CORUMBÁ SEM OBJETIVO NÃO É CORUMBÁ
O futuro de Corumbá e de Ladário -- enfim, do Pantanal -- está na consciência de cidadania. Integrantes do Movimento UFPantanal, a Professora Lígia Baruki e Melo e Família têm inequívoca contribuição para a Educação, inclusive por meio do IBEC/Objetivo, cujo funcionamento foi interrompido, para tristeza nossa.
Corumbá, centro cosmopolita que, com pioneirismo e pluralidade, acolheu imigrantes de diferentes origens por décadas a fio desde o pós-guerra de 1865, não pode perder o seu objetivo. Nem o IBEC/Objetivo, escola que, nos 33 anos de atuação, além de formar estudantes capacitados para os diversos cursos universitários pelo Brasil e, até, pelo Mundo afora, preparou cidadãs e cidadãos qualificados para tempos adversos.
Com sinceridade, em meus 62 anos de intensa vivência em Corumbá, terra que acolheu meus Pais desde os primeiros meses de 1964, nunca vi tanta letargia -- pior, apatia -- como depois que o ódio foi inserido na agenda política do Brasil. Em 2020, sem um esboço de indignação ou contrariedade, a população corumbaense -- e as autoridades de Mato Grosso do Sul, sobretudo -- viram o centenário Centro de Ensino Imaculada Conceição (CENIC, ou melhor, GENIC) fechar as portas melancolicamente. Não demorou muito e a Faculdade Salesiana de Santa Teresa, a menos de duzentos metros, iniciou seu processo de descontinuidade das graduações, observando que muitos políticos locais iniciaram ou concluíram sua formação no Santa Teresa de tantas gerações.
E o IBEC/Objetivo tem parte de sua história nesse mesmo contexto. No impacto da súbita perda de seu Pai, a Professora Lígia procedeu a transferência da titularidade do Instituto de Ensino Superior do Pantanal (IESPAN) para a Missão Salesiana de Mato Grosso (MSMT), entidade mantenedora da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e dezenas de educandários espalhados por Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e oeste de São Paulo. Cursos como Direito, Economia, Turismo e Zootecnia foram oferecidos à população de Corumbá e Ladário com pioneirismo (na época, o campus local da UFMS, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, ainda não oferecia Direito).
PROJETO VISIONÁRIO
Quando, em 1993, já aposentados, o Professor Salomão Baruki, sua Companheira de Vida, Professora Magali de Souza Baruki, e a Professora Terezinha Baruki decidiram fundar o Instituto Baruki de Educação e Cultura (IBEC) e adquirir da Professora Loreta Negreiros a Escola CEAC/Cirandinha tinham não só consciência da complexidade da Educação, como a experiência em diferentes educandários e instituições universitárias para dar solidez e consistência ao ousado projeto em mente, a partir da celebração da parceria com o Sistema Objetivo e mais tarde a fundação do IESPAN.
Diferentemente de uma instituição pública, um projeto educacional com a dimensão do IBEC/IESPAN, de fato, exigiu muito fôlego, ousadia e determinação. A Professora Lígia, que assumiu a direção depois da eternização dos fundadores, precisou ter, sobretudo, a racionalidade necessária para manter uma Escola de referência no topo e, ao mesmo tempo, a humildade de compreender que a Educação é trabalho de equipe. Discreta e bastante equilibrada, enfrentou os quatro anos de intenso combate ideológico de forma lúcida e resiliente.
No entanto, em uma sociedade em que o mercado, com sua volatilidade atroz e sua ação predadora, não perde oportunidade, sobraram motivos para sua equipe, forjada na conduta inovadora, ser diluída paulatinamente. Contudo, a história é processo em que os fatos, dentro de seu devido contexto, constituem o corolário da verdade, e não, como vemos hoje, as narrativas suplantando os fatos, o processo como um todo. Assim como Corumbá não sucumbe às tempestuosas sanhas do oportunismo, o IBEC/Objetivo saberá retomar o caminho da história, leve o tempo que levar.
Lembro-me como hoje, durante as reuniões preparatórias para a fundação do Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER), entre 1999 e 2001, sob a sábia coordenação do Padre Ernesto Saksida e a entusiástica participação do Senhor Jorge José Katurchi, a ponderada contribuição do Professor Salomão Baruki. Foi nesse período em que, expondo a magnitude de mais um projeto educacional de sua iniciativa, tive noção de sua incansável determinação. Afinal, participara da gênese do Instituto Superior de Pedagogia de Corumbá (ISPC), com a participação proativa de uma comissão formada, além dele (escolhido por seus pares como presidente e depois diretor do ISPC), pelo Professor José Ferreira de Freitas (então deputado estadual), Professora Edy Assis de Barros, os médicos Cleto Leite de Barros e Lécio Gomes de Souza e o engenheiro civil Luiz Pedro Ametlla (titulares).
O Professor Salomão Baruki, cuja geração teve ceifada sua trajetória política (ao lado do Doutor Cleto Leite de Barros e do Senhor Hélio Péres, por exemplo), soube encontrar a via com a qual erigir sua utopia em tempos de chumbo. Dessa obstinação nasceram o ISPC (mais tarde CPC/UEMT e depois CEUC/UFMS), o Instituto Luiz de Albuquerque (ILA) que no primeiro governo do Doutor Wilson Barbosa Martins se transformou na Casa de Cultura Luiz de Albuquerque, o IBEC/Objetivo e o IESPAN. A Professora Lígia, melhor que ninguém, sabe que a adversidade é a razão de ser das grandes vitórias.
Como pai de dois ex-alunos e tio de uma ex-aluna, guardo infinita gratidão pelo cuidado e, sobretudo, pela formação cidadã e escolar proporcionada ao longo de duas décadas. Sou testemunha partícipe do compromisso ético e da qualificação pedagógica oferecida por um projeto vitorioso, virtuoso e ousado. A Professora Lígia e o Professor Wilson Ferreira de Melo, seu Companheiro de Vida, que participam desde a primeira hora do Movimento UFPantanal -- isto é, da campanha pela criação da Universidade Federal do Pantanal --, têm clareza suficiente de que a Educação não é o forte das elites brasileiras, de modo que um projeto à frente de seu tempo como o IBEC/IESPAN e o próprio ILA, hoje jogado às traças, são um inesgotável motivo para continuar a viver e a lutar por um Objetivo maior que o horizonte tacanho dos inquilinos que se revezam em Corumbá ou Mato Grosso do Sul.
O fato é que Corumbá (e Ladário, e, por extensão, o Pantanal), não pode perder a razão de ser, o objetivo -- e o Objetivo. A História, como a Vida, não se esgota em si mesma. O futuro de Corumbá (e do Pantanal) está na consciência de cidadania. Cabe-nos fazê-la fecundar, regar e florescer, sob pena de não haver amanhã para a humanidade.
Ahmad Schabib Hany

