domingo, 21 de janeiro de 2024

PANTANAL: MENSAGEM ALVISSAREIRA

Pantanal: mensagem alvissareira

Colaborador de jornalão campo-grandense, economista com acuidade histórica é um dos mensageiros da redenção do Pantanal.

Nada como um dia depois do outro e uma noite no meio deles... Ninguém menos que um economista antenado que ainda não tive a honra de conhecer cravou um artigo de opinião na página 2 do porta-voz oficioso do establishment da precocemente senil ‘novacap’ na alvissareira terceira quarta-feira deste 2024.

Véspera do primeiro ano de eternização de um dos maiores defensores do cosmopolitismo corumbaense e do desenvolvimento sustentável e sustentado do Pantanal integrado -- o saudoso Seu Jorge José Katurchi, querido Amigo sempre presente --, o alvissareiro artigo de opinião do economista Benedito Rodrigues Costa (intitulado “Somente como estado o Pantanal será preservado”) é uma homenagem póstuma ao Paladino da Cidadania que por décadas lutou incansavelmente pelo soerguimento de Corumbá e região e que nos anos derradeiros sonhava com a reunificação do Pantanal Mato-grossense.

O autor do emblemático artigo tem outra pérola, publicada em setembro de 2018, sobre o coração do Pantanal e da América do Sul, “Um new look para Corumbá”. Foi o que pude constatar no portal do embolorado porta-voz da tristemente caquética ‘capetal’ de um estado que até hoje não disse a que veio (além de ter proporcionado três senadores arenistas para a nefasta sobrevida de um regime autoritário, consumiu milhões de dólares em projetos insanamente megalomaníacos, como um famigerado ‘pôlder de Ladário’, uma ‘transpantaneira’ inacabada, a dinheirama infindável despejada em intervenções caducas nas ‘bocas’ do Taquari e diversos ‘elefantes brancos’ inconclusos no sul do velho Mato Grosso, tido então como curral de Filinto Müller, Lúdio e Italívio Coelho, Cláudio e José Fragelli, Mendes Canale, Rachid Derzi e Pedro Pedrossian).

Há quem seja condescendente com o faraó de Miranda, Pedro Pedrossian. Nada pessoal, eu não. Foi ele o governador que em 1994, no apagar das luzes de seu derradeiro governo, atropelou a legislação e sem qualquer consulta prévia à população submeteu à Assembleia Legislativa um projeto de privatização decorrente de negociação com seu colega Jayme Campos, de Mato Grosso, para pôr fim a uma questão judicial pela posse da concessão das jazidas de ferro e manganês do Urucum, então pertencentes à Metamat S/A, criada em 1971 pelo então governador José Fragelli para gerir a extração das minas de Urucum, em Corumbá. Pelo acordo com o governo mato-grossense, a Metamat seria privatizada, bem como a Urucum Mineração S/A (UMSA), subsidiária sua, a toque de caixa.

Pedrossian venceu no Plenário do Legislativo, mas até históricos correligionários pedristas foram contrários -- os deputados Armando Anache e Marilene Coimbra, que pagaram caro pela ‘rebeldia’, não tendo sido reeleitos em suas bases eleitorais naquele ano. A história é longa. Rendeu uma ação popular encabeçada pelo falecido senador Fragelli, mas acabou abandonada por Mato Grosso do Sul. Muitos se locupletaram, outros ficaram ‘queimados’ perante a população, manipulados pelos poderosos dólares. O fato é que o Banco Vetor, na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, em agosto de 1994, fez um leilão em que o que tinha que ser privatizado acabou estatizado, pois a CVRD, estatal de economia mista, foi quem adquiriu as ações, claramente subavaliadas.

Mais ainda: uma conta não fechou, eis que Mato Grosso do Sul, onde a UMSA se encontrava, ficou com 40% do valor da venda das ações, enquanto Mato Grosso, sede da Metamat, ficou com 60% do valor auferido no leilão. A História ainda haverá de revelar muita coisa que é novidade num estado em que os jornalões são 100% ‘valentes’ -- ou ‘valetes’? --, ‘pero no mucho’. Quatro anos depois a CVRD foi leiloada pelo governo FHC por um terço do lucro obtido no primeiro ano de privatizada, e a ex-UMSA, vendida a preço infame, contribuiu muito para essas contas superavitárias.

Nos 46 anos de divisão territorial (44 anos de instalação do governo de MS), efetivamente, o que foi feito de importante para o Pantanal e sua população? À exceção das tímidas iniciativas protagonizadas por Wilson Barbosa Martins entre 1983 e 1998 (entre elas as bases de toda a legislação ambiental específica, a conclusão dos estudos do PCBAP e as balizas do Programa BID-Pantanal) e por seu sucessor, José Orcírio Miranda dos Santos (em especial a implantação de políticas de desenvolvimento integrado com o protagonismo das populações tradicionais e originárias por meio do Prove Pantanal e a reestruturação das metas constantes do Programa BID-Pantanal, interrompidas no governo sucedâneo), Mato Grosso do Sul, ao longo desse período, auferiu recursos por causa do Pantanal mas nada investiu de efetivo em nossa região.

É fundamental o reconhecimento do esforço, entre 1995 e 1998, dos governadores Dante de Oliveira e Wilson Martins (e de seus respectivos gestores das políticas ambientais), que permitiu uma certa sintonia entre as duas unidades da federação, mas por pouco tempo, além do valoroso empenho de pesquisadores das universidades instaladas nos dois estados. Na verdade, os estudos consolidados pelo PCBAP foi fruto do esforço hercúleo de inúmeros cientistas e, sobretudo, desses dois democratas combativos dos tempos da luta contra a ditadura, cuja determinação sensibilizou a burocracia federal e permitiu a possibilidade de um programa comum de desenvolvimento sustentável, o Programa BID-Pantanal.

Diferentemente de outros governadores, os aqui aludidos (com ressalva a certos assessores e secretários) têm um legado irrefutável de que a ciência e a política, quando à luz da democracia e do interesse comum, são capazes de levar progresso às populações tradicionais e originárias sem destruir as bases de sua própria existência. Até porque a ciência tem demonstrado nestas últimas décadas (a partir de 1972, quando da realização da Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, em Estocolmo), que só se pode chamar de desenvolvimento quando as transformações beneficiam a todos, e não apenas enriquecem alguns, geralmente ‘laranjas’ de corporações ou até quadrilhas transnacionais.

Pena que esse efêmero protagonismo cidadão tenha sido interrompido nos dois estados, em consonância com os inglórios temporais do autoritarismo que se avizinhava na segunda década do século XXI, em que um vice golpista e um inominável pateta causaram enorme prejuízo não só ao Estado Democrático de Direito, como ao erário nacional e, em especial, à sociedade civil brasileira. Porque nunca é demais reiterar que na democracia é o diverso, a pluralidade, o que legitima o interesse coletivo, não a alucinada e oportunista ‘luta do bem contra o mal’, própria das mentes totalitárias medievais revigoradas pelo fascismo.

Conhecedor da História de Mato Grosso (e Mato Grosso do Sul), o articulista adverte que não será fácil a reunificação do Pantanal Mato-grossense, ainda que desperte simpatia junto à opinião pública. Aliás, não foi fácil a luta dos velhos e aguerridos defensores do movimento divisionista que atravessou um século até concretizar o sonho de emancipar o sul do velho Mato Grosso uno, ainda que por vias nada ortodoxas: a conquista foi obtida mediante um conchavo com o general Ernesto Geisel, chefe de governo cujo regime ruía e precisava desesperadamente granjear maioria situacionista cada vez mais difícil.

Rodrigues da Costa presta um relevante serviço à cidadania pantaneira quando dá pistas de como ir construindo essa maioria no território do histórico Pantanal Mato-grossense. O articulista recorda que é no município onde o cidadão mora, e portanto é com base nesse apoio que o futuro movimento pela reunificação a ser liderado por Corumbá, como maior município pantaneiro, deve construir os alicerces de seu projeto. Ao que acrescento sem perder de vista sua História, suas diversas e ricas culturas e, sobretudo, seu protagonismo anterior e posterior à divisão de Mato Grosso.

É também importante registrar que só tive acesso a esse emblemático artigo graças a um Amigo-Irmão dos tempos da Sociedade dos Amigos da Cultura (1991), Segunda Semana Social Brasileira (1993), Comitê Pró-Cultura de Corumbá (1994) e Pacto Pela Cidadania (1994), o incansável Armando Carlos Arruda de Lacerda. Foi esse querido Amigo que trinta e um anos atrás me apresentou à Irmã Antônia Brioschi, então Coordenadora Diocesana de Pastoral Social, e agora se deu ao trabalho de enviar recorte do jornal com a sábia recomendação: “Convém não esquecer que as turfeiras que estão no centro das preocupações do mundo, em Davos 2024, encontram-se tão-somente em quatro municípios pantaneiros: Corumbá, Cáceres, Poconé e Barão de Melgaço.”

Alvíssaras, Pantanal! Um dia, ainda que distante, o cosmopolitismo e a ancestralidade hão de se tornar hegemônicos e sua população altiva e resiliente voltará a tomar as rédeas da História e ser detentora de seu generoso porvir. Obrigado, Benedito Rodrigues da Costa! Obrigado, Armando Carlos Arruda de Lacerda! A racionalidade e a sensatez com que esta temática sensível passa a ser focada são as bases da gesta libertária a emancipar o povo pantaneiro, sistematicamente preterido pela intelligentsia sul-mato-grossense.

E, obviamente, nosso modesto e sincero tributo aos baluartes do Pacto Pela Cidadania e movimentos congêneres nas saudosas memórias de Dom José Alves da Costa, Padre Pasquale Forin, Padre Ernesto Saksida, Seu Jorge José Katurchi, Doutor Hélio Sascher de Souza, Seu Augusto César Proença, Doutor Lécio Gomes de Souza, Doutor Salomão Baruki, Professor Dilermando Luiz Ferra, Seu Lincoln Gomes de Souza, Professora Heloísa Helena da Costa Urt e Jornalista Márcio Nunes Pereira, entre outro(a)s não menos importantes.

Ahmad Schabib Hany

sábado, 13 de janeiro de 2024

A VOLTA DAS OPORTUNIDADES

A volta das oportunidades

A despeito de toda a torcida contra pelas hordas seguidoras do inominável, em menos de 12 meses o Brasil conseguiu estar reinserido no concerto das nações. Porque conspirar e blefar não levam a nenhum lugar. É preciso somar e construir para fazer o povo sorrir, pois quem planta divisão só colhe desunião.

Em menos de 12 meses, o Brasil volta a brilhar no concerto das nações. Brilho com luz própria. Afirmativamente. Porque o reencontro do Brasil com a sua vocação histórica, de potência da paz e da justiça social (conforme constatado nas primeiras duas décadas do terceiro milênio), se concretizou com o reconhecimento pelas mais diferentes potências econômicas, muitas delas rivais entre si.

A estratégia do Presidente Lula, de não alinhar automaticamente o Brasil a nenhuma das áreas de influência dos diferentes grupos ideológicos que disputam a hegemonia do mundo pós-neoliberal (fruto do ‘consenso de Washington’, de 1989, quando o canastrão Ronald Reagan e Margareth Thatcher, tida como ‘dama de ferro’, conchavaram impor ao Planeta uma ‘nova ordem mundial’ depois do fim da ‘guerra fria’. Cínicos, os governos dos países mandões (sobretudo Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia) ignoraram convenções internacionais e cravaram o punhal no peito dos países em crescimento e suas populações.

Foi quando a ‘globalização’ fez a humanidade sofrer sob os desmandos do neocolonialismo e o que eles chamaram de ‘estado mínimo’. Mas que, desmascarada, viu-se que não passou de uma enorme farsa em que, sob o ‘novo’ paradigma, os direitos dos trabalhadores em todo o mundo foram simplesmente surrupiados e as conquistas sociais, como educação e saúde públicas, simplesmente sonegadas. O tal ‘neoliberalismo’, como bem disse o genial Leonel Brizola, era eufemismo (palavra bonita) para um novo modo de colonização, cheia de ardil e muita, muitíssima, farsa.

Entre 1990 e 1999 a sociedade civil sofreu um retrocesso medonho. Acintosamente os ‘donos do mundo’, sempre com seus serviçais prontos para ‘parir’ teorias ao gosto e sabor dos supremacistas de todos os naipes, difundiram duas mentiras levianas: ‘fim da história’, de um efemeramente célebre nipo-estadunidense chamado Yoshihiro Francis Fukuyama, e ‘choque de civilizações’, de um sionista que já partiu desta para a ‘melhor’, Samuel Phillips Huntington. Nem fim da História, nem choque de civilizações, o que move, desde sempre, a História é a luta de classes, gostem ou não os ‘capetalistas’...

Graças à resistência antiglobalitarista empreendida por diversas organizações feministas, sindicais, ambientais, científicas, de povos originários e de gênero e a gênios como Noam Chomsky, Milton Santos, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Ignacy Sachs, Michel Chossudovsky, Josep Fontana, Moniz Bandeira, Herbert de Souza, Dom Mauro Morelli e José Paulo Netto, entre outros, o Fórum Social Mundial foi realizado em Porto Alegre em 2001 sob o lema “Um outro mundo é possível”, em que o empresário Oded Grajew, o jornalista Bernard Cassen e o ativista Chico Whitaker se empenharam em sua realização. Embora esvaziadas, outras edições se realizaram em Porto Alegre e Belém (no Brasil) e em diferentes cidades de outros países até 2018, e com a eleição do inominável e a expansão das ideias fascistas pelo mundo afora temporariamente deixaram de ser realizadas.

O fato concreto é que a ideia motriz de que “um outro mundo é possível”, sem saques e guerras absurdas e uma série de atitudes coletivas de promoção da igualdade e da empatia até a construção de ‘pontes’ que reunifiquem a humanidade.

Reencontro com a História

As hordas peçonhentas que atentaram contra o Estado Democrático de Direito foram desmascaradas e derrotadas em flagrante, a despeito de toda a retaguarda poderosa que estava à espreita para dar o bote. Mais uma vez, a inteligência e a resistência democrática venceram e convenceram. Onde estão os e as ‘patriotas’ de meia pataca?

Estão por aí, onde sempre estiveram, à espreita. Não trabalham, pois são parasitas e outros são os que pensam por elas. Geralmente vêm ‘de fora’, como em 1964 (golpe de Estado monitorado, assessorado e financiado pelos EUA), 1967 (‘acidente aéreo’ que tirou Castelo Branco da liderança militar), 1968 (‘isquemia’ que eliminou a liderança de Costa e Silva), 1971 (articulação das ditaduras fascistas latino-americanas pós-golpe de Celich-Banzer na Bolívia), 1973 (vitória do fascismo latino-americano com Pinochet no Chile), 1974 (aperfeiçoamento da ação repressora articulada com o ‘Plano Condor’ no Cone Sul sob apoio estadunidense), 1977 (agora sob a bandeira dos Direitos Humanos, o império se apossa das bandeiras democráticas na América Latina), 1980 (novo retrocesso do império, com a vitória de Ronald Reagan nos EUA), 1989 (nova onde ‘democrática’ conservadora com a queda do Muro de Berlim e a dissolução do Pacto de Varsóvia), 1990 (neoliberalismo em marcha, com Collor, Menem e Fujimori), 1995 (FHC claudica ante os cânones do neo e da globalização), 2005 (contra-ataque conservador com o avassalador processo de livre construção de uma América Latina soberana), 2013 (a exemplo da ‘primavera árabe’ de 2010, a América Latina é atropelada por guerras híbridas digitais, inclusive o Brasil, com as ‘jornadas de julho de 2013), 2015 (preparação ostensiva do golpe contra a Dilma, com a explícita participação do governo estadunidense via Departamento de Justiça e a ‘Lava Jeito’), 2016 (golpe parlamentar travestido de ‘impeachment’ de Dilma Rousseff) e 2018 (condenação por meio de golpe judicial pela ‘Leva Jeito’ de Lula e, durante a campanha eleitoral, ostensiva intervenção contra Haddad).

Sim. Os deploráveis episódios que nos remeteram ao 8 de janeiro de 2023 precisam ser alvo de uma reflexão sincera e constante. Nunca foram ‘ato isolado e impensado’. Os seus mentores e cultores não só têm os maiores salários deste país, como ganharam muito em todos os golpes que protagonizaram. Insisto e os desafio: não trabalham, são parasitas e falsos moralistas. Durante os desgovernos do ‘brimo’ golpista e do inominável passaram o tempo todo vendo as formas de se locupletar, saqueando o erário com total despudor e acinte.

São os pretensos ‘donos da pátria’, ‘donos da terra’. Desde os tempos da colonização. Ou o generoso leitor acredita que a certeza da impunidade com que promoveram a arruaça foi fruto de sua ingenuidade?

É claro que padecem de uma iluminura intelectual. Seus neurônios são atrofiados, até por conta de sua vocação para servir aos seus amos e senhores sem esboçar qualquer reação. Mas têm total consciência de seus atos de lesa-pátria e lesa-humanidade cometidos com requintes de crueldade, sobretudo contra as populações originárias, tradicionais, quilombolas e de afrodescendentes por este país-continente.

É claro que os ‘paus mandados’, aqueles gaiatos que, como gado marcado, foram ‘salvar’ o Brasil em 8 de janeiro do ano passado, aqueles trouxas foram usados pelos covardes que não assumiram seu papel no roteiro.

Primeiro, porque o inominável sempre foi covarde. Basta ver as matérias da ‘Veja’ da década de 1980, além dos depoimentos de ex-colegas de caserna que o denunciam por ‘amarelar’ toda vez que se pretendeu um ‘Napoleão Patoaparte’, feito a personagem de Walt Disney nas revistas de histórias em quadrinho da décadas de 1970. Além de palerma, o inominável é preguiçoso e muito covarde e nunca assumiu suas alucinações.

Segundo, porque desde que Tancredo Neves cravou de 10 a 0 no espúrio Colégio Eleitoral do maldito regime de 1964, em 15 de janeiro de 1985, os generais Newton Cruz, Octávio Medeiros e Sylvio Frota trabalharam silenciosa e sorrateiramente ‘formando’ quadros para disseminar o golpismo do qual foram peças-chave durante a (mal)ditadura de 1964. Embora não fosse amigo do inominável (até porque este envergonha qualquer fascista autêntico), foi um dos que defenderam a sua não expulsão do Exército em 1987, fato que foi noticiado quando da homenagem ao general golpista Eduardo Vilas-Boas durante a posse do inominável (em janeiro de 2019) e a homenagem póstuma a Newton Cruz (em abril de 2022).

Nossa geração, que foi às ruas pelas liberdades democráticas desde 1977, mobilizou todo o País com as Diretas-Já em 1983/1984 e com Tancredo Presidente em 1984/1985 e se manteve mobilizada entre 1986 e 1988 por causa da Assembleia Nacional Constituinte, não pode se furtar de manter-se mobilizada em defesa do Estado Democrático de Direito que construímos com muito denodo. Entre 1989 e 2023 continuamos a sensibilizar, apoiar e monitorar as iniciativas de avanço no arcabouço jurídico que baliza o Brasil como grande protagonista de uma revolução silenciosa, por meio de políticas públicas sociais, culturais, educacionais, sanitárias, ambientais, econômicas e tecnocientíficas.

Antes de concluir, faço uma reparação: no texto anterior, por problemas involuntários de gravação de arquivo pelo Word, acabei por não deixar explícitos os nomes de Amigas e Amigos que faço questão de fazer constar como cidadãs e cidadãos inspiradores: Adriana Ferraz Santos, Adriana Lara de Souza, Alberto Feiden, Alexandre Belmonte, Álvaro da Silva Martinez, Amaury Gayoso, Amélia Zanella, André Pereira Hernandes, Andressa Santos Rebelo, Antônia Brioschi, Antônio Carlos Leite de Barros, Antônio Divino Monteiro, Antônio Divino Monteiro de Moraes, Arlindo Diniz, Aurélia Brioschi, Balbino Gonçalves de Oliveira, Benedito Rodrigues Brazil, Caren Bozzano Nunes, Celso Ricardo da Silva, Daniela Cristiane Ota, Débora Fernandes Calheiros, Delari Botega, Douglas Teixeira, Elemar Ebeling, Elígia Assad Pereira, Elisa Pinheiro de Freitas, Eunice das Neves Pereira Almeida, Evanildo Tadeu, Fabiana Figueiredo Costa, Fabiano Quadros Rückert, Fernando Sabra Caminada, Giselda de Paula Tedesco, Giliard da Silva Prado, Guto Josman, Helder Filipe Rocha Prior, Hélvio Rech, Iman Ale Hamie, Imaculada da Silva, Isabella Fernanda Ferreira, Ivaneide Terezinha Minozzo, João Bergamasco, João Carlos Pareja Urquidi, José Antônio Assad e Farias, José Antônio de Moura, José Francisco Zito Ferrari, José Raimundo Barros Bahia, Júlio César Mônaco, Laércio Honorato, Lairson Ruy Palermo, Lourival Monteiro de Moraes, Luiz Carlos Vargas, Luiz Carlos Rocha, Marcelo Fernandes, Marco Antonio Candia, Marco Antônio Ribeiro, Marco Aurélio Machado de Oliveira, Margarete Knock Mendonça, Margareth Urt Navarro, Maria da Silva Pereira, Maria Helena Burguês de Andrade, Maria Inêz Arruda, Marilza Pinheiro, Marilza Romero de Aquino, Mário César Fonseca, Mario Luiz Fernandes, Mário Sérgio Lombardi Kassar, Maurício Lopo Vieira, Milton Jaques Zanotto, Mirane Santos Costa, Moacir Lacerda, Nathalia Monseff Junqueira, Nelson Fuzeta Péres, Ney Fuzeta Péres, Obeltran Martins Navarro, Ocimar Santiago, Patrícia Bedotti Péres, Renata Papa de Almeida, Riad Ale Hamie, Ricardo Pareja Urquidi, Rivaldo Venâncio, Roberto Hindi, Rosália de Fátima Pereira Diniz, Sebastião da Silva Martinez, Sérgio da Silva Pereira, Socorro de Maria Pinho, Suzete dos Santos Bezerra, Thiago da Silva Godoy, Vera de Souza, Waldson Luciano Corrêa Diniz, Wanessa Rodrigues Pereira e Zil Ribeiro.

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

COSMOPOLITISMO SECULAR

Cosmopolitismo secular

100 anos atrás, o cosmopolitismo corumbaense atingia seu ápice. Dois anos depois da Semana de Arte Moderna, de São Paulo, o entreposto comercial das águas interiores que ganhara projeção no pós-guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai vivia os momentos de glória que precedem à finitude trágica dos ciclos econômicos capitalistas. Mas um século depois, a despeito do provincianismo acentuado com a divisão de Mato Grosso, o cosmopolitismo permanece incólume, imponente, para desespero da capitalzinha de meia pataca, antro do neofascismo do abominável...

Em minha primeira reflexão escrita (e pretensamente compartilhada com Você, paciente leitor/leitora que me honra com sua leitura crítica e inteligente) de 2024, não poderia deixar de homenagear Amigo(a)s cujas pegadas deixaram marcas indeléveis na memória daqueles -- como os Amigo(a)s presentes e incansáveis Adnan Hamad Haymour, Adolfo Rondon Gamarra, Aguinaldo Rodrigues, Aidê Arruda Varela, Aleixo Paraguassú Netto, Alle Yunes Solominy Neto, Alexandre Gonçalves dos Santos, Amarílio Ferreira Junior, Ana Claudia Salomão da Silva, Aníbal Carlos Monzón, Anísio Guilherme da Fonseca, Armando Carlos Arruda de Lacerda, Arturo Castedo Ardaya, Bassem Hussein, Carmelino de Arruda Rezende, Carmen Chamoun Calazans, Celso Cordeiro, Cláudia de Araújo Lima, Cleonice de Souza Bueno, Cristiane Sant’Anna de Oliveira, Dary Esteves Jr., Denise Campos Diniz, Edenir de Paulo, Edson Henrique Figueiredo de Moraes, Edy Assis de Barros, Elaine Gomes Ferro, Elenir Machado de Mello, Eliseu Campos, Estela Márcia Rondina Scandola, Eva Granha de Carvalho, Fábio Issa Ahmad, Geraldo Alves Damasceno Jr., Gilberto Luiz Alves, Gisela Angelina Levatti Alexandre, Hélia Costa, Herman Herrera Valle, Iara Valentina Torres de Souza, Irlene Maria dos Santos Bareiro, Jalila Safa, João Bortolanza, João de Souza Alvarez, Joana da Costa Lima, Joel de Carvalho Moreira, Joel de Souza, Johny Henry Vaca Arza, Johonie Midon de Mello, Jonas Luna de Lima, José Carlos Françolin, José Carlos Ziliani, José Eduardo Maldonado Katurchi, José Luís Finocchio, José Luiz Peixoto, Júlio Xavier Galharte, Juvenal Ávila de Oliveira, Kati Eliana Caetano, Lejeune Mirhan Xavier de Carvalho, Lígia Maria Baruki e Mello, Lindivalda Gonçalves dos Santos, Loide Bueno de Souza, Lúcia da Silva Santos, Lúcia Salsa Corrêa, Luiz Antônio Torres Taques, Luiz Carlos Katurchi, Luz Marina Cavalcante da Silva, Mara Leslie do Amaral, Marcelo Moura, Márcia Ivana do Amaral, Margareth Cabral Parabá, Margareth Matas Pereira, Maria Angélica de Oliveira Bezerra, Maria Augusta dos Santos Rahe Pereira, Maria Cristina Atayde, Maria de Fátima Garcia da Silva, Mariliz Romero de Aquino, Marisa Bittar, Marlene Terezinha Mourão, Masao Uetanabaro, Munther Suleiman Safa, Najeh Abdel Hamid Mohd Mustafa, Nasser Safa Ahmad, Nelson Abnur Urt, Nely Safa, Paulo da Costa Lima, Paulo Marcos Esselin, Paulo Matas Pereira, Paulo Roberto Cimó Queiroz, Raul Nunes Delgado, Raul Valle Herrera, Regina Marchesini Alves, Roque Bareiro, Rosa das Graças Nunes Delgado, Rosângela das Graças Ruas, Rosely Rios Midon, Semy Alves Ferraz, Sílvia Maria da Costa Nicola, Simone Yara Benites da Silva, Soely Ivacquia de Oliveira, Solange Gomes Galeano, Suzana Maia, Tânia Nozieres de Santana, Tereza Cristina Katurchi Exner, Tito Carlos Machado de Oliveira, Valmir Batista Corrêa, Yahya Mohamad Omar, Zacaria Yahya Omar, e, óbvio, todas as minhas Irmãs e meu Irmão, Sobrinhas e Sobrinhos e Filha e Filho -- que teimam resistir a tempos tão adversos e que me levam a não desistir dessa luta inesgotável.

Quem conhece a história (sobretudo recente) de uma região ou de um povo dificilmente pode perder-se em firulas de narrativas estonteantes, geralmente paridas em agências de propaganda contratadas por governantes autoproclamados ‘visionários’. Mato Grosso do Sul é vítima disso desde antes de sua criação, herança que é de uma ditadura militar impune que, para prorrogar seus dias de sobrevida, não só fechou (em abril de 1977) o Congresso Nacional, cassou os líderes oposicionistas e pôs ‘em recesso’ o Supremo Tribunal Federal (STF), na maior cara-de-pau. A alegação era de que interesses da Segurança Nacional (sic) impunham tais medidas, nitidamente casuísticas e autoritárias. É o tal ‘Pacote de Abril’, às vésperas da Semana Santa daquele ano. Entre as mais importantes alterações feitas ao arcabouço jurídico brasileiro, constam o nefasto instituto do senador ‘indireto’ (ou biônico, porque sem votos) e a adoção da sublegenda para permitir que os candidatos a senador da Arena, que estava dividida, juntassem os votos para derrotar os candidatos do MDB (oposição à ditadura). Por essa razão, aliás, o estado do Rio de Janeiro e a Guanabara (antigo Distrito Federal) foram fundidos no atual Rio de Janeiro (em 1975), uma das causas do caos administrativo existente hoje, bem como Mato Grosso foi dividido (em 1977): enquanto o Rio de Janeiro perdia três senadores da oposição, Mato Grosso do Sul ganhava três senadores para a Arena).

Amigos queridos, algumas décadas mais velhos que eu -- como os saudosos Seu Jorge José Katurchi, Seu Augusto César Proença, Padre Ernesto Saksida e Dilermando Luiz Ferra, para nomear alguns --, me ajudaram muito para compreender melhor a peculiaridade da sociedade corumbaense, ou melhor, o cosmopolitismo vicejante, a despeito do século decorrido quando de seu ápice. Como uma cidade do interior, empobrecida pela ausência de políticas consistentes de desenvolvimento sustentável e sustentado (quadro que se agravou desde que Campo Grande passou a ser a capital da nova unidade da federação). E nesse particular, não há como dizer que isso seja algo deliberado. Não é. A questão central baseia-se no provincianismo predominante na ‘Nova Cap’, Campo Grande: como uma sociedade endógena, ensimesmada, sem rios navegáveis internacionais, poderia ter os horizontes amplos, uma cosmovisão de vanguarda. É uma questão histórica, portanto, decorrente do próprio processo histórico. Enquanto isso, Corumbá e Ladário amargam a sua condição de caudatárias de projetos descolados da realidade pantaneira.

Em artigo recente, publicado no Correio de Corumbá, o Amigo Armando Carlos Arruda de Lacerda faz uma oportuna reflexão alusiva ao (palavras minhas) projeto megalomaníaco agora batizado de ‘RILA’ (antes era ‘Rota Bioceânica’). Um desperdício de dinheiro público quando existem ferrovia, rodovia e rio navegável em pleno funcionamento, precisando, isto sim, de obras de recuperação, até por causa do excesso de peso dos diferentes veículos usados para o transporte de commodities extraídas do coração do Pantanal e da América do Sul. A ponte de Morrinho, no Rio Paraguai, em Corumbá, construída durante o Governo de José Orcírio Miranda dos Santos, pede socorro, mas as autoridades estaduais, as mesmas que vêm fazendo das tripas coração para concluir um projeto caríssimo e, se não houver a adoção de um conjunto de medidas para dinamizar essa futura via, será mais um elefante branco para ser visto pela população de Porto Murtinho, lá debaixo...

Ora, qual a menor distância entre dois pontos? A linha reta, óbvio! Empresários e políticos de horizontes estreitos não se dão conta do aumento da distância ao dar a volta para não passar pela Bolívia. Gostem ou não, a Bolívia não só é uma velha parceira (desde antes da construção da ferrovia Corumbá -- Santa Cruz de la Sierra), basta estudar um pouco de História, Economia e Geopolítica latino-americana. O problema é que os autoproclamados paladinos da ‘RILA’ estão ávidos de mostrar serviço, ou melhor, obras às suas paróquias, que não se dão conta dos absurdos que estão fazendo.

Morei, estudei, trabalhei e pesquisei entre dezembro de 1978 e outubro de 1984 em Campo Grande e -- à exceção de cidadãos brilhantes como Plínio Barbosa Martins, Wilson Barbosa Martins, Wilson Fadul, Ricardo Brandão, Alberto Neder, Fausto Matto Grosso, Celso Costa, Eudes Costa, Carmelino Rezende, Aleixo Paraguassú Netto, Leonardo Nunes da Cunha, José Otávio Guizzo, Roberto Moaccar Orro, Sérgio Manoel da Cruz, Mário Corrêa Albernaz, Augusto Assis Filho, Onofre da Costa Lima Filho, Manoel Sebastião da Costa Lima, Maria Augusta Rahe Pereira, Paulo Corrêa da Costa, José Rodrigues dos Santos, Marcelo Barbosa Martins, José Márcio Licerre, Mário Ramires, Yone Ribeiro Orro, Yara Maria Blum Penteado, Paulo Eduardo Cabral, Berto Curvo, Marília Leite, Margarida Gomes Marques, Luiz Eduardo de Resende Vale, Paulo Roberto Cimó Queiroz, Marisa Bittar, Amarílio Ferreira Jr., José Carlos Ziliani, Tito Carlos Machado de Oliveira, Mário Sérgio Maciel Lorenzetto, Flávio Teixeira, Lúcia da Silva Santos, Caio Sobral e Paulo Marcos Esselin, entre outro(a)s -- constatei um elevado número de pessoas profundamente provincianas (sem qualquer preconceito: uma cosmovisão bem aquém do horizonte que poderia se abrir para a nova unidade da federação).

Quando decidi retornar a Corumbá, em fins de 1984, como primeiro correspondente com carteira assinada, devidamente assalariado, do jornalão que alega ter a maior tiragem do estado (outra coisa é ter, de fato, essa circulação, sobretudo em tempos de plataformas multimídia), muito(a)s Amigo(a)s ficaram, no mínimo, perplexos. Alguns questionaram a minha decisão, mas não entenderam, pois achavam retrocesso. Passadas quatro décadas, praticamente, tomo a liberdade de justificar com este modesto texto, cuja síntese tenta justificar, senão explicar, aquela decisão: o cosmopolitismo, ainda presente, de Corumbá, a despeito do abandono ostensivo do novo estado, fez com que não titubeasse. Não por acaso, o entreposto comercial que propiciou uma miscigenação intensa e um desabrochar cosmopolita no âmbito das culturas e das artes sofreu duras perdas durante os primeiros quatro anos de Mato Grosso do Sul.

Somente durante o primeiro mandato do Governador Wilson Barbosa Martins e dos dois mandatos do Governador José Orcírio Miranda dos Santos é que todo o ‘interior’ do estado conseguiu uma tênue reconquista de seu potencial cultural. Corumbá (e Ladário) pôde (puderam) irradiar sua exuberância cosmopolita por meio de diferentes eixos de progresso e reafirmação de seu protagonismo cidadão. O lamentável é que esse processo teve apenas dez anos de esplendor, o que, para efeitos históricos, não quer dizer muito. Mas é o que foi possível. E fica o recado: se a ‘intelligentsia’ de Campo Grande não permitir que as diversas regiões do estado possam resgatar seu tempo histórico, o Pantanal vai retomar o seu vínculo cultural com a parte que permaneceu no território de Mato Grosso. Aliás, um direito inalienável e histórico. Só depende da postura excludente e gananciosa da capital, que esqueceu rapidamente a dureza de ser ‘interior’ e passou a se comportar ainda mais ávida que a Cuiabá de outrora.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

QUE PLANETA QUEREMOS DEIXAR PARA AS FUTURAS GERAÇÕES?

Que planeta queremos deixar para as futuras gerações?

É de causar perplexidade o cinismo dos ‘donos do mundo’ ante as calamidades causadas pelas mudanças climáticas e pela concentração de renda. Ganância e cobiça em crescimento exponencial, os membros do ‘clube de Bilderberg’ são donos de simplesmente mais da metade das riquezas do Planeta e estão se lixando para a fome de dois terços da humanidade, as catástrofes ambientais e as vítimas das guerras que eles promovem com as suas armas cada vez mais poderosas e letais.

Desde 1954, os mais ricos do Planeta se reúnem secretamente uma vez ao ano nos mais luxuosos hotéis da Europa ocidental e dos Estados Unidos. Até pouco tempo atrás, as reuniões eram secretíssimas, impedidas aos mais habilidosos jornalistas do mundo. Hoje, cinicamente, não fazem questão de serem vistos, pelo contrário, a ostentação e a empáfia dos herdeiros dessas fortunas nefastas e os ‘novos ricos’, oligarcas corruptos de países que se desprenderam do antigo bloco soviético, fazem até questão de esnobar a riqueza que se apossaram sem qualquer mérito, como, aliás, todos os seus ‘colegas’ ocidentais.

É o tal Clube de Bilderberg, nome do hotel em que se reuniram pela primeira vez há quase 70 anos, em maio de 1954, numa cidade de nome sugestivo chamada Oosterbeek, Holanda. Além da agenda mantida em segredo, os participantes também têm seus nomes sigilosa e estrategicamente guardados a sete chaves. Mesmo assim, alguns jornalistas ocidentais já revelaram a participação, diversas vezes, do mais novo morador do inferno e contra o qual o inominável de lá dizem ter tomado alguns cuidados, Henry Kissinger, de triste memória.

Antes de se tornar candidato, Bill Clinton também já participou dessa trama anual. Idem o ex-premiê britânico Tony Blair. E muitos outros sionistas mais, com ou sem carteirinha. É o passaporte para o poder num ocidente cada vez mais decadente e menos democrático. É a plutocracia ocupando o lugar da democracia, da qual o ocidente sempre quis se dizer representante, zelador e defensor. Pura mentira. Basta ver que suas agendas ao longo das sete décadas de reuniões secretíssimas jamais transpiraram, porque o que se conversa por lá permanece sob censura.

Banqueiros, bilionários, donos de empresas que produzem armas poderosíssimas de alta tecnologia, as poderosas da cibernética dos últimos 35 anos (Microsoft, Google, Meta, X, Apple etc), altos executivos da CIA e congêneres ocidentais, e por aí afora, o que têm em comum para tratar em reunião a sete chaves? Cobiça, saque, pilhagem, guerras fraticidas e outras coisas que os reles mortais não podem ficar sabendo. Uma coisa é certa: jamais discutiram sobre as causas das mudanças climáticas, da ajuda humanitária às populações vítimas das catástrofes ambientais e dos conflitos bélicos fartamente promovidos por seus produtos nefastos, fonte de sua opulenta riqueza mal havida.

Não sejamos ingênuos. Desde as Grandes Navegações (ou mercantilismo), quando começou a acumulação capitalista na Idade Moderna -- e, portanto, o ‘capetalismo’ se alastrou na face da Terra, esses senhores ‘de bem’ ganham verdadeiras fortunas com as tragédias humanas: escravidão dos povos africanos, saque, destruição das culturas e colonização de mais de dois terços do Planeta (América, Ásia, África e Oceania). A Europa saiu da miséria, da fome e da sujeira (a chamada ‘peste negra’ era uma epidemia causada por ratazanas e pela falta de asseio dos europeus, aliás, nada chegadinhos a banho diário, enquanto seus ‘colonizados’ tomavam banho várias vezes ao dia!) graças às batatas, mandiocas, cacau e milhos roubados dos povos originários da nossa América. E como eles recebem hoje seus descendentes ibero-americanos, africanos e árabes? Da mesma forma que duzentos anos atrás: no chicote, na ponta do sabre! O povo palestino que o diga. Sua coragem e fidalguia têm lhe custado milhares de Vidas, sobretudos de sua infância e juventude.

Em seu último programa da temporada, o Jornalista Caco Barcellos mostrou o esforço dos povos tradicionais e originários amazônicos para desenvolver uma economia sustentável na floresta amazônica, enquanto os ‘amiguinhos’ do inominável promoveram verdadeira e sórdida pilhagem em todo o território da Amazônia, sobretudo com a contaminação por mercúrio dos rios e baías e a derrubada de milhões de hectares de árvores nativas pelos fora de lei protegidos pelos ‘patriotas’, inclusive de fardas farsantes.

O mais triste e curioso é que fantoches, títeres e marionetes nada inteligentes têm servido de ‘alternativa’ para uma população burra, egoísta e deliberadamente desinformada em nossos tempos nada promissores. Como gado marcado, as hordas estúpidas e destituídas de qualquer pingo de humanidade saem como estouro da boiada, sem qualquer raio de lucidez, a fazer qualquer ato desmiolado que depois juram e perjuram não terem tido tal propósito. Com a mesma leviandade com que atentam contra a Vida, fonte de direitos, lá estão elas e eles a pedir clemência, por serem ‘cidadão(ã)s de bem’, afinal, ‘ele(a)s’ têm ‘pedigree’, sim senhor!

“¡Ni Dios, ni ley!” Aliás, “¡ni Dios, Milei!”. É como agora os argentinos andam se referindo ao inominável de lá. Só que, diferentemente que no Brasil, o inominável deles não encerra o mandato dele, porque os argentinos têm essa tradição, que não é de hoje: todos os tiranetes saíram da Casa Rosada por linchamento ou por revoltas populares, não muito diferente que na Bolívia (que em 1947 pendurou no poste mais próximo do palácio presidencial o major ditador Gualberto Villarroel e a multidão enfurecida ateou fogo no palácio, daí o nome “Palacio Quemado”). Só lembraremos dos que antecederam Néstor Kirchner: Fernando De La Rúa e Eduardo Duhalde, que tiveram seus mandatos interrompidos pela multidão enfurecida, e nada a ver com a vergonhosa defecada das hordas fascistas que, em vez de cérebro, têm suas vísceras bastante competentes nestas terras generosas que nos últimos anos foram envenenadas pelos robôs da laia do Donald Trump e de seus fantoches inomináveis.

Agora, cá pra nós, temos que reconhecer e parabenizar infinitas vezes pela parcimônia e candura com que o Estadista Luiz Inácio Lula da Silva governa. Sabe da má-fé explícita das malditas ratazanas do ‘centrão’, verdadeiros fora de lei, canalhas cínicos, serviçais do inominável e prontos para, como hordas de hienas funestas, cair matando a qualquer momento. Não sei de onde consegue reunir uma paciência de Jó e os trata com dignidade, civilidade, como que acreditasse piamente em sua boa-fé, seu ‘patriotismo’.

Tão mefistofélicos quanto as garatujas do tabernáculo do mago Merlin, esses indivíduos cuja gênese está nas motociatas do inominável em seu longo e pernóstico desgoverno. Em nada devem aos mais vis seres da face da Terra. São verdadeiramente medievais, grotões, sórdidos e peçonhentos. Cortar as verbas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para inflacionar as ‘verbas impositivas’ -- canalhice inventada no absurdo tempo de Eduardo Cunha, de triste memória, responsável pelo golpe contra Dilma Rousseff -- é algo digno de repúdio, como igualmente a redução das verbas de alguns programas sociais como o Farmácia Popular. Os dois tiveram as suas verbas reduzidas para inchar a dinheirama da demagogia parlamentar que se finge de democrática, mas não passa de pilhagem contra o Estado Democrático de Direito.

Mas não é só. O senador que preside a outra casa, ex-aliado do inominável, anda de amores com os órfãos e viúvos do dito cujo e, depois de algumas traquinagens contra os membros do Supremo Tribunal Federal e o Marco Teórico das Terras Indígenas, volta com seu pote de maldades prevendo alguns casuísmos como fixação de mandato aos membros da mais alta corte do Judiciário, fim da reeleição ‘y otras cositas más’. O Presidente Lula é hábil o suficiente para conter essas hordas, mas vai ser preciso que setores organizados da sociedade civil vão às ruas e ponham sua cara: não dá para deixar que vândalos fascistas continuem a atentar, de maneira discreta, as bases do Estado Democrático de Direito. A luta do Doutor Ulysses Guimarães não pode ser vandalizada, seu legado não pode ser achincalhado. Alvíssaras, alvíssaras, habemus Cidadania: feliz e saudável 2024!

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

PARA HUMANOS DE BOA-VONTADE

Para humanos de boa-vontade

Pela tradição cristã ocidental, o 25 de dezembro é o Dia de Natal e a todos os humanos e as humanas de boa-vontade cabe celebrar o nascimento do Menino Jesus. Momento de paz e união sobre toda a Terra, que precisa reencontrar o caminho da concórdia e da esperança para homenagear o Peregrino de Belém, de Nazaré e de todos os recantos deste convulsionado Planeta.

O Natal é mais que uma data festiva: é a celebração da Vida, com plenitude e, sobretudo, a caridade ensinada pelo Peregrino de Belém, de Nazaré e de todos os recantos da Terra, dois milênios atrás. Ao abolir a lei de Talião, Jesus ensinou que sua Mensagem de paz e concórdia representa a base dos ensinamentos em uma nova etapa de Vida e comunhão.

À Luz do legado de caridade, paz e infinita humildade, a Doutrina Cristã, sobretudo em seus primeiros três séculos e, mais recentemente, depois da Rerum Novarum (Encíclica do Papa Leão XIII), em fins do século XIX, se afirmou como mensageira de um novo tempo, em que a proteção aos mais vulneráveis em uma sociedade voraz se torna um reencontro com os cânones do cristianismo. Com a Mater et Magistra, do saudoso Papa João XXIII, quando da opção preferencial pelos pobres, e a importante Teologia da Libertação pela Igreja na América Latina, houve um indiscutível encontro com o povo trabalhador.

Atrevo-me a propor modesta reflexão em tempos de extremo egoísmo e insensibilidade atiçados por seitas pseudocristãs disseminadas pelo chamado ‘sionismo cristão’ (sic) há quase dois séculos. Estas seitas ignoram o generoso ensinamento de Jesus e insistem em resgatar concepções vigentes no tempo da lei de Talião, do ‘olho por olho, dente por dente’. Não pretendo enveredar por esta discussão estéril, mas é importante refletir sobre os descaminhos dessas concepções medievais e extemporâneas.

Por conta disso compartilho com o paciente leitor o que minha memória permite da longa e fecunda Amizade com os queridos e saudosos Padre Antônio Secundino, Padre Emilio Zuza Mena, Dom José Alves da Costa, Padre Ernesto Saksida, Pastor Cosmo Gomes de Souza, Pastor Antônio Ribeiro, Padre Pasquale Forin e Padre Oswaldo Scotti. Em diversas ocasiões tomei a liberdade de conversar sobre temas doutrinários da Fé Católica e do Legado de Jesus com esses Amigos que me permitiram uma, diria, consistente aula sobre a Doutrina Cristã, além de noções, ainda que rudimentares, de Hermenêutica e Exegese.

Uma das inúmeras dúvidas que guardamos ao longo da vida sobre versículos bíblicos é Lucas, 2:14 (“Glória a Deus nas alturas, paz aos homens de boa vontade.”), que, conforme a tradução, pode ganhar outras versões. Mas na essência, segundo esses queridos Amigos, homens, ou melhor, humanos de boa-vontade corresponde (a locução) aos seres amados, que têm méritos, e portanto dignos de Sua bênção. Dessa compreensão ampla e inclusiva, no contexto do legado de Jesus, sobretudo todas as crianças são merecedoras desse Amor, portanto, dignas de Sua bênção.

Toda vez que me encontrava com o querido e saudoso Pastor Cosmo Gomes, reverendo que celebrava os cultos na Escola Batista de Corumbá em 1969, quando tive o privilégio de ser aluno da Professora Irlene Maria dos Santos, eu o cumprimentava com João, 3:16 (“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho unigênito para todo aquele que Nele crer não pereça, mas tenha a Vida eterna.”). Daí nasceu a vontade de comentar versículos bíblicos com esses Amigos queridos.

Assim, à medida em que ia amadurecendo e ganhando novos Amigos ao longo da Vida, eu conquistei a liberdade de perguntar-lhes e pedir para que melhor me esclarecem sobre os diversos versículos, entre os quais compartilho com o(a) leitor(a). Aliás, a pedido da Amiga Professora Carmen Chamoun Calazans, do Rio de Janeiro, é que me enveredei neste tema. Ela, católica neta de libaneses, me sugerira escrever uma intervenção de Natal neste duro momento em que a Terra Santa é alvo das agressões do Estado sionista.

Intervenção de Natal

2023 anos depois de o Menino Jesus ter nascido numa manjedoura, em Belém, Palestina, jurado de morte por Herodes, que não queria seu reino ameaçado pelo Messias, a Terra Santa e toda a humanidade testemunham perplexas e indignadas mais um extermínio de crianças inocentes, inofensivas e indefesas: cada 10 minutos uma criança em Gaza tem a sua Vida ceifada impunemente.

Pior: com a conivência das maiores potências econômicas e militares do Planeta, que cinicamente se proclamam “democráticas”. Não é Natal! Não é Noite de Paz!

Não, não são inocentes pombos os que sobrevoam, feito abutres, os casebres e tendas entre escombros e sobre cadáveres insepultos de milhares de crianças, mães e avós. Ou os seus restos, fragmentos dispersos entre os escombros.

São moderníssimos caças da ‘sagrada’ (?!) Força Aérea do Estado sionista criado em 1948 sobre o território da Palestina milenar. É a ‘tecnologia de ponta’ a serviço do jugo, do saque, da opressão e da morte. Bilhões de dólares gastos contra a vida e em favor da fome, da miséria e da injustiça!

“Porque muitos serão chamados, mas poucos escolhidos.” (Mateus, 22:14)

Como nos tempos do império romano, dois milênios depois há o império americano a acobertar os Anás, Caifás e Pilatos da atualidade. Biden, Netanyahu e Cameron são os carniceiros de Gaza -- tais quais Hitler, Mussolini, Salazar e Franco em dezembro de 1944 -- a comemorar sobre o manto de sangue inocente a jorrar incessante e impunemente, mas desta vez sob os holofotes dos cúmplices dos poderosos oligopólios midiáticos, que criminalizam as vítimas em nome de uma nova ordem mundial sanguinária, injusta e genocida.

Por que as crianças impiedosamente mutiladas, feridas e assassinadas têm que pedir desculpas por existir? Sob qual perversa lei ou crença racista elas têm que ser condenadas ao extermínio, em nome de qual nefasta civilização, ignóbil progresso e maldita ideologia supremacista?

Não em nosso nome! Não em nome da ONU! Bem ou mal, ela ainda representa o concerto das Nações depois da tragédia que foi a Segunda Guerra Mundial, em que não só a Alemanha nazista cometeu crimes de lesa-humanidade. Entre outros, os Estados Unidos também cometeram. Ou já nos esquecemos das duas bombas atômicas despejadas sobre a população civil, inofensiva e indefesa, de Hiroshima e Nagasaki?

“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E que quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus, 25:35-40)

Feliz Natal para os justos! Feliz Natal para os que têm os ensinamentos de Jesus em seu coração e praticam o Amor e a Caridade universais!

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

CONQUISTAS E DESAFIOS

Conquistas e desafios

Mais que modesta e despretensiosa avaliação, pretendo propor sincera reflexão sobre 2023, um ano com imensas adversidades, cujos desafios são sempre possíveis quando se tem paciência histórica e convicção fundamentada.

À medida que 2023 vai fechando o transcurso, são inevitáveis as reflexões (não avaliações) sobre o que foi feito neste interregno. Tomo a liberdade de compartilhar com o generoso leitor que não há qualquer pretensão deliberada de fazer uma ‘retrospectiva’ cronológica e muito menos política nesta modesta iniciativa.

Embora seja indiscutível a sensação de frustração explícita nos semblantes de Amigo(a)s e Companheiro(a)s de labuta em relação a este ano, permito-me divergir da maioria deles: somos todo(a)s vitorioso(a)s, de início, por simplesmente termos chegado até aqui com Vida e lucidez suficientes num tempo de tanta pusilanimidade solta, nas palavras do ator Othon Bastos quando entrevistado por Pedro Bial, ex-repórter de ‘O Pasquim’ (em sua fase decadente, é verdade, mas que, depois de tanto equívoco, parece ter encontrado seu rumo).

E apenas para situar os jovens que ainda conservam o hábito salutar de ler, Othon Bastos, hoje com 90 anos, é um dos mais emblemáticos atores brasileiros vivos. A despeito de ter estreado em 1962 com o premiado ‘O pagador de promessas’, foi com o emblemático filme ‘Deus e o Diabo na terra do sol’, de Glauber Rocha, no papel do inesquecível Corisco, um jagunço com que marcou o cinema brasileiro no mundo inteiro. Aliás, Othon explica que ator não apenas ‘representa’ a personagem, como dá vida à personagem que representa em uma telenovela, filme ou peça teatral, como o Mestre Bertolt Brecht ensinou.

É preciso recorrer à sabedoria dos mais vividos ou daqueles que vieram antes de nós para poder compreender um momento da História da humanidade tão adverso, perverso e, pior, cínico. Em pleno século XXI, além das hordas fascistas que se espalharam pelo Planeta tal como o novo coronavírus na pandemia de covid-19, temos os caquéticos ‘donos do mundo’ que insistem em não reconhecer que não vivemos mais em tempos coloniais e subjugam a espécie humana a rastejar perante eles ou condená-los, por rebeldes, como ‘terroristas’.

Como contraponto, pelo menos, tivemos a constatação de que o Brasil tem o patrimônio político nacional como o maior Estadista (maiúscula, por favor) do primeiro quartel deste século. O Presidente Lula, para desespero e pânico dos e das recalcadas, continua a ser reconhecido como um dos maiores líderes da humanidade. A despeito disso, consoante à inconsistência de caráter e cosmovisão distorcida, nossa embolorada casta tupiniquim (na verdade, colonizada, pois sequer tem ascendência de nossos sábios povos originários) vive a torcer contra o Brasil só para, egoísta e mesquinhamente, se jactar com as eventuais derrotas do líder que o Brasil levou 500 anos para revelá-lo para o concerto das nações.

Só um líder com as dimensões políticas do Estadista do Século é que poderá promover a bom termo a transição pacífica e proativa para os novos paradigmas do desenvolvimento sustentável no contexto das mudanças climáticas. Só Lula tem legitimidade política para assegurar a conservação do Estado Democrático de Direito. É o Estadista maior de nosso tempo o dignitário que oferece condições de conduzir a América Latina, e por extensão o chamado Sul Global (antigo ‘Terceiro Mundo’), para nova ordem internacional, baseada tão-somente em relações multipolares, e não nos caprichos colonialistas de uma Europa embolorada e um império estadunidense carcomido pela sordidez da arrogância, do supremacismo e da cobiça.

Internamente, só um conciliador hábil e progressista como ele poderá fazer o Brasil se reencontrar com a plenitude democrática. Porque, ficou provado nestes anos de governos golpistas -- ou melhor, de desgovernos --, que a direita não tem agenda propositiva nem capacidade política para construir uma agenda com suas bizarras bandeiras. Simplesmente todos -- reitero: TODOS -- os pretensos ‘lideres’ (de si mesmos) são incapazes de promover a necessária superação da inércia que eles mesmos provocaram deliberadamente.

Se no desgoverno do inominável já não tinham qualquer conjunto de propostas para fazer com que houvesse um mínimo de governabilidade, agora na oposição está constatado que são tão incompetentes que sequer sabem fazer oposição. Não sabem o que é estratégia e, muito menos, tática. Qualquer neófito saberia, até por intuição, propor questões básicas para fazer de conta que tem empatia ou que, de fato, se preocupa com o povo brasileiro.

Mais grave: feito biruta de aeroporto, o que resta dos ‘líderes’ do inominável -- inclusive seus descendentes -- são tão desqualificados que agem por impulsos, o que os torna nada representativos de uma direita à deriva, sem eira nem beira. Um fiasco. Isso foram sete anos de golpismo, a bem da verdade com o único intuito de pôr na ilegalidade a esquerda, ou pelo menos o Partido dos Trabalhadores (PT). Não só não tiveram competência nem habilidade, como exatamente por isso fortaleceram suas consignas, suas bandeiras. Hoje o PT volta a ser a principal legenda política e qualquer saída política passa por ele.

Mas, além das importantes conquistas protagonizadas, há desafios abissais. E da solução deles decorrem os próximos passos, tanto na conquista de novos horizontes nacionais e continentais (a esta altura planetários) como de não menos importantes avanços do dia-a-dia, de nosso cotidiano popular: o processo vertiginoso de desmonte do Estado e das políticas públicas sociais, sanitárias, educacionais, ambientais, tecnocientíficas, culturais e, sobretudo, interdisciplinares rumo a um novo paradigma de sustentabilidade climática foram esfaceladas, destruídas sem dó nem piedade.

Isso, aliás, obriga a sociedade civil, com base na participação popular (social ou pública), recomeçar a se mobilizar para retomar todas as pautas de protagonismo cidadão perdidas. Mais que isso: em parceria com o Ministério Público, será preciso reconquistar a autonomia dos lóqui (ou melhor, de cada lócus, conselho, um a um), sem judicialização (ao contrário, com muita habilidade e sem aflorar antagonismos). É a melhor manifestação de respeito pelas novas gerações, pois o Estado Democrático de Direito foi construído, passo a passo, mediante compromisso ético, público e político, focado nas gerações vindouras.

Diante deste contexto muitas vezes desestimulador e adverso a toda empatia e cosmovisão cidadã, cabe a todas as pessoas sinceramente comprometidas com o País e todo o Planeta arregaçar as mangas e com muita prudência, humildade e ponderação ocupar os lugares esvaziados pela cidadania nestes derradeiros sete anos de sortilégios, negacionismo e obscurantismo intolerante. É a hora do reencontro com o porvir, com a esperança cívica, com nossa infância e juventude, até para que ela consiga assegurar as conquistas cidadãs para as próximas gerações.

O caminho se faz ao caminhar. É o que a Vida ensina. É o que a História demonstra.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

QUEM, MESMO, É TERRORISTA?

Quem, mesmo, é terrorista?

A troco de que os oligopólios midiáticos se submetem ao descrédito e, sabendo que hoje não dá mais para enganar, teimam em fazer ‘reportagens especiais’ para deslegitimar o direito do povo palestino de conquistar a sua liberdade e sua soberania?

Como nefasto mantra, todo domingo a Globo dos Marinho -- como as concorrentes Record de Edyr Macedo, SBT de Senor Abravanel, CNN de Rubens Menin, a TV! de Amilcare Dallevo Jr. e, pasme, a Band de Johnny Saad, durante a semana --, ‘didaticamente’ vai incutindo, como propaganda subliminar, de modo ardiloso, que o povo palestino e os demais povos árabes são um bando de fora da lei. Parabéns pelo serviço: nos tornamos terroristas miseráveis e que não merecemos viver; fanáticos muçulmanos sem compaixão e tirânicos; seres fora da realidade, atrasados, indignos de estar no concerto das nações.

Será que somos tudo isso? Fomos nós os que jogaram a bomba atômica sobre a população inocente e indefesa de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, quando o Exército da União Soviética já havia imposto derrota acachapante dentro de Berlim, onde o nefasto Hitler preferiu se dar um fim a ter que responder pelos seus crimes de lesa-humanidade? Fomos nós os que, para pressionar os revolucionários do Vietnã do Norte a fazer uma saída ‘honrosa’ e maquiar a derrota dos Estados Unidos pondo fim à guerra do Vietnã, em 1973, aniquilaram mais de 50 mil civis cambojanos, sob a batuta de Henry Kissinger, vencedor do Nobel da Paz (dos túmulos) naquele ano? Fomos nós os que, em Gaza, massacram (ou apoiam), ao vivo e sem dó, mais de seis mil crianças, quinze mil civis (mulheres e idosos) e bombardeiam com requintes de crueldade hospitais, escolas e templos religiosos onde tentam se refugiar os desabrigados e expulsos de suas casas transformadas em escombros?

Além da Palestina milenar, há outros 23 Estados árabes e uma quantidade maior de países de maioria muçulmana que sistematicamente a tal ‘imprensa profissional’ (sic), usando a ‘ética profissional’ (toc, toc, toc!), impune e sordidamente, vive a difamar, caluniar, ofender, tripudiar.

A troco de quê?

Se a História está repleta de fatos eloquentes da generosidade e abnegação dos árabes, fossem eles da Ásia Ocidental, África Magrebina ou Península Arábica. Ou por que templos e bibliotecas das três religiões monoteístas mais populosas estiveram preservados integralmente por milênios enquanto palestinos cuidavam desses patrimônios da humanidade na Terra Santa? Por que os reinos católicos da Península Ibérica (Castela, Aragão e Portugal) foram pioneiros nas Grandes Navegações pós-tomada de Constantinopla pelos turcos (fato que marca o fim da Idade Média), quando árabes muçulmanos (‘mouros’) haviam permanecido entre 800 e 300 anos na Península, sem colonizá-la ou impor sua língua, religião e cultura, diferentemente deles (europeus) que em 300 anos colonizaram, ‘catequizaram’, escravizaram, saquearam e impuseram a ferro e fogo sua dominação, promovendo genocídios e etnocídios na América, África, Ásia e Oceania?

Qualquer estudante do ensino fundamental aprende na História que o Renascimento europeu contou com o generoso legado dos árabes, que como em bandeja de ouro compartilharam irmãmente a Filosofia, História, Letras, Ciências, Química (proibida por ser considerada "bruxaria"), Matemática (Aritmética e Álgebra), Geometria, Física, Engenharias, Arquitetura, Geografia, Astronomia, Cartografia, Navegação, Geologia, Biologia, Medicina, Anatomia (também proibida por razões da Doutrina Cristã medieval, que considerava o corpo sagrado por ser feito à semelhança de Deus), Direito, Gramática, Semântica etc. Além disso, concepções metodológicas fundantes como o Humanismo, Heliocentrismo e a Dialética de Heráclito de Éfeso, que sofreu apagamento total com a "cristianização" da escola de Sócrates. Enquanto os europeus queimavam bibliotecas e os centros de saber clandestinos, os árabes resgatavam a rica herança cultural dos diversos povos da Antiguidade a que tiveram acesso.

Quem eram, senão árabes, a proteger judeus durante as Cruzadas e, sobretudo, na ‘Santa’ Inquisição, de triste memória? Basta ler e constatar na História a rota de fuga dos judeus perseguidos na Europa como hereges ou pagãos. Ao lado dos ‘mouros’, lá estavam sob sua proteção os judeus, que então faziam questão de resgatar sua origem semita comum. Os sionistas, a partir de fins do século XIX, mudaram sua maneira de compreender os árabes, que passaram a ser vistos como ‘selvagens’, na ótica eurocêntrica e supremacista colonial. Até porque, diferentemente do século XVIII, ‘das luzes’, o século XIX foi marcado pelo retrocesso nacionalista europeu e, sobretudo, pela manipulação da ciência para embasar as piores ideologias racistas, supremacistas brancas, como a eugenia e a ‘ciência’ racista.

No começo do século XX, quando em território europeu os facínoras europeus Adolf Hitler, Benito Mussolini, António Salazar e Francisco Franco empreenderam ferrenha perseguição contra judeus pobres, ciganos, comunistas e pessoas com algum tipo de deficiência ou mutilação, naquela ótica eugenista de atentar contra a dignidade humana, os árabes (e particularmente os palestinos) receberam de braços abertos centenas de judeus em fuga para a Palestina, cuja libertação do jugo colonial turco havia sido prometida em carta oficial do governo britânico por meio de J. Lawrence (o ‘Lawrence da Arábia’). Não só não cumpriram os britânicos, como deixaram uma herança maldita que ameaça a existência do povo palestino desde 1947, vítima de política de extermínio e limpeza étnica realizada pelos sionistas.

Hoje, com a internet (e apesar das hordas criminosas de fakenews), até o mais desatento cidadão da Terra já se deu conta da nada inteligente estratégia sórdida da imprensa pró-sionista de que as ‘reportagens especiais’ atendem à vontade dos que se pretendem donos do destino da humanidade. Os mesmos, aliás, que fabricam e vendem armas e tecnologias de ponta para matar ‘com precisão cirúrgica’, ‘civilizadamente’; que produzem alimentos envenenados para encher de doenças a imensa população do Planeta; que são os principais responsáveis pela emissão de gases que causam as mudanças climáticas e pela fome no Mundo, desde o início da industrialização e nos imemoráveis tempos do comércio de pessoas escravizadas trazidas à força do continente africano (em mais de 250 anos, mais de cinco milhões de pessoas, segundo dados conservadores, que alimentaram o vergonhoso ‘comércio negreiro’ (sic) e a acumulação do capital pela burguesia pelo mundo).

Sempre em nome da ‘fé’, da ‘civilização’ e do ‘progresso’ (deles, de seus bolsos e bolsas, da cobiça, avarismo e sovinice), esses senhores de olhos azuis que em suas mochilas carregam os cadáveres de inocentes indefesos e inofensivos, sobretudo da infância (como compôs Alberto Cortez em "Sabra y Chatila", de 1983) se apressam a acusar e condenar sumariamente as vítimas de suas atrocidades da forma mais aviltante e cínica.

Até a sua tese de que a ‘única democracia existente na região’ é o Estado sionista criado em 1947 sobre o território milenar da Palestina -- sem autorização dos habitantes e suas autoridades e sem qualquer consulta prévia à população, como que ela não existisse (o ‘slogan’ sionista era ‘uma terra sem povo para um povo sem terra’) -- não se sustenta mais: tem seus dias contados, como a África do Sul do apartheid, de triste memória. Aliás, a Resolução 3379/1975 da ONU, que igualava o sionismo ao apartheid como forma de racismo, foi derrubada pelo ‘lobby’ sionista no início da década de 1990, sob pretexto de abrir as negociações para o famigerado Acordo de Oslo, que também não contou com a realização de um referendo ao povo palestino.

Como assim? Pode haver ‘democracia’ sobre um povo oprimido, subjugado, excluído, saqueado, expulso de suas casas, seus campos, suas plantações, sua pátria, sua cultura, sua culinária, suas danças e sua história, silenciado e invisibilizado e destituído de sua identidade e soberania? Condenado a ser apátrida, errante, desterrado aos milhares, aos milhões, desde 1947, portanto, há 76 anos? Que ‘democracia’ cínica é essa? Não é a das Escrituras, não, porque, para desespero dos sionistas, os árabes também são semitas, descendentes de Abrão pelo tronco de Ismael, e os sionistas não têm como ‘reformar’ o Velho Testamento, ou Pentateuco.

Mas, digam-nos, Marinho, Macedo, Abravanel e Saad (e também Mesquita, Frias e Civita), por quê? Por que enveredar por uma falácia, enredo contraditório que depõe contra o bom Jornalismo? Qualquer patrão deveria sentir-se lisonjeado de ver seus repórteres veteranos, como Renata Capucci e Álvaro Pereira Júnior, reconhecidos, e não estigmatizados por uma pauta que seus chefes lhes impuseram, desavergonhada e cínica. Até quando? Vimos isso entre 2013 e 2018 no Brasil e sabemos como acabou, a História ainda não cobrou sua conta e os Civita então foram os primeiros a pagar pela imprudência de ter transformado a revista de credibilidade criada por Mino Carta e equipe pioneira em desacreditado panfleto semanal que ninguém mais compra, porque é sabidamente vendido.

A História está repleta de fatos e processos históricos em que não há império que consiga se perpetuar. O mais poderoso deles, o romano caiu mesmo depois de quase um milênio, como caíram o britânico e o francês ainda antes de 1945. O estadunidense, até por essa obsessiva cumplicidade com o sionismo está prestes a desabar, já não se sustenta, basta ver a dívida impagável que administra há décadas. Aliás, essa é a verdadeira razão de se colar ao sionismo, sua face mais perversa e pervertida. Mas cairá, mais cedo ou mais tarde. Se na primeira metade do século XX a chamada Quinta Coluna nazista (a SS e tentáculos) estava em toda parte e não conseguiu evitar a queda do Terceiro Reich, os Estados Unidos e a União Europeia, com os membros da OTAN e Israel, não conseguirão manter a farsa por muito tempo.

A humanidade está farta da opressão, exploração, miséria e agora as tragédias climáticas que agravam a pobreza e a fome. Enquanto eles mentem desavergonhadamente, o Planeta reage com indignação e protagonismo, porque passou da hora de parecermos gado rumo ao abatedouro sem nos rebelar. O Planeta nos pertence a todos por direito, libertá-lo dos opressores e exploradores é um dever, sobretudo para as futuras gerações. Podem tentar nos ameaçar, até nos amordaçar, mas somos bilhões, inclusive de famélicos e excluídos, e saberemos dar o troco no momento certo. Entre outros anos emblemáticos, estão 1789, 1848, 1917, 1949, 1952, 1959, 1975 e, no caso do Brasil, 1988 e 2023, a nos inspirar.

Ahmad Schabib Hany