'Linguiça', dignidade e caráter com nome e sobrenome
Corumbá, celeiro de talentos e personalidades únicas, sempre nos cativa, nos surpreende positivamente. Ao longo de 63 anos de convívio fecundo neste Paraíso na Terra, tive a felicidade de conhecer, ainda adolescente, Linguiça e sua então futura Companheira de Vida, Mãe de seus cinco Filhos.
Ecildo Teixeira Santana era o seu nome de batismo. Mas bastava nomear Linguiça, e literalmente todos em Corumbá sabiam de quem se tratava.
Eternizou-se no Dia de Finados, em Campo Grande, depois de resistir a uma tenaz luta de mais de seis meses entre um transplante bem sucedido e uma infecção hospitalar injustificável que lhe abreviou o convívio entre nós.
Borracheiro de mão cheia, integridade e caráter, dedicou-se ao ofício com muita dignidade. Mais de cinco décadas residindo e trabalhando no mesmo lugar, próximo à antiga Serraria e Carpintaria Rio Branco. Para os mais novos, a borracharia diagonal ao atual Restaurante e Churrascaria 'Espeto de Ouro', do também saudoso Senhor Raul Pozza.
Para muitos, talvez ele fosse um 'chato'. Não para os que o conheciam de fato: homem de princípios, responsabilidade e compromisso. Quem dera que 1% dos políticos corumbaenses assim o fosse...
Além da responsabilidade a toda prova com que encarava seu sagrado ofício, Linguiça foi Esposo leal, Pai exemplar e Cidadão (letra maiúscula) probo, íntegro. Deu formação a todos os seus cinco filhos. Só conheci a Filha Advogada e o Gabriel, caçula, que é o herdeiro de seu digno ofício.
Ele falava com orgulho de seus Filhos. Em uma viagem de ônibus entre Campo Grande e Corumbá, em que ele e sua eterna Namorada retornavam de uma viagem ao Rio de Janeiro depois de terem passado as férias com o Filho militar e sua Família, em 2023, conversamos longamente, pois estávamos em poltronas próximas e era viagem diurna.
Seus olhos brilhavam ao falar de sua Família, de suas conquistas, isto é, os Filhos e seus descendentes. A Filha, então futura Advogada, era motivo de muita felicidade, realização: na época ela ainda era estudante de Direito, mas a formatura já estava marcada para o final daquele ano. Linguiça não escondia a emoção pela conquista.
Tive a honra de conhecê-los no tempo do saudoso Ginásio Industrial Dr. João Leite de Barros, cuja sede histórica é exatamente onde foi construída a Escola Estadual Gabriel Vandoni de Barros. Do velho e saudoso prédio que abrigou nossos sonhos e renhidos esforços, no início da década de 1970 (fizemos o concorrido 'Exame de Admissão' em dezembro de 1969), só restou a septuagenária e imponente caixa d'água. A mesma que resistira a uma colisão de teco-teco em agosto de 1969, cujos ocupantes foram a óbito a poucas centenas de metros do modesto prédio.
Foram poucas vezes que -- ora acompanhando algum Amigo ou Amiga para consertar o pneu de seu carro, ora caminhando de volta do centro -- conversei sem pressa com ele e sua Esposa, quando pude lembrá-los de terem sido meus contemporâneos no antigo Ginásio.
Seu José Batista de Pontes, velho Amigo que não mais está entre nós e que, quando o conheci (ao lado dos queridos Amigos Juvenal Ávila de Oliveira, João de Souza Alvarez, Maria da Graça Leão e Sidney Rezende, para comemorarmos a final do Festival da Canção de Corumbá de 1977), era proprietário da Churrascaria e Peixaria 'Sopoti' (antes de a Peixaria Ceará se instalar naquela esquina que hoje abriga o imponente prédio da loja 'Ele & Ela'), foi cliente do Linguiça por décadas, o que me permitiu os muitos encontros, agora na saudade.
Mediante a Mestra Cristina Carvalho, querida Amiga que conheci por meio do leal e dileto Amigo Anísio Guilherme da Fonseca (incansável Anísio Guató, descendente de pantaneiros há mais de seis milênios), soube da eternização do agora saudoso Linguiça, pérola que muito eloquentemente representa a dignidade do povo corumbaense. Como disse, diferente da postura arrogante de alguns chegados há poucas décadas e outros fugidos décadas atrás (tempo do deputado Jesus Gaeta) por intervenção da Justiça (penas de aluguel desmascarados humilhantemente depois do fim do regime de 1964, do qual se dizem saudosos, provavelmente por terem sido colaboradores), se empavonam e, covardemente, pelas redes sociais vivem a ofender a honradez dos anônimos e honestos habitantes, inclusive imigrantes, tratados como se fossem fora de lei.
Corumbá é, sim, fruto do trabalho, do ofício digno, de cidadãos humildes -- muitas vezes anônimos -- como o Senhor Ecildo Teixeira Santana, agora saudoso Linguiça, cujo legado de honradez, integridade, compromisso e responsabilidade faz de nosso histórico centro cosmopolita verdadeiro Paraíso na Terra. Aliás, o também saudoso Senhor Jorge José Katurchi, que contribuiu para o desenvolvimento de Corumbá sem nunca ter auferido qualquer vantagem para si ou sua honrada Família, lembrava com humildade e sabedoria que amar Corumbá é respeitar seu povo laborioso, hospitaleiro, generoso e acolhedor. Ele, de uma das treze famílias de imigrantes do início do século XX oriundas de Mardini responsáveis pela construção dos primeiros arranha-céus de Mato Grosso em Corumbá e das primeiras indústrias de alimentação nas décadas de 1950, 1960 e 1970, viveu de seu trabalho e de sua Família por 92 anos no coração do Pantanal e da América do Sul, tendo sido testemunha ocular da História ao longo de quase um século, sem depor contra quem quer que fosse.
Até sempre, querido Amigo Linguiça! Que seu exemplo de caráter, honradez e humildade se reproduza na vida de todos os seus Filhos e Netos! Obrigado por ter existido e nos ensinado humildemente que dignidade e disciplina são inerentes ao caráter, à formação, e comenda ou diploma algum as substitui.
À Família enlutada, nossa profunda solidariedade e sinceros sentimentos.
Ahmad Schabib Hany

