sábado, 18 de maio de 2019

AULA DE CIDADANIA


AULA DE CIDADANIA

Neste 15 de maio de 2019, que passa para a História como Dia Nacional de Defesa da Educação, a juventude brasileira deu uma verdadeira aula de cidadania numa eloquente resposta a um sinistro da deseducação recalcado que tão logo assumiu começou a destilar fel e intrigas a queima-roupa. Além de fazer acusações levianas ao comportamento dos milhões de universitários e estudantes dos institutos federais de todo o País, Abraham Wintraub cortou (depois veio com essa de que “contingenciou”) mais de 30% das verbas discricionárias do orçamento da Educação, e teve o cinismo de dizer que a medida decorrera da (sic) “tragédia” causada pelos governos anteriores e, pior, que o mal-entendido foi fruto de má-fé da oposição ao governo de seu chefe.

Tal sinistro, tal tiranete... No exterior, mais uma vez, o capitão que foi sem nunca ter sido (era tenente quando lhe foi dada uma saída honrosa da caserna) usa os holofotes para mostrar seu despreparo, desequilíbrio e destempero (é o tal presidente 3D): em mais uma demonstração de total desconexão política, chama, logo cedo, antes do encerramento dos protestos, os manifestantes -- professores, pesquisadores, cientistas, estudantes, servidores da Educação e demais brasileiros de todas as idades e categorias profissionais -- de “idiotas úteis” e “imbecis”, e os desafia a irem pra cima dele.

Resultado: centenas de milhares -- senão milhões -- de brasileiros indignados retomaram, com civilidade, altivez e urbanidade, o protagonismo da história depois que energúmenos e assemelhados, como fantasmas saídos de uma anacrônica caixa de Pandora, começaram a desmontar o Estado brasileiro e a destruir todo o arcabouço jurídico nacional, construído com muito esmero e dignidade antes e durante a Assembleia Nacional Constituinte e os trinta anos posteriores, entre 1985 e 2018. Aliás, o que Wintraub chamou de tragédia em sua conturbada passagem pelo plenário da Câmara dos Deputados, no mesmo dia das manifestações, são as conquistas pós-1988, sobretudo os mínimos orçamentários constitucionais para a Educação, o fluxo financeiro fundo-a-fundo, as ações afirmativas (entre elas a política de cotas sócio-raciais e de acessibilidade econômica por meio das bolsas de permanência, de iniciação científica e de financiamento em instituições privadas), além do caríssimo princípio do controle social das políticas públicas.

A propósito, o que esse governo de recalcados fez até o momento, além de ficar espalhando “fake news” e discórdia pelas redes sociais e de destruir sem pudor nem comedimento tudo o que foi conquistado com denodo desde 1988, além de entregar a preço de banana o patrimônio brasileiro? Absolutamente nada, n-a-d-a... Movidos por um estranho ímpeto destrutivo e de vingança, em todo este tempo seus bizarros membros passaram brigando entre si, ofendendo o povo brasileiro dentro e -- principalmente -- fora do Brasil, como quando o atual ocupante do Palácio do Planalto teve a irracionalidade de dizer que o povo brasileiro precisava aprender com os israelenses a ser como eles são, ou como quando o ex-sinistro da deseducação Ricardo Vélez teve o despropósito de dizer que o brasileiro era ladrão e (sic) “canibal” e a nada comedida sinistra da Família Damares Alves, aquela que revelou ter encontrado “Jesus na goiabeira”, descobriu que as princesinhas Frozzen Ana e Elsa são (sic, sic) lésbicas...

Insuperáveis, mesmo, são as declarações do sinistro do Estrago Paulo Guedes, de que gostaria ver a fusão do centenário Banco do Brasil com o seu concorrente Bank of America (privado e altamente predador, um verdadeiro abutre das ações de empresas brasileiras estatais e privadas de capital aberto), do sinistro da Injustiça e Insegurança Pública Sérgio Conje Moro -- aquele super-herói decadente da Leva Jeito, lembram-se? --, de que na dúvida todo cidadão é suspeito até provar o contrário e de que os agentes de segurança estão liberados para executar as pessoas no exercício de suas funções “porque não dá para saber quem é bandido” (o que evidencia o total distanciamento dos cânones do Direito garantista que norteia a Constituição e o Estado brasileiro).

Daí que, como inimigos declarados da (sic) “balbúrdia” -- o delicioso burburinho da liberdade e do progresso, para nós, amantes da democracia e da Vida --, esses nefandos cultores da “paz dos túmulos” e proxenetas das trevas, verdadeiros mefistofélicos, se incomodam com a luz do saber, da ciência, da evolução. É que, simpatizantes dos ideais neofascistas (para não dizer medievais), têm como propósito maior nesta sua intervenção destruir o passado (a Previdência Social), o presente (a Saúde, a Assistência Social e os Direitos Humanos, sobretudo os trabalhistas) e o futuro (a Educação, a Cultura, a Ciência e Tecnologia e o Meio Ambiente). Em vez de civilização, querem a barbárie, para entregar as maiores riquezas do País -- o Povo e suas riquezas naturais -- a seus amos e senhores, sediados em Washington e Tel-aviv. Como, aliás, fizeram os colonizadores: “pagãos não têm alma, portanto não são dignos da vida”, segundo a História registra e não há como negar.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 14 de maio de 2019

TODO(A)S PELA EDUCAÇÃO!


TODO(A)S PELA EDUCAÇÃO!

Inicio este -- nas sábias palavras do sociólogo Herbert de Souza (o eterno Betinho) -- “texto indignado” fazendo um necessário e merecido tributo à cidadã exemplar, Mãe e Professora Ana Lúcia Espíndola, docente, com pós-doutorado, do Campus de Três Lagoas da UFMS e colaboradora do Mestrado em Educação do Campus do Pantanal, cuja eternização súbita e prematura empalideceu o tênue raiar das luzes nestes nefandos dias em que as trevas ameaçam voltar a se abater sobre a Nação, a despeito da incansável luta por liberdades democráticas e pelo Estado de Direito empreendida por gerações que, como a da agora saudosa Professora Analu, deram seus melhores dias para que o País voltasse a desfrutar dignamente tempos alvissareiros.

Consigna bastante entoada na década de 1990, “Todo(a)s pela Educação” foi um importante pólo irradiador pós-Constituição Cidadã, sobretudo durante o renhido processo de elaboração e negociações da atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, mais conhecida pela sigla LDB. Quem tem idade para ter participado da (ou mesmo assistido à) construção milimétrica daquele documento normativo da mais importante política pública de um país que se pretende soberano e civilizado, bem sabe que não é o ideal, mas foi o possível. E pareceria anacronismo voltarmos ao bordão senão vivêssemos um sórdido ataque ao sistema nacional de Educação, ferido de morte pelo criminoso corte de verbas promovido por um sinistro -- jamais ministro! -- declaradamente contra o desenvolvimento educacional, científico e tecnológico do Brasil, verdadeiro crime de lesa-pátria, e na véspera da mobilização nacional contra os cortes ameaça com repressão policial nas universidades e presença da Força Nacional na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Por essa razão, aliás, é que devemos ser Todo(a)s pela Educação, não só hoje, mas sempre. É inconcebível que, estando consignado na Carta Constitucional, de modo expresso e claro, que a Educação é direito do cidadão e dever do Estado, da sociedade e da família, cometa-se tamanha desfaçatez mediante subterfúgios de toda natureza e com o cínico pretexto de realizar contenção de verbas ao setor mais caro e estratégico de toda Nação que se pretende protagonista do processo civilizatório. É como se alguém, em nome de uma medida de emergência, deixasse de respirar para assegurar o prolongamento de sua própria existência: a educação está para a sociedade como o ar está para o corpo de um ser humano, é inimaginável abrir mão dele, viver sem ele.

Não é demais fazermos memória que o processo de elaboração da LDB, entre 1990 e 1996, foi renhido. Apesar de igualmente importantes e relativamente tensas, as construções das leis orgânicas que tratam da Saúde (LOS), da Assistência Social (LOAS) e dos Direitos da Criança e do Adolescente (ECA), por exemplo, não levaram tanto tempo (tanto é que são anteriores à LDB). E se formos ler sobre o processo de elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1962, veremos que ela levou aproximadamente treze anos para finalmente ser promulgada pelo Presidente João Goulart, que, como Dilma Rousseff (que também a tomou como sua prioridade em seu segundo mandato), foi golpeado em 1964.

Numa leitura mais criteriosa de nossa história, veremos que o Brasil foi a ex-colônia ibérica que mais demorou a criar universidades e escolas públicas, a despeito de sua riqueza e desenvolvimento material. Até fins do século XX o analfabetismo absoluto estava entre os maiores do continente -- isso sem levarmos em conta o analfabetismo funcional, perceptível até entre estudantes do ensino superior (e, sobretudo, detentores de altos cargos públicos hoje), para frustração dos dedicados profissionais da Educação. Para não dizer que os três emblemáticos educadores brasileiros -- Anísio Teixeira (assassinado em circunstâncias nunca elucidadas em 1971, auge dos anos de chumbo), Paulo Freire e Darcy Ribeiro -- são conhecidos e reconhecidos mais fora que dentro do Brasil, onde há quem os rotule de “comunistas” ou de “baderneiros” quando nunca o foram, nem de longe...

Sem risco de cometermos qualquer leviandade, uma sociedade cujas elites relevam a importância da Educação -- porque simplesmente a temem pelo impacto da transformação social que propicia -- e, pior, rotulam educadores e depreciam e desrespeitam os profissionais da Educação, não tem condições de se desenvolver de forma soberana, livre e sustentável, quanto mais nas áreas da cultura, ciência e tecnologia, como nunca estratégicas para as necessárias transformações que o País precisa promover para continuar inserido no disputadíssimo mercado mundial de nossos dias. Como o Brasil e, sobretudo, seu laborioso povo não se inserem nessa categoria, é hora de sermos, sem titubeios nem hesitações, Todo(a)s pela Educação -- pública, gratuita, de qualidade e para todo(a)s.

Ante o desmantelamento, por um governo constituído de um verdadeiro ajuntamento de medíocres, invejosos, frustrados e mal-amados -- fruto de um ardiloso golpe tramado acintosamente desde os Estados Unidos, onde se encontram os extremistas Olavo de Carvalho, Steve Bannon e John Bolton --, e a desestruturação deliberada das políticas públicas construídas com muito sacrifício ao longo destas três décadas do período constitucional pós-1988, não resta à cidadania outra medida que a rebeldia, a ira santa, a mesma que norteou a campanha pelas Diretas-Já e encerrou o ciclo autoritário instalado em 1964: todo apoio à mobilização do dia 15 de maio, em defesa do Estado Democrático de Direito. Todo(a)s pela Educação!

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 10 de maio de 2019

FARID YUNES, JORNALISMO COM CORAGEM


Farid Yunes, Jornalismo com coragem

Na mesma semana em que se silenciou o precoce Gianni Carta -- filho do grande Mino Carta --, o Jornalista Farid Yunes Solomini, diretor-responsável do Correio de Corumbá, eternizou-se, depois de uma longa e tenaz luta contra o diabetes, uma doença silenciosa que vitima grandes contingentes humanos. Viveu da mesma forma com que atuou na imprensa nas últimas décadas: aguerrido, incansável, determinado. Tal como no Jornalismo, na Vida ele foi um resistente solitário, um verdadeiro estoico na ciência da comunicação, tendo escolhido o lado da História, sobretudo em seus derradeiros anos, com bravura e dignidade.

Ainda jovem, início dos anos 1980, quando trabalhou como recenseador com duas de minhas Irmãs no primeiro Censo Demográfico do IBGE do então recém-criado Mato Grosso do Sul, em Corumbá, Farid revelou-se um eficiente companheiro de equipe, pois, com lealdade e compromisso, soube executar todo o seu trabalho com eficiência e humildade. Mais que colegas, ele ganhou amigos para a Vida toda. Do mesmo modo na imprensa, a despeito de seu jeito, no dizer de alguns colegas, polêmico, ofício que abraçou bastante jovem, contemporâneo de grandes comunicadores e jornalistas que marcaram, como ele, época: Edson Moraes, Gino Rondon, Jonas de Lima, Juvenal Ávila, o saudoso e querido Augusto Alexandrino dos Santos (“Malah”) e tantos outros não menos talentosos e importantes para a história da radiofonia e do jornalismo do País.

O querido Amigo e Jornalista Rodolfo Rondon, aliás, irmão do Gino, foi preciso em seu depoimento para a equipe da televisão Morena, que cobriu com dignidade a despedida ao agora saudoso Farid -- tendo mostrado, de forma isenta a completude de uma personalidade marcante, que por isso fez história --, ao lembrar com riqueza de detalhes episódios emblemáticos próprios da geração iluminada de que fez parte, e sobretudo assegurar plena liberdade: ser Jornalista não é apenas saber descrever ou até analisar o cenário de seu tempo, mas tomar o lado justo, como um educador e um cidadão deve tomar. Essa escola de jornalistas rastejantes ante o poder é coisa do passado...

Conheci o Farid quando, ao lado de seu também saudoso Irmão, o Jamil da Embratel, grande Companheiro de lutas que marcou sua trajetória na história, fazia parte da equipe da gloriosa Jovem Clube, e o igualmente saudoso e querido senhor Pedro Júlio (esposo da querida e saudosa Amiga Maria Auxiliadora Júlio, a Mana, e depois chefe da Embratel) era responsável técnico da emissora. Num tempo em que cobrir viagens de representantes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) era passível de punição, o então jovem repórter da Jovem Clube teve a coragem de entrevistar ao vivo, na chegada no Aeroporto Internacional de Corumbá, o seu xará Farid Suwan, então chefe do escritório de representação palestina em Brasília.

Já no início da Nova República, quando os ventos democráticos varriam o entulho autoritário do regime de 1964 e o Brasil se preparava para a Assembleia Nacional Constituinte, Farid integrou a equipe do Prefeito Hugo Costa, o primeiro a ser eleito pela via direta depois do Prefeito Breno Medeiros Guimarães. Apesar de todo o apoio conferido pelo primeiro governador eleito democraticamente da história de Mato Grosso do Sul, o saudoso Doutor Wilson Barbosa Martins, era um período muito difícil para Corumbá, cujos elos históricos com Cuiabá ainda eram fortes e todos os segmentos econômicos e sociais ainda se ressentiam da ruptura representada pela divisão de Mato Grosso, sobretudo o Pantanal.

Embora discreto, Farid estava conectado com importantes profissionais da imprensa na luta democrática, entre eles o querido e sempre combativo Jornalista Edson Moraes, um Companheiro que honra o cosmopolitismo e o vanguardismo de Corumbá em todos os tempos. Na luta pelas Diretas, era Farid e o também saudoso Roberto Hernandes, então cunhado do querido e saudoso Jornalista Márcio Nunes Pereira (à época repórter do Diário de Corumbá e fundador, com o cunhado, de A Gazeta, de breve existência, que funcionava em frente ao escritório do saudoso Doutor Joilce Viegas de Araújo), que se expunham na cobertura daquela celebração da cidadania, mas com poucas adesões em nossa região, em que a querida e saudosa Heloísa Urt, a Marlene Peninha Mourão, José de Oliveira e o Edmir Abelha Figueiredo de Moraes mobilizavam.

No segundo mandato do saudoso Prefeito Fadah Gattass, ao lado do querido Amigo Armando Carlos Arruda de Lacerda (então assessor especial), Farid, como secretário de Comunicação Social, deu todo apoio para a realização do pioneiro movimento pela preservação do patrimônio histórico e cultural de Corumbá, a Sociedade dos Amigos da Cultura (coordenada pelo saudoso senhor Lincoln Gomes), que, de 14 a 20 de setembro de 1991, realizou a I Semana da Cultura diante da Casa de Cultura Luiz de Albuquerque (o emblemático ILA), que parecia mais um mausoléu que um museu. Jamais iremos esquecer que a Prefeitura de Corumbá inaugurou seu moderníssimo sistema de sonorização, adquirido pela Secretaria de Educação e Cultura, com aquele evento de uma semana, e que teve como apresentadoras as queridas Amigas Nicole Kubrusly (à época apresentadora do jornal da então TV Cidade Branca) e a Doutora Sidnéia Tobias (a primeira titular da Delegacia da Mulher em Corumbá), sob a consigna de “abra seu coração para a cultura: adote o ILA!”.

Farid Yunes continuou à frente da Secretaria de Comunicação em todo o mandato do prefeito Ricardo Candia e em parte do primeiro mandato do prefeito Eder Brambilla. Nesse período, por conta da política, distanciou-se de seu Amigo Márcio Nunes Pereira, que como diretor-responsável do Diário de Corumbá, embora ainda se falassem cordialmente ao telefone, passou a adotar uma linha combativa em relação ao governo Pedro Pedrossian, ao qual Candia se aliara, sobretudo depois do leilão de privatização da Urucum Mineração S/A na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, em agosto de 1994. Com a eleição de Eder, que contou com o apoio do Doutor Joilce, houve uma discreta aproximação entre os velhos Amigos, mas logo Márcio se eternizou, em agosto de 1997.

Ainda que eu tivesse merecido um “puxão de orelha” na emblemática coluna do Farid certa ocasião (e, confesso, quando escrevi uma fonte próxima me havia assegurado que a nota que eu criticara não era de sua lavra, até por conta da maneira como havia sido escrita), quase sempre estivemos do mesmo lado, o da História, fosse na conquista das liberdades democráticas no início da década de 1980 ou na defesa do Estado Democrático de Direito e contra o golpe de 2016 recentemente, o que muito me conforta. Mas, neste momento em que se eterniza, me entristece muito, sobretudo do lado humano e profissional -- afinal, jornalistas com sua magnitude e coragem estão cada vez menos nas redações digitalizadas e, lamentavelmente, desumanizadas --, até porque ele merecia estar presente no momento da vitória contra as trevas que ameaçam se abater sobre a população brasileira neste triste momento de nossa história.

Felizmente Farid soube, também no âmbito de sua Família, formar com excelência cidadãos íntegros para que levem o bastião da vanguarda e da resistência que tão bem soube empreender sobretudo nestas décadas. Tenho a honra e felicidade de ter conhecido o Ale e sua Companheira, a Sílvia, há algum tempo -- precisamente há seis anos, quando da eternização do querido Malah, oportunidade em que criamos conjuntamente um blogue em sua memória --, o que me dá a certeza de que o Jornalismo combativo e formador de cidadãos continuará a iluminar as mentes carentes da boa informação em nossa região.

À querida Família Yunes nossos sentimentos e sinceros votos de resignação, na medida do possível, e o testemunho de que o eterno Farid fez história, com coragem e altivez. Força, muita força e resiliência neste momento de dor e saudade...

Até sempre, Farid, e transmita um fraternal abraço ao Márcio Nunes Pereira nesta sua nova jornada!

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Florestan narra bastidores da entrevista com Lula

Entrevista de Lula de 1981

ATÉ SEMPRE, QUERIDO JOAQUIM DO AMARAL!


Até sempre, querido Joaquim do Amaral!

Joaquim Ivan do Amaral. Um ser humano da maior dignidade e determinação. A Vida toda, sem titubeio, sobretudo numa sociedade em que medíocres oportunistas e hipócritas costumam ser os (sic) “vencedores”. Em todas as atividades a que se dedicou -- todas por meio de concurso público, sem apadrinhamento ou “empurrãozinho” -- destacou-se com brilhantismo e desenvoltura, fosse no curso universitário ou no serviço público, concluídos com excelência, a despeito de sua permanente luta por uma vida saudável.

Guerreiro de nascença, desde tenra idade lutou contra o diabetes, o que nunca o inibiu. Ao contrário, as limitações impostas pela dura realidade forjaram seu caráter e a disciplina invejável que sempre o levaram para frente. Quando tive a honra de conhecê-lo e à sua irmã caçula -- a querida Professora Márcia Ivana do Amaral --, por meio da igualmente querida e exemplar Amiga que a Vida me presenteou Mara Leslie do Amaral, estávamos em fins da década de 1980, precisamente no emblemático ano da primeira eleição direta para presidente da República. Esses dois Irmãos cursavam Biologia no então Centro Universitário de Corumbá (CEUC), da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), enquanto a irmã mais velha havia concluído Letras e fazia algumas disciplinas de História.

Confesso que tão logo conheci os três Irmãos (com letra maiúscula), tornei-me fã deles, tamanha a solidariedade ética e a dignidade que os unia, além do amor, obviamente, generoso, contagiante. A Vida me privilegiou um convívio próximo por quase dez anos, oportunidade em que pude testemunhar a honradez e a retidão de caráter dessa querida Família (novamente com letra maiúscula), em cuja história traz a marca do cosmopolitismo de além-fronteira: a saudosa e querida Dona Gueisa Montero Amaral e o igualmente saudoso Seu Oacir Amaral foram, mais que Pais, verdadeiros companheiros (no sentido mais amplo) de seus filhos, e essa lícita cumplicidade os tornou cidadãos a toda prova.

Pelo menos dois momentos da exemplar Vida de Joaquim não esqueço, e faço questão de deixá-los como testemunho da generosa e singular existência desse querido Amigo. Então orientando da querida Amiga Professora Maria Angélica de Oliveira Bezerra -- uma brilhante limnóloga que dedicou os melhores anos de sua Vida para o desenvolvimento da ciência e o progresso social de Corumbá --, o agora saudoso Amigo Joaquim desenvolvia uma pesquisa sobre a leishmaniose na cidade, que tomava ciência da gravidade dessa endemia. Recém-nomeado (por concurso público) no antigo INPS (atual Previdência Social, alvo da perversidade dos novos empoderados), dividiu o pouco tempo de que dispunha para poder realizar a sua pesquisa. Detalhe: como servidor da Previdência, não abriu mão de se sindicalizar desde que o glorioso SINTSPREV-MS foi fundado, nunca tendo recorrido aos favores de chefes ou colegas mais antigos que lhe “quebrassem o galho”...

Mas o que mais ainda me marcou foi o profundo amor por sua querida Filha quando nos encontramos num consultório pediátrico, alguns anos atrás. Recém-transplantado -- aliás, único sobrevivente de um doador de vários órgãos --, ainda estava convalescente e com a maior desenvoltura e afeto acompanhava sua Filha ao pediatra, pouco se preocupando com suas dores, evidentes. Joaquim não foi “apenas” Pai, foi um verdadeiro Anjo da Guarda das crianças que a Vida lhe concedeu ao longo de sua Vida, de modo que a pequena Companheirinha que é sua querida Filha é o ápice de um Amor (também com maiúscula) sem qualquer limite, com toda a generosidade que caracterizou seu proceder.

Por meio do querido Gabriel Amaral Marques é que fiquei sabendo, há pouco, de sua eternização precoce, no início de abril. Escrevo, pois, esta sincera homenagem como forma de manifestar minha desolação e minha infinita saudade por esse Amigo que a Vida me presenteou, bem como compartilhar com a Família, particularmente as queridas Márcia e Mara e a pequena Filha que com dignidade vivificará a presença dele entre nós, a admiração e a solidariedade dos que tiveram o privilégio e a honra de conhecer um ser humano de tamanha dignidade, honradez e generosidade.

Até sempre, querido Joaquim, e obrigado por ter existido!

Ahmad Schabib Hany

domingo, 5 de maio de 2019

Memória: Meus dias privilegiados ao lado de Gianni Carta (Matheus Pichonelli)


https://www.cartacapital.com.br/opiniao/memoria-meus-dias-privilegiados-ao-lado-de-gianni-carta/



Memória: Meus dias privilegiados ao lado de Gianni Carta

Matheus Pichonelli


Ele se tornou, para todos os que trabalharam com ele, uma referência, um amigo


Eu queria saber me despedir dos meus amigos sem precisar falar de mim e de tudo o que aprendi com eles, mas no caso do Gianni, que morreu neste domingo, por volta das 7h, em Paris, em decorrência de complicações de um câncer nas vias biliares, isso é quase impossível.
Em 2011, eu trabalhava como editor interino do site de CartaCapital enquanto esperava a chegada do novo chefe, que em breve assumiria o posto. O chefe seria o Gianni Carta, de quem até então só conhecia como leitor.
Os momentos que antecediam sua chegada ao Brasil, vindo da Europa, tinham a marca daquela tensão das novidades: o novo chefe, afinal, traria na bagagem uma larga experiência como correspondente, livros publicados, dezenas de entrevistas com figuras históricas. Como me comportar sem que parecesse, perto dele, um foca, como chamamos os jornalistas em começo de carreira?
“Fica tranquilo, ele é gente finíssima”, diziam todos os que o conheciam. Todos mesmo.
Mal sabia que estava prestes a ganhar muito mais do que um chefe – e não só porque se tratava de um chefe que delegava e perguntava nossa opinião antes de tomar qualquer decisão, coisa rara em qualquer profissão.
Durante meses sentamos um de frente para o outro e pude atualizar o conceito de privilégio. De onde estava, ficava admirado com a facilidade com que ele falava com meio mundo por telefone (em francês, inglês, italiano, espanhol; só dependia de quem estava do outro lado da linha).
Não tinha dia que ele não chegava com o jornal rabiscado, mostrando empolgado os assuntos do dia, mostrando qual tema poderíamos abraçar e contar do nosso jeito – no caso, nós, os “meninos do site”, um grupo que, como todos naquele início dos anos 2010, ainda não sabia exatamente para onde nos levava a tal da internet.
Um dia, vendo minha decepção ao ler os comentários de leitores a referendar as ideias (já então em voga) obscurantistas de um vereador que queria instituir em São Paulo um certo “Dia do Orgulho Hétero”, ele me perguntou: “por que você não escreve uma pensata sobre isso?”
Era uma sugestão pouco comum para quem, caxias como eu era, ainda andava abraçado aos manuais da impessoalidade jornalística debaixo do braço.
“Como assim pensata, Gianni? Não posso dar minha opinião. Isso me compromete”.
Foi então que ele me ensinou que o problema não era ter opinião sobre fatos, mas como as opiniões interferem nos fatos. Que podemos ser justos e honestos com o leitor quando expomos nossas convicções e deixamos claro o que pensamos e o quanto estamos abertos a novas ideias – inclusive para mudar de opinião.
Se não fosse essa conversa eu jamais teria feito qualquer texto opinativo no meio do noticiário – e é o que tenho feito, desde então, há mais de oito anos.
No breve período em que ele ficou no comando do site, fiz amigos para a vida inteira, muitos apresentados por ele. Tão Gomes Pinto, Edgard Catoira, José Antonio Lima, Fernando Vives, Maria Clara Parada, Clara Roman, Lino Bocchini, Gabriel Bonis e tantos outros que fizeram daquele site um espaço de debate dos mais aguerridos.
Tudo isso só aconteceu porque tínhamos o apoio, as orientações, a confiança do Gianni. Não é pouco.
Em pouco tempo, ele se tornou, para todos os que trabalharam com ele, uma referência, um amigo e um parceiro de viagens, como a que fizemos até Valinhos, onde fomos recepcionados como reis em um churrasco oferecido pelo Dó, velho amigo da família.
Quando ele decidiu voltar a Paris, fizemos uma grande despedida no bar onde rabiscávamos nossas ideias.
Foi a última reunião daquela turma que ele ajudou a formar. Mal sabia que, naquela noite, nos despedíamos também de uma época – uma época em que ainda era possível pensar em um país mais generoso, mais humano, mais elegante – como ele era.
De longe, seguíamos em contato. Foi do Gianni, de Paris, um dos primeiros telefonemas que recebi quando meu filho nasceu, prematuro, precisando de forças e bons pensamentos.
No breve telefonema, deu tempo de lembra-lo de uma antiga promessa: a de que ele faria o prefácio do meu livro quando finalmente reunisse todas crônicas (“pensatas”, como ele gostava de dizer) da nossa época para publicação em papel.
Pudera: ele foi peça fundamental para que elas surgissem. E vai seguir assim para sempre, guardado nas melhores lembranças. Junto com a saudade e a gratidão.


ESCRITO POR 
É formando em jornalismo e ciências sociais, foi editor-assistente do site de CartaCapital entre 2011 e 2014. Escreve sobre cinema, política e sociedade.

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