Lejeune, o Apolônio do século XXI
Poderia ter me referido a Apolônio de Perga, o Matemático, ou a Apolônio de Tiana, o Filósofo, porque também poderia ter relação com eles, o que faz algum sentido. Mas me refiro àquele que igualmente traz o sobrenome 'De Carvalho', e a similaridade não tem relação de parentesco (que, a bem da verdade, jamais perguntei). Trata-se do papel histórico desempenhado com desenvoltura e galhardia, tanto por Apolônio de Carvalho como por Lejeune Mirhan, dois corumbaenses impregnados de cosmopolitismo que conquistaram reconhecimento universal pela maneira com que se dedicaram às questões maiores da humanidade.
A Corumbá cosmopolita deu para a humanidade verdadeiras genialidades cujo talento e generosidade singular as tornam personalidades históricas que não há sanha provinciana que consiga eclipsar. Apolônio e Lejeune são desses. Há outros cujo mérito, com o tempo, haveremos de compartilhar.
Uma série de reflexões vem à tona uma semana depois da eternização do agora saudoso Lejeune Mirhan Xavier de Carvalho, que na juventude ganhou o epíteto Matogrosso -- tendo sido dirigente estudantil em seu tempo, final da ditadura -- por se honrar por ter nascido no estado, de onde saiu aos 17 anos para estudar fora, ainda no tempo do Mato Grosso uno.
Associar o papel histórico desempenhado por Lejeune Mirhan em seus 69 anos de vida ao de Apolônio de Carvalho, 93 anos, não é fazer analogia leviana, mas reconhecimento, mesmo tardio, da contribuição relevante para a humanidade em tempo de caos, ascensão do fascismo e em meio a genocídios à luz do dia promovidos pelos autoproclamados paladinos da democracia e da civilização.
Apolônio de Carvalho, que viveu, no século XX, o contexto de ascensão do fascismo no período entre-guerras e, como militar, punido em 1936, por sua participação em atividades políticas contrárias às do regime getulista (de inspiração fascista), optou por se alistar na frente da resistência ao fascismo franquista na Guerra Civil Espanhola em defesa dos ideais republicanos e socialistas, e mais tarde, em 1940, na Resistência Francesa, tendo comandado e vencido em uma das frentes (quando conheceu sua Companheira de Vida e de lutas Renée de Carvalho, com quem esteve em todas as batalhas. Ao realizar tamanhas proezas até a vitória final sobre o fascismo, recebeu a condecoração de Cavaleiro da Legião de Honra pelo presidente Charles De Gaulle, no pós-guerra de 1945. Retornou em seguida para o Brasil, mas a perseguição ideológica da guerra fria e mais tarde a eclosão do golpe de 1964 contra dirigentes de esquerda, sobretudo aos membros do Partido Comunista do Brasil (nome do PCB até 1962, antes da cisão com o PCdoB), permaneceu na clandestinidade (quando fundou o PCBR com alguns dissidentes por divergências com a linha política do PCB) e depois de preso sob tortura foi trocado por diplomata alemão sequestrado, permanecendo no exílio até 1979, quando o general-presidente Ernesto Geisel sancionou a Lei de Anistia e ele voltou para o Brasil e participou da fundação do PT em 1980.
Por seu turno, Lejeune Mirhan, discreto, nunca abordou temas familiares ou pessoais nos quase 50 anos de Amizade (dessas com letra maiúscula). De fato, sobre o que menos falamos foram temas de caráter 'subjetivo' -- questões familiares, pessoais ou até mesmo profissionais --, até por respeito à sua segurança. Não eram poucos, no início de nossa Amizade, os olheiros do regime, e sabíamos da necessidade da preservação das pessoas que generosamente desafiavam a ditadura.
Ser humano com grandes atribuições -- sempre tomado pelos compromissos e focado em seus estudos, pesquisas, obras e atividades --, em suas vindas a Corumbá ou a Campo Grande o tempo era tão precioso que era necessário ocupar as horas (os minutos) com o que soía ser fundamental com foco na razão de sua vinda: os compromissos, a agenda que tínhamos que cumprir.
No entanto, um vídeo de homenagem feito por seu Partido, o PCdoB, permite depreender que seu primeiro contato com o socialismo se deu em Corumbá, ao citar o mais importante comunista perseguido durante a primeira fase do golpe de abril de 1964. O Advogado Amorésio Antônio de Oliveira, primeiro citado ao listar os nomes que gostaria de homenagear, com a voz embargada pela emoção, com a participação da plenária, naquele emblemático evento em sua homenagem.
Amorésio de Oliveira, além de advogado trabalhista muito respeitado, foi deputado estadual pelo PTB [desde 1948 o PCB estava proscrito por ato do então presidente Eurico Gaspar Dutra, que cassou nove parlamentares eleitos pelo partido mais antigo do Brasil e o primeiro de âmbito nacional: todos os partidos existentes até 1930 eram de âmbito estadual, pois a política era 'café com leite', das oligarquias estaduais].
Embora a família Anache tivesse fortes vínculos com o senador Filinto Strubing Müller e representasse os interesses do homem forte do regime na região de Corumbá e Ladário, a Doutora Laurita Anache, irmã de Armando Anache, uma reconhecida senhora católica, foi quem nos derradeiros dias de Amorésio de Oliveira colaborava discretamente com sua sobrevivência. Foi como pude conhecê-lo, por meio da Senhora Maria Auxiliadora Julio (esposa do Senhor Pedro Julio, técnico da Embratel -- depois chefe local, com a aposentadoria do Senhor Orlando Papa -- e que, fora do expediente, prestava serviços à emissora dos Anache, a Sociedade Rádio Clube de Corumbá Ltda.), que gentilmente me levou até a casa onde ele morava, já acamado, mas lúcido e atencioso.
Amorésio de Oliveira, em pesquisa nos arquivos da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, aparece como deputado muito atuante, tanto quanto Francisco Pecy de Barros Por Deus e Rômulo do Amaral, todos com domicílio eleitoral de Corumbá. Não por acaso, um grande número de cidades de Mato Grosso tem ao menos uma rua com o nome de Amorésio, o que não ocorre em Mato Grosso do Sul ou em Corumbá e Ladário. Para certificar-se basta digitar o nome Amorésio de Oliveira, entre aspas, em qualquer buscador de internet.
Quanto a Lejeune Mirhan, me foi possível conhecer muitas qualidades suas durante o tempo em que permaneceu em Corumbá, entre 2017 e 2018, como aluno especial do Mestrado em Estudos Fronteiriços [lamentavelmente mal instalado: em ambiente nada condizente com a promessa de que estaria em kitnet adequada, eis que mais tarde, perplexo e indignado, acabei por saber ao visitá-lo, mas Lejeune humildemente preferiu relevar].
Agia como um monge, monasticamente, focado nos estudos e nas atividades que escolheu nos anos derradeiros de sua fecunda existência: compartilhar o seu imenso conhecimento com outras pessoas, por meio de 'lives', inclusive em outras línguas [como inclusive o sinal de internet onde morava era instável, saía em plena madrugada até um café no centro, que antes da pandemia abria nas primeiras horas da manhã, e ao se tornar Amigo dos proprietários, eles lhe asseguravam silêncio durante sua participação nos diferentes programas de internet].
Às vezes o acompanhava, ao final das aulas, a uma antiga espeteria, onde jantávamos após a maratona diária. Era a minha preferida, também. Tornara-se Amigo do dono e de todos os garçons. E não faltou alguém que lhe pedisse para voltar para Corumbá e ser o futuro prefeito da cidade, ao que ele, bem ao seu estilo, recusou com aquela sonora gargalhada. Todo dia ele ganhava admiradores, simpatizantes. Não entendo por que nunca se interessou em conquistar um mandato popular, pois teria feito a diferença.
Nessas conversas sem maior propósito enquanto esperávamos nossos pratos, Lejeune me surpreendeu ao revelar predileção pela cantora e atriz espanhola Sara Montiel (nome de batismo María Antonia Abad Fernández, 1928-2013), que iniciou carreira na primeira metade do século XX. Rimos muito, pois minha saudosa Mãe era fã, pelos filmes 'Carmen la de Rondo', 'Fumando espero', 'El relicario', 'Valencia', 'La violetera' e 'El último cuple' e os álbuns de canções 'El Tango' (interpretação inesquecível de composições de Carlos Gardel), 'Sara Montiel en México', 'La Violetera', 'Sara Montiel la Diva' e 'Sara Montiel la Leyenda' atravessaram gerações. Conheci na adolescência não apenas pelos discos de minha Mãe, mas porque os cinemas de Corumbá, vez por outra, exibiam seus emblemáticos filmes, a maioria em preto e branco.
Além de cinófilo de gosto apurado, o saudoso Lejeune era conhecedor dos clássicos, filmografia muito anterior à hoje decadente Hollywood (da Cinecittà, por exemplo, de Rossellini, De Sica, Visconti, Pasolini, Antonioni, Fellini; além da soviética, desde Eisenstein, do célebre longametragem 'Encouraçado Potemkin'). Alegrou-me quando disse que conhecia o eclipsado maestro argentino Waldo de los Ríos (aliás, Osvaldo Nicolás Ferraro, filho da folclorista argentina Marta Inés Gutiérrez de Vargas, artisticamente Martha de los Rios, com quem fez um álbum inesquecível pouco antes de falecer), o revolucionário arranjador de Mozart (Sinfonia 40, além do álbum 'Mozartmanía'), Beethoven (Nona Sinfonia e a versão de rock do 'Hino à Alegria', interpretada por Miguel Ríos em 1973 e que se popularizou a partir de então) e de outros mestres da música clássica [encontrado morto em sua casa de Madri em 1977, quando a esposa, Jornalista Isabel Pisano, estava a trabalho na Itália, na transição do regime de Franco na Espanha e, sem provas, a polícia se apressou a dizer que se tratara de suicídio por motivações homoafetivas, versão que o condenou ao apagamento de sua obra e memória em uma sociedade moralista, só tendo sido resgatadas nestes últimos cinco anos, depois que um repórter denunciou a relação entre sua morte e uma atriz ainda menor de idade que estaria grávida do então recém-coroado rei Juan Carlos, beneficiário da ditadura fascista de Franco, pelo fato de Waldo ter agido em defesa da atriz, sua conhecida, e meses depois ela também morta antes do parto, em circunstâncias nunca elucidadas].
Nessa sua estada em Corumbá, além de se dedicar aos estudos, aproveitou para gravar entrevista com todos os descendentes das famílias surianes moradores em Corumbá (e em alguns casos moradores de outras cidades em visita a seus familiares). Acompanhado pelo saudoso Bassem Hussein, fez algumas visitas a autoridades locais para viabilizar seu projeto de memorial da comunidade suriane local, que, por sinal, ele já o concluíra.
Sequer as reprovações sucessivas de seu anteprojeto pela banca de mestrado em Estudos Fronteiriços -- aliás, instigante e de originalidade inquestionável (conheço por ter feito a revisão) --, o deixaram desmotivado. Como estava com o texto já em fase de elaboração, ao retornar para Campinas, Lejeune se dedicou a finalizá-lo e incumbiu alguém para que editasse as entrevistas e as transformasse em documentário. Espero que a UFPantanal venha a se concretizar e possa um dia não muito distante se debruçar sobre a temática e, em sua memória e com os devidos créditos, desenvolver parceria decente com a Companheira dele.
Mas, confesso publicamente, o que muito me decepcionou nestes dias foi a falta de empatia do administrador de uma página de rede social que retirou a postagem sobre a eternização de Lejeune feita por seu familiar que comunga na igreja responsável pela página. Pedi a uma Amiga dessa comunidade que me explicasse qual a razão para tal gesto, no mínimo insensível e nada cristão. Ainda não achou resposta (e, em sã consciência, por certo não encontrará justificativa plausível).
Assim como Apolônio de Carvalho, Lejeune Mirhan precisa ter a sua memória honrada em sua terra-natal. Não basta um nome de logradouro público, mas um espaço voltado para o saber, a cultura, a ciência, a integração dos povos. Embora, a bem da verdade, a maioria dos eleitos nos últimos tempos não tenha como efetiva prioridade a cultura, o conhecimento, a educação, a ciência e a integração dos povos, seria bom que, até por questão de reconhecimento a esse grande corumbaense, algo nesse sentido pudesse ser feito.
Não só Lejeune merece; também Apolônio de Carvalho, Amorésio de Oliveira, Pecy de Barros, Rômulo do Amaral, Bezerra Neto e tantos corumbaenses natos ou por opção que deram o seu melhor, mas seus conterrâneos sequer fazem ideia de sua existência iluminada e de seu generoso legado.
Voltaremos ao tema.
Ahmad Schabib Hany