O pioneiro projeto de inclusão, ensino e transformação completa 65 anos
A Cidade Dom Bosco completa 65 anos com o mesmo dinamismo que marcou a sua fundação em 1961, quando o saudoso Padre Ernesto Saksida reuniu Amigos e ex-alunos para literalmente construir um projeto pioneiro com base no amor como instrumento de inclusão, ensino e transformação.
Nesta Sexta-feira da Paixão de 2026, em meio a um mundo conturbado em que o avanço do fascismo, do belicismo e da intolerância ameaça a humanidade, o pioneiro projeto mundialmente conhecido por Cidade Dom Bosco, fundado em 3 de abril de 1961, celebra 65 anos com a mesma jovialidade e dinamismo com que foi concebido e construído pelo saudoso Padre Ernesto Saksida.
É a vitória do amor como instrumento de inclusão, ensino e transformação. Sim, nessa ordem. Explicado pelo próprio Padre Ernesto há aproximadamente trinta e cinco anos: primeiro, acolhimento de crianças, adolescentes e jovens que precisavam, com as suas respectivas famílias, ser alimentados, medicados, cuidados por iniciativas assistenciais, artísticas e desportivas; depois de serem acolhidos com amor, como ele fazia questão de reiterar, é que adentravam à modesta sala de aula improvisada na casa de Dona Catarina para, sob a batuta de duas jovens normalistas -- Professora Norma e Professora Camila Rosalina --, se iniciarem no ilimitado universo do letramento, do saber, contando para isso com apenas quadro-negro, giz e muita criatividade; finalmente, com base nessa experiência ousada (dadas as condições materiais modestas das instalações e dos recursos didáticos), é que começavam a acontecer as transformações.
O despertar para esse projeto ousado e pioneiro se deu quando o Padre Ernesto era professor, na década de 1950, de Canto Orfeônico no Colégio Salesiano de Santa Teresa, o conceituado educandário fundado em 1889 no cosmopolita e dinâmico centro mercantil fluvial mais importante do interior da América do Sul, Corumbá de todos os povos. Por esse porto o então jovem seminarista salesiano chegara ao Brasil na década de 1930 com destino a Cuiabá, onde frequentaria o Seminário Nossa Senhora da Conceição e depois o Liceu Salesiano de São Gonçalo, com um período de formação teológica em Lins, onde concluíra sua formação sacerdotal.
Três Irmãos que vendiam salgados, jornais e engraxavam sapatos foram os 'reis magos' que lhe anunciaram a sua missão de Vida, pois quando saíra de sua terra natal, a Eslovênia, décadas antes, sua escolha pela vida missionária tinha como destino os povos originários do norte do vasto Mato Grosso, uno e indiviso. Tinha estado com os Padres Ângelo Venturelli e Félix Zavattaro, um pouco mais velhos que ele, e, também, convivera, ainda que brevemente, com o icônico sacerdote salesiano que, como presidente de Mato Grosso e depois Arcebispo de Cuiabá, se notabilizara na vida política e social mato-grossense, um conservador que liderou diversas instituições não religiosas do estado na primeira metade do século XX, Dom Francisco de Aquino Correia.
Padre Ernesto dizia que a abundância reinante no Pantanal o encantara, porém vivia a se questionar -- porque não conseguia compreender -- como a pobreza desassistida podia conviver impunemente com a riqueza num centro comercial em que a ostentação e opulência eram inconciliáveis. Embora focado nas suas atividades sacerdotais, relacionara-se com muitas famílias imigrantes como ele, entre elas a de seus ex-alunos Salomão Baruki, Jorge José Katurchi, Walmir Provenzano, Eldo Delvizio, Ney Philbois, Fadah Scaff Gattass, Armando Anache e José Feliciano Baptista Neto, além do grande Amigo um pouco mais velho que ele, o senhor João Gonçalves Miguéis, que era como um Irmão e conselheiro para ele, e o senhor Lino Viegas, pecuarista com quem o Padre Ernesto contaria para toda a vida.
Depois de ter sido figura-chave na fundação e construção da sede da União dos Ex-alunos de Dom Bosco (UEDB), cujo emblemático prédio situado à rua Cuiabá era, além de sede social da entidade (dispondo de até de piscina olímpica), um importante local em que diversas iniciativas contaram com a inquietude do Padre Ernesto, criou o diário vespertino Folha da Tarde em 1958, ao lado do médico Salomão Baruki e do advogado José Feliciano Batista Neto, e a Legião Mato-grossense de Assistência à Criança (LEMAC) em 1959, com o senhor João Gonçalves Miguéis, sua primeira obra assistencial voltada para a infância.
O importante aprendizado com o Senhor João Miguéis na LEMAC, e o incentivo desse Irmão e conselheiro, permitiram que se decidisse por dedicar-se à construção de um amplo projeto social que incluiria educação, saúde, assistência social, esportes, artes e formação profissional, cujo primeiro nome, com o decisivo apoio do Professor José Ferreira de Freitas, foi Escola Estadual Rural Professor Alexandre de Castro. O Professor José de Freitas foi seu primeiro diretor, mas precisou se desincompatibilizar para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa, em Cuiabá, tornando-se líder do governador Pedro Pedrossian e responsável pelos primeiros passos rumo à materialização da Cidade Dom Bosco e da criação do Instituto Superior de Pedagogia de Corumbá (ISPC), três anos antes que a UEMT, a primeira universidade pública de Mato Grosso, com sede em Campo Grande, precursora da hipertrofiada UFMS.
Idealizador e realizador da Cidade Dom Bosco, o Padre Ernesto Saksida era uma pessoa muito grata com os que, ombro a ombro, o ajudaram a tornar realidade um projeto ousado e pioneiro. Afinal, ele tinha noção da magnitude do projeto que decidira concretizar, não por vaidade, mas por responsabilidade cristã. É o que respondia, sem gaguejar, a jornalistas de todo o mundo, como quando a equipe da estatal RAI (Radiotelevisione Italiana), sob o comando de Tito Stagno, passou uma temporada no Brasil e aproveitou para fazer um documentário sobre a Cidade Dom Bosco, o que as emissoras brasileiras, aliás, nunca fizeram.
O Padre Ernesto contara em entrevista a um Amigo Jornalista que, para ter espaço em programas populares da televisão brasileira como o de Hebe Camargo em São Paulo, precisou levar enjaulado um filhote de onça que certo amigo lhe emprestara, com a garantia de trazê-lo de volta vivo. Imagine-se o estresse em uma viagem de avião com um filhote de animal silvestre a bordo (eram dois voos domésticos diários e dois internacionais semanais, na época, a partir do Aeroporto Internacional de Corumbá).
Em conversa com o produtor do programa de Chacrinha, Padre Ernesto ouviu a sugestão de que como o empresariado brasileiro não estava acostumado a obras de caridade fora do eixo Rio-São Paulo, em vez de ter que levar animais silvestres para dar audiência a programa televisivos, teria muito mais retorno viajar para a Europa e pedir aos benfeitores católicos de todo o velho continente a doação de pequenos mas efetivos valores, que depois poderiam ser programados com a realização de campanhas desde Corumbá.
Foi assim que, em sua primeira viagem à Europa, no início da década de 1970, o Padre Ernesto conseguiu estruturar o seu programa de adoção à distância, a principal fonte de recursos que permitiu a ampliação de famílias beneficiadas, além da realização de convênios com a Legião Brasileira de Assistência (LBA), do governo federal, e do Programa Nacional de Voluntariado (PRONAV) com sede em Cuiabá, sobretudo no governo de Garcia Neto e Cássio Leite de Barros, o corumbaense que havia nomeado três importantes secretários em sua gestão, um deles o seu ex-aluno, dileto Amigo e leal parceiro em diversas iniciativas, Doutor Salomão Baruki.
O saudoso Padre Antônio Secundino, então Inspetor da Missão Salesiana de Mato Grosso (MSMT) declarou em Corumbá que, no início da década de 1980, a MSMT acolheu com entusiasmo a obra pioneira do Padre Ernesto. Isto feito, a Cidade Dom Bosco passou a receber os recursos programados da entidade e, sobretudo, a contar com equipe multiprofissional que passou a auxiliá-lo na elaboração, execução e monitoramento de projetos sociais na área da educação, assistência social, cultura e desportos.
Mesmo assim, o incansável Padre Ernesto criou um conjunto (na verdade, uma tríade) de entidades para dar apoio em nível local à sua obra: Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER), Clube dos Amigos do Padre Ernesto Saksida (CAPES) e União dos Ex-Alunos da Cidade Dom Bosco (UEACDB). Enquanto estava entre nós, o Padre Ernesto conseguia fazê-las articular-se entre si, o que não ocorreu depois de sua eternização. Essa iniciativa, lamentavelmente, naufragou por uma série de fatores que não vêm ao caso.
O vínculo com a MSMT foi determinante para a sobrevivência da obra pioneira, pois com a vinda posterior dos seus Irmãos Salesianos Padre Pasquale Forin, Padre Andrés Santidrián, Padre Carlos Estremera, Padre Osvaldo Scotti e Padre Amércio Rezende de Oliveira, entre outros não menos importantes, foi possível que a Cidade Dom Bosco mantivesse suas linhas de ação pioneiras bem efetivas depois da eternização, em 13 de março de 2013. Decorridos 13 anos de sua partida, a Cidade Dom Bosco celebra não apenas 65 anos de existência, mas a transformação da vida de dezenas de milhares de crianças, adolescentes e jovens que tiveram, ao longo desse período, sua dignidade humana preservada e seus valores cristãos assegurados, independentemente da denominação religiosa que tivessem.
Parabéns, Cidade Dom Bosco! Vida longa e muito vigor, eficiência e criatividade junto à sua razão de ser e existir, a população infanto-juvenil em situação de fragilidade social e econômica! Que venham mais 65 anos de amor e dedicação! Salve, Padre Ernesto e Irmãos e Amigos que se eternizaram, até sempre!
Ahmad Schabib Hany
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