segunda-feira, 27 de abril de 2020

DUAS FARSAS DAS MESMAS TRINTA MOEDAS


  Charge de Cristóvão Villela, publicada em A Postagem


DUAS FARSAS DAS MESMAS TRINTA MOEDAS

A demissão de Sérgio Moro, “fritado em fogo brando” ao mesmo tempo que Bebianno, Lorenzoni, Mandetta e Guedes (o próximo da lista), evidencia a total falta de compromisso e de lealdade de Bolsonaro. Por seu turno, o ex-juiz celebrizado pela “Leva Jeito”, como fiel serviçal do Departamento de Justiça dos EUA, permaneceu na moita à frente do Ministério da Justiça, o que o iguala a seu chefe.

Enfim chegou ao fim uma “lua-de-mel” que nada tinha de “lua” e muito menos de “mel”. Pelo menos desde fevereiro de 2019 (apenas quarenta dias da posse), Bolsonaro e Moro já começavam a se estranhar e sabiam que esse relacionamento estava fadado ao fracasso. Porque ele fora concebido em meio a um contexto de refrega sórdida em que não havia construção, e sim destruição — e governar é sinônimo de construir, em todos os sentidos, inclusive da soberania do país. Chega a ser um mistério como possa ter demonstrado uma sobrevida de mais de 14 meses quando no segundo mês de governo as fissuras já estavam expostas...

Em plena expansão da pandemia de covid-19 no Brasil, numa recaída de seus acessos de inveja e ciúmes — porque em sua mente rasa só o próprio pode ser a constelação inteira para brilhar, como centro das atenções —, o atual inquilino do Palácio do Planalto decidiu, sem razões justificáveis, passar por cima do Ministro da Justiça e Segurança Pública para demitir o atual diretor-geral da Polícia Federal. Tudo para “blindar” o filho que vem sendo investigado (atualmente, pois em pouco tempo outro será a bola da vez, porque todos têm processos em diferentes instâncias), ou mesmo retaliação à atual coordenação da Lava Jato, que na segunda-feira emitiu nota repudiando as manifestações antidemocráticas das quais o ocupante do cargo mais importante da República participou e apoiou.

Dizer que um juiz experiente, com 22 anos de magistratura (seis dos quais sob os holofotes da mídia, que o transformou em herói enquanto viajava periodicamente à sede do império para receber as orientações e contatos, sob pretexto de fazer palestras ou cursos), foi vítima de sua boa-fé, isso é demais. Moro, a bem da verdade, em nada deve a Bolsonaro: ele é o responsável pelo desmonte do Estado Democrático de Direito com todo aquele séquito de imbecis “cançados” (com “c” dedilhado tamanha a sua ignorância idiomática, como ficou patente em cartazes com requintes de um glamour embolorado, com as fétidas fragrâncias de marcas importadas da perfumaria e das bebidas destiladas carcomidas pela obsolescência de um tempo anacrônico, que só existe em suas mentes obtusas).

Bolsonaro é quem deve a “eleição” a Moro, cujo comportamento flagrantemente parcial foi constatado por juristas do mundo todo, sobretudo pelos conservadores, que insistem em atribuir ao Estado, com todas as evidências de esgotamento de suas instituições, uma perenidade que a própria extrema-direita se encarrega de destruir, quando se declara “antissistema”, como os “discípulos” de Olavo de Carvalho, o “guru” da dinastia dos PR, patetas recalcados. Quem ainda insistir em padecer de santa ingenuidade pueril basta recorrer às inúmeras hemerotecas digitais (arquivos de edições das diferentes publicações nacionais e estrangeiras, em sua grande maioria antipetista) para relembrar a prática do nefasto legado de Joseph Goebbels, o homem da propaganda nazista de Adolf Hitler.

E, de tanto repetir a mentira, a farsa acabou virando “verdade”: o juiz que fez vista grossa aos envolvidos do Caso Banestado (como denunciou o pemedebista histórico Roberto Requião, ex-governador e ex-senador do Paraná, crítico incansável da política econômica da Presidenta Dilma Rousseff que nunca foi filiado ao PT) de repente vira herói, a despeito de existirem denúncias de que sua (sic) “conje” Rosângela Moro era sócia do escritório de advocacia especializado em acordos para delação premiada, que então inexistiam na jurisprudência brasileira. Da mesma forma, o “ovo da serpente” do fascismo brasileiro, o obscuro e obtuso deputado federal Jair Bolsonaro, acaba ficando “bonito na foto”, pela incompetência dos tucanos e seus comparsas, que perdem a corrida ao pote de ouro para um psicopata defensor de torturadores e de milicianos a quem até então ninguém, absolutamente ninguém, ousaria deixar transportar seus filhos em veículo por ele pilotado, digo, dirigido.

Se no plano dos amos e senhores da Casa Branca “daria tudo certo”, a realidade mostrou precisamente o contrário: a economia chegou ao colapso (antes da pandemia, basta ver os indicadores dos últimos 14 meses, até fevereiro, até por conta das provocações contra a China, maior parceiro comercial do país), a política ficou instável (pelo desequilíbrio do próprio chefe de Estado, que vive a fustigar seus aliados), a soberania nacional foi violada e estuprada (e, pior, nem com o ajutório dos Estados Unidos, conseguiram dar de presente a Embraer com todo seu know-how para a Boeing, estatal americana ligada ao setor estratégico do império). Em nenhum momento o herói de Curitiba foi capaz de auxiliar o seu chefe a não enveredar por tais caminhos mostrando-lhe a necessidade de preservar a segurança jurídica para afirmar o Brasil como nação séria, confiável e protagonista. Aliás, assim era vista no tempo em que Lula e Dilma foram chefe de Estado e de governo.

Agora não. A maior vergonha de qualquer cidadão consciente é ver aquele que se diz presidente a ofender a primeira-dama da França, presidida por um conservador (portanto, de direita); a debochar da menina sueca que se preocupa com o meio ambiente; a falar mal e descumprir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), da qual o Brasil é Estado-membro, em atitudes que mais lembram integrantes de hordas de recalcados/as a demonstrar uma força desnecessária e muitas vezes desproporcionais. Mas, quando esse mesmo ser bizarro vê o desqualificado presidente fraudulentamente eleito dos Estados Unidos (tal qual George W. Bush, o filho) parece entrar em catarse orgástica, sem qualquer pudor ou discrição, como o fez na Assembleia Geral das Nações Unidas, quando lhe disse “eu amo você”...

Este momento da história do Brasil me faz lembrar, mais uma vez, meu saudoso e querido Pai, que com muito humor recordava uma anedota árabe em que um beduíno brigava com seu camelo, que ficara emburrado e não queria prosseguir a viagem pelo deserto. Cansado das tentativas “inteligentes”, decide recorrer à força para demovê-lo de sua teimosia, mas é o beduíno que sai perdendo, porque o camelo lhe deu um coice certeiro que o jogou a alguns metros. Então, dando a mão à palmatória, reconhece: “Em força você me ganha, mas em inteligência estamos quites...”

Empate técnico entre Moro e Bolsonaro: “Em ardil você me ganha, mas em ética estamos quites...” Pobre país que precisa de heróis de barro, atolados na lama até o pescoço. E o pior, em plena pandemia da covid-19, em que precisamos de estadista, e não aventureiro de calças perdidas.

Ahmad Schabib Hany

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