quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

'TONTON MACOUTES' INCENDEIAM BRASÍLIA

Tonton Macoutes incendeiam Brasília

Tomada pelo ‘estouro da boiada’, Brasília foi incendiada como se fosse Porto Príncipe, capital do Haiti. O inominável em sua infinita perversidade, após o jogo fatídico em que o Brasil ficou fora da Copa do Mundo do Qatar, atiçou e acolheu no Palácio das Trevas seus teleguiados e sua ‘conja’ mandou comida como gesto de apoio ao ‘patriotismo’ delinquente estimulado por suas milícias digitais.

Sob a tirania desvairada desse sociopata, Brasília se viu sitiada, tomada pelos tonton macoutes que esse terrorista mau-caráter adestrou ao longo de seu maldito mandato. A noite de 12 de dezembro, sob pretexto de ‘protestar’ contra a detenção de um ‘cacique’ traficante e pau-mandado de criminosos fascistas, espalhou o terror na área central da capital federal, sob a conivência de seus feitores bajuladores, que nada fizeram para conter o ‘estouro da boiada’.

A propósito, leitor/a, já leu ou ouviu falar sobre os tonton macoutes, temida milícia de François Duvalier, o Papa Doc, tirano que inaugurou a dinastia sanguinária e criminosa do Haiti, responsável pela miséria e caos que até hoje desgraçam o povo haitiano?

Há um tempo venho insistindo que o inominável tem se inspirado nesse grande canalha para disseminar suas maldades pelos quatro cantos deste país-continente. Diferente da imagem de ‘bom cristão’ (sic), como os mercadores da fé que o rodeiam teimam bancar, esse sociopata amoral e despudorado, em vez de luz e generosidade, só dá lugar a trevas e perversidades, tanto que se deu ao desplante de, assim que a seleção brasileira ficou fora da Copa do Mundo do Qatar, ir até o cercadinho que mantém desde a sua posse para atiçar suas hordas insanas, seus tonton macoutes.

Até a ‘maledeta conja’, com sua falsa generosidade, enviou a lavagem do Palácio das Trevas (que em tempos de normalidade democrática se chama do Alvorada) para saciar a fome de suas hordas, como quem manda comida para porcos. Mais tarde, na virada do dia, foram conversar sobre como agir para levar o pânico à população brasileira, a partir do caos em Brasília. E como o Presidente Lula, o Vice-presidente Alckmin e ministros já anunciados se encontram hospedados em um hotel no centro brasiliense, tentaram levar tumulto e a possibilidade de atos terroristas até lá, mas imediatamente foram repelidos pelas forças legalistas.

O inominável teria sido escolhido por tais ‘qualidades cívicas’ pelos ‘patriotas’, aqueles que vestiam a camisa da seleção brasileira e se enrolavam na bandeira nacional como se fosse toalha de sauna? Em sã consciência, esses ‘patriotas’ não sentem, nem de longe, qualquer constrangimento, vergonha ou arrependimento por tão grosseira escolha? Como não enxergar a vocação golpista, tirânica, autoritária, obscurantista, delinquente e até ditatorial do inominável e o núcleo duro de seu gabinete?

Mais que a incompetência e total desapego pelos princípios republicanos, flagrantes, os principais assessores (e todos os membros de sua familícia) revelaram, sem qualquer hesitação, sua opção obsessiva por tudo que representa o oposto à vocação democrática e solidária da nação brasileira desde a segunda década do século XX, quando a afirmação dos princípios republicanos tornaram-se públicos e objeto de manifestações pelos líderes do Movimento Tenentista, da Coluna Prestes, da Semana da Arte Moderna e, inclusive, dos fundadores do primeiro partido de âmbito nacional, o velho Partidão (PCB), de cuja primeira bancada federal contou com o brilhantismo e laicismo do imortal Jorge Amado.

Para si e para os seus

O inominável, como sempre por meios escusos, conseguiu galgar ao poder, para deleite das elites retrógradas e segregacionistas. Tão incompetente e alienado da realidade, passou os quase quatro anos de mandato ‘brincando’ de onipotente, fazendo fakenews para suas hordas insanas, usando a máquina para si e os seus e desmontando o Estado, em vez de governar como gente grande.

É preciso ‘dissecar’ o comportamento do inominável antes que, contra a sua vontade de sociopata, tenha que passar a faixa ao estadista que o povo brasileiro levou 500 anos para generosamente oferecer para a humanidade. Sim, porque, a despeito da soberba de mobilizar as súcias que mantém entorpecidas com suas mentiras delirantes, ele irá para passar a faixa a seus sucessor constitucional, sim.

Por quê? Porque ele usou de seu ardiloso comportamento de ‘maníaco-depressivo’ (como até um tempo atrás se chamavam os ‘bipolares’ de hoje), fingiu de vítima inconsolável e atiçou o delirium-tremens de seus tonton macoutes espalhados pelo território nacional e pelos quatro cantos do mundo. Para quê? Barganhar uma saída honrosa pelos inúmeros crimes administrativos cometidos deliberadamente junto aos diversos Poderes: desde o STF (Supremo Tribunal Federal), TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Congresso Nacional e, inclusive, Ministério da Justiça e Procuradoria-Geral da República (PGR).

Depois de tanta incompetência e constatação da grave alienação de que padece, dá para acreditar que o inominável foi eleito por suas supostas qualidades?

Ora, quase quatro anos de total exposição, quando ficou nu perante o mundo, não dá para acreditar que naquela caixa craniana pudesse haver um cérebro brilhante. Sim, porque, numa democracia (e, ainda que muitos não gostem de admitir, o Brasil é a maior democracia do planeta), para conseguir conquistar a confiança da maioria de seus iguais, é preciso ser minimamente brilhante para ‘fazer a diferença’ e angariar os votos que irão torná-lo/a líder de mais de duas centenas de milhões de pessoas.

Só que não. O inominável foi eleito exatamente por ser a negação disso tudo. Coube àquele juiz de primeira instância de voz de marreco e que sequer consegue pronunciar palavras do vernáculo (a exemplo de ‘conje’ por cônjuge) ou do idioma de seus amos e senhores (como ‘massachutes’, por Massachusetts, uma das 50 unidades federativas dos EUA), pivô da prisão e exclusão do processo eleitoral de 2018 do hoje presidente eleito Lula (líder também nas pesquisas eleitorais de então), razão pela qual virou seu ministro da Justiça (além da promessa de indicá-lo para uma das vagas do Supremo Tribunal Federal, STF).

Apesar de todo o aparato montado com as milícias digitais de Steve Bannon, desde o exterior (confirmadas posteriormente, mas que não puderam anular sua eleição por não haver legislação anterior que proibisse o uso de fakenews em campanhas eleitorais), o candidato era tão ruim, que foi preciso que uma fakeada o livrasse dos debates, pois bastava ir a um para ele despencar nas pesquisas. Não por acaso, seu raciocínio primário considera toda eleição manipulável e, portanto, suspeita de fraude. É por experiência própria. Mas não por causa das urnas eletrônicas, cuja inviolabilidade está mais que comprovada.

Que ‘homem público’ é esse que não tem noção das responsabilidades do cargo e passa quase todo o seu mandato ‘brincando’ de todo-poderoso (a maior parte do tempo em alguma moto e sempre entre as pernas torneadas de algum gajo portentoso e diz que ‘pintou um clima’ ao ver adolescentes venezuelanas na periferia de Brasília), mandando fakenews para alimentar suas hordas insanas por meio das milícias digitais que mantém desde sua campanha, usando a máquina administrativa para fazer de tudo para si e os seus (daí o sigilo de cem anos) e, o mais grave, desmantelando todo o Estado (inclusive o Estado Democrático de Direito), em vez de governar como gente grande?

O lixo da história, decerto, se encarregará de levá-lo para as trevas, de onde jamais sairão ele e todos os seres bizarros com quem compartilhou as mais deprimentes cenas dos últimos anos, a menos que para um tribunal como de Nuremberg. Afinal, a História, nas sábias palavras de Chico Buarque e do saudoso Pablo Milanés, “é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue” (Canção para a Unidade da América Latina, 1972). Escrito e gravado há cinquenta anos, esse hino para a emancipação de nossos povos já anunciava que “o que brilha com luz própria ninguém pode apagar, seu brilho pode alcançar a escuridão de outras coisas”...

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

VERGONHA ALHEIA

Vergonha alheia


Não querer enxergar a realidade, ainda que seja gesto de tolice, é um direito. Agora, atrapalhar a Vida dos outros porque o seu predestinado não teve competência de conquistar os votos necessários para ganhar um segundo mandato, isso lá é uma tremenda falta de semancol...

Caro/a leitor/a, já sentiu vergonha alheia?

Pois é, chegam a ser constrangedoras, para os que têm um mínimo de vergonha na cara, as atitudes desmioladas de pessoas que, até menos de um mês atrás, batiam a mão no peito e diziam não votar em ladrão. Mais que isso, que o inominável era predestinado a fazer uma verdadeira limpeza e introduzir a mais pura ética na política...

Qual ética? A do centrão? Predestinado como? Para causar prejuízos irreversíveis em diversas áreas da gestão do País? Inclusive as mortes pela covid-19? Quem vai repor o rombo bilionário do tesouro nacional, descaradamente feito para saciar a cobiça, o apetite de poder de verdadeiros fariseus, falsos patriotas e sonegadores contumazes?

A única coisa que o capetão, digo, o inominável fez foi a proteção de si e dos seus por 100 anos -- ou para que foram editados tantos decretos assegurando essa sem-vergonhice de sigilo por um século (sim, 100 anos)? --, além do ‘orçamento secreto’, que representa uma sangria criminosa para um país que, em menos de seis anos, segundo o próprio IBGE, a população em situação de vulnerabilidade socioeconômica cresceu assustadoramente e em 2021 passava de 30% dos habitantes do Brasil, isto é, mais de 63 milhões de pessoas.

Repito: esse inominável predestinado para fazer o quê?

Bastou a auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) publicar os relatórios de gestão do mandato do inominável para ter noção da extensão do estrago da política de terra arrasada adotada pelos patrioteiros de araque: saúde, educação, ciência e tecnologia, assistência social, cultura, infraestrutura, segurança pública, desenvolvimento regional, meio ambiente, direitos humanos, políticas indigenistas, políticas de igualdade racial, defesa de diretos da mulher, das crianças e adolescentes, das pessoas com deficiências, dos povos originários, dos afrodescendentes, dos idosos, das pessoas em situação de rua etc, combate à fome, enfrentamento à misoginia, à homofobia, à burrice, ao racismo, à intolerância e à lgbtqia+fobia etc, relações exteriores, reforma agrária, desenvolvimento local, integrado e sustentável, política de acessibilidade etc.

Antes de 2013, ano em que os malditos tonton macoutes começaram a mostrar as suas manguinhas de fora, eu, que desde 1975 tenho acompanhado o despertar da cidadania tanto em Corumbá como em Campo Grande (e durante três anos em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), nunca tinha visto os tais ‘patriotas’ (de araque), preocupados com tudo, até porque não sabiam o que queriam: do nada, começaram a atropelar tudo a todos/as (é assim como agem, sem urbanidade, respeito, civilidade ou parcimônia) e se apossar de tudo, como se detivessem algum direito ‘divino’ para se apoderar do que é coletivo. E a tratar os/as pioneiros/as como se fossem bandidos/as.

Hoje consigo entender por quê: essa é a prática, a conduta deles, inclusive com a ‘mão boba’. Não dá para esquecer os tais ‘éticos’ envolvidos em assédio sexual y otras cositas más... Os canalhas sabiam que tirávamos dinheiro do próprio bolso para pagar despesas que poderiam ser debitadas nas contas públicas, mas para não dar precedentes às velhas práticas da cooptação (que vêm do tempo da mal-ditadura, é bom que saibam), a opção era bancarmos nossas despesas, e nunca -- nunca! -- abrimos exceção.

Na verdade, o chilique todo não é por causa da não reeleição do inominável, mas do fim da mamata. Está claríssimo: os relatórios dão com nitidez essa sem-vergonhice. Cinismo puro, na maior cara de pau, patrioteiros de ocasião, que nunca antes de 2013 mostraram preocupação com questões do interesse público, entre eles o controle social de políticas públicas.

Incompetentes, passaram quatro anos -- em vez de trabalhar, coisa que na verdade não sabem, porque nunca suaram a camisa para nada -- fazendo fakenews e promovendo o caos (e, durante a pandemia, a morte de inocentes) usando o nome de Deus em vão, e agora vêm com o maior acinte e desrespeito (aliás, como sempre agiram) chorar pelo leite derramado. Semearam vento, pois agora colhem tempestade (isso é bíblico)...

Mentir, mentir, mentir. Essa é a vocação (e a prática recorrente) dos fariseus. Mentem tanto, a tal ponto que fingem que acreditam nas próprias mentiras. Quatro anos de pura enganação (somado aos dois do mentiroso ‘brimo’ Temer, seis ao todo). Em vez de ficar atrapalhando o trânsito e a Vida do próximo, vão se penitenciar, procurar a verdade (que ela liberta, nas palavras da Bíblia), e apaziguar seus espíritos obscuros, porque se deixaram tomar pelo ódio, pela cobiça e, sobretudo, pelas trevas.

E, o pior, somos nós os que sentimos vergonha disso tudo. É, aliás, como a grande maioria deste país-continente se sente neste preciso momento em que se depara com os tonton macoutes saídos das trevas, das assombrações medievais, da dinastia de François Duvalier, o Papa Doc, que destruiu a primeira nação das Américas a se libertar do jugo colonial europeu mas que a cobiça (a mesma desses patrioteiros canalhas) estadunidense lhes roubou o porvir e a Vida, como de nós a querida e saudosa Doutora Zilda Arns.

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

A MALDITA HERANÇA DO INOMINÁVEL

A maldita herança do inominável


Além da política de destruição das políticas públicas e das instituições republicanas, numa espécie de guerra de terra arrasada, o inominável quer impor aos atuais comandantes das três forças um flagrante descumprimento à Constituição Federal: a disciplina e a hierarquia.

Fanáticos irascíveis, conservadores exacerbados, seguidores irracionais, neopentecostais fundamentalistas, racistas empedernidos, nazistas e fascistas repaginados, intolerantes remotivados, sonegadores e golpistas incentivados, milicianos e jagunços estimulados, traficantes e contrabandistas organizados, recalcados e ressentidos empoderados, viúvos e órfãos da (mal)ditadura encorajados etc. Esse é o subproduto político do período de (des)governo do inominável no cotidiano da sociedade, que levará décadas para a volta à normalidade.

Enquanto isso, um filho de policial declaradamente simpatizante de Adolf Hitler pratica tiro ao alvo em duas escolas de Aracruz, até então uma acanhada cidade do interior do Espírito Santo. Indiferente às sucessivas tragédias decorrentes da cultura da intolerância e do ódio difundida pelos líderes da extrema-direita no Brasil desde 2013 (sobretudo a partir da candidatura, eleição e posse do inominável no maior cargo da República), o clã da familícia palaciana não desiste de sua obsessão por se manter no poder mesmo tendo sido repelida rotundamente nas urnas.

Entretanto, vem causando perplexidade até entre os mais desatentos o vazamento da informação de que os atuais comandantes das três forças deixariam o cargo na segunda quinzena de dezembro “para não ter que prestar continência” ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva depois do dia primeiro de janeiro de 2023, quando tomará posse e será o comandante-chefe das Forças Armadas, como estabelece a Constituição Federal.

Postura, aliás, no mínimo questionável, caso se confirmar. Diferente da atitude louvável e altivamente republicana do general Mark Milley, comandante do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos que, no fim do desgoverno de Donald Trump, declarou em alto e bom tom, durante o patético ataque terrorista ao Capitólio em 6 de janeiro de 2022, que as Forças Armadas de seu país não iriam avalizar nem embarcariam na aventura golpista preparada pelo tresloucado picareta que disseminou as ideias da extrema-direita pelo mundo afora, inclusive no Brasil.

Que fez política (de guerra) de terra arrasada, que destruiu políticas públicas constantes da Constituição Federal e que fez ruir instituições republicanas, ninguém duvida. Esse indisciplinado, despreparado e incompetente ser bizarro que vem assombrando a nação desde 2019 (e foi mandado para casa por decisão democrática da maioria do eleitorado nos dois turnos de 2022) fez tudo, menos governar para a população durante o mandato que teve nas mãos graças às diatribes daquele que envergonha a toga e de seus sequazes que formaram a republiqueta (de bananas) da ‘leva jeito’, de triste memória.

Nem seus comparsas de orgias orçamentárias o acompanharam em seu intento golpista de afrontar a soberania popular, a despeito da vergonhosa e sorrateira tentativa de, usando o cargo mais alto da República, impedir acintosamente que eleitores nordestinos pudessem votar livremente em seu candidato, além da gastança com compra de votos para reverter a tendência de repulsa de um (des)governo que aumentou os privilégios da parcela mais avantajada do país desde que o Brasil se tornou independente.

Por que, então, os comandantes das três forças (obviamente nomeados pelo inominável quando, sem qualquer respeito pela antiguidade, trocou os anteriores, escolhidos entre seus pares no processo de transição em 2019) decidiram correr o risco de entrar para a história por descumprir o que é mais caro para um militar de carreira, a disciplina e a hierarquia? Deixar vazar (e não desmentir contundentemente) a informação de que eles pretendem deixar seus postos antes da posse do Presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva é mais que um flagrante ato de desobediência, de indisciplina e de quebra de hierarquia: é um atentado contra os preceitos constitucionais.

Essa lenda de que ‘eles’ constituem um ‘poder moderador’ não passa de uma tremenda balela, tal qual o inominável é ‘messias’, é ‘mito’. Está mais para fariseu, cínico fariseu, que para messias. Foi, a bem da verdade, por meio dessa acintosa manipulação que as hordas de mefistofélicos se proliferaram pelos quatro cantos deste país-continente. Mas, ainda que com reservas, as instituições republicanas, entre elas as três forças, não se submeteram aos caprichos golpistas do inominável.

Disciplina e hierarquia, por certo, fazem acatar com discrição e galhardia determinações constantes da Carta Constitucional, mas jamais rasgar as suas prerrogativas consagradas no texto escrito durante a celebração cidadã promovida pela Assembleia Constituinte ao longo de 1987 e 1988. A propósito, o saudoso Doutor Ulysses Guimarães explicitou com a contundência requerida pela solenidade de promulgação da Constituição de 1988 que: “Traidor da Constituição é traidor da pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério. (...) Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.”

A geração do Doutor Ulysses Guimarães construiu esse legado sagrado e generoso. Agora cabe às novas gerações zelar pela manutenção de tamanhas conquistas, frutos de muito denodo, muita abnegação, muita luta, de bravos brasileiros que abriram mão de seus melhores anos de Vida para erigir uma obra modelar para a humanidade. A História, essa grande companheira da humanidade, registrou e continuará a registrar os passos firmes do generoso Povo Brasileiro, cujas instituições devem ser preservadas em nome da soberania nacional, popular e científico-tecnológica. Vida que segue...

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

DONA IZULINA E A RESISTÊNCIA DE UMA PEREGRINA

Dona Izulina e a resistência de uma peregrina

Nascida no mesmo dia do aniversário de Monteiro Lobato, Dona Izulina Gomes Xavier fez de sua existência uma incansável procura de luz e esperança, como Nordestina Pantaneira que celebrou a Vida, a despeito das adversidades e dos enormes desafios que soube superar com graça e meiguice.

Dona Izulina Gomes Xavier encerrou sua incansável jornada cosmopolita com a mesma sobriedade nordestino-pantaneira com que celebrou a Vida, sem mágoas, ressentimentos ou decepções. A esperança e a luz que a acompanharam em todas as suas inesgotáveis iniciativas -- literatura, artes plásticas, escultura, artesanato, turismo, promoção da fé, defesa ambiental e inclusão social -- a tornam referência nos campos da cidadania, cultura e meio ambiente, tudo isso no coração do Pantanal e da América do Sul.

Discreta e comedida, Dona Izulina se eternizou um dia depois da data comemorativa da Proclamação da República, de cujos valores foi expressão eloquente, como uma jovem nonagenária generosa e resistente a toda sorte de adversidades -- como a perda, na enxurrada de fevereiro de 1992, de seu Companheiro de Vida, Seu José Xavier, e do Neto querido, ainda criança e com largos horizontes em sua existência. Homem de confiança dos irmãos Chamma na implantação da Siderurgia Brasileira (SIDERBRÁS, mais tarde SOBRAMIL, Sociedade Brasileira de Mineração Ltda.), Seu Xavier trouxe Dona Izulina para as exuberantes terras pantaneiras.

Nascida no Piauí, a 18 de abril de 1925 (dia do natalício de Monteiro Lobato, pioneiro de diversas iniciativas, que, além de escritor de raro talento, foi fundador de duas editoras emblemáticas para a difusão da cultura e da soberania nacional, sobretudo na defesa do petróleo, com a campanha ‘O petróleo é nosso’, que deu origem à empresa brasileira de petróleo, Petrobrás, em 1950), Dona Izulina passou parte da juventude no estado de São Paulo, para onde se mudara com seus Pais, e nos anos 1940 veio com seu Companheiro de Vida para Corumbá.

Grata ao povo de Corumbá e entusiasta pela exuberância do Pantanal, a devota de São Francisco amava as pessoas humildes, para quem dedicou suas obras mais imponentes, como o Cristo Rei do Pantanal, que vela por Corumbá desde o Morro do Cruzeiro, e o São Francisco, que estava instalado originalmente na Praça Generoso Ponce (e para onde deveria retornar, como homenagem à sua memória). Não se cansava de dizer que eram as pessoas simples que gostavam dela: ciclistas, carroceiros e pedestres que, quando a viam na frente de sua residência, cumprimentavam-na com carinho e reverência.

Corumbá, que é pródiga no curioso esquecimento de fatos relevantes (e, sobretudo, de pessoas generosas e abnegadas), precisa conhecer a história completa da construção do Cristo Rei do Pantanal. Assim como no passado (década de 1970, antes da celebração do Bicentenário de Corumbá, em 1978) o renomado artista plástico catalão Antônio Burgos (Mestre Burgos) teve abortado seu projeto pioneiro do Cristo Redentor (praticamente já concluído, aos fundos de sua casa), por descumprimento da palavra empenhada pelos gestores de então, vinte anos depois o projeto de Dona Izulina só foi concretizado pela histórica iniciativa do Senhor Jorge José Katurchi, membro da coordenação do Pacto Pela Cidadania (Movimento Viva Corumbá), que procurou o então governador José Orcírio Miranda dos Santos (o Zeca do PT) para patrocinar a construção do Cristo Rei, e assim coube ao Lions Clube de Corumbá, à época presidido pelo saudoso Carlos Alberto Machado, o repasse dos recursos financeiros, pois, por ser o Pacto Pela Cidadania espaço público não estatal, não dispunha de CNPJ, o que o impedia de receber quaisquer verbas públicas ou privadas.

Dona Izulina foi apoiadora e fundadora de outras ações e projetos que também entraram para a história, a começar pelo primeiro projeto de turismo receptivo de Corumbá, em meados da década de 1970. Graças ao seu prestígio junto a empresários locais, como o então fundador e dono do Santa Mônica Hotel (Moura Neto, o saudoso Seu Netinho), o também saudoso Gilson Dário Vianna, idealizador e gestor da ‘Pant-Tour Office -- Informações e Turismo’, responsável pelo pioneiro ‘La Barca Tour’, de 1978, conseguiu concretizá-lo, tanto que o escritório ficava num espaço do referido hotel, à época o mais caro da cidade, e tão prestigiado quanto o extinto Hotel Campo Grande, de Lúdio Coelho, situado na futura capital do novo estado, Mato Grosso do Sul.

Generosa, Dona Izulina, durante alguns anos, dedicou-se a iniciativas de inclusão social e defesa do meio ambiente, como ServCarmo e Seapan, duas entidades que entraram para a história por serem pioneiras na região. Quem se esquecerá da atuação da Sociedade Ecológica Amigos do Pantanal com sua memorável comitiva à Rio-92, quando o Pantanal começou a despertar para a preservação, depois das memoráveis atuações populares na luta pela instalação de filtros na fábrica de cimento local e da proibição da instalação de usinas de álcool no Pantanal, no início dos anos 1980? Da mesma forma, o ServCarmo, emblemática entidade que durante décadas contribuiu sobremaneira para a proteção social de crianças e adolescentes no bairro Aeroporto, depois sucedida pelo projeto das Irmãs Salesianas do CENIC, o Geniquinho, desativado pelo fechamento do tradicional Colégio das Irmãs (que faria 100 anos no mesmo ano de Dona Izulina, em 2025).

Antologias e livros autorais de contos, poesias e memórias; telas, esculturas e artesanato com traços singulares; mecenato espontâneo e discreto de diversos artistas e entidades populares (como o Grupo Argos de Teatro, do Amigo-Irmão Aníbal Carlos Monzón, e a Associação de Poetas e Escritores de Corumbá, APEC, fundada pelos Amigos-Irmãos Seu Balbino G. de Oliveira e Wolmar Walter Rien); criação de espaços culturais e artísticos para a difusão das artes no coração do Pantanal, como o Art-Izu e a galeria de artes no interior de sua residência.

Com a mesma generosidade com que abrigou diversos projetos (inclusive de pessoas que conhecia pouco, mas nem por isso deixara de apoiar de alguma forma), Dona Izulina foi em Vida e permanecerá para sempre como a versão feminina e laica do Padre Ernesto Sassida, tão cosmopolita quanto ele, ambos chegados de muito longe e apaixonados pelo povo pantaneiro, para o qual dedicou toda a sua existência terrena. Republicana por natureza, era cosmopolita, plural e democrática: nunca discriminou alguém por origem, nacionalidade, religião, raça, gênero, opinião política ou ideologia.

A toda a Família Gomes Xavier, em especial ao Amigo Antônio Carlos, à Amiga Lauzie e ao Doutor Cristiano, nossos profundos sentimentos, e o reconhecimento de um legado rico e benfazejo tão vivo quanto pródigo quanto a querida, terna e eterna Mãe e Avó que, como Matriarca, têm como fonte inspiradora e honrosa, sobretudo, neste momento em que o Brasil se encontra com a História e os valores civilizatórios.

Até sempre, Dona Izulina, mais que devota de São Francisco, a própria apóstola de São Francisco! Obrigado pelos inúmeros exemplos de generosidade, humildade e lealdade, também replicados em seus descendentes, como o(a)s querido(a)s Antônio Carlos, Lauzie e Dr. Cristiano, com quem pude reconhecer a vocação de servir ao próximo, inata na agora saudosa peregrina de luz e esperança.

Ahmad Schabib Hany

sábado, 12 de novembro de 2022

Jorge Ben e Gal Costa - Que pena


Gravação privativa de Jorge Ben Jor, de mais de 35 anos atrás. Uma verdadeira relíquia. Saudades, Gal!!!

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

GAL E BOLDRIN SE ETERNIZAM

Gal e Boldrin se eternizam

A cultura brasileira se empobrece em dose dupla neste 9 de novembro: Gal Costa, a intérprete da voz de cristal, e Rolando Boldrin, o contador de causos mais autêntico da tevê, interrompem sua jornada e passam a iluminar desde a eternidade a população recém liberta do atraso e do obscurantismo fundamentalista.

“Ressuscita-me / Ainda que mais não seja / Porque sou poeta / E ansiava o futuro / Ressuscita-me / Lutando contra as misérias do quotidiano / Ressuscita-me por isso / Ressuscita-me / Quero acabar de viver o que me cabe / Minha vida para que não mais existam amores servis / Ressuscita-me / Para que ninguém mais tenha de sacrificar-se / Por uma casa, um buraco / Ressuscita-me / Para que a partir de hoje, a partir de hoje / A família se transforme e o pai seja pelo menos o Universo / E a mãe seja no mínimo a Terra / A Terra / A Terra” (“O amor”, de Caetano Veloso e Ney Costa Santos Filho, homenagem ao Poeta soviético Vladimir Maiakovski, autor do poema musicado.)

Entre o corre-corre do curso que absorve a maior parte do tempo, eis que a mensagem de minha querida Sobrinha-Camarada-Companheira-Amiga-Irmã-Ídolo Dunia me leva à dura realidade, ao silêncio: a diva, terna e agora eterna Gal Costa se cala logo agora, quando há tanto por fazer, construir, erguer. A gaivota da voz de cristal passa a iluminar para sempre este povo altivo, recém libertado dos grilhões do obscurantismo fascista, farsante e vil. Ela que enfrentou com maestria, ainda garota, a (mal)ditadura perversa e opressora nos anos sombrios de 1960, 1970 e 1980.

Na melódica voz de Gal, ‘Baby’ (Caetano Veloso), ‘Divino Maravilhoso’ (Caetano Veloso e Gilberto Gil), ‘Meu nome é Gal’ (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), ‘O amor / Ressuscita-me’ (Caetano Veloso e Ney Costa Santos Filho sobre poema de Vladimir Maiakovski), ‘Chuva de prata’ (Ed Wilson e Ronaldo Bastos), ‘Sorte’ (Caetano Veloso) e ‘Brasil / Mostra tua cara’ (Cazuza) se alternam na minha memória, como numa gravação que vem do âmago. É que sou da geração que aprendeu o português, o amor e a cidadania ao som de divas como Gal Costa, Beth Carvalho e Elis Regina, entre outras talentosas mulheres de vanguarda, corajosas, transformadoras.

Voz penetrante e inconfundível, Gal era rigorosamente seletiva. Foi incondicional intérprete do fundador da bossa-nova, o imortal João Gilberto. Ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia, se transformou na musa do tropicalismo, mas sem deixar suas raízes na bossa-nova. Era dialética, se reinventando o tempo todo, e assim revelou seu ecletismo musical, interpretando, com arranjo magistral, diversos gêneros e compositores. Discreta, jamais se expôs, o que a distanciou do grande público, que, no entanto, soube reconhecer o talento e personalidade. Sua carreira internacional não foi caudatária, pois acompanhou sua própria trajetória: uma conquista pessoal, brilhou nos Estados Unidos e Europa, tendo sido celebrada no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, na década de 1980.

Pena que as novas gerações não tenham desfrutado da genialidade de Gal, aliás, Maria da Graça Penna Burgos Costa, baiana nascida no pós-guerra de 1945. A despeito da ação repressora da (mal)ditadura de 1964, sua geração foi talentosa, irreverente e inovadora e tem um legado extraordinário em diversas áreas da cultura e das transformações deste país-continente. Inspiração para as futuras gerações, tanto na vanguarda estética como no comportamento generoso e irreverente, Gal Costa enriquece a constelação eterna da humanidade, com a peculiar discrição que caracterizou sua vida.

Boldrin, gênio do regional

“Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver / Chega lá em casa pruma visitinha / Que no verso ou no reverso da vida inteirinha / Há de encontrar-me num cateretê / Há de encontrar-me num cateretê” (Rolando Boldrin)

Ainda em Campo Grande, outro baque: o ator, compositor e contador de causos Rolando Boldrin, no mesmo fatídico 9 de novembro, se eternizou também em São Paulo. Todos nós aprendemos muito também com ele, não só em seu pioneiro ‘Som Brasil’, como nos sucessivos programas que foi criando, produzindo e apresentando magistralmente desde 1981.

No tempo em que o televisor era artigo de luxo, aos meus 12 anos, dava um jeito de dar uma escapadela para assistir ‘Os deuses estão mortos’ (Record, 1971) e ‘Mulheres de areia’ (Tupi, 1973) na hospedaria da saudosa Dona Elisabeth Wünder de Arza, Amiga de minha saudosa Mãe. Voz grave, feição sisuda (acentuada pela fronte marcada por uma cicatriz) e sua singular capacidade de interpretação fizeram do ator pioneiro da tevê um ícone, mais pelo talento e versatilidade que pelo pioneirismo.

Sua capacidade inventiva o levou a mais de 150 composições inesquecíveis: ‘Vide vida marvada’, ‘Tema para Juliana’, ‘Seresta’, ‘Violeiro’, ‘Faca de ponta’, ‘Eu, a viola e Deus’ e ‘Amanheceu, peguei a viola’. Além disso, sua generosidade gigante permitiu que inúmeros artistas (não só compositores, como escultores e artesãos) pudessem sair do anonimato e debutar em seus respectivos programas. Graças a essa atitude, milhares de artistas têm nele um padrinho pé quente, pois após debutar em seu programa ganharam rumo em seu ofício sagrado.

Gal e Boldrin, cada qual ao seu jeito sincero e marcante, têm contribuições únicas à cultura brasileira. Abriram também os horizontes de diversas gerações que tiveram neles referência inspiradora, despertando-lhes o sentido de pertencimento e, sobretudo, de cidadania. Numa época em que o tema diversidade-identidade era refém de um estúpido compêndio instituído sem qualquer discussão com as diferentes regiões do País, além da censura imposta por meio dos atos institucionais outorgados na calada da noite durante os sombrios tempos de Médici e Costa e Silva (é proposital a inversão da ordem dos generais de plantão).

Gal, por exemplo, nos deu provas inequívocas de sua rebeldia convicta quando, sozinha, ousou enfrentar a matilha fascista que a ferro e fogo silenciou juventude, artistas, intelectuais, pensadores e oposicionistas e os levou à prisão, tortura, morte ou exílio -- exatamente como ocorreu com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Marieta Severo, que precisaram se refugiar na Europa. Já Boldrin, seu aparente conservadorismo era cênico, para dar um ar de autenticidade a sua genial arte dramática, presente em toda a sua obra, em todo o seu ofício.

Até sempre, Gal! Até sempre, Boldrin! Obrigado pelos inúmeros ensinamentos, obrigado por sua generosidade, obrigado por seu talento e obrigado por ter-nos tornado amantes da cultura do Povo Brasileiro!

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

ALVORECER DE UM NOVO TEMPO

Alvorecer de um novo tempo

A despeito dos inúmeros atos ilegais cometidos pela máquina do inominável para ganhar a qualquer custo, o Povo Brasileiro decidiu, por uma honrosa diferença de quase três milhões de eleitores, sair do apagão e se encontrar com a História. Enquanto raia o novo tempo, os seres do atraso se refugiam no pandemônio que criaram nos sombrios tempos que impuseram à maioria, sob o reino da mentira, pavor, intolerância e ódio.

Nada como um dia depois do outro. Eis que vemos, afinal, o Povo Brasileiro aliviado, a respirar os novos ares da liberdade. Livres da opressão medieval, eivada de ódio, pavor, intolerância e mentira, muita mentira. As hordas nazifascistas que tomaram de assalto o porvir da Nação são viciadas na mentira e praticantes da hipocrisia: faça o que digo, não o que faço.

Enquanto assistíamos à comemoração pela vitória legítima e libertária do estadista vindo do povo que o Brasil levou 500 anos para oferecer à humanidade, a civilização cintilava altiva a redenção da maior democracia do hemisfério sul. Por isso a maioria dos governos do planeta de imediato enviou as congratulações protocolares ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e ao vice Geraldo Alckmin. Antes, o reconhecimento da vitória lícita e inquestionável pelos presidentes do TSE, STF, Senado e Câmara Federal.

Não por acaso, o governo do Egito enviou em sua mensagem de congratulações também um convite para participar, como sede da COP27 (a Conferência das Nações Unidas sobre o clima), como personalidade convidada, porque o inominável abandonou oficialmente todas as negociações desde 2019 e retirou o Brasil, país protagonista da Rio-92 (que fez a Agenda 21), das negociações em defesa da conservação dos biomas -- como Amazônia, Pantanal e Cerrado -- para evitar a trágica elevação da temperatura no Planeta em mais de 2ºC (dois graus centígrados).

Sábio e sensato, o Presidente Lula, só irá ao Egito na segunda semana do evento, quando serão acordados os compromissos futuros, até para não constranger os servidores de carreira do Itamaraty e do Ministério do Meio Ambiente, presentes em Sharm El-Sheik, a  cidade sede da Conferência Mundial sobre o Clima.

Da mesma forma, ao ser proclamada sua vitória, soube reconhecer e atribuí-la às forças democráticas que corajosa e altivamente se somaram à sua candidatura, algumas desde o primeiro turno. Como não reconhecer o papel da senadora e ex-presidenciável Simone Tebet; da ex-ministra Marina Silva; dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney; dos senadores José Serra e José Aníbal; do ex-senador e presidenciável Ciro Gomes; do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, dos economistas autores do Real Pérsio Arida, Edmar Bacha e Pedro Malan, e dos ex-ministros do STF Joaquim Barbosa, Nelson Jobim e Aires Marques?

Todos eles foram imprescindíveis e fundamentais para assegurar a vitória da civilização sobre a barbárie; a vitória da democracia sobre a tirania nazifascista. Tal qual Charles De Gaulle no pós-guerra de 1945, o experiente Lula fará um governo de reconstrução, ou seja, será um governo de composição em defesa do Estado Democrático de Direito, e já tem dado sinais nesse sentido: coube ao vice-presidente eleito, Alckmin, a coordenação da Comissão de Transição -- hábil, o estadista colocou seu companheiro de chapa rumo à participação efetiva de seu futuro mandato. Mais que sinalização ao mercado, ele vem sinalizando às instituições governamentais e à sociedade civil seu compromisso de fazer um governo para todos os brasileiros, direcionado ao concerto das nações.

O ‘mito’ na berlinda

Entrementes, as hordas, envoltas em rituais de trevas, desvarios e ódio, experimentam o seu próprio veneno. Ao atender à convocação da pretensa dinastia mitômana, causando verdadeiro caos e prejuízos imensuráveis à já combalida economia do país, esses seres bizarros, além de ridículos, colocam seu mito na berlinda: se não apoia é covarde traidor e se os apoia ficarão patentes os crimes de prevaricação e de sedição, isto é, de alta traição à pátria.

Ao ter jurado que cumprirá, respeitará e defenderá a Constituição Federal e todas as leis infraconstitucionais durante o exercício do mais alto cargo da República, ele jamais poderá estimular ou aceitar qualquer ato ilícito de suas hordas. É evidente e consensual, no entanto, que desde o primeiro dia ele instigou atos contrários ao Estado Democrático de Direito, até por seu perfil desajustado desde os tempos da caserna.

Dez anos atrás, as cenas que nos remetem ao tempo medieval teriam sido inimagináveis. Como um ‘lobo solitário’ poderia ter-se transformado em líder inconteste de milhões de pessoas? Acontece que, ao ser aberta a caixa de Pandora, durante o golpe de Eduardo Cunha, Aécio e Temer contra a primeira mulher eleita e reeleita para a Presidência da República, em 2016, os viúvos e órfãos da ditadura se rearticularam mais rápido que os aprendizes de golpistas e, sempre em conluio com Sérgio Moro e a turma da Leva Jeito, foi consumado o assalto das hordas ao futuro da nação.

Por que um parlamentar desqualificado recluso à invisibilidade por décadas a fio poderia se tornar um líder inconteste? Como uma sociedade complexa e moderna feito a nossa se deixou contaminar por mentiras construídas sob as ruínas do nazifascismo embolorado, à base do legado da repulsiva consigna de Joseph Goebbels, o homem da propaganda de Adolf Hitler, de que ‘a mentira repetida muitas vezes se torna verdade’? A base de tudo são as raízes escravocratas que ainda teimam em predominar na mente de muita gente; o recalque, o desamor (ressentimento social), de boa parcela da população, e o ranço do integralismo (versão brasileira do nazifascismo) ainda presente entre nós.

A História (com letra maiúscula) se encarregará de elucidar profundamente essas causas que, conjugadas, produziram o monstro que colocou à prova a indiscutível grandeza de alma existente no seio do Povo Brasileiro, que nada tem a ver com toda essa vergonha, esse vexame colossal. Tanto que, quando convocado a se manifestar, expressou seu não rotundo às hordas medievais e reafirmou seu compromisso com o Estado Democrático de Direito, construído com generosidade e galhardia por todas as parcelas da população, à exceção dos facínoras que ainda mantêm sórdidos vínculos com a ditadura.

Ahmad Schabib Hany