Para sair do compasso de espera
Neste 13 de Junho, Dia da Retomada de Corumbá (durante 15 anos ignorado por um acordo entre as ditaduras de Emílio Medici e Alfredo Stroessner, em 1973, quando da implementação das relações com o Paraguai em razão da Itaipu Binacional), o Coração do Pantanal e da América do Sul precisa virar a página do compasso de espera em que se acentuou em 2015, ano da guinada política nacional que interrompeu o ciclo virtuoso da cidade cosmopolita, bastião de vanguardismo e transformações, iniciado em 1989 com Fadah Gattass na Nova República.
Que a Retomada de Corumbá inspire as novas gerações de corumbaenses a se desassossegarem e, de posse de cidadania altiva, virar a página do compasso de espera que se confunde com a criação de Mato Grosso do Sul. Participar, aliás, das generosas e emblemáticas lutas em defesa do Coração do Pantanal e da América do Sul representa não só sair da 'zona de conforto', mas protagonizar a transformação há décadas empreendida por jovens de outrora.
O Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa, em parceria com cidadãos comprometidos e movimentos sociais, tem construído, nessa direção, agenda propositiva voltada para essa icônica retomada, como: 1)efetivação do SUS no Pantanal (UBS fluvial 'Chalana do SUS', Ambulanchas do SAMU, Hospital Universitário Federal, incorporação pelo CPAN/UFMS ou pela futura UFPantanal do curso de Medicina da universidade privada que obteve nota 2, serviço de radioterapia local e Centro de Farmacologia, Farmacognosia e Fitoterapia do Pantanal e Cerrado à base da flora nativa, conforme abaixo-assinado popular do Movimento Efetiva SUS Pantanal); 2) criação da Escola Agroecológica da Família Agrícola do Pantanal (luta encabeçada pelo Professor Sérgio Pereira e a respectiva Associação); 3) implantação da Universidade Federal do Pantanal (UFPantanal) com sede em Corumbá, reativação do curso de Letras Espanhol, há anos suspenso pela UFMS, e oferta de novos cursos, inclusive nas áreas de saúde e artes, bem como o reconhecimento dos saberes tradicionais e ofícios regionais, constante de petição com mais de dez mil apoios pelo Movimento UFPantanal); 4) reativação da Ferrovia Corumbá--Bauru e revitalização do Trem do Pantanal e do Cerrado (inclusive o Ramal de Ponta Porã, importante modal logístico para desafogar a congestionada e perigosa via terrestre, em que vidas de todas as espécies, inclusive humanas, são perdidas), conforme luta do Comitê pela Reativação da Ferrovia e Revitalização do Trem do Pantanal; 5) fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos das Crianças e Adolescentes e das Mulheres e da Rede de Proteção Social das Mulheres e da População Infanto-juvenil na região de fronteira com a Bolívia e Paraguai (em razão do aumento de feminicídios e desaparecimentos de crianças/adolescentes -- como o Caso Lívia Gonçalves Alves, desaparecida em 13 de junho de 2010 -- e a intensificação do tráfico de seres humanos, sobretudo para fins de prostituição e pedofilia -- como o caso Larissa, em que foi constatado o seu vínculo na Bolívia, naquele mesmo ano), luta pioneira dos saudosos COMCEX-MS, COMCEXCORLAD e PAIR; 6) integração das cidades de fronteira (há décadas reivindicada pelo Pacto pela Cidadania Padre Pasquale Forin, como ocorre nas cidades de fronteira com o Paraguai); 7) implementação de políticas e de ações de preservação, proteção, conservação e revitalização de bens e espaços do patrimônio histórico, arquitetônico e cultural material e imaterial (vítima da sórdida trama que atenta contra a legislação vigente, mas que por omissão por décadas de quem de direito diversos prédios de reconhecido valor histórico vêm sendo objeto de ações inomináveis, como a sede da Liga Árabe-Brasileira de Corumbá, do Riachuelo Futebol Clube, a Estação Ferroviária Internacional e Casa de Cultura Luiz de Albuquerque, entre outros); 8) adoção de mecanismos para efetivação dos Direitos Humanos e fortalecimento do Estado Democrático de Direito (no tocante às populações indígenas em Mato Grosso do Sul, bem como às relações com os dois países fronteiriços, Paraguai -- em que Lichita e a Família Villalba e Andino são emblemáticas vítimas de terrorismo de Estado e requerem apoio e solidariedade, por meio da Campanha Internacional de Solidariedade à Família Villalba -- e Bolívia -- em que forças militares dos EUA, Israel, Argentina e Chile, com conivência do governo Rodrigo Paz, vêm empreendendo assassinatos seletivos de indígenas e dirigentes sindicais em várias regiões do Estado Plurinacional, cuja constituição proíbe expressamente operações militares e intervenções estrangeiras); 9) intensificação de ações de governo contra o genocídio em Gaza e Cisjordânia (Palestina), Tigré (Etiópia) e Sudão, e as inúmeras tentativas de criminalizar as denúncias contra os crimes de guerra cometidos por Israel, atribuindo-lhes conotação de antissemitismo, quando os árabes, portanto palestinos, também são semitas; e, 10) mobilização mundial em defesa da soberania e autodeterminação dos povos e contra a execrável política belicista dos Estados Unidos e Israel, que violam convenções e tratados internacionais ao ameaçar, bloquear, invadir e saquear países soberanos e sequestrar e assassinar líderes políticos, como na Venezuela, Irã, Cuba e Bolívia, de acordo com pugna do Comitê Corumbá Pela Paz Heloísa Urt.
RETOMADA DE CORUMBÁ
O Dia da Retomada de Corumbá, antes de 1975, era marcado por importante congraçamento da população corumbaense, sobretudo pelo desfile escolar, em que praticamente todas as escolas da cidade, algumas de Ladário e de Puerto Suárez (além de representações de colégios públicos de Cuiabá, Campo Grande, Três Lagoas e Aquidauana), participavam com entusiasmo e galhardia.
Em 1975, ano do início das obras da Usina Hidrelétrica de Itaipu, pela empresa binacional resultante da parceria Brasil-Paraguai (Itaipu Binacional), houve uma verdadeira guinada no modo de se compreender o que até então se denominava de Guerra do Paraguai, incluindo manifestações cívicas. Esse entendimento foi mantido por pouco mais de 10 anos, mas a partir do governo José Sarney, cujo ministro José Aparecido, da Cultura, era um mineiro oriundo da Chancelaria e convenceu o governo a abandonar essa postura, considerada pelo governo da Nova República de hipócrita.
É que, a partir do início das obras da Itaipu, em 1975, o governo do general Ernesto Geisel determinou que cessassem as celebrações que recordassem a vitória sobre o Paraguai (a Ata de Itaipu, de 22 de junho de 1966, e o Tratado de Itaipu, de 26 de abril de 1973, não deixavam explícito, estabelecia apenas algumas mudanças de critérios em relação ao Paraguai e ao fortalecimento da amizade entre os dois povos), razão pela qual somente desde 1975 é que Corumbá deixa de celebrar a sua Retomada.
Não que a esmagadora derrota sofrida pela República do Paraguai do império do Brasil, Argentina e Uruguai devesse ser festejada, embora num momento tivesse sido, inclusive em Corumbá, ocupada por três anos pelas tropas de Francisco Solano López. Sabemos que interesses do capital, representado pela Grã-Bretanha (o Reino Unido de hoje), estavam ardilosamente insuflando e financiando os conflitos na América, Ásia e África naquele mesmo período.
Qual propósito? Ao penetrar pela Bacia do Prata, a pomposamente chamada de Tríplice Aliança teve a pretensão de inserir no mercado capitalista esta vasta região, rica em matérias-primas e relevante potencial consumidor de produtos manufaturados, pois a indústria estava em franca expansão. Ou não foi por isso que Corumbá se tornou um importante centro mercantil depois da guerra contra o Paraguai?
Entendendo que historiografia seja uma coisa e história outra, após a Segunda Guerra Mundial a mudança do eixo de desenvolvimento afetou nossa Corumbá cosmopolita que, graças à Ferrovia Corumbá--Santa Cruz de la Sierra, conseguiu manter-se por mais 50 como centro exportador, para o mercado andino. Dados da Carteira de Comércio Exterior (Cacex) do Banco do Brasil registram tal fato, absurdamente ignorado pelas autoridades da "nova capital", Campo Grande.
Aliás, essa compulsão avassaladora -- creio que mais por ignorância que por intenção -- por deixar tudo em Corumbá virar ruína [repetindo os sábios ensinamentos de meu saudoso Pai, a dizer que não há mais nada mais atrevido que a ignorância, que desconhece limites, e por isso irmã siamesa do fascismo], tanto que antes de Mato Grosso do Sul completar seus primeiros 10 anos de existência, TODO o arquivo-morto da Mesa de Rendas (nome do órgão de arrecadação de tributos, mais tarde AGENFA), com o registro do movimento comercial de fins do século XIX e início do século XX, ficou perdido ao ser deixado para os cupins e fungos, na antiga Alfândega e depois no ILA, apesar das denúncias feitas na época pelo Diário de Corumbá.
Quando Sarney, com a súbita morte do presidente eleito Tancredo Neves (que adoecera repentinamente e foi operado na véspera da posse), governou o Brasil, um dos governadores de Mato Grosso do Sul era Marcelo Miranda, eleito em 1986 pela mesma Aliança Democrática. Em Corumbá, embora não fosse possível uma coligação com a Frente Liberal do Deputado Armando Anache, foi eleito em 1988 prefeito de Corumbá o Doutor Fadah Scaff Gattass, gestão que promoveu a volta das celebrações. Sem maiores traumas e, discretamente, 13 de Junho foi de novo observado, ainda que sem o emblemático desfile escolar.
A partir de 1999, estimulado pela relevante iniciativa do Professor Valmir Batista Corrêa (renomado historiador cuja pesquisa está focada na história regional), então assessor de projetos estruturantes do governador José Orcírio Miranda dos Santos, de ascendência paraguaia e com grande trânsito no país de origem de seus pais, Corumbá e todos os municípios do estado que tiveram de alguma forma participação na Guerra da Tríplice Aliança voltaram a celebrar as datas relativas a esse trágico episódio da história da América do Sul.
Sem qualquer recalque (até porque a solidariedade ao povo paraguaio e latino-americano sempre pautou a vanguarda brasileira), ainda antes do governo do estado incentivar a observação dessa data histórica, a Comissão Pró-Cultura de Corumbá e o recém-criado Pacto pela Cidadania, em 12 de junho de 1994, fez o ato de Retomada de Corumbá e, em 30 de agosto de 1994, a celebração do centenário da morte do marechal Antônio Maria Coelho, primeiro governador de Mato Grosso e Herói da Retomada, de que participaram os saudosos Satyro Manoel Coelho, bisneto do marechal; Seu Jorge José Katurchi, empresário; Seu Jorapimo, Artista Plástico; Seu Augusto César Proença, escritor e memorialista; Professora Marilza Coelho, diretora da Escola Antônio Maria Coelho e tetraneta do homenageado. O ato foi conduzido por Mara Leslie do Amaral, Edenir de Paulo, Adriana Ferraz Santos, Denise Campos Diniz Mônaco, Artista Plástica Marlene Therezinha Mourão, Cristiane Sant'Anna de Oliveira, Poeta Balbino G. de Oliveira, César Papa, Alexandre Gonçalves dos Santos, Anísio Guilherme da Fonseca, Armando Carlos Arruda de Lacerda e Antônio Victor Lima Baptista, então vereador.
Os dois eventos alusivos à Retomada de Corumbá compuseram o ato inaugural do Movimento Viva Corumbá Jorge José Katurchi (denominado em memória do mais apaixonado corumbaense de todos os tempos), porta-voz do Pacto pela Cidadania Padre Pascoal Forin (como passou a se designar em sua homenagem), e que a partir de então passou a articular agendas propositivas em defesa dos interesses da população do mais antigo e cosmopolita centro urbano de Mato Grosso do Sul.
Retome, Corumbá, o vanguardismo pioneiro! Descarte ao lixo da história os rastejantes que desonram sua história cosmopolita e progressista!
Em memória dos heróis comuns, alguns deles citados neste texto, com quem compartilhamos cotidianamente lutas por uma Corumbá pujante e integradora, um Brasil soberano, uma América Latina unida e livre e um mundo mais justo, sem tiranos e exploradores.
Ahmad Schabib Hany
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