Até sempre, Professor Lejeune!
Como viveu, a resistir a toda gama de adversidades, o Professor Lejeune Mirhan se eternizou neste emblemático 6 de agosto não sem ter feito o bom combate pela Vida, como incansável lutador pelas causas maiores da humanidade.
Professor, sociólogo, analista de geopolítica, estatístico, arabista e defensor das causas maiores da humanidade, o Camarada Lejeune Mirhan se eternizou no final da tarde de 6 de agosto, quando os pacifistas e anti-imperialistas do mundo todo celebram a memória das vítimas pelos 81 anos do genocídio de Hiroshima [o segundo da série de genocídios impunes viria dois dias depois em Nagasaki, no fatídico 8 de agosto de 1945, quando os países do Eixo já haviam sofrido derrota acachapante pelo Exército Vermelho, da União Soviética, e demais aliados em seu próprio território, mas o governo dos EUA procurava demonstrar sua força hegemônica militar por meio do uso de armas atômicas para dar início à Guerra Fria].
Vítima de infecção generalizada havia mais de três semanas, o gigante coração do Lejeune gigante de esperança, didatismo, convicções generosas e combates pela igualdade e solidariedade chegou à exaustão e fez o que a ciência médica chama de parada cardíaca. Resistiu o quanto pôde, como em tudo na sua existência de combatente incansável pela justiça social e emancipação dos explorados e oprimidos. Três dos seus derradeiros dias foram de melhora significativa de seus sinais vitais, o que revela a determinação pela vida de nosso digno referente.
Lejeune Mirhan Xavier de Carvalho. Gigante não só de estatura, mas de coração e mente. Generoso e cordial. Colocou todo o seu talento, seu conhecimento e, sobretudo, sua existência em favor das causas maiores da humanidade. Trocara o curso de Engenharia Civil da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) pelo de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp), nos anos de chumbo, quando cursar Sociologia era pedir para ser 'fichado' antes de assistir às primeiras aulas do curso mais visado pelos agentes da repressão.
Só a saudosa Dona Georgeta Mirhan, coração gigante também, para compreender e apoiar com firmeza a guinada do Filho, de abandonar a promissora Engenharia Civil de uma emblemática Unicamp no meio do curso, cujo ingresso sempre foi disputado, para frequentar um totalmente estigmatizado e, durante a ditadura, arriscado, como era aquele bacharelado.
Consciente dos custos com um curso de universidade privada (embora a Católica se definisse comunitária, pela legislação pós-Acordo MEC-Usaid, era considerada particular, e, portanto, suas mensalidades oneravam a economia de uma família de trabalhadores), Lejeune procurou algo vanguardista como ele -- foi ganhar o sustento como digitador no Centro de Processamento de Dados da CETIL S/A de Campinas --, o que lhe permitia fazer uso do verso dos formulários descartados para suas eficazes cartas politizadoras, enviadas somente àqueles camaradas que fossem dignos de confiança: "Depois de ler, por favor, destrua."
Aluno destacado, Lejeune foi um leitor compulsivo desde cedo. Devorava livros com uma facilidade ímpar. O mesmo para produzir: sem qualquer trava, dava-se ao luxo de escrever várias obras simultaneamente, inclusive no tempo em que se usava máquina de escrever não elétrica, papel e fita datilográfica (e toda vez que se errava era mais prático jogar fora o texto a ser alterado e voltar a datilografar toda a folha de novo).
Para Lejeune, o trabalho intelectual não era estressante. Pelo contrário, ele o considerava uma extensão de sua própria existência. Durante as décadas em que foi docente na Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e, salvo engano, professor substituto por breve período na Unicamp, conquistava estudantes e até colegas para projetos visionários não só da Sociologia como da Ciência Política.
Era conhecido por dormir pouco, desde os tempos do movimento estudantil, da 'tendência' (como se soía dizer na época) de seu PCdoB, quando era conhecido por 'Matogrosso', o que lhe causava muito orgulho (mudara-se para Campinas em 1973, quando ainda Mato Grosso do Sul nem sonhava existir). E foi com esse nome que concorreu à direção da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (a mais concorrida das UEEs de todo o Brasil). Integrou, em diferentes épocas, a direção da União Nacional dos Estudantes (UNE).
Conseguia, também, conciliar de modo invejável o trabalho estéril na CETIL, os estudos, o trabalho intelectual e a militância no movimento estudantil (depois a atuação orgânica no único partido de toda a Vida profícua e intensa, o PCdoB, de cuja direção participou por décadas, e do CEBRAPAZ, órgão de solidariedade aos povos e promoção da paz, do Partido Comunista do Brasil). Nunca lhe perguntei se em algum momento foi candidato nas eleições pós-ditadura, mas, pelo seu perfil, creio que não.
Conhecemo-nos em 1977, por meio do Amigo Juvenal Ávila (hoje proeminência do PSB), no 'Geta's Lanches', de Dona Georgeta, grande Matriarca. A lanchonete se situava na recém-inaugurada 'Galeria Luiz de Albuquerque' (pelo bicentenário de Corumbá, depois 'Galeria Pantanal'), e Juvenal, radialista e diretor musical da Difusora Mato-grossense, era vizinho (por conta de um estúdio de gravação) e assíduo frequentador da lanchonete.
Com discrição, falou de seus propósitos como universitário e ao saber meu nome árabe já foi fazendo uma sinopse da política internacional e, obviamente, sua posição pró-causa palestina depois da traição de Anwar Sadat, sucessor de Gamal Abdel Nasser no Egito, em Camp David. A sua memória, também, era pródiga: não anotava nada (o que era providencial na época, por causa da repressão), de modo que ele era 'Matogrosso' e assim seria chamado por mim quando voltássemos a nos encontrar.
Não demorou muito para que passássemos a nos corresponder. E quando disse a ele que decidira trocar o curso de Letras da UEMT por História da FUCMT, por causa das redações maiores em Campo Grande, me propôs arriscar fazer um vestibular para tentar Comunicação Social em São Paulo, inclusive Campinas. Generosidade e empatia faziam parte de seu caráter de revolucionário convicto.
Isso lhe custou caro, pois, tendo sido orientado pelo célebre Professor Florestan Fernandes no mestrado, sua pesquisa sobre o movimento estudantil pós-Ibiúna foi considerada panfletária e os conservadores da academia fizeram de tudo para invalidar sua qualificação. [Experiência, aliás, lamentavelmente parecida à que ocorreu em Corumbá, onde por duas ocasiões a banca do Mestrado em Estudos Fronteiriços não aprovou seu projeto de pesquisa inédito e original sobre a vinda das treze famílias da minoria étnica suriane ao Brasil pelo porto de Corumbá, que ele, inabalável, transformou em livro e documentário, ainda inéditos.]
A generosidade era inerente à sua personalidade singular. Pode parecer exagero, mas em quase 50 anos de Amizade (dessas com letra maiúscula) nunca o flagrei desmotivado, desalentado ou por desistir. Em 2024, quando o contatamos para que participasse do Movimento UFPANTANAL, imediatamente se colocou total e entusiasticamente a favor dessa demanda, lembrando-nos que Ciências Humanas e Sociais têm que ser o forte da futura instituição. Só nos advertiu que o fator tempo não seria impedimento para sua participação, mas que compreendêssemos que não participaria de reuniões. Seria esse o jeito possível para ele. Até o mês de junho deste ano recebeu com atenção nossos relatos.
E a despeito da falta de tempo, nunca se negou a vir à sua terra-natal, mesmo depois do 'olé' da banca do mestrado local, oportunidades históricas que deram a muitos conterrâneos informações riquíssimas desse Cidadão do Mundo à frente de seu tempo. Um dos últimos baluartes do cosmopolitismo corumbaense que ainda teima em resistir em nossa cidade, cada vez mais ameaçada pelas forças provincianas que se apossaram dos destinos da população pantaneira. Em duas das derradeiras estadas de Lejeune em Corumbá estão a memorável palestra-debate que fez para os estudantes de História há alguns anos e as filmagens e as entrevistas gravadas em vídeo para o documentário sobre a emigração das 13 famílias surianes que aportaram Corumbá no início do século XX.
Além de editar livros pela Editora Apparte, por ele fundada, deixou pelo menos três livros em fase de revisão, um dos quais sobre a saga dos imigrantes surianes em Corumbá e a dispersão por todo o Brasil. Além disso, tem um genial projeto de criar memorial do imigrante suriane em Corumbá -- que, como homenagem póstuma a ele, deveria ganhar o seu emblemático nome -- e outras relevantes iniciativas que ficarão para a Senhora Rosangela Falzoni, sua Companheira de Vida, tentar realizar, se assim o entender, é claro, depois desta fase difícil em que se encontra com a inimaginável eternização do Lejeune.
Em julho fez cirurgia de hérnia inguinal, da qual estava em resguardo. Contudo, um quadro infeccioso grave o levou a uma internação hospitalar, da qual não saiu, e se eternizou. Perda irreparável para todas as pessoas comprometidas com uma nova sociedade, mais justa e livre da exploração e opressão, por um mundo em que a humanidade e os demais seres vivos possam desfrutar da existência sem ter aviltada a sua dignidade.
À Senhora Rosangela Falzoni, à Filha Alice Carvalho e demais Familiares, nossa profunda e sincera solidariedade neste momento de dor e de ausência do grande Camarada Lejeune, bem como a todas e todos os Camaradas, Amigas e Amigos e Admiradoras e Admiradores pelo Brasil e pela Terra. Nossa esperança de que o legado do Professor Lejeune se multiplique entre as novas gerações a fim de tornar este planeta melhor e livre da opressão, como também a nova sociedade por ser conquistada permita dignidade, justiça social e equidade entre seus cidadãos libertos da exploração.
Obrigado, Professor Lejeune, por seu interminável ensinamento! Até sempre, querido Camarada Lejeune! Sempre na memória e no coração!
Ahmad Schabib Hany