Márcio Nunes Pereira, 29 anos de saudade
Sob o lema 'Um jornal se mede pelas verdades que diz', o saudoso Jornalista Márcio Nunes Pereira, o caçula da Família Nunes Pereira, entrou para a História pelo talento, coragem e ousadia com que encarou o ofício herdado do Jornalista Carlos Paulo Pereira, fundador do Diário de Corumbá.
Era domingo, 2 de agosto de 1997, 16 horas. Por meio do celular do Professor Celso Cordeiro, que nos propusera pequena excursão à área rural de Corumbá, veio a notícia que nos abalou profundamente. Um colega de redação do saudoso Diário de Corumbá ligara ao telefone de casa para comunicar a eternização do corajoso, ousado e talentoso Jornalista Márcio Nunes Pereira, aos 42 anos de idade, depois de resistir por mais de um ano a um câncer voraz que interrompeu uma carreira brilhante, mas repleta de inimigos poderosos.
Desde tenra idade, Márcio, o caçula de uma prole de oito filhos (quatro casais, a maioria voltada para o Jornalismo), circulava com desenvoltura pela agitada sede do 'Diário matutino independente', lema com que se apresentava desde sua primeira edição, em 6 de janeiro de 1969. O fundador e primeiro diretor foi seu Pai, o Jornalista Carlos Paulo Pereira, redator durante décadas de O Momento, diário conservador, também matutino, que começou a circular na primeira metade da década de 1940 para defender as ideias e os interesses da UDN.
Oriundo de Cuiabá, Seu Carlos veio trabalhar no 'jornal da UDN' e assim que fixou residência no cosmopolita centro mercantil, contraiu matrimônio com a Senhora Raquel Nunes Pereira, de ascendência boliviana, que passou a ser responsável pela administração do diário desde sua fundação, sobretudo depois que o diretor e idealizador do carinhosamente chamado DC foi acometido por uma doença que o impediu de continuar sua caminhada, inclusive na coluna da emblemática 'Tia Fifina', de saudosa memória.
Foi como todos os Filhos passaram a se envolver nas atividades dos pais -- os que não se identificavam com o ofício se dedicavam à administração, publicidade ou à gráfica --, cabendo ao Márcio, por ser o caçula, inicialmente as atividades gráficas, que as fazia com total desenvoltura. Assim o conheci, sempre humilde, trabalhando, ombro a ombro, com os tipógrafos, impressores e dobradores do jornal (tudo era manual, até a composição, feita em tipos móveis), em sua sede inicial, ao lado do deliciosamente aromático Café São Paulo, à rua Antônio João, 377, no perímetro central.
Meu saudoso Pai se tornara não só leitor assíduo, mas assinante e colaborador eventual do DC desde a primeira fase. Por coincidência, em meados de 1968, Seu Carlos e meu Pai viajaram no saudoso trem da Noroeste rumo a São Paulo e durante a viagem foram conversando sobre diversos temas. Eram praticamente 36 horas de viagem até a metrópole paulistana, destino dos dois, e nesse meio tempo Seu Carlos lhe dissera da razão de sua viagem, comprar tinta e papel-jornal para fazer circular o novo diário no início do ano seguinte. Trocaram seus contatos e assim que o DC começou a circular, meu Pai, cujo empreendimento era modesto e não permitia despesa com publicidade, se incumbiu de assinar e divulgar o jornal no meio da comunidade árabe.
Quando a comunidade árabe em Corumbá homenageou o líder pan-arabista Gamal Abdel Nasser, que se eternizou em 28 de setembro de 1970, o senhor Júlio Emílio Ismael (proprietário da Casa Botafogo e influente imigrante sírio) e meu Pai escreveram artigos no jornal e falaram em diversos programas da Rádio Clube sobre o panorama político do mundo árabe. Nessa ocasião, o Jornalista Ronei Nunes Pereira assumira a direção do Diário de Corumbá e fizera parceria com a Sociedade Rádio Clube de Corumbá Ltda., que para meu Pai não representou óbice por conta da amizade com a Doutora Laurita Anache.
Ao explicar a sua saída de O Momento, jornal a que se dedicou por décadas, Seu Carlos dissera a meu Pai que desde jovem nutria o sonho de fundar seu próprio jornal para escrever o que nem sempre era possível em jornal de orientação partidária. Depois da instalação do regime de 1964, O Momento se tornara porta-voz do governo, que tinha empastelado o até então mais antigo matutino em circulação de Mato Grosso, A Tribuna [desde meados da década de 1940 os irmãos Roberto (deputado federal do PTB) e Nelson Chamma (empresário, dono da SOBRAMIL), getulistas, eram acionistas majoritários, e em fins da década de 1950 o Advogado e Jornalista Vicente Bezerra Neto (deputado federal do PTB e depois senador do MDB) assumiu o controle acionário, sendo também diretor do semanário Correio de Corumbá, mas para que não sofresse o mesmo fim de A Tribuna, transferiu o jornal para o Professor Walmir Coelho, mais tarde vereador e presidente municipal da Arena].
A independência possível nos anos de chumbo aproximou ainda mais meu Pai dos Filhos do Jornalista Carlos Paulo Pereira. Primeiro com Ronei, que em abril de 1974 se eternizou subitamente. Carlos Paulo Pereira Júnior assumiu em seguida, ao lado de Waldir Nunes Pereira e, muito solidários, deram-lhe espaço para fazer homenagem ao meu Irmão Mohamed (eternizado em 21 de setembro de 1974 em circunstâncias não elucidadas), e desde então passou a escrever artigos de cunho espiritualista (esporadicamente fazia algum artigo voltado para temas políticos do mundo árabe ou sobre questões de desenvolvimento regional), sem qualquer tipo de censura.
Diferentemente dos demais jornais locais, o Diário de Corumbá não fez parte do Consórcio Corumbaense de Comunicação -- do qual O Momento, Folha da Tarde e Correio de Corumbá participaram, cujo carro-chefe era a Rádio Difusora Mato-grossense S/A, com sua imponente sede própria à rua Treze de Junho, em frente do atual prédio da agência local do Banco do Brasil, levado a leilão com todo o patrimônio por dívidas trabalhistas em 1978, arrematado por três sócios, dois dos quais são os proprietários da emissora remanescente, mas sem o prédio original, demolido impunemente --, artifício avalizado pelo senador Filinto Strubing Müller, homem forte do regime (presidente da Arena, Senado Federal e Congresso Nacional), convencido pelos arenistas locais que era preciso fazer com que fosse neutralizada a narrativa do deputado oposicionista Cecílio de Jesus Gaeta. Mesmo assim, Carlos Paulo Pereira Júnior acabou sendo levado a publicar, em primeira página, em 1974-1975, em todas as edições de seu jornal, uma coluna assinada pelo jornalista Daniel de Almeida Lopes (trazido de Cuiabá para dirigir o projeto), intitulada 'Reflexões sobre a moral', em que o alvo era precisamente o deputado Gaeta. E, como sabemos, o efeito foi contrário, com a surpreendente vitória eleitoral acachapante de Gaeta em 1974 e 1978.
Entretanto, como afirmado em outras oportunidades, o Consórcio Corumbaense de Comunicação involuntariamente acabou se transformando, sobretudo graças à generosidade do saudoso Jornalista Luiz Gonzaga Bezerra (ex-repórter especial do Jornal do Brasil, trazido a Corumbá para fazer o trabalho verdadeiramente jornalístico por Daniel de Almeida Lopes tão logo formalizou o contrato com os respectivos donos) e ao talento de uma geração de jovens desassossegados (Edson Moraes, Gino Rondon, Augusto Malah, Juvenal Ávila, Farid Yunes, Jonas de Lima, Ronaldo Bardawil, Ademir Lobo e Roberto Hernandes, entre outros, que souberam beber da límpida fonte do humilde e magnânimo Gonzaga e seus contemporâneos), em escola de comunicação, pois seus principais protagonistas fizeram história dentro de fora do estado e estão a testemunhar a base de sua formação profissional.
Quando, em 1984, Márcio assumiu a direção do Diário de Corumbá, o jornal saía de uma fase crítica, que o levou a fazer alguns ajustes estruturais, inclusive a mudança de sede, ele mesmo construindo as modestas instalações em terreno de uma de suas Irmãs. Assim como Seu Carlos contou com a efetiva solidariedade de Dona Raquel, Márcio contou com a solidariedade de Dona Margareth e das Irmãs, que se haviam afastado do jornal por razões de sobrevivência e cuidados com as suas respectivas famílias. E a experiência rebelde da parceria com o ex-cunhado Roberto Hernandes, na fundação e circulação meteórica (por breve período, algo como ano e meio) do polêmico diário A Gazeta, com sede à rua Treze de Junho com a Sete de Setembro, foi determinante.
Embora o Diário de Corumbá fosse matutino, fechava-se a edição às 10 horas da manhã e os exemplares ganhavam as ruas em meio à expectativa dos leitores por volta das 15 horas. Conforme a edição, a tiragem ganhava maior número de exemplares, de acordo com a matéria principal. O título do jornal voltou para o alto da página e o novo lema, inspirado em slogan de um antigo diário da década de 1970, passou a ser 'Um jornal se mede pelas verdades que diz'. Márcio honrou esse lema até o último dia em que pôde, já abatido pela doença, dirigir o jornal.
Suas inovações foram memoráveis. O Diário de Corumbá, sobretudo na gestão de Márcio Nunes Pereira, é digno de projeto de pesquisa. Cada edição era uma verdadeira celebração de repórter investigativo. Não dava sossego aos mandarins municipais e estaduais: apesar de o equipamento ser do final do século XIX, bem obsoleto -- muitas vezes colocava roupa surrada para consertar a impressora ou ajudar a fechar a edição, com destreza invejável --, o nível de Jornalismo era de uma altivez assombrosa: os cinco anos que convivi diariamente com ele foram os mais surpreendentes, um verdadeiro aprendizado.
Sabendo que seus dias estavam contados, pediu à sua Companheira de Vida e de luta, Dona Margareth Matas Pereira, que se reunisse com os Amigos próximos e os colaboradores para que o Diário de Corumbá continuasse a circular -- não por vaidade ou por razões empresariais (afinal, ele era sócio-proprietário e Filho do fundador), mas pela preservação dos postos de trabalho de seus seis humildes tipógrafos que, à exceção do saudoso Luiz Máximo (do tempo de Seu Carlos, e ainda responsável pela página social do jornal havia mais de duas décadas), eram leais companheiros da época de A Gazeta.
Não é preciso dizer que Márcio Nunes Pereira podia ficar sem um vintém, mas os seus empregados (todos, sem exceção) recebiam rigorosamente o total, inclusive em datas festivas, como Natal, quando havia um breve recesso de fim de ano. E como sabendo que seria seu derradeiro final de ano, além da Família, chamou a todos os empregados, colaboradores [não tem o sentido neoliberal de hoje, é o nome que se dava aos que escrevem coluna, seção ou página] e amigos para uma confraternização inesquecível, emocionante. Não houve quem não ficasse com os olhos marejados ao ouvi-lo falar sobre as mais recentes façanhas do Diário de Corumbá, atribuindo humildemente a outros os méritos.
Desde os 13 anos conheço quase todos os trabalhadores da imprensa de Corumbá (porque, como já disse, meu saudoso Pai colaborava com o Diário de Corumbá e o Diário da Manhã do Jornalista Waldemar Baiaroski e a Rádio Clube de Corumbá geralmente com artigos relacionados ao conflito israelo-árabe, temas da história e cultura árabe e questões do desenvolvimento local e regional, e a mim cabia checar as provas de revisão em português ou em espanhol), além de ter tido a felicidade de merecer a Amizade (com letra maiúscula) de Márcio Nunes Pereira e sua Família, Juvenal Ávila de Oliveira, Edson Henrique Figueiredo de Moraes, Augusto Alexandrino dos Santos Malah, Jonas Luna de Lima, João de Souza Alvarez e Adolfo Rondon Gamarra, redator quando o primogênito Carlos Paulo era diretor. Márcio, sinceramente, está no pódio dos brilhantes repórteres, mesmo sendo Filho do fundador e mais tarde herdeiro do jornal que dirigia, agia como um membro trabalhador da equipe, que sequer mandava, liderava humilde e sabiamente.
Passaram-se 29 anos daquele fatídico domingo. Como quando, ao pé do ouvido, Márcio me disse no velório de meu querido e saudoso Pai, "você sabe o que eu estou sentindo, eu também já perdi o meu", digo hoje ao seu querido Filho Paulinho -- aliás, senhor Paulo Matas Pereira, bacharel em Administração há muitos anos --, porque na época não era possível dizer a uma criança de apenas 8 anos de idade, órfão no domingo anterior ao Dia dos Pais. E digo também à Dona Margareth, cuja Amizade posso dizer que herdei de um de meus melhores Amigos e Mestres, que trazemos o eterno Márcio em nossa memória e em nossos corações, como bússola a nos guiar ante a turbulência destes tempos mesquinhos e insólitos. Márcio Nunes Pereira, presente! Hoje e sempre!
Ahmad Schabib Hany