quarta-feira, 18 de agosto de 2021

AS RAZÕES DA DESRAZÃO

AS RAZÕES DA DESRAZÃO

Literalmente no poder há séculos, voltaram ao governo em 2019, mas até hoje não demonstram conexão com a realidade. Por que os ‘donos do poder’ não sabem governar? Tudo leva a crer que eles só conseguem enxergar a si mesmos, em suas intermináveis disputas.

Meu saudoso e sábio Pai, que cresceu com o século XX, costumava dizer que pessoas incapazes de uma autocrítica são perigosas, não por narcisas ou soberbas, mas por serem limitadas e obtusas. E os que sempre se danam são aqueles que estão em seu entorno, a quem atribuem seus erros e ‘desgraças’...

São três anos de desmandos e até agora os atuais inquilinos do Planalto não acertaram o passo. Por quê? Não conseguiram dar um passo sequer, mesmo tendo maioria nas duas casas do Congresso Nacional e com o apoio e a ajuda ‘profissional’ da chamada ‘grande imprensa’ (na verdade, ‘jornalões’ e as grandes redes de rádio e televisão, distribuídas aos ‘amigos do rei’ nas décadas de 1960 a 1980), e a prova são os decadentes Alexandre ‘Graxinha’ e Augusto ‘Nhunhes’, eternos serviçais desde os tempos da (mal)ditadura.

Por que precisaram recorrer aos ‘profissionais’ da política que eles tanto satanizaram antes e durante os dois primeiros anos de patacoadas no Planalto e no Congresso? Mesmo assim, não os deixam ‘trabalhar’, isto é, fazer o ‘serviço sujo’ para o qual vieram sob os mais cínicos pretextos: patriotaria, éti(ti)ca, ‘corrupição’ e, pasmem, a velha cantilena da ‘moral e bons costumes’, já desbotada e desacreditada por eles mesmos em 1964.

Não há nada mais bizarro que as elites endinheiradas e suas hordas de jagunços de todos os tipos - parasitas, rentistas, agregados, justiceiros, mercadores da fé, bajuladores, sonegadores de tributos, marajás do serviço público (de farda, toga ou terno), capitães do mato, grileiros, matadores de aluguel, jagunços, milicianos, garimpeiros, madeireiros e traficantes, entre outros fora da lei que vivem como abutres da tragédia coletiva -, que não saíram do século XIX em pleno século XXI e se acham acima da lei...

Em sua maioria, são pessoas totalmente desconectadas da realidade. Vivem um mundo - melhor, um universo - paralelo. Ainda que alguns tenham domínio da oratória (também pudera, passaram décadas pagando cursos de oratória, desses mantidos por velhas instituições europeias especializadas na arte de ‘conquistar seu público pelo discurso’), não têm a mais simples capacidade de analisar objetivamente a realidade imediata, imaginem desenvolver um intrincado prognóstico social num país em que o tecido social é tão (ou mais) vulnerável quanto a sórdida incapacidade de gestão dessas elites.

Na verdade, essas figuras, ligadas ao passado de exclusão - ou melhor, ao atraso - só se juntaram, aglomeraram, para interromper as tímidas mas consistentes transformações que vinham sendo operadas a partir de 1993, com Itamar Franco (flexibilizadas por FHC, a serviço de uma promíscua concessão às mesmas elites do atraso) e efetivadas nos dois mandatos de Lula e no primeiro mandato de Dilma. Obviamente, no mandato-tampão do ‘brimo’ golpista Michel Temer é que começou o retrocesso, ou seja, o desmonte das políticas públicas já implementadas, cujo ápice foi o nefasto ‘teto de gastos’, e acabar com as reservas do tesouro e o Estado de bem-estar social, consolidados desde 2003.

Responda rápido: quais são as grandes realizações do (des)governo Bolsonaro e do seu siamês, Temer? Eles dois têm se limitado a inaugurar obras iniciadas entre 2003 e 2016 e a trocar nomes de alguns programas, na ânsia de aparentar um ato que demonstre algum traço que simule empatia ou solidariedade com as camadas excluídas ou em situação de exclusão. Tudo um faz de conta, para ficar bonito na foto e poder render algum bônus na campanha e nos debates da sucessão presidencial, que por sua vontade não haveria...

Como eles não têm um projeto de Estado ou ao menos uma agenda propositiva, limitam-se ao desmonte do Estado e das políticas públicas implantadas depois da promulgação da Constituição de 1988, que os idiotas a chamam de ‘comunista’ (sic): educação, saúde, assistência social, cultura, trabalho, meio ambiente, habitação, emprego e renda, trânsito, transportes, segurança pública, acessibilidade, igualdade racial e de gênero, desenvolvimento urbano e rural e de direitos das mulheres, das populações originárias, dos afrodescendentes, das crianças e dos adolescentes, dos jovens, dos idosos e das pessoas com deficiências, entre outras políticas não menos importantes.

Parodiando o saudoso Chacrinha, ‘eles’ não vieram para governar, mas para desmontar, destruir. O compromisso deles é com seus amos e senhores, moradores de Manhattan, Nova York. Fazem tudo a um estalo de seus dedos, e que se dane o povo, o País... É a elite que descende dos mesmos senhores de escravizados e de seus capitães do mato, portanto, tudo o que fazem é inspirado em seus ancestrais, cuja fortuna tem o cheiro do sangue e da violência do pelourinho e da senzala.

Sem delongas: a gota d’água foi a Lei da Empregada Doméstica, sim. Quando Dilma, então Presidenta da República, sancionou a lei, também assinou a sua sentença política, exigida por todas as ‘famílias de bem’ (ou melhor, de ‘bens’), à exceção de uma irrisória minoria que atua à luz da lei, de acordo com os direitos inalienáveis de pessoas que muitas vezes dão a própria Vida pelos patrões, com os quais se identificam, mesmo sabendo que não têm a chance mínima de desfrutar de algum centavo desses patrões.

Acrescente-se à ‘famigerada’ lei aquela igualmente condenada Lei de Cotas, do tempo em que Lula era Presidente: como, na cabeça de quem vive ainda no século XIX, achar normal que a filha/filho da empregada estude na mesma universidade de seus filhos, ‘bem nascidos’?! E se isso fosse pouco, dá para aceitar que o sacro espaço do aeroporto possa ser compartilhado com a família de farofeiros, como empregados, feirantes e demais agregados, cujo acesso não pode ser outro que o elevador de serviço - acontece que a política salarial elevou de fato os salários dos trabalhadores e permitiu uma tímida ‘ascensão’ econômica das classes ‘c’ e ‘d’, que já podiam passar alguns dias em Miami, por exemplo.

Aí, pronto! A Comissão da Verdade escancarou tudo o que os órfãos da (mal)ditadura já criam debaixo do tapete da impunidade, o que ‘causou’ na cabeça dos ‘patriotas’ de pijamas e os tirou do armário, a ponto de um quase desertor ter virado ‘mito’. Por seu turno, as reservas do Pré-Sal, descobertas e formuladas no governo do maior estadista do País do século XXI, despertaram a cobiça do império em decadência que, ao ver a possibilidade de o Banco de Desenvolvimento dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) se realizar, começaram a espalhar a discórdia no meio político, tomado de gente minúscula como aecinho never e josé s(f)erra, até conseguir atiçar o instinto golpista dessa elite anacrônica, por vários nichos, inclusive a cloaca da republiqueta da ‘leva jeito’, com o imprescindível ajutório das famiglias Civita, Marinho, Mesquita e Frias e seus jornalões embolorados, em conluio acertado com Manhattan.

A desrazão tem nome e sobrenome, sim - Romero Jucá -, e atende pela consigna, digo, codinome mefistofélico, ‘estancar a sangria’, como ficou nítido em 2016. Pois é hora de virar a página, mas sem perder a memória jamais. Eis as razões da desrazão.

Ahmad Schabib Hany

domingo, 15 de agosto de 2021

COMPROMISSO COM O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

Compromisso com o Estado Democrático de Direito

O Estado Democrático de Direito é uma conquista da sociedade civil que não pode ser destruída sob qualquer pretexto. Mais que um divisor de águas na história do Brasil, é razão de ser do processo civilizatório e instrumento de afirmação de uma identidade plural, diversa e equânime que tornou o País referência internacional.

A História tem dado demonstrações inequívocas de que vivemos tempos sombrios. Os valores civilizatórios, construídos ao longo de milênios ao custo de incontáveis vidas humanas, são postos à prova o tempo todo. Por que insistir tanto em negar o diferente? A troco de teimar numa hegemonia ilusória e estúpida quando a natureza demonstra diariamente nossa fragilidade diante de um complexo conjunto de forças naturais que se fazem presentes em calamidades causadas pelo acúmulo de erros cometidos nos últimos três séculos pela cobiça e ganância, acreditando-nos ‘superiores’ às demais espécies.

Por outro lado, a Vida nos ensina a superar desafios, e os sucessivos dilemas a que somos submetidos nos levam a uma evolução inevitável, em que a consciência de nossa insignificância e da interdependência de nossa espécie vai nos fazer descer dos saltos em que nos pusemos por pura soberba. A mesma inteligência humana que desenvolve mecanismos para assegurar uma ilusória hegemonia sobre nossos semelhantes e as outras espécies de seres vivos é a que nos levará, mais pela dor que por amor, a uma libertação do jugo financeiro, travestido de ‘desenvolvimento’ ou de ‘progresso’.

Na verdade, há mais de um século e meio temos as razões para optarmos por um mundo menos agressivo, explorador e opressivo - ou seja, mais justo e equilibrado. No entanto, forças retrógradas têm cooptado inteligências excepcionais para o, digamos, ‘serviço sujo’ com o único afã de manter a lógica perversa aparentemente hegemônica como se fosse uma lei natural, em que os mais ‘inteligentes’ (sic) são os vencedores. Assim, os que ousam mudar a perversidade naturalizada são alvo de campanhas difamatórias, que desqualificam bem ao estilo medieval obscurantista, dentro do simplismo maniqueísta, os mais simples questionamentos, inofensivos e em sua maioria óbvios.

Pelo menos por três vezes vivemos isto no contexto brasileiro. No primeiro quartel do século XX, quando forças obscurantistas se valeram das ondas nazifascistas europeias e mataram (em muitos casos literalmente) qualquer chance de transformação das relações de nossa sociedade. No início da década de 1960, novamente forças reacionárias usaram toda sorte de bandeira, sobretudo dentro da lógica da guerra fria, para sufocar qualquer chance de transformar a sociedade por meio da Educação e da Cultura - o ápice foi o golpe de 1964, articulado desde a sede do império, valendo-se para isso da narrativa da defesa da ‘liberdade’, depois explicitada como censura, prisão, tortura e execuções sem julgamento prévio.

Nem trinta anos depois de restaurado o Estado Democrático de Direito, essa mesma narrativa voltou a ser adotada, mas desta vez de uma forma muito patética. Muitos ex-combatentes pela democracia acabaram seduzidos pelos ardis golpistas, e por meio de uma sórdida campanha maniqueísta, a partir de 2013, inicia-se um retrocesso surreal. Vários foram os ardis: um aparente prurido anticorrupção, uma inaudita sanha moralista em que questões religiosas e comportamentais foram misturadas perigosamente, uma venenosa ode a super-heróis tupiniquins (depois desmascarados pelo primarismo de suas condutas nada éticas e, sobretudo, pelo despreparo no exercício do próprio ofício) e por fim uma avalanche patrioteira liderada por um ser comprovadamente desqualificado e vinculado a setores de foras de lei, como milicianos, grileiros, garimpeiros, madeireiros, sonegadores de tributos, mineradores clandestinos e fabricantes de armas, mais tarde associado a mercadores da fé e recalcados dos mais diferentes ofícios e rincões do País.

Como ‘não há mal que dure cem anos’, conforme nos ensina a sabedoria popular, o ‘rei’ está nu e os seus fétidos glúteos escancarados, sobretudo quando teima em afrontar as mais comezinhas normas de convívio institucional. O ‘pó de mico’ espalhado na multidão está vencido e não mais faz efeito. Cada passo que as hordas mefistofélicas dão mais o afunda: os seus dias estão contados, ainda que tente atentar contra vidas humanas e dos biomas (como, aliás, tem feito sem demonstrar qualquer pudor, empatia ou caridade cristã) e até mesmo a ordem constitucional, sua obsessão precoce, desde os tempos em que por muito pouco não vira desertor.

Cabe, portanto e tão somente, às pessoas sinceramente comprometidas com a Vida, com os valores civilizatórios, com o porvir das próximas gerações e com as reais perspectivas do País a inadiável tomada de atitude frente ao processo de destruição do Estado de Direito e da democracia - e com eles todas as benfeitorias constituídas nos últimos dois séculos de soberania nacional -, com a manifestação contundente do não rotundo a tudo que atenta contra o que foi duramente construído, sobretudo, nos últimos 30 anos.

Acreditar no porvir deste País-continente é dar uma chance à imediata edificação de um novo tempo, um novo momento, permeado pelo amor ao próximo como elemento motriz da nova política a ser implementada já. Chega de ódio! O amor como sinônimo de bem estar, de porvir, de igualdade de oportunidades, de soberania popular, é o que esta população hospitaleira e acolhedora precisa e merece.

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

TRIBUTO PARA A PROFESSORA TEREZINHA BARUKI

TRIBUTO PARA A PROFESSORA TEREZINHA BARUKI

Com a mesma discrição com que viveu, a Professora Terezinha Baruki se eternizou, aos 81 anos, depois de resistir às investidas de uma doença que não poupa suas vítimas. O vazio de sua ausência é do tamanho de seu legado, generoso e transformador.

Discreta, ponderada, incansável e determinada. De personalidade forte e uma formação incomum nestes tempos de globalização, a Professora Terezinha Baruki se eternizou depois do Dia do Estudante, não sem antes coroar seu legado de Educadora, Salesiana, Democrata e Empoderada na gestão de uma escola particular de educação básica em que associou o sistema Objetivo de ensino ao método preventivo de Dom Bosco.

Até hoje me pergunto por que, em 1992, a maioria do eleitorado de Corumbá titubeou e não reconheceu suas inegáveis qualidades como candidata a prefeita, tendo como vice o não menos competente e ético Armando Lacerda. Os ataques misóginos e racistas - sim, porque, como nunca, questionou-se a competência das mulheres e se falou mal, muito mal, dos ‘turcos’, como que os imigrantes tivessem que pedir desculpas por existir - contribuíram, feito fake news na época, para desqualificar sua candidatura. Obviamente, o apoio do deputado federal Elísio Curvo, depois de ter votado contra o impeachment de Fernando Collor na Câmara Federal, prejudicou o desempenho eleitoral de uma chapa reconhecidamente qualificada. E como o voto era ainda impresso, com a recontagem dos votos houve muita polêmica sobre o resultado final daquele pleito. A história mostrou didaticamente o erro, ou melhor, as consequências do erro de então...

Discreta e comedida, a Professora Terezinha não só era fonte fidedigna de jornalistas como o saudoso Jornalista Márcio Nunes Pereira como conquistava um trânsito ideal para uma parceria sólida com a Imprensa (essa com letra maiúscula), independentemente do posicionamento do profissional, a ponto de ser, tal como seu Primo, o saudoso Professor Salomão Baruki, uma conselheira em diversas perspectivas. Mas nem por isso se valia para retaliar eventuais desafetos, que ela preferia ignorá-los, didática e sabiamente. A lucidez e racionalidade também eram marca de seu caráter forte, forjado na incessante luta por conquistar seu espaço com firmeza e mérito próprio.

A Professora Terezinha trocou, na juventude, um curso na área de biomédicas, em 1958, pela vocação de Professora, afinal, tinha o curso Normal. Dez anos depois, integrou a primeira turma de Letras, no pioneiro Instituto Superior de Pedagogia de Corumbá, antes da existência do CPC (Centro Pedagógico de Corumbá) e a própria UEMT (Universidade Estadual de Mato Grosso, com sede em Campo Grande). Sobre esse período, lembrava com indisfarçável saudade, de todos os colegas que deram início ao curso, muitos deles já graduados em outras áreas.

Por causa de sua memória infalível, certa vez perguntei à Professora Terezinha sobre a querida Professora Suzana Maia (Chelotti, na época), que também fazia Letras no CPC. Esboçou um sorriso cheio de ternura quando se reportou ao tempo em que, ainda aluna do Imaculada Conceição, a Professora Suzana recebia, toda vez que havia mudança repentina no clima, a visita da progenitora com o agasalho adequado, pelo zelo que tinha com a Filha. Além da memória, uma sensibilidade privilegiada.

Pouco antes da pandemia, quando lhe falei que conheci Dona Adelaide, Filha da babá que cuidou dela na infância, Dona Maria (que está viva, embora com mal de Alzheimer), não escondeu o misto de espanto e alegria ao saber que manifestou o interesse de deixar o endereço dela em Campo Grande para quando a Professora Terezinha pudesse visitá-la. Não faço ideia se esse encontro chegou a acontecer, por causa das medidas de biossegurança adotadas pelos municípios/estados no início da infecção pelo novo coronavírus.

Era muito observadora, a ponto de saber o nome (e sobrenome, pelo que constatei) dos pais e dos alunos do IBEC, bem como da turma em que estavam matriculados. Desde o tempo em que minha Sobrinha Dúnia fez todas as séries do ensino básico, fui-me dando conta do zelo com que tinha pelas comunidades discente, docente e administrativa. Os alunos (e ex-alunos) do ensino médio, já adolescentes e jovens, também conseguiam se comunicar sem maiores cerimônias ou reverências. Diversas vezes ouvi de muitos deles a maneira espontânea de se referir à diretora simplesmente por “Terezinha”.

Quase dez anos depois de concluir o ensino médio em sua Escola, minha Sobrinha, por exemplo, periodicamente ligava para ela, com total liberdade. Quando lançou seu livro autoral sobre o que aprendeu a gostar em seu tempo de IBEC Objetivo, a cultura do k-pop, a Professora Terezinha havia combinado com ela que fazia questão de receber de suas mãos o exemplar de seu livro “na quadra do Objetivo”, para que os atuais alunos também soubessem da trajetória da ex-aluna. Uma pena para todos nós que seu desejo não possa ter sido realizado - mais uma vez, pela incompetente gestão federal no enfrentamento à pandemia, que adiou e tem demorado na aquisição e distribuição das vacinas para a necessária imunização coletiva da população.

As adversidades e eventuais imprevisibilidades em sua saúde, sobretudo como pessoa da terceira idade, jamais a tiraram de suas obrigações, mesmo ela sendo a pessoa com o maior cargo na instituição. Não dá para esquecer sua descrição sobre “o passo firme” da Pequena Sofia (nossa Caçula), aos 8 anos, inclusive nos insinuando a estimular essa disposição de enfrentar desafios, como mulher pioneira em diversas frentes. Da mesma forma, com nosso Filho Omar, com 10 anos na época, fez questão de parabenizar diante de todos os colegas um gesto espontâneo seu, valorizando atitudes solidárias e éticas.

Deve ter sido uma das mais jovens diretoras de Corumbá quando aceitou o desafio para dirigir o Círculo Operário, da Obra Social Salesiana, nos anos 1960. Projeto de vanguarda e no contexto das inovações do Concílio Vaticano II, do pontificado do Papa João XXIII, o educandário concebido para a qualificação humana, instrução formal e preparação dos jovens em situação de exclusão para o mundo do trabalho teve seu protagonismo efetivado sob a lúcida e competente direção da Professora Terezinha. É comum vermos hoje pessoas com mais de 60 anos lembrando-se com gratidão da jovem diretora, no alto de sua exuberância, que também se dedicava às inesquecíveis aulas de gramática.

Ao lado da igualmente incansável odontóloga Vera Lúcia Farias, a Professora Terezinha fundou a Associação das Mulheres de Negócio e o Banco da Mulher, por meio dos quais as mulheres corumbaenses começaram a se emancipar com pioneirismo. Estamos falando de quase quarenta anos atrás, apenas uma década depois da emblemática Conferência Mundial sobre os Direitos da Mulher, realizada em 1975 no México (uma espécie de Rio ou Eco-92 no âmbito das mulheres). Foram, aliás, essas pioneiras as que disseminaram as ideias que viriam a fertilizar os passos seguintes, já na primeira década do século XXI.

Uma das mais eloquentes constatações de sua sensibilidade e compromisso social foi a perene, afetuosa e leal relação de parceria e Amizade com a agora saudosa Dona Ivone Torres de Moraes, a Dama de São Pedro, da comunidade do Bairro Cervejaria e dos pescadores de Corumbá. Desde que se conheceram, as duas grandes mulheres se deram as mãos e nem o tempo e as adversidades as distanciaram, pois era comum vermos as duas em longas e risonhas conversas na sala de direção da Professora Terezinha até dias antes do educandário ter adotado o protocolo de biossegurança contra a pandemia.

Como presidente da Soamar (Sociedade dos Amigos da Marinha), cargo a que foi reeleita por duas vezes, demonstrava não só a competência de executiva bem-sucedida como a habilidade de conjugar ações protocolares, exigidas por instituições militares, a atos de caráter social, essência do humanismo de sua formação cinquentenária. Posso dizer que sou uma ‘testemunha ocular da história’ nesse sentido, pois, antes de formalizar o agendamento da mais alta autoridade da Marinha em nossa região, ela solicitou minha observação sobre a oportunidade e a conveniência da visita ao querido Amigo, Senhor Jorge José Katurchi, antes da pandemia, para a despedida do Almirante. Uma vez confirmada a visita, ela novamente tratou cuidadosamente para que o Amigo, com 92 anos, não sofresse qualquer estresse ou ansiedade (na época ele convalescia de um quadro de pneumonia), e que a visita fosse de surpresa e sem maiores delongas, o que foi acordado com os seus dois Filhos, o José Eduardo e o hoje saudoso Mário Márcio, além do Neto, José. Discreta, delicada e objetiva em suas atitudes.

De ascendência libanesa, promoveu em Família torneios de ‘taule’ (também conhecido como ‘gamão turco’), além do que poderia vir a ser chamado de festival gastronômico libanês em que especiarias árabes eram servidas para o deleite dos mais apurados gostos cosmopolitas. Filha de uma Família de comerciantes pioneiros bem sucedidos, ela também soube fazer jus à vocação inata, tendo sido proprietária de duas lotéricas nas décadas de 1980 e 1990. No momento que julgou certo, saiu do ramo por não dispor de ‘braços e pernas’ para tantas frentes, tendo focado todo o seu saber naquilo a que sempre se dedicou, com amor e sinceridade, a Educação.

Assim, ao lado de igualmente mulheres de vanguarda, como a Professora Lígia Baruki e Mello (Filha do Professor Salomão e da Professora Magali de Souza Baruki) e a Professora Adelma Galeano, no âmbito do Colégio IBEC, criou o bem-sucedido Fórum Infantojuvenil do Pantanal (hoje em sua 20ª edição), num tempo em que falar da questão ambiental em Corumbá era uma heresia (as hordas obscurantistas que saíram da caixa de pandora em 2015/2017 já andavam mostrando suas manguinhas em Corumbá entre 2001/2008). Na mesma época, o Professor Salomão Baruki havia defendido a proposta de inclusão do termo ‘ambiental’ pelo Amigo Antônio Vítor Lima Batista, quando da escolha do nome do CENPER (Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental), na residência de Seu Jorge Katurchi, com a presença do saudoso Padre Ernesto Sassida.

Com anos de pioneirismo, a Professora Terezinha e o Professor Salomão davam mostras de que ciência, conhecimento conectado à realidade, é mola propulsora da evolução, do progresso, ainda que de modo discreto, em ações. Aliás, quando se mostra na atualidade a sucessão de tragédias pelas mudanças climáticas em todo o mundo (e a própria pandemia da covid-19), traduzida em crises hídricas, secas prolongadas, temperaturas extremas e queimadas e cheias descontroladas, temos que pedir desculpas a estudiosos que, duas décadas atrás, tiveram a coragem de colocá-la na agenda política regional, mas cuja honra e dignidade foram linchadas injustamente.

A Professora Terezinha, convicta em seus critérios e atenta em suas observações, provou com anterioridade e pioneirismo que a mulher na direção é transformadora e resolutiva. Em uma existência caracterizada pelo pioneirismo e a inovação, ainda que insistisse em se autodeclarar conservadora, protagonizou na política e nas iniciativas sociais momento ímpar em Corumbá: como vereadora, foi uma presidente do Legislativo que entrou para a história pela habilidade, espírito público, honestidade e retidão no trato da coisa pública; como candidata a prefeita, tendo como companheiro de chapa, em 1992, outro grande ser humano, Armando Carlos Arruda de Lacerda, foi vítima da deslealdade dos que se dizem ‘hábeis’ políticos, mas ensinou lealdade e coerência ao empunhar a maior bandeira transformadora deste País-continente - a Educação -, para onde focou sua inteligência e ações desde que se percebeu muito diferente dos misóginos e ‘antiturcos’ com os quais convivia no meio político local.

Nestes últimos dez anos nós temos perdido muitos paladinos, que carinhosamente tomo a liberdade de chamá-los de Patronos e Patronas (não patronesses, porque traz a velha misoginia embolorada que teima existir entre nós): em 2011, Heloísa Helena da Costa Urt, Patrona da Cultura; em 2012, Dom José Alves da Costa, Patrono da Cidadania; Aurélio Mansilha Tórrez, Patrono da Efetivação do SUS; em 2013, Padre Ernesto Sassida, Patrono da Assistência Social; em 2014, Professora Eunice Ajala Rocha, Patrona do Patrimônio Histórico; em 2017, Pastor Cosmo Gomes, Patrono da Concórdia; em 2018, Pastor Antônio Ribeiro de Souza, Patrono do Diálogo; em 2019, Seu José Batista de Pontes, Patrono do Controle Social em Corumbá; Seu Ariodê Martins Navarro, Patrono do Controle Social em Ladário; em 2020, Seu Agripino Magalhães Soares, Patrono da Viola de Cocho; em 2021, Padre Pascoal Forin, Patrono da Inclusão Social; Dom Segismundo Martínez, Patrono da Interlocução; Professor Carlos Henrique Patusco, Patrono da Cordialidade; Dona Ivone Torres de Moraes, Patrona da Devoção; Professora Terezinha Baruki, Patrona da Educação.

A plêiade de paladinos que passaram para a eternidade, integrada agora pela saudosa Professora Terezinha Baruki, nos inspirará e motivará sempre pelo legado inesgotável que trazemos em nossa memória e coração, muito entristecidos, mas gratos e honrados por sermos testemunhas de suas ações em favor de uma sociedade melhor.

Até sempre, Professora Terezinha, e obrigado pelos incontáveis exemplos eloquentes de sensibilidade, firmeza e correção! Obrigado, também, por nos ajudar a formar o caráter e a abrir os horizontes de nossas novas gerações, como a Dúnia, o Omar e a Sofia!

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 10 de agosto de 2021

MAIS UMA DO PANTALEÃO PATOAPARTE



MAIS UMA DO PANTALEÃO PATOAPARTE

Quando o cúmulo da imbecilidade nos leva a rir da própria desgraça. É como nos sentimos nesta terça-feira, véspera do 11 de agosto (Dia da Justiça e Dia do Estudante), quando Pantaleão Patoaparte dá mais uma de suas patacoadas...

Desgraça pouca é bobagem... Não é que um ser destituído de cérebro decidiu promover um desfile militar enquanto a Câmara dos Deputados vota a já derrotada emenda que teima em retroceder no tempo e trazer de volta o voto impresso, comprovadamente manipulável e evidentemente sujeito a fraudes, como a história já provou?

Na ânsia de se perpetuar no poder, o monstro dilapidou o patrimônio público, entregou as maiores riquezas aos seus amos, fez com que mais de um milhão de brasileiros perdesse a vida sem ter esboçado qualquer sentimento de solidariedade, ofendeu, ameaçou, transgrediu e prevaricou. Agora, tal qual um Napoleão às avessas, como desenhistas de Walt Disney já caricaturizaram nos anos 1960 na figura de Pantaleão Patoaparte, chega ao orgasmo ao ver tropas de machos, em formato fálico que o levam ao delírio, desfilando na Esplanada...

Vamos ao que interessa: quanto custa para os cofres públicos a mobilização de blindados com armas bélicas com o afã de fazer uma demonstração de força anacrônica e ridícula? E para a nossa frágil democracia, estuprada em 2016 com a farsa do golpe travestido de impeachment e violentada sucessivas vezes entre esse fatídico ano pelo ‘brimo’ canalha e seus iguais até ser reiteradamente vitimizada na mão de uma horda de misóginos milicianos que deveriam ter sido apanhados naquele nefasto condomínio cujos funestos moradores fedem um misto de chulé, esperma e enxofre?

Que há desespero em seu gesto, não resta dúvida. Também pudera! Conferir o maior cargo da República a um indivíduo 3D (despreparado, desequilibrado e desconectado da realidade) chega a ser bizarro. O pior é que não foi por falta de opção: houve, igual a 1989, candidatos para todos os gostos e afinidades. Hipocrisia às favas, eleitor de criminoso é cúmplice, e que fique registrado na história que ‘democratas’ arrependidos, liderados pelo microcéfalo aecinho neves (em minúsculas, como ele mesmo), são tão criminosos quanto o energúmeno que não vale o que defeca...

Lembram-se daquela expressão do saudoso O Pasquim? “Nóis sofre, mas nóis goza...” Quando vemos a corda, ou a m..., na altura de nossos pescoços, é melhor aproveitar e rir, que, como diziam nossos sábios ancestrais, “o que não tem remédio, remediado está”. Paciência, até porque temos a consciência tranquila de que tentamos de todas as formas, mas a soberba de uma expressiva parcela da população brasileira preferiu pegar o caminho do brete, rumo ao abatedouro...

Que todos temos hora de encerrar a jornada, isso é fato. E até por conta disso, informo, em especial aos miseráveis facínoras que rasgaram a Constituição de 1988, que, com a dignidade com que jogamos na cesta do lixo os malditos canalhas de 1964, iremos jogar no lixão cheio de chorume todos os imprestáveis que usurparam a esperança, o sonho e a empatia de significativa parcela do Povo Brasileiro, hospitaleiro e acolhedor, ludibriado e acuado por fantoches do império maldito que se assanham diante do esplendor de nossas matas, biomas, aquíferos e reservas naturais...

O Brasil é maior que a ganância dos abutres do mercado e o entreguismo de patrioteiros cujos holerites denunciam sua aptidão para mercenários. Patriota de verdade é o Povo cheio de amor, solidariedade, sabedoria e parcimônia: a hora dos facínoras já foi selada pelo tempo, e ele, sim, é “o senhor da razão”, não é mesmo, collor de me(rd)llo?

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

EDSON MORAES E A GERAÇÃO DE OURO

EDSON MORAES E A GERAÇÃO DE OURO

A radiofonia corumbaense, além de pioneira, foi uma usina de revelação de grandes talentos e de transformação não só em Mato Grosso uno como nas grandes metrópoles brasileiras. Não por acaso alavancou o Jornalismo de vanguarda corumbaense, mato-grossense, sul-mato-grossense e nacional.

Década de 1970. O Brasil vivia o período de censura mais draconiano, mas o talento da juventude dos anos rebeldes irradiava em todas as atividades da sociedade brasileira: rádio, televisão, teatro, cinema, artes plásticas, literatura e jornalismo. Corumbá, centro propulsor das artes e da cultura desde o início do século XX, cumpria com seu papel histórico, até por conta dos jogos florais, festivais, mostras, exposições, gincanas e eventos radiais, televisivos e jornalísticos.

Sem perder de vista o cuidado com eventuais ‘derrapadas’ causadas pela irreverência juvenil em tempos sombrios, os promotores de eventos artístico-culturais, literários, radiofônicos, televisivos e jornalísticos realizavam em tempo integral oportunidades que descobrissem novos talentos nas mais diferentes atividades disponíveis em Corumbá. Era uma Corumbá cosmopolita, conectada ao mundo, aberta ao futuro, às transformações tecnológicas, sem perder de vista de sua identidade secular.

Não por acaso, ao tempo em que Norma Atagiba, Ênio Conturbia, Tadeu Vicente Atagiba, Geraldo Roca, Hélio Ferreira, Geraldo Alexandre, Juvenal Castelo Branco, Nilson Pereira de Albuquerque, Orlando Bejarano e Deneval Ribeiro Elias, além de bandas como MJ-6, Django e Arame Farpado, explodiam no gênero de música autoral e nos bailes de então, a radiofonia corumbaense reluzia com a inesgotável genialidade de novos talentos, como Edson Henrique Figueiredo de Moraes, Juvenal Ávila de Oliveira, Jonas Luna de Lima, Adolfo Rondon Gamarra, Vergínio Aleixo Rondon Gomes da Silva (Gino Rondon), Ronaldo Cadete Leite, Ronaldo Bardawil, Farid Yunes Solomini, Armando de Amorim Anache, Antônio Ávila, Augusto Alexandrino dos Santos (‘Malah’), Roberto Hernandes, João de Oliveira Neves (‘Joãozinho Gente Boa’), Antônio Barcellos de Jesus, Marília Ajala Rocha e tantos outros talentos que fizeram história.

Tanto no jornalismo quanto na radiofonia, Corumbá foi precoce. Assim como O Iniciador foi o primeiro jornal desta região de Mato Grosso, A Pioneira, isto é, a Rádio Difusora Mato-grossense S/A (ZYA-2, 1.490 KHz), também o foi. Nos anos de 1940, inicialmente como um sistema de som levado por cabos até à Praça Independência e quadras centrais do comércio corumbaense, reinou sozinha com programas de auditório ao vivo, até a Diocese de Corumbá ter obtido a concessão daquela que se consagrou como a Jovem Clube, Sociedade Rádio Clube de Corumbá Ltda., entregue à odontologista Laurita Anache e ao advogado Fauze Anache pelo então Bispo Diocesano Dom Ladislau Paz, no início da década de 1960.

Com a eclosão do regime de 1964 e as estreitas relações do empresário Armando Anache com o então poderoso senador Filinto Müller, há quem justifique a ascensão política da Família Anache durante os anos de chumbo: desde a concessão da emissora diocesana à importante Rede Brasil Oeste de Rádio e Televisão Ltda., em Cuiabá, que com a divisão de Mato Grosso perdeu sua razão de ser e acabou na década seguinte nas mãos de correligionários do norte de Mato Grosso uno. Maledicências, ou não, à parte, a Jovem Clube prestou relevantes serviços à cidadania e ao Jornalismo durante sua existência, até ter sido desarticulada por divergências familiares em fins da década de 1990.

As duas emissoras foram verdadeiras escolas de comunicação, inclusive de Jornalismo (com letra maiúscula). Ao mesmo tempo em que A Pioneira projetou inúmeros profissionais na locução e no radiojornalismo (Edson Moraes, Gino Rondon, Juvenal Ávila, Adolfo Rondon, Malah, Antônio Ávila, Antônio Barcellos de Jesus, Roberto Hernandes, Ronaldo Cadete Leite, Ronaldo Bardawil, Pedro Gonçalves de Queiroz, Joãozinho Gente Boa, Joel de Souza, Deni de Souza, Augusto César, Carvalho Sobrinho, Jota Aguilar e Lalá), a Jovem Clube fez história com uma geração de ouro, revelada basicamente entre 1972 e 1974, constituída por Edson Moraes, Juvenal Ávila, Gino Rondon, Jonas de Lima, Adolfo Rondon, Sandro Nemir, Ronaldo Bardawil, Malah, Farid Yunes, Armandinho Anache, Roberto Hernandes e Ronaldo Ney, entre outros.

Na verdade, a Família Anache já havia feito a requisição de concessões de rádio e TV em Cuiabá, capital de Mato Grosso uno, e fez da Jovem Clube um laboratório para preparar jovens profissionais para seu projeto de expansão das atividades do grupo rumo à capital mato-grossense. A trágica morte do presidente da Arena (partido de sustentação do regime) e do Senado Federal Filinto Müller, em acidente de uma aeronave da Varig em julho de 1973 no aeroporto de Orly, França, e a divisão inimaginável de Mato Grosso para obter mais três senadores governistas em 1977, atropelaram o projeto de Armando Anache e seus aliados, ligados a Pedro Pedrossian.

No entanto, o saldo foi positivo. A revelação desses grandes profissionais que constituem a geração de ouro, a exemplo de Edson Moraes, e que no momento seguinte migraram para A Pioneira, na época sob a direção de Antônio Barcellos de Jesus, que já dirigira a Jovem Clube ao lado de Ângelo Vieira, também dentro de um projeto político, sob o Consórcio Corumbaense de Comunicação, o efêmero CCC (Rádio Difusora, Folha da Tarde, O Momento e Correio de Corumbá), virou uma importante página da história do Jornalismo. Da imprensa de perfil morno, os novos profissionais, quer na radiofonia ou na mídia impressa, deram o protagonismo marcante de que tanto se ressentia a imprensa corumbaense naquele momento.

Sob a direção geral do jornalista goiano Daniel de Almeida Lopes, trazido pelo projeto do CCC para ‘acabar com o gaetismo’ e voltar a eleger dois deputados da Arena, a Folha da Tarde, carro-chefe do consórcio, contratou vários Jornalistas combativos, entre eles o mineiro Luiz Gonzaga Bezerra, ex-repórter especial do Jornal do Brasil, e que residiu em Corumbá por quatro anos. Jornalista com letra maiúscula, Gonzaga foi um guru para Edson Moraes, cujo talento e combatividade potencializaram ainda mais a carreira do jovem repórter. Além da excelente qualidade de seu texto, elegante e incisivo, Edson sempre se caracterizou pelo faro apurado como repórter, e em pouco tempo já se destacava como editorialista e responsável pela coluna No bolso do repórter, uma espécie de Informe JB do vespertino corumbaense.

Para honrar o combinado com os grupos políticos governistas integrantes do CCC, Daniel Lopes, encantado com o sucesso da equipe de Jornalistas no vespertino e na Pioneira, começou a fazer projetos mais ousados: inseriu colunas redigidas por ele em toda a imprensa corumbaense (“Dilemas de Gaeta”, na Folha da Tarde; “Reflexões sobre a moral”, no Diário de Corumbá, e uma terceira coluna, cujo nome não me lembro, no sisudo jornal udenista, O Momento, dirigido então pelos irmãos Waldemar, Nelson e Rubens Dias de Rosa).

Amir Fernandes e Antônio Barcellos de Jesus dirigiam a emissora pioneira ao lado de jovens egressos da geração de ouro da Jovem Clube. Dotado de uma voz muito parecida à do memorável radialista Hélio Ribeiro, o jovem radialista Juvenal Ávila foi designado à função de diretor musical da Difusora. Além de fazer uma seleção musical primorosa, ele fazia questão de registrar, ao lado do nome da música, os nomes dos intérpretes e compositores, bem como o ano da edição do disco e o selo da gravadora, igual às emissoras do eixo Rio-São Paulo. Em seu programa, no horário nobre, dedicava ao radio ouvinte consistentes análises dos rumos dos diferentes gêneros musicais, em especial à MPB. Era uma verdadeira revolução na radiofonia mato-grossense, e não lhe faltaram convites para ir trabalhar em Cuiabá e Campo Grande.

Edson Moraes e Luiz Gonzaga Bezerra tinham carta-branca na Folha da Tarde, tendo se transformado entre 1974 e 1976 no jornal de maior circulação da região. Mesmo Cecílio de Jesus Gaeta tendo conseguido se reeleger deputado estadual com uma votação ainda maior que a de 1970 (revelando o fracasso da estratégia do Consórcio Corumbaense de Comunicação), Daniel Lopes investiu pesado no vespertino, trazendo um teletipo da Agence France Presse (AFP), comprando uma clicheria e uma impressora mais moderna. Criou a Agência Mato-grossense de Imprensa (AMI), lançou um semanário de esportes, o SÓSPORT, e anunciou a edição da Folha da Manhã e Folha da Noite, para desconforto dos concorrentes, que não se fizeram por esperar: tanto o vespertino quanto emissora eram propriedades de duas sociedades, e muitos dos acionistas estavam incomodados com a ousadia de Daniel Lopes.

Como Daniel Lopes tinha problemas de gestão (tanto a emissora quanto o vespertino estava há muito em atraso com as obrigações sociais, como FGTS e INPS), os desafetos instigaram a fiscalização Previdência para autuar os proprietários desses dois veículos que estavam arrendados por Daniel Lopes tão logo o CCC acabara. Não demorou muito, o patrimônio da Rádio Difusora Mato-grossense e da Folha da Tarde foram para leilão, e todos os Jornalistas e Radialistas de peso tiveram que procurar novos horizontes em outros meios ou em outras cidades.

O Jornalista Edson Moraes, em sociedade com o saudoso gráfico Manoel de Oliveira, fundaram outro vespertino, com a mesma combatividade do anterior, O Tempo. Foram mais de dois anos de luta diária, sempre com grandes reportagens e um bom número de anunciantes para assegurar a manutenção do Jornal. Entretanto, a denúncia sobre a existência de um cemitério clandestino próximo à estação ferroviária de Urucum abalou a aparente ‘liberdade de expressão’, e as forças ocultas que desde os tempos de Frei Mariano de Bagnaia exercem o controle absoluto de Corumbá o impeliram a fechar o tão importante Jornal. Em razão disso, mudou-se para Campo Grande e encontrou seu velho guru, Luiz Gonzaga Bezerra, no diário A Tribuna, de propriedade do então Deputado Sérgio Cruz. Já o Radialista Juvenal Ávila optara por cursar Psicologia no à época Centro Pedagógico de Corumbá (então vinculado à UEMT) e decidiu adiar seu sagrado Ofício de comunicar, projeto que depois de aposentado pode vir a realizar, em boa hora.

Incansável Jornalista, Edson Moraes integrou equipes de Jornalismo de vanguarda, além de ter sido um dos fundadores do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul, ao lado de outro igualmente incansável conterrâneo, o Jornalista Luiz Taques e a querida Lúcia da Silva Santos. Tão logo cheguei a Campo Grande, em fins de 1978, fui procurá-lo na Redação de A Tribuna, então na Avenida Calógeras, perto da ferroviária. Estava à procura de uma vaga de revisor ou copidesque (naquela época havia essa função, uma espécie de revisor na redação), mas o trágico falecimento do diretor Douglas Cruz, Irmão do Deputado Sérgio Cruz, havia causado um descompasso de gestão no combativo diário. Edson me recomendou o Diário da Serra, para onde fui trabalhar ao lado de dois queridos gurus - Seu Rubens e Seu Libório (cujos sobrenomes não lembro no momento), dois verdadeiros Professores que os trago na memória e no coração.

Em 1980, finalmente tive o prazer de trabalhar, como integrante do projeto chefiado pelo querido e saudoso Amigo Mário Corrêa Albernaz, na Assembleia Legislativa, por um ano com o Edson Moraes, que me honrou com a oportunidade de participar, como foca, de uma coluna sobre movimentos sociais no emblemático Jornal do Povo, também de propriedade de Sérgio Cruz. Ao lado de Edson estavam os igualmente grandes Jornalistas José Eustáquio, Ivan Pacca, Lúcia Santos e Kátia Seleguin, entre outros. Um atentado contra o Deputado Sérgio Cruz, na antevéspera do Natal de 1980, acabou por interromper a circulação do Jornal, cuja combatividade escancarava a ‘mão invisível’ de um mercado criminoso, desbaratada somente 40 anos depois.

Em 1983, voltei a trabalhar com Edson Moraes, na edição pioneira do Jornal da Cidade, num misto de revisor e copidesque, quando ele era diretor de Redação, tendo como grandes Companheiros os Jornalistas Roberto Chamorro e Margarida Galeano. Nessa ocasião tive a honra de conviver de perto com essa grande referência no Jornalismo e outros queridos Companheiros como Xavante, Pardal, Deuzimar, Renan Silva, Renan Ruiz e Raul Valle Herrera, além de inúmeros colaboradores, entre eles Joel Pizzini Filho, Margarida Marques, Sérgio Medeiros, Gilberto Luiz Alves, Fausto Matto Grosso e Paulo Coelho Machado. Por conta de divergências com a administração do Jornal, me afastei, muito contrariado, dessa equipe de incansáveis profissionais, mais tarde integrada pelos igualmente queridos Amigos Luiz Taques e Paulo Yafusso. Outra verdadeira Escola de Jornalismo, sob a direção do grande Jornalista Edson Moraes.

Enfim, todos os integrantes da geração de ouro se espalharam por diversas cidades do País: Adolfo Rondon, entre Rondonópolis, Campo Grande e Corumbá; Gino Rondon, entre Rondonópolis, Cuiabá e Campo Grande; Ronaldo Bardawil, interior de São Paulo; Marília Rocha, São Paulo e interior; Roberto Hernandes, Campo Grande e Corumbá; Armandinho Anache, entre Recife, Rio de Janeiro, Corumbá e Aquidauana. O legado dessa geração, de grande relevância, nas ondas do rádio ou nas páginas de jornal, é fermento de ética, combatividade e credibilidade para seus contemporâneos e, sobretudo, as gerações vindouras, que, aliás, precisam compreender que a tecnologia e o manual de redação não substituem o compromisso com a História. Esta que é escrita nas ruas, a verdadeira mola propulsora cujo protagonista legítimo é o cidadão anônimo, o Povo, com suas demandas, anseios e frustrações.

Felizmente Edson Moraes e a maioria desses Companheiros estão presentes, em plena atividade, a perseverar na construção de uma sociedade melhor, baseada na informação isenta e compromissada com valores democráticos e humanistas. Como certa vez disse o Poeta Pablo Neruda, morto em circunstâncias nunca elucidadas, nos primeiros dias do golpe do sanguinário Augusto Pinochet, guru de Paulo Guedes: “Poderão cortar todas as flores, mas jamais poderão deter a primavera.”

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 3 de agosto de 2021

MÁRCIO NUNES PEREIRA: 24 ANOS DE SAUDADE...

MÁRCIO NUNES PEREIRA: 24 ANOS DE SAUDADE...

Neste 2 de agosto, o Jornalista Márcio Nunes Pereira fez 24 anos de eternização. Desde 1997, quando interrompeu sua sagrada jornada de bem informar, o Jornalismo perdeu o encanto, a saga investigativa desse grande repórter que nunca pareceu patrão, mas um incansável Companheiro de trabalho determinado e corajoso.

Destemido, determinado e incansável, o Jornalista Márcio Nunes Pereira se eternizou aos 42 anos de Vida, depois de uma intensa resistência contra uma neoplasia impiedosa. Essa doença ladina não só interrompeu a sua sagrada jornada de bem informar como roubou da jovem esposa, Dona Margareth Matas Pereira, e de seu único Filho, ainda criança, o querido Paulinho - Paulo Afonso Matas Pereira -, uma convivência amorosa e invejável, um exemplo para os seus contemporâneos.

Tive a honra de conhecer o então adolescente Márcio na primeira sede do emblemático Diário de Corumbá, sob direção do igualmente talentoso e incansável Irmão mais velho Carlos Paulo Pereira Junior. Márcio era o caçula, e a disciplina do quase menino era admirável: trabalhava em diversas frentes do à época Jornal de maior circulação, fosse na reportagem, na composição ou na impressão.

Situado à rua Antônio João, ao lado do prédio do Café São Paulo, da Família Darmanceff, por quase duas décadas o Matutino Independente (como se apresentava para o leitor) funcionou com todas as suas instalações naquele espaço. Era uma verdadeira Escola de Jornalismo: quando o Pai, Jornalista Carlos Paulo Pereira, fundador do Jornal, ficou impossibilitado de prosseguir com seu Ofício, coube ao jovem Filho Ronei Nunes Pereira dirigi-lo, contando com uma equipe invejável, entre eles os Jornalistas Adolfo Rondon Gamarra, Clarimer de Meira Navarro, Jorcêne José Martinez, Montezuma Cruz, Roberto Hernandes, Rosália de Fátima Nunes Pereira, Waldir Nunes Pereira e o sucessor imediato de Ronei, falecido precocemente, o primogênito Carlos Paulo Pereira Jr.

Entre 1974 e 1978, quando meu saudoso Pai, Mahoma Hossen Schabib, dedicou um pouco mais de seu exíguo tempo para escrever, em decorrência da súbita e trágica eternização de seu Primogênito, o meu querido Irmão Mohamed, era constante nosso encontro na Redação do Jornal: como permitiam que a revisão dos artigos dele fosse feita por mim, nos encontrávamos com muita confiança e naturalidade para conversar sobre os mais diversos temas. Márcio era humilde e atencioso e desde tenra idade conviveu com pessoas das mais diferentes gerações e, em especial, opiniões diversas, a despeito da censura então existente na imprensa.

No período em que morei em Campo Grande, entre 1978 e 1984, pude testemunhar a inquietude e combatividade do já maduro Márcio Nunes Pereira: ao lado do saudoso Jornalista e Radialista Roberto Hernandes, fundou o combativo A Gazeta, diário de vida efêmera, mas que muito incomodou a administração do Prefeito Armando Anache por causa das manchetes irreverentes, bem ao estilo do semanário carioca O Pasquim. O igualmente querido Amigo Juvenal Ávila de Oliveira, da Assessoria de Imprensa da Prefeitura, vivia numa saia justa em razão de sua Amizade com os dois Jornalistas.

Assim que retornei da capital, em 1984, Márcio, então diretor do Diário de Corumbá, conversou comigo para reiterar o convite de que meu Pai continuasse a colaborar com o Jornal. Como primeiro correspondente assalariado de um grande jornal da capital (meu antecessor era um renomado advogado, amigo do patrão e não recebia salário nem tinha obrigação de enviar notícias diariamente), o Márcio generosamente foi dos companheiros mais leais, presente em todas as duras etapas de readaptação à Corumbá pós-divisão de Mato Grosso uno. Obviamente, o Professor Valmir Batista Corrêa e os saudosos Doutor Joilce Viegas de Araújo e o Professor Dilermando Luiz Ferra, igualmente muito leais e queridos, eram fundamentais na checagem de informações no dia a dia.

Corumbá experimentara um súbito esvaziamento populacional e o decorrente processo de depauperação daquele que fora o município que mais arrecadava em tributos para a receita estadual. Como poucos, Márcio era crítico ao comportamento da maioria da elite política local, que embarcou na ilusão de que a divisão de Mato Grosso fosse benéfica para o Pantanal e em particular para Corumbá. Observador, demonstrava com dados tal decadência, já comprovada pela realidade logo nos primeiros anos de Mato Grosso do Sul - agravada pela evasão de pessoas qualificadas para Cuiabá e Campo Grande e, por conta dos anos de regime ditatorial, o despreparo dos agentes políticos locais, diferente e acintosamente opostos às gerações sacrificadas pelas perseguições políticas do regime de 1964.

O Governador Wilson Barbosa Martins e o Prefeito Fadah Scaff Gattass, ambos baluartes da resistência democrática ao regime de 1964, se empenhavam na reconstrução daquele que fora o mais importante entreposto comercial de Mato Grosso e o maior município arrecadador de ICM do estado (com a Constituição de 1988 é que passou a ser chamado de ICMS). Ao lado do Doutor Fadah, em Corumbá, estavam velhos Companheiros do PSD de Juscelino Kubitschek - os saudosos Doutor Cleto Leite de Barros, Professor Salomão Baruki e Seu Hélio Péres - articulados a ex-adversários da UDN do Brigadeiro Eduardo Gomes, entre eles os saudosos Doutor Cássio Leite de Barros, Doutor José Feliciano Batista Neto e o Senhor Aurélio Scaffa, além de igualmente queridos baluartes como Seu Jorge José Katurchi, Doutor Hugo Silva da Costa e Doutor Luiz Alberto Pinto Figueiredo.

Foi na espeteria de Seu Juca, esquina das ruas Cuiabá com Antônio João, que o Márcio me pôs a par das coisas: quatro anos antes, o querido Roberto Hernandes, com a dicção inconfundível, emprestara sua voz para a divulgação do modesto, mas histórico, ato de lançamento da pioneira comissão provisória municipal do PMDB, em que ele proclamava: “Na tentativa de dividir a oposição, o governo impôs o fim do MDB; a seus parlamentares ofereceu cargos públicos, dinheiro do povo, ameaçou, cassou, torturou e prendeu; mas os verdadeiros oposicionistas não se deram por vencidos, e juntos com o Povo vão construir um Partido mais forte e lutador, o PMDB!” Hernandes sofreu uma retaliação da emissora de rádio a que estava vinculado, pois o rígido controle ideológico sobrevivera nos meios radiofônicos, televisivos e impressos.

E ninguém melhor que o Márcio, com seu faro invejável de repórter nato, para advertir que a política era tão instável quanto o clima no verão. Na sala da direção do Diário de Corumbá ele recebia políticos de todos os matizes, desde os gaetistas, ainda muito fortes, até aqueles ligados ao ex-prefeito Ruy Valdo Albaneze, cuja administração teve muita turbulência, sobretudo na gestão financeira e os atrasos no pagamento dos salários dos servidores municipais. A Redação do Jornal era relativamente próxima à cabine pública de telex (naquele tempo ainda não existia fax nem internet), o que me permitia recorrer ao seu apoio para fazer (‘datilografar’) o material que minutos depois iria digitar nas máquinas de telex Olivetti da agência local dos Correios.

O jornalão de Campo Grande não saía aos domingos, e às segundas ia para as bancas. Era um sério problema para um correspondente sediado em Corumbá, cuja cabine pública de telex fechava aos domingos: enquanto o editor não dava sinais de que disponibilizaria um telex que pudesse assegurar a independência do então jovem correspondente, a gentileza da saudosa Doutora Laurita Anache, então diretora da Rádio Clube, permitiu um fôlego. Mas, pouco tempo depois, um fato constrangedor envolvendo um querido funcionário da emissora me obrigou a deixar o posto. Solidário, Márcio se prontificou a solucionar o caso, e desde então nossas relações foram ainda mais fraternais.

É a partir de 1988 que nossa relação se estreitou ainda mais: coincidentemente com a mudança da sede do Diário de Corumbá, da Antônio João para a Cuiabá (em frente a um colégio particular), no começo passei a colaborar diariamente com uma pequena crônica sobre o cotidiano de Corumbá, que ele generosamente publicava na primeira página. Quando a situação do Jornal se estabilizou, ele me contratou como redator, tendo sido, durante o período de transição do governo de Pedro Pedrossian para o de Wilson Barbosa Martins, em 1994, correspondente na capital (algo como três meses). Em Campo Grande, o Amigo Paulo Yafusso generosamente me disponibilizava as instalações da Agência Folha para enviar meu material para o Jornal que tem como consigna “Um jornal se mede pelas verdades que diz”.

Foi como assalariado que conheci a grandeza do repórter, do Jornalista investigativo Márcio Nunes Pereira. Jamais fui um ‘subordinado’, tratou-me como Companheiro, com dignidade. Muitas vezes, era eu a lhe pedir moderação, preocupado com sua Família e com o futuro do Diário de Corumbá, pois sabíamos da ‘torcida contra’ que existia, em particular pelos grupelhos corruptos inoculados na administração pública. Não foram poucas as ameaças à sua integridade física e de sua Família, por conta de sua coragem, de sua lealdade ao Jornalismo, seu compromisso com a verdade. Nunca se amedrontou: ao contrário, quando se deparava com um processo judicial, competentemente delegado ao igualmente saudoso Doutor Joilce Viegas de Araújo, é que se sentia mais motivado a manter a linha combativa do Jornal.

Decorridos 24 anos de sua eternização, a saudade e o vazio no Jornalismo combativo o tornam referência digna para os seus contemporâneos e para as novas gerações. Como poucos, Márcio Nunes Pereira fez do Ofício de repórter fonte de dignidade e ética, mas sem hipocrisia, sem ‘heroísmo’. Jamais angariou alguma vantagem ou notoriedade, a despeito das inúmeras tentativas de cooptação, delicadamente apresentadas por intermediários, bem tratados, com educação e polidez, mas declinando sempre dessas tentações.

Márcio Nunes Pereira é fonte de dignidade, ao lado dos maiores Jornalistas corumbaenses de todos os tempos, entre eles os saudosos Renato Báez, Carlos Paulo Pereira, Ronei Nunes Pereira, Luiz Gonzaga Bezerra, Arnaldo Gomes da Costa, Jorcêne José Martinez, Armando Amorim Anache, Farid Yunes Solomini e José Carlos Cataldi, e os graças a Deus presentes Edson Moraes, Luiz Taques, Dary Junior, Mariliz Romero, Adolfo Rondon Gamarra, Clarimer de Meira Navarro, Nelson Abdnur Urt, Marcelo Fernandes, Alexandre Maciel e Lívia Gartner.

Ahmad Schabib Hany