sábado, 29 de novembro de 2025

Obrigados, IBEC! Obrigados, Amigas e Amigos!

Obrigados, IBEC! Obrigados, Amigas e Amigos!

"Adeus, Escola querida / Adeus, adeus, adeus! / De ti eu levo saudades / Saudades tantas de ti..."

Estes versos, de autor desconhecido por meus mestres queridos de quase 60 anos atrás, estiveram martelando minha memória desde o início de novembro, mês em que Omar, meu Filho, celebrou a conclusão do Ensino Médio no IBEC (Instituto Baruki de Educação e Cultura) - Objetivo de Corumbá.

Na verdade, até já tinha esquematizado mentalmente meu "improviso", no intuito de manifestar nossa gratidão profunda e incondicional de pais convictos da excelência da formação escolar realizada ao longo de uma década e meia na única escola que meus Filhos conheceram antes de rumar ao Ensino Técnico / Superior e definirem os seus caminhos de cidadãos com solidez e solidariedade.

Embora me sentisse impelido a expressar de viva voz a gratidão que vem desde antes da permanência de meus Filhos -- desde a permanência de Dunia, minha Sobrinha, que abriu caminho para Omar e Sofia no IBEC/Objetivo --, percebi o quão arriscado seria falar antes dos protagonistas da noite, da conquista e da contemporaneidade. Até porque temos um "combinado" já há um tempinho em que não posso incorrer no erro de lhes fazer "pagar mico".

Para minha sorte e alívio, tenho a oportunidade de expressar por escrito, sem correr o risco de causar constrangimento aos que amo mais que a mim mesmo. E o mais importante: com meu prudente silêncio, pude vê-lo manifestar-se, ao lado de seus Amigos e Amigas, como cidadão protagonista de seu destino que é. Nessas horas vemos como estão maduros, autônomos, desenvoltos... Claro, e fiquei cheio de emoção e orgulho, mas, como eles mesmos dizem, não podia fazê-lo "pagar mico"...

Ao agradecer, de coração, à Escola IBEC/Objetivo, quero dizer à Diretora, na pessoa da querida Professora Lígia Maria Baruki e Melo, muito obrigado a cada Professora/Professor, Auxiliares de Disciplina, Funcionárias e Funcionários -- maiúsculas, por favor -- das mais diferentes funções que, desde o pré-escolar, se dedicaram generosamente à formação educacional, intelectual e cidadã de meus Filhos -- na verdade, desde o tempo de minha querida Sobrinha Dunia --, gratidão que levaremos, a Família inteira, para toda a Vida.

Agradecemos também à Professora Adelma Pinto Galeano, cujas contribuições para a formação de nossos Filhos foi determinante. Nesse agradecimento estão inclusos os nomes das Coordenadoras ao longo desse período de formação. Mais ainda: à equipe de profissionais da Secretaria, da Tesouraria e da Cantina, cuja atuação cordial e prestativa foi extremamente salutar e resolutiva.

Nesse contexto está nossa profunda e sincera gratidão à Senhora Yula Baruki e Melo, mais que Filha e Neta dos saudosos fundadores do IBEC, uma gestora que inspira confiança e tem em seu DNA a Educação como instrumento de formação e de emancipação social e humana. Ao contrário do que hoje se preconiza de forma hegemônica e totalitarista, Educação não é mercadoria, produto; é meio de valorização humana, social e cidadã, o que temos testemunhado ao longo de quase 20 anos no cotidiano do IBEC.

Também temos que agradecer, com penhor, aos Colegas que se transformaram em Amigas e Amigos no transcurso do tempo e às suas queridas Famílias, que em diversos momentos nos representaram, fosse na Escola ou no seio familiar, com o mesmo carinho e responsabilidade que temos com os seus. Nesse particular, essa relação salutar e vívida foi essencial para a formação cidadã em sua plenitude, irradiada no ambiente escolar saudável. Nossa Amizade é, também, para toda a Vida.

Nossa gratidão, no âmbito familiar, do fundo da alma, para minhas Irmãs, Irmão e Cunhados, que generosa e espontaneamente dedicam afeto, cuidado e apoio efetivo para a formação cidadã, intelectual e humana de Omar e Sofia. Não há palavras capazes de expressar a dimensão de nosso reconhecimento profundo e sincero. E a presença de duas delas na celebração deste 28 de novembro foi, mais que representativa, gratificante. Obrigados, de coração, queridas Irmãs e queridos Irmão e Cunhados!

Verdadeira Amiga, Dona Carmen Gomes Galeano, mais que Avó presente de Omar e Sofia, tem sido uma discreta e sábia Companheira, capaz das atitudes mais nobres e singulares. Coração do tamanho de sua generosidade e de sua humildade, Dona Carmen constrói um porvir iluminado a todos os seus descendentes, ainda que eles e elas não percebam em profundidade. Seu Mário Galeano, como bom capitão mercante, sabe desse porto seguro que há mais de seis décadas lhe assegura um cotidiano estável e confiável.

Um igualmente agradecimento imprescindível a todas as Amigas e todos os Amigos presentes na Vida de Solange e na minha, na pessoa emblemática e inspiradora da querida Engrácia Leite, a Fada Madrinha que, desde antes do nascimento das "Crianças", tem cuidado da saúde mental de todos nós. Afilhada de um personagem histórico de Corumbá que merece um estudo de caso honesto e metódico, a saudosa Senhora Ernestina Ferreira de Araújo, responsável pela presença do Racionalismo Cristão no coração do Pantanal e da América do Sul, Engrácia, como uma monja sábia e solitária -- além disso, sempre solidária --, enfrentando os maiores desafios e adversidades, nos ensina com as suas espontâneas atitudes, todos os dias, a superar as nossas limitações, os nossos recalques.

No tocante à Equipe IBEC/Objetivo, gostaria de citar, uma a uma / um a um, todas e todos, sem exceção. Tentei não esquecer ninguém, mas fui advertido de que o risco de deixar de citar uma / um prejudicaria a homenagem toda. Porém, não poderia deixar de mencionar três cuja ausência não consegui não sentir durante o ato de celebração: uma Diretora, Professora Terezinha Baruki; um Docente, Professor Francisco Carlos Ignácio, e uma Funcionária, Dona Maria de Fátima da Silva Franco.

Durante a celebração, tive a sensação de que, ainda que em pensamentos, elas e ele estivessem, ora entre Alunas e Alunos da Nona Série e do Terceirão, ora entre as adultas e os adultos, compartilhando das alegrias e das tristezas. Sim, porque além da alegria de completar um ciclo de Vida, que é a conclusão do Ensino Fundamental e do Médio, o fato de cada um começar a trilhar novas vias (a maioria em outras cidades ou estados) é de partir o coração. O clima foi de despedida, mesmo que a alegria também reinasse.

A Tia Fátima, assim chamada por meus Filhos, se eternizou num dia como amanhã (em 29 de novembro de 2017), aos 37 anos, dia de seu aniversário e da abertura do 18o Fórum Infanto-juvenil. Professor Francisco, que se eternizou 15 dias depois da Diretora (2 de setembro de 2021), deixou sua marca indelével na memória das e dos Colegas, Alunas e Alunos e de todas as Mães e Pais do IBEC/Objetivo. E o que dizer da Professora Terezinha, que se eternizou no dia 13 de agosto de 2021 (um dia depois do Dia do Estudante)? Três grandes faltas muito sentidas, embora não verbalizadas.

Tristeza, também, por essas ausências. Porque somos o que nosso convívio nos torna. Seria redundância dizê-lo, mas o farei porque as pessoas vivem a dizer, a lamentar: a falta da Professora Terezinha, considerada a alma do Educandário. Por certo, não conheceram a Professora Magali de Souza Baruki e o Professor Salomão Baruki, fundadores da Escola, ao lado da Professora Terezinha. Pais da Professora Lígia, eles são referência na Educação, na Cultura e na formação de diversas gerações de Educadores.

Aliás, o IBEC/Objetivo é mais que uma Escola, é uma usina de Vida. Lembro-me como hoje quando Dunia iniciou seus estudos, fins da década de 1990, e todos os dias, ao retornar, nos relatava as experiências vividas com as Professoras e os Coleguinhas. Não por acaso, ela sempre ousou ir em frente, desafiando todos os limites, fosse em Corumbá, Rio de Janeiro ou São Paulo, e experimentando novos horizontes, sem titubeio.

Ao contrário de muitas escolas contemporâneas, o IBEC se caracteriza, desde o início, pelo trabalho em equipe. E quando se trabalha de forma coletiva, isto é, em equipe, outro é o comportamento das Alunas e dos Alunos. Muitos pais têm consciência, sabem desse valor agregado, para usar uma expressão do vocabulário neoliberal. Formação qualificada, o chamado espírito de grupo, sentido de coletivo, é perceptível no alunado do IBEC, cujo desempenho tem um diferencial para toda a Vida.

Portanto, Professora Lígia, o nosso muito obrigado vem com esse conjunto de reconhecimentos -- no plural, ainda que pareça cacofônico --, que nos tornam seus devedores altivos e ativos de um contexto de Educação experimental, com generosas pitadas da vanguarda, em um tempo em que a maioria da sociedade tem manifestado incredulidade, ceticismo, ante suas generosas perspectivas. E, é bom destacar, que o problema não está na Educação, mas na própria sociedade, cujo modo de produção aparentemente hegemônico já capitulou mas insiste em impor suas bizarras concepções de Vida e de Mundo, ainda que caducas.

Quando deixamos, no primeiro dia, nossos "bebês" no pré-escolar do IBEC, já tínhamos certeza de que estávamos seguros, convictos, que a trilha a ser feita pelos nossos Filhos era saudável, profícua e, sobretudo, transformadora. Hoje, quando eles concluem este ciclo de Vida escolar, além de gratidão e Amizade, forjadas ao longo de um convívio intenso e dialético, como a Vida e a História, temos em sua concepção de Educação esperança, conforme o legado do Mestre Paulo Freire, de saudosa memória. Esperançar, verbo transitivo direto.

Assim, até breve, Família IBEC/Objetivo! Até breve, Amigas e Amigos que fomos nos irmanando ao longo dos anos, década e meia a fio!

E, como dizia a canção ensinada em nossa Escola Paroquial Nossa Senhora de Caacupê, aí, bem pertinho de nós, mas num distante 1966 (cujo capelão era o saudoso Padre Ernesto Saksida, do alto de sua jovem maturidade): "Adeus, escola querida / Adeus, adeus, adeus! / De ti eu levo saudades / Saudades tantas de ti..."

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

CÂMARA MUNICIPAL REALIZA SESSÃO DE SOLIDARIEDADE AO POVO PALESTINO


domingo, 23 de novembro de 2025

Movimento UFPantanal fixa outdoors em Corumbá e Belém






Movimento UFPantanal fixa outdoors em Corumbá e Belém

O Movimento pela criação da Universidade Federal do Pantanal fixou outdoors em Corumbá (MS) e Belém (PA), onde aconteceu a Cúpula do Clima. É o início de uma nova fase do Movimento, que está finalizando pré-projeto do futuro centro de referência sobre o Pantanal e a tríade inovação, inclusão e integração.
Neste feriadão em Corumbá (MS) e há duas semanas em Belém (PA), quatro outdoors foram expostos como expressão do Movimento UFPantanal, pela criação da Universidade Federal do Pantanal. Uma universidade com o DNA do Bioma. Que o Mundo precisa do Pantanal e o Pantanal precisa do Mundo. As novas gerações e toda a população brasileira têm urgência pela implantação de um centro de referência em Pantanal, sobretudo nestes tempos álgidos e de oportunismo individualista institucionalizado.
Com base em estudos bem fundamentados ao longo de décadas e a observação crítica e sincera de quem atua no ensino e na pesquisa há mais de 50 anos em Corumbá e no Pantanal, o mais efetivo investimento a ser feito na região é a implantação de instituição universitária federal a ser gerida sem subalternidade no coração do Pantanal e da América do Sul. Além da geração de postos de trabalho diretos e indiretos de qualidade como oportunidade para as novas gerações cuja única saída é uma BR-262 pródiga em tirar a vida de pessoas em busca de porvir, a elevação da massa salarial em uma região que nos últimos trinta e cinco anos perdeu mais de cinco mil empregos qualificados com a privatização da Noroeste, Bacia do Prata, Urucum Mineração (da extinta Metamat), Embratel, Telems e Enersul, além do esvaziamento de instituições locais como o INSS, INCRA, IBGE, PORTOBRÁS, INFRAERO, Receita Federal, Banco do Brasil e muitas outras agências bancárias.
Para surpresa dos céticos e decepção dos contrários, o Movimento UFPantanal se ergue do âmago dos desassossegados, da consciência das cidadãs e cidadãos, povos originários e comunidades tradicionais sinceramente comprometidos com as reais e efetivas demandas por transformação da região cuja população tem sofrido sério processo de descaracterização em sua diversidade biológica e humana (incêndios que tomam conta do Bioma e o processo de esvaziamento demográfico, cultural e ambiental por causa das carências de equipamentos e investimentos no interior do Pantanal são fatores ineludíveis a ser encarados de frente, sem procrastinação).
No coração da COP-30, a campanha foi "UFPantanal, o futuro sustentável do Pantanal", em que o painel foi colocado no acesso a uma das principais vias da Cúpula Mundial do Clima, ainda que houvesse muita polêmica em relação à gestão pelo governo paraense, em muitos momentos truculento com a participação popular.
No coração do Pantanal e da América do Sul, o mote é "UFPantanal, o futuro começa aqui". Porque efetiva e sinceramente está aqui, no centro formador -- a UFPantanal, com sede em Corumbá --, o futuro para as novas gerações de corumbaenses, ladarenses e pantaneiros de todos os quadrantes, demais brasileiros e, inclusive, transfronteiriços. Os primeiros painéis foram colocados à Rua Frei Mariano com Portocarrero, à Avenida Rio Branco (em frente ao prédio histórico do Campus do Pantanal da UFMS) e à Rua Dom Aquino próxima à saída para a Bolívia. Logo virão outros outdoors, bem como outras campanhas, e sobretudo as etapas participativas, consultivas e debates.
Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Guilherme Mota: justiça, memória e verdade

Guilherme Mota: justiça, memória e verdade

Em pleno século XXI, protetor de animais foi morto por linchamento pelos vizinhos em Teresópolis quando, ao não dispor de ração para quase 500 animais de seu canil, teve que abrir as portas do abrigo para evitar que os animais cometessem canibalismo pela fome. Não fazia a mínima ideia de que seus semelhantes mais próximos eram os temíveis assassinos irracionais.

Lamentável, indignante, condenável o comportamento de "cidadãos e cidadãs" que se deram o direito de tirar a Vida, por linchamento, de Guilherme Mota, um benfeitor, protetor de animais que por mais de quinze anos dedicou a Vida a mitigar, se não resolver, uma questão de interesse coletivo, em Teresópolis, Rio de Janeiro.

Porque cuidar de animais abandonados é questão de saúde pública. É obrigação do poder público, "senhores cidadãos" e "senhoras cidadãs" que desdenham do cuidado, da proteção realizada espontaneamente por pessoas anônimas, generosas e solidárias com os animais abandonados, em sua maioria pelos mesmos "senhores cidadãos" e "senhoras cidadãs" praticantes do amor narciso e descartável que amealha, inclusive, Vidas humanas, como as vítimas do feminicídio e da violência policial.

Guilherme Mota, diante do abandono pela prefeitura local e "apoiadores" ocasionais e intermitentes, à distância, quando viu o canil com quase 500 (QUINHENTOS) animais virar uma arena em que o canibalismo se tornara iminente ante a fome não saciada da canzoada, não lhe restou outra atitude que abrir as portas do espaço feito e cuidado para abrigar cães abandonados pela população e pelas autoridades de Teresópolis, por isso vítima da peçonha dos pretensos cidadãos e cidadãs que, depois do ato de barbárie praticado, dormem impunemente no conforto de suas "consciências".

Em vez de apoio ao benfeitor que dedicou ao menos 15 anos de sua breve existência de 38 anos, essa foi a pena, sem julgamento e direito a defesa. Guilherme Mota foi assassinado por linchamento pelos vizinhos do canil por ter aberto as portas do espaço que construíra e cuidara por mais de uma década e meia. Revelara estar desesperado por não ter mais ração para atender o canil e perceber que os animais, tomados pela fome, cometiam canibalismo pela causa mais óbvia: a fome, que não espera, sobretudo entre os caninos, ainda que "domesticados".

Só depois da repercussão do crime cometido contra o protetor de cães abandonados ao longo dos últimos 15 anos em Teresópolis é que a prefeitura do município, tardia e irremediavelmente, agiu. A resposta, via de regra, é esta: "não há verbas consignadas no orçamento." Mesmo que o protetor atuasse sem interrupção havia 15 anos. "Nada pessoal, mas esse protetor não era fácil." É a saída mais frequente, pois ele não está mais entre nós para contrapor, para se defender.

A denúncia, feita por Juliana Camargo Müller, do Instituto Ampara Animal, nas redes sociais, chocou todas as pessoas sinceramente comprometidas com a Vida. Ter compromisso com a Vida não é hierarquizar a existência das espécies, da dignidade intrínseca a cada uma delas. Vida é existência com dignidade. Ou será que as e os doutos que se engalfinham de dois em dois anos para galgar postos de poder e auferir privilégios em nossa sociedade eivada de cobiça e ganância não o sabem? Ou fingem não saber.

Juliana Camargo conta, em prantos, que, a par da insólita tragédia, cometida no coração da extinta Corte -- tal como na matança da véspera do Dia de Finados, quando mais de 100 cadáveres foram oferecidos em celebração pagã e cínica pelas autoridades declaradas "cristãs", mas na verdade cultoras da necropolítica do estado do Rio e apoiadas pelos viúvos do inominável de sete estados --, procurou pesquisar sobre os últimos dias do benfeitor cuja Vida foi ceifada pelos vizinhos indiferentes ao seu trabalho voluntário de mais de uma década e meia.

E qual não foi a sua perplexidade ao constatar nas redes sociais que, em suas derradeiras semanas de Vida, Guilherme pediu incessante e desesperadamente doações para empresas, instituições públicas e "pessoas de bem", que ora sim, ora não, entregavam uma esmola para ele, mesmo sabendo da quantidade estratosférica de cães atendidos em seu canil? Mostrou o último vídeo, em que o protetor de animais compartilhava seu desespero de ter que abandonar os cães e soltá-los para que não se matassem por canibalismo.

Mal sabia Guilherme que era também a despedida de sua própria Vida. Pouco depois seria linchado pelos vizinhos. Piores, aliás, que os animais, chamados "irracionais", que estavam a cometer canibalismo por causa da fome atroz a que haviam sido submetidos por falta de ração.

Animais irracionais, motivados pela fome, cometem canibalismo. E motivados por que os ditos animais "racionais", ou melhor, seres humanos matam com requintes de crueldade o benfeitor que por mais de quinze anos cuidou dos animais abandonados? Talvez apenas Freud pudesse explicar. Uma conjunção de fatores tem eclipsado a mente humana nestes tempos bizarros: o ódio, a impunidade, o recalque, a soberba, o supremacismo, a falta de empatia etc.

Emocionante, a mensagem da Irmã de Guilherme, que não deseja vingar a trágica morte do Irmão, apenas que a justiça seja feita. Para ela é mais importante a memória, a razão de viver do protetor, e por isso pede que a população não abandone seus animais, até porque Guilherme não está mais entre nós para proteger os cãezinhos abandonados.

Que dignidade! Quanta empatia! É assim como a humanidade se supera: podem as hordas de soberbos ceifar a Vida de um, dez, cem, mil, milhares, milhões, mas sempre virão, do seio do povo, das entranhas da humanidade, seres iluminados a trazer esperança e magnanimidade para que as novas gerações tenham exemplo para se inspirar!

Esse misto de realidade trágica e empatia, contudo, não está restrito a Teresópolis. Em Ladário, até bem pouco tempo, tivemos o caso de uma venerável e digna Professora que vem dedicando seus melhores anos de Vida para cuidar de cães e gatos abandonados de Corumbá, Ladário e até da área rural -- cães e gatos abandonados em áreas comunitárias às margens da BR-262 já foram levados por pessoas sensíveis à Vida e entregues à Senhora Auxiliadora (até o nome faz jus à sua vocação de protetora, inclusive de gente, sabia?) --, e que, do nada, familiares de um ex-marido, desses que se creem abençoados reprodutores acima da lei, haviam vendido o terreno onde a senhora construiu, com a ajuda de voluntários, o canil e o gatil, e, portanto, a Professora teve que arranjar, a toque-de-caixa, novo local.

Em sã consciência, a omissão -- prevaricação, pois esse crime tem nome e tipificação no arcabouço jurídico -- pelas autoridades municipais do cuidado com animais "domésticos" abandonados no perímetro urbano não é para ser "empurrada" sobre a atitude digna e exemplar de pessoas que voluntariamente se dedicam a cuidar e permitir adoção responsável de animais resgatados ao serem abandonados por "pessoas de bem" -- ou porque são transferidos para outros destinos, ou porque simplesmente são adeptos e praticantes do "amor descartável" e abandonam os bichinhos ao "deus-dará".

E o que tem feito a administração municipal em escala nacional? Mesmo havendo verbas orçamentárias do Fundo Nacional de Saúde, prefere não se dar ao trabalho de procurar resolver esse problema, que é de saúde pública, de interesse coletivo, sim. No máximo, prestam-se a fazer, como se fosse um ato de favor, de generosidade, esporadicamente campanhas de vacinação e de castração. Entre 2009 e 2011, fui conselheiro municipal de Saúde em Corumbá e jamais tive oportunidade de me debruçar sobre uma política consistente e perene de proteção e prevenção ao abandono de animais.

Na verdade, sempre houve demanda para que em nível municipal fossem implantadas e implementadas ações, ou projetos, programas e mais recentemente políticas na área da saúde animal. Forante louváveis gestores -- que representam a exceção, não a regra --, é constante a postura negligente de quase a totalidade dos municípios brasileiros no cuidado com a saúde animal. Aliás, a situação também é crítica até com a saúde humana, a despeito da obrigatoriedade constitucional pós-1988 e a legislação do SUS a partir de 1990, e não por falta de recursos, mas pelo criminoso desdém político-corporativo, triangulado com os acintosos esquemas de desvio de verbas públicas.

Essas mesmas "pessoas de bem" que, passando-se por hipócritas e moralistas falsos "cristãos", aplaudem a execução eleitoreira de centenas de brasileiros e brasileiras abandonados nas periferias desde o tempo da "abolição da escravatura" -- como se a escravidão ainda hoje não existisse acintosamente, nas faustosas casas em que oficiais de Justiça não podem ousar adentrar e em seus negócios, sejam urbanos ou rurais, com o empavonado conceito de "trabalho análogo ao escravo".

Que a criação da futura Universidade Federal do Pantanal -- nossa gloriosa UFPantanal -- possibilite um programa permanente, em caráter de extensão, para o cuidado responsável e, sobretudo, a formação de cidadãs e cidadãos que respeitem a Vida de forma integral, seja humana, felina, canina e de tantas outras espécies vítimas da cobiça, pilhagem e ganância. Essa mesma tríade maldita que promove o genocídio na Palestina (Gaza, Cisjordânia e Jerusalém), a matança no Rio de Janeiro (comunidades do Alemão e da Penha), os massacres programados na Bahia (Fazenda Coutos e Camaçari) e São Paulo (Peruíbe, Mongaguá, Itanhaém e Bertioga, na Baixada Santista), as execuções seletivas em Mato Grosso do Sul (execução de um indígena Guarani-Kaiowá em Iguatemi), Amazonas e Pará e as carnificinas no Iêmen, Congo e Sudão. Para não falarmos no iminente banho de sangue no Mar do Caribe e em nossa América Latina, onde nefastos -- sim, nefastos! -- falsos "cristãos", a serviço do igualmente funesto império em decadência, promovem a entrega da Patagônia argentina, Amazônia peruana e Chaco paraguaio.

Somos todos Guilherme Mota! Justiça, memória e verdade, hoje e sempre!

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Gordinha virou estrela

domingo, 2 de novembro de 2025

زهرة المدائن فيروز (اركسترا Orchestra) Zahrat al Madayn Fairouz

VICTOR JARA - Cuando voy al trabajo / El derecho de vivir en paz

El derecho de vivir - Palestina Libre (English Sub)

Danny Rivera - Somos Palestina

Viva Palestina... Abajo el sionismo

Pink Floyd, Roger Waters - Song for Palestine.

VENCEREMOS. La pasionaria canta por Palestina, generado por IA

Yo Quisiera - Canción en Español sobre Gaza - Palestina

موطني Mawtini – معهد ادوارد سعيد الوطني للموسيقى فرع غزه

Al Watan Al Akbar - 1962

"Chant of The Path of Revenge","نشيد طريق الثأر" - Pan-Arab Nationalist ...

FAIROUZ - El Qods /Jerusalem 1967 فيروز - القدس زهرة المدائن

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

"Hoje em Gaza, amanhã em casa"

domingo, 26 de outubro de 2025

VLADIMIR HERZOG, MÁRTIR DA DEMOCRACIA, O DIVISOR DE ÁGUAS

Vladimir Herzog, mártir da democracia, o divisor de águas

Divisor de águas, o Jornalista Vladimir Herzog, ao ser assassinado em 1975 sob tortura pelos ídolos dos canalhas que hoje se fazem de vítimas (tal como seus treinadores sionistas que assassinam em Gaza, na Cisjordânia e em inúmeros outros países), marcou o início do fim da ditadura. Neste dia 25, no 50º aniversário de martírio do Jornalista, em ato solene e a presença do Vice-presidente Geraldo Alckmin, a Presidente da Justiça Militar Federal pediu perdão por Vlado e tantas outras vítimas da sanha assassina dos serviçais da ditadura, marcando o início do fim da impunidade das hordas peçonhentas.

Neste sábado, 25 de outubro, a Presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Ministra Maria Elizabeth Rocha, em ato ecumênico na Catedral da Sé, com a presença do Vice-presidente Geraldo Alckmin, a propósito do cinquentenário do assassinato sob tortura do Jornalista Vlado Herzog, pediu perdão em nome da Justiça Militar a todos os que tombaram e sofreram lutando pela liberdade e pela democracia, citando textualmente a família de Vladimir Herzog, Paulo Ribeiro Bastos, Rubem Paiva, Myriam Leitão, José Dirceu, Paulo Vanucchi, Aldo Arantes, José Genoíno e João Vicente Goulart, pelos erros e omissões judiciais cometidas durante a ditadura.

O martírio do Jornalista Vladimir Herzog foi um divisor de águas não só para o despertar da cidadania, ao romper o ciclo do medo imposto a ferro e fogo às pessoas e, mais, aos jornalistas que se aperceberam que nem eles estavam imunes ao arbítrio, à opressão. Na cultura e nas artes, igualmente. A partir de então, a despeito da censura prévia institucionalizada desde o AI-5, voltariam as vozes dissonantes com maior vigor e experiência a reverberar nos corações, almas, mentes e consciências cidadãs.

MÁRTIR DA DEMOCRACIA

25 de outubro de 1975. O Jornalista Vladimir Herzog, diretor de Jornalismo da TV Cultura (emissora pública de São Paulo), se apresenta espontaneamente de manhã à sede do DOI-CODI. Ato contínuo, foi preso (aliás, sequestrado, pois era mais uma prisão ilegal, sem ordem judicial por qualquer fato que a justificasse) e torturado durante horas, até sucumbir ante seus covardes algozes, protegidos pela ilegalidade institucional vigente desde a eclosão do golpe de 1964.

Não satisfeitos com tanto sadismo atroz, os seus covardes assassinos tentaram ainda por cima matar sua memória ao dizer que ele cometera suicídio com um dos objetos de uso pessoal. Detalhe: Herzog era um homem de grande estatura e o vitrô da masmorra em que foi confinado era muito mais baixa. Não havia como acreditar em mais uma mentira de um regime cujo fedor transcendia os espaços, funesto, sobretudo, por causa de tantas mortes promovidas em nome de uma paz... dos túmulos.

No dia seguinte, as manchetes nos principais jornais de todo o país irrompem o silêncio indignado da cidadania. Já não era possível suportar tanto escárnio desses canalhas que, como seus discípulos de hoje, tinham o cinismo -- na verdade, a certeza da impunidade -- de enviar nota à imprensa, sob censura prévia, para eximir-se de seus crimes. Vlado, como era chamado pelos colegas de redação e amigos mais próximos, era diretor de Jornalismo em uma emissora pública do estado de São Paulo, não tendo qualquer atuação política que o relacionasse com as organizações sob investigação.

Em companhia da viúva de Vlado, Clarice Herzog, o Jornalista Audálio Dantas, renomado redator da revista Realidade e à época presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, da Editora Abril, não se intimidou ante as ameaças, e com diversos colegas, entre eles o Jornalista Fernando Morais, da Veja de Mino Carta, ainda na Abril, foi até o Cardeal-Arcebispo Metropolitano de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, para revelar-lhe o episódio. Dias depois, mesmo sob pressão do regime, Dom Paulo celebra culto ecumênico em memória de Vlado com o Reverendo Jaime Wright e o rabino Henry Sobel, do qual participaram mais de 8.000 pessoas, a maior parte do lado de fora da Catedral Metropolitana da Sé.

Da mesma forma como anunciaram o assassinato do Jornalista Vladimir Herzog, o operário Manoel Fiel Filho, conhecido metalúrgico com atuação sindical, viria a ter o nome divulgado como suicida, e ainda que a família questionasse ante a Justiça Militar, o recurso foi arquivado. Por ironia, meses depois, o comandante do II Exército, general Ednardo D'Ávila Mello, saía do comando. E a linha-dura, fortalecida na gestão ditatorial de Emílio Garrastazu Médici, começava a perder sua hegemonia.

A "MALDIÇÃO" DE HERZOG

Depois da repercussão nacional e internacional do martírio de Vladimir Herzog, o desafio de Dom Paulo Evaristo a celebrar um culto ecumênico de sétimo dia em memória do jornalista na Catedral da Sé foi considerado pelos órgãos de informação e repressão (SNI, CENIMAR, CIE, CISA, DOI-CODI, DEOPS-DOPS etc) e o submundo paramilitar como a "maldição" de Herzog. A resposta de Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos, à carta enviada pelo Cardeal Arcebispo de São Paulo junto com Clarice Herzog, viúva de Vlado, afirmando que não permitirá violações dos Direitos Humanos no Brasil causou uma cisão no regime e, ainda que tímida, uma discreta mobilização da sociedade civil organizada, como CNBB, OAB, SBPC e ABI.

Para a juventude destes nada generosos tempos, pouco afeita à leitura com o necessário senso crítico, é relevante informar que o aparelhamento ideológico dos militares e, sobretudo, das polícias -- basta dizer que a Polícia Militar foi criada sob a doutrina da segurança nacional durante a ditadura -- se remete ao regime de 1964. Em 1968, durante a gestação daquilo que seria o odiento AI-5, houve um processo de doutrinação das polícias estaduais, sobretudo a militar. Do mesmo modo, em 1980, quando da série de atentados contra bancas de jornais -- para fazer com que jornaleiros não mais quisessem expor nem vender jornais alternativos, como Pasquim, Movimento, Opinião, -Ex, Já!, Versus, Folha de Eva, IstoÉ, Afinal, Abertura Cultural, Leia Livros, Em Tempo etc --, as polícias estaduais foram treinadas para criminalizar as vítimas, no governo do general João Baptista Figueiredo.

A certeza da impunidade com que agiam acintosamente, em sua maioria, militares à paisana -- o acidente de "trabalho" dos militares no caso Riocentro, na madrugada de 30 de abril de 1980, foi emblemático e expôs o lado obscuro do submundo criminoso das hordas assassinas pagas com dinheiro público para delinquir, conspurcar, prevaricar e, sobretudo, eliminar vozes dissonantes --, é a mais eloquente prova de que as polícias militares deveriam ter sido extintas logo depois da promulgação da Constituição Federal de 1988. Hoje, sob a égide do neopentecostalismo fundamentalista, agem ao arrepio da lei, da hierarquia e, sobretudo, do princípio da autoridade. Aliás, desde o golpe de Michel Temer essas polícias viraram cabos eleitorais dos bispos, pastores e missionários com interface com o "mito" e seus sequazes em escala nacional.

O que dizer, então, da conduta agressiva e permissiva de inúmeros policiais militares nas periferias, reservas indígenas, territórios quilombolas? Resultado de décadas de verdadeiro adestramento nas academias, vimos atualmente uma turma recém-formada vociferando canalhices como grito de guerra sem terem sido punidos exemplarmente, com suspensão ou algo mais grave, por tal ato, lesivo aos Direitos Humanos, à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito. Ignorando acintosamente preceitos constitucionais, chegaram ao ponto de posar em foto segurando a bandeira israelense com o que chamam de adido policial do estado sionista, numa afronta à posição do governo federal, de ter condenado o genocídio que acontece em Gaza e recentemente na Cisjordânia, Palestina ocupada.

Pior, nos últimos anos, forças policiais estaduais têm usado a violência de modo sistemático contra mulheres, crianças e idosos indefesos em áreas de conflito com os povos originários em Mato Grosso do Sul. No mesmo dia 25 (dos 50 anos do assassinato de Herzog), na Terra Indígena de Guyraroká, em Caarapó, em que pistoleiros sequestraram e estupraram uma jovem Kaiowá e feriram mais de duas dezenas de Guarani-Kaiowá, policiais descumpriram protocolos legais, como jagunços dos fazendeiros da região, que invadem as terras indígenas.

CHUMBO E IRREVERÊNCIA

Eram anos de chumbo. Na distante Corumbá, ainda estado de Mato Grosso, em que na eclosão do golpe de 1964 aprisionaram, sob acusação de subversão, centenas de pessoas que da noite para o dia eram estigmatizadas e levadas ao navio-prisão, o Guarapuava. Líderes populares trabalhistas (tratados pelos golpistas como "subversivos"), da noite para o dia viraram párias, "leprosos", no linguajar medieval, que estigmatizava as pessoas atingidas pela hanseníase.

Ex-deputados, Amorésio de Oliveira, Francisco "Pecy" de Barros Por Deus, Vicente Bezerra Neto e Rômulo do Amaral foram vilipendiados por elementos medíocres que, por usarem farda, consideraram-se acima da prerrogativa parlamentar ou advocatícia (todos advogados renomados), como o Promotor de Justiça José Mirrha (tio do Sociólogo e Professor Lejeune Mirhan, conceituado geopolitólogo da atualidade), o memorialista Adolpho Emydio Cunha, o Professor Ibrahim Emílio Ismael e o conterrâneo chamado por Jorge Amado em "Subterrâneos da liberdade" de herói de três pátrias (Brasil, Espanha e França, cujo governo o condecorou com as insígnias de Cavaleiro da Legião de Honra, a Cruz de Guerra e a Medalha da Resistência por ter combatido os nazistas na Resistência ao fantoche de Hitler, marechal Pétain, durante a ocupação do país na Segunda Guerra Mundial) Apolônio de Carvalho, além de uma infinidade de socialistas e socialdemocratas que fizeram de Corumbá um pólo progressista.

Bastião da vanguarda cultural, social, política e econômica, de franca oposição à ditadura, Corumbá foi castigada por ser leal à sua história, pelo que, durante os 21 anos do regime de 1964, pagou caro por seu eleitorado ter votado maciçamente em candidatos do MDB (a única oposição consentida) e haver reeleito ininterruptamente o controvertido deputado Cecílio de Jesus Gaeta, que se apresentava como da oposição, mesmo com todas as suas idiossincrasias e artimanhas. Afinal, o único deputado estadual do município eleito e reeleito por quatro mandatos sucessivos, em plena ditadura, era lanterninha dos eleitos em 1966 como suplente de vereador, mas pelas cassações acabou assumindo uma vaga na Câmara Municipal, e com o apoio da querida e saudosa Dona Eva Granha de Carvalho ter cacifado sua candidatura a deputado estadual em 1970, tendo sido reeleito em 1974, 1978 e 1982 pelo MDB/PMDB.

Se antes da execução de Herzog O Pasquim era disputado em Corumbá por um discreto público, agora, além do semanário do inesquecível Sig, Movimento, Opinião, Versus, Abertura Cultural, Folha de Eva e até Folhetim, da Folha de S.Paulo (sob direção do saudoso Claudio Abramo e sua equipe memorável), não passavam despercebidos no canto das bancas de jornais. Lembro-me tanto do Nathércio como do Lindolpho, as duas bancas da rua Treze de Junho (uma na esquina da Frei Mariano e a outra na esquina da Antônio Maria), confidenciando com seus leitores mais críticos algumas das matérias de capa, inclusive da Veja que ainda estava sob a direção do agora saudoso Mino Carta.

Fazendo eco a essa rebeldia jornalística e cultural, a chamada Geração de Ouro (integrada por Edson Moraes, nos impressos; Augusto Alexandrino dos Santos Malah, na radiofonia, ao lado da jovem revelação Juvenal Ávila de Oliveira, Jonas Luna de Lima e o agora saudoso Gino Rondon; o saudoso Deneval Ribeiro Elias, Ênio Conturbia, Tadeu Vicente Atagiba, Nelson Mirrha e a saudosa Norma Atagiba na música, ao lado do "MJ-6", "Arame Farpado" e "Django", entre outras bandas), os jornais locais -- em especial, a Folha da Tarde e o Diário de Corumbá -- começam a abrir seus espaços para o contraditório, ainda que em artigos assinados, para eximir os jornais de quaisquer responsabilidades.

Enquanto Edson Moraes inovava no Jornalismo local, sob orientação e incentivo de Daniel de Almeida Lopes (ex-correspondente de O Globo em Cuiabá) e Luiz Gonzaga Bezerra (ex-repórter especial do Jornal do Brasil), contratados pelo Consórcio Corumbaense de Comunicação, respectivamente, como diretor-geral do grupo e redator-chefe da Folha da Tarde e do Departamento de Jornalismo da Rádio Difusora Mato-grossense S/A, Juvenal Ávila revolucionava as ondas do rádio com sua seleção musical baseada na MPB, de fazer inveja às emissoras do eixo Rio-São Paulo, em que os nomes do compositor, do intérprete, o gênero e até o selo da gravadora eram identificados com o título da canção (e quando se tratava de versão em português, o nome do compositor na língua original).

Gino Rondon, Jonas de Lima e Adilson Lobo, apoiados pelos saudosos Antônio Ávila, Roberto Hernandes, João de Oliveira Neves e Augusto Malah, ganhavam projeção regional por sua inovadora capacidade de comunicação. No entanto, o já Professor Malah, aluno de Ciências no então Centro Pedagógico de Corumbá (Universidade Estadual de Mato Grosso), ávido de conhecimento, acabou sendo convencido a deixar a radiofonia depois de ser conduzido à delegacia da Polícia Federal por trocar correspondência com várias emissoras estrangeiras, inclusive Rádio Moscou, Rádio Pequim e Rádio Havana -- mas também tinha contato com a Rádio BBC de Londres, Voz da América, Deutsche Welle (Alemanha Ocidental), RAI (Itália), Radio Exterior de España e Rádio França Internacional --, pois não convencera os inquisidores seu argumento de que o intercâmbio epistolar era para melhorar o seu domínio do inglês, espanhol, francês e italiano.

Benedito C.G. Lima, em companhia de duas Ângelas -- Ângela Bulhões e a saudosa Ângela Maria Pérez --, marcava presença não só em todos os jornais locais com a seção literária ALEC, semanal em alguns jornais, em outros diária. Certa noite, o Amigo Johonie Midon de Mello leva ao então Centro Educacional Julia Gonçalves Passarinho o Benedito, da ALEC, que também editava na escola em que estudava o jornal estudantil "O Maria Leite". Conversamos sobre como era possível sobreviver a tantas dificuldades. O nosso "Clarim Estudantil" estava definhando por problemas maiores que o financeiro (mas também por isso, pois éramos poucos os que nos virávamos para custear as despesas).

A morte de Herzog, cuja repercussão foi discretamente registrada na Folha da Tarde, mediante a síntese semanal de segunda-feira do saudoso Jornalista Luiz Gonzaga Bezerra, misto de redator e formador de novos repórteres e radialistas como o querido Edson Moraes, foi assunto de uma das primeiras conversas com o Gonzaga, que era direto, sem rodeios, apesar da censura. Acompanhados por Juvenal Ávila, Gonzaga e Edson foram muito receptivos, apesar do corre-corre da redação, pois o jornal era vespertino e nosso encontro ocorrera em pleno processo de pós-produção da edição daquele dia.

Por eles soubemos da mobilização dos Jornalistas Audálio Dantas e Fernando Morais que, acompanhados da viúva Clarice Herzog, culminou com o culto ecumênico na Catedral da Sé, concelebrado por Dom Paulo, Reverendo Wright e rabino Sobel. Também, do confisco de toda a tiragem de uma das primeiras edições do jornal alternativo -Ex, que burlou a censura e contou detalhes da prisão ilegal do Vlado, que havia se apresentado espontaneamente ao DOI-CODI de manhã e à tarde estava preso e sob tortura o levaram à morte, anunciada oficialmente como suicídio. A conexão de Corumbá com os grandes centros era direta: não eram poucos os corumbaenses perseguidos em Corumbá, entre eles Jorcêne José Martinez, Amin Amiden e o ex-promotor de Justiça José Mirrha, tinham seus contatos na oposição (Doutor Mirrha) e na imprensa (Jorcêne) ou no rádio (Amiden).

Até no posteriormente chamado de JGP, os professores mais próximos de nós, como o Professor Malah (Desenho), Professor Joaquim (Química), Professora Auxiliadora (História), Professora Yvonne (EMC e OSPB) e Professor Octaviano (Língua Portuguesa e Literatura), fizeram alusão ao que estava ocorrendo no contexto político, mas discretamente. A mais direta em sua aula foi a saudosa Professora Auxiliadora, que, de maneira sugestiva, disse que logo haveria uma nova "queda da Bastilha". O Professor Octaviano, cujo pai fora comandante da Polícia Militar de São Paulo na gestão de Paulo Egydio Martins, foi lacônico, preferindo focar o comentário no culto ecumênico, dando a entender que a iniciativa do diálogo inter-religioso era sinal dos novos tempos que chegavam ao Brasil (nesse dia, por coincidência ou não, transcreveu no quadro a letra de "Roda Viva", de Chico Buarque, para que fizéssemos uma interpretação).

É verdade que para muitos de nossos Amigos e Amigas estávamos "em céu de brigadeiro". Isso, aliás, o Professor Joaquim, de Química, vivia a enfatizar. Se nosso objetivo era fazer um curso universitário, um dos deveres era lermos os jornais como quem lê um texto de História. Mas tomava o cuidado para não causar polêmica, pois no ano anterior fora "convidado" por um diretor militar da reserva para pedir transferência para outra escola estadual, razão pela qual ele estava dando aula para nós no JGP.

Divisor de águas, o martírio de Herzog foi o início do fim do regime de 1964 e também o início de uma nova fase para a juventude desassossegada do Brasil. Mesmo sendo nosso penúltimo ano do período secundário, aprendemos a lidar com essas questões de maneira discreta e ao mesmo tempo intensa: quando Mino saiu da Abril e fundou, com seu Irmão Luis Carta e seu ex-colega na Abril Domingo Alzugaray, a Encontro Editorial e lançou a revista IstoÉ (inicialmente mensal), foi um verdadeiro banho de politização e de aprendizado, à distância, de Jornalismo Político. Era nossa cachaça, e o assunto solene com Edson Moraes e, nos poucos encontros, com Luiz Gonzaga Bezerra, o "guru" dos repórteres da Geração de Ouro.

INCERTEZAS, MAS DETERMINAÇÃO

Para os Jornalistas Juca Kfouri e Luis Nassif, presentes ao ato ecumênico do 50º aniversário do martírio pelos jagunços do regime militar do Jornalista Vladimir Herzog (cada um com suas palavras e seu jeito): em 1975 havia muita incerteza mas também determinação na sociedade civil, e as palavras de ordem eram ditadas pelos gigantes da MPB, como Chico Buarque, Nara Leão, Francis Hime, Edu Lobo, Carlos Lyra, Baden Powel, Jocafi, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Miúcha, Milton Nascimento, Fernando Brant, Wagner Tiso, Beto Guedes, Fátima Guedes, Ivan Lins, Vítor Martins, João Bosco, Aldir Blanc, Djavan, Elis Regina, Gonzaguinha, Beth Carvalho, Paulo Tapajós, Clara Nunes, Paulo Sérgio Pinheiro, Sérgio Cabral, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Sérgio Bittencourt, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Fagner, Sá & Guarabira, Taiguara, Belchior e tantos outros. Muitos deles, para felicidade nossa, ativos e decisivos em nossos dias.

Vida longa e muita saúde à Democracia e às pessoas que a defendem com lealdade e coragem! Vladimir Herzog e todas as demais pessoas que tombaram em sua defesa, sempre presentes, na memória e na luta!

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

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