quinta-feira, 16 de junho de 2022

Ladainha dos Defensores e Defensoras da Amazônia


 

Canto de um dos povos originários, na voz imortal de BRUNO PEREIRA


 

DOM PHILIPS E BRUNO PEREIRA PRESENTES!

Dom Philips e Bruno Pereira presentes!

Dom Philips, Jornalista renomado, colaborador dos maiores jornais do planeta, deixou inconclusa uma obra para salvar a Amazônia e as populações originárias e tradicionais. Bruno Pereira, Indigenista respeitado, servidor da FUNAI exonerado da chefia por ter punido garimpeiros flagrados em terras indígenas, pediu licença do órgão para continuar sua missão de proteger os povos da floresta e o Bioma amazônico. Ao contrário dos mandantes e dos executores, eles estão presentes pela eternidade e servirão de inspiração para milhares de novos Dom Philips, Bruno Pereira, Chico Mendes, Dorothy Stang, Marçal de Souza e tantos outros, anônimos.

Enganam-se aqueles que recorrem à execução dos que veem como inimigos porque estão imbuídos de causas maiores, da proteção de povos oprimidos e saqueados, da defesa do patrimônio natural (que não pertence a X, Y ou Z, mas às populações originárias e tradicionais e, por extensão, à humanidade). Com seu gesto criminoso e desatinado (na verdade, burro, pois atiram contra si mesmos) estes seres bizarros, saídos do lixo da história, fortalecem contra a sua vontade as pessoas de boa vontade que querem ‘acabar de vez’.

Alguém, por acaso, sabe o nome dos verdugos/carrascos que enforcaram, esquartejaram e salgaram os restos mortais de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, protomártir da independência do Brasil? A despeito de a condenação ter-lhe usurpado o direito dos descendentes de usar seu sobrenome e usufruir de seus bens, é o seu nome e codinome o que ecoa, reverbera, séculos depois de seu esquartejamento sórdido e desatinado. Não do juiz e do procurador da coroa (com minúscula, por favor), que poucos conhecem e não faremos qualquer gesto de divulgá-los, para que fiquem sob os escombros da tirania.

Foi o que aconteceu com Túpac Katari, líder de ascendência incaica (portanto, originário) nos Andes, e que ao ser esquartejado profetizou que voltaria aos milhões. Dito e feito: ao servir de inspiração às novas gerações de resistentes andinos, ele, de fato, se transformou em milhões, para desespero de gente como Jeanine Áñez Chávez e seus sequazes, que hoje estão atrás das grades e respondem pelos crimes cometidos, em nome de uma raça branca, ‘europeia’: Bolívia, Peru e provavelmente domingo agora a Colômbia estão a reviver essa profecia.

Ainda que em escala menor, mas efetiva, ocorreu com o martírio de Chico Mendes, Dotothy Stang, Marçal de Souza e tantos outros, em sua maioria anônimos. Servem de inspiração para pessoas abnegadas e com elevada empatia que se inspiram nesses seres humanos à frente de seu tempo. Não é demais lembrar que quem saqueia, mata ou maltrata indígenas (ou for conivente) é atingido por uma praga -- isso mesmo, desgraça -- que atravessa gerações de seus descendentes. E não adianta tomar banho nas águas do Rio Jordão, para se livrar do crime, lá da Palestina de meus ancestrais...

Chico Mendes, executado por defender os seringueiros de Xapuri (AC) em 1988, era líder reconhecido no concerto das nações, tanto que ganhara um ano antes o Prêmio Global das Nações Unidas pela defesa dos povos da floresta e da Amazônia. No entanto, o povo brasileiro, em sua maioria, não o conhecia. Os fazendeiros que covardemente o mataram em sua própria casa pouco antes do Natal de 1988 não imaginavam estar, contra a sua vontade, eternizando um líder que inspira até hoje milhões de pessoas.

A Irmã Dorothy Stang, de uma congregação católica vocacionada para o serviço social, ao ser, igual e covardemente, assassinada, ganhou tanta repercussão que muitas meninas católicas quando se decidem pela vocação sacramental se inspiram nela, em todos os cantos do Mundo. Até porque, assim como Chico Mendes, seu legado é inspirador: apesar da idade avançada, dedicava-se ao apoio de trabalhadores rurais sem terra, vítimas da exploração feudal (isto é, pré-capitalista) que ainda ocorre em pleno terceiro milênio.

O líder Guarani Marçal de Souza, Tupã’i (Deus Pequeno), é outro mártir, executado em 1983, primeiros meses do governo democrático do Doutor Wilson Barbosa Martins, o que lhe causou enormes constrangimentos, pois era defensor incansável da demarcação das terras indígenas e da reforma agrária (algumas das razões de sua cassação em 1965 pelos golpistas de 1964). Passados quase 40 anos, a mensagem de Tupã’i, testemunhada pelo Papa João Paulo II (hoje São João Paulo II) em Campo Grande, reverberam e cativam as consciências libertas, especial e particularmente, de jovens de todas as etnias, tanto entre as populações originárias como nas amplas camadas da população brasileira, sedentas de justiça social.

Obviamente, o assassinato do Jornalista Dom Philips e do Indigenista Bruno Pereira causa dor e indignação a todos os cidadãos do Mundo conscientes do relevante papel por eles desempenhado. O livro que Dom estava escrevendo, sobre como salvar a Amazônia, está irremediavelmente inconcluso. A missão de Bruno, licenciado da FUNAI para continuar a proteger os povos originários no extremo oeste da Amazônia (já que no órgão não mais podia fazer), também abruptamente interrompida, está prejudicada. Mas não é só isso: as Famílias enlutadas, os colegas e amigos desolados e, inclusive, a perda de dois seres humanos de rara excelência para a humanidade, todas as espécies e o Planeta...

Depois de terem sido encontrados pedaços de corpos do Jornalista Dom Philips e do Indigenista Bruno Pereira, organizações e representantes da sociedade civil em todo o mundo, tomadas de perplexidade e indignação, se manifestaram para prestar irrestrita solidariedade às Famílias dessas duas vítimas excelsas e exigir apuração rigorosa para identificar os mandantes da execução e as razões do crime praticado com requintes de crueldade. Todas as manifestações são unânimes em cobrar uma postura diferente do governo federal, ao contrário das intermináveis e lentas investigações sobre a execução da Vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ) e seu motorista, Anderson dos Santos.

Assim escreveu, indignada, a advogada e colunista do UOL Isabela Del Monde: “Por Dom e Bruno e os povos indígenas, tiremos do poder quem odeia o Brasil”. Aliás, é o título de sua coluna neste Corpus Christi, dia em que os corpos esquartejados de Dom e de Bruno estão sendo resgatados do meio da floresta que representou sua razão de ser ao longo de décadas. As vozes desses gigantes que souberam dar voz aos silenciados da Amazônia não se calaram, agora elas se manifestam em milhões (talvez bilhões) de vozes cidadãs pelo mundo afora. O despertar de novas consciências e o fortalecimento da proteção dos mais vulneráveis, inclusive na Amazônia, haverão de trazer o raiar do novo tempo de que tanto clama a humanidade, seja pelo futuro do Planeta, seja pelo futuro dos Povos da Floresta, cuja existência (e resistência) assegura o futuro do Planeta.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 14 de junho de 2022

CONFIDÊNCIA INSÓLITA

Confidência insólita

Candidato à reeleição, ele diz que não leva jeito para ser presidente. A insólita confidência se deu em São Paulo, durante sua visita ao Fórum de Investimentos Brasil 2022.

Dia 14 de junho, durante a realização do Fórum de Investimentos Brasil 2022, em São Paulo, o inquilino do Palácio do Planalto despejou o que poderia ser chamado de insólita confidência ante a perplexidade dos participantes: “Não tinha nada para estar aqui, nem levo jeito. Nasci para ser militar, fiquei por 15 anos no Exército Brasileiro, entrei pra política meio por acaso. Passei 28 anos dentro da Câmara.”

É lucidez ou desatino?

O que passa pela cabeça daquele que deveria ter cabeça suficiente para assumir seus compromissos republicanos e se responsabilizar pelos destinos de nada menos que 214 milhões de almas que habitam um país de dimensões continentais.

Para assegurar três refeições por dia a toda a população (ou pelo menos às camadas mais vulneráveis); acesso aos serviços de saúde, educação e assistência social enquanto política pública efetiva e permanente; nível de renda acima dos mínimos sociais, como preconizado pelas leis posteriores à Constituição Cidadã; qualidade de vida sustentável, com saneamento básico (água potável e rede de esgoto) e meio ambiente saudável, com todos os padrões sanitários consignados em normativas legais.

Para fortalecer as instituições democráticas, duramente construídas nas últimas décadas graças à perseverança de gerações passadas, as quais devem ser prestigiadas, a despeito das campanhas sórdidas de saudosos de tempos sombrios.

Para consolidar a pujança de um país com atributos de potência mundial da paz mundial e do combate à fome, da justiça social e da soberania popular. Jamais nação caudatária do império decadente ou de potência militar do século XIX.

Para preparar um país vocacionado a uma nova ordem internacional (não “mundial”, no dizer dos saudosos do colonialismo), em que o respeito aos direitos humanos, ambientais e nutricionais seja princípio norteador, e à multipolaridade no concerto das nações. Eis a orientação de quem se propuser a ocupar o principal cargo da República.

Complexidade e problemas abissais há de sobra. Desde antes do bicentenário Dia do Fico (quando o então príncipe herdeiro do império português, Pedro de Alcântara Bragança e Bourbon revelou a sua vontade de permanecer no Brasil, tornando-se, assim, Pedro I do recém-criado Império do Brasil).

Porque um dignitário não vê obstáculos, enxerga desafios; não se subordina a supostos ‘líderes’ estrangeiros (como, por exemplo, Donald Trump), mas desperta a admiração e o respeito de seus colegas para seguir seu exemplo, sua trajetória.

É verdade que não são poucas as mentes pouco iluminadas, dominadas pelo narcisismo e outras perturbações, que tendem para a vida pública à procura de um ‘lugar ao sol’, mas acabam por impor sombras e obscurantismo, para fazer a ‘sua luz brilhar’.

Não há dúvida que a tecnologia acelerou o processo de interação entre vários grupos das mais variadas tendências humanas. Sobretudo recalcadas. Esses ‘guetos’, que durante décadas (senão séculos) permaneceram nos subterrâneos das sociedades, encontraram o seu momento de glória na última década, por uma conjunção de fatores.

O fato é que, em poucos anos, toda a expectativa criada se dissipou, também por uma série de fatores, levando amplas camadas à frustração. Claro que os fanáticos teimam em arranjar justificativas das mais inverossímeis, como para tapar o sol com a peneira.

É fato, também, que tivemos um retrocesso de seis décadas em seis anos. O mais grave deles está na área social, em que educação, saúde, assistência social, acessibilidade, cultura, ciência e tecnologia, desportos, direitos humanos, desenvolvimento urbano, habitação, segurança pública, saneamento básico, agricultura familiar, reforma agrária, transportes, demarcação de terras indígenas, igualdade racial, protagonismo juvenil, empoderamento feminino e reconhecimento à diversidade de gênero sofreram ataques sistemáticos e cortes de verbas injustificáveis.

Em síntese, o desmonte do Estado e da política estruturante de bem-estar social diluiu a qualidade de vida, conforme constatado pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e outros índices de desenvolvimento social pelas agências multilaterais.

Em síntese, a falta de aptidão para o mais importante cargo da República se evidencia na tragédia social, ambiental, tecnocientífica e institucional que nos faz padecer. Isto, aliás, ficou flagrante desde o primeiro dia desta gestão. Porque ser estadista não é ser reles gestor, gerente, das diferentes áreas administrativas de um complexo organograma em que se traduz a administração democrática de uma nação.

Foi, sem dúvida, oportuna a confidência presidencial: é o sinal verde para ser promovido o encontro entre a fome e a vontade de comer, literalmente. Cestas básicas populares, em vez de leite condensado superfaturado; farmácia popular brasileira, em vez de estimulante sexual, prótese peniana ou gel lubrificante vaginal para poucos; produtos da agricultura familiar, em vez das iguarias importadas a preços extorsivos.

Não dá mais para vermos o desdém com as tragédias ocorridas com as camadas mais vulneráveis da população. Pior: passou da hora de ser resgatado o digno clamor popular por seus mais básicos direitos à vida, com dignidade e altivez.

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 10 de junho de 2022

A DAMA DA CIÊNCIA

A Dama da Ciência

Chefe-geral da Embrapa Pantanal por dois mandatos, a Pesquisadora Emiko Resende se eterniza, na Semana do Meio Ambiente, enquanto enfrentava um câncer voraz.

Por meio do Professor Masao Uetanabaro, um dos pioneiros da pesquisa no Pantanal e no Chaco, soube da eternização da Pesquisadora Emiko Kawakami de Resende, que entre 1985 e 2019 desenvolveu, coordenou e geriu inúmeras pesquisas na Embrapa Pantanal, de cuja chefia geral foi titular por duas vezes. Ao se aposentar, três anos atrás, decidiu fixar residência em Pouso Alegre (MG), onde enfrentava um câncer voraz, que a venceu em plena Semana do Meio Ambiente, aos 74 anos de idade.

Carinhosamente chamada de Doutora Emiko, a pesquisadora chegou a Corumbá antes do primeiro aniversário de instalação do Centro de Pesquisas Agropecuárias do Pantanal (CPAP), inaugurado em novembro de 1984 com a presença do à época ministro da Agricultura Nestor Jost e o então presidente da Embrapa Eliseu Roberto de Andrade Alves. Da antiga UEPAE Corumbá, a bióloga especialista em Ictiologia Emiko Resende, oriunda do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) foi a segunda pesquisadora mulher na então distante unidade da Embrapa (a primeira pesquisadora da então UEPAE foi a Pedóloga Sílvia Maria Costa Nicola, que se desligou do CPAP ao se mudar para a França, onde desenvolveu estudos sobre solos na ORSTOM, similar à Embrapa, durante seu doutorado).

Como evento inaugural do CPAP, a Embrapa celebrou uma parceria com a UFMS, cujo reitor era o Professor Jair Madureira, pesquisador da área de Veterinária, tendo sido realizado o Primeiro Simpósio sobre Recursos Naturais e Socioeconômicos do Pantanal. O coordenador-geral foi o Pesquisador Eduardo Künze Bastos, especialista em Ictiologia, e que contou com a colaboração do Professor Arnaldo Yoso Sakamoto, da UFMS, para a sua realização. O simpósio teve repercussão nacional, pois renomados pesquisadores, muitos deles de universidades brasileiras, foram palestrantes, e entre diversos temas tratados a necessidade de um período de defeso para assegurar a reprodução dos peixes foi defendida e logo transformada em lei federal, apresentada pelo Senador José Fragelli, então Presidente do Senado da República.

Na época, o CPAP era chefiado pelo prestigiado Pesquisador Araê Boock, que com a instalação da Nova República (governo de José Sarney) passou a ser pressionado por alguns fazendeiros ligados ao Deputado Harry Amorim Costa, em favor da indicação do agrônomo Mansur Bumlai. Havia, então, a preocupação de que, com o novo status, a Embrapa deixasse as pesquisas agropecuárias por conta dos projetos de aproveitamento econômico de espécies nativas, como o jacaré e a capivara, para cujos projetos originais haviam sido convidados como coordenadores os pesquisadores Cleber Rodrigues Alho, da UnB, e Francisco Breyer, da própria Embrapa.

A polêmica transcendeu os muros da instituição e ganhou o espaço público. Um grupo de estudiosos do Bioma Pantanal se mobilizou em Campo Grande e, por intervenção do Deputado Plínio Barbosa Martins, muito prestigiado em Brasília, o novo Presidente da Embrapa, Luiz Carlos Pinheiro Machado, ligado ao então Ministro Pedro Simon, da Agricultura, não permitiu ingerência política na gestão das unidades da Embrapa durante seu curto mandato. Assim, o Pesquisador Araê Boock encerrou seu mandato e pediu transferência para o Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte (Embrapa Gado de Corte), em Campo Grande, e o Pesquisador Nilson de Barros assumiu a chefia geral da Embrapa Pantanal. Depois, com a nomeação de Nilson de Barros pelo governador Marcelo Miranda Soares para a Secretaria de Meio Ambiente, o Pesquisador Urbano Gomes de Abreu passou a ser o chefe-geral do CPAP.

Nesse ínterim, o foco da Pesquisadora Emiko Resende em seus estudos científicos sobre a ictiofauna pantaneira a levou a conquistar o reconhecimento público e, quando Pedro Pedrossian foi eleito governador do estado, a nomeou titular da Secretaria de Meio Ambiente. Em sua gestão, diversas iniciativas foram tomadas, sempre com rigor científico e ouvindo os diferentes setores envolvidos nas questões ambientais, não por acaso Mato Grosso do Sul foi referência em normatização e iniciativas ambientais. Nos preparativos e durante a realização da Conferência Mundial sobre Meio Ambiente do Rio de Janeiro em junho de 1992, a Eco-92 (ou Rio-92), a Doutora Emiko se empenhou para que representantes das populações tradicionais e originárias (ribeirinhos e indígenas) do Pantanal estivessem participando das atividades da conferência e paralelas a ela.

Quando Celso Martins e Frederico Valente estiveram à frente da Secretaria de Meio Ambiente, no governo do Doutor Wilson Barbosa Martins, o legado institucional de Emiko Resende contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento de projetos como o PCBAP e o Programa BID Pantanal. Indiscutivelmente, a firmeza e a sólida formação científica da Doutora Emiko foram determinantes para a conquista dessas iniciativas, interrompidas mais tarde pela ambiguidade dos gestores que se sucederam a partir de 2007. Quando, como Chefe-geral da Embrapa Pantanal, no início da década de 2000, foi procurada por uma comissão de representantes da sociedade civil, em meio à reação orquestrada por interesses vinculados aos megaprojetos de multinacionais e lobistas do mercado, abriu as portas da instituição para um necessário debate racional sobre os limites do Programa BID Pantanal.

Sua postura sincera e clara, sem titubeios, aliada à sua consistente formação científica a qualificou como interlocutora em diversos momentos em que o Bioma Pantanal foi objeto de um aliciamento predador tingido de desenvolvimentista. Não se submeteu à pressão dos grupos poderosos, embora fizesse questão de agir com sensatez e discrição. Diferente de muitos gestores das áreas científica e ambiental contemporâneos, Emiko Resende revelou-se, em poucas palavras, a Dama da Ciência. Para a sorte e felicidade de todas as espécies de seres vivos que habitam o Pantanal, sobretudo as populações tradicionais e originárias, que têm na Doutora Emiko uma espécie de, como todo o respeito, de Padroeira da Ciência no Pantanal.

Obrigado, Doutora Emiko, por ter existido e resistido neste Pantanal de todas as espécies e todas as ciências! Até sempre, Dama da Ciência, pois, está nas mãos das mulheres o milênio que está apenas em seu alvorecer, ainda que sob as recorrentes ameaças de misóginos insensatos oriundos das trevas medievais!

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 2 de junho de 2022

PROFESSOR FAUSTO MATTO GROSSO PRESENTE!

Professor Fausto Matto Grosso presente!

A eternização do incansável ativista político, democrata, homem público, intelectual e Professor Fausto Mato Grosso deixa mais pobre nossa frágil sociedade civil. À querida Família, em especial à sua brava Companheira de Vida, Dra. Maria Augusta Rahe Pereira, aos Filhos e Netos, nossos profundos sentimentos e solidariedade fraternal, e ao querido Fausto nossa sincera gratidão.

A eternização, dia 1º de junho, do incansável democrata, ativista político, homem público, intelectual e Professor Francisco Fausto Matto Grosso Pereira deixa a frágil sociedade civil muito mais pobre, mais óbvia. Porque quando um gigante generoso e abnegado articulador político de sua estatura encerra sua jornada todos nós ficamos menores e mais, muito mais, pobres.

Como poucos, o Professor Fausto conseguiu reunir qualidades ímpares ao longo de sua Vida, sem pompa nem circunstância: disciplinado, estudioso, competente, discreto, comedido, humilde, honesto, rigoroso, abnegado, incansável, sincero, coerente e, sobretudo, consciente de seu papel histórico. Integrante da generosa e talentosa geração de 1968, por formação, sempre preferiu correr o risco de errar coletivamente a acertar sozinho, quando voto vencido nas renhidas discussões partidárias e associativas de que participou com desenvoltura e pioneirismo.

Diferentemente da maioria, quase totalidade, dos agentes políticos do Estado, Fausto foi leal e solidário ao único partido de sua Vida, o Partidão (o velho PCB, dirigido em sua fase emblemática por Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança), se considerarmos o MDB histórico e seu sucedâneo, o PMDB, como Frente Democrática à qual ele e seus leais e queridos Camaradas Carmelino de Arruda Rezende e Onofre da Costa Lima Filho se dedicaram por, no mínimo, duas décadas. Habilidosamente, ensinaram velhos expoentes da política regional, sem ofendê-los, a praticar coerentemente a democracia liberal.

Fez jus ao honrado ofício de Professor, mesmo quando arbitrariamente demitido da ex-UEMT (Universidade Estadual de Mato Grosso) ao organizar a primeira mobilização de docentes em sua legítima pugna por direitos, 50 anos atrás (1972). Graduado em Engenharia Civil pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), retornou a Mato Grosso para atuar profissionalmente. Ao revelar-se exímio calculista, num tempo em que a tecnologia não havia subtraído o mérito da competência humana nas áridas searas do cálculo e da precisão do projetista, conquistou meritoriamente sua cadeira no recém-criado curso de Engenharia Civil de Campo Grande (então Mato Grosso uno).

Ocorre que o competente engenheiro civil, além de brilhante calculista, era íntegro em suas concepções humanísticas, e não temia a cara feia dos feitores de outrora. Embora tivesse militado nas hostes do movimento católico progressista do final dos anos 1960, se propôs a cerrar fileiras no velho Partidão, cuja história remete às primeiras iniciativas de organização da classe operária num país, desde a colonização lusitana, acostumado a tratar as questões sociais como ‘caso de polícia’. O que, aliás, voltou a não ser novidade nestes tempos sombrios, quando o Partidão celebra 100 anos e nosso querido Camarada discretamente sai de cena.

Como disse o poeta e Jornalista Edson Moraes em seu comovente tributo ao Professor Fausto, 44 anos depois de conhecê-lo: o querido e agora saudoso Camarada desde jovem era uma referência para a vanguarda política brasileira que atuava no sul deste estado conservador. No período em que esteve coercitivamente afastado de seu ofício docente, dedicou-se à formação política e ideológica de inúmeras gerações, tendo sido fundador, no âmbito do Partido, do Centro de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais (CEPES), em sua efêmera, mas marcante, existência, aos fundos da icônica Livraria Guató, do grande, querido e saudoso Manoel Sebastião da Costa Lima, o inesquecível Manoel da Guató.

A primeira geração de calouros universitários de Mato Grosso do Sul conheceu Professor Fausto no começo de 1979, numa reunião do Movimento Mato-grossense de Anistia e Direitos Humanos, senão me engano coordenada pelo saudoso Doutor Ricardo Brandão, na recém-inaugurada sede da OAB/MS (Seccional de Mato Grosso do Sul da Ordem dos Advogados do Brasil). Semanas antes, o Doutor Wilson Barbosa Martins, então cassado pelo regime de 1964 e conhecido até então como “Irmão do Dr. Plínio”, tomara posse na presidência da entidade, uma das vanguardas pela democratização do Brasil. Naquele ato Fausto representava a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Campo Grande (que depois passaria a ter abrangência estadual), ao lado de organizações emblemáticas como a Coordenação Regional da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e a representação estadual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

A conquista da Anistia, a persuasiva campanha pró-Assembleia Nacional Constituinte e pela revogação de todo o entulho autoritário (AI-5, decretos 228 e 477, senadores biônicos, eleições indiretas, fim do bipartidarismo e legalização de todos os partidos anteriores a 1964, entre outros atos da legislação draconiana vigente à época) eram exaustivamente reverberadas em todos os espaços políticos de então, sempre sob a coordenação de Fausto Matto Grosso e o apoio incondicional de Carmelino Rezende e de Onofre Lima Filho. Obviamente, isso causava uma ciumeira entre muitos dirigentes da oposição, como o lamentável episódio protagonizado pela Vereadora Nelly Bacha (em 1983 nomeada a primeira prefeita de Campo Grande), que denunciou uma conspiração contra ela por não ter tido votos suficientes para eleger-se em 1978.

Isso o tornou um candidato bastante cotado nas eleições de 1982, quando, ao lado de seu Companheiro de Partido, Advogado Marcelo Barbosa Martins (Filho do Doutor Plínio), foi eleito vereador da capital. Ele e Marcelo foram os dois primeiros vereadores do PCB, ainda proscrito pela legislação arbitrária. Mesmo assim, o mandato dos dois foi modelo para diversos parlamentares em todo o Brasil. Contraditoriamente, por terem assumido a legenda do Partidão, os dois não conseguiram se reeleger ou voltar a se eleger depois, a despeito do reconhecimento de sua competência técnica, desenvoltura política e, sobretudo, ética parlamentar. Mais uma vez, referência de conduta, pelos adversários inclusive.

Com a anistia aos demitidos pela antiga UEMT, o Professor Fausto voltou a assumir a sua cadeira como docente da Engenharia Civil da agora UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Participou de importantes movimentos dentro da UFMS e seu ápice foi a nomeação, pelo Reitor Celso Pierezan, como Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários. Durante o mandato do Professor Pierezan, o Professor Fausto implantou o memorável Festival de Corumbá. Foram três edições anuais em que atividades artísticas muito parecidas em seu formato à atual versão do Festival América do Sul Pantanal permitiram a consolidação de Corumbá como berço da cultura sul-mato-grossense. Em seu memorável depoimento para um artigo sobre o Cinquentenário do CPAN/UFMS, Fausto demonstrou estar realizado com a realização desse projeto, inspirado no Festival de Ouro Preto, de iniciativa da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto).

Em decorrência da vitória do então candidato José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, no Movimento Muda MS, em 1998, depois de uma renhida disputa interna no PPS em que o então candidato a Senador Carmelino Rezende fora derrotado, o Professor Fausto Matto Grosso foi um dos três secretários de Estado nomeados pelo governador Zeca em 1999. Titular da Secretaria de Estado de Planejamento e Ciência e Tecnologia, Fausto empreendeu importantes inovações em sua pasta. Além da adoção de uma política pública de Ciência e Tecnologia, com o competente apoio da Professora Sônia Jim (sua Superintendente de Ciência e Tecnologia), desenvolveu o Programa MS 2020, dentro da metodologia de planejamento estratégico, com diversos cenários. Esse programa passou a ser replicado em outros estados durante a gestão de Ciro Gomes no primeiro mandato do Presidente Lula, à frente do Ministério da Integração Nacional, de cuja secretaria-executiva o saudoso Engenheiro Frederico Valente era titular, e o Professor Fausto assessor.

Mais que ativista político e homem público de competência indiscutível e ética política a toda prova, o Professor Fausto Matto Grosso é a expressão fidedigna do ser humano de elevada formação humanística e rara sensibilidade social. Trata-se de um cidadão do mundo à frente de seu tempo e um generoso e incansável Companheiro e Pai cujo legado ético e político honra e lisonjeia a todos os que tiveram a honra e o privilégio de conviver e compartilhar com ele, ainda que por efêmeros momentos de sua grande mas despretensiosa jornada cidadã, na construção do Estado Democrático de Direito e da consolidação nas três esferas administrativas de efetivas políticas públicas sociais e de desenvolvimento sustentável, na perspectiva da Agenda 21, que como poucos soube implementar ao longo de suas atividades profissionais e políticas.

Até sempre, querido Amigo-Camarada Fausto! E obrigado por imenso legado, e por ter existido, resistido e ter exemplarmente respeitado e compreendido posições paradoxais, embora pontuais, sobretudo a partir de 2015, o que em absolutamente nada abalou sua Amizade, que levaremos para todas as nossas vidas. Nossa gratidão sincera por tantos exemplos de humildade, perseverança, sinceridade, coerência e dignidade. Sua querida Família, em especial à sua brava Companheira de Vida, Doutora Maria Augusta Rahe Pereira, Filhos e Netos, receba nossos profundos sentimentos e sincera solidariedade, com os votos de muita força neste momento de dor e saudade, da dimensão de seu ideal por uma nova sociedade, liberta e transformadora para e pelas gerações vindouras. Professor Fausto Matto Grosso presente!

Ahmad Schabib Hany