sábado, 8 de janeiro de 2022

OBRIGADO POR EXISTIR, JÚLIA GONZALES!

OBRIGADO POR EXISTIR, JÚLIA GONZALES!

Eternizaram-se Julinha Gonzales: Júlia do PT, Júlia da luta, Júlia da solidariedade, Júlia do acalanto, Júlia do acolhimento, Júlia da labuta, Júlia da moradia, Júlia do sindicato, Júlia da família, Júlia da sabedoria, Júlia da APA Baía Negra, Júlia da ASSUFMS, Júlia das conquistas coletivas e Júlia da esperança...

Eternizaram-se, neste fatídico Dia de Reis, Júlia Gonzales, do Coração do Pantanal e da América do Sul, do sol e do sal... Sim, no plural, porque Júlia é muito mais que uma, são várias guerreiras em uma só: do PT, da luta pela moradia, da solidariedade, do acalanto, do acolhimento, da labuta, do sindicato, da família, da sabedoria, da ASSUFMS, das conquistas coletivas e da esperança. Plural, diversa, mas íntegra, única e de caráter. Eterna e terna...

Por meio de uma breve mensagem da Professora Francy Laura de Moraes, uma das Filhas da Julinha, tomei conhecimento da eternização dessa incansável guerreira cujo legado de lutas e desafios permanece incólume no cotidiano cidadão em Corumbá e Ladário. A Professora Francy Laura, em 2019, fazia Mestrado em Educação, e foi graças a ela que pude rever, por derradeira vez, a Julinha. Era novembro de 2019. Na ocasião, ela ficou de nos visitar em casa, mas com a pandemia esse compromisso acabou sepultado pela Vida, que, como disse Paulo Freire (também guru da Francy), não tem ensaio. Pois hoje, cá estamos, a lamentar a ausência da Julinha e reverenciar seu legado, único como ela.

Tive a honra e privilégio de conhecer a querida e agora saudosa Julinha em meados da década de 1980, à época jovem servidora do CEUC (atual CPAN da UFMS). O Brasil então se reencontrava com a sua História, e os eleitores dos municípios privados de eleger seus prefeitos pelo voto direto e secreto durante o regime de 1964 foram à êxtase nunca antes experimentada. Em Corumbá, por 21 anos sem votar para prefeito (das cidades de área de segurança nacional, estâncias hidrominerais e capitais os prefeitos eram nomeados, por meio de lista tríplice, pelo general-presidente de plantão), em 1985, eram cinco candidatos, entre eles o Professor Jorge Panovich (lembrado quase 40 anos depois pela panela vazia), que contava com o entusiástico apoio de sua correligionária Julinha.

Graças à gentileza do Jornalista Luiz Taques, então correspondente em Campo Grande da Folha de Londrina, tive a oportunidade histórica de assistir à entrevista de Jorge Panovich, ao lado da esposa, Rosa Panovich, e do candidato a vice, Saturnino Casanova. Seguidor de Paulo Freire, ainda proscrito em sua própria terra, Panovich expunha uma agenda ousada para a época, dando ênfase à educação popular e à cultura pantaneira, sobretudo, dos ribeirinhos. Repórter sagaz, o Amigo Taques não perdera a oportunidade de questionar seu passado na Arena Jovem, em que intelectuais corumbaenses também se envolveram. O Professor Panovich não se constrangera e disse que se tratou de equívoco de uma geração oriunda de famílias conservadoras, mas que naquele momento ele estava para dar um novo rumo à história de Corumbá.

O mesmo impacto quando de meu primeiro contato com Dona Eva Granha de Carvalho, Marlene Terezinha Mourão (a grande Peninha) e a saudosa Heloísa Helena da Costa Urt – todas elas únicas, grandes mulheres, guerreiras incansáveis e fundadoras do PT – tive quando conheci a então jovem e determinada Julinha no CEUC (atual CPAN / UFMS), em meados de 1985. Sincera e inquisidora, ela me questionara por não estar envolvido na campanha do Professor Jorge Panovich e de seu vice, o também Professor Casanova. Em respeito a ela e à minha amizade com diversos Companheiros de luta, dei as minhas razões, mas para ela não foram convincentes, pois numa atividade do CEUC, semanas depois, deixou claro que com ela não havia meia amizade: ou estava na luta, ou dizia qual era o seu papel na história.

Só passei a merecer alguma consideração da Julinha quando me viu, durante o segundo turno da campanha presidencial de 1989, num debate em que Lula enfrentou Collor, o candidato da Globo. Desde então parece que passou a me considerar digno de confiança. E com toda razão: durante o regime de 1964, eram muitos os X-9, sempre batendo nas costas dos que tinham coragem de se expor, com a nefasta função de levar relatórios sórdidos para seus chefetes de plantão. Ela, como uma aguerrida lutadora, não aceitava condutas como essas. Mas só me chamou de companheiro em 1998, quando da renhida campanha de Zeca em Corumbá, e o Pacto Pela Cidadania realizara, em três meses, seis Encontros da Cidadania, cujo ápice ocorreu no antigo anfiteatro do CEUC por ocasião dos cinquenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em dezembro daquele ano.

Num tempo em que o PT fazia promoções para bancar suas campanhas, Helô, Peninha, Dona Eva e Julinha, ao lado de outras grandes mulheres e homens, realizavam atividades dignas de registro: os canapés inesquecíveis eram pretexto para encontros políticos produtivos, em que ideias inovadoras traziam alternativas para uma sociedade engessada e cheia de nós burocráticos. Creio que foi Helô quem teve a ideia de propor à Julinha integrar o MNLM (Movimento Nacional de Luta por Moradia), de cuja coordenação regional foi membro memorável. Da mesma forma, esteve à frente da luta pela implantação da APA Baía Negra (para dar lugar a um dos elefantes brancos da ditadura, a CODRASA, que deveria ter abrigado um pôlder para o plantio de arroz irrigado, a um custo megalomaníaco, que ficou impune). Não só conseguiu transformar a realidade, como liderou as famílias de ribeirinhos e lhes proporcionou inclusão, cidadania e dignidade a toda prova.

Julinha não tinha qualquer apego pelo poder. Seu oxigênio eram as lutas sociais, das quais nunca se afastou. Foi fundadora da Associação dos Servidores da UFMS (ASSUFMS) e uma das dirigentes até pedir exoneração da UFMS, ainda na década de 1990. Colocou sua experiência sindical a serviço dos trabalhadores rodoviários (o pessoal do transporte coletivo urbano) durante a gestão do João José (o JJ), sem mesquinharia nem protelação (como o Professor Raul Delgado comprovou em um de seus videodocumentários que nos compartilhou em homenagem a ela, que aparece aos 25 minutos de exibição com um discurso contundente em que condena ausência de políticas sociais do ‘Brasil Novo’ de Collor, as políticas recessivas e a exclusão social, disponível neste link <https://youtu.be/y84iWtWOvL4>).

Quando uma líder autêntica, ativista incansável, mulher empoderada, trabalhadora destemida e, sobretudo, Companheira (com letra maiúscula) solidária e acolhedora como Julinha encerra a sua sagrada jornada e sai de cena, perdemos todos um grande pedaço de nós mesmos, inclusive os eventuais desafetos, porque com a sua dedicação, o seu aporte sincero, é toda a sociedade a que se beneficia, sobretudo as novas, futuras gerações que terão o privilégio de conhecê-la graças aos inúmeros registros, inclusive belos documentários produzidos profissionalmente, com justiça e reconhecimento.

Com sinceridade, quando um Amigo muito querido fez o Mestrado, eu torci para que ele, formado em Jornalismo por uma das maiores faculdades de Comunicação Social do Brasil e em História em nosso glorioso CPAN/UFMS, fizesse sua pesquisa de pós-graduação com base na luta, na trajetória vitoriosa, de nossa sempre aguerrida e iluminada Julinha. Só recentemente é que me disseram que trata da produção literária underground de nossa região de fronteira, que, como bem pesquisou e documentou o Professor Waldson Diniz em sua tese de Doutorado na USP, é pródiga para dar invisibilidade a amplas camadas sociais, como os bolivianos, sujeitos de sua pesquisa pioneira e corajosa.

Até sempre, Julinha, e obrigado por existir, por dar visibilidade à mulher combativa do povo pantaneiro, à trabalhadora destemida que não tem medo de cara feia e muito menos de jagunço metido a ‘macho’, que se borra todo (este ‘macho’) diante do desafio de uma lutadora consciente e digna de seu valor como Você! Nossa sincera solidariedade à sua querida Família e às suas grandes Companheiras de luta e de fé por uma sociedade mais justa, por um mundo melhor. Que os vereadores de Corumbá e Ladário denominem logradouros públicos em sua honrada memória. E que a festa na Eternidade, ao lado da igualmente querida e saudosa Helô Urt, tenha os acordes do querido Mestre Agripino Magalhães, ao ritmo do rico cururu pantaneiro...

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

PROTELAÇÃO CRIMINOSA (ou TARADO POR MORTES)

Protelação criminosa (ou Tarado por mortes)

Depois de 20 dias de vergonhosa protelação, somente na antevéspera do Dia de Reis é que Queiroga e os lunáticos que o comandam autorizaram a inclusão da população infantil. Com isso, a partir de 15 de janeiro as crianças do País poderão ser vacinadas, tendo sua segunda dose praticamente dois meses depois, isto é, desde março, quando as aulas já terão começado.

Neste Dia de Reis, tínhamos nos determinado a compartilhar uma homenagem ao Jornal que nas décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000 incomodou – ou, melhor, abalou – certos ‘paladinos’ da administração pública regional e estadual com muito faro investigativo, originalidade e, sobretudo, irreverência. Trata-se do combativo Diário de Corumbá, cuja consigna é Um jornal se mede pelas verdades que diz, adotado pelo saudoso Jornalista Márcio Nunes Pereira do igualmente emblemático Jornal do Brasil da década de 1970 (época em que o saudoso Jornalista Alberto Dines era seu editor). Reinaugurado pelo brilhante Jornalista Carlos Paulo Pereira em 6 de janeiro de 1969 (data em que Márcio comemorava seus 15 anos), o Diário de Corumbá circulou, ainda que com imensas dificuldades, até a década de 2000, tendo sido uma verdadeira escola de Jornalismo nas referidas décadas, como provam os Jornalistas (com letra maiúscula) Adolfo Rondon, Edson Moraes, Montezuma Cruz e Clarimer Meira Navarro, além dos saudosos Roberto Hernandes, Onésimo Filho, José Jorcêne Martinez, entre tantos igualmente brilhantes.

Gostaríamos começar 2022 saudando a querida memória do saudoso Amigo e incansável Companheiro Padre Pasquale Forin, eternizado em 10 de janeiro de 2021 por causa da covid-19, bem como iniciativas benfazejas, solidárias, enfim, de empatia e esperança. Mas como deixar de registrar o absurdo que só lunáticos são capazes de protagonizar, como a, mais que vergonhosa, criminosa protelação do início da vacinação da população infantil, por meio da desgastadíssima figura patética de um médico que não hesitou em rasgar seu diploma para agradar um ser insensível, desmiolado e perverso.

Quando a ANVISA autorizou a aplicação da versão infantil da vacina da Pfizer, em 16 de dezembro, o cenário sanitário do Brasil era menos crítico que hoje, agravado pelo surto epidêmico da gripe influenza e sua variante H3N2 (que já causou mortes por todo o Brasil, inclusive Corumbá), pela maior virulência da cepa Omicron do novo coronavírus (ainda um enigma em relação às outras variantes) e o relaxamento igualmente criminoso de muitas autoridades estaduais e municipais durante as festas de final de ano. Se não as suas consciências, eventuais processos judiciais tirarão a aparente tranquilidade e o sono dessas autoridades que fazem o jogo de negacionistas travestidos de ‘empresários’.

Ainda bem que Corumbá tem a sorte de ter um gestor da Saúde como Rogério Leite – e Mato Grosso do Sul um gestor estadual como Geraldo Rezende –, cuja determinação no enfrentamento da pandemia tem sido digno de registro. Precisa, apenas, determinar o aumento do número de testes para a covid-19 oferecidos nas UBS (terças e quintas, para apenas cinco pessoas-dia). São poucos os gestores que têm a coragem de enfrentar a pressão dos mais diferentes setores, sobretudo empresarial, político e neopentecostal, declaradamente determinados a combater as medidas de distanciamento social e os protocolos de biossegurança. Na capital, Rezende foi acuado pelas hordas negacionistas meses atrás, quando defendia a adoção do passaporte vacinal e foi alvo de ofensas pessoais, o que revela a verdadeira índole desses ‘patrioteiros’ e sua autodeclaração de ‘cristãos’ (entre aspas, por favor).

Se isso fosse tudo, nesta quinta-feira, depois de sua farra de final de ano (porque quem não trabalha, e ele só atrapalha quem trabalha, não tem férias), chama os que tiveram coragem de se contrapor a ele e defenderam a adoção da vacina infantil de ‘tarados por vacinas’ e, pior, duvidando de sua idoneidade. Com ele sempre foi assim, nazifascista há décadas que é, não argumenta nem contra-argumenta: só sabe xingar, ofender, atingir a dignidade de quem pensa diferente dele. Tanto que seus séquitos (a partir de Bia Kissis) divulgaram criminosamente dados pessoais dos pesquisadores que participaram digna e corajosamente da tal audiência pública insólita que derrotou a farsa plantada.

A propósito, o que mais temos visto desde 2016 foi um bombardeio de mentiras atrás de mentiras. Dá para esquecer que o ‘mito’ se valeu do cargo para espalhar tanta inverdade cabeluda, como se padecêssemos de um mínimo de inteligência? Tanto que nestes dias, o Professor José Fernandes (do Portal do José), por ocasião da ‘entrevista coletiva’ (sic) em que um camarão foi o centro das atenções, lembrou os desavisados a procurar na Bíblia um versículo bastante revelador: João 8:44 (que conclui com “o Diabo é mentiroso, pai da mentira”). O combativo Professor José prestou um grande serviço para desmistificar os tais paladinos da verdade às avessas...

A bem da verdade, quem ele pensa cativar com tantas aberrações? Enquanto tira férias sem merecer, o sul da Bahia e parte de Minas Gerais (e agora outros estados, como Goiás, Tocantins, Pará e Maranhão) vitimados pelos efeitos do fenômeno La Niña e das mudanças climáticas para cuja intensificação seu desgoverno contribuiu com sua política do ‘passa boi, passa boiada’. O Brasil vivendo uma nova onda de quase exaustão do SUS e ele na comilança, a ponto de precisar de atenção médica exclusiva que uma boa parcela da população brasileira não tem (e, pior, fazendo papel de autocomiseração, quando ele como chefe de Estado deveria estar levando sua solidariedade a todos os que vivem este drama, como nas demais nações do mundo em que elas acontecem).

Isso já está consignado nos anais da História. Seu lugar, aliás, está reservado ao lado de figuras patéticas como Nero, Hitler, Mussolini, Franco, Salazar, Pinochet, Stroessner, Banzer, García Meza e similares. Uma vergonha para os que estufavam o peito em 2018, atribuindo as mazelas sociais do País à ‘perversidade’ da esquerda brasileira, sobretudo ao Partido dos Trabalhadores. Na verdade, tudo o que atribuíam ao PT foi praticado com o maior acinte pelo ‘mito’ que eles idolatraram. Pior: o capitão que fracassou na caserna conseguiu engolir seus blefes de campanha, como a ‘eliminação’ do centrão na política brasileira, seus atuais salvadores, pois só graças ao centrão está sobrevivendo a tantas portas que o próprio fechou para si e os seus...

Que fique, pelo menos, a lição para as futuras gerações: na História, como na Vida, não há super-heróis nem ‘mitos’ que operem ‘milagres’. Para quem tem fé – ainda mais hoje, em meio a tanta adversidade bestial –, sabe que milagres só podem ser operados pelo Divino, Criador, Ser Supremo (qualquer que seja o nome, mas sagrado), e não por aventureiros mentirosos que estão mais para satânicos que para qualquer divindade digna do nome... Feliz 2022, Vida longa e muita saúde!

Ahmad Schabib Hany