OS 100 ANOS DE SEU JORGE KATURCHI
Nascido em 11 de outubro de 1926 em Magdalena, Buenos Aires, na Argentina, o cosmopolita mais corumbaense que os séculos XX e XXI conheceram chegou ao Coração do Pantanal e da América do Sul aos 5 anos de idade para nunca mais deixar este torrão.
"Irmãos Katurchi, às ordens!" Era como atendia do escritório aos fornecedores e clientes pelo 3231-4918, um dos números de telefone da Exportadora Katurchi, depois Casa Katurchi, mas que ele sempre chamava de armazém.
Gentleman. Nasceu para promover a paz entre as pessoas. E entre os povos. Detentor de uma rara sensibilidade e uma lucidez singular. Eu nunca disse a ele, mas muito de seu proceder lembrava meu saudoso Pai.
O Pacto pela Cidadania -- depois acrescido do nome do Padre Pasquale Forin como homenagem póstuma -- foi construído cotidianamente com a dedicada participação do argentino mais corumbaense ("e boliviano") que conhecemos. Não por acaso, o Movimento Viva Corumbá, acrescido de seu nome como homenagem póstuma, o tem como Patrono e inspirador, sempre presente.
Nunca foi funcionário público, mas se sentia na obrigação de fazer relações públicas de alto nível em gratidão ao povo que acolheu a Família Katurchi, uma das 13 famílias surianes chegadas junto com o século XX ao cosmopolita centro urbano do Oeste brasileiro e que sem alardes transformaram Corumbá. O registro relevante é do agora saudoso Professor Lejeune Mirhan Xavier de Carvalho, cuja pesquisa e documentário em audiovisual estão prontos.
O Pai, Seu José Katurchi, chegara poucos anos antes da Mãe, Dona Amélia Abraham Katurchi, e o casal de Filhos (Dona Rosa Maria e Seu Jorge, mais tarde nasceu em Corumbá o caçula, advogado e Professor Luiz Carlos), para se estabelecer em bases sólidas que edificariam um lar de imigrantes saídos de sua terra-natal em razão do jugo colonial do império turco-otomano, que causara um verdadeiro genocídio na região de Mardini, tomada da Síria (esse trágico massacre entrou para a história como o Genocídio Esquecido).
Contava com emoção que quando chegara, aos 5 anos, de navio a Corumbá se sentira em casa, como que já tivesse vivido aqui, a despeito do calor e dos mosquitos que não davam sossego a quem, oriundo do Hemisfério Norte e nascido bem perto da fria Patagônia, fosse obrigado a uma adaptação total.
O comércio estava em seu DNA. Aos 8 anos de idade caminhava com altivez e desenvoltura pelas ruas de Corumbá para vender produtos de marca inglesa de linhas e agulhas. Fazia muito sucesso, mais que os produtos.
Muitos clientes eram cativados pela personalidade do comerciante mirim: o produto era, para eles, o que menos contava. O que os fascinava era o ser humano, ainda criança, que irradiava algo indescritível, como revelara um de seus professores mais longevos, o Padre Ernesto Saksida, parceiro de várias aventuras cidadãs ao longo da Vida.
Antes de atingir a maioridade e retornar à Argentina para fazer o serviço militar, trabalhou como mensageiro no escritório da empresa Miguéis, onde iniciou efetivamente as atividades comerciais tendo como orientador um senhor de sobrenome Faro, gerente do estabelecimento.
Sua breve estada na Argentina, apenas para cumprir uma obrigação cívica, foi também um despertar para a política. Ficou encantado com a performance de Eva Perón, a primeira companheira de Juan Domingo Perón, o caudilho mais conhecido da América Latina.
Lembrava com encanto e afeto o discurso da eterna Evita: "Compañeros de la Confederación Nacional de los Trabajadores de la Argentina..."
E do futebol. Não apenas como torcedor do Fluminense, o Tricolor do Rio -- mas, por ser Avô desapegado, aprendeu a conviver com seu único Neto em Corumbá, o bacharel José Katurchi, para ele sempre Zequinha, flamenguista desde criancinha, e que quando seu time jogava contra o do Neto não fazia questão de vê-lo vencer, só para ver a alegria de Zequinha --, e do alvinegro Corumbaense, pelo qual quase foi às vias de fato, reconhecia com tristeza.
Ele contava com vaidade que foi "center-alf" quando jogava futebol. Era o "Perón". Ao lado de Walmir, Eldo e tantos outros que, com muita tristeza, viu partir antes dele.
Retornando a Corumbá, deu continuidade aos estudos. Depois de frequentar o Colégio Salesiano de Santa Teresa, tornou-se aluno da Escola Técnica de Comércio de Corumbá, sempre dedicado e cumpridor dos deveres.
Mas nunca esqueceu de suas raízes salesianas, tanto que acompanhou Padre Ernesto nas inúmeras iniciativas ao longo de sua Vida: desde a fundação da União dos Ex-alunos de Dom Bosco (UEDB) até a criação do Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER), na companhia de Seu Walmir Provenzano, Doutor Salomão Baruki, Seu Eldo Delvízio e Seu João Gonçalves Miguéis.
Encanto mesmo aconteceu quando conheceu uma jovem estudante do Ginásio e Escola Normal Imaculada Conceição, o saudoso GENIC, a saudosa Senhora Anna Thereza de Copacabana Rondon Maldonado Katurchi, que veio desposar poucos anos depois e com quem conviveu apaixonadamente até o último suspiro.
Não escondia que a saudosa e querida Dona Anna Tereza era não só Companheira de Vida e de luta pela Vida: era sua referência. Por esse Amor (com letra maiúscula), esqueceu-se do peronismo na Argentina e se tornou correligionário da UDN, pois em Cáceres a Família Maldonado era udenista. Além disso, honrou todas as promessas feitas à Amada, sobretudo depois que ela se eternizou, seis anos antes dele.
Também era um Pai e Avô zeloso e apaixonado por todos os três Filhos e os três Netos: José Eduardo (Pai do Zequinha), o saudoso Mário Márcio e a Doutora Tereza Cristina (Esposa do Doutor Walter Exner e Mãe da Camila e da Marina).
A Casa Katurchi, para ele, era mais que loja, armazém ou estabelecimento comercial -- como quisessem chamar --, era a sala de visitas de Corumbá. O Cristo Rei do Pantanal tem a sua contribuição, lamentavelmente ignorada na placa de registro: foi ele quem conversou com o então governador Zeca do PT (o prefeito Eder estava rompido com Zeca e coube a ele a articulação, e como o Pacto pela Cidadania não tem CNPJ recorreu ao Amigo Carlos Alberto Machado para que o clube de serviço que ele presidia intermediasse a gestão financeira do projeto).
Assim como ficava lisonjeado por ser o mais antigo representante de diversas marcas -- de fermentos alimentícios, porcelanas, cristais e pratarias --, fazia questão de dizer que aprendera com seus saudosos Pais que, mais que papéis, a palavra empenhada valia como documento, e tinha que ser honrada.
A Casa Katurchi foi palco de importantes conquistas para a cidade, pois em seu escritório Seu Jorge Katurchi recebeu políticos de diferentes tendências ideológicas -- desde Pedro Pedrossian, José Fragelli, Wilson Barbosa Martins, Ramez Tebet, Lúdio Coelho, Carmelino Rezende até Zeca do PT, para citar alguns -- a fim de tratar das reais demandas da população de Corumbá.
Posso dizer que fui testemunha em 1994, quando tratou com o Doutor Wilson Martins a relevância de um conjunto de reivindicações ignoradas pelas elites políticas locais: criação de hospital público, linhas de financiamento para os agricultores dos projetos de assentamento, implantação de Área de Livre-Comércio em Corumbá e Ladário, restauração do prédio da Casa de Cultura Luiz de Albuquerque, criação de terminal pesqueiro para Corumbá, volta do trem de passageiros da SR-10 da RFFSA e criação de Escola de Aprendiz de Marinheiro na região do Rabicho, em Ladário.
A magnitude física correspondia à de seu caráter forte e sincero. Durante 97 anos ininterruptos as pessoas de diversas gerações que tiveram a sorte e o privilégio de conviver com ele têm episódios emblemáticos eloquentes dessa característica ímpar. Antes de casar-se, em tenra juventude, participou das manifestações pela ampliação de horário de funcionamento do 'motor de luz' da empresa de geração de energia Light & Power (anterior à Cemat, Centrais Elétricas de Mato Grosso S/A), e por causa de sua determinação precisou ser atendido pelo Amigo e ex-governador Cássio Leite de Barros como advogado.
Embora ainda criança o tivesse conhecido na companhia de meu saudoso Pai, Mahoma Hossen Schabib, que era Amigo de Dona Amélia e Seu José Katurchi, nossa Amizade se estreitou desde 1993, por meio do Movimento Viva Corumbá e do Pacto pela Cidadania. Sem hesitar, posso testemunhar que Seu Jorge José Katurchi foi protagonista, ao lado de Dom José Alves da Costa, Padre Pasquale Forin, Padre Ernesto Saksida, Padre Osvaldo Scotti, Padre Emílio Zuza Mena, Irmã Antônia Brioschi, Irmá Beatriz Barros, Irmã Zenaide Britto, Dona Cerise de Campos Barros, Pastor Marcelo Moura, Pastor Fernando Sabra Caminada, Pastor Antônio Ribeiro de Souza, Pastor Cosmo Gomes de Souza, de Seu Zózimo de Paula, Dona Maria de Paula, Fátima Garcia da Silva, Mara Leslie do Amaral, Dona Fabiana Figueiredo Costa, Armando Carlos Arruda de Lacerda, Valmir Batista Corrêa, Celso Cordeiro, Ivaneide Terezinha Minozzo, Cristiane Sant'Anna de Oliveira, Seu João Gonçalves Miguéis, Hélio Sacher de Souza, Heloísa Helena da Costa Urt, Cristiane de Paula, Miro Temeljkovich, Marlene Terezinha Mourão, Arturo Castedo Ardaya, Edenir de Paulo, José Batista de Pontes, Alexandre Gonçalves dos Santos, Rose de Paula, Luz Marina Cavalcanti da Silva, José Eduardo Katurchi, Anísio Guilherme da Fonseca, Antônio Victor Lima Baptista, Mahmud Abdallah, Seu Artur Ferreira, Pedro Paulo de Barros Lima, José Vergílio de Moraes, Rafael Candia Fernandes, Socorro de Maria Pinho, Angélica Anache, Denise Mansano, Solange Alves de Oliveira, Humberto Pereira, Najeh Abdel Hamid Mustafa, Neusa Anache, Marilza Coelho, Margarida Garrido Duarte e Camila Rosalina Souza de Pontes.
Hoje Seu Jorge José Katurchi celebra seu centenário natalício, na iluminada companhia de parte das pessoas que mais amou. E nós, na conturbada quadra da história tomada por hordas ensandecidas a conspirar contra os valores civilizacionais, elevamos nosso pensamento para reverenciar os protagonistas que continuam presentes em nossa jornada interminável a nos inspirar e nos confortar, pois a humanidade é maior que seus algozes.
Obrigado, Seu Jorge Katurchi, por sua leal Amizade e Companheirismo não só no Movimento Viva Corumbá que hoje leva seu nome e Pacto pela Cidadania Padre Pasquale Forin, mas sobretudo ao longo de trinta anos ininterruptos de muitos ensinamentos e reflexões em voz alta. Até sempre, querido Amigo!
Ahmad Schabib Hany
