Ao incansável Professor Alberto Feiden
Cidadão do mundo e à frente de seu tempo, o Professor Alberto Feiden vive dialeticamente o ofício de aprender ensinando e ensinar aprendendo, agora ao lado de Cristina, sua Companheira de Vida e lutas.
Ao celebrar sua nova idade -- e que interessa o tempo cronológico para quem faz de sua própria existência uma trincheira em que o tempo histórico, esse imponderável e determinante, contém a chave da libertação, em seu sentido real? --, o Professor Doutor Alberto Feiden desvenda novos horizontes para si e seus pares, ao lado, agora, de Cristina, sua Companheira de Vida e lutas.
Quem se depara com um senhor de jovialidade inconfundível, incansável ator e autor de façanhas transformadoras, não imagina que encontrou humildade e perseverança em tamanho superlativo. Mais que dimensões físicas, esse mestre de coração e mente gigantes -- que poderia ser um monge recolhido nos inspiradores corredores sem fim de mosteiros revolucionários da Renânia que, discreta mas firmemente, estudavam as teses de Karl Marx e tentavam pô-las em prática em suas ações sociais nos idos do século XIX -- faz história no campo, nas ruas, no meio do proletariado e com a convicção de quem sabe que tomamos o mundo emprestado daqueles que um dia irão nascer.
Conheci o Professor Alberto Feiden por meio de minha Sobrinha Dunia, ainda secundarista e Amiga de uma de suas Filhas, no prematuramente saudoso IBEC/Objetivo, primeira década do século XXI. Na verdade, eu já o admirava por conta das quase longas confidências havidas com o querido e saudoso Padre Pasquale Forin, cujo faro de bom missionário internacionalista sempre foi referência para os que de fato conheciam o irrequieto proletário que, no pós-guerra de 1945, escolhera o sacerdócio para transformar o mundo.
Toda vez que vejo o Professor Alberto Feiden eu tenho certeza da precisão e sensibilidade do Padre Pasquale, eterno Amigo e Companheiro. E o digo com total convicção, pois, em pleno processo de fascistização das sociedades contemporâneas, não são muitos os intelectuais que têm desprendimento, compromisso e coragem de agir e pensar dialeticamente junto aos proletários do campo e da cidade.
Porque compreender o processo histórico da produção pondo a mão na massa para desenvolver nos parâmetros da agroecologia, na periferia da sociedade e no epicentro das elites, ah, é para alguns. Padre Pasquale conhecia ampla e profundamente isso, por tal razão o admirava sem qualquer reserva. Quando me deparei com esse gigante de coração e mente também gigantes tive clara evidência de que o Pantanal de fato é o paraíso na terra, pois, a despeito do preconceito -- ou melhor, complexo de inferioridade -- de muitos nascidos por acaso nesta região, é aqui onde se "mede", isto é, se sente a dimensão humana transformadora.
Poucos sabem, mas Padre Pasquale e Dom José Alves da Costa compreendiam o sentido concreto da consciência de classe, diferentemente de alguns doutos que, levados pelo narcisismo, creem que as transformações das sociedades humanas vêm decretadas como manifestação imperial de algum soberano ou iluminado, como extraterrestre ou messias predestinado. A Jornalista Edna Gomes (influenciadora digital, 'Política na veia') recentemente fez 'live' sobre sequestro da consciência pelo autoritarismo a ameaçar Democracia e Estado de Direito, eis que sequer consciência é permitido ter.
É óbvio que para os cultores do fascismo 'civilizado' (travestido de domável), o binômio identitarismo/pertencimento seja o motor da história. Pior é que já tomou conta da academia, das instituições de ensino e pesquisa e até de partidos chamados de vanguarda. A brecha foi dada por nós, pretensos aprendizes de cidadão, que ingênua e imprudentemente deixamos aberta a caixa de Pandora e só nos demos conta da tragédia quando "Inês é morta". E isso não é de hoje.
Em 1984, auge das Diretas-Já, tive oportunidade de estar no emblemático 25 de abril no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, graças à querida Amiga Iara Valentina Torres de Souza, mas o que era para ser festa virou decepção [o que compensou aquele périplo foi ter conhecido e dialogado longamente com o vanguardista José Paulo Netto, na sede da Editora Urupês, então editor de internacional do semanário Voz da Unidade, além do saudoso e querido Amigo Adolpho Emydio Cunha, autor da trilogia sobre a ipecacuanha, poaia para os pantaneiros, cujas novas gerações ignoram]. E, no segundo semestre, quando me preparava para a volta Corumbá, conversei com referências da vanguarda da época, entre eles o querido Doutor Carmelino Rezende e os saudosos Camaradas Fausto Matto Grosso e Manoel Sebastião da Costa Lima. Ingênuo, mas conectado à realidade, eu os questionara, com base em minha então recente (e traumática) estada na Bolívia pós-democratização, se não seria prudente empreender o projeto do querido Professor Gilberto Luiz Alves, de afirmar Corumbá como centro de excelência em pesquisa e produção de conhecimento, até porque, meses antes desse diálogo, tivera o privilégio de acompanhar o VII SEPE (Seminário de Ensino, Pesquisa e Extensão) realizado no CEUC -- comparado pelo então coordenador do CNPq, Professor Célio Cunha, a uma mini-SBPC -- e levara comigo anotações dignas de pautar uma edição especial da vanguardista e saudosa revista Grifo, dos queridos Mário Ramires, Marília Leite e Márcio Licerre.
Abordei essa tentativa de articulação porque no período pós-regime de 1964 Corumbá retomou seu protagonismo, e o que restava da década de 1980 e a década de 1990 foram anos de intensos debates e de importantes reflexões. A Embrapa Pantanal (ainda sob a sigla CPAP), na sábia gestão do Doutor Araê Book e lúcida direção técnica do Doutor Arnildo Pott, realizara, em parceria com o CEUC (dirigido pela querida Professora Doutora Edy Assis de Barros, ex-diretora do Centro Educacional), o paradigmático I Simpósio sobre Recursos Naturais e Sócio-econômicos do Pantanal, com a coordenação-executiva do Doutor Eduardo Künze Bastos e do Professor Doutor Arnaldo Yoso Sakamoto, que, por meio da querida Amiga, doutoranda à época, Sílvia Maria Costa Nicola, primeira pesquisadora da UEPAE/Embrapa (depois CPAP), dei modesta colaboração, como voluntário, de facilitador na comunicação do evento, e depois passei a fazer a revisão da produção local da Embrapa, setor à época chefiado pela saudosa Amiga Lucídia Lacerda, eternizada precocemente.
Já tendo conhecido, em 1978, os Professores Valmir Batista Corrêa, Lúcia Salsa Corrêa, Kate Eliana Caetano e Masao Uetanabaro (além do Professor João Carlos Françolin, de Linguística, em minha breve passagem como aluno de Letras do CPC/UEMT), aceitei cobrir pelo jornal em que trabalhava (e dei vias de telex para colegas de outros jornais), contatado pelo Amigo Professor Gilberto Luiz Alves -- ele e os professores Valmir e Lúcia frequentemente convidados para abrilhantar as Semanas de História da FADAFI/FUCMT --, me possibilitou conhecer o Professor Cláudio de Almeida Conceição, criador do emblemático Herbário do CEUC e do Projeto Aguapé (para produção de biogás e energia). Nessa época chegaram a Corumbá os Professores Doutores Maria Angélica de Oliveira Bezerra, Ivã Moreno e Íria Hiromi Ishi, todos de Biologia cuja permanência no CEUC foi fecunda. Na gestão do herbário houve uma sucessão de Professores Doutores dignos de registro: Shirley Rego, Vali Pott, Geraldo Damasceno, Ieda Bortolotto, Íria Ishi, Adriana Takahashi e Maria Ana Farinaccio, que se incumbiram de dar continuidade à iniciativa do Professor Cláudio Conceição, o herbário mais antigo do estado.
A Vida me propiciou ser 'testemunha ocular da história' em muitos momentos cruciais dos estertores da morte da ditadura, cujos beneficiários tentaram prolongar no período de transição representado pela Nova República. Recém-chegado da Novacap, assisti com perplexidade à acintosa tentativa de deposição do Doutor Araê Book, pesquisador rigorosamente técnico e de competência inatacável, da chefia do CPAP, por meio do então presidente do Senado e ex-presidente interino José Fragelli (em cujo final de vida teve a dignidade de encabeçar ação popular contra a privatização da Metamat/UMSA em 1994, contra Pedro Pedrossian e Jayme Campos, mas traída por quem deveria mantê-la até o final, a exemplo do saudoso Dante de Oliveira, que como governador de Mato Grosso foi até o final, embora o governo de FHC, seu novo correligionário, tivesse posto panos quentes). Graças à oportuna intervenção dos também saudosos Deputado Plínio Barbosa Martins e Governador Wilson Barbosa Martins, por intermédio do igualmente saudoso Fausto Matto Grosso, foi encontrada uma saída honrosa e somente ao final de um período maior foi colocado um 'tertius', não o agrimensor apadrinhado com o lamentável aval do saudoso deputado federal e ex-governador Harry Amorim Costa.
Ver a desenvoltura, quatro décadas depois, do Professor Alberto Feiden, que trabalha com Agroecologia e Agricultura Familiar, é sem dúvida o coroamento da utopia, a despeito da distopia de nosso tempo histórico, em que forças reacionárias se empoderaram de tal maneira, que nem com a experiência e a habilidade do Estadista que o Brasil revelou para a humanidade, Lula, em seu terceiro mandato e a experiência acumulada, consegue mitigar. Fico feliz, também, por ter reencontrado Amigos de décadas, como os queridos Doutor Agostinho Catella, Doutora Aiesca Pellegrin, Doutora Márcia Divina e, é claro, a Amiga Doutora Débora Calheiros, incansável lutadora desde sempre. E, com o perdão pelo atrevimento [por isso deixado para o final], a competência inspiradora do querido Sobrinho Igor Alexandre, técnico e sindicalista que conjuga lealdade e coerência com consciência de classe, representa generosa recompensa que a magnanimidade da Vida, a ótima formação cidadã dos Pais Waded e Ney e a fibra do Professor Alberto Feiden nos permitiu testemunhar.
Enfim, ter a sorte e o privilégio da presença fecunda do Professor Alberto Feiden é um verdadeiro afago à nossa consciência, nossa essência, e motivo de entusiasmo e repactuação com a credulidade, a lealdade, nestes tempos tacanhos, em que temos que estar alertas ante a falta de escrúpulos de cínicos que se declaram confrades, amigos ou até mesmo 'campanheiros'.
Vida longa e muita saúde, Professor Alberto, e obrigado por existir, resistir e nos ensinar com a sua humilde e sincera práxis!
Ahmad Schabib Hany