quinta-feira, 26 de março de 2026

Ministro da Educação confirma ter recebido documentos pró-UFPANTANAL e abre canal de interlocução com equipe técnica

NOSSO SILÊNCIO SOLIDÁRIO, DOUTORA MARIA AUGUSTA

Nosso silêncio solidário, Doutora Maria Augusta

Não há palavras capazes de confortar o coração dilacerado de quem vê partir, diante de si, alguém por quem dedicou seus melhores dias, seus melhores sentimentos, seus melhores propósitos. O silêncio, somente o silêncio solidário, pode tentar ajudar a mitigar essa dor infindável que a Mãe sente quando, por uma dessas ironias da Vida, vê seu Filho -- a quem amou, acolheu nas entranhas, amamentou, assistiu, educou, formou e emancipou depois de prepará-lo para a Vida -- eternizar-se. Mais que palavras formais, nossa sincera e profunda solidariedade, Doutora Maria Augusta.

Tenho hesitado muito a escrever, pois palavras não são capazes de exprimir o que, como pai velho -- e isso foi possível graças à intervenção da senhora como Cardiologista, pois a Solange, nas condições em que se encontrava, não podia engravidar --, tenho a lhe dizer. Em síntese, gratidão, reconhecimento e afeto sincero e profundo. Se, aos meus 15 anos, testemunhei a dor de meus Pais ante o corpo inerte de meu Irmão Mohamed, que aos 25 anos se despediu de nós, eu, com toda sinceridade, travei -- não há palavras para descrever meu sentimento e minha inexplicável paralisia decorrente da súbita e extemporânea partida de seu Filho Guilherme.

Lembro de seu casal de Filhos bem novinhos [creio que sua Caçulinha ainda não havia nascido], durante a memorável campanha de 1982 do igualmente querido e saudoso Fausto. Tive a honra de ser da equipe da campanha dele no comitê da Rua Treze de Maio, ao lado do escritório de advocacia do Carmelino, em que Flávio Teixeira, Lúcia Santos, Mário Sérgio Lorenzetto, Seu José Rodrigues dos Santos, Raul Valle Herrera e eu estávamos incumbidos do trabalho eleitoral da campanha do Fausto. Seus dois Filhos, bem pequenos, fizeram a diferença ao vestir a camiseta do Fausto. É como carinhosamente me recordo de seus Filhos, até porque não os vi depois.

Foi por meio do Professor Masao Uetanabaro  -- que dia 20, sexta, perdeu seu Irmão Natal em Fernandópolis -- que tomamos conhecimento da eternização do querido e agora saudoso Guilherme, primogênito do casal que a Vida me presenteou como Amigos e Camaradas desde fins da década de 1970, quando fui para Campo Grande cursar História na FUCMT e o saudoso Fausto e a senhora participavam ativamente da construção da vanguarda democrática na corajosa resistência à ditadura cívico-militar de 1964.

Seis anos antes de conhecê-los, Fausto havia sido arbitrariamente demitido do cargo de professor do curso de Engenharia da UEMT por ter ousado ser um dos dirigentes da primeira mobilização de docentes a reivindicar salários dignos e melhores condições de trabalho. No início dos anos 1970, Garrastazu Médici e José Fragelli eram, respectivamente, terceiro general-presidente da ditadura e primeiro governador biônico mato-grossense.

Os tempos não só eram de chumbo, mas sordidamente tenebrosos e traiçoeiros, até porque entre colegas de trabalho e de estudo havia aqueles que, sendo medíocres em seu ofício, cumpriam o papel de judas, entregando colegas aos órgãos de repressão. Não faço ideia se foi vítima disso, mas Fausto amargou alguns anos fora da docência universitária, o que não o afastou da formação política e cidadã. Eu o conheci em uma atividade de formação do Partido -- não sei se já era CEPES --, e pouco depois no Movimento Sul-mato-grossense de Anistia e Direitos Humanos, do qual os também saudosos Advogados Ricardo Brandão, Onofre da Costa Lima, Roberto Orro, Plínio Barbosa Martins e Wilson Barbosa Martins eram membros destacados.

Foi na recém-inaugurada sede da seção sul-mato-grossense da OAB, na esquina das ruas Cândido Mariano e Pedro Celestino (imponente sobrado no centro da nova capital), que, por meio do Amigo Edson Moraes, Jornalista corumbaense que por seu próprio talento e ousadia, precisou se mudar para Campo Grande, acabei sendo apresentado aos responsáveis por minha formação cidadã -- além do Fausto, o Carmelino Rezende e o saudoso Senhor Mário Albernaz, colega de trabalho de Edson Moraes na assessoria da Liderança do MDB na Assembleia Constituinte, mais tarde Assembleia Legislativa, cujo titular era o Deputado Sérgio Cruz.

Por integrar o movimento estudantil, filiado ao emblemático DAFEZ (Diretório Acadêmico Félix Zavattaro, da FADAFI/FUCMT), meses mais tarde é que tive contato mais próximo com a senhora, Médica que participava do movimento da categoria pela redemocratização do país. No segundo semestre de 1979 a campanha pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita ganhou maior visibilidade, por conta da iniciativa no novo general-presidente, João Figueiredo, de apresentar um projeto de lei nesse sentido, mas que visava, na verdade, assegurar impunidade aos militares e civis envolvidos na tortura e outros crimes cometidos durante a repressão.

Quando atuávamos no Comitê Distrital do PMDB, no Guanandy, os Camaradas perceberam que eu estava com um febrão, mal podia me expressar. Era 1981, segundo semestre. O Fausto foi contatado pelo saudoso Amarílio, nosso Assistente de trabalho comunitário, e me levou até o seu consultório (senão me engano, Rua Maracaju, próximo da esquina da Rui Barbosa) e depois de diagnosticar um caso de amigdalite brava e me prescrever os medicamentos, me encaminhou ao saudoso Doutor Allan Pithan, no antigo prédio do INAMPS, para que solicitasse os exames necessários (foi, aliás, como conheci o Camarada Allan, duas décadas depois referente membro do Fórum Estadual dos Usuários do SUS, o glorioso FUSUS/MS, criminosamente esfacelado pela trupe de Puccinelli, Azambuja e Riedel).

Mas por que fiz tamanha descrição? Primeiro, porque tenho uma sincera e imensa gratidão por Vocês, que desafia o tempo, por suas atitudes humanas, próprias de quem sabe que nossa sociedade precisa evoluir. Segundo, para nós, a geração universitária de 1979, são Vocês a referência do Partido, mesmo que o tempo e a distância possam diluir essa realidade, por uma série de fatores históricos, que agora não vêm ao caso. E, terceiro, porque, diferente de todos os demais partidos políticos, o Partido era uma verdadeira Família, mas não na acepção burguesa, por favor: até hoje trago comigo as sinceras relações fraternais cultivadas ao longo dos cinco anos de aprendizado coletivo em Campo Grande.

Costumo dizer para as novas gerações de esquerda que o Partido, sobretudo para quem morava pela primeira vez fora da casa dos Pais e tinha origem árabe-boliviana como eu, representa minha efetiva graduação e pós-graduação: por meio do DAFEZ, liderado por Amarílio, Marisa Bittar, Paulinho Cimó, Cecéu, Tito, José Carlos Ziliani e Lélia Rita Sobral (depois Companheira de Vida do Paulinho Cimó), fiz a minha formação básica, isto é, a graduação; por meio do CEPES, de cuja direção participei entre 1982 e 1984 (quando retornei a Corumbá para assumir a correspondência do 'Correio do Estado'), fiz minha pós-graduação, que me valeu mais que um mestrado.

Querida Camarada, Amiga e Irmã Maria Augusta -- Doutora que em diferentes fases da Vida socorreu a mim e a quem amei --, Companheira de Vida do grande Mestre e Camarada Fausto, responsável pela formação de classe que alicerçou minha concepção de sociedade e de mundo, a Vida, como a História, é imponderável, razão pela qual não há fórmula capaz de tangenciá-la. Os que, como eu, tiveram o privilégio e a sorte de conviver com Vocês, sabem do valor e do compromisso com tudo aquilo de mais caro nesta sociedade.

Em respeito à memória dos queridos e agora saudosos Fausto e Guilherme, eu faço questão de lhe dizer que, a despeito de meu recente travamento, revigoro a convicção, a atuação e, sobretudo, a práxis para continuar a dura caminhada nestes tempos sombrios, mesquinhos, áridos e cada vez mais sórdidos. Tenha certeza, Doutora Maria Augusta, de que, nas palavras do eterno Atahualpa Yupanqui, em "Los Hermanos": "Y así seguimos andando / Curtidos de soledad / Nos perdemos por el mundo / Nos volvemos a encontrar / Y así nos reconocemos / Por el lejano mirar / Por la copla que mordemos / Semilla de inmensidad / Y así, seguimos andando / Curtidos de soledad / Y en nosotros nuestros muertos / Pa que nadie quede atrás / Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Y una hermana muy hermosa / Que se llama Libertad." ("Los Hermanos", Atahualpa Yupanqui).

Força, muita força, Doutora Maria Augusta!

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 9 de março de 2026

AOS 100 ANOS DA PEREGRINA DE DOCE OLHAR

domingo, 1 de março de 2026

TRUMP, O JAGUNÇO DE NETANYAHU

Choro pelo Irã, choro pela humanidade: A crapulagem dos que normalizam a barbárie - Inêz Oludê da Silva

Choro pelo Irã, choro pela humanidade:
A crapulagem dos que normalizam a barbárie

Inêz Oludé da Silva

Li hoje uma manchete que me gelou a alma. Não pela novidade, mas pela confirmação de que o jornalismo brasileiro atingiu um novo patamar de miséria moral. "Ninguém vai chorar pelo Irã", estampou o Estadão, como quem sentencia quem merece ou não ser pranteado neste mundo. Como quem define, de cima de um púlpito podre, quais vidas importam e quais podem ser reduzidas a escombros sem que uma lágrima seja derramada.

Trata-se, leitoras e leitores, de uma declaração de psicopatia travestida de análise geopolítica. Porque só um psicopata, desses que habitam os manuais de psiquiatria, é incapaz de sentir compaixão diante da dor alheia e ainda a transforma em manchete de jornal.

Mas eu vou chorar, sim. Faço parte dos “alguéns”. Vou chorar pelo Irã como chorei por cada país agredido pela sanha imperialista que, desde 1946, transforma o mundo num imenso cemitério. Chorei por Hiroshima e Nagasaki, varridas do mapa por bombas atômicas que incineraram civis como se fossem formigas. Chorei por Dresden, reduzida a cinzas numa noite de fogo que matou milhares de refugiados e crianças. Chorei pelo Vietnã, pelo Iraque, pela Líbia, pela Síria, pelo Afeganistão. Chorei pela Palestina, esquartejada dia após dia diante dos olhos cúmplices do Ocidente.

E agora, choro pelo Irã.

Choro por um país de história milenar, cuja arquitetura deslumbrante já foi poesia feita em pedra e azulejo. Choro por um povo que tem o direito de viver em paz, como qualquer outro povo neste planeta. Choro pelas 85 crianças e professoras assassinadas covardemente dentro de uma escola, vítimas da insanidade mental de homens que transformam a geopolítica num ringue de barbárie. Choro pelos civis que viram números, estatísticas, "danos colaterais" na frieza dos relatórios de guerra.

Choro, sobretudo, pela humanidade que perdeu o rumo outra vez e regrediu aos anos 40, quando o mundo assistiu ao horror e, em muitos casos, aplaudiu.

O que me estarrece, no entanto, não é apenas a violência dos que empunham as armas. É a violência dos que empunham as canetas e teclados para justificar o injustificável. É ver jornalistas brasileiros, desumanizados, coisificados pela ideologia, festejarem a destruição de países que ousam não se curvar aos ditames de Washington. É vê-los babando o ovo de políticos americanos, como se os EUA fossem uma entidade divina e não um império em decadência moral.

Falo de um país que hoje é liderado por um sujeito condenado em 34 processos judiciais, um homem cuja principal especialidade, além de fraudes e falências, é frequentar os corredores sombrios das listas de Epstein, aquele mesmo, o amigo de poderosos que "suicidaram" antes de contar o que sabia. E falo de um primeiro-ministro israelense cuja especialidade é explodir corpos de crianças em praças públicas, chamar aquilo de "defesa" e ainda ser recebido com tapetes vermelhos por governantes que se dizem civilizados.

E esses jornalistas, esses "necrojornalistas" de plantão, têm a pachorra de dizer que ninguém vai chorar pelo Irã?

Pois saibam: o choro que dedicamos às vítimas do Irã é o mesmo que dedicamos às vítimas de Gaza, da Ucrânia, da Síria, do Iêmen. É o mesmo que dedicamos às crianças mortas por balas perdidas nas favelas brasileiras, enquanto a pauta da segurança pública vira ringue eleitoral. É o luto por uma humanidade que insiste em se autodestruir enquanto meia dúzia de abutres lucra com a desgraça.

Vocês, jornalistas, que normalizam o genocídio, que relativizam o fascismo, que tratam a morte de inocentes como peça de xadrez geopolítico, por vocês, confesso, não chorarei. Não perderei uma lágrima com quem trocou a ética pela militância da morte, a verdade pelo alinhamento automático aos interesses do império.

Mas pelo Irã, sim. Pelas crianças iranianas, pelas professoras, pelos civis que só querem viver. Pelos mortos de todos os lados que não escolheram ser alvos. Pela memória de Hiroshima, Nagasaki, Dresden e de todos os lugares onde a humanidade se perdeu de si mesma.

Chorarei até que o choro se transforme em memória. E até que a memória nos obrigue, um dia, a parar de repetir os mesmos erros.

Porque enquanto houver um só jornalista disposto a dizer que "ninguém vai chorar" por um povo bombardeado, haverá motivo para lágrimas. E para muita raiva.

Este artigo é dedicado a todas as vítimas da insanidade , de ontem, de hoje e de sempre.


Inêz Oludé da Silva, artista plástica e poeta

Compartilhado da Amiga Amyra El Khalili, da Rede de Mulheres pela Paz.