Gratidão ao povo de Corumbá em seu aniversário de 248 anos
Nesta véspera do aniversário de 248 anos da fundação de Corumbá, como descendentes de imigrantes árabes vindos do oeste da Ásia e norte da África, queremos manifestar nossa eterna gratidão e esperança incondicional ao acolhedor e hospitaleiro povo corumbaense, pantaneiro, sul-mato-grossense e brasileiro pela generosidade, abrigo e magnanimidade com que recebeu nossos pais, avôs, bisavôs e demais ancestrais. A Liga Árabe-Brasileira de Corumbá é marco de gratidão e compromisso árabe com o Brasil e seu povo generoso, garantia de contribuirmos para a manutenção de seu cosmopolitismo secular.
Na véspera do início da primavera deste ano atípico em que a humanidade nos mais diversos quadrantes do planeta se deparou com situações inusitadas -- até nossa querida Corumbá, Paraíso na Terra, viveu momentos insólitos, jamais imaginados, como a tentativa de posse e demolição da Liga Árabe-Brasileira de Corumbá (LABC), patrimônio histórico, cultural e afetivo, símbolo da gratidão árabe e do compromisso de seus descendentes com o desenvolvimento do Brasil junto a seu laborioso Povo --, queremos renovar nossa mais profunda e sincera mensagem de incondicional gratidão e reconhecimento ao povo corumbaense, isto é, pantaneiro (inclusive o povo ladarense, em cuja data, 2 de setembro, nos despedíamos do querido amigo Omar Fares), sul-mato-grossense e brasileiro pela acolhida generosa com que recebeu nossos pais, avôs e bisavôs, vindos dos diferentes Estados árabes, a oeste da Ásia e norte da África.
Saídos, na maioria das vezes, contra a sua vontade e com apenas a roupa do corpo para tentar sobreviver livres da tirania do colonialismo turco-otomano, francês, inglês, italiano ou sionista desde os fins do século XIX, todo o século XX e o século XXI, nossos ancestrais atravessaram o Mediterrâneo, Mar Vermelho, Oceano Índico, Pacífico ou Atlântico até aportar na cosmopolita Corumbá de todas as culturas, todas as crenças e de todos os sonhos, onde foram recebidos com generosidade, acolhimento e magnanimidade, bem diferente do tratamento recebido em suas próprias terras, dominadas por colonizadores tiranos.
A título de ilustração, quem vê hoje em tempo real o genocídio em Gaza e massacres na Cisjordânia (Palestina), Líbano, Síria, Líbia, Iraque, Iêmen, Sudão e Irã (de origem persa, aliado incondicional da causa palestina), precisa saber, por meio da história, que isso vem ocorrendo há mais de um século. Entre 1914 e 1924, o império turco-otomano protagonizou massacre sem precedentes contra a população suriane (assíria, caldéia) na Anatólia, sobretudo em Mardini, chamado de Massacre Esquecido, centenas de milhares de mortos. Em 1925, o império francês usou bombardeio aéreo contra a revolta popular iniciada por jovens universitários de Damasco, conhecida por Grande Revolta Síria (1925-1927) que deixou milhares de cicatrizes em todo o Levante (como até então se chamavam os territórios dos atuais Síria, Líbano e parte do Iraque, Irã e Turquia). Em 1937, líderes palestinos empreenderam o que se chamou de Grande Intifada, que levou o rei da Grã-Bretanha a anunciar a anulação da Declaração Balfour (em que o império inglês se comprometia à entrega da Palestina para os sionistas em 1917, mesmo sendo o império turco colonizador do território), mas após a Segunda Guerra Mundial a Inglaterra volta atrás e massacra a população palestina por, segundo o governo colonial, "não ter cumprido o plano de desarmamento para o cessar-fogo", o que facilitou a invasão sionista pós-1947. O Massacre de Deir Yassin, um dos primeiros massacres praticados pelos grupos terroristas sionistas Lehi e Irgun em 1947, causador da fuga em massa de centenas de milhares de civis indefesos (idosos, mulheres e crianças) de uma aldeia de alguns milhares de habitantes. O Massacre de Sabra e Chatila, de 16, 17 e 18 de setembro de 1982, quando o Estado sionista de 'Israel' tinha invadido desde junho o Líbano e deixa que terroristas do grupo de paramilitares libaneses de Elie Hobeika, ligados à Falange e aliados de Menahem Beguin e Ariel Sharon, promovessem a carnificina nos acampamentos de refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute, que causou a morte de milhares de inocentes, sob as câmeras da imprensa internacional.
A despeito disso, todo imigrante árabe -- palestino, sírio, libanês ou jordaniano, por dizer daqueles que têm seus descendentes em Corumbá -- sempre nutre um nostálgico e patriótico sentimento pela terra natal (pois há familiares que permanecem nos territórios, mesmo sob a ocupação sionista, além dos vínculos culturais e cívicos). Seu compromisso está ligado à generosa e exuberante terra que o acolheu, isto é, Corumbá, Ladário, Pantanal, Mato Grosso do Sul, Brasil. Muitos, aliás, conseguiram reunir condições de contribuir com seus conterrâneos, como forma de mitigar a contínua tragédia pelos colonizadores e o sionismo.
É claro que nem todos os que emigraram aportaram sãos e salvos no Coração do Pantanal e da América do Sul. Não foram poucos os que ficaram no meio do caminho, por doença, ou por terem sofrido acidente. Outros não conseguiram se acostumar a uma cultura tão diferente da sua e, na primeira oportunidade, retornaram para algum território da Arábia, ainda que ficassem submetidos à opressão colonial ou a seus aliados, os tiranos de plantão.
O imigrante Nicola Scaff, que tinha comércio próspero no então distrito de Ladário, ao viajar para sua terra natal sofreu um naufrágio, não tendo chegado ao destino. Emblemático caso que virou lenda na região, por não ter deixado um herdeiro sequer, pois ele era solteiro e ia ao encontro da noiva com quem não chegou a desposar (e tudo indica que os familiares desconheciam seu patrimônio e a localização exata, que nunca chegaram a aportar em Corumbá).
Há episódio antagônico, em que o saudoso senhor Soubhi Issa, popular seu Rafael (proprietário da Casa Estrela, na esquina das ruas XV de Novembro e Delamare), ao aportar, em 1959, em Corumbá, no primeiro dia de trabalho como mascate, deparou-se com insólita 'pegadinha' feita por outro imigrante bastante brincalhão, e a sorte foi ter ocorrido na casa da família do vereador Edu Rocha (assassinado seis meses depois), cuja esposa, a professora Eunice Ajala Rocha, foi abordada pelo mascate que, para se comunicar recorria a uma 'cola' em árabe pregada no interior da tampa da mala de fibra em que estavam suas mercadorias. Tendo observado a conduta sincera do mascate, chamou o esposo, que tomava café da manhã, e o mesmo ocorreu com ele. Edu não titubeou, convidou o imigrante a tomar café com ele e depois o levou em seu carro até a loja do saudoso senhor Mohamad Omar (pai do médico Nabil Omar), por meio de quem o caso foi dirimido. Por essa razão seu Rafael, grato pela atitude do vereador, foi um dos que levaram o féretro de Edu Rocha até o jazigo da família, tendo a professora Eunice se tornado por décadas amiga de sua família.
Emblemático imigrante, o saudoso e querido amigo Senhor Jorge José Katurchi, coordenador do Pacto pela Cidadania Padre Pasquale Forin e do Movimento Viva Corumbá Jorge José Katurchi (homenagens póstumas), sempre dizia que a razão pela qual lutava (até a última semana de sua Vida) por Corumbá e, sobretudo, seu povo, foi o amor e a gratidão herdados de seus pais, para quem não havia povo melhor no mundo que o do Coração do Pantanal e da América do Sul -- e ele provou isso com todas as iniciativas tomadas ao longo de sua vida longeva, sem ter exercido qualquer cargo público, eletivo ou por nomeação.
Quem teve a sorte e felicidade de assistir, em 2018, à palestra do querido e agora saudoso amigo professor Lejeune Mirhan, na sede do Sindicato dos Taxistas de Corumbá, se lembra da síntese do projeto de documentário que deixou quase concluído. Baseado em depoimentos de descendentes das treze famílias surianes vindas no início do século XX a Corumbá, protagonistas de arrojadas iniciativas transformadoras, entre as décadas de 1950 e 1980, no município de Corumbá -- industrialização, mudança de paradigma da cidade, urbanização e verticalização urbana (construção de três arranha-céus pioneiros de Mato Grosso uno) --, temos que ter clareza de que a imigração árabe tem legado, cuja jóia da coroa é a sede da LABC, inquestionável patrimônio histórico, cultural e afetivo.
Para não me estender, ainda que haja muito mais aspectos históricos a serem enumerados, a LABC, concretização do afeto, reconhecimento e gratidão dos imigrantes árabes em 1948, e que, 29 anos depois (1977), ficou materializada com a inauguração da emblemática sede social, cujo projeto original lembra uma tenda no deserto (segundo artigo do Amigo Armando Carlos Arruda de Lacerda, companheiro do Pacto Pela Cidadania e do Movimento UFPantanal, publicado pelo Correio de Corumbá em fins de maio de 2026). O autor, trazido de São Paulo por ter vencido um certame para a construção da sede da Sociedade Eunice Weaver local, foi contratado pelo médico e professor Salomão Baruki (além de presidente da LABC, docente do CPC/UEMT e secretário de Estado de Educação e Cultura do governador Cássio Leite de Barros, derradeira gestão governamental de Mato Grosso uno) para a LABC.
A Liga Árabe-Brasileira de Corumbá pertence à coletividade árabe-brasileira por direito, e protegê-la, revitalizá-la e dinamizá-la são um dever incondicional para as novas gerações de descendentes de palestinos, sírios, libaneses e jordanianos que têm o privilégio, a honra e a sorte de habitar no Coração do Pantanal e da América do Sul -- nossa Corumbá cosmopolita e seu acolhedor e generoso povo, a quem saudamos pelos 248 anos de pujança e hospitalidade com nossa sincera gratidão e profundo reconhecimento.
Viva Corumbá, Ladário, Pantanal, Mato Grosso do Sul, Brasil, terra de esperança, trabalho e progresso! Muitas felicidades ao seu laborioso e generoso povo!
Ahmad Schabib Hany
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