Presença inspiradora
Vinte e oito anos atrás, portanto, 5 de junho de 1998, vivíamos o primeiro decênio pós-Constituição Cidadã e nos encontrávamos em plenas conquistas. Como na Vida nada é indolor, também foi preciso enfrentar adversidades, e uma delas ocorreu nesta data.
Parece que foi hoje, mas 28 anos atrás, quis a Vida pregar uma peça daquelas inesquecíveis -- fruto, obviamente, de nosso próprio caminhar.
Dia Mundial do Meio Ambiente de 1998. Corumbá e Ladário protagonizavam uma escalada de conquistas que foi determinante para que a vanguarda em MS também usufruísse e contribuísse irmãmente.
De um lado o establishment, capitaneado pelos autointitulados, durante a Constituinte, de social-democratas, mas no exercício do poder se revelaram tão conservadores quanto os arenistas, de triste memória. De outro, aprendizes de cidadãs e de cidadãos, espontâneos e solidários, embora inexperientes e muito ingênuos.
A cordura, no entanto, guiava as nossas ações: não havia líder, messias ou guru que conduzisse tropa alguma. Era um coletivo de pessoas ávidas de democracia e protagonismo, livres de todo e qualquer tapa-olho ou dirigismo excludente.
Nossa ideologia? A utopia de uma sociedade livre de tiranos e de fantoches, em que cidadãos são os protagonistas da história. E para os que se pretendem mestres da História, oriundos das camadas proletárias. Isso, sim, em Corumbá e Ladário.
Foi como ganharam estrutura e capilaridade -- a exemplo da Ação da Cidadania contra a Fome e pela Vida -- o Pacto pela Cidadania e o Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (o glorioso FORUMCORLAD), que 20 anos mais tarde deu origem ao igualmente pioneiro e original Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa (em homenagem ao generoso Peregrino da Cidadania, o querido e saudoso Bispo Diocesano que entre 1991 e 1999 com seu cajado da justiça e da solidariedade nos incentivou afetuosamente e, a bem da verdade, nos protegeu da sanha daquele setor recalcitrante que sempre prosperou na penumbra da tirania).
Uma geração depois, um conjunto de entidades cuja existência foi efêmera em razão da emulação atávica hegemônica entre nós. Ora, Corumbá e Ladário não precisaram, jamais, de 'inimigo externo' -- embora Campo Grande (refiro-me às suas elites bizarras e seus tentáculos constituídos por arrivistas de todo naipe) desde que se tornou capital sempre insuflou, orientou e tirou proveito disso -- para se autodestruir.
Dom José, ao lado dos também queridos e hoje saudosos Padre Pasquale Forin, Padre Ernesto Saksida e Padre Emílio Zuza Mena, ainda estavam entre nós no fatídico momento da despedida da maior inspiradora desta jornada, que, a seu pedido, não nomearemos, humilde e discreta que sempre foi e continua sendo.
Eram quase 19 horas, portanto, a uma hora do importante evento alusivo ao meio ambiente -- sob a inspiração da Agenda 21, da emblemática Rio 92 --, em uma das poucas parcerias com a Prefeitura Municipal de Corumbá, quando uma ligação inesperada nos faz alterar o percurso ao local da concorrida mesa redonda.
Quis a Vida que a participação da inspiradora protagonista se encerrasse nesse dia, por razões legitimamente plausíveis, sem, no entanto, deixar de continuar a ser não 'mais uma', senão fonte inesgotável, oráculo generoso, das sucessivas ações, projetos, programas e jornadas.
Mesmo desde longe acompanhou, torceu e até enviou orientações, como fez no processo de gênese de construção desses espaços públicos não estatais (nunca é demais esclarecer: 'não estatais' porque, embora públicos, não têm vínculos com o Estado, nem alguma forma de financiamento), que, enquanto a geração de 1990 se manteve congruente, existiu, re-existiu e resistiu.
Como a Vida, a História também tem essas imponderabilidades. Em 2012, não por ato governamental, mas por deslealdade de representantes de entidades que sequer existem hoje, o FORUMCORLAD foi traído, enxovalhado e excluído do próprio processo do qual foi protagonista.
Ironicamente, dois ou três dos 'paladinos' da vassalagem tiveram que se ver na Justiça -- um deles acabou ficando por trás das barras --, não por conta disso, mas por agirem hipocritamente como paradigmas da moralidade quando a prática é oposta ao que pregam e, pior, atribuem a outrem na ânsia de atingir seus sórdidos propósitos.
Aprendemos humildemente, na prática, que, no dizer do saudoso Betinho, "não basta dar um prato de arroz e feijão; é preciso ser cidadão para conferir cidadania aos brasileiros que têm fome". E de Paulo Freire, "o educar é via de mão dupla: quem ensina deve aprender com o educando, de modo recíproco".
Hoje vemos o controle social submisso, cartorial e lastimosamente omisso por não ser proativo e efetivo. Mas nada que não possa retomar seu eixo natural, porque todos nós somos passageiros do trem da História.
Se algum dia houver interesse pelo resgate histórico desse fértil e efervescente momento da História e da Cidadania (maiúsculas, por favor!), essa protagonista precisa ser ouvida. Até porque à distância acompanhou e acompanha o devir das inesgotáveis iniciativas cidadãs no coração do Pantanal e da América do Sul.
Como bem disse Chico Buarque em sua versão em português da 'Canção pela Unidade da América Latina', de 1978 (do original de Pablo Milanés 'Canción por la Unidad Latinoamericana', de 1976): "A História é um carro alegre / Cheio de um povo contente / Que atropela indiferente / aquele que a negue..."
E a melhor definição para a protagonista memorável vem do original de Pablo Milanés, idioma, aliás, que domina melhor que eu: "lo que brilla con luz propia / nadie lo puede apagar / su brillo puede alcanzar / la oscuridad de otras cosas..." ("Canción por la Unidad Latinoamericana", 1976).
Assim foi. Assim é. Assim será.
Ahmad Schabib Hany
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