Gratidão, Dona Antônia, e o carinho de toda a Família, que temos o privilégio de conviver, ainda que à distância, com a senhora e toda a sua Família!

Ahmad Schabib Hany

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