domingo, 4 de fevereiro de 2024

GONZAGA, FORMADOR DE REPÓRTERES E COMUNICADORES

Gonzaga, formador de repórteres e comunicadores

Repórter especial do Jornal do Brasil, Luiz Gonzaga Bezerra foi o generoso redator-chefe que, mais que chefe, era um humilde líder e talentoso e incansável repórter que atuou como garimpador e lapidador de talentos, sobretudo repórteres e comunicadores, na Corumbá da década de 1970.

O talentoso Jornalista Edson Moraes é a prova mais eloquente da inesgotável capacidade de revelação, lapidação e preparação de grandes talentos nas áreas do Jornalismo, cultura e comunicação do saudoso Jornalista Luiz Gonzaga Bezerra, repórter especial do Jornal do Brasil trazido a Corumbá por Daniel de Almeida Lopes, diretor-geral do Consórcio Corumbaense de Comunicação (CCC), que existiu em Corumbá no início da década de 1970 para promover os políticos da Arena e combater a popularidade crescente de Cecílio de Jesus Gaeta, da oposição.

Nascido em Minas Gerais, Gonzaga é o pivô da transformação de um projeto enviesado em uma usina reveladora de talentos e responsável por ter contribuído para a modernização da imprensa nos confins do Brasil num tempo de censura e repressão dos dois lados da fronteira: tanto o Brasil como a Bolívia tiveram sua jovem democracia interrompida no fatídico ano de 1964 (abril no Brasil e novembro na Bolívia) e os novos donos do poder precisavam mostrar prestígio junto a uma opinião pública exigente e uma juventude inquieta desde o início do século XX.

A lista dos talentos revelados é bem maior do que a que conhecemos: Edson Moraes, Gino Rondon, Juvenal Ávila, Augusto Malah, Ademir Lobo, Marluce Brasil. Embora o Consórcio Corumbaense de Comunicação fosse integrado pela Rádio Difusora Mato-grossense S/A (ZYA-2, 1.490KHz), matutino O Momento, vespertino Folha da Tarde e semanário Correio de Corumbá, o caráter colaborativo e solidário da categoria em Corumbá acabou por replicar o desenvolvimento de todos os meios de comunicação à época. Assim, a Sociedade Rádio Clube de Corumbá Ltda. (ZYX-29, 1.410KHz) e o matutino independente Diário de Corumbá, coirmãos mais que concorrentes, acabaram usufruindo dos ganhos advindos dessa aventura. Até porque os profissionais das emissoras de rádio e jornais tinham uma relação de amizade (e até de parentesco), própria do modo de vida pantaneiro.

Corumbá, desde o primeiro quartel do século XX, era celeiro de grandes repórteres. Quem poderia imaginar que o benfeitor e advogado Gabriel Vandoni de Barros, cujo acervo doou em vida ao estado de Mato Grosso do Sul no primeiro ano do governo democrático de Wilson Barbosa Martins, fora o único repórter brasileiro a entrevistar o então capitão rebelde Luiz Carlos Prestes durante sua passagem por Mato Grosso na emblemática Coluna Prestes? Pois é. Isso nossa oficiosa historiografia regional vive a escamotear, ainda que o Professor Valmir Batista Corrêa tenha obtido essa confirmação do próprio Doutor Gabi nos idos dos anos 1970. Da mesma forma que escamoteou a doação de vultosas quantias ao Hospital de Caridade (que financiaram a construção da nova ala do nosocômio de Corumbá nos idos de 1930) pelos integrantes da Coluna Prestes quando de sua repatriação, como reconhecimento pela acolhida hospitaleira (a placa, durante o regime de 1964, foi retirada da parede da Santa Casa pelos novos ‘donos do poder’, pois, como inimigos da memória, censuraram, apagaram e difamaram todos os que contrariassem seus pouco nobres interesses).

Merecedor da confiança do Jornalista Daniel Lopes, ex-correspondente em Cuiabá de O Globo (então vespertino oficioso da ditadura), o ex-repórter especial do Jornal do Brasil tinha carta branca do colega para introduzir todas as inovações que desejasse, mas sem interferir na linha editorial, razão de ser do CCC. Gonzaga, de cara, fez as transformações gráficas que achava pertinentes, tendo criado novas sessões e introduzido o conceito de ‘editorias’ na Folha da Tarde, o jornal que, pelo horário de fechamento e circulação, lhe pareceu mais adequado para ser carro-chefe da modernização dos meios integrantes do consórcio.

Gonzaga convenceu Lopes a contratar alguns pratas da casa para o meio impresso. Edson Moraes, revelado na Clube, passou para a Difusora não só na locução, mas como repórter de faro singular, que o redator-chefe já havia sondado. Pouco a pouco, diversos nomes da emissora coirmã foram para o CCC, mas como empregados das respectivas firmas constantes do contrato constitutivo desse novo status, sem perderem sua personalidade jurídica (na época CGC, hoje seria CNPJ). Primeiro eram contratados pela Difusora, depois passavam a integrar a equipe da Folha da Tarde ou de outro impresso integrante do grupo, para o qual foi criado o semanário esportivo SóSports, além das edições experimentais da Folha da Noite e, em projeto, a Folha da Manhã (com o cuidado de não melindrar os donos do carrancudo O Momento, de gênese udenista).

Enquanto Daniel Lopes focava na expansão dos meios do consórcio (adquirindo linotipo, clicheria, belinógrafo e impressora, e criava a Agência Mato-grossense de Imprensa, AMI, a primeira agência de notícias de Mato Grosso), Gonzaga se ocupava com a qualidade jornalística dos meios. Escolhida como laboratório, a Folha da Tarde foi a que se beneficiou das inovações. O trabalho era feito em equipe, cuja pérola era Edson Moraes, que logo passou a ser redator de nova coluna, No bolso do repórter, algo parecido à Coluna do Castello, do Jornal do Brasil. O coirmão Diário de Corumbá (inovador que fora com Coluna da Tia Fifina, muito lidas, em que o próprio fundador, Carlos Paulo Pereira, se permitia comentar fatos do cotidiano da cidade ou região), para não ficar atrás, criou a Ronda Policial, em que o jovem repórter e locutor Roberto Hernandes foi dos primeiros redatores (nessa época o jornal da Antônio João contara com uma plêiade de renomados Jornalistas, entre eles o querido Amigo-Irmão Adolfo Rondon Gamarra, além de Jorcêne José Martinez, Onésimo Vale do Espírito Santo Filho, Adelson Miguel Navarro e Clarimer da Meira Navarro).

O Professor Octaviano Gonçalves da Silveira Junior, docente das Escolas Estaduais Santa Teresa e Julia Gonçalves Passarinho e do Centro Pedagógico de Corumbá (da Universidade Estadual de Mato Grosso), que fora revisor e foca quando jovem na Folha de S.Paulo (ele era sobrinho da renomada crítica de tevê Helena Silveira, colunista da Folha Ilustrada), chegou a agendar palestras para os alunos com Daniel Lopes, Luiz Gonzaga e Edson Moraes, mas curiosamente foram canceladas e ele não mais tocou no assunto. O contexto político tinha essas imprevisibilidades. Uma década mais tarde, como apoiador do Professor Jair Madureira, candidato a reitor da UFMS foi portador da demanda pela criação do curso de Comunicação, durante o VII Seminário de Ensino, Pesquisa e Extensão (SEPE), quando foi iniciada a articulação da oferta desse curso na então única universidade pública do estado.

Conheci Gonzaga em 1975, graças ao querido Amigo-Irmão Juvenal Ávila, que já me havia apresentado o Amigo-Irmão Edson Moraes (então, ele assinava Edson de Moraes). Juvenal, na época, era diretor musical na Difusora e depois das aulas no Julia Gonçalves Passarinho (estudávamos no período vespertino), o hoje Professor aposentado João de Souza Alvarez (na época repórter fotográfico) e eu acompanhávamos Juvenal até a rádio para conhecer a dinâmica da seleção musical. Numa dessas idas, Gonzaga ainda não havia deixado seu local de trabalho (como redator-chefe, depois de fechar a edição do vespertino, preparava a pauta de edição seguinte e selecionava as principais notícias do teletipo da AFP (Agência France Presse) para o ‘Rotativa Noticiosa’, em suas quatro edições diárias, do final da noite, da madrugada, da manhã e do meio-dia.

Humildade, faro jornalístico e generosidade em Gonzaga caminhavam juntos. Atolado de trabalho, dera atenção a um adolescente curioso, cheio de perguntas, a maioria delas por certo descabidas. Deu-se ao trabalho de não só conversar sem pressa como de explicar o passo-a-passo da produção das matérias que comporiam a edição daquele dia. Levou-nos até a sala onde estava instalado o teletipo da France Presse (o consórcio foi o primeiro a contratar os serviços jornalísticos de uma agência estrangeira), em espanhol. Só anos mais tarde, quando lhe perguntei por que a contratação do serviço em espanhol se a AFP tinha material em português, ao que me respondeu que foi de propósito, para driblar a censura, tanto que a Difusora foi a primeira emissora em todo o estado a dar a notícia do assassinato do rei Faisal, da Arábia Saudita, em 25 de março de 1975.

Nas próximas semanas traremos alguns fragmentos sobre o legado dessa aventura pouco ‘católica’ patrocinada pelos ‘donos da Arena’ durante os anos de chumbo numa cidade em que ainda vicejavam os ares do cosmopolitismo e da apoteótica diversidade cultural daquele que fora entre as décadas de 1870 e 1950 o entreposto comercial de importância continental nas águas interiores da América do Sul e que, com a inauguração das estações ferroviárias da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (EFNOB) e da Red Oriental da Empresa Nacional de Ferrocarriles (ENFE) no perímetro urbano de Corumbá na metade do século XX, o coração do Pantanal e da América do Sul ganhou uma sobrevida de meio século, até a privatização da ferrovia, em meados da década de 1990.

Discreto e humilde, Luiz Gonzaga não revelou as razões que o fizeram mudar-se para a futura ‘Novacap’ nas muitas oportunidades propiciadas pelo processo de fundação da Associação Profissional dos Jornalistas de Mato Grosso do Sul, na sede da Casa Sindical criada pelo saudoso Amigo-Camarada José Rodrigues dos Santos, então líder fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campo Grande (situada à rua Saldanha Marinho, bairro Amambaí, a poucas quadras do Terminal Rodoviário Heitor Laburu). O então futuro Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul, que teve como primeira presidente a Jornalista Ecilda Estefanello, tinha o saudoso Jornalista Luiz Gonzaga Bezerra entre os membros do Conselho Fiscal, pois assim ele dava, discreta e humildemente, suas contribuições para a organização da categoria até 1987, quando se eternizou enquanto se preparava para mais um dia de trabalho.

Ahmad Schabib Hany

GONZAGA, FORMADOR DE REPÓRTERES E COMUNICADORES

Gonzaga, formador de repórteres e comunicadores

Repórter especial do Jornal do Brasil, Luiz Gonzaga Bezerra foi o generoso redator-chefe que, mais que chefe, era um humilde líder e talentoso e incansável repórter que atuou como garimpador e lapidador de talentos, sobretudo repórteres e comunicadores, na Corumbá da década de 1970.

O talentoso Jornalista Edson Moraes é a prova mais eloquente da inesgotável capacidade de revelação, lapidação e preparação de grandes talentos nas áreas do Jornalismo, cultura e comunicação do saudoso Jornalista Luiz Gonzaga Bezerra, repórter especial do Jornal do Brasil trazido a Corumbá por Daniel de Almeida Lopes, diretor-geral do Consórcio Corumbaense de Comunicação (CCC), que existiu em Corumbá no início da década de 1970 para promover os políticos da Arena e combater a popularidade crescente de Cecílio de Jesus Gaeta, da oposição.

Nascido em Minas Gerais, Gonzaga é o pivô da transformação de um projeto enviesado em uma usina reveladora de talentos e responsável por ter contribuído para a modernização da imprensa nos confins do Brasil num tempo de censura e repressão dos dois lados da fronteira: tanto o Brasil como a Bolívia tiveram sua jovem democracia interrompida no fatídico ano de 1964 (abril no Brasil e novembro na Bolívia) e os novos donos do poder precisavam mostrar prestígio junto a uma opinião pública exigente e uma juventude inquieta desde o início do século XX.

A lista dos talentos revelados é bem maior do que a que conhecemos: Edson Moraes, Gino Rondon, Juvenal Ávila, Augusto Malah, Ademir Lobo, Marluce Brasil. Embora o Consórcio Corumbaense de Comunicação fosse integrado pela Rádio Difusora Mato-grossense S/A (ZYA-2, 1.490KHz), matutino O Momento, vespertino Folha da Tarde e semanário Correio de Corumbá, o caráter colaborativo e solidário da categoria em Corumbá acabou por replicar o desenvolvimento de todos os meios de comunicação à época. Assim, a Sociedade Rádio Clube de Corumbá Ltda. (ZYX-29, 1.410KHz) e o matutino independente Diário de Corumbá, coirmãos mais que concorrentes, acabaram usufruindo dos ganhos advindos dessa aventura. Até porque os profissionais das emissoras de rádio e jornais tinham uma relação de amizade (e até de parentesco), própria do modo de vida pantaneiro.

Corumbá, desde o primeiro quartel do século XX, era celeiro de grandes repórteres. Quem poderia imaginar que o benfeitor e advogado Gabriel Vandoni de Barros, cujo acervo doou em vida ao estado de Mato Grosso do Sul no primeiro ano do governo democrático de Wilson Barbosa Martins, fora o único repórter brasileiro a entrevistar o então capitão rebelde Luiz Carlos Prestes durante sua passagem por Mato Grosso na emblemática Coluna Prestes? Pois é. Isso nossa oficiosa historiografia regional vive a escamotear, ainda que o Professor Valmir Batista Corrêa tenha obtido essa confirmação do próprio Doutor Gabi nos idos dos anos 1970. Da mesma forma que escamoteou a doação de vultosas quantias ao Hospital de Caridade (que financiaram a construção da nova ala do nosocômio de Corumbá nos idos de 1930) pelos integrantes da Coluna Prestes quando de sua repatriação, como reconhecimento pela acolhida hospitaleira (a placa, durante o regime de 1964, foi retirada da parede da Santa Casa pelos novos ‘donos do poder’, pois, como inimigos da memória, censuraram, apagaram e difamaram todos os que contrariassem seus pouco nobres interesses).

Merecedor da confiança do Jornalista Daniel Lopes, ex-correspondente em Cuiabá de O Globo (então vespertino oficioso da ditadura), o ex-repórter especial do Jornal do Brasil tinha carta branca do colega para introduzir todas as inovações que desejasse, mas sem interferir na linha editorial, razão de ser do CCC. Gonzaga, de cara, fez as transformações gráficas que achava pertinentes, tendo criado novas sessões e introduzido o conceito de ‘editorias’ na Folha da Tarde, o jornal que, pelo horário de fechamento e circulação, lhe pareceu mais adequado para ser carro-chefe da modernização dos meios integrantes do consórcio.

Gonzaga convenceu Lopes a contratar alguns pratas da casa para o meio impresso. Edson Moraes, revelado na Clube, passou para a Difusora não só na locução, mas como repórter de faro singular, que o redator-chefe já havia sondado. Pouco a pouco, diversos nomes da emissora coirmã foram para o CCC, mas como empregados das respectivas firmas constantes do contrato constitutivo desse novo status, sem perderem sua personalidade jurídica (na época CGC, hoje seria CNPJ). Primeiro eram contratados pela Difusora, depois passavam a integrar a equipe da Folha da Tarde ou de outro impresso integrante do grupo, para o qual foi criado o semanário esportivo SóSports, além das edições experimentais da Folha da Noite e, em projeto, a Folha da Manhã (com o cuidado de não melindrar os donos do carrancudo O Momento, de gênese udenista).

Enquanto Daniel Lopes focava na expansão dos meios do consórcio (adquirindo linotipo, clicheria, belinógrafo e impressora, e criava a Agência Mato-grossense de Imprensa, AMI, a primeira agência de notícias de Mato Grosso), Gonzaga se ocupava com a qualidade jornalística dos meios. Escolhida como laboratório, a Folha da Tarde foi a que se beneficiou das inovações. O trabalho era feito em equipe, cuja pérola era Edson Moraes, que logo passou a ser redator de nova coluna, No bolso do repórter, algo parecido à Coluna do Castello, do Jornal do Brasil. O coirmão Diário de Corumbá (inovador que fora com Coluna da Tia Fifina, muito lidas, em que o próprio fundador, Carlos Paulo Pereira, se permitia comentar fatos do cotidiano da cidade ou região), para não ficar atrás, criou a Ronda Policial, em que o jovem repórter e locutor Roberto Hernandes foi dos primeiros redatores (nessa época o jornal da Antônio Maria contara com uma plêiade de renomados Jornalistas, entre eles o querido Amigo-Irmão Adolfo Rondon Gamarra, além de Jorcêne José Martinez, Onésimo Vale do Espírito Santo Filho, Adelson Miguel Navarro e Clarimer da Meira Navarro).

O Professor Octaviano Gonçalves da Silveira Junior, docente das Escolas Estaduais Santa Teresa e Julia Gonçalves Passarinho e do Centro Pedagógico de Corumbá (da Universidade Estadual de Mato Grosso), que fora revisor e foca quando jovem na Folha de S.Paulo (ele era sobrinho da renomada crítica de tevê Helena Silveira, colunista da Folha Ilustrada), chegou a agendar palestras para os alunos com Daniel Lopes, Luiz Gonzaga e Edson Moraes, mas curiosamente foram canceladas e ele não mais tocou no assunto. O contexto político tinha essas imprevisibilidades. Uma década mais tarde, como apoiador do Professor Jair Madureira, candidato a reitor da UFMS foi porta-voz da demanda pela criação do curso de Comunicação, durante o VII Seminário de Ensino, Pesquisa e Extensão (SEPE), quando foi iniciada a articulação da oferta desse curso na então única universidade pública do estado.

Conheci Gonzaga em 1975, graças ao querido Amigo-Irmão Juvenal Ávila, que já me havia apresentado o Amigo-Irmão Edson Moraes (então, ele assinava Edson de Moraes). Juvenal, na época, era diretor musical na Difusora e depois das aulas no Julia Gonçalves Passarinho (estudávamos no período vespertino), o hoje Professor aposentado João de Souza Alvarez (na época repórter fotográfico) e eu acompanhávamos Juvenal até a rádio para conhecer a dinâmica da seleção musical. Numa dessas idas, Gonzaga ainda não havia deixado seu local de trabalho (como redator-chefe, depois de fechar a edição do vespertino, preparava a pauta de edição seguinte e selecionava as principais notícias do teletipo da AFP (Agência France Presse) para o ‘Rotativa Noticiosa’, em suas quatro edições diárias, do final da noite, da madrugada, da manhã e do meio-dia.

Humildade, faro jornalístico e generosidade em Gonzaga caminhavam juntos. Atolado de trabalho, dera atenção a um adolescente curioso, cheio de perguntas, a maioria delas por certo descabidas. Deu-se ao trabalho de não só conversar sem pressa como de explicar o passo-a-passo da produção das matérias que comporiam a edição daquele dia. Levou-nos até a sala onde estava instalado o teletipo da France Presse (o consórcio foi o primeiro a contratar os serviços jornalísticos de uma agência estrangeira), em espanhol. Só anos mais tarde, quando lhe perguntei por que a contratação do serviço em espanhol se a AFP tinha material em português, ao que me respondeu que foi de propósito, para driblar a censura, tanto que a Difusora foi a primeira emissora em todo o estado a dar a notícia do assassinato do rei Faisal, da Arábia Saudita, em 25 de março de 1975.

Nas próximas semanas traremos alguns fragmentos sobre o legado dessa aventura pouco ‘católica’ patrocinada pelos ‘donos da Arena’ durante os anos de chumbo numa cidade em que ainda vicejavam os ares do cosmopolitismo e da apoteótica diversidade cultural daquele que fora entre as décadas de 1870 e 1950 o entreposto comercial de importância continental nas águas interiores da América do Sul e que, com a inauguração das estações ferroviárias da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (EFNOB) e da Red Oriental da Empresa Nacional de Ferrocarriles (ENFE) no perímetro urbano de Corumbá na metade do século XX, o coração do Pantanal e da América do Sul ganhou uma sobrevida de meio século, até a privatização da ferrovia, em meados da década de 1990.

Discreto e humilde, Luiz Gonzaga Bezerra não quis revelar as razões que o fez mudar-se para a futura ‘Novacap’ nas muitas oportunidades propiciadas pelo processo de fundação da Associação Profissional dos Jornalistas de Mato Grosso do Sul, na sede da Casa Sindical criada pelo saudoso Amigo-Camarada José Rodrigues dos Santos, então líder fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campo Grande (situada à rua Saldanha da Gama, bairro Amambaí, a poucas quadras do Terminal Rodoviário Heitor Laburu). O então futuro Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul, que teve como primeira presidente a Jornalista Ecilda Estefanello, tinha o saudoso Jornalista Luiz Gonzaga Bezerra entre os membros do Conselho Fiscal, pois assim ele dava, discreta e humildemente, suas contribuições para a organização da categoria até 1987, quando se eternizou enquanto se preparava para mais um dia de trabalho.

Ahmad Schabib Hany

MAIS UM DESERVIÇO

Mais um desserviço

A imprensa corporativa nunca deu tanto destaque aos ‘relatórios anuais’ da Transparência Internacional como durante governos de esquerda mundo afora. É o que faz agora com o Brasil, como já fez com a Argentina de Fernández e o México de López Obrador.

Como nunca, desde que ousou contrariar a posição serviçal do ocidente perante o sionismo e o conjunto de forças vinculadas ao império decadente, o governo Lula se encontra sob fogo cruzado não só das corporações de mídia e governos subordinados aos interesses do establishment do mundo conturbado, mas da rede de organizações não governamentais, entre elas as especializadas na promoção de rankings de todo tipo, seja na economia, governança, questões ambientais, segurança pública, direitos humanos etc.

Não podia ser diferente com as que medem a ‘percepção de corrupção’ mediante critérios no mínimo curiosos, como a Transparência Internacional (TI), põe o Brasil dez posições abaixo e um ponto menos em relação a 2022. Logo o governo que promoveu efetivo resgate da credibilidade das instituições republicanas de controle e fiscalização. Claro que o papel do centrão e o ‘poder paralelo’ exercido pelos presidentes da Câmara Federal e do Senado nas ‘emendas impositivas’ têm atrapalhado o esforço sobre-humano do governo Lula.

Ao atento leitor não deve ter passado despercebido o momento em que a TI divulgou seu relatório anual com o ranking da corrupção entre os países do já combalido concerto das nações. Trata-se de ONG bem sintonizada com Bruxelas, Manhattan e as instituições financeiras multilaterais, mais conhecidas por FMI, Banco Mundial, BID e BIRD, entre outras. Não poderia haver melhor momento (para eles) de retaliar os ‘governos rebeldes’, como o de Lula, que recente e dignamente apoiou a petição do governo da África do Sul contra o genocídio patrocinado pelas potências coloniais sanguessugas na Palestina.

Devo confessar que quando o falecido Filho do saudoso Jornalista Claudio Abramo, Claudio Weber Abramo, fundou e chefiou a Transparência Brasil (TB), versão brasileira da TI, até fiquei tentado a acompanhar o desempenho daquela entidade. Não pela temática, muito cara para golpistas de todos os matizes -- desde canastrões desqualificados e burros (eis que a natureza lhes foi pouco generosa com os seus parcos e desarticulados neurônios e superlativa em sua vaidade de gazelas trôpegas) como Urinol e Mero, aqueles da ‘Leva Jeito’, até orangotangos das fardas emboloradas como Tripanosoma, Penacho e Aloe Vera, patrioteiros saudosos da ditadura de triste memória que agiram mediante comportamento desequilibrado, estridente e irracional no desgoverno do ‘brimo’ golpista e do inominável.

Chamou-me a atenção o fato de o fundador e primeiro diretor da TB, Weber Abramo, ser Filho desse Jornalista honrado e diretor de rara postura ética em meio a tantas hienas que redundam nas ilhas fiscais em que foram transformadas as abundadas redações da mídia corporativa. Basta rever o deplorável papel entre 2013 e 2016 municiando pretextos e atiçando provocações nada cidadãs da matilha do GAFE (Lobo, Abriu, Falha e Estradão). As tais ‘jornadas’ financiadas pelos falsos moralistas descendentes do baronato do café e de seus agregados endinheirados que povoaram a metrópole paulistana no pós-guerra de 1945 e que se fartaram em farras desavergonhadas com dinheiro público nas décadas de 1960, 1970 e 1980 e fizeram a maior dívida externa da história até então, isto é, 164 bilhões de dólares contratados entre 1964 e 1985, segundo dados conservadores.

Ora, pôr o Brasil atrás de países reconhecidamente prisioneiros da pior das corrupções, entre elas a da venda de sua soberania, como a Ucrânia do nanico moral Zelensky, é claro deboche de uma realidade em que se faz palpável aquilatar o grau de ingerência dos donos do mundo na conduta da população, sobretudo juvenil, atenta ao que a moda e a corrente instiga, como ‘percepção de corrupção’ e não concentração de renda e exclusão social. É sobre a apatia ocidental pelos desvalidos e segregados, como se não fossem da espécie humana, desde os tempos dos ‘navios negreiros’.

E quem seria o candidato a vítima da volúpia do agente do Estado que desertou para os achaques da corrupção protegida e sonegada pelo desgoverno do mais sórdido presidente, sua excrescência o inominável? Ora, dirão, isso é ‘narrativa’, o que conta é o serviço que Mero e Urinol prestaram ao país ao ‘repatriar’ bilhões do erário -- só não revelam que sua farsa sob holofotes e enredos hollywoodianos destruíram empresas brasileiras sólidas com expertise e competitividade internacional, milhares de empregos qualificados que elas propiciavam ao hoje esquálido mercado de trabalho brasileiro e a participação no PIB com as divisas que elas traziam para o Brasil pelos serviços qualificados pelo mundo afora.

Ou os impolutos chefes da ‘Leva Jeito’ e os donos dos oligopólios midiáticos desconheciam que a ‘segurança jurídica’ de que tanto são ciosos não admite que, sob qualquer hipótese legal, corporações como Andrade Gutierrez, Mendes Junior, Odebrecht e OAS sejam alvo de destruição, além da punição de seus executivos? A Siemens, Samsung, Ford e Boeing, envolvidas em diferentes escândalos escabrosos de corrupção corporativa, tiveram seus ativos confiscados? Não, apenas executivos foram exemplarmente punidos. A ‘segurança jurídica’ de que se dizem defensores não foi devidamente observada na farra de Mero e Urinol, a cujos amos e senhores interessava tirar do mercado e cacifar as suas corporações.

Não é preciso ser correligionário do Presidente Lula para enxergar o esforço, tão logo foi empossado, de recolocar as instituições nos trilhos do Estado Democrático de Direito, do qual, aliás, o troglodita inominável afastara ainda antes de tomar posse em 2019, sob o aplauso das elites sórdidas que tomaram de assalto empresas estatais mediante operações midiáticas e privatizações eivadas de vícios jurídicos e propinas, em detrimento dos reais interesses da população brasileira. Em 12 meses, os diferentes gestores setoriais do atual governo fizeram inúmeras conferências e audiências públicas, a fim de assegurar a participação pública, além do efetivo controle social previsto na Constituição Federal de 1988 e a reestruturação da Controladoria-Geral da União, desmantelada pelos desgovernos do ‘brimo’ golpista e do palerma inominável.

Foi, aliás, o que fizeram com Alberto Fernández na Argentina pós-Mauricio Macri (cujas malversações sequer foram investigadas e punidas, sob pressão das mesmas instituições financeiras multilaterais que abertamente trabalharam contra Fernández e as prioridades de seu governo titubeante) e com AMLO (Andrés Manuel López Obrador) no México tímida e discretamente progressista que, como ‘puxadinho’ da Casa Branca, tem a sua soberania amealhada acintosamente desde os tempos de Porfirio Díaz, o ditador que sentenciou a sina mexicana quando profetizou: “Pobre de nosso México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”

Mas por que a mídia corporativa brasileira é tão vira-lata? Não é preciso ser um especialista do complexo estudo da idiossincrasia rasteira e sanguessuga das elites parasitárias desde antes da Revolução de 1930, que historiadores revisionistas passaram a chamá-la de golpe. Quem sou eu, reles filho de imigrantes apaixonados pelo Brasil e seu povo? Mas me ouso divergir de doutos seguidores dessa nova história. Embora o grito do Ipiranga de setembro de 1822 pelo príncipe herdeiro da coroa portuguesa e a proclamação da República em novembro de 1889 por militares palacianos apoiados por escravocratas que tiveram seus interesses contrariados pela abolição da escravatura tenham sido protagonizados de forma excludente, sem a participação popular, o movimento de 1930 não pode ser compreendido como golpe, mas ápice do processo de rebeliões sociais contra as oligarquias da década anterior, entre elas a Coluna Prestes, o Tenentismo e a Revolta do Forte de Copacabana.

E vem desse contexto histórico a postura oligárquica dos donos dos jornalões embolorados. O Brasil só pôde ter seu primeiro jornal editado em 1808, sob o rigor do controle da família real, que fugira para o Rio de Janeiro. Aliás, durante todo o período colonial a censura ferrenha à circulação de ideias e escritos impediu que fossem abertas gráficas ainda que pequenas em território nacional, tanto quanto escolas e universidades. Além de privar a população do acesso à informação mediante periódicos e livros, a imposição medievalista de recorrer ao analfabetismo como política de Estado caracterizou a colonização lusitana em todos os continentes. Saquear ou sonegar os tributos da coroa era menos grave que publicar clandestinamente qualquer texto impresso, daí porque gráficas e institutos eram mais controlados até em Portugal que o comércio de pedras preciosas e especiarias.

As ideias iluministas, republicanas e abolicionistas circularam no Brasil, literalmente, ‘a boca pequena’, como se dizia na época. Não havia liberdade de imprensa nem de opinião. Como não havia universidades, ao contrário das demais colônias ibéricas no ‘Novo Mundo’, o obscurantismo medieval campeava solto num território cuja colonização era explorar, explorar, explorar. Daí porque os descendentes dessas elites retrógradas hoje se rebelam ante qualquer possibilidade de ver a ‘plebe’ frequentar os locais cujo acesso era exclusivo para elas, as elites. Preferiram dar com os burros n’água com o inominável a ter que ver Lula mais uma vez promovendo a ascensão social da ‘gentinha’, do ‘povinho’.

O apartheid nas terras tupiniquins foi dissimulado. Afinal, como uma elite assumidamente escravista (a exploração da mão-de-obra escrava ocorre até hoje de modo recorrente), sonegadora (se não por meio de isenções privilegiadas, praticavam a evasão de divisas e o contrabando, corrompendo fiscais da coroa), negacionista (não admite, sob hipótese alguma, ideias evolutivas, sobretudo científicas), intolerante (recusa-se a aceitar o diferente, só admite o que eles acreditam ser ‘padrão’: ‘branco’, ‘cristão’ e ‘civilizado’), narcisista (só consegue enxergar a si e aos seus, como disse Caetano, “narciso acha feio o que não é espelho”) e hipócrita (imitando os ‘civilizados’, quer aparentar o que ela sabe que não é, autenticamente moderna).

Isso pretenderam questionar (ridicularizar, até) os ousados vanguardistas que promoveram a Semana de Arte Moderna em 1922, mais um movimento a ser agregado às transformações da década de 1920 que contribuíram para o fim do mandonismo patrimonialista das oligarquias durante a República Velha, de cujas oligarquias são herdeiras.

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

UM ANO SEM SEU JORGE KATURCHI

Um ano sem Seu Jorge Katurchi

A ausência de um dos mais atuantes defensores de Corumbá, ao lado dos incansáveis Padre Pasquale Forin, Padre Ernesto Saksida e Dom José Alves da Costa, empobrece o coração do Pantanal e suas legítimas lutas.

No dia 31 de janeiro de 2023, primeiro mês do reencontro do Brasil com o Estado de Direito e a plenitude democrática, Seu Jorge José Katurchi se eternizava depois de sofrer um martírio de alguns dias no CTI do Hospital de Caridade, de cuja entidade mantenedora, a Sociedade de Beneficência Corumbaense, fora vice-presidente algumas décadas atrás.

Um homem verdadeiramente apaixonado pelo amor maior de sua Vida: Dona Anna Thereza de Copacabana Rondon Maldonado Katurchi, em cujas veias circulava o sangue de Cândido Mariano da Silva Rondon, seu Tio-avô materno, e do bravo cidadão Don Reyes Maldonado, seu Pai, Cônsul da Bolívia em Cáceres e igualmente apaixonado pelo povo pantaneiro, tanto que um de seus Netos, o saudoso Professor Carlos Alberto Reyes Maldonado, é o fundador e patrono da Universidade Estadual de Mato Grosso (UNEMAT), com sede em Cáceres.

Pai presente e dedicado: amou seus três Filhos da mesma maneira, deixando que cada um seguisse seu horizonte. Da mesma forma seus Netos. Quando se referia à sua Família, os olhos brilhavam de felicidade e também de saudades. Como poucos, as canções de ninar de Dona Amélia Abraham Katurchi estavam incólumes em sua memória privilegiada e seu coração gigante, como ele.

Nos 30 anos em que tive a honra de conhecê-lo melhor e privar de sua Amizade (com letra maiúscula), posso afirmar sem qualquer risco de que seu sincero amor por Corumbá e pelo povo hospitaleiro que o acolheu, a sua Família e a todos os imigrantes dos mais diversos países da Terra foi o segredo de sua longevidade, além, obviamente, pelo trabalho, com o qual ele se identificara desde tenra idade, vendendo agulhas importadas a partir dos 8 anos de Vida.

Pude testemunhar sua dedicação, seu incansável trabalho, sempre discreto, só não anônimo porque ele é conhecido dentro e fora do Brasil. Sem qualquer arrefecimento ante inevitáveis frustrações, pois bandeiras como a luta pela implantação da Área de Livre-Comércio de Corumbá e Ladário ou pela conclusão da Transpantaneira (Cáceres-Corumbá) não chegou a ver concretizada.

Às vezes me pego querendo trocar algumas ideias com ele. É que, respeitando o ponto de vista dele, anos-luz à frente de seu tempo, debatíamos como se tivéssemos a mesma idade os mais variados temas. Sua conexão com o mundo real era admirável: acompanhava os mais diferentes fatos, fossem eles ocorridos em Corumbá, em Brasília ou pelo mundo afora (e não foram poucos os recortes de jornal ou revista que me enviou para conversarmos ou que pudéssemos aproveitar em alguma reivindicação para Corumbá, Pantanal e Bolívia).

Quase um ano depois de sua eternização, como reconhecimento de seu amor pelo povo pantaneiro (ele sempre se referia a Cáceres como sua segunda cidade, pois a Companheira de Vida era nascida lá), começam a pulsar as primeiras manifestações pela reintegração do Pantanal, um sonho que acalentava discretamente: não gostava da palavra divisão, ele entendia que união, ou reunificação, coadunava melhor em sua maneira de ver a Vida.

A eternização de seu Jorge Katurchi, junto das do Padre Pasquale Forin, Padre Ernesto Saksida e Dom José Alves da Costa, empobreceu sobremaneira a tênue resiliência das poucas mas incansáveis cidadãs e cidadãos membros do Pacto Pela Cidadania durante os doze meses que se seguiram à sua sentida ausência.

Fico a imaginar o tamanho do desassossego de Seu Jorge Katurchi ante a aventura da RILA desviando de Corumbá e da Bolívia para chegar ao Chile. Ou o estrago da ponte rodoviária de Morrinho e o abandono da ponte ferroviária de Porto Esperança. Ou o distanciamento de nossos parceiros de fronteira de Porto Quijarro e Porto Suárez, a quem Seu Jorge não deixava de visitar pelo menos uma vez por semana quando sua saúde ainda permitia.

Entre as iniciativas sociais ligadas ao Pacto Pela Cidadania e Observatório da Cidadania ao longo deste ano haverá momentos de reconhecimento público e merecida homenagem a Seu Jorge Katurchi que, sem ter sido detentor de cargo público, dedicou-se com penhor à defesa de Corumbá e Ladário, de sua laboriosa população e à integração com a Bolívia, que o homenageou em Vida.

Depois do confinamento pela pandemia de covid-19, nossas conversas, sem tempo para acabar, foram por telefone, à exceção de uma visita com a Família a propósito de seu aniversário de 96 anos, quando meus Filhos, já adolescentes, puderam contemplar sua dimensão física e, sobretudo, moral e intelectual. Não esqueço do beijo espontâneo árabe que nos deu a todos, como faço questão de me lembrar dele em Vida.

Ainda não vi no Legislativo ou Executivo municipal algum logradouro público ser nomeado em sua homenagem. Sequer consta de seu honrado nome a placa de registro da entrega pela Prefeitura de Corumbá da memorável criação da saudosa Dona Izulina Gomes Xavier (Amiga dele e de Dona Anna Thereza), cujo financiamento pelo Governo Zeca, em seu primeiro mandato, foi obtido por meio de sua articulação via Pacto Pela Cidadania e repassado ao Lions Clube quando o saudoso Carlos Alberto Machado era presidente da entidade.

Seu Jorge Katurchi estará sempre presente entre os membros do Pacto Pela Cidadania e o Observatório da Cidadania em todas as suas atividades e nos discretos recessos, frutos da impossibilidade de Cidadãos como ele serem substituídos. Nossa caminhada continua tendo a memória de nossos precursores e inspiradores sempre ao nosso lado. Seu Jorge José Katurchi, presente na memória e no coração!

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Menina - Deyse Dittmar | Projeto NOVA


Vídeo produzido com recursos do Fundo Social Sicred • Dedicado a todas as meninas e mulheres atendidos pelo NOVA • Ficha Técnica: Música: Deyse Dittmar • Produção Musical: Evandro Vaz • Produção Vídeo: Joelson Emanuel • Bailarina: Jessica Bellincanta • Atores: Menina, Viviane e Ebenézer • Doe para a instituição através do PIX: projetonova@funasph.org.br • contato: 67 3324-4200

Disponível em: https://www.capitalnews.com.br/video/97

domingo, 28 de janeiro de 2024

O PODER PODRE DO DINHEIRO

O poder podre do dinheiro

A abjeta estratégia das potências pró-sionistas depois da aceitação do processo contra Israel por genocídio: suspensão do pagamento à Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinos sob o pretexto de que a contraofensiva palestina de 7 de outubro contara com a conivência de funcionários da ONU.

Jornalões e outros meios corporativos hegemônicos noticiaram, no fim do mês de janeiro, a suspensão do pagamento pelo Reino Unido, Itália, Canadá, Austrália, Suíça, Finlândia, Holanda e Alemanha à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos em razão da denúncia do nazissionista Benjamin Netanyahu de que funcionários da agência teriam colaborado com os combatentes palestinos que realizaram a contraofensiva do dia 7 de outubro.

A suspensão do envio de dinheiro devido ocorre no momento em que as tropas sionistas promovem uma carnificina indiscriminada contra a população civil, com mais de 30 mil vítimas, em sua maioria crianças e mulheres. Na verdade, esses governos, pressionados pelos endinheirados grupos sionistas em todo o mundo, sequer esperaram que fosse constatada a tal ‘denúncia’, o que evidencia se tratar de retaliação à ONU cuja Corte Internacional Penal, de Haia, acolheu a petição do governo da África do Sul contra o governo sionista de estar cometendo atos genocidas na Faixa de Gaza.

João Amorim, Amigo de infância, técnico em fogões a gás com experiência internacional, dos mais argutos observadores políticos que conheço, há uns três anos me questionou, de supetão: por que os mais de 20 Estados árabes, a maioria deles muito ricos, não conseguem derrotar o Estado sionista que se apossou do milenar território palestino há tanto tempo?

Na época eu, bastante surpreso com o questionamento, disse que não se tratava apenas de dinheiro, mas do poder militar dos aliados e patrocinadores de Israel, todos eles ex-metrópoles coloniais há pelo menos cinco séculos. Hoje, no entanto, sou obrigado a rever essa compreensão, pois o vil metal, o poder do dinheiro, é o que está no cerne da questão.

Ora, como Arthur James Rothschild, o banqueiro de um século atrás, conseguiu obter do jeito que queria a tal Declaração Balfour, em que o chanceler britânico praticamente vendera a Palestina aos sionistas em troca do financiamento da combalida economia imperial, abalada com os gastos das frentes de batalha durante a Primeira Guerra Mundial? Falando claro, a coroa britânica pedira penico, digo, dinheiro, em troca da entrega da Palestina da maneira mais impune e cínica, pois, por meio do espião de ‘Sua Majestade’, T. E. Lawrence (‘Laurence da Arábia’), o Reino Unido havia assumido o compromisso com o múfti de Jerusalém que, em troca do apoio aos interesses britânicos na Arábia, os líderes árabes ficariam contra os turcos não só nas batalhas como em todas as iniciativas em que o império turco-otomano estivesse. Os árabes cumpriram, os britânicos molharam pra trás.

Não é sobre a sobejamente conhecida falta de compromisso dos colonizadores europeus -- até porque tudo o que eles fizeram ao chegar à América ‘recém-descoberta’ foi faltar aos acordos, como nos casos emblemáticos de Montezuma e Atahualpa, os respectivos reis Asteca e Inca, covardemente assassinados ao trair a palavra empenhada. Tudo porque os povos originários eram ‘pagãos’, e como tal poder-se-ia mentir-lhes cinicamente. Esse é, aliás, o princípio sionista: o direito que eles têm de mentir aos ‘gentios’, isto é, aos ‘outros’, como lhes ensina o Talmude, código civil, totalmente cifrado, acessível apenas para eles. Meu saudoso Pai escrevera nos anos 1960 sobre essa conduta, e tinha conhecido na prática essa atitude no Líbano, alvo desse comportamento questionável deles. Entre os segredos mantidos a sete chaves, o direito divino que eles creem ter de não honrar compromissos com os ‘gentios’ -- as ‘duas faces’ divinamente concedidas a eles.

Recentemente um cientista político argentino de ascendência judaica que faz análise de geopolítica, Ariel Umpièrrez, trouxe a público o poder que têm a comunidade sionista de Nova York, cuja sinagoga do Brooklyn, Lubavitch, foi alvo de uma operação policial do FBI e da Polícia de Nova York dias 16 e 17 de janeiro último, mas os grandes meios não deram uma linha sobre o fato. Segundo o analista argentino, uma denúncia de abuso de crianças e adolescentes nova-iorquinos foi a causa dessa operação, como 35 anos atrás, quando um grande líder deles foi condenado depois de ter confessado abusar de crianças. Ele tocou no assunto por ser o local para onde viajou Milei tão logo se elegeu e onde Netanyahu visitou trinta anos atrás para cacifar a sua indicação, pela primeira vez, como primeiro-ministro do Estado sionista.

Dinheiro e poder. É a razão de ser desse, mais que movimento, sistema. O dinheiro é só o meio para comprar e cooptar tudo o que querem. Porque o poder, em seu entendimento, é o objetivo, uma vez que eles são o ‘povo eleito’, e para seu Messias chegar é preciso que o Apocalipse aconteça. Dessa forma, segundo Ariel Umpièrrez, o Talmude os prepara para sobreviver ao Apocalipse e, com a chegada do seu Messias, só eles estarão a salvo, porque são só eles ‘o povo de Deus’. Quando cooptaram líderes neopentecostais, o intuito deles é acelerar a chegada do Messias com o caos que eles ajudam a promover, como guerras, flagelos, epidemias etc. O tal ‘gentio’ existe somente para servi-los e como tal podem até estar com eles, mas na condição de escravos ou serviçais.

Não por acaso todos os políticos que eles apoiam pelo mundo são iguais ao palerma do inominável ou ao Donald Trump ou ao Javier Milei. O propósito é acelerar o caos social, a fome e a miséria, a tensão social, os conflitos entre povos irmãos e entre as classes sociais da mesma nacionalidade. ‘Apocalypse now’ (algum nexo com o filme de Francis Coppola, de 1979). Dinheiro para isso eles têm, tanto que Hollywood virou sucursal do Pentágono. Manipulam todos os políticos em ascensão, para cooptá-los ou linchá-los moralmente, caso ‘ousarem’ recusar-se a fazer o jogo. Joe Biden, mesmo não sendo um adepto dessa turba (o que não significa que seja melhor), acabou submetido ao jogo porque os Democratas nos EUA têm lideranças sionistas muito poderosas, como Hillary Clinton, aquela que como secretária de Estado fez questão de ir à Líbia assistir e gravar o linchamento literal de seu líder Muammar Gaddafi quando da invasão pelas hordas ocidentais em 2011.

Basta prestar atenção. O que aconteceu com o líder árabe Gamal Abdel Nasser, que não era ‘radical’, mas patriota de verdade que não quis negociar com o sionismo? Do nada, sofreu um infarto fulminante em 28 de setembro de 1970 quando tentava equacionar um conflito entre o reino hachemita da Jordânia (do rei Hussein, grande traidor) e líderes dos refugiados palestinos, episódio conhecido como ‘setembro negro’. Quando o rei Faisal da Arábia Saudita, no túmulo de Nasser jurou rezar na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, cinco anos depois, foi assassinado em seu gabinete real em Riad, a 25 de março de 1975, crime injustificado e simplesmente silenciado? Quem, afinal, estava por trás de Mikhail Gorbatchev e de Boris Yeltsin, senão os sionistas, quando conseguiram fazer ruir a União Soviética sem que o poderoso Exército Vermelho tivesse dado um só disparo?

O Egito, com Nasser, era uma potência mundial na liderança do Movimento dos Países Não Alinhados, junto de líderes como Josip Broz Tito (Iugoslávia), Jawarhalal Nehru (Índia), Sukarno (Indonésia) e Kwame Nkrumah (Gana), ou a construção de grandes projetos de modernização e afirmação da soberania egípcia empreendidos por Nasser, como a Usina de Assuã, em seu tempo a maior do mundo (antes da construção de Itaipu, em 1975, pelo Brasil), além da liderança entre os estados árabes e africanos, para cuja independência das metrópoles coloniais europeias se empenhou. Eliminação desse tipo de líder, para os sionistas, é uma questão vital.

Os venais sucessores, o nanico moral Anwar Sadat (similar ao ‘brimo’ Temer) e mais tarde Hosni Mubarak, não passaram de marionetes sionistas no coração do pan-arabismo. Tanto Sadat quanto Mubarak nunca corresponderam ao legado do grande líder pan-arabista que mobilizou a Ásia e a África nas décadas 1950 e 1960, auge da guerra fria e da escalada funesta do Estado sionista, um verdadeiro enclave colonial no coração da Arábia. Israel é, mais que projeto ‘nacional’ dos sionistas, um projeto de empoderamento mundial, como revela didaticamente Ariel Umpièrrez em seu canal Geopolítica.

Muammar Gaddafi e Saddam Hussein, a despeito de seu esforço por resistir à ofensiva do sionismo e do neocolonialismo não só não tiveram estatura política como eram destituídos de valores humanistas, tanto que sucumbiram por terem confiado nos conchavos com os sempre traíras do ocidente decadente, como Ronald Reagan e George Bush (EUA), Nicolas Sarkozy (França) e Silvio Berlusconi (Itália). Saddam foi autovítima por confiar em Reagan contra a República do Irã (é só ler sobre o caso Irã-Contras) e no sinal verde de Bush para ocupar o Kuwait em 1990 (que deu origem à primeira Tempestade no Deserto). E Gaddafi, da mesma forma, com Sarkozy (para quem havia doado uma fortuna para a sua eleição, mas não hesitou em abandoná-lo quando da trama golpista de invadir a Líbia) e Berlusconi (com o qual tinha algumas joint-ventures em parceria com laranjas dos dois lados). Esse é o ‘capetalismo’: ‘negócios, negócios; amigos à parte’.

Ainda que sob o estigma de ‘terrorista’ a resistência palestina, independentemente das várias organizações (algumas de esquerda, outras nacionalistas e hoje muitas sectárias, ligadas a grupos religiosos), mas todas verdadeiramente patrióticas, a Palestina resiste, sobrevive e vive dignamente, sem se ajoelhar ante a truculência do ocidente perverso e hipócrita, em que um Estado terrorista, sanguessuga, opressor e literalmente ladrão se passa por vítima o tempo todo, quando é ele o verdadeiro algoz. O cinismo em forma de ideologia, de sistema.

Os mesmos árabes que ao longo da história defenderam seus ancestrais das injustiças ocidentais haverão de resistir e derrotar sionistas, canalhas e cretinos saqueadores que há séculos abusam da boa-fé dos que os recebem com altivez e galhardia, sejam como árabes ou como Asteca, Inca, Maia, Guarani, Tupi, Tupinambá, Apache, Shawee, Navajo, Inuíte, Berbere ou Bantu, Aborígenes australianos etc. Palestina vive! Palestina livre!

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

AO CINQUENTENÁRIO DOS 25 ANOS DE MOHAMED



Ao cinquentenário dos 25 anos de Mohamed

Ao comemorar seus 25 anos, Mohamed parecia estar se despedindo de nós pela maneira com que agira naquela sexta-feira, como nosso Pai observara em sua primeira crônica de homenagem ao Primogênito que partira precoce e tragicamente.

Sexta-feira, 25 de janeiro de 1974. Até parecia que Mohamed soubesse que era seu último aniversário entre nós. Acordara mais cedo que de hábito e fizera um pedido bem diferente do que lhe era peculiar. Nossos Pais o atenderam nesse pedido. Quando se eternizou, oito meses depois, nosso Pai observou esse episódio em sua primeira crônica de homenagem póstuma ao Primogênito, publicada no Diário de Corumbá e em Presencia, de La Paz, dois jornais que também se tornaram eternos.

Eram anos de chumbo, inclusive na Bolívia, onde ele interrompera contra sua vontade o curso de Sociologia na Universidad Mayor de San Andrés, em La Paz. O sangrento golpe de agosto de 1971 capitaneado pelo facínora Hugo Banzer Suárez, que pusera em recesso as universidades durante vários anos, o impelira a fazer Psicologia no Centro Pedagógico de Corumbá, então da Universidade Estadual de Mato Grosso (UEMT), onde encontrara um elevado número de conterrâneos cursando licenciaturas de Pedagogia, Ciências e Psicologia, pelas mesmas razões que ele: recesso imposto pela ditadura às atividades universitárias.

Desde que começara aquele fatídico ano, em que o regime de 1964 comemorava seus dez anos com uma avalanche de spots ufanistas e eventos escolares comemorativos sem perder os propósitos doutrinários da ‘segurança nacional’, um clima estranho rondava nosso lar: no início do ano, vizinhos muito queridos, como Seu Jubiraci, Filho de Dona Eusébia e Esposo de Dona Benedita, cuja casa dava de fundo à pensão de nossos Pais, fora vítima de bala perdida numa madrugada em que a polícia dizia perseguir criminosos em fuga. E não demorou muito para que, na madrugada de 11 de março, dia de aniversário de nossa Mãe, uma balaceira em que o alvo era o nosso lar e o pretexto era de que alguém andava com pedras arremessando contra telhados vizinhos, insinuando que fosse logo Mohamed, que comigo dormíamos nas noites quentes pantaneiras no quintal. Só se identificaram depois que nosso Pai revidara com cinco tiros de sua Smith & Wesson calibre 32, devidamente registrada, uma relíquia que o acompanhava desde seus tempos de mascate na Amazônia boliviana.

Eram os ‘hômi’, feito jagunços, fazendo tiro ao alvo com a certeza da impunidade: aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei. Consigna dos nefastos facínoras que, sem concurso e sob os piores critérios republicanos, lotavam as repartições policiais pelo país. Se anos anteriores as blitze da Polícia do Exército se demoraram a tentar entender como um modesto comerciante pudesse ter uma biblioteca imponente e se detivessem a tentar ler línguas estranhas, como árabe, francês, espanhol e inglês, doravante a guerra estava declarada, sob pretexto de nosso saudoso Pai ter encabeçado um movimento que pretendia apaziguar as noites violentas que ensanguentavam a ex-Feira Boliviana, como então era denominado aquele perímetro próximo à antiga estação ferroviária boliviana (e depois da Estação Ferroviária Internacional, a partir de 1968).

Embora pacata, Corumbá nos anos de chumbo experimentara uma, digamos, vida paralela, para a qual nosso sábio Pai sempre nos advertia: muito cuidado com as aparências, não se deixem encantar pelo dourado dos confetes. Creio que um ditado árabe. Daí porque todos nós éramos criteriosos com compromissos fora dos escolares (ou, no caso de Mohamed, universitários). Mesmo assim, a partir de então, não foram poucos os assédios provocativos da Veraneio da Polícia Civil quando ele se dirigia a pé ao Centro Pedagógico, que havia poucos anos se instalado na atual Unidade I do atual Campus Pantanal da UFMS. Na volta, sempre não faltava a carona de Amigos ou colegas de turma.

Esse assédio, dissimulado porque o então delegado regional de Polícia havia sido professor de Matemática meu e de Educação Moral e Cívica de minhas Irmãs e conhecia a Família, fazia com que Mohamed tomasse as suas precauções. Experiente, ele havia sido dirigente estudantil boliviano desde os tempos de secundarista. Aliás, ele e meu Irmão Muslim, que permanecera em Cochabamba para cursar Medicina na Universidad Mayor de San Simón, onde também foi destacado dirigente estudantil. Além de meu Pai, bastante politizado, os nossos Irmãos mais velhos exerciam naturalmente uma liderança que incomodava os ‘paus-mandados’ das ditaduras.

A simplicidade, espontânea, mas provocadora aos olhos da repressão velada e impiedosa existente no cosmopolita centro comercial que despertava a cobiça dos novos ‘donos do poder’, ex-udenistas em sua maioria, que tentavam ‘exorcizar’ os resquícios trabalhistas que predominavam no imaginário política da população corumbaense. Aqueles dez anos de existência do regime não foram fáceis para os gendarmes e títeres dos generecos de Brasília: Corumbá sempre fora um bastião da vanguarda política brasileira, onde senão os mais importantes sindicatos, os mais numerosos e mobilizados escreveram os primeiros passos da esquerda no Centro-Oeste brasileiro, tais como os dos marítimos, carroceiros, comerciários, estivadores, ferroviários, bancários, garções e trabalhadores da construção civil.

Até o mais popular e pujante time de futebol era ligado à categoria profissional que mais incomodava a ditadura, o Marítimo, então tetracampeão de futebol do Centro-Oeste do Brasil. Somente anos depois, por meio do agora saudoso e querido Amigo Professor Fausto Mato Grosso, soube que a resistência ao regime de 1964 em Corumbá foi a maior de Mato Grosso (uno à época), mais que em Cuiabá. Para a esquerda, que se unira contra o regime ditatorial, era uma questão de honra defender Corumbá das tentativas de cerceamento de toda espécie causada pelos paus-mandados da ditadura. Se a resistência mantinha seus ‘olhos’ atentos, imaginem os arapongas, muito bem pagos...

O querido Amigo, Seu Arlindo Diniz, Pai da Professora Denise Campos Diniz, me contara que seu Cunhado, Ibrahim Ismael (Irmão do conhecido comerciante Júlio Emílio Ismael, dono da ‘Casa Botafogo’, mais tarde presidente local da Arena por conta de seus vínculos com o deputado Armando Anache e seu padrinho político, senador Filinto Müller) fora um dos aprisionados no navio-prisão Guarapuava, do Serviço de Navegação Bacia do Prata S/A, estatal de navegação que substituiu o Loide Brasileiro nas águas interiores do Centro-Oeste. Com ele, o escritor e dono do emblemático Hotel Luzia (onde hoje é o Hotel Lincoln), saudoso Amigo Adolpho Jorge da Cunha (autor de uma trilogia sobre os poaieiros de Mato Grosso, que tive a honra de conhecer na Editora Joruês, em São Paulo, ao lado de José Paulo Netto, então editor de Internacional da Voz da Unidade), Seu Juquinha (Senhor Guinemer Gomes da Silva, Pai do Professor Gabriel Stálin Gomes da Silva), Senhor Pedro Lins (o vereador mais votado pelo trabalhismo) e mais tarde o Doutor Amorésio de Oliveira (advogado eleito deputado estadual, mas esquecido pelos Camaradas).

Cinquenta anos depois, as hordas de hienas odientas estão à espreita, depois da ressaca de um desgoverno de delirantes terraplanistas que fizeram, em poucos anos, com que o País retrocedesse 50 anos, ou mais. Talvez 100, pois o desserviço prestado em nome de falsa patriotada causou feridas profundos no tecido social pátrio, coisa que levará anos para se recompor. Enquanto isso, as pessoas que mantiveram sua lucidez incólumes ainda que sob intensa ameaça dos delirantes tentam remendar como podem os cacos de uma sociedade totalmente alvoroçada e com traumas indizíveis.

Parodiando o querido e saudoso Gonzaguinha (Luiz Gonzaga Junior, talentoso Filho do Rei do Baião, com quem pudemos compartilhar momentos memoráveis no início da década de 1980 graças aos Companheiros do movimento estudantil por três vezes), fico com a pureza da contemplação dos felinos, é a Vida, é a Vida... Véspera do cinquentenário do último aniversário de nosso Irmão Mohamed, dois gatinhos de minhas Irmãs, Manolito e Pietra, no dia 24 de janeiro de 2024, foram flagrados por nossa Irmã Wadia contemplando por quase meia hora o quadro que nosso saudoso Pai pediu a uma querida Amiga artista plástica chilena, María Estela Martínez, que fizesse com base em uma foto de meu Irmão e a foto do flamboyant que ele eternizou em suas crônicas feita pelo querido Amigo João de Souza Alvarez antes que ruísse pelo tempo. É a imagem, sem edição, que está no topo do texto.

Ahmad Schabib Hany