quinta-feira, 10 de setembro de 2026

LICO, O MENINO QUE AINDA CONTA HISTÓRIAS - Por Salim Haqzan


Lico, o menino que ainda conta histórias


Sim, eu gosto de viver histórias.
Gosto de contar histórias.
Gosto de inventar histórias.
Talvez porque, desde muito pequeno, eu tenha descoberto que uma história pode ser uma maneira de ficar perto de alguém.

Eu tinha quatro anos quando comecei a entrar embaixo da cama do meu pai, depois do almoço. Enquanto ele fazia suas abluções, eu me escondia embaixo da cama dele, esperando ele orar.
Depois da oração, eu dava um start na minha história com ele já bocejando.
Era um bocejo árabe, diferente do nosso hábito ocidental. Tinha sonoridade, tinha tempo, tinha um jeito próprio de anunciar que o sono estava para aterrissar.

Quando meu pai já estava deitado, eu começava.
E minhas histórias nunca tinham fim.
Eu inventava personagens, acontecimentos, lugares, aventuras. Recheava tudo com ações, mistérios e coisas que talvez nem eu soubesse para onde iriam.
Eu só parava quando o seu Abud começava a roncar.
Ali eu sabia: era hora de recolher a história e guardar até o dia seguinte.

Meu pai nasceu na Síria, em 1921, e veio para o Brasil no início dos anos 1950, chegando por São Vicente.
Eu nasci em 10 de setembro de 1970.
E meu pai nem estava no Brasil quando eu nasci.
Mas, pensando bem, talvez a primeira história da minha vida tenha começado justamente naquele dia.

Outra hora eu conto.
Mas começa mais ou menos assim:
Estava tudo preparado. Parteira, água morna, tesoura, panos... minha mãe em trabalho de parto.
Até que alguém gritou:
— FOGO!
E as contrações da minha mãe pararam.
Resultado?
Eu só saí de dentro dela um mês depois.
Não sei se foi exatamente assim.
Mas foi assim que me contaram.
E, para quem gosta de histórias, às vezes a verdade também gosta de uma boa invenção.

Em 1977, aos 6 anos, fui para a escola.
Há uma imagem daquela época que nunca saiu da minha cabeça.
Meu pai era muçulmano. A escola Santa Teresa era católica, dirigida por padres salesianos. E ele tinha receio de que eu fosse catequizado.
Ele me pedia para não rezar sem saber exatamente o que estava dizendo. Naquela tarde vi um monte de crianças chorando, pais e mães se despedindo dos filhos no primeiro dia de aula. Eu não chorei. Meu pai sim. Muito. Estava perdendo quem embalava seu cochilo vespertino.

Pela manhã, eu frequentava o Grupo Escolar para aprender árabe. Aprendia o Álef, o Bê, o Tê, o Cê com uma professora da Mesquita.
À tarde, aprendia o A, B, C na escola dos padres.
Duas alfabetizações.
Dois alfabetos.
Duas maneiras de nomear o mundo.

E meu pai, com sua sabedoria, me ensinava uma coisa que talvez eu só tenha compreendido muitos anos depois:
não basta repetir palavras.
É preciso compreender o que elas significam.
É preciso sentir.
É preciso ter consciência daquilo que se diz.

Meu pai se foi há mais de trinta anos.
Mas algumas pessoas não vão embora completamente.
Ficam escondidas embaixo da cama.
Ficam numa oração.
Num bocejo.
Numa palavra em árabe.
Num cheiro de tarde.
Numa lembrança que a gente nem sabia que ainda carregava.

Hoje tenho minha mãe.
E minha mãe também é uma contadora de histórias.
Aos 83 anos, ela ainda me surpreende contando suas memórias de infância, vividas em Cáceres, no Mato Grosso.
Talvez eu tenha herdado dela essa necessidade de transformar memória em narrativa.
Ou talvez histórias sejam uma espécie de herança que não passa de mão em mão.
Passa de coração em coração.

Amanhã completo 56 anos.
E hoje, enquanto penso nisso, percebo que há uma coisa curiosa sobre fazer aniversário:
a gente olha para trás procurando o adulto que se tornou, mas acaba encontrando a criança que nunca deixou de ser.
O menino debaixo da cama ainda está aqui.
Ele ainda inventa personagens.
Ainda começa histórias sem saber onde elas vão terminar.
Ainda ri de coisas bobas.
Ainda se emociona.
Ainda chora.
Ainda se encanta.
Ainda acredita que uma boa história pode aproximar pessoas, salvar uma tarde, guardar uma memória ou simplesmente fazer alguém dormir sorrindo.

Aos 56, eu descobri que não quero deixar essa criança para trás.
Quero levá-la comigo.
Porque talvez amadurecer não seja deixar de ser criança.
Talvez seja aprender a cuidar dela.
Dar-lhe espaço para brincar, imaginar, perguntar, duvidar, rir e chorar.
E continuar contando histórias.
As que vivi.
As que inventei.
As que ouvi do meu pai.
As que ainda ouço da minha mãe.
E aquelas que a vida, generosa e misteriosa, ainda vai me contar.

Amanhã, quando eu completar 56 anos, não vou dizer que tenho 56 anos.
Vou dizer que tenho 56 anos de histórias.
E que, lá no fundo, debaixo da cama do seu Abud, ainda existe um menino esperando o pai terminar sua oração para começar mais uma.
Uma história sem fim.
Porque algumas histórias não terminam.
Elas apenas continuam vivendo dentro da gente.

E eu ainda sou esse menino.
Um menino de 56 anos, contador de histórias, que continua brincando com a vida, rindo com ela, chorando com ela, inventando caminhos e, sobretudo, tendo a sorte de ainda se maravilhar com aquilo que vive e compartilha.

Enquanto houver uma história para contar,
a criança em mim continuará acordada.
E talvez seja esse o meu jeito mais bonito de envelhecer:
continuar sendo criança, sem deixar de ser quem a vida me ensinou a ser.

Salim Haqzan, 9 set. 2026.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

OMAR FARES (Lado esquerdo do peito) - Por Edson Moraes

Omar Fares (Lado esquerdo do peito) - Por Edson Moraes

A Palestina não morre. O Palestino não morre.

Jamais serão devorados pela terra em que brotaram e floresceram sob bombas e sob o veneno letal de mentiras midiáticas ocidentalizadas.


Omar Fares

Vá, amigo, ter com a Basma e o Lejeune, com Sabra, Chatila, Gaza, Deir Yassin...

...e com as oliveiras que são como as crianças, enraizadas no chão fundo e santo de uma história em que viver é economizar de dia a respiração da noite!


Vá, Omar Faris, vá guiado pelas luzes de Fadwa Tuqan, de Mahmud Darwich e Samih Al-Qassim aos recantos ternos e refrescantes de poesias derramadas de um céu sem o sangue de velhos, doentes e bebês imolados no altar de terras esbulhadas pelos tiranetes.
 
 Vá, Omar Fares, esperam-te as mãos de Basma, cuidadosas e afáveis, prelúdios do abraço morno e aliviado de um reencontro que estava escrito no pó inapagável da terra de teus pais!

Fico aqui, sorrindo pelo teu sorriso, feliz pela tua felicidade,  esperançoso com tua esperança, sabedor que teus amores o levarão a um lugar que abre horizontes de paz, liberdade, autodeterminação e vida!

Ao menos desta vez, a única, a última, deixe-me agradecer-te: sou grato! Obrigado, amigo, irmão, companheiro, camarada.
Sigamos sonhando! A Palestina não nos deixa morrer. Aliás, não permite que morramos. Teimosa Palestina! Como não amar-te?


**********Omar Fares, um dos mais importantes líderes do povo palestino em Mato Grosso do Sul, despediu-se da vida terrena nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026. Era um dos amigos mais próximos, mora no fundo do meu coração, do meu pensamento.
Cirandeamos por muitos anos proclamando nosso amor pela democracia, pela paz, pela liberdade, mas também pela autodeterminação dos povos. E isto impõe estar preparado ou minimamente pronto para fazer o combate. A teoria dominante  do invasionismo ocidental molesta diversas nações, sendo a Palestina uma das mais feridas por esta cruel e criminosa sucessão de agressões.
O Omar Fares não lutou contra o povo israelense. Lutou contra o olhar genocida do sionismo que impera no governo de Israel, alimentado pelo expansionismo colonizador do "american way of life" à base de bala, bombas e covardia requintada.
A Palestina, contudo, não é o Hammas, não é o terror, não é nada do que a mídia ocidental traça. A Palestina é amor! É terra invadida! É povo seviciado, torturado, deserdado do próprio lar!

"Querido amigo: meu abraço de sempre! Você tem o sangue, a alma e a consciência dos justos, dos generosos e dos bravos combatentes pela Justiça e pela Paz! Chore o que tiver que chorar! A dor é insuportável, mas a causa é justa e tem a certeza da vitória que significa a permanência da Basma ao seu lado, entre nós! E então, por ela, nós vamos continuar, e sem perder a alegria que embala a vida e a luta dos que perpetuam os exemplos de Basma"!

 
O Dilúvio e a Árvore  (Fadwa Tuqan)

Quando a tempestade satânica chegou e se espalhou
No dia do dilúvio negro lançado
Sobre a boa terra verdejante
“Eles” contemplaram.
Os céus ocidentais ressoaram com explicações de regozijo:
“A Árvore caiu!
O grande tronco está esmagado! O dilúvio deixou a Árvore sem vida!”

Caiu realmente a Árvore?
Nunca! Nem com os nossos rios vermelhos correndo para sempre,
Nem enquanto o vinho dos nossos membros despedaçados
Saciar nossas raízes sequiosas
Raízes árabes vivas
Penetrando profundamente na terra.

Quando a Árvore se erguer, os ramos
Vão florir verdes e viçosos ao sol
O riso da Árvore desfolhará
Debaixo do sol
E os pássaros voltarão
Sim, os pássaros voltarão com certeza
Voltarão.

Ao querido Amigo e Camarada Edson Moraes,

Profunda, sensível e eloquente sua talentosa e comovente crônica-poema em homenagem ao incansável Companheiro Omar Fares, que, precisamente no momento em que me a enviava, o cortejo com seu corpo saía da Mesquita onde foi velado, em sua derradeira passeata rumo à eternidade, ao encontro da Mãe-Terra, no acolhedor e hospitaleiro Coração do Pantanal e da América do Sul, do Sol e do Sal... Omar Fares, presente! Hoje e sempre!

Nesta mesma melancólica manhã de terça-feira, a Professora Daryce, Irmã de nosso querido Amigo Jornalista Dary Jr., postou em sua rede social uma homenagem emocionante ao Omar Fares com imagens ao lado de sua saudosa Companheira de Vida, a Senhora Bassma Asrieh, e um vídeo em que Omar faz uma dança antes de receber homenagem da Câmara Municipal proposta pelo Vereador Sadek Ramonieh, a propósito de ato alusivo ao Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, realizado no ano passado, em parceria com a Sociedade Árabe-Palestino-Brasileira em Corumbá e o Comitê 29 de Novembro de Solidariedade ao Povo Palestino Jadallah Safa.

Por favor, permita-me compartilhar esta crônica-poema -- um afago à alma, sobretudo neste momento em que o imenso vazio está pungente -- com todas as Estimadas Amigas e Estimados Amigos, em especial com o querido Jornalista Alle Yunes, em cujo Jornal, Correio de Corumbá, o decano da imprensa do Pantanal, Omar Fares publicou durante décadas suas mensagens semanais, bem como o também querido e saudoso Companheiro Ali Seher.

Corumbá, de todas as culturas, todos os credos e todos os sonhos e lutas [com a devida vênia, querido Professor Valmir Corrêa!], é cosmopolita pela hospitalidade, acolhimento e generosidade de seu Povo (com maiúscula), em cujas veias circula o gigantismo do Bioma Pantanal e do Rio Paraguai

Vida longa e muita saúde!

terça-feira, 1 de setembro de 2026

ATÉ SEMPRE, COMPANHEIRO OMAR FARES!

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

LULA TETRA, GLOBO TRETA

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

25 de agosto: 11 anos do retorno de Bernal à Prefeitura (Por Professora Maria Nely Urbieta Bernal)

25 de agosto: 11 anos do retorno de Bernal à Prefeitura

No dia 25 de agosto, completaram-se 11 anos do retorno de Alcides Bernal à Prefeitura de Campo Grande.

Onze anos de uma história que não pode ser apagada.

Bernal foi afastado do poder porque enfrentou interesses poderosos, contrariou grupos acostumados a fazer conluios e decidiu fechar a torneira daquilo que não servia ao interesse público.

Pagou um preço alto por não se curvar.

Suas atitudes, sua resistência e sua luta contra interesses que considerava lesivos ao Município marcaram sua trajetória. Hoje, diante de sua morte, muitas perguntas permanecem sem resposta e a busca pela verdade e pela justiça não pode ser silenciada.

Bernal não deve ser lembrado apenas pelo cargo que ocupou, mas pela coragem de enfrentar os poderosos.

A história registra os fatos.

A verdade pode até ser retardada, mas não será sepultada.

11 anos depois, permanece a pergunta: a quem interessava calar Alcides Bernal?

Memória, verdade e justiça.

Maria Nely 
2026.08.25

RIACHUELO FUTEBOL CLUBE (Por Manoel Vitório)

RIACHUELO F. C.

Impossível esquecer os bailes no Riachuelo: o MJ-6, o Django, Sebastião Alexandre, Rosinha cantando as músicas que embalaram os jovens enamorados...

Muitos hoje casados, e até avós e vovôs...

Pelo Riachuelo também os fascinantes bailes de Carnavais inesquecíveis de Corumbá e Ladário...

Pois nós saímos de baile em baile...Clube Itaú, Atlético Clube de Ladário, Grêmio, Camala de Ladário com os bailes e Carnavais inesquecíveis, o Clube Noroeste e até o Corumbaense...

Aí de novo estávamos no Alvi-rubro da Frei Mariano...

Inesquecíveis dias... 

Ali vi grupos nacionais e até o Sidney Magal que na juventude eu imitava dentro do navio Paraguassu, da Marinha, nas horas de folga...

Como não lembrar também dos grandes jogos de Futebol de Salão no Vermelho e Branco...

O João Luiz com a chamada VAI COMEÇAR O FESTIVAL... Dos estudantes e até o Festival da Canção Popular organizado pelo Músico e Radialista Hélio Ferreira...

Belos dias, belas tardes, Belas noites no Riachuelo Futebol Clube...

NÃO DEIXEMOS DESTRUÍR MAIS UMA MEMÓRIA VIVA DE CORUMBÁ...

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

CERIMEDO, O FAZENDEIRO DE ROBÔS