Lula sob cerco da histeria plantada
O fantoche de Trump veio ao Brasil ler xingamentos ao presidente e a um dos ministros do STF e suas ofensas não ganham o destaque da repercussão tardia da fala de Lula, de improviso, na visita que fez à AVIBRAS, sobre a invasão de Corumbá pelo Paraguai em 1864 e a necessidade de investir em defesa.
Pode xingar o presidente em seu próprio país, no palanque de um candidato cujo passado o condena pelas 'rachadinhas', por proteger milicianos envolvidos em célebres crimes de extorsão e execução (entre os quais de juíza e de vereadora que queriam elucidar crimes das milícias no Rio) e, sobretudo, locupletar-se com dinheiro mal-havido dos aposentados pelo Master? Pode, sim, porque Trump e Netanyahu assim o querem.
Agora, o Estadista que o Brasil levou 500 anos para presentear à humanidade, na visita à AVIBRAS -- conquista obtida com muito custo em seu governo (aliás, nos dois desgovernos, do 'brimo' golpista e do inominável, quase foi liquidada, apesar de ser a única empresa brasileira de material bélico estratégico aeroespacial) --, NÃO PODE mencionar, a título de referência histórica ilustrativa, o que os livros didáticos de História do Brasil não cansam de repetir, como mantra, que a participação do então Império do Brasil na Guerra contra o Paraguai foi causada pela ocupação de Corumbá em 1864.
Sou da geração que cursou História embevecida pelas desmistificações feitas por icônicos estudiosos, chamados 'revisionistas' pelos acadêmicos. Suas obras foram responsáveis pela opção por essa disciplina nos idos de 1970 e 1980, como uma trilogia a abrir novos horizontes: As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano; Genocídio americano: a guerra do Paraguai, de Julio José Chiavenatto, e Nossa guerra contra esse soldado, de León Pomer. Mas, justiça seja feita, há outras obras de Chiavenatto dignas de registro, em pleno auge das ditaduras da América Latina (Guerra do Chaco: leia-se do petróleo e Bolívia: Com a pólvora na boca), além das obras do intelectual Domingo Laino, invisibilizado até dentro do próprio Paraguai, cujo conjunto das obras é de relevância para quem quiser compreender o drama de um país cujas oligarquias o entregaram sem qualquer dissimulo (o mais revelador é Paraguay: De la independencia a la dependencia, de 1976).
Em Corumbá, três docentes pesquisadores pioneiros deram grandes contribuições para uma compreensão crítica da História (e da História da Educação), que são Valmir Batista Corrêa, Lúcia Salsa Corrêa e Gilberto Luiz Alves. Aliás, há um ensaio consistente de História da Educação de 1984 em que o Professor Gilberto Alves concatena uma série de guerras ocorridas em diversos continentes com o mesmo fim: expansão do mercado capitalista em todo o mundo (Mato Grosso e a História: 1870-1929, publicado no Boletim Paulista de Geografia, ed. 61, 1984). Anos depois, a contribuição do Professor José Luiz Peixoto com pesquisas além-fronteira e intrapantanal (estudos das Missões Jesuíticas da Chiquitanía, Bolívia, e os vestígios arqueológicos do Pantanal). Ainda aluno de História, a contribuição desses pesquisadores foi norteadora para minha modesta formação.
Porém, para minha surpresa, as novas gerações de historiadores, em sua maioria, são avessas hoje à vertente inovadora (refiro-me ao legado de Galeano, Pomer e Chiavenatto), fincando pé na versão tradicional de que o Paraguai era dominado por uma ditadura tirânica e expansionista ou, em outra corrente, talvez mais concorrida, que é a chamada História Cultural, e abriu caminho para a chamada Micro História. Não é impressão, é constatação, pois pude conviver com colegas em 2008 na UCDB e 2014-2016 na UFMS, e isso ficou bastante claro.
O Presidente Lula, que não é historiador nem membro da gloriosa Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH), não tem por que se justificar quanto ao fato de ter feito uma citação daquilo que na historiografia brasileira é consenso desde o início da República. Embora nos anos de chumbo o Brasil tivesse assumido um acordo tácito com a ditadura de Alfredo Stroessner, durante as negociações para a construção da hidrelétrica de Itaipu (criticada por Laino em seu livro Energética en Paraguay: Fraude y entrega, 1974), a academia brasileira em momento algum fez qualquer movimento para tornar a versão historiográfica não maniqueísta, isto é, crítica. Pior: há quase 50 anos um grupo de historiadores insiste em vão que, ao menos León Pomer, que passou décadas na USP, tivesse a importante contribuição levada em conta na formação dos novos historiadores brasileiros.
E não é demais lembrar que, por ocasião do sesquicentenário da Guerra contra o Paraguai (nomenclatura adotada pelo Professor Valmir Corrêa e Professora Lúcia Salsa Corrêa nos idos de 1980 e cuja contribuição hoje é invisibilizada), diversos pesquisadores contemporâneos tiveram largamente explicadas suas razões para insistir que Francisco Solano López era expansionista e ameaçava a tranquilidade da região platina. É como se o episódio histórico indissociável da participação do Império do Brasil e da Argentina na contenda do Uruguai, por conta da disputa entre dirigentes dos partidos Blanco e Colorado pelo governo uruguaio, não devesse ser trazido à colação. Reitero: como bem concatenou, décadas atrás, em seu ensaio de História da Educação, o Professor Gilberto Alves, de que várias guerras ocorreram não por coincidência, nesse período, em diversos continentes, para promover a expansão do mercado capitalista.
Embora seja consensual que a visão positivista da História é coisa do passado, a maioria dos analistas no Brasil e Paraguai, por causa da repercussão da fala de Lula na AVIBRAS, se ateve a minúcias historiográficas constantes desses países [a historiografia é profundamente positivista, quando não ufanista] e não quis contextualizar o genocídio ocorrido em 1864-70, a ter-se em conta que Corumbá, que esteve sob ocupação paraguaia até 1867, sofreu também com a violência militar, tanto sua população local quanto os povos originários, em particular os Guató, assediados e violentados durante sua ocupação. O Professor Jorge Eremites de Oliveira, historiador e arqueólogo da UFPel, fez relevante observação no grupo do Movimento UFPantanal e espero que ele elabore um artigo a propósito desses seus aportes dignos de registro.
Insisto em que o para muitos deslize do Presidente Lula -- eu me permito crer que não se tratou de acidental, mas recado dado à aliança Javier Milei-Santiago Peña, cujos governos têm assessores militares estadunidenses e israelenses, ora, seguidores da Doutrina Donroe, do senhor Trump, subalterno de Netanyahu, cuja emigração para a Patagônia argentina (e também para as terras comunitárias dos povos originários do Paraguai) vai de vento em popa -- teve alvo preciso. Mais dias, menos dias o/a atento/a leitor/a terá a constatação.
Diferentemente de Milei, um fantoche sem escrúpulos, o Presidente Lula não é apenas conhecedor e experiente, mas muito bem assessorado, para enviar o recado à altura dos abutres, digo, dos falcões do Pentágono. E aí vai um alerta a certos analistas brasileiros que se referem ao episódio como ato falho e não o contextualizam, não o correlacionam com as ações deliberadas do Departamento de Estado dos EUA e à sucessão de atropelos meridionais, não só de Milei como de Santiago Peña, amigo 'desde criancinha' das oligarquias sul-mato-grossenses, mas sempre recorrendo aos recursos do Governo Federal e atirando pedra a Lula e aos membros de sua bancada parlamentar, como à Deputada Camila Jara e à Senadora Soraya Thronicke, dias atrás, barradas num evento da entidade dos patrões da indústria que não largam as gordas tetas das verbas públicas.
Se é curioso que Milei esteja sendo criticado não só pela performance bizarra no palanque esvaziado do Zero-Hum, mas por ter repreendido verdadeiros patriotas argentinos que lembraram que as Malvinas são argentinas [a guerra das Malvinas foi protagonizada pelo ditador Leopoldo Galtieri, em busca de popularidade, em 1982, tendo sido humilhantemente derrotado depois de 74 dias, em 14 de junho, dia seguinte ao Dia da Retomada de Corumbá das tropas paraguaias, ocorrido em 1867], mais curioso é que a totalidade dos historiadores paraguaios entrevistados pela mídia latino-americana, muitos deles declarados soberanistas, em momento algum se referiu aos interesses ingleses na região, atribuindo ao Brasil papel 'imperialista', quando 'Império' era a nomenclatura oficial brasileira, mas cujos interesses (da família real, a mesma de Portugal na época) sempre vinculados ao Império Britânico, este sim imperial e imperialista, no sentido dialético da História.
E deixemos de hipocrisia. Em todo o século XIX, não deram qualquer importância às suas respectivas populações elas, as elites oligárquicas de TODOS os Estados surgidos da nefasta colonização europeia em território sul-americano -- em prejuízo dos valorosos povos originários e africanos (e afrodescendentes), que deram a vida, a liberdade e a força de trabalho para concretizar um projeto de nação que os excluiu acintosamente. Por trás das disputas oligárquicas estavam os interesses inconfessáveis britânicos, com verniz de 'modernidade'; na verdade, cobiça pelas matérias primas, mercado consumidor e nova forma de colonização, mais 'sutil', diriam seus apologetas -- e isso ficou explícito na disputa do espólio do império turco-otomano, mas também ocorreu na América do Norte e Central.
Tanto é verdade que o Império e a República do Brasil, por meio de seus gendarmes, sufocaram sua própria população quando reivindicava como podia o mínimo de condições para sobreviver. Mas o mesmo ocorreu na Argentina, no Uruguai e no Chile. No Paraguai e na Bolívia, em que a expressiva maioria da população é originária (predominantemente Guarani no Paraguai e Quéchua na Bolívia), a acomodação das oligarquias contou, sim, com a conivência inglesa, por meio das guerras Guaçu (ou Tríplice Aliança), do Pacífico e do Chaco. Mesmo assim, as populações originárias resistiram aos fantoches pós-guerras: apesar da repressão nazista de Alfredo Stroessner, já na segunda metade do século XX, a resistência popular Guarani foi a maior oposição ao tirano, cujos dissípulos atuais Horacio Cartes, Mario Abdo Benítez e Santiago Peña, recorrem ou fazem vista grossa aos mesmos métodos infanticidas e feminicidas, tanto que, se o Itamaraty quiser ir fundo nesse discurso de genocídio vai se deparar em nossos dias com execuções sumárias de crianças e desaparecimento de adolescentes de famílias cujas mães se encontram presas em condições desumanas e degradantes e sem o devido cumprimento das leis de execução penal. Existe campanha internacional que é ignorada pelas autoridades do Paraguai e do governo argentino, e seria hora que, por iniciativa do Brasil, o Mercosul e o Conselho de Direitos Humanos da OEA [toc, toc, toc!] a vissem e interviessem em defesa das presas políticas.
Mais um importante dado para quem não mora em área de fronteira: no pós-guerra de 1864-70, a fome e a usura dos vencedores incentivaram a migração de famílias paraguaias para o Brasil e a Argentina. Todo o sul de Mato Grosso, como nunca antes visto, foi tomado de mulheres e filhos famélicos que, para assegurar a sobrevivência, trabalhavam em condições de semiescravidão. Em Corumbá, o Sarobá (bairro proletário eternizado pelo poeta Lobivar Matos nos anos 1930) era um dos locais em que os trabalhadores excluídos eram confinados. Lembro-me do depoimento do saudoso Padre Ernesto Saksida, que chegou ainda seminarista da Eslovênia e ficara intrigado pela opulência do cosmopolita centro mercantil e a exuberância do Pantanal, onde a abundância convivia indiferente com a miséria das famílias pobres, e por tal razão decidira permanecer na região anos depois, já consagrado sacerdote salesiano em São Paulo, para implantar sua obra social.
E aí vai um fraternal puxão de orelha a certos ativistas políticos que se jactam por terem feito campanha pelo voto nulo tanto na Argentina como na Bolívia, e que contribuíram tacitamente para a vitória desses dois fantoches travestidos de presidentes -- Javier Milei e Rodrigo Paz --, que hoje constituem verdadeira ameaça ao projeto de integração latino-americana iniciada em 1985 por José Sarney e Raúl Alfonsín, e que durante os desgovernos de Maurício Macri e Milei está deliberadamente em compasso de espera.
Esses mesmos ativistas não perderam tempo e também se permitiram condenar antecipadamente o Presidente Lula, hoje o único bastião soberanista favorável à efetiva integração latino-americana. Míopes, permanecem à sombra da pugna estratégica daqueles que sabem jogar o xadrez da geopolítica contemporânea, mas não deixam sua obsessão por fincar o ferrão da intriga, como na fábula do sapo e o escorpião. Pior que fantoche de Trump, na modesta visão de quase 55 anos de janela, a pretensa consciência iluminada da humanidade insiste em teimar morder a mão que a acolhe, desde sempre.
Quando, inspirado por Celso Furtado e Milton Santos, André Franco Montoro, ainda no exercício do primeiro mandato de governador democraticamente eleito de São Paulo pós-golpe de 1964, anunciou solenemente as estratégias de ação do Instituto Latino-Americano (ILA) em prol da efetivação da acalentada integração das nações latino-americanas visando à superação dos estanques fronteiriços e a livre circulação não só de produtos, mas de pessoas em todas as direções e sentidos, a história da América do Sul, particularmente, começou a mudar. José Sarney e Raúl Alfonsin, nas esferas nacionais, deram o primeiro passo, de modo que, quando Lula retomou tal iniciativa, em 2003, o Chanceler Celso Amorim se encarregou de sedimentá-la e deslanchou proativamente, inclusive com outros chanceleres, até encontrar óbices nos dois desgovernos do período 2016-22.
Como esperançoso e modesto ativista pela criação da Universidade Federal do Pantanal (UFPantanal), confesso ter-me sentido contemplado quando Lula, de forma natural, mencionou Corumbá, que clama por um centro de excelência em estudos humanísticos, ambientais, culturais, científicos e tecnológicos décadas a fio. Temos duas grandes mulheres com essa demanda -- Camila Jara e Soraya Thronicke, não por acaso alvo da misoginia atávica da babel da Afonso Pena --, que, pois, sua sensibilidade política e coragem cidadã permitam que esse sonho longevo de diversas gerações se torne concretude transformadora.
Até porque Corumbá e todo o Pantanal dão prova inequívoca de que fronteira não é um lócus limitante, mas lugar de encontros, miscigenação e afirmação de cosmopolitismo e superação. Isso consta do editorial da edição zero da revista 'Fronteira Viva', de março de 2011, e dos princípios norteadores do Centro de Desenvolvimento Cultural e de Estudos Contemporâneos (CEDECEC), de 1984. A gênese dessa perspectiva tem como amálgama Galeano, Pomer, Chiavenatto e Laino, além de nossos pesquisadores pioneiros que com coragem e determinação construíram as balizas daquilo que será efetiva usina transformadora do ser humano do Pantanal e dos demais seres vivos do bioma igualmente miscigenado, com um misto de Cerrado, Amazônia, Chaco, Caatinga e Mata Atlântica.
Em síntese, Lula, cuja biografia avaliza sua conduta soberanista, integracionista e desenvolvimentista, não precisa provar seu olhar fraternal pelas populações da nossa saqueada e conspurcada América Latina. Mais que admirador confesso da trajetória e compromisso desse verdadeiro Estadista, dou meu testemunho de solidário e ativista da integração dos povos e das aspirações soberanas de um hemisfério liberto e igualitário, sem a tutela perniciosa de qualquer império.
Ahmad Schabib Hany
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