AOS 100 ANOS DA PEREGRINA DE DOCE OLHAR
Wadia Al Hany de Schabib (1926 - 2026)
Nesta quarta-feira, 11 de março do fatídico 2026, transcorrem os 100 anos de nascimento da Peregrina de doce olhar que a Vida nos presenteou como Mãe. Quase 17 anos de sua eternização, sua presença é constante, inspiradora e acolhedora. Um legado que nos torna, sobretudo, racionais e ponderados.
Ainda que vivamos tempos sórdidos, sombrios, em que o psicopata pedófilo Donald Trump e seu amo e senhor Benyamin Netanyahu, perverso e soberbo genocida, tomaram o planeta de assalto e fizeram a humanidade refém, só temos a agradecer à Vida por termos tido a sorte e o privilégio de havermos convivido por décadas com um casal de verdadeiros Peregrinos a quem chamamos de Mãe e Pai, com maiúsculas.
A Peregrina de doce olhar, nascida em San Joaquín de Aguas Dulces, no coração da Amazônia, com o nome Wadia Al Hany Ascimani, era a segunda de onze filhos (a primeira de sete meninas) do casal formado pelo dentista libanês chamado José (Youssef, em árabe) Al Hany e a comerciante boliviana de ascendência libanesa Guadalupe Ascimani de Hany, em cujo sangue também havia a dignificante característica do povo originário Joaquiniano. A crise que sobreveio à decadência das atividades extrativas da castanha e da seringa, sobretudo, com o genocídio promovido pelas petroleiras anglo-americanas Shell e Gulf Oil na Guerra do Chaco e com o pós-guerra de 1945, levou a Familia Hany a se mudar para a Ciudad Jardín, Cochabamba.
Doña Yoya, como era carinhosamente chamada desde tenra idade, desenvolveu uma resiliência ímpar, e mesmo nos momentos mais difíceis nossos Pais sabiam encontrar um meio de superar os desafios que a Vida apresenta aos imigrantes distantes de sua terra-natal. Desde jovem foi protagonista na condução de sua prole, sem titubeio, o que permitia a meu Pai empreender viagens longas para encontrar produtos que abastecessem o exigente mercado boliviano. Por conta de uma crise econômica sem precedentes, decidiu com seu Companheiro sair da Bolívia em 1960 para experimentar novas perspectivas no Líbano, terra de meu Pai, e depois de quase cinco anos fazer a mudança definitiva para Corumbá, onde encontraram as condições de assegurar o porvir da Família e terminaram de formar suas Filhas e Filhos, com a consciência tranquila.
Nesse meio-tempo, durante o período em que o fascismo se alastrou por toda a América Latina, o destino lhe produziu um trauma que marcou a Vida de nossos Pais e, por extensão, de todos nós, representado pela súbita e trágica eternização extemporânea de nosso Irmão Mohamed Schabib Hany, em 1974, no dia do aniversário de fundação da Corumbá de todos os credos, todas as culturas e também impactantes tragédias. Ela partiu para a eternidade em 15 de junho de 2009, depois de ter sido vencida por uma doença impiedosa, 13 anos depois da eternização de nosso Pai, em 4 de julho de 1996.
A seguir, a íntegra da homenagem publicada por ocasião de seus 92 anos, em 2018.
OS 92 ANOS DA PEREGRINA DE DOCE OLHAR
Wadia Al Hany de Schabib (11/03/1926 - 15/06/2009)
Caso estivesse conosco, o presente que a Vida nos deu como Peregrina de doce olhar -- que nós chamávamos de Mãe -- estaria, neste domingo, 11 de março, fazendo 92 anos. Eternizada há menos de nove anos, sua presença não é apenas saudade, mas fonte de sensatez e candura a nortear nossos caminhos.
Nascida Wadia Al Hany Ascimani, a formosa donzela que encantaria duas décadas depois o meu saudoso Pai, Mahoma Hossen Schabib, era a segunda de onze filhos que a jovem senhora Guadalupe Ascimani de Hany procriou com seu Companheiro, o dentista Youssef Al Hany, em San Joaquín de Aguas Dulces, provincia Mamoré, departamento do Beni, Bolívia. Nossa Avó Guadalupe, de Pai libanês maronita e Mãe boliviana, casara-se aos 16 anos, como a maioria das donzelas de seu tempo. Nosso Avô Youssef, aliás José, libanês druso que estudara na Alemanha até ser atraído pelos encantos e mistérios amazônicos, ainda no pós-guerra de 1917, trocou o Oriente Médio pelo Oriente boliviano, tendo-se dedicado ao povo como se tivesse nascido naquelas terras de promissão e carência.
Desde criança nossa Mãe recebera a incumbência de auxiliar nossa Avó a cuidar dos irmãozinhos, ainda que não fossem poucos os riscos da Amazônia boliviana. Sendo a mais velha das meninas, cabia a ela o papel de “segunda mãe”, como era apresentada aos Amigos da Família. Na década de 1920, período entre-guerras, o Beni, como toda a Amazônia, se transformara em centro provedor de castanha, seringa, carne e minerais preciosos para a Bolívia e o mundo. Por conta disso, levas de imigrantes europeus, asiáticos e africanos procuravam o mítico Eldorado (ou El Dorado, em espanhol), mas a maioria encontrava a morte causada pela malária, pelas feras da floresta ou pelos rios indômitos -- muitos aventuraram, poucos eram os vitoriosos e puderam contar a sua saga para os descendentes.
Não demorou muito para que o imigrante libanês Youssef se transformasse no lendário “Doctor José Al Hany”, dentista que por falta de médicos acabara cuidando da saúde e salvando vidas nos vilarejos situados à beira dos temidos rios amazônicos. Quando faleceu, não faltou um alcalde que o homenageasse com o nome de uma rua em Trinidad, capital do Beni, mas que, durante a ditadura sanguinária de Hugo Banzer Suárez, algum interventor rancoroso retirou seu nome para pôr o de um ancestral seu. Se isso fizera falta aos seus descendentes? Absolutamente, até porque a quase totalidade dos Hany (Hanny ou Heni) se espalhara pela Bolívia e toda a América Latina, fazendo jus à sua sina peregrina.
Mas, para a Família Hany, retirar homenagem póstuma beirava anedota diante das histórias canhestras contadas pelo Tio Simón Hany, Irmão mais velho e que chegara antes de nosso Avô José à Amazônia, pelo Brasil. No início do século XX, então recém-chegado à América, o Tio Simón foi trabalhar na extração de castanha e seringa e produção de carne na gleba de um grande fazendeiro português, descendente dos senhores de escravizados da época da colonização. Cansado dos abusos e represálias do arrogante patrão, o então jovem imigrante decidira pedir as contas e mudar-se para o outro lado da fronteira, a Bolívia. Aconselhado por um amigo africano, havia mais tempo na fazenda, a não fazer isso para não perder a vida -- antes fugisse sem deixar vestígios, mesmo deixando seus haveres --, mas ele relutara por entender que eram seus direitos e que ninguém o enganaria. Resultado: depois de pegar todo o salário devido, o Tio Simón foi alvo de tocaia e crivado de balas por jagunços do patrão e, enquanto parecia agonizar, era roubado todo o seu dinheiro. Ainda com vida, apesar de todo ferido pelas balas que o atingiram, foi resgatado pelo amigo africano e levado para um vilarejo pouco distante dali, para ser salvo por originários. Por ironia da vida, dias depois de o Tio Simón ter sido alvejado, o patrão arrogante e ladrão foi morto por um raio que derrubou uma árvore frondosa sobre ele.
Naquela época, as donzelas eram instruídas em casa. Quando jovem, Wadia (Yoya, na Família) e suas Irmãs Magiba e Samía queriam prosseguir com os estudos, mas no interior da Amazônia isso não era difícil, era impossível. Por isso, tão logo se emancipou com o casamento -- três anos depois ela, meu Pai e meus dois Irmãos mais velhos foram morar em Bolívia, Cochabamba, pois para eles o estudo era instrumento de emancipação de toda cidadã, todo cidadão --, fez um curso de técnica de enfermagem, o que lhe foi de muita valia, inclusive para cuidar dos nove filhos e dos filhos de muitas familiares, amigas e vizinhas.
Enquanto meu Pai fazia uma incursão pelas atividades jornalísticas e intelectuais, numa fase em que a Família tinha alcançado estabilidade financeira, sendo Doña Yoya a administradora dos negócios, uma crise sem precedentes se abateu sobre a Bolívia entre os anos 1953 e 1962, o que os levou a decidir emigrar com todos os filhos para o Líbano. Até porque meu Pai, minha Mãe e filhas e filhos, por tabela, tinham automaticamente cidadania libanesa. Esse período, de pouco mais que quatro anos do Líbano, mostrou uma Wadia ainda mais extraordinária e companheira, o que permitiu que meu Pai retornasse às atividades jornalísticas, vinculando-se à imprensa egípcia, escrevendo em árabe e espanhol, pois os mesmos meios que antes publicavam seus artigos na Bolívia, Chile e Brasil tinham interesse de conhecer como as transformações decorrentes do pan-arabismo de Gamal Abdel Nasser estavam se processando por todo o chamado Mundo Árabe.
A iminência da guerra civil no Líbano fez os meus Pais retornarem para a América do Sul, mas desta vez para o Brasil -- precisamente Corumbá, na divisa dos dois países, o que permitia que os filhos mais velhos pudessem cursar os últimos anos do ensino médio e seguir para a Universidade na Bolívia sem perda de tempo --, e que implicou em uma fase de adaptação, sobretudo por causa do calor e das características de cidade de interior, ainda que com um cosmopolitismo ímpar. Com a mesma dignidade com que conduzira os negócios da Família na Bolívia e no Líbano, Doña Yoya se armou de valor e arregaçou as mangas para estar à frente de, inicialmente, uma pequena sorveteria e, depois, uma modesta pousada (na época soía ser chamada de “hospedaria”), com a qual custeou os estudos de todos os filhos, além de ter contribuído, ainda que modesta e anonimamente, para o desenvolvimento do turismo ecológico desta porção rica e singular do Planeta por exatos 30 anos ininterruptos, além de ter inserido na agenda local alguns temas por meio de artigos publicados no emblemático decano da imprensa corumbaense, o combativo Diário de Corumbá.
Depois do encerramento das atividades comerciais, Doña Yoya aproveitou para desfrutar melhor da companhia do Seu Schabib, e fizeram memoráveis viagens para rever familiares no Brasil, na Bolívia, no Líbano e no México. Eis que o destino quis que o Companheiro de Vida se eternizasse antes de que eles pudessem ter comemorado suas bodas de ouro. Foi um período de recolhimento e viagens curtas, na tentativa de esquecer a discretamente sofrida solidão. Mas não se deu por vencida, e com a mesma garra com que enfrentou adversidades em diferentes fases da Vida, viveu por mais treze anos de rica convivência com filhas, filhos, netas e netos, irmãs e irmãos.
Silenciou-se numa chuvosa manhã de 15 de junho de 2009, num leito de clínica em Campo Grande, depois de ter resistido estoicamente a um câncer voraz, oportunidade que nos permitiu conhecer melhor a Peregrina de doce olhar que a Vida nos presenteou como Mãe.
Ahmad Schabib Hany


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