Tratores demolindo a Corumbá cosmopolita e solidária
Armando Arruda Lacerda
Não sei se contar velhas histórias tem alguma importância, mas a última reunião familiar com minha mãe Eudóxia, com todos os amigos, parentes, filhos e netos, biológicos e de criação, foi seu aniversário em 1986, realizado na Liga Árabe, foi como uma despedida de Corumbá, pois em 1982 ela havia vendido a casa na Rua Delamare para Manara, e comprado a Fazenda Cotia em Poconé e lá ocorreu por gentil cessão de Dr. Benedito Orro, ela era muito ligada à Dra. Benedita Orro, esposa do Dr. Luiz Orro, por terem congregado por muitos anos na Igreja Matriz...
Só para constar, viveu muitos anos em Corumbá um eminente arquiteto polímata que deixou marcados na vida de Corumbá inúmeros projetos de casas e reformas. Chamava-se Pedro Luiz Furtado.
Ele retornou para os 100 anos de Dona Maninha Campos, convidado especial da família pela amizade mantida ao longo dos anos e da distância, ocasião que nos reencontramos.
Informou-me desses dois projetos dele para obras de uso coletivo em Corumbá, o prédio da Liga Árabe, na rua América, e o Centro de Distribuição da Sociedade Eunice Weaver, na rua Portocarrero.
Ele enviou ambos os projetos para concursos internacionais de Arquitetura e ambos foram muito bem classificados, ele baseou o prédio da Liga Árabe numa tenda das tribos nômades do deserto.
Ele conviveu muitos anos no Oriente Médio, por acompanharem seu pai, que trabalhava no Itamaraty, ele inclusive era conhecedor da musicalidade desse idioma.
O Prédio da Sociedade Eunice Weaver fazia o trabalho de Assistência Social aos hansenianos e suas famílias, e era um dispensário para essa assistência, recebeu inclusive o nome de minha Avó Paterna Clélia Esteves de Lacerda, filha do ex-intendente e vereador Luiz Augusto Esteves.
São obras premiadas mundialmente e que servem inspiração em inúmeras instituições dedicadas ao ensino da Arquitetura como arte inspirada na funcionalidade comprovada existente nas aldeias mas de aplicação universal.
Fica o resgate da humildade do brilhante arquiteto que das tendas do deserto e das pirâmides soube trazer o sistema Duodecimal do Oriente para enriquecer o Sistema Decimal Ocidental.
Os ocidentais contam sobre dez dedos, achando somente 10, os orientais nesses mesmos dez dedos desenvolveram um ábaco e conseguem contar com precisão, usando os polegares para percorrerem as 12 falanges dos dedos de cada mão, 144.
Que esse desejo de demolir o que consideram velho não os leve a destruir, por absoluta ignorância, a Corumbá solidariamente global para todos os humanos que necessitavam buscar um local onde poderiam viver em paz e harmonia.


