Semanário EM TEMPO: - ed. 47 - de 18 a 24 de janeiro de 1979 - p.9, com chamada de capa - ARACELI, por Carlos Alberto Luppi, especial para o semanário mineiro.
ARACELI
Milionários, autoridades e funcionários do governo. Mais de 30 pessoas envolvidas no
assassinato da menina capixaba. Aqui, a lista.
Por Carlos Alberto Luppi (Especial para «Em Tempo»)
No escândalo da morte da menina Araceli Cabrera Sánchez, ocorrido no período de 18 a 24 de maio de 1973, em Vitória, estão envolvidas mais de trinta pessoas ainda impunes. Essa relação pode ser feita com base nas recentes denúncias deste repórter junto com o perito Dudu Cabral e que causaram reviravolta total no caso. São pessoas que poderão ser incriminadas por maior ou menor participação no aim e ou por acobertá-lo destruindo provas ou colaborando nisso, além de omissões diversas, erros propositais e tentativas de desviar a atenção da opinião pública sobre os indiciados Dantinho Michelini, Dante de Barros Michelini e Paulo HelaL A participação dessas pessoas no caso justifica maiores diligências e mais, justifica ações judiciais.
Toda a verdade sobre o Caso Araceli apareceu agora de forma cruel. O processo atualmente tem cinco mil páginas e é o segundo em volume da Justiça capixaba. E como o primeiro, é tumultuado (graças às sucessivas manobras dos advogados dos criminosos que tentam invalidar testemunhas, tentam dar rumos próprios ao caso) e revela uma impunidade escandalosa de causar indignação. Como não podería deixar de ser, o primeiro trata-se do processo do Esquadrão da Morte Capixaba, em que estão envolvidos nada mais nada menos do que o ex-governador Christiano Dias Lopes Filho (que não se reelegeu para deputado federal pela Arena) e seu irmão José Dias Lopes, chefe do Esquadrão Capixaba que assassinou mais de 30 marginais a sangue frio.
Como este, o processo do Caso Araceli caminha muito lentamente nos frios corredores do Palácio da Justiça de Vitória. O esquema de intimidações, pressões e ameaças funciona até mesmo com relação ao juiz Hilton Silly que está com o caso e é considerado — felizmente — um personagem da maior integridade. Silly afirma que só sai do caso «se eu morrer», mas ele sente notórias dificuldades em levar o caso adiante. Não que lhe falte capacidade ou coragem. O próprio esquema sobre o qual está montado a Justiça capixaba emperra o processo. Todas as novas denúncias e revelações sobre o Caso foram anexadas ao processo e todo mundo continua aguardando justiça. Espera-se que as novas revelações façam o caso andar mais depressa, no mínimo ou que tudo não se desfaça sob o véu do medo e da impunidade. Tão importante quanto colocar na cadeia os criminosos e pessoas influentes que tudo fizeram para manter o crime encoberto por favorecimento ou por amizade e até por total falta de vergonha na cara de alguns. É certo que a «máfia dos poderosos que têm poder e dinheiro nas mãos» continua agindo — conforme bem assinala o pai de Araceli —, mas que não seja mais por muito tempo. Agora, que a verdade está revelada, que os impunes paguem por seus crimes. Que nesse Caso Araceli foram muitos.
Foto
Araceli meses antes de sua morte (1973)
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Este ano. Aracelli Cabrera Sanchez ia completar 15 anos e quem sabe, como muitas adolescentes de sua idade, valsaria num baile de debutantes. Mas há quase seis anos atrás, quando era ainda apenas uma criança, foi envolvida numa trama de tóxicos, raptada, drogada, espancada e assassinada brutalmente por milionários da família Helal e Michelini, em Vitória. Espírito Santo. O processo judicial de lá para cá é uma história intrincada e tumultuada, com destruição de provas, ameaças sobre testemunhas, intimidações, três assassinatos paralelos, quatro mortes misteriosas e grosseiras pressões para que tudo terminasse encoberto. inclusive com a conivência do próprio governo federal que chegou a proibir um romance-reportagem sobre o assunto). Mas no ultimo mês. o episódio ganhou curso diferente, com novas revelações da mãe e do pai de Aracelli. este até então sem ter falado nada sobre o assassinato de sua filha.
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A seguir, a relação dos envolvidos:
1 - Dante de Barros Michelini — indiciado. Acompanhou as investigações ilegalmente destruindo provas porque seu filho Dantinho estava envolvido diretamente no assassinato da menor. Dante alegou que ajudou à polícia «colocando à disposição veículos, material e gasolina». Que polícia é essa
— do Espírito Santo
— que nem sequer tem gasolina própria para agir? Além do mais, Dante ajudou na ocultação do cadáver da menina Araceli.
2 - Dantinho Michelini — indiciado. Viciado em drogas, integrante da patota de viciados da Praia do Canto. Um dos autores do rapto e morte da menina junto com seu amigo Paulo Helal. Mais recentemente, dirigia embriagado e na contra-mão, atropelando uma senhora e seu filho de cinco meses em fato de novo encoberto em Vitória.
3 - Paulo Helal — corruptor de menores, conhecido nas praias capixabas. Helal, até hoje pode ser visto em Vitória, no horário das 19, «cantando» meninotas no centro da cidade. A impunidade o ajuda a fazer isso, embora a consciência lhe doa muito. Quando morou no Rio. num período após o assassinato da menor, ele costumava se embriagar e dizer bem alto no La Florentina: «Eu matei Araceli. fui eu que matei, gente». Afirmou que não conhecia Dantinho, o que é mentira pois ambos estudaram no mesmo colégio, inclusive. Foi preso uma vez em Belo Horizonte por porte ilegal de arma. No depoimento cinicamente disse que «não sabia que no carro em que eu viajava havia arma no porta-luvas». Há indícios de que nessa ocasião havia tóxicos em seu carro. Participou de toda trama por ser tarado sexual e em seu carro foram encontrados poça de sangue e rolinhos de cabelo de Araceli pelos mecânicos Izemar do Nascimento e Arlindo dos Santos.
4 - O ex-superintendente de Polícia, José Gilberto Faria — omitiu-se na primeira fase do inquérito policial, quando várias provas foram destruídas. Distribuía carteirinha de polícia a amigos particulares, entre os quais Dante de Barros. Sabe perfeitamente quem matou Araceli. Mas esconde a verdade sistematicamente. É amigo particular de Dante de Barros.
5 - Capitão Manoel Araújo — primeiro presidente do inquérito do Caso Araceli. Sua atuação foi desastrosa. Sabia que a menina havia sido assassinada e imersa em ácido para que seu corpo fosse desfigurado e mesmo assim nada disse no relatório que fez. Preferiu despistar e procurar a menina viva quando ele sabia que ela já estava morta. Amigo particular de Dante de Barros, com quem sempre estava durante as investigações. Facilitou a destruição de provas fundamentais Isto está claro e provado. Acobertou a impunidade e abafou a verdade tanto quanto pôde. O relatório que fez sobre o caso é uma peça de «rara ignorância».
6 - Jorge Michelini — que em 1976 acabou morrendo num desastre misterioso. Ajudou na ocultação do corpo da menor. Mantinha relacionamento com a mãe de Araceli. Falsário em São Paulo e que se passava por figura da alta sociedade em Vitória. Traficante. Viciado em entorpecentes. Alcoólatra.
7 - João Carlos de Souza Nunes — policial que compareceu ao local quando do encontro do cadáver de Araceli. Ele não adotou as medidas necessárias para o resguardo do corpo que o fato exigia. Amigo de Manoel Nunes de Araújo.
8 - Marislei Fernandes Muniz — ex-amante de Paulo Helal, na época menor de idade. Ajudou no rapto da menor, dela se aproximando a pedido de Helal. Contou tudo à polícia e contou até mesmo que havia ido ao local onde se encontrava o cadáver «para ver se tudo estava bem», junto com Paulo Helal. Depois várias vezes chegou a desmentir essa versão inicial. Alegou depois existência de pressões e ameaças. Finalmente confirmou tudo. Hoje, tenta sair de Vitória, embora viva «transando» com a polícia capixaba. Num de seus depoimentos contou inclusive que mantinha relacionamento sexual com o presidente do Tribunal de Justiça, entre outras preciosidades.
9 - Arnaldo Neres — Agente funerário da Santa Casa de Vitória, altamente comprometido pelas investigações feitas pelo Corregedor Frasson e o perito Dudu Cabral por ter ajudado a desfigurar o corpo de Araceli. Imergiu a menina já morta em ácido, ajudou também a esconder o corpo. Manteve contatos através de telefonemas e bilhetes com dona Lola, a mãe da menor. Contatos altamente suspeitos.
10 - Constantee Helal, pai de Paulo Helal — Patrão de Neres, pois era provedor da Santa Casa. Neste local ocorreu também logo depois da morte de Araceli, o assassinato de Fortunato Picin, um dos elementos da «patota» de viciados de Vitória que conhecia os autores do crime e fatalmente iria denunciá-los. Picin foi vítima de uma injeção fatal, que se recusava a tomar. O laudo da Santa Casa deu como causa mortis «malária». Mas, posteriormente, a Santa Casa admitiu o «erro médico».
11 - O médico Jefferson de Aguiar — responsável pela injeção de Valium-10 dada a Picin e que ocasionou sua morte. A morte, posteriormente, foi reconhecida como «lamentável erro médico». Isto porque o perito Carlos Éboli contestou formalmente a «causa mortis» apontada — malária — pois nenhum exame de sangue fora feito em Picin.
12 - Sargento Jobson Mota Lima — que confessou ter sido obrigado a praticar atos, juntamente com o capitão Araújo, em conluio com Dante de Barros para induzir em erros as autoridades policiais.
13 - Elson José dos Santos, Hermes Ferreira da Silva e Alexandrino Alves — funcionários da polícia que tinham os filmes criminalísticos do encontro do corpo de Araceli. Os filmes sumiram misteriosamente e nisso estão também implicados o ex-superintendente Gilberto Faria e o capitão Manoel Araújo. Há um processo sobre o desaparecimento dos filmes e que vem se arrastando lentamente. Consta que o filme não foi destruído. Está em poder de alguém em Vitória que o vem usando sistematicamente para chantagem.
14 - José Maria Ramos Gagno — um dos advogados dos Michelini, autor do suborno da cozinheira do bar Franciscano, Almerinda. Ele confessou que chegou a oferecer emprego e médico de graça à filha de Almerinda. isso logo depois da cozinheira ter denunciado seus ex-patrões à polícia e ter dito inclusive que vira dona Lola — mãe de Araceli — junto com Jorge Michelini no interior do Franciscano e que vira também Araceli no bar.
15 - Lola Sánchez, mãe de Araceli — Mantinha ligações com Jorge Michelini (já morto), tio de Dantinho e irmão de Dante de Barros, viciado em tóxicos. Através dela, os assassinos conheceram a menor e por ela se interessaram, Usava a filha para o tráfico de entorpecentes e esta não sabia. Lola, que manteve silêncio por vários anos, acabou confessando suas ligações com os Michelini em dezembro último a este repórter logo após ter sido presa em Vitória, denunciada por estar seviciando uma menor boliviana, que ela trouxe ao Brasil ilegalmente. «Vou presa mas levo muita gente comigo» — disse ela então, dizendo que havia mantido relacionamento com Jorge e Dante. Pode ser considerada cúmplice do assassinato da filha, involuntariamente. Agora em janeiro, novas revelações sobre o caso mostram que dona Lola pode ser indiciada como tal. Conhecida como «Dália Negra» na rota Bolívia — Brasil, dona Lola foi acusada pelo ex-marido e pai de Araceli, Gabriel Crespo Sanchez de cumplicidade com os criminosos. «Trata-se de uma mulher cínica, falsa, da pior espécie de gente» — disse ele a este repórter num depoimento exclusivo.
16 - As direções, na época, da Santa Casa onde morreu Picin e onde Neres exerce suas atividades de papa-defuntos — Foram omissas. 0 corpo clínico e administrativo do hospital não poderia desconhecer o assunto.
17 - Funcionários, na época, do Hospital Infantil, de Vitória, por omissão de socorro — Araceli ainda foi levada ao hospital. Alguns funcionários não quiseram recebê-la.
18 - 0 perito Antonio Vilanova que convidado por Dante Michelini a ir a Vitória contestar os laudos de Carlos Éboli tentou desviar as investigações — O perito já esteve envolvido em casos suspeitos.
19 - A direção do jornal «A Gazeta» de Vitória — Em agosto de 77, o jornal questionava em editorial os fundamentos do trabalho do corregedor Waldiner Frasson que apontava os milionários como assassinos da menor. O jornal procurava desviar as atenções dizendo que as acusações a Dante de Barros, Dantinho e Helal não tinham fundamento. Este editorial foi publicado 4 dias depois que por convocação do diretor do jornal, Carlos Lindenberg Filho, diretores de três jornais de Vitória resolveram, repentinamente, reduzir seus espaços e noticiários a respeito do Caso, a pretexto de não influenciar a Justiça. Só não participou deste acordo o diretor do jornal «O Diário», Marien Calixte. A que interesses, este editorial estava servindo?
20 - Major Tatagiba — em 1973, logo após o encontro do cadáver de Araceli no matagal atrás do hospital Infantil, Wilson Gomes — que havia visto Helal e Dantinho — jogarem o saco com os restos mortais da menor, procurou o major na Superintendência de Polícia Civil. Contou-lhe o que vira. Foi levado na brincadeira e na gozação. O depoimento de Wilson hoje é um depoimento importantíssimo no processo.
21 - O grupo de 10 pessoas — que armadas atentaram contra a vida de Wilson depois que ele contou o que vira com relação à morte de Araceli. Wilson foi perseguido insistentemente.
22 - Soldados José Garcia, Jair e Waldemar — eles acompanhavam o sargento Homero (assassinado quando estava na pista dos assassinos de Aracelli) numa estranha caçada policial ao bandido «Boca Negra». Homero foi morto por trás quando corria atrás do bandido. No entanto, a polícia jogou a culpa da morte do sargento em Boca Negra que, preso, se dizia inocente e afirmava que os assassinos de Homero eram os soldados José Garcia, Jair e Waldemar da equipe do capitão Nunes de Araújo. Boca Negra acabou assassinado dentro da prisão em condições suspeitas. Estava numa cela com 16 presos e recebeu mais de 40 façadas do homosexual «Frede» que alegou ter sido obrigado a manter relações sexuais com Boca Negra e por isso o matara. No entanto, um dia depois, das supostas relações sexuais o exame de Frede no Serviço Médico Legal deu o seguinte resultado conforme laudo assinado pelo dr. Ismael Candeia: «Negativo para coito anal». São duas mortes não suficientemente desvendadas e explicadas ainda. O advogado de Boca Negra, Arnaldo Zardini afirmava: «Não sei quem matou Homero, mas uma coisa é certa. Se achassem a bala fatal extraída de seu coração na Santa Casa de Vitória e depois extraviada iriam verificar que ela não é do mesmo calibre do revólver que Boca Negra usava na ocasião. Quando o corpo do sargento foi para o Serviço Médico Legal tinha três furos e o tiro que entrou pelas costas foi o que acertou o coração. Como Boca Negra podería ter matado Homero se ambos estavam frente a frente?
23 - O ex-vice-governador Henrique Pretti — que tem parentesco com os Michelini. Em sua época muita coisa foi acobertada. Seria apenas uma coincidência?
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Dona Lola
O repórter, o perito, a busca da verdade
Descoberto, finalmente, o pai de Araceli acusa.
A impunidade no caso é «de responsabilidade de uma máfia da qual fazem parte políticos, policiais, autoridades e até membros da igreja. A verdade estava sendo abafada de todo jeito com a participação de muita gente poderosa».
«Não ponho a mão no fogo por ela de forma alguma. Trata-se de uma mulher cínica que não tem amor na alma, nem sentimento no coração. Trata-se de gente da pior espécie. Sua vaidade pessoal é impressionante hoje como era antes de Araceli morrer. Só queria saber de coisas futeis e relacionamentos escusos. Para mim ela é coparticipante do assassinato de Araceli. Talvez involuntariamente, mas foi através dela que os assassinos das famílias Helal e Michelini se aproximaram da minha filha. Ela deve ser indiciada como tal».
O desabafo poderia até passar desapercebido se não fosse de autoria de Gabriel Crespo Sanchez, pai da menor Araceli Cabrera, raptada, drogada, espancada e assassinada há cinco anos s sete meses em Vitória, por milionários das famílias Helal e Michelini e se a acusação não pesasse exatamente sobre a mãe da menor, dona Lola Cabrera como co-autora do assassinato da própria filha, ainda impune e que acabou se transformando num dos maiores escândalos do Brasil de nossos dias. Tão grande é o número de pessoas, que pelo menos 30 podem ser facilmente detectadas - desde policiais, autoridades diversas, pessoas de influência na sociedade e até políticos - que se dispuseram a evitar durante todos estes anos que a verdade aparecesse.
E chega a ser quase irônico constatar que a verdade tenha surgido num período inferior a trinta dias, quando se sabe que o «Caso Araceli» até então tinha em seu bojo cinco anos e meio de tumultos, destruição de provas, ameaças sobre testemunhas válidas, intimidações variadas, três assassinatos paralelos, quatro mortes misteriosas e grosseiras pressões para que tudo terminasse devidamente encoberto. Ironia que vai ainda mais longe: mais uma vez a polícia (a quem normalmente cabe o papel de investigar os crimes na moderna sociedade) atuou como simples expectadora enquanto um repórter auxiliado por um perito interessado no caso agiam (e ainda agem) buscando toda a verdade — que finalmente surge - ignorando solenemente até mesmo intimidações veladas.
«Vou presa, mas levo muita gente»
No dia 10 de dezembro do ano passado, tudo começou e o cerco final sobre a verdade foi iniciado quando o repórter Carlos Alberto Luppi — da Folha de S. Paulo — trabalhando junto com o perito Asdrúbal de Lima Cabral, o «Dudu Cabral» — que se dedica ao caso há quatro anos e meio — descobriram a presença sigilosa em vitória de dona Lola Cabrera, a mãe de Araceli, conhecida também no tráfico de entorpecente entre a Bolívia e o Brasil como «Dália Negra», ou «Margarida».
Em dois depoimentos — o primeiro quando foi localizada e o segundo quando foi presa em flagrante por seviciar duas menores que tinha trazido ao Brasil através de documentação falsa — a mãe de Araceli contou o suficiente para levar o caso a um desfecho. Presa, dona Lola se viu só e sem o esquema de proteção que tradicionalmente atua em seu favor em Vitória obrigando-a ao silêncio total. Então falou: «Vou presa, mas levo muita gente comigo». Admitindo, em seguida, que teve relacionamento com Jorge Michelini e Dante Michelini, proprietários do bar Franciscano, onde Araceli esteve em cárcere privado antes de ser assassinada. A mãe de Araceli foi clara ao afirmar que Jorge Michelini, Dante, Dantinho Michelini, Paulo Helal «e mais gente ligada a eles» são os responsáveis pelo assassinato de sua filha.
A reviravolta
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Gabriel Sánchez
Declarações que provocaram reviravolta total no caso, apesar das tentativas de desmentido que se processaram depois através do advogado Emanoel Câmara, cujo comportamento é no mínimo duvidoso. Um dia antes de Lola ser presa, o advogado confidenciava ao repórter Carlos Alberto Luppi: «Lola é culpada, tenho certeza absoluta disso». No dia seguinte, o advogado Gabriel Sanches mudava de opinião, o que é muito estranho ainda mais que ele está trabalhando em favor de dona Lola praticamente de graça, pelo menos não é pago por ela. Ele estaria sendo pago por quem, afinal?
Ao mesmo tempo em que isso acontecia em Vitória, o repórter e Dudu Cabral descobriam envolvimento de dona Lola com o tráfico de drogas com um consumidor criado por ela própria, seu filho Luiz Carlos, irmão de Araceli, hoje com 18 anos. Em São Paulo descobria-se ainda que Jorge Michelini não foi em Vitória o milionário isento de culpas a que todos curvavam a cabeça. Em 1949 e em 1956, Jorge esteve preso em São Paulo cinco anos e meio fichado como «falsário» pela polícia paulista, uma verdade que nem mesmo a polícia ou a Justiça capixaba sabiam até então.
O final do cerco ocorreu esta semana. quando novamente o repórter acompanhado de Dudu Cabral percorreram 15 cidades durante oito dias e conseguiram localizar o pai de Araceli, Gabriel Crespo Sanchez que hoje mora com a ex-empregada do casal com a qual tem um filho de dois anos, o Abel. Pela primeira vez também em cinco anos e meio, Gabriel finalmente resolveu contar o que sabe: «É meu primeiro depoimento e só faço porque vi que vocês estão realmente buscando a verdade» - disse ele. Sanchez foi incisivo acusando os milionários como os assassinos de sua filha, revelou que sua ex-mulher é co-autora na morte da menor «talvez invbluntariamente». e acusou ainda a polícia do Espírito Santo de encobrir a verdade durante todo este tempo, «antes mesmo que o corpinho de minha filha fosse encontrado num matagal completamente disforme e adulterado por ácido». E arrematou: «É que o dinheiro dos poderosos tudo compra, até a consciência das pessoas, tomando a sociedade corrupta por acatar de braços abertos a própria corrupção».
«A verdade vem sendo sistematicamente manipulada pelos assassinos de minha filha. Eles ameaçam, pressionam testemunhas válidas e até fazem pessoas desaparecerem misteriosamente. É a força do dinheiro contra a qual nunca pude lutar» - afirmou o pai de Araceli. Em seguida classificou a impunidade existente no Caso Araceli «como da responsabilidade de uma máfia da qual fazem parte políticos, policiais, autoridades e até membros da Igreja. Uns acobertam a verdade, outros são omissos e não exigem nada para que a verdade possa aparecer, como é o caso de membros da Igreja que nada fazem nesses casos em favor da verdade».
E disse mais: «Vi logo que a verdade estava sendo abafada de todo jeito com a participação de muita gente poderosa. Só não fiz nada porque sou um assalariado que nada tem. Como lutar contra esses poderosos, contra autoridades corruptas e desavergonhadas? Eu trabalharia cem anos, passaria fome outros 100, daria todo o dinheiro que pudesse obter para colocar os assassinos de minha filha na cadeia junto com seus cúmplices e os corruptos. Eu observei que estava sozinho contra uma máfia com o poder e o dinheiro nas mãos manobrando a tudo e a todos com exceção de alguns poucos. Eles são tão mafiosos que seriam até capazes de inventar que quem matou minha filha fomos nós.»



