domingo, 12 de dezembro de 2021
quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
Emel Mathlouthi - Naci en Palestina آمال مثلوثي
terça-feira, 7 de dezembro de 2021
“E AO MAU SÓ O CARINHO O TORNA PURO E SINCERO...”
“E
AO MAU SÓ O CARINHO O TORNA PURO E SINCERO...”
“Y al malo solo el cariño lo vuelve puro y sincero…” Imortal compositora chilena, Violeta Parra compôs
em plena maturidade “Volver a los 17”, de cujos versos extraí o fragmento que
intitula este texto. Mais que justo reconhecimento (e homenagem), é porto
seguro para a travessia necessária, para alimentar nossas almas...
A despeito da censura criminosa imposta pelas
ditaduras sanguinárias das décadas de 1960, 1970 e 1980, a juventude
desassossegada pôde desfrutar da genialidade e coragem de cantores,
compositores, atores, dramaturgos, maestros e arranjadores que ousaram desafiar
os carrascos que posavam de ‘salvadores da pátria’. Ora pelas ondas do rádio ou
pelo curso da Vida, que, como a História, não tem amos nem senhores; nem lacaios
ou serviçais.
A vantagem de viver em fronteiras de largos
horizontes, como a Corumbá cosmopolita de então, foi ter podido desfrutar,
ainda que com muita discrição e prudência, da genial criação desses seres
iluminados que a Vida generosamente nos propiciou. A humilde hospedaria com que
meus Pais proveram nossa sobrevivência e formação, sem dúvida, foi um
emblemático local de sucessivos encontros fortuitos com pessoas que de hóspedes
casuais se tornariam Amigas para o resto de nossas Vidas.
Entre elas, Estela Martínez, jovem artista
plástica chilena, que, impressionada pela história de meu Irmão Mohamed, pintou
uma tela em sua homenagem, mas que precisou fugir de seu país para permanecer
viva; o querido e agora saudoso Jorge Ocampo Claros, estudante-convênio de
Pedagogia no Centro Pedagógico de Corumbá (UEMT), com quem trocávamos fitas de
músicas e livros ‘proibidos’; o sempre lembrado João Batista (sem a letra ‘p’)
Figueiredo, curiosamente homônimo do general-presidente que viria a suceder
Ernesto Geisel a partir de 1979, hippie
e ex-membro do movimento estudantil do Rio e cuja linda Companheira (Leila, Mãe
de Brisa e de Índia) era Amiga de Cláudia Lessin Rodrigues, uma das mais
antigas vítimas de feminicídio no Brasil; Denise Abranches, ex-estudante de
História e cineasta nos Estados Unidos, que se refugiou em 1968 para não ser eliminada
por participar da resistência ao regime no Rio; a farmacêutica Maria da Graça
Leão (Mãe do Sidney, da Savana e da Manuela), que trocou Alfenas por Corumbá e
que foi Companheira do cantor e compositor Sidney Rezende, até se mudar para
Cáceres (Mato Grosso); o saudoso Leodevar Rodrigues Jardim, ex-estudante de
Agronomia em São Paulo que, para sobreviver, foi trabalhar na Codrasa (Ladário)
como almoxarife e depois como cozinheiro, e por meio de quem fiz Amizade
(dessas com letra maiúscula) com o querido e saudoso Doutor Márcio Toufic
Baruki, bem como com o Tarcísio Nozé e a Guta, sua jovem Companheira,
apresentados por ele.
Obviamente, em Corumbá os jovens radialistas Juvenal
Ávila de Oliveira, Edson Moraes (na época assinava com a preposição ‘de’ antes
do Moraes, até porque o nome completo é Edson Henrique Figueiredo de Moraes) e Augusto
Alexandrino dos Santos (o querido ‘Malah’, que se eternizou em junho de 2013,
em Campo Grande) ousavam caminhar no fio da navalha e, nos estúdios das
emissoras Difusora e Clube (só AM), davam verdadeiras aulas de cultura popular
e até de contra cultura, que no Brasil foi representada pelo genial movimento
da Tropicália. Importante frisar que Juvenal inovou quando assumiu a direção
musical da Rádio Difusora Mato-grossense S/A, ao registrar, além do intérprete,
a autoria da composição, o gênero e o selo fonográfico, despertando, assim, no
ouvinte o interesse pela história da Música Popular Brasileira e demais gêneros
musicais – isso sem falarmos da excelente seleção musical, digna da radiofonia
nacional de vanguarda.
Nessa época, as duas únicas emissoras de rádio de
Corumbá tocavam, além do entulho da indústria fonográfica (chamado de ‘sucessos’,
por meio do velho esquema do ‘jabá’), as pérolas da Música Popular Brasileira e
da música latino-americana (na grande maioria regravadas por Elis Regina,
Simone, Milton Nascimento, Chico Buarque, Gal Costa, Maria Bethânia, Fátima
Guedes – irmã do saudoso Beto Guedes –, Vanusa e Cláudia, com sua inesquecível “Não
chore por mim, Argentina”, um tributo à Evita Perón, uma espécie de mártir do
Povo Argentino).
Ao lado de “Gracias a la Vida”, também de Violeta
Parra – eternizada no Brasil na voz de Elis –, “Volver a los 17” – e que no
Brasil a belíssima interpretação de Milton e Chico se encontra na memória e no
coração dos jovens de então – é composição que constitui o cerne do cancioneiro
libertário de nossa América Latina. Este subcontinente que resiste, na medida
do possível, incólume às investidas torpes de estúpidos fantoches do império
fétido, ávido por nossas riquezas desde os malditos tempos coloniais.
Tanto uma como outra composição permanece atual
nestes tempos sombrios. Porém, o mais triste é que, como nunca, queridos
Companheiros e Companheiras com quem há pouco, inclusive, continuávamos a
empreender pelas transformações tão necessárias, dão a impressão de se haverem
cansado da luta, indo na contramão da História. Explico: neste momento de
frente contra o fascismo, de unidade pela defesa do Estado de Direito – ou, melhor,
do Estado Democrático de Direito, como consta da Constituição Cidadã –, é
preciso ter generosidade e grandeza para não cairmos em ciladas e fazermos o
jogo dos arremedos de fascistas encastelados.
“Gracias a la Vida / que me ha dado tanto / me dio el
corazón / que agita su marco / cuando miro el fruto / del cerebro humano / cuando
miro al bueno / tan lejos del malo…” Pois é. Precisamos não perder a
sensibilidade para saber distinguir as pessoas boas, tão distantes das más. Não
esqueçamos, contudo, de que “ao mau só o carinho o torna puro e sincero”...
Ahmad
Schabib Hany
sábado, 4 de dezembro de 2021
quarta-feira, 1 de dezembro de 2021
ADILSON LOBO, ETERNAMENTE IRREVERENTE
ADILSON
LOBO, ETERNAMENTE IRREVERENTE
“Nem gato, nem rato: Lobo é o
candidato!” Esse era o mote da campanha idealizada por ele mesmo. Homem de
rádio e da estrada por décadas a fio, Adilson Lobo encerrou sua jornada com a
mesma discrição com que viveu.
Meu querido Amigo-Irmão-Companheiro-Camarada Edson
Moraes tem a virtude de ligar em momentos que nos chamam para a realidade, para
a grandeza deste Planeta, desta Humanidade, deste Povo Brasileiro (usando e
abusando das maiúsculas, merecidamente). Nesta terça-feira, quando ligou,
estava debruçado sobre uma pesquisa interessantíssima de um novo Mestre,
pós-graduado em nossa UFMS, oriundo de Moçambique (seu nome não vem ao caso,
até porque não tenho autorização para esse tipo de informação, que a
coordenação do Mestrado em Educação, se entender conveniente, pode fazer). Mas,
nos poucos minutos que pôde dedicar à sua ligação comigo, me colocou a par de
muita coisa -
a que neste momento me cabe compartilhar, muito triste, é a da eternização, no
ano passado, do querido radialista e cidadão do mundo Adilson Lobo, irreverente
e sempre bem-humorado, até com a própria desgraça...
Adilson Lobo era Irmão do grande radialista que
desde 1980 se encontra em Cuiabá, o Ademir Lobo, e também do sempre candidato a
prefeito Antônio Lobo pelo PSB, advogado, funcionário do Ministério do Trabalho, que
decidiu se mudar de Corumbá assim que se aposentou, há alguns anos. Adilson,
que foi Companheiro de minha querida Amiga e Colega de Ginásio Alzira, tinha um
Neto que era colega de minha Caçulinha, no Colégio Objetivo, o que sempre nos
permitia reencontrarmos, mas isso era antes da pandemia.
Como eram três os irmão Lobo na radiofonia
corumbaense dos fins dos anos 1960, Ademir e seu vozeirão peculiar eram os mais
notados, cabendo aos dois outros irmãos o papel secundário, de produtor e de
contato comercial. Mas quando, por algum motivo relevante, Ademir não podia
estar no ar, os dois se revezavam para segurar a audiência. O fato é que
Adilson era, com sua irreverência, um genial criador de ‘slogans’ que em tempos
de conectividade de hoje teriam viralizado. Pena que foram outros os tempos
dele.
Um de meus encontros derradeiros com Adilson Lobo
foi no início do ano letivo de 2020, pouco antes da pandemia impor a mudança de
nossas rotinas. Ele me contara que estava decidido a lançar sua candidatura a
prefeito de Corumbá, e, irreverente como sempre, anunciou seu ‘slogan’ (mote de
campanha): “Nem gato, nem rato: Lobo é o candidato!” Foi uma gargalhada
geral...
Pelo que fiquei sabendo, ele não teve tempo de
participar do processo eleitoral, embora tivesse registrado a chapa completa
por um desses partidos novos, sem grande expressão - o
que pouco interessava a ele, pois o que queria, mesmo, é ‘causar’, provocar.
Próprio de sua personalidade, ele era a irreverência em pessoa. Acredito que
nesse encontro, na saída dos alunos da escola, a saudosa Professora Terezinha,
que já foi candidata a prefeita em 1992, estava entre as pessoas que o ouviram
anunciar seu ‘slogan’. Chegou a me pedir ‘algumas ideias’ para seu programa de
governo, que, segundo os dirigentes de seu partido em Corumbá, registrariam em
cartório, como uma vez o também falecido ex-prefeito e candidato algumas vezes,
empresário Ruy Waldo Albanese, fizera em 1992.
A pandemia, aliás, lhe tirou o chão, pois estava
por assumir um horário alternativo na FM Pantanal, segundo me dissera, e andou
trocando ideias comigo com o intuito de fazer um ‘espelho’ (na verdade, um
projeto-piloto). Com a pandemia, seu projeto radiofônico ficou para a posteridade...
Uma pena, porque ele era incansável e genial, teria sido um momento de
descontração no horário em que as rádios perdem audiência para as novelas da tarde/noite.
Triste coincidência, mas ele e o querido e saudoso Padre Pasquale Forin se
eternizaram no mesmo período. Provavelmente, estejam se dedicando a algum
projeto de comunicação na outra dimensão, eis que tarimba não há de faltar...
Pois é. Adilson Lobo, cuja voz acalentou sonhos na
radiofonia da Corumbá cosmopolita, se silenciou sem que tivéssemos tido a
oportunidade de transmitir à sua querida Família nossa solidariedade. Até
sempre, querido Amigo, e que em alguma dimensão possa tornar realidade tão
bonito projeto (o do programa de rádio, até porque o outro, da candidatura, não
tive o prazer de conhecer)!
Ahmad
Schabib Hany


