NOSSA SENHORA E A ETERNIZAÇÃO DO DOUTOR ULYSSES
Quatro anos e sete dias depois da promulgação da Constituição Federal de 1988, o Brasil, dia 12 de outubro de 1992, perplexo, parou para acompanhar, pela televisão e pelo rádio, as notícias sobre o acidente aéreo que vitimou o Doutor Ulysses Guimarães, o Senador Severo Gomes, as respectivas esposas e o piloto do helicóptero que se precipitou contra o mar em pleno Dia da Padroeira.
No dia em que se celebra Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, desde os mais remotos tempos -- quando este país-continente ainda era uma colônia de Portugal e a soberania sequer era imaginada pelos súditos da coroa lusitana --, a tragédia que encerrou a jornada do maior defensor da Democracia, o Deputado Ulysses Silveira Guimarães, ocorria há 34 anos.
Ainda não foram encontrados vestígios do corpo do Deputado Ulysses Guimarães, eternizado em acidente aéreo na tarde de 12 de outubro de 1992, ao lado de sua Companheira de Vida, Dona Mora Guimarães; do Senador Severo Fagundes Gomes e Esposa, Dona Henriqueta Gomes, e do piloto do helicóptero, Jorge Comemorato, entre Angra dos Reis e Paraty, região litorânea do estado do Rio de Janeiro, sob intenso temporal.
Referência até entre adversários
Senhor Diretas ou Senhor Democracia, o Doutor Ulysses Guimarães era um ícone não só da luta contra o regime de 1964 e pelas liberdades democráticas e da construção do Estado Democrático de Direito. Era referência da política latino-americana e do Brasil em quase tudo, afinal, com habilidade conseguira liderar uma frente democrática ao longo de duas décadas e meia sem perder a coerência e a contundência.
Ainda que tivesse ficado em quinto lugar entre os 22 candidatos que disputaram a primeira eleição presidencial pós-ditadura, em 1989, sua opinião, seu critério, era determinante entre os diferentes setores da vida nacional. Até adversários o respeitavam por conta de sua magnanimidade: não só abrira mão da candidatura à Presidência da República pelo PMDB para que o então governador Tancredo de Almeida Neves, de Minas Gerais, fosse o candidato da Aliança Democrática para derrotar o regime dentro do Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985, como não cedeu ao assédio pelos áulicos do regime derrotado, durante a madrugada de 15 de março de 1985, para assumir interinamente a Presidência da República enquanto o presidente eleito convalescia no Hospital de Base por conta de uma cirurgia de emergência feita na véspera de sua posse.
Odiado pelas elites
Por sua firmeza e lealdade na luta contra o regime de 1964, Ulysses era odiado por todos os serviçais e beneficiários da ditadura. Não foram poucas as tentativas de cooptar o mais intransigente dos líderes do MDB e, depois de 1980, PMDB. Ele não só desdenhou as ofertas para isolar os chamados 'radicais' da oposição, como as denunciou contundentemente. Protegeu Fernando Henrique Cardoso e Chico Pinto, entre outras grandes expressões da 'esquerda nacional' ao mesmo tempo em que impedia que os rotulados de 'comunistas' viessem a ser presos nas diversas perseguições casuísticas ao longo dos 21 anos de arbítrio e tirania.
Num tempo em que não havia internet nem redes sociais, as elites já difundiam por meio de seus mensageiros como o ex-porta-voz do ditador João Baptista de Oliveira Figueiredo, Alexandre Garcia, mentiras de toda natureza, como que ele fosse alcoólatra (porque os Amigos que se reuniam com ele para descontrair se autodenominavam 'Turma do Poá', apreciadores de uma pinga de alambique com essa marca).
Durante o exaustivo trabalho de resgate do helicóptero no litoral, enquanto a população, solidária ao drama das Famílias de Ulysses e de Severo, manifestava-se em vigília para encontrar pelo menos o corpo do gigante Ulysses Guimarães, seus poderosos desafetos espalhavam, sem qualquer empatia ou mínimo respeito, rumores insólitos de que teria decidido abandonar Dona Mora e o Brasil para desfrutar em algum paraíso fiscal dos milhões de dólares acumulados durante a longeva carreira política.
Quem comemorou a morte de Ulysses?
A TV Manchete, que mantinha uma relação de respeito com a oposição ao regime já em franca decadência quando de sua criação, chegou a registrar a odiosa fala de ninguém menos que o desconhecido Jair Bolsonaro comemorando a morte do Deputado Ulysses Guimarães, para perplexidade dos telespectadores. A mesma emissora cobrira, anos antes, a escandalosa intenção de sabotar com uso de explosivos a adutora do Rio de Janeiro por 'aquele' suboficial de baixa patente com ideias fascistas que só foi punido décadas depois graças à coragem e determinação do ministro do STF nomeado por Michel Temer.
Esse era o nível dos inimigos poderosos do Senhor Democracia, que fez da sua carreira política seara para a erradicação da intolerância, do autoritarismo e do ódio que, 36 anos depois de sua eternização, ameaçam acintosamente as bases fundantes do Estado Democrático de Direito que generosa e corajosamente o Doutor Ulysses liderou, empreendeu e realizou, ao custo da própria candidatura à Presidência, que em certo momento era legítima e irreversível.
Neste dia em que se celebra Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, na mira também das hordas nefandas autoproclamadas 'cristãs', a digna memória do Senhor Democracia inclusive seja celebrada. Mais que por eles (que não carecem de sabujice, há séculos no caso da Padroeira e há 34 anos no caso de Ulysses), pelo porvir do povo brasileiro e do Brasil soberano e democrático, cujo destino corre risco ante a maledicência de fantoches, títeres e marionetes do pedófilo, genocida e pirata Donald Trump e a corja de bilionários que o usa sem pudor nem comedimento.
Não é eleitor, mas cúmplice, quem apoia o fascismo
A humanidade é maior que seus algozes. A história há de registrar, caso a sanha golpista for consumada, a cumplicidade daqueles que, como Judas Iscariotes, se deixaram seduzir pelas ofertas satânicas do jugo cínico que cobrará com o martírio e sangue de inocentes que não tiveram a oportunidade de decidir pelo desatino cometido por palermas teleguiados com insanidade. Não é, pois, eleitor, mas cúmplice aquele que permite ser usado, ou melhor, serve de sustentáculo para a ascensão do fascismo.
Ulysses Guimarães, do alto de sua coerência e sabedoria cidadã, deu o alerta há trinta e oito anos, e provavelmente tenha pago com a própria Vida pela corajosa atitude. Alegar inocência, incauto eleitor, soa sordidez, eis que hoje o acesso à informação (e às fakenews, também!) é uma realidade.
Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, e o Senhor Democracia, Herói da Pátria Ulysses Guimarães, inspirem as cidadãs e os cidadãos em sua decisão histórica em 25 de outubro. Deus, o Supremo Criador louvado por todas as denominações de fé e crença, ilumine as mentes e corações e não permita que o Estado de Direito -- o Estado de Bem-Estar Social e o Estado Laico, inclusive -- e suas cláusulas pétreas sejam conspurcadas pelos sátrapas tomados de intolerância e ódio, ávidos de sangue e tirania.
Ahmad Schabib Hany
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