"Foi bonita a festa, pá..."
Chico Buarque, icônico compositor, cantor, dramaturgo e escritor que abriu os horizontes de inúmeras gerações ao longo das seis últimas décadas, fez esta emblemática canção para homenagear a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, que acabou com a cinquentenária ditadura salazarista e inspirou a mobilização das 'Diretas já' do saudoso Deputado Dante de Oliveira, o autor da emenda constitucional que, mesmo majoritária, em outro 25 de abril, de 1984, não conseguiu o quórum imposto pelo Pacote de Abril de 1977.
"Foi bonita a festa, pá, / Fiquei contente / Ainda guardo renitente / Um velho cravo para mim..." Quatro anos depois de protagonizada, a Revolução dos Cravos ganhou homenagem de ninguém menos que de Chico Buarque. Em 1978, "Tanto mar" embalou os sonhos libertários dos brasileiros, que, sem medo ou comedimento, comemoraram a façanha popular da vanguarda portuguesa, em que militares soberanistas (nacionalistas e socialistas), liderados pelo General António de Spínola, participaram desde dentro das camadas sociais de Portugal e as colônias para pôr fim às décadas de intolerância e opressão do regime, representado pelo primeiro-ministro Marcello Caetano.
Mais que compositor e cantor, Chico Buarque é o cronista social (dramaturgo e romancista também de relevância) que melhor interpretou a alma brasileira. Geneticamente internacionalista, Chico até hoje sabe dar voz e vez ao desassossego brasileiro e latino-americano -- enfim, da humanidade toda --, sem abrir mão do lirismo com que exprimiu a sensibilidade feminina em emblemáticas composições. Voltemos, contudo, à agitação política de 1974 em Portugal. Nem os dirigentes haviam imaginado o nome "dos Cravos" para a revolução que depôs quase 50 anos de ditadura abertamente fascista e colonial (todos os contemporâneos tinham conhecimento das atrocidades que António Salazar impingia aos habitantes das colônias portuguesas na África).
Trabalhadora sem vínculo partidário, Celeste Martins Caeiro, no dia 25 de abril de 1974, se depara com a decisão de seu patrão, dono do restaurante "Sir", de Lisboa, de não abrir as portas por temor à reação violenta do regime e dá a ela e a seus colegas uma grande quantidade de cravos que seriam presenteados às clientes na celebração do primeiro ano de funcionamento do restaurante de self-service, dos primeiros de Lisboa. Ao ser abordada por um soldado que lhe pedira um cigarro, ela, que não fumava, lhe ofereceu um cravo como conforto, e ele o colocou no cano do fuzil. Ficou tocada pelo gesto do soldado, e passou a distribuir um cravo a cada militar, até acabar a penca.
Um jornalista que cobria a rebelião, ao ver a cena dos soldados empunhando as armas com cravos, passou a denominá-la de Revolução dos Cravos, como entrou para a história. Embora a protagonista involuntária da icônica iniciativa tivesse sido revelada por um programa de televisão em seguida, somente anos depois passou a integrar o Partido Comunista de Portugal, em que militou o resto de sua vida longeva. Mas o reconhecimento oficial pelas autoridades só aconteceu na celebração do cinquentenário da revolta, quando ganhou o epíteto "Celeste dos Cravos" por iniciativa de uma poeta portuguesa. Morreu aos 91 anos em novembro daquele ano, por problemas respiratórios, razão pela qual parte das homenagens a ela fosse póstuma, como a estátua e a placa da rua onde ela distribuíra cravos.
Na época, a imprensa corporativa brasileira fingiu não saber que se tratava de um movimento pelo fim do fascismo lusitano, batizado de salazarismo a fim de ficar mais palatável para o ocidente em plena guerra fria com os soviéticos. A hoje embolorada 'Folha de S.Paulo', sob a lúcida e digna direção do Jornalista Cláudio Abramo, conseguiu driblar, muito habilmente, por meio das análises do não menos digno e ético Jornalista Newton Carlos, também colaborador de 'O Pasquim', bem como de J. B. Natali Jr. e de Osvaldo Peralva, respectivamente correspondentes do jornal da Alameda Barão de Limeira em Paris e Tóquio. Eu era fã deles, especialmente de Newton Carlos, cujas análises geopolíticas e seu espanhol impecável eram publicados pelo diário 'Presencia', de La Paz, de linha progressista.
Depois de 1964, disseminou-se o mito, no Brasil, de que ser militar tem que ser de direita, fascista e pró-imperialista. Mais um mito a ser extinto oportunamente. Ao longo da história de toda a América Latina, ser nacionalista e defender sem hesitação a soberania nacional rendeu títulos nem sempre simpáticos pelas elites entreguistas -- caso do marechal Henrique Teixeira Lott e do general e historiador Nelson Werneck Sodré no Brasil pré-1964, do general Juan José Torres na Bolívia pré-Banzer e do general Juan Velasco Alvarado no Peru pré-Fujimori, estigmatizados por 'comunistas', mesmo sem que tivessem militância comprovadamente orgânica.
'DIRETAS JÁ'
Assim que assumiu, em março de 1983, a cadeira de deputado federal por Mato Grosso, o cuiabano nascido em 1952 Dante Martins de Oliveira, egresso do curso de Engenharia Civil e dirigente do movimento estudantil durante os anos de chumbo, protocolou um projeto de Emenda Constitucional propondo a volta de eleições diretas para presidente e vice-presidente da República, impedidas pela Constituição outorgada de 1967, pela Emenda Constitucional no. 1 de 1969 e vários Atos Institucionais decretados desde a consumação do golpe de 1964.
Depois que o lendário Deputado Ulysses Guimarães anunciou o apoio à Emenda Dante de Oliveira com a deflagração da campanha 'Diretas já', foram realizados comícios multitudinários em quase todas as cidades do país. Em Corumbá, o ato de apoio foi realizado modestamente na Avenida General Rondon, em frente à CorumbArte da querida Marlene Mourão e da saudosa Heloísa Urt, com presença de representantes do governador Wilson Barbosa Martins e de partidos progressistas à época, como PMDB, PDT e PT -- lá estavam os então vereadores Valmir Batista Corrêa, Rubens Galharte e o saudoso Jonas de Souza Ribeiro, o saudoso ex-vereador José de Oliveira e a querida, saudosa e incansável Dona Eva Granha de Carvalho, dois fundadores locais do Partido dos Trabalhadores.
A 25 de abril de 1984, após memorável mobilização em todo o Brasil, a votação na sessão da Câmara dos Deputados foi vitoriosa para a Emenda Dante de Oliveira: 298 votos a favor, 65 contra e três abstenções, mas faltaram 22 votos para atingir o quórum exigido, de 2/3, introduzido pelo Pacote de Abril de 1977. Naquele ano, o STF e o Congresso Nacional foram fechados pelo general Ernesto Geisel mediante uso do AI-5 (Ato Institucional n. 5), e uma série de alterações constitucionais -- entre elas a abjeta figura do senador biônico, sem ser eleito pelo voto direto, que passou a compor 1/3 dos membros da casa -- foram impostas sem passar pela Câmara Federal e o Senado da República, inclusive com a cassação de ministros do Supremo e de parlamentares combativos, um dos casuísmos usados pelo regime para impedir que a oposição conseguisse maioria simples nas votações.
Brasília, no dia da votação da Emenda das Diretas, estava sob medidas de emergência, a cargo do general Newton Cruz, um dos ídolos do inominável, inelegível e presidiário por tentativa de golpe. Unidades militares ocupavam a Esplanada dos Ministérios, e uma multidão ordeira e entusiasta se aglomerava sem se deixar intimidar pelas tropas militares que representavam um regime nos estertores da morte. A covarde ausência de 113 deputados, em sua maioria da situação, PDS, sucedâneo da Arena, não arrefeceu a lúcida e determinada vontade de conquistar a democracia e pôr fim às duas décadas de casuísmos, medo, censura, perseguição, tortura, desaparecimento, morte e autoritarismo, tudo em nome de uma 'democracia' de araque, como hoje a dinastia e seus cúmplices conspiram incessantemente.
Tão logo se encerrou melancolicamente a campanha das 'Diretas já', para desespero dos ideólogos do regime de 1964, as forças democráticas que se uniram durante as 'Diretas já' arregaçaram as mangas e se puseram a articular a viabilidade de uma candidatura vitoriosa pelo Colégio Eleitoral, pois era visível o esgotamento político da ditadura. Assim nasceu o movimento 'Tancredo Já', o único que teria condições de derrotar o candidato da situação. Tal qual o 'velho' Ulysses Guimarães, Tancredo de Almeida Neves era dos que resistiram altiva e exemplarmente às pressões do regime infame.
O Jornalista Tarso de Castro -- co-fundador de 'O Pasquim', 'JA' ('Jornal de Amenidades'), 'Folhetim', 'Enfim' e 'O Nacional' --, conterrâneo e amigo pessoal de Leonel Brizola, que torcia o nariz à oposição consentida pelo regime, depois que conheceu de perto Ulysses, Tancredo e André Franco Montoro durante a resistência à ditadura, passou a respeitá-los e, muitas vezes, defendê-los dos ataques de 'puristas' desavisados. Tarso, sem margem a qualquer dúvida, era um abnegado e, ao mesmo tempo, renegado -- não fazia concessões a ninguém.
Tarso nunca se pretendeu profeta, mas acabou predizendo diversos fatos que o tornam atualíssimo, assim como seu 'inimigo' Millôr Fernandes. Embora tenha se eternizado em 1991, antes, portanto do impeachment de Fernando Collor de Mello e do acidente de helicóptero que interrompeu a longa jornada de dois grandes brasileiros, Ulysses e Severo Fagundes Gomes, de suas respectivas cônjuges e do piloto experiente -- fins tão surreais quanto os de Tancredo, João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda em um país de grande potencial cujas elites não querem romper com seu comportamento atávico (para recorrer a eufemismo, mas que a história as mostra jagunças, escravistas, grileiras, parasitas e proxenetas) e cujo laborioso e hospitaleiro povo ainda não conseguiu derrotar e se libertar da extemporânea sanha colonial escravista (não por falta de iniciativa, tentativas e capacidade).
A despeito disso tudo, o generoso e gigante povo brasileiro ofertou para a humanidade, depois de 500 anos de tragédia -- tal qual ostra que sofre para fazer a pérola que causa a cobiça alheia --, o estadista saído das entranhas do sertão, o sobrevivente da diáspora nordestina, o trabalhador mutilado pela exploração extrema, o líder sindical conciliador mesmo forjado na luta renhida, o agente social perseguido que por duas vezes as masmorras tentaram silenciá-lo, o líder político que se lapidou na prática e na leitura de livros que muitos dos seus 'instruídos' adversários invejosos sequer sabem que existem e teimam chamá-lo de 'analfabeto'.
Chico Buarque, memorável autor de "Tanto Mar", hoje jovem octogenário que enfrenta nas ruas uma maioria parlamentar inimiga do povo e vai até Havana defender das ameaças genocidas do império decadente o povo cubano, a quem dedicou em 1973 com Pablo Milanés "Canção pela Unidade da América Latina". Ele conviveu com toda a turma de 'O Pasquim' (para quem não sabe, Chico foi correspondente em Roma, durante o exílio, enquanto Caetano Veloso foi correspondente em Londres, na primeira fase do genial semanário satírico), acompanhou Tarso de Castro em muitas de suas aventuras jornalísticas até se decidir por participar da criação, em 1975, de um semanário emblemático que fazia o contraponto do sisudo 'Opinião' de Fernando Gasparian e Sérgio Motta, o saudoso e didático jornal 'Movimento', de saudosa memória, de cujo conselho editorial era membro. "Foi bonita a festa, pá..."
Ahmad Schabib Hany

