quinta-feira, 11 de julho de 2019

OBRIGADO POR TUDO, PAULO HENRIQUE AMORIM!


Obrigado por tudo, Paulo Henrique Amorim!

Neste funesto dia 10 de julho de 2019, a eternização súbita do incansável repórter Paulo Henrique Amorim nos levou -- aliás, levou a cidadania -- a um quase nocaute literal. Não bastasse o estupro parlamentar para acabar com a previdência social, a tragédia anunciada pelo (des)governo dos que tomaram de assalto os destinos da nação desde 2016. Afinal, o golpe se consolidara com a destituição da primeira mulher eleita e reeleita da história do Brasil, avançara com a prisão em segunda instância do primeiro presidente operário e se legitimara por meio de uma sucessão de ilegalidades com a vitória de Pirro do pai dos três parlamentares que, iguais ao progenitor, dizem não serem políticos. O que serão, então?

O impacto causado pela notícia da perda irreversível e definitiva de um dos dez maiores Jornalistas (com letra maiúscula) da história do Brasil quase nos fez perder o entusiasmo juvenil de vivermos a plenitude do Estado Democrático de Direito que nossas gerações conquistaram com muito empenho e renúncia. É que o conhecemos, não pessoalmente, mas por meio das saudosas revistas Realidade, sob a direção de Luis Carta, e Veja, de Mino Carta, na melhor fase da falecida Editora Abril, quando ainda éramos crianças e privilegiados por termos Pais e Irmãos conectados com o de melhor da produção editorial da América Latina, e acompanhamos num crescendo a trajetória exitosa desse talentoso profissional da imprensa brasileira que nunca se vendeu em troca de um efêmero sucesso.

São inesquecíveis seus ricos textos (e memórias) como correspondente em Nova York da Realidade e da Veja na cobertura da trágica (pelo assassinato de Robert Kennedy) e tumultuada campanha eleitoral na sucessão de Lyndon Johnson --  vice guindado à presidência dos EUA com o assassinato nunca elucidado de John Kennedy, responsável pela dedada no Brasil em 1964, por meio de seu embaixador Lyndon Gordon, como provou dez anos depois o historiador estadunidense Thomas Skidmore em seu “Brasil: de Getúlio a Castello (1930-64)” --, ao lado do também jornalista Carlos Lacerda, o erudito e elegante ex-conspirador do golpe contra João Goulart, sobre o qual lhe confidenciara ter reatado relações pessoais durante a tentativa de construir a frustrada “Frente Ampla”, com Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, antes do endurecimento da ditadura militar, segundo narrou nas páginas introdutórias de seu “O quarto poder: uma outra história”.

Sua passagem pelo saudoso Jornal do Brasil (tempo de Alberto Dines), no jornalismo econômico (em que introduziu importantes inovações no “Informe econômico”, inclusive a irreverente criação de “raposa felpuda”) e mais tarde pela editoria de Economia da Rede Globo foi impecável, a despeito da censura rigorosa da família Marinho, em que o patriarca Roberto era o principal telespectador e avaliador de seu trabalho. Não tiro da memória a memorável aparição dele e de seu xará Paulo Francis durante a deflagração da “Tempestade no Deserto” (nome dado à invasão e destruição estadunidense do Iraque em 1990): apesar do passado trotskista de Francis (ex-membro d’ O Pasquim no tempo de Tarso de Castro, Millôr Fernandes e Jaguar, e da Folha de S.Paulo no tempo de Claudio Abramo e Nelson Merlin), era PHA (sigla com que foi também conhecido) quem fazia uma análise digna do velho Le Monde.

A bem da verdade, sua iniciação no jornalismo econômico se deu quando deixou a Veja e migrou para a (antiga) revista Exame, tendo sido seu primeiro diretor de redação, ainda dentro da extinta Editora Abril (tempo de Victor Civita, o fundador, ao lado de Luis Carta, Domingo Alzugaray e Odylo Costa, filho). Durante seu breve tempo de primeiro diretor de redação dessa revista é que ganhou autonomia e marcou seu estilo preciso, twitteriano e solto, beirando a irreverência. Esse estilo retorna quando de sua passagem pela extinta TV Manchete, TV Cultura e TV Bandeirantes, oportunidade em que se consolidou como um âncora de personalidade e muito talento. Mas é na então sem credibilidade TV Record que ele ganha independência, depois de ter saído dos portais jornalísticos IG e UOL por conta da perseguição promovida pelo banqueiro Daniel Dantas, do banco Pactual-Opportunity.

Sempre à frente de seu tempo, não se acovardou com a perseguição sorrateira e impiedosa de políticos, membros do Judiciário (hoje em acentuada decrepitude) e empresários corruptos travestidos de (sic) “liberais”. Ao contrário, primou pela excelência, pioneirismo e sobretudo inovação ao ousar investir em um blogue (“Conversa Afiada”, nome de um antigo programa seu na TV Cultura) e em seguida num canal no Youtube, o “TV Afiada”, com o qual chegou ao recorde de possuir um milhão de inscritos. Como bem disse o seu mais longevo colega e Amigo de 52 anos de convivência, o embate o instigava e fazia superar-se sempre, opinião endossada por outro velho companheiro de ofício na saudosa Veja dos tempos de Mino: “O Paulo Henrique é um Jornalista incansável, pois quanto mais é perseguido mais encontra forças e determinação para intensificar a luta.”

Jamais esqueceremos o “Olá! Tudo bem?” e o “Boa sorte!”, sempre recheados da análise mais inteligente e irreverente, de verdadeiro artista do Jornalismo investigativo, informativo e formativo. No momento mais necessário, o Destino nos tira subitamente esse guerreiro da luz e da informação cidadã, mas seu legado de coragem, leveza, sensatez e profundidade permanecerá como um relicário a forjar cidadãos pelos próximos séculos, enquanto seus medíocres e pusilânimes inimigo(a)s serão esquecido(a)s como a poeira no deserto destinada a cobrir o excremento e a insignificância de seres rastejantes. Obrigado por tudo, Paulo Henrique Amorim, e até sempre!

Ahmad Schabib Hany

domingo, 7 de julho de 2019

SOMOS O QUE A VIDA NOS TORNA


Somos o que a Vida nos torna

Pura casualidade. Em um desses encontros fortuitos no centro comercial de Corumbá, dias atrás, eis que me deparo com Romildo, primo de outro grande Amigo de infância, Edson, o “Pelé”. Depois de nada menos que 51 anos de havermos sido colegas do 3º ano primário na saudosa Escola Paroquial Nossa Senhora de Caacupê, no prédio que hoje abriga a Casa dos Conselhos. Nossa professora era a Irmã Maria do Carmo (da Congregação Jesus Menino, creio eu), uma linda freira paulistana que permaneceu em Corumbá até o final do primeiro semestre de 1968.

“Pelé”, como Romildo, morava na vila da NOB, pois seus pais eram trabalhadores da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, estatal depois transformada em SR-10 da RFFSA (Rede Ferroviária Federal S/A), privatizada em 1996 por Fernando Henrique Cardoso, o príncipe dos privatistas, que novamente assolam os destinos do Brasil. Hoje quase ninguém se lembra que o trem literalmente acabou depois da privatização. Em nação sem memória, malfeitor “bem nascido”, ainda que com rabo tão comprido quanto o comboio dos trens que trouxeram o progresso para o coração da América do Sul, acaba por ser reverenciado na Academia Brasileira de Letras.

O fato é que graças ao reencontro com Romildo fiquei sabendo que o franzino “Pelé”, na infância invencível jogador de futebol (daí o apelido), em fins da década de 1970 foi estudar Medicina na Bolívia, onde acabou por se casar e exercer a profissão de seus sonhos. Segundo o primo, depois do falecimento dos pais e avós, deixou de fazer suas esporádicas vindas à cidade-natal. “Tornou-se um boliviano esse meu primo”, conta com uma ponta de orgulho, porque ganhou o reconhecimento da população e das autoridades na cidade boliviana onde trabalha.

Devo confessar que tive vergonha de perguntar o nome completo dos dois, porque em nossa infância somente sabíamos o primeiro nome de cada colega, por mais Amigos fôssemos. E ele não se lembrara do nome da cidade em que o primo trabalha. Por tal razão, fico devendo o nome desse Amigo de infância e a cidade em que mora. Contudo, ficam a saudação pelo sucesso do Amigo “Pelé” e a lição dada por outro grande Amigo de infância, o saudoso Senhor Mohamad Bazzi (conhecido por “Abu Kamel”, “Pai do Kamel”, seu filho mais velho), simpático comerciante da “Casa das Flores”, no centro da Corumbá da segunda metade do século XX: “Somos o que a Vida nos torna.”

Uma entre tantas outras lições desse Amigo ancião, que herdei de meu saudoso Pai. Merecer a Amizade de pessoas mais velhas é, aliás, mais que um prêmio imerecido -- feito bilhete premiado de loteria --, uma graça, para usar termos mais recorrentes nestes tempos de religiosidade explícita. Desde a infância tenho tido a sorte de ganhar a Amizade de pessoas mais velhas, o que me permitiu certa, digamos, maturidade precoce. Insisto: não que merecesse, mas o fato é que fui presenteado, o que me incentivou saber manter os Amigos para toda a Vida.

Trata-se, sim, de uma obviedade. Contudo, em tempos de pós-verdade como estes em que vivemos, pode ter alguma serventia. Ao menos para aqueles cuja inquietude os tem deixado, no dizer do eterno poeta Fernando Pessoa, desassossegados. E não é para menos: as novas autoridades de plantão, ungidas aos mais elevados cargos da República mediante métodos nada ortodoxos (fake news, fake-ada, intolerância recorrente, ameaças de morte, manifestações castrenses extemporâneas, tentativas sucessivas de intimidação, execuções sumárias de agentes sociais e detentores de mandato como a eterna Marielle Franco no Rio, endeusamento de funcionários públicos que prevaricam e exorbitam de suas atribuições constitucionais para atender a apelos de ordem religiosa, partidária ou até mesmo criminosa), são a expressão mais eloquente de um desvario coletivo.

A lição dada por meu querido Amigo “Pelé” e verbalizada por “Abu Kamel” é uma sábia constatação da capacidade humana, de perseguir um sonho onde for, e fazer dessa conquista uma celebração coletiva, para benefício de si e dos outros. A despeito de uma imensa horda de “recalcados”, “mal-amados”, mal resolvidos que insistem em levar a humanidade aos descaminhos das trevas, e, pior, usando o nome das religiões para atingir suas ignóbeis intenções. A bem da verdade, a lição inclui, sim, esses seres bizarros, até por exclusão. Afinal, não foi a Vida a que os tornou, também, o que são?

Ahmad Schabib Hany

sábado, 29 de junho de 2019

A MALA DO MULA: "TURMA DO BAGULHO"


A mala do mula (2):

“Turma do bagulho”

A bem da verdade, parece termos chegado ao fundo do poço: uma comitiva presidencial cujo membro de apoio é preso por ser mula, isso é o cúmulo. Se tivesse ocorrido com Lula ou Dilma, era caso de bater panela, fazer “manifestos” e chegar aos orgasmos coletivos nas principais avenidas de todas as cidades brasileiras. Mas, pasmem, isso não é tudo. Ainda virão absurdos inimagináveis, providencialmente revelados pelo Jornalista Glenn Greenwald e seus desdobramentos imponderáveis, porque essa, sim, é a “turma do bagulho” -- e pobre do Brasil que foi induzido a esse vexame, “para não dar (sic) petê (‘perda total’)”. Só que não: está dando petê...

Na primeira parte, questionamos a “falta de sorte” alegada pelo general Augusto Heleno e a “ínfima exceção” manifestada pelo ex-juiz e “superministro” Sérgio Moro, como que não houvesse mecanismos de controle institucional e se tratasse de um traficante isolado levando uma inusitada quantidade como a encontrada no avião reserva da comitiva presidencial. Além de pinçarmos alguns ensinamentos da novela-reportagem de Luiz Taques, “Mulas”, entre eles que todo mula tem prazo de validade, isto é, será fatalmente delatado por concorrentes ou pelo capo da própria quadrilha.

Nesta segunda parte, voltamos à Bolívia sob a ditadura do sanguinário coronel Hugo Banzer Suárez, cuja patente de general foi adquirida já em sua condição de ditador, em 1971. Na verdade, o líder do golpe foi o coronel Andrés Selich, de inspiração fascista, que sofrera um “acidente” nunca elucidado ao subir as imponentes escadarias do Palacio Quemado, sede da presidência. Pois sua “conje”, Yolanda Prada de Banzer, como primeira-dama, passou pelo constrangimento de ter em sua comitiva um membro flagrado no Aeroporto de Congonhas com uma mala contendo aproximadamente dez quilos de cocaína. Denunciado pelo combativo diário católico “Presencia”, de La Paz, o episódio ficou registrado em pelo menos duas obras que desmascaram as milícias, os paramilitares e as ditaduras militares bolivianas e seus vínculos com a cocaína: “Com a pólvora na boca”, de Júlio José Chiavenatto, e “La veta blanca” (“O veio branco”), de René Bascopé Aspiazu, então diretor do emblemático semanário boliviano “Aquí”.

Oriundo de um povoado próximo à ferrovia Corumbá -- Santa Cruz de la Sierra, Concepción, na Chiquitanía (departamento de Santa Cruz), Banzer era neto de alemão chegado à Bolívia no final do século XIX. Passou a juventude no Exército, a que ingressou por meio do colégio militar. Foi sinistro da Educação de outro golpista igual ele, o general René Barrientos Ortuño, que golpeou o presidente eleito em seu terceiro mandato, Victor Paz Estenssoro, em novembro de 1964. Fez diversos cursos no Colégio Interamericano de Washington e na Escola das Américas, em plena guerra fria. Daí por que seu posicionamento de anticomunista empedernido, tendo-se brindado a fiel serviçal do império.

Durante o breve governo do general progressista Juan José Torres, responsável pela nacionalização das concessões de jazidas de gás, petróleo e estanho, o seu futuro algoz, então obscuro coronel, foi diretor do colégio militar do exército em Cochabamba, quando se articulou a outros oficiais golpistas, entre os quais o coronel Andrés Selich, líder dos amotinados em agosto de 1971, com quem, meses antes, havia participado de uma conspiração frustrada, o que o levou a se exilar no Peru, e de onde voltara clandestinamente. O golpe foi uma demonstração do que viria depois: um verdadeiro massacre de estudantes, operários, camponeses, intelectuais, jornalistas e religiosos -- como prenúncio do que aconteceria nos anos seguintes na América Latina, sobretudo no Chile, na Argentina e nos desdobramentos da “Operação Condor”.

Para o seu golpe, ele contou com 140 mil dólares, entregues por agentes da CIA em território boliviano depois de iniciado o amotinamento em Santa Cruz de la Sierra (as notas taquigráficas da Casa Branca, do Departamento de Estado e da CIA foram tornadas públicas em 2010, em que aparecem os diálogos entre Richard Nixon, Henry Kissinger e Thomas Karamessines, respectivamente presidente dos EUA, secretário de Estado e segundo diretor de planejamento da CIA). Em uma das transcrições, num diálogo entre Nixon e Kissinger em que este comunica o sucesso do golpe apoiado por eles, uma lacônica e sugestiva alusão ao Chile de Salvador Allende, golpeado e morto com o total apoio dos Estados Unidos.

O jornalista germano-boliviano Mario Busch, então analista político do O Estado de S. Paulo, descreveu os bastidores do apoio da ditadura do general Emílio Garrastazu Médici ao sangrento golpe de Banzer, em 1972, quando repercutiu a denúncia do diário católico Presencia, de La Paz (fundado e dirigido por outro germano-boliviano, o memorável Jornalista Huáscar Kajías Kauffman), de que o ditador boliviano havia cedido uma significativa área da região de Abuná (Abunã em português), na Amazônia, para o Brasil, em sinal de gratidão pelos “préstimos” do governo brasileiro ao seu governo (ou melhor, ao sangrento golpe)...

Entretanto, muito mais grave foi o desvio de 600 milhões de dólares emprestados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a execução de um programa de plantio de algodão em escala industrial, em 1976, destinado para abastecer a indústria têxtil estadunidense, em decorrência da longa estiagem nos estados americanos produtores de algodão. Segundo levantamento fartamente documentado do Jornalista René Bascopé Aspiazu, em “La veta blanca”, a iniciativa tinha propósitos óbvios: tirar da mineração de estanho a base das commodities da Bolívia, sobretudo porque os mineiros -- isto é, os trabalhadores mineiros -- eram a coluna vertebral do movimento operário boliviano, manifestado na combativa e poderosa Central Operária Boliviana (COB). Mas os milicianos, ansiosos por virarem “grandes empresários”, milionários às custas do endividamento da Bolívia, substituíram o branco do algodão pelo branco da cocaína, que desde então fez da Bolívia um dos principais produtores mundiais de cocaína.

Bascopé Aspiazu, reconhecido baluarte do jornalismo investigativo, teve o mesmo fim do senador e ex-candidato à presidência da Bolívia pelo Partido Socialista Uno (PS-1) Marcelo Quiroga Santa Cruz, ex-ministro de Minas e Energia da brevíssima gestão do civil Jorge Siles Salinas (meio-irmão do primeiro presidente civil e constitucional pós-ciclo militar, Hernán Siles Suazo, eleito pela Unidade Democrática Popular em 1980). Como senador, Quiroga Santa Cruz ousara propor e presidir o “Juízo do Século”, em que apresentava documentos que incriminavam o ditador Banzer em seus quase oito anos de tirania, corrupção e desmandos. Quando o Senado estava por concluir as investigações e submetê-lo a um juízo de lesa-pátria, outro golpe sangrento, desta vez dos narcogenerais promovidos por Banzer (García Meza, Natusch Busch e Arce Gómez), destruiu a frágil democracia iniciada quase um ano antes, com o único intuito de destruir as provas dos crimes cometidos pelos apoiadores e beneficiários do facínora, bem como o assassinato mediante tortura e humilhações de todos os inimigos de Banzer, entre eles Quiroga Santa Cruz e o Padre Luis Espinal, fundador do semanário Aquí, de cuja redação fazia parte Bascopé Aspiazu, morto anos depois em circunstâncias nunca elucidadas (“crime passional”, segundo a versão policial, constituída por velhos milicianos e paramilitares do ciclo militar).

Como meu saudoso Pai costumava dizer, ignorantes e sem caráter costumam ser os mais atrevidos, ousados e insensíveis. Porque são destituídos da base da condição humana, que é a dignidade e a racionalidade (que alguns preferem nominar por “razoabilidade”). No afã de prestar serviços aos seus amos e senhores do império, perseguiram, raptaram, seqüestraram, torturaram, executaram e humilharam pessoas de todas as idades, convicções religiosas e políticas. Durante esse macabro período de obscurantismo e violência nunca antes visto na vizinha nação, velhos carrascos nazistas, como Claus Barbi (o “carniceiro de Lyon”), tiveram total liberdade para formar discípulos para sua odiosa doutrina e organizar grupos paramilitares e milicianos para o “serviço sujo”. E tanto no Brasil (entre eles Josef Mengelle, o “anjo da morte”) como no Paraguai, Argentina e Chile seus ex-comparsas de ações desumanas eram os adestradores de técnicas de tortura e extermínio de inimigos ideológicos.

Embora esteja tentado a incursionar sobre a (sic) “fraquejada” geral da mídia tupiniquim e de seus burocratas profissionais que mais lembram porta-vozes das emboloradas instituições de nossa frágil democracia, vítima de várias quadrilhas associadas para esquartejar o Estado Democrático de Direito e abater a soberania nacional, reservo-me apenas o direito de admitir que, mais uma vez, um jornalista estrangeiro fez com que a imprensa brasileira fizesse história. Detentor de prêmios mundiais de Jornalismo de verdade, como o Pullitzer, Glenn Grenwald é protagonista de uma cruzada de desmascaramento de uma hipocrisia de saltar aos olhos, mas que um ignóbil pacto de silêncio permitiu que a nação fosse subtraída em suas mais caras riquezas, sobretudo as liberdades democráticas, a segurança jurídica, a soberania nacional e popular, as riquezas naturais e o porvir das novas gerações por causa da perda de direitos seculares, rebatizados de “privilégios” pelos meliantes que tomaram de assalto os destinos do país a partir de maio de 2016.

Aliás, não foi diferente durante o regime de 1964, pois graças à digna família Carta, isto é, Mino Carta (fundador e primeiro diretor do Jornal da Tarde, do Grupo Estado, da Veja, da falecida Editora Abril, e da Istoé e do Jornal da República, da ex-Encontro Editorial, da Istoé/Senhor, da Editora Três, e finalmente da CartaCapital, da Editora Confiança, além de articulista da Folha de S.Paulo, ao lado de Claudio Abramo e Alberto Dines), Luis Carta (diretor editorial da Abril em sua melhor fase e primeiro diretor da inimitável Realidade, também em sua melhor fase, de 1966 a 1973, quando saiu por causa do intragável Roberto Civita e foi fundar com o empresário Fabrizio Fasano e o ex-diretor comercial da Abril Domingo Alzugaray a Editora Três, da Status, Repórter Três e Planeta, e cinco anos depois fundou com Fabrizio Fasano a Carta Editorial, de várias revistas de primeiro nível da Vogue, tendo encerrado abruptamente sua carreira editorial bem-sucedida na Espanha, como editor e diretor da Vogue España, em 1994) e Giannino Carta (o patriarca dessa brilhante família de grandes Jornalistas, ex-secretário editorial e diretor de O Estado de S. Paulo, quando trouxe toda a sua família da Itália e conheceu o grande Jornalista Claudio Abramo, tendo-o guindado a secretário de redação enquanto ele era diretor do jornalão da família Mesquita, responsável pela renovação gráfica e editorial de um dos mais velhos jornais do país).

Ahmad Schabib Hany