Brasil, terra de todos os credos e da diversidade
Dia 4 de outubro é dia de renovar o compromisso com nossos filhos, com nossos netos: um país capaz de oferecer oportunidades e perspectivas para os que vierem depois de nós, nesta terra de todas as culturas, todas as crenças e todos os povos -- da esperança com justiça social.
Seu encontro com as urnas é motivo de celebração e regozijo. Graças à luta de cidadãos anônimos durante 21 anos de ditadura que havia impedido o povo de exercer o direito de escolher seus representantes. Quem vota precisa ser consciente de que sua escolha decidirá os destinos de 200 milhões de pessoas, diversas gerações que merecem um presente e um futuro seguro e próspero para todos e todas -- e não apenas 1% da população, como querem alguns.
Votar é um direito que só retornou ao cidadão brasileiro em 1989, graças à Constituição Cidadã, depois da derrota do regime de 1964, cujos beneficiários e serviçais não foram devidamente processados e condenados por um conjunto de crimes que foram encobertos por décadas. Por essa razão, como assombração, vivem o tempo todo a ameaçar o futuro do Estado Democrático de Direito com aleivosia e acinte, pela certeza da impunidade.
Desde a vitória das forças democráticas, em 1985, sobre as ruínas do regime de 1964, todas as eleições têm um sentido de celebração, de congraçamento com o Estado Democrático de Direito, construído coletivamente desde a rua, praças, sindicatos, centros comunitários, igrejas e organizações populares em todo o território nacional, inclusive em Corumbá e Ladário. Um legado que não pode ser jogado fora.
Foi conquista da sociedade civil, que empreendeu uma acachapante derrota à ditadura, com muita resiliência e denodo, ainda que com diversas tentativas de silenciamento, como o fracassado atentado do Rio Centro em 1980; a carta-bomba que matou Dona Lyda Monteiro, secretária do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil em 1981; vários atentados contra bancas de jornais, em todo o país, para impedir a circulação da imprensa alternativa, que denunciava o que a mídia corporativa não tinha coragem de fazer; sequestros, prisões ilegais e assassinatos de dirigentes comunitários, sindicais e estudantis em pleno processo de 'abertura'; fechamento do STF e do Congresso Nacional em abril de 1977 (quando foram cassados senadores, deputados e dois ministros da corte e instituído o "senador biônico" entre outros casuísmos).
Recalque, o combustível do fanatismo
A onda de fanatismo, ódio e intolerância -- incentivada por forças travestidas de igrejas neopentecostais e similares, partidos nazifascistas que reciclaram o discurso hitlerista, ONGs fundamentalistas e organizações ligadas ao crime organizado (hipocritamente classificadas por Trump como organizações terroristas ou narcoterroristas para servir de pretexto para qualquer invasão, como a que ocorreu esta semana na Bolívia para sequestrar o procurador-geral do Estado Plurinacional e o procurador regional de Santa Cruz que estavam no encalço de seu serviçal Fernando Cerimedo, caso precisar invadir o Brasil para impor seu fantoche-denorex, aquele que parece mas não é) -- é ponta de lança de projeto de domínio não só do Brasil, mas de toda a América Latina e o Hemisfério Sul, cobiçados pelo império decadente.
Há quem veja o Brasil com os olhos do preconceito, da insatisfação. Grande injustiça, pois quem veio de longe soube dar-lhe valor: generoso, é o país das oportunidades; solidária, é a nação da partilha; tolerante, é o povo que sabe acolher e transformar em futuro a incerteza do recém-chegado.
Todo imigrante conhece bem o que é isso. A despeito de desonrosas exceções que nos causam rubor, a maioria dos descendentes de imigrantes costuma reconhecer com gratidão, até porque as novas gerações desfrutaram de harmonia e conforto que na terra-natal seus ancestrais não conheceram -- pelo contrário, sofreram até com perda de seres queridos, mortos violentamente.
Ora, sabemos o que é isso na própria pele, ou pela memória de nossos pais ou avôs. Quando dizemos que há, entre os descendentes de imigrantes, aqueles ingratos que nos causam rubor, referimo-nos aos que, em vez de agradecer pela oportunidade, querem insinuar uma 'superioridade' própria dos fidalgos, isto é, dos colonizadores, que exploravam, saqueavam, escravizavam e até massacravam os originários ou os escravizados, como a História comprova.
Brasil, terra de todos os credos
Quem estuda a história do Brasil e a formação social do povo brasileiro sabe que -- ao contrário da lenda preconceituosa de que a "mistura de raças" teria tornado "fraca" a população brasileira -- é o povo a maior riqueza que existe neste país de abundantes riquezas florísticas, faunísticas, minerais, hídricas, territoriais, econômicas, culturais, sociais e políticas, mas que são finitas, e que as autoridades devem ser vigilantes para conservar para a posteridade, sempre em benefício da população brasileira.
Não é casual a vocação do Brasil como potência mundial: a despeito de ter havido alguns episódios na história regional (isto é, da América Latina) que nos encabulem pelo papel das elites descendentes dos reinos europeus nos séculos XIX e XX, o país é considerado potência de paz e concórdia. Desde que não voltemos a ter fantoches como o inominável -- pai do "Zero-hum" --, cujo comportamento como chefe de Estado foi uma desonra para a história dos brasileiros.
A polêmica recentemente causada por uma proposta infeliz de alterar, na calada da noite, a lei federal em que na década de 1980, ainda durante o regime de 1964, foi reconhecido o status oficial de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil -- obtido por meio de um decreto do Papa Pio XI em 16 de maio de 1930 e consentido historicamente pelas pessoas dos mais diversos credos que aqui viveram ou conviveram, ainda que transitoriamente, desde meados do século XVI -- não apenas expõe o fanatismo religioso dos que aderiram ao pacto formado por milicianos, oligarcas, sonegadores, grileiros, garimpeiros ilegais, criminosos ambientais, matadores de aluguel e políticos habituados a achacar e saquear o patrimônio público em nome de falsos valores.
Como diz a composição feita por um coletivo ligado à umbanda, religião de matriz africana, "ninguém é dono do Céu" e "o Brasil é de todos os santos e de quem não tem religião". Foi uma contundente resposta à tentativa de criminalizar e usurpar a laicidade do Estado brasileiro por grupo de fanáticos neopentecostais e católicos ultraconservadores em catarse extemporânea.
Aliás, uma Amiga muito querida ligada à igreja luterana sentenciou com senso de humor, remetendo-se à cena que causou perplexidade e indignação em 1995, em que bispo ligado à igreja de propriedade do dono da Rede Record chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida diante das câmeras. "Toda vez que as hordas de fanáticos tentam impunemente satanizar a imagem da Padroeira do Brasil, eles mesmos se tornam vítimas de seu desvario, pois Nossa Senhora Aparecida protege o Brasil e o povo brasileiro desses lunáticos."
Desesperança, fonte do fanatismo
Essa insatisfação não existe por acaso: ela é fruto da frustração, da perda de esperança, da desesperança, pois uma imensa maioria de anônimos, que um século e meio atrás, quando da guerra contra o Paraguai, sequer tinham certidão de nascimento, ou de batismo, portanto, sequer eram "almas" para serem contadas, e quando tombaram não tiveram certidão de óbito. Por causa disso suas viúvas e órfãos não puderam receber indenização, pois não existiam institucionalmente.
E por que o nativo (descendente de originário ou escravizado e miscigenado), aquele ser humano invisível cujo trabalho, talento e honradez possibilitaram a grandeza deste país, encontrou barreiras intransponíveis na chegada de fidalgos e condenados, para cá enviados no início da colonização, ou dos europeus e asiáticos da segunda metade do século XIX cujos herdeiros são hoje integrantes das elites financeiras que coabitam na Faria Lima?
Desde a chegada dos colonizadores europeus, a partir de 1500, o território do Brasil tem sido terra de promissão e fartura para quem chega. O originário e o migrante -- o imigrante de segunda classe, pobre à procura de um lugar para assegurar a sua sobrevivência, sobretudo o escravizado, fosse africano ou descendente -- sempre encontrou as portas fechadas da exclusão.
A rica cultura (ou melhor, as ricas culturas, no plural) que enriqueceu toda a população brasileira com essa diversidade que é o charme do Brasil -- e que faz os imigrantes e seus descendentes se encantarem com este povo único no Planeta --, diferentemente da estadunidense (marcada pelo supremacismo e pela intolerância explícita dos EUA), a despeito da propaganda de que o povo ianque é o mais tolerante e acolhedor.
Porque este é o país que nossos pais e avós conseguiram deixar para nós. Pode não ser o que nós gostaríamos que fosse, mas é o que eles conseguiram. Nem mais, nem menos. Para transformá-lo, primeiramente precisamos saber escolher qual é o projeto que cada candidato tem -- porque se não tiver, isso é um perigo: Argentina, Bolívia, Equador, Chile e agora a Colômbia se transformaram em laboratórios de um novo projeto de colonização.
Brasil com 's', de soberania, de solidariedade, de sabedoria. É o que desejam todos os cidadãos conscientes, independentemente de sua religião, filosofia, ideologia ou cosmovisão querem para viver com tranquilidade. Fora disso é barbárie, é ignorar o direito das novas gerações viverem em uma sociedade promissora e de oportunidades para todos. E o Brasil merece respeito e gratidão.
Vote com responsabilidade. Não faça de seu voto uma arma: a vítima pode ser Você.
Ahmad Schabib Hany

