quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

SAUDADES DO TEMPO EM QUE O "CIDADANIA" ERA O VELHO P.C.B. (versão revista)

Saudades do tempo em que o “Cidadania” era o velho PCB...

Se há um partido quase centenário cuja história orgulha seus membros é o velho PCB. No entanto, curiosamente, uma geração de “comunistas” arrependidos decidiu mudar seu nome, seu ideário, sua linha política e até sua história no pós-guerra fria. Pior, depois de ter participado da vergonhosa deposição da primeira chefe de Estado e de governo brasileira, passou a se chamar de “Cidadania” e hoje, salvas honrosas exceções, seus parlamentares se confundem com membros das velhas legendas de aluguel que vivem a barganhar seus votos no parlamento e têm seus deploráveis “minutos de fama” em episódios como o do deputado estadual paulista que apalpou os seios da aguerrida deputada Isa Penna, do PSOL.

O gesto de um homem que, sorrateira e ardilosamente, apalpa os seios de uma mulher já é indignante, imagine no plenário do parlamento de São Paulo, durante a realização de trabalhos legislativos, madrugada adentro, sob os holofotes e câmeras da instituição, a uma colega parlamentar feminista das hostes oposicionistas à horda governante...

Mais triste foi ter constatado que a “musa” do impeachment, digo, do golpe parlamentar midiático, a obscura e bizarra deputada Janaína Paschoal (PSL-SP), a despeito de ser mulher, não só não foi solidária com sua colega de parlamento e de gênero, como fugiu a todo custo do digno enfrentamento dessa laia de seres anacrônicos que infestam o atual (des)governo. Além de advogada, Paschoal alardeou ser combatente do abuso de poder, mas não foi isso que demonstrou na prática, perante as câmeras de jornalistas.

Falso moralismo às favas, próprio desses hipócritas que se dizem arautos da moralidade e da ética (dos outros/as), a atitude humilhante do deputado Fernando Cury, do atual “Cidadania” (ex-PPS e ex-PCB), escancara o comportamento de hienas ávidas que não resistem aos impulsos de seus instintos misóginos e patriarcais extemporâneos.

Ao contrário do atual “Cidadania” e do ex-PPS, saído à luz no pós-guerra fria, quando a direção de “comunistas” arrependidos decidiu abandonar o nome, a linha política, a ideologia e a história honrada do velho PCB, fundado em 25 de março de 1922, qualquer relato sincero da história do Brasil no século XX haverá de citar, inevitavelmente, o Partido (com letra maiúscula) e suas lutas, ainda que proscrito, pois na maior parte de sua existência seus membros passaram na clandestinidade, sob intensa perseguição.

A Amiga Professora Estela Scandola recorda que quando nasceu o PT a aura intelectual dos membros do PCB era de causar admiração e a boa inveja entre os demais membros da esquerda brasileira. A sua consistência teórica inspirava até os convictos integrantes do novo Partido, construído a partir das bases enquanto os antigos enclausurados em suas redomas. Mas tudo indica que o excesso de convicção acabou levando a mais antiga legenda partidária de esquerda do Brasil ao dilema de ter perdido a própria identidade.

Como observa o Amigo Jornalista Luiz Taques, é preciso deixar consignado na História o papel de Roberto Freire, que nos primórdios da legalidade pós-1985 era apresentado como o Gorbatchov brasileiro. Se durante a resistência à ditadura de 1964 pairassem dúvidas quanto à lealdade perante seus camaradas, sua postura caricata como ministro da Cultura do golpista Michel Temer foi reveladora no ato de entrega do Prêmio Camões 2016 ao renomado escritor Raduan Nassar, em que expôs sua índole serviçal ao agredir intempestivamente o homenageado, cuja brilhante fala foi um ato político de lavar a alma dos brasileiros amantes da cultura e da democracia. O episódio foi eloquente para escancarar a pequenez dessa caricatura humana que durante décadas se apresentava como vanguarda na direção do Partido e nos debates dos grandes temas de interesse da sociedade.

E o Amigo Professor Alberto Feiden nos alerta que a falta de uma política de formação na perspectiva histórico-dialética leva toda organização de esquerda ao voluntarismo, fonte dessa ambiguidade em que se encontram partidos outrora marxistas. Aliás, em nosso tempo de estudante, sabíamos que dirigente mal formado é um sério candidato às hostes da reação, da direita.

Meu primeiro contato com um “comunista” não foi por meio da propaganda ideológica deflagrada em plena guerra fria ou dos cartazes obscurantistas espalhados pela repressão nos anos de chumbo. Com muita honra, posso dizer que, mesmo que por puro acaso, pude conhecer ainda criança um perseguido membro de um partido marxista-leninista de passagem por esta fronteira em fins da década de 1960.

Como meu saudoso Pai não era delator ou serviçal de qualquer regime, hospedou e registrou devidamente em sua modesta hospedaria um dirigente sindical de sobrenome Quechua (um dos povos originários andinos), creio de Potosí ou La Paz, que permaneceu apenas alguns dias, tendo retornado ao seu país sob a proteção de organizações sindicais ligadas à histórica Central Operária Boliviana (COB).

Apesar da discrição dos adultos, a curiosidade das crianças não deixara passar batido um episódio em que, pelos motivos que fossem, um hóspede que precisasse de solidariedade para não ser eliminado pelo regime ditatorial do outro lado da fronteira fosse alvo de uma atenção especial dos donos da hospedaria.

Nessa mesma condição, houve jornalistas, intelectuais, estudantes, professores, artistas plásticos etc, não só da Bolívia, mas de vários países (Chile, Argentina, Palestina, Líbia, Egito, Iraque, Líbano, Peru, Colômbia, Uruguai, Espanha e Portugal) que passaram pela modesta pensão de meu honrado Pai, que nos ensinou desde crianças que solidariedade não se condiciona nem se negocia e que liberdade não é mercadoria.

Não demorou muito para que experimentássemos na Família o valor da solidariedade, quando, na Guerra Civil do Líbano (promovida para sufocar a insurreição popular contra o “pacto nacional” imposto pela França em 1942), nada menos que 36 parentes diretos, indefesos e inofensivos, haviam sido imolados por grupos paramilitares da Falange Libanesa, patrocinados pela Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel e países da Europa Ocidental.

Do mesmo modo como meu Pai acolheu e tratou com todo respeito e solidariedade os perseguidos “comunistas” estrangeiros, em diversos países asiáticos, africanos, europeus e da Oceania os refugiados libaneses, em sua maioria jovens (entre eles filhos, sobrinhos e netos de nossos familiares imolados na bucólica Rasn Hashe em 1976), tiveram nova oportunidade em suas vidas.

Escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Apolônio Carvalho, Adolpho Emydio Cunha, Edgar Carone e Fernando Morais escreveram, cada qual a seu tempo e sob olhares diversos, sobre diferentes momentos vividos por diversos membros do velho PCB. Contudo, nem sob tortura, algum deles revelou algo como laranjal, rachadinha, assédio sexual que envergonhasse descendentes ou correligionários de outras épocas.

Como certa vez disse o brilhante advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto, um convicto católico conservador que defendeu Luiz Carlos Prestes e Harry Berger em pleno Estado Novo, sob nítida influência nazifascista, que na defesa dos dois comunistas dos anos 1930 precisou recorrer a artigo de uma lei de proteção dos animais para assegurar um mínimo de tratamento humano àqueles presos políticos.

Lamentavelmente, hoje é com o parlamentar Fernando Cury que o atual “Cidadania” ganha seus inglórios momentos de popularidade (sic). Esse que é sucedâneo do glorioso PCB, em que militaram mulheres como a aguerrida Olga Benario, Companheira de Prestes morta em campo de extermínio nazista depois de dar à luz a Anita Leocádia Benario Prestes.

Saudades do tempo em que o “Cidadania” era o velho PCB, cuja história se confunde com a do Brasil e cujo legado honra a esquerda, que não capitulou ao neoliberalismo e à globalização, pseudônimo de “imperialismo, a fase superior do capitalismo”.

Ou, como diria o querido e saudoso Amigo Manoel Sebastião da Costa Lima, idealizador e proprietário da Livraria Guató na década de 1980 em Campo Grande: “Não me envergonha ser comunista e defender o PCB. Vergonha é estar ao lado de criminosos por lesa-pátria que entregaram estatais estratégicas na área de telecomunicações, eletricidade, mineração e siderurgia ao capital financeiro. E o pior, em nome de uma modernidade que cheira colonização e escravidão.”

Ahmad Schabib Hany

domingo, 20 de dezembro de 2020

Saudades do tempo em que o “Cidadania” era o velho PCB...

Saudades do tempo em que o “Cidadania” era o velho PCB...


Se há um partido quase centenário cuja história orgulha seus membros é o velho PCB. No entanto, curiosamente, uma geração de “comunistas” arrependidos decidiu mudar seu nome, seu ideário, sua linha política e até sua história no pós-guerra fria. Pior, depois de ter participado da vergonhosa deposição da primeira chefe de Estado e de governo brasileira, passou a se chamar de “Cidadania” e hoje, salvas honrosas exceções, seus parlamentares se confundem com membros das velhas legendas de aluguel que vivem a barganhar seus votos no parlamento e têm seus deploráveis “minutos de fama” em episódios como o do deputado estadual paulista que apalpou os seios da aguerrida deputada Isa Penna, do PSOL.

O gesto de um homem que, sorrateira e ardilosamente, apalpa os seios de uma mulher já é indignante, imagine no plenário do parlamento de São Paulo, durante a realização de trabalhos legislativos, madrugada adentro, sob os holofotes e câmeras da instituição, a uma colega parlamentar feminista e das hostes oposicionistas à horda governante...

Mais triste foi ter constatado que a “musa” do impeachment, digo, do golpe parlamentar e midiático, a obscura e bizarra deputada Janaína Paschoal (PSL-SP), a despeito de ser mulher, não só não foi solidária com sua colega de parlamento e de gênero, como fugiu a todo custo do digno enfrentamento dessa laia de seres anacrônicos que infestam o atual (des)governo. Além de advogada, Paschoal sempre se disse defensora do abuso de poder, mas não foi isso que demonstrou na prática, perante as câmeras de jornalistas.

Falso moralismo às favas, próprio desses hipócritas que se dizem arautos da moralidade e da ética (dos outros/as), a atitude humilhante do deputado Fernando Cury, do atual “Cidadania” (ex-PPS e ex-PCB), escancara o comportamento de hienas ávidas que não resistem aos impulsos de seus instintos misóginos e patriarcais extemporâneos.

Ao contrário do atual “Cidadania” e do ex-PPS, saído à luz no pós-guerra fria, quando a direção de “comunistas” arrependidos decidiu abandonar o nome, a linha política, a ideologia e a história honrada do velho PCB, fundado em 25 de março de 1922, qualquer relato sincero da história do Brasil no século XX haverá de citar, inevitavelmente, o Partido (com letra maiúscula) e suas lutas, ainda que proscrito, pois a maior parte de sua existência seus membros passaram na clandestinidade, sob intensa perseguição.

Meu primeiro contato com um “comunista” não foi por meio da propaganda ideológica deflagrada em plena guerra fria ou dos cartazes obscurantistas espalhados pela repressão nos anos de chumbo. Com muita honra, posso dizer que, mesmo que por puro acaso, pude conhecer ainda criança um perseguido membro de um partido marxista-leninista de passagem por esta fronteira em fins da década de 1960.

Como meu saudoso Pai não era delator ou serviçal de qualquer regime, o hospedou e registrou devidamente em sua modesta hospedaria um dirigente sindical de sobrenome Quechua (um dos povos originários andinos), creio de Potosí ou La Paz, que permaneceu apenas alguns dias, tendo retornado ao seu país sob a proteção de organizações sindicais ligadas à histórica Central Operária Boliviana (COB).

Apesar da discrição dos adultos, a curiosidade das crianças não deixara passar batido um episódio em que, pelos motivos que fossem, um hóspede que precisasse de solidariedade para não ser eliminado pelo regime ditatorial do outro lado da fronteira fosse alvo de uma atenção especial dos donos da hospedaria.

Do mesmo jeito, houve jornalistas, intelectuais, estudantes, professores, artistas plásticos etc, não só da Bolívia, mas de vários países do mundo que passaram pela modesta pensão de meu honrado Pai, que nos ensinou desde crianças que solidariedade não se condiciona nem se negocia e que liberdade não é mercadoria.

Não demorou muito para que experimentássemos em nossa Família o valor da solidariedade, quando, na Guerra Civil do Líbano (financiada pela Arábia Saudita e apoiada pelos governos dos Estados Unidos, Israel e boa parte da Europa Ocidental), nada menos que 36 parentes diretos, indefesos e inofensivos, haviam sido imolados por grupos paramilitares da Falange Libanesa, patrocinados pela Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel e países da Europa Ocidental.

Do mesmo modo como meu Pai acolheu e tratou com todo o respeito e solidariedade os perseguidos “comunistas” estrangeiros, em diversos países asiáticos, africanos, europeus e da Oceania os refugiados libaneses, em sua maioria jovens (inclusive filhos, sobrinhos e netos dos familiares imolados na bucólica Rasn Hashe em 1976.

Escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Apolônio Carvalho, Adolfo Emydio Cunha, Edgar Carone e Fernando Morais escreveram, cada qual a seu tempo e sob olhares diversos, sobre diferentes momentos vividos por diversos membros do velho PCB. Contudo, nem sob tortura, algum deles revelou algo como laranjal, rachadinha, assédio sexual que envergonhasse descendentes ou correligionários de outras épocas.

Como certa vez disse o brilhante advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto, um convicto católico e conservador que defendeu Luiz Carlos Prestes e Harry Berger em pleno Estado Novo, sob nítida influência nazifascista, que para defender esses dois comunistas nos anos 1930 precisou recorrer a artigos da legislação de proteção dos animais a fim de assegurar um mínimo de tratamento humano àqueles presos políticos.

Lamentavelmente, hoje é com o parlamentar Fernando Cury que o atual “Cidadania” ganha seus inglórios momentos de popularidade (sic). Esse que é sucedâneo do glorioso PCB, em que militaram mulheres como a aguerrida Olga Benario, Companheira de Prestes morta em campo de extermínio nazista depois de dar à luz a Anita Leocádia Benario Prestes.

Saudades do tempo em que o “Cidadania” era o velho PCB, cuja história se confunde com a do Brasil e cujo legado honra a esquerda, que não capitulou ao neoliberalismo e à globalização, pseudônimo de “imperialismo, a fase superior do capitalismo”. Ou, como diria o querido e saudoso Amigo Manoel Sebastião da Costa Lima, proprietário da Livraria Guató na década de 1980 em Campo Grande: “Não me envergonha ser comunista e defender o PCB. Vergonha é estar ao lado de criminosos por lesa-pátria que entregaram estatais estratégicas na área de telecomunicações, eletricidade, mineração e siderurgia ao capital financeiro. E o pior, em nome de uma modernidade que cheira colonização e escravidão.”

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Por que a saúde, a educação e a assistência social são preteridas por Bolsonaro

Por que a saúde, a educação e a assistência social são preteridas por Bolsonaro


Depois da promulgação da Constituição Federal de 1988, políticas sociais como saúde, educação e assistência social têm fundo próprio, plano de ação e controle público. Políticos como Bolsonaro, de perfil autoritário e vinculado ao setor financeiro, não têm qualquer afinidade com as demandas sociais, razão pela abrupta precarização dos índices sociais do Brasil.

Têm chamado a atenção da população - e causado muita indignação - as reiteradas declarações de Jair Bolsonaro e ministros que vêm relegando a enésimo lugar a urgência de ações na saúde, educação e assistência social, inclusive nestes tempos de pandemia.

Como compreender a acintosa indiferença dos membros deste governo ante a inadiável definição da estratégia de logística e vacinação de milhões de pessoas do público de risco, a manutenção das medidas de biossegurança nos estabelecimentos de ensino ou a prorrogação do auxílio emergencial de milhões de trabalhadores de diferentes áreas pela covid-19? Para não dizer sobre a total falta de sensibilidade e empatia pelos milhares de famílias de vítimas, incluídas no pacote de maricas...

Aliás, o mesmo ocorreu durante a crise socioambiental pelas queimadas criminosas no Pantanal e na Amazônia, quando não só os titulares dos órgãos diretamente responsáveis pela prevenção e mais tarde enfrentamento da tragédia demonstraram seu descaso, referendados pelo chefe de Estado e de governo, que sequer manifestou solidariedade aos verdadeiros heróis que tombaram em combate. Ao contrário, procurou atribuir a responsabilidade aos governos de outros países em evento das Nações Unidas, tendo que voltar atrás, como de hábito.

Até o mais desatento cidadão hoje se dá conta da inversão de prioridades desta gestão: um decreto destinado a facilitar a importação de insumos para o enfrentamento à covid-19 ou de arroz para o enfrentamento da carestia serve de pretexto para zerar a alíquota de importação de armas de vários calibres, como se se tratasse de artigo de primeira necessidade. Mas o pior ainda está por vir: um aliado seu, governador de Goiás Ronaldo Caiado, passou o recado de que, depois de idas-e-vindas, finalmente o Ministério da Saúde vai tomar atitude, não sem antes “centralizar” para si as vacinas adquiridas pelos diversos estados, quando o papel desse órgão é coordenar a vacinação em nível federal.

Saudosos do regime de 1964, os membros do núcleo ideológico são cultores do casuísmo e do improviso ao sabor da ocasião. Está constatado que não há planejamento nas ações de governo, e muito menos planejamento estratégico plurianual, como determina a lei. Os relatórios de gestão comprovam isso, como no caso do Ministério do Meio Ambiente quanto às metas de redução das emissões de carbono, pactuadas com o concerto das nações quando o país era exemplo de compromisso com a agenda ambiental global. Nem se fale no Ministério da Saúde, cujo titular teve a pachorra de cometer toda sorte de desmandos e omissões, inclusive a perda da validade de mais de sete milhões de testes da covid-19. E o que dizer, então, da politização abominável das decisões técnicas para o eficiente enfrentamento de uma tragédia sanitária como a que assola o planeta?

Nesse roldão, temos prefeitos e prefeitas reeleitos na onda da pandemia. Depois de aparentarem, para efeitos eleitorais, preocupação com a vida e a saúde das pessoas, tiraram a máscara, a exemplo de seu líder mítico: “precisamos garantir os empregos da população”, quando sabem que a causa verdadeira do desemprego, que vem do tempo de Temer, é o “teto dos gastos” e a política de desmonte do parque industrial e de priorização do setor financeiro, que há mais de cinco décadas não conhece déficit, só superávit atrás de superávit, enquanto os demais setores da economia naufragam no caos de uma literal “economia de guerra” (como os atuais gestores querem denominar o ciclo econômico contemporâneo).

A bem da verdade, não é de hoje tal desdém com essas e outras políticas assim definidas pela Constituição Federal de 1988 (além da saúde, educação e assistência social, há o meio ambiente, segurança pública, cultura, igualdade racial e de gênero, inclusão social, direitos humanos, desportos, trabalho e geração de renda). Sem qualquer tato, têm sido alvo de um desprezo indignante, mas não surpreendente, pelas elites políticas brasileiras.

Como não nos lembrarmos do antecessor Michel Miguel Temer Lulia (esse é o nome completo do golpista que a história saberá colocá-lo no lugar merecido, ao lado de Aécio Neves, José Serra, Roberto Freire, Henrique Meirelles, Eduardo Cunha, Romero Jucá, Carlos Marun et caterva), quando, goela abaixo, impôs o criminoso “teto dos gastos” (em que o financiamento das políticas sociais ficou reduzido, mas não o serviço da dívida, de interesse dos bancos, seus amos e senhores)?

O Professor José Fernandes, conhecido youtuber, tem demonstrado didaticamente por que as elites são permissivas com os membros deste governo, cujo próximo passo é mais difícil de ser previsto que os súbitos temporais do fenômeno meteorológico “La Niña”. Ainda que elas (as elites) também sintam e se ressintam (d)os impactos das atitudes intempestivas dos atuais inquilinos do Planalto, que não são poucos (basta acompanhar a série histórica dos indicadores macroeconômicos para entrar em desespero), aproveitam a compulsão atroz pelas “reformas”, na insana tentativa de “desossar”, isto é, fazer o desmonte do Estado brasileiro, coisa que nenhum dos dois fernandos (o Collor da Dinda e o “príncipe” da privataria FHC) conseguiu.

Enquanto isso o bom-moço Sérgio Moro sai das estatísticas do desemprego graças a uma consultoria milionária num escritório jurídico sediado num paraíso fiscal, curiosamente depois de ter ajudado a destruir as maiores empresas privadas e estatais brasileiras. O tal escritório, além de atualmente realizar a recuperação financeira da Odebrecht e OAS (exatamente as mesmas maiores empresas privadas brasileiras detonadas por ele, como que uma empresa tivesse que ser punida quando seu executivo “passa a mão” e “otras cositas más” na bufunfa dos politicozinhos de todos os partidos, inclusive de Aécio Neves e José Serra, como já foi constatado; mas Moro só “pensava naquilo”, Lula!), quebrou o galho (e a árvore) da família Civita, ao fazer vistas grossas aos netos do fundador Victor Civita, que venderam a Abril Educação e fizeram retiradas nada ortodoxas da ordem de UM BILHÃO de reais, e passaram o “ponto” do Grupo Abril para o banqueiro Fábio Carvalho pela bagatela de CEM MIL reais, obviamente com as dívidas bilionárias, mas as centenas de empregados (desde editores e jornalistas ao mais humilde faxineiro) ficaram a ver “Caras”, “Playboy” e “Viagem”... na Banca Nostra, na rua Roma, Lapa, capital paulista.

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A face exposta de instituições irresponsáveis: Um ano da eternização da Professora Élida sem justiça nem reparos

A face exposta de instituições irresponsáveis:

Um ano da eternização da Professora Élida Aparecida de Campos sem justiça nem reparos


Prefeito reeleito, empresas auferindo lucros e a população ao deus-dará: 365 dias depois da tragédia da avenida Gaturama, nem homenagem à Professora Élida, que deu literalmente a Vida para cuidar da educação e dos direitos de crianças especiais de Corumbá e Ladário.

Dia 4 de dezembro de 2019. A trágica eternização da Professora Élida Aparecida de Campos, coordenadora pedagógica da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Corumbá, ao final de um dia de trabalho. Um ano depois, os seus pais sequer receberam um gesto de gratidão ou solidariedade das instituições públicas e privadas direta ou indiretamente envolvidas nesse lamentável episódio.

Com o maior acinte, as partes fazem o velho jogo de empurra: a atual concessionária privada, com seu sugestivo nome “Rumos”, não mede esforços para se eximir das responsabilidades, enquanto a empresa privada chilena concessionária da ferrovia boliviana, dona dos vagões deixados no terminal privado de onde saíram e causaram o acidente, também faz o mesmo. E o terminal, a prefeitura local, os órgãos responsáveis pela gestão do território, não têm, também, sua parcela de responsabilidade? A Câmara Municipal chegou a discutir a proposta de denominar a avenida Gaturama (homônima do velho motel das imediações) para Avenida Professora Élida Aparecida de Campos, como uma singela homenagem póstuma? Ah, sim...

Durante a campanha eleitoral cheguei a confidenciar a um Jornalista sobre minha certeza de que NENHUM candidato/a a prefeito de Corumbá lembraria da tragédia da Professora Élida Aparecida de Campos. Porque desde que o município se emancipou, em meados do século XIX, pode-se afirmar com todas as letras que durante pouco mais de cem anos de sua autonomia administrativa (porque temos que subtrair o período de intervenção de Getúlio Vargas e do regime de 1964, algo perto de 40 anos) nenhum prefeito governou a totalidade do município Corumbá, cujas dimensões se confundem com o estado da Paraíba, praticamente três vezes maior que o território do Líbano ou da Palestina, terra-natal de muitos imigrantes locais.

Uma campanha eleitoral totalmente dissociada da realidade (pela totalidade dos/as candidatos/as a prefeito/a de Corumbá, ainda que eu prive da Amizade com alguns deles/as). Ou alguém falou da gestão territorial? Ou alguém falou da necessidade de atualização do Plano Diretor Municipal, que nunca saiu da gaveta, a despeito de ter sido participativo? Inclusive a desativação do Conselho Municipal da Cidade, como os demais, pela atual gestão (e, a bem da verdade, não estava a atuar plenamente havia alguns anos, tanto que no imbróglio da Feira Brasbol sequer convocou uma reunião deliberativa ou uma audiência pública, como a lei lhe faculta).

Está corretíssima a família enlutada de acionar judicialmente os responsáveis pela tragédia que tirou a Vida da Professora Élida. Esperamos que, um ano depois de total empurra-empurra, o Ministério Público possa chamar para si uma ação correspondente, de modo a cessar de imediato o abandono em que se encontra a ferrovia no perímetro urbano, tanto em Corumbá como em Ladário, e que novas tragédias sejam evitadas.

E que um dia não muito distante, a Avenida Professora Élida Aparecida de Campos dê lugar à erma e lúgubre avenida Gaturama, assombrada e nada acolhedora, inclusive por onde chegam as pessoas que visitam nossa região.

Ahmad Schabib Hany

domingo, 29 de novembro de 2020

OBRIGADO E ATÉ BREVE, PADRE MARCO ANTÔNIO!

Obrigado e até breve, Padre Marco Antônio!


Depois de sete anos de generosos aportes à coletividade, sobretudo imigrantes e refugiados, no coração do Pantanal e da América do Sul, o Padre Marco Antônio Ribeiro Alves, um scalabriniano que muito lembra os maiores sacerdotes que serviram na bicentenária Corumbá de todos os povos, todas as graças e de todas as crenças, encerra sua missão nesta fronteira e parte com destino à Amazônia, o pulmão do mundo.

Estávamos no segundo semestre de 2015. Um convite da Pastoral da Mobilidade Humana, da Igreja Católica, convoca o Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa (Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário, de cuja secretaria-executiva era um dos titulares) para um seminário sobre os direitos da migração e o crime do tráfico de seres humanos. Como na época estava como professor-substituto no curso de História do CPAN/UFMS, e a despeito de uma paralisação que acabou fazendo o jogo dos golpistas eu não podia participar do seminário, nosso espaço público não estatal enviou dois outros membros.

Lembro-me como hoje o entusiasmo de nossos representantes ao conhecer o Padre Marco Antônio Ribeiro Alves, jovem sacerdote scalabriniano: um deles, que não era católico e não está mais entre nós, o comparou ao Padre Pasquale Forin mais novo. Eu, que tive a sorte e a honra de conhecer o Padre Pasquale no tempo em que ele trabalhava em Campo Grande e eu era um tímido estudante de História na antiga FUCMT, fiquei curioso com a comparação. Até porque, por meio dele, conheci alguns sacerdotes scalabrinianos de Campo Grande que não esqueço, pois eles são marcantes e têm um lema memorável (que aprendi com um deles): “Era estrangeiro e me acolhestes.”

Pelas adversidades da Vida, somente em 2020, por causa da pandemia, é que tive a sorte e a honra de conviver mais proximamente dele -- lamentavelmente, com o distanciamento social proposto pelas novas normas de biossegurança. Graças à “teimosia cidadã” de Companheiras/os como as/os Professoras/es Simone Yara Benites da Silva, Anísio Guilherme da Fonseca, Cristiane Sant’Anna de Oliveira e Thiago da Silva Godoy (entre outras/os não menos determinantes), foi possível construir o Comitê Popular de Enfrentamento à Pandemia e, com isso, nos foi possível a oportunidade desse encontro há muito desejado: Dom João Bergamaschi, Bispo Diocesano de Corumbá, indicou o Padre Marco Antônio representante da Diocese no Comitê Popular, e, nessa condição, o elegemos, com outras/os Companheiras/os, para ser ponto-focal (popularmente chamado de membro da secretaria-operativa) desse espaço pioneiro de cidadania e solidariedade a serviço da Vida.

Com generosidade, abnegação e talento surpreendente, Padre Marco Antônio hábil e sabiamente soube representar e inspirar o Comitê Popular em momentos cruciais da pandemia: campanhas de solidariedade, mesas de diálogo, acompanhamento do COE (centro operacional de enfrentamento à pandemia da prefeitura de Corumbá), seminários nacionais e internacionais sobre esse flagelo (e também o das queimadas criminosas que o nefasto desgoverno federal se recusa a enxergar)... Além de ter sido gentil e generoso com todos os seus membros, inclusive com este inegavelmente “rabugento” aprendiz de cidadão, que depois de passar dos 60 anos, não abre mão de seu direito de não engolir desaforos, até para preservar a própria saúde.

Foi ele que me convidou a participar de um seminário, em julho, do qual também participou o querido Professor Marco Aurélio Machado de Oliveira, irmão de vários/as Companheiras/os de luta na juventude, entre as/os quais destaco meu contemporâneo e Companheiro de aventuras cidadãs, o Professor Tito Carlos Machado de Oliveira, por unanimidade eleito presidente da chapa “Debate & Ação” para o Diretório Acadêmico Félix Zavattaro (DAFEZ), da Faculdade Dom Aquino de Filosofia, Ciências e Letras (FADAFI), lamentavelmente derrotada, ainda que tivesse entrado para a história do movimento estudantil, com sua marcha deliciosa, criativa e instigante “somos ‘Debate e Ação’...”, composta pelo querido e sempre presente Chico, o Francisco Porto, irmão mais velho do Toninho Porto, músico que, acredito, esteja na Europa.

E, como em tudo na Vida, hoje nos vemos com os olhos marejados e a voz embargada: é difícil se acostumar a despedidas, sobretudo quando pessoas marcantes, como o Padre Marco Antônio, se distanciam de nós em momentos álgidos, determinantes. Ao final da reunião ordinária do Comitê Popular de Enfrentamento à Pandemia, dia 25 de novembro, fomos surpreendidos por sua despedida, pois, a partir de 1º de janeiro de 2021, estará em Manaus para assumir uma paróquia, algumas pastorais e demais obrigações como sacerdote scalabriniano. Confesso que naquele instante me reportei à despedida do igualmente querido e hoje saudoso Dom José Alves da Costa, quando eu estava trabalhando fora de Corumbá e não pude participar pessoalmente.

Desse modo, só temos que agradecer à Vida por ter-nos presenteado um Amigo dessa magnitude, que levamos para toda a existência em nossas mentes e corações. Desejar que tenha muita saúde e Vida longa, além de sorte e êxito em sua abençoada missão. E que, quando tiver que ser guindado a outras missões, que o coração do Pantanal e da América do Sul possa voltar a ser contemplado, para felicidade dos anônimos cidadãos que por aqui transitam como migrantes ou refugiados, além das comunidades de base da Diocese de Corumbá, que de forma exemplar representou e dignificou.

Obrigado, Padre Marco Antônio, e até breve!

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Bolívia -- Evo Sem Fronteiras: "Estamos de volta e somos milhões"

 

Bolívia – Evo Sem Fronteiras: “Estamos de volta e somos milhões”

Supriyo Chatterjee সুপ্রিয় চট্টোপাধ্যায়

21/11/2020, Tlaxcala Rede Internacional de Tradutores

Sonhos, premonições, mitos e história conduziram Evo Morales por uma pequena ponte, do exílio de um ano no México e na Argentina, de volta à Bolívia. Deixou o país como presidente deposto e volta sem seu gabinete, mas agora, parece, pode pôr-se lado a lado de dois gigantes continentais e emergir como herdeiro do mesmo estandarte, espécie de ímã para os despossuídos e deserdados, num continente acossado pelo Covid, do sul do Rio Bravo até o Orinoco?

“Nayawa jiwtxa nayjarusti waranqa waranqanakawa kutanipxa”

(“Morro, mas voltarei amanhã e serei milhões”)

Últimas palavras do líder aimará Tupac Katari, antes de ser esquartejado pelos espanhóis, dia 15 de novembro de 1781. Suas palavras viralizaram, depois que Evo conseguiu escapar da Bolívia, ano passado.

Primeiro, vieram os sonhos. Em outubro, Evo sonhou que escalava o pico de uma montanha e lá recebia uma medalha. Uma semana depois, teve exatamente o mesmo sonho. Foi quando, diz ele, soube que seu partido “Movimento para o Socialismo”, esp. MAS, sairia vencedor das eleições presidenciais de novembro. Muitos estranharam a confiança arrogante, mas Evo já teve premonições desse tipo. Antes da morte de sua irmã, em agosto, sonhou que uma tia já falecida chegara à procura dela. Os sonhos de Evo provaram-se certeiros: seu partido alcançou vitória retumbante, seu ex-ministro da Economia e seu ex-chanceler foram eleitos presidente e vice-presidente, e o exílio logo acabaria.

Apenas um ano antes, em 2019, Evo vivia um pesadelo. Com um golpe já em andamento em La Paz, refugiou-se numa base do partido na região de Cochabamba, confinado num campo de pouso, com os conspiradores enviando mensagens ao pessoal da segurança que o acompanhava com ofertas de muito dinheiro, dólares norte-americanos, para que lhes entregassem o Presidente, para ser morto ou para ser mandado para os EUA. Foram necessários muito planejamento e manobras, encabeçados pelos presidentes do México e da Argentina, antes de conseguirem que um avião da Força Aérea mexicana decolasse, levando Evo e seu vice-presidente, Alvaro García Linera, pela escuridão da noite tropical, para o exílio, no México.

O exílio vive incorporado à história da América Latina, desde a colonização. A Coroa espanhola não só mandou muitos de seus indesejáveis para exílio permanente nas Américas, também despachou agitadores americanos para a Espanha, para Porto Rico e até para as Filipinas. O exílio virou lugar-comum durante a guerra da independência. Simon Bolívar, o libertador do continente, morreu longe de sua Venezuela natal, vendo seu sonho de uma Grande Colômbia dissolver-se à sua volta. No Chile, Bernardo O'Higgins e José de San Martín e seus adversários, os irmãos Carrera, todos esses conheceram o exílio. Buenos Aires, Montevidéu, Santiago do Chile, Caracas e Cidade do México receberam grandes populações de exilados. Um dos exilados mais famosos que viveram na Cidade do México foi Fidel Castro, que ali reuniu a vanguarda da revolução cubana.

A América Latina tornou-se refúgio de milhares de Republicanos que fugiam da perseguição assassina de Franco durante e depois da Guerra Civil Espanhola. Depois, com o fascismo e a Segunda Guerra Mundial, veio uma onda de refugiados de Itália, Japão e Alemanha. A maré logo virou, quando o Novo Mundo começou a expelir seus exilados. O argentino Juan Domingo Perón padeceu longo exílio na Espanha em meados do século 20, quando milhares de chilenos, argentinos e uruguaios comuns tiveram de fugir como exilados políticos durante o terror dos anos 1970. O êxodo colombiano nunca parou. A angústia e a nostalgia dos colombianos por uma pátria para eles perdida transparece nos escritos e nos poemas de Pablo Neruda, Eduardo Galeano e Mario Benedetti, entre tantos outros, e impressos na memória coletiva.

Evo e Álvaro Garcia Linera, no comício da volta, no aeroporto Chimore

O exílio de Evo foi curto, mal durou um ano, e o retorno foi triunfante. O aeroporto Chimore, de onde saíra da Bolívia na calada da noite, foi palco do maior comício da volta, com multidão de mais de meio milhão de pessoas. A sustentá-lo no exílio estava o mito de Tupac Katari, o líder indígena boliviano cujas últimas palavras, reza a história, teriam sido “Morro, mas voltarei amanhã e serei milhões.”

Para os povos indígenas da Bolívia, Tupac Katari mítico cumpriu o que lhes prometeu, e dessa vez estão na posição de povos vitoriosos. Evo decidiu que outra vez viverá como líder sindical, seus longos dias de trabalho já livres de assuntos de estado, dedicados outra vez a mobilizar e unir os mineiros, os trabalhadores do setor público, os camponeses, como foi seu pai, e plantadores de coca, para proteger o frágil novo governo contra ataques do ancien regime – que continua a conspirar com grupos paramilitares e dentro dos quartéis e das forças especiais da Polícia.

O novo governo tem todos os motivos para desconfiar da polícia e daquele irrepreensível pedigree de repressão. Originalmente modernizado por um general prussiano nos anos 1930, a certa altura chegou a ser treinado por ninguém menos que Klaus Barbie, o Carniceiro de Lyon. A inteligência dos EUA ajudou Klaus a fugir da França para a Bolívia, onde adestrou as forças policiais nas artes da tortura e de fazer desaparecer ativistas da oposição; adiante, uniu-se a Pablo Escobar, senhor-da-droga na Colômbia, sempre operando como informante para os EUA. O Pentágono cuidou dessas forças ao longo de todas as ditaduras no século 20. Naturalmente, os norte-americanos têm sob seu controle todas as polícias locais, conhecidas pelo alto número de corruptos ativos, independente de quem pague seus salários. Em todos os casos fazem muito mais dinheiro nas gangues de extorsão.

Pouco provável que o efeito da volta de Evo limite-se às fronteiras da Bolívia, e não só porque fez a esquerda de todo o continente rememorar que também sabe vencer. Imediatamente depois dos primeiros comícios de boas-vindas, Evo reuniu-se com líderes progressistas indígenas e sindicais, entre outros, de Equador e Argentina, e convocou um congresso de movimentos sociais latino-americanos para Cochabamba, nos dias 17-19 de dezembro. O objetivo é constituir uma organização indígena internacional, focada nas lutas anti-imperialistas e anticapitalistas, e também promover a integração da região.

Diz-se que Evo deseja reanimar a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, CELAC, e a União de Nações Sul-americanas, UNASUL, as duas organizações regionais constituídas quando a esquerda esteve no poder em vários desses países. Governos de direita as puseram em estado de coma induzido, e é difícil ver como Evo poderá fazer ressurgir aquelas organizações, dado que já não é chefe de estado. Mas pode ajudar Luis Arce, presidente da Bolívia nessa empreitada, e se, no futuro imediato, a esquerda voltar ao governo em outros países, é possível que aconteça. Por enquanto, por mais que o deseje, a reanimação dessas organizações está além das capacidades de Evo.

Seu maior impacto político pode ter efeito no Equador, ano que vem. Parece estar-se unindo ao candidato da esquerda às eleições presidenciais do próximo ano no Equador, e ao líder da maior coalisão indígena naquele país. As duas forças estão em disputa desde o governo de Rafael Correa, mas a enorme população indígena do Equador poderia impulsionar uma frente única com vistas ao poder naquela nação andina.

Há outros países com população majoritariamente indígena, como Peru, Paraguai e Guatemala na América Central, mais até agora nenhuma delas dá sinal de se ter deixado seduzir pelos talentos de Evo.

As populações indígenas no continente não têm identidade comum ou monolítica, nem construíram movimentos sociais ou étnicos nos respectivos territórios nacionais. Não são tampouco imunes às fraturas de classe, às ideologias ou à influência de culturas não originárias, mas o boom econômico dos anos de exportação de matérias-primas está acabado e os tempos de ‘política é negócio como sempre’ estão também nos estertores finais. Esse pode ser solo fértil para que Evo consiga modelar um bloco revolucionário indígena coeso, e reafirmar uma identidade comum que ultrapasse fronteiras. Seja como for, hoje o sucesso desse projeto está longe de poder ser dado por garantido.

A volta triunfante de Evo consagrou um mito contemporâneo na América Latina, onde muitos na esquerda – mais nos movimentos de base que nas altas lideranças – estavam à procura de alguém que preenchesse o vazio que se criou com a morte de Fidel e de Chávez. Aprendiz de ambos, na origem, Evo pode emergir como herdeiro, como referência discursiva, conforme cresça sua estatura como olho gerador do furacão. Como os dois líderes antes dele, Evo tem o capital moral e uma vontade férrea de devolver os golpes do império que se vai desmoronando, sim, mais ainda muito lentamente.

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Evo Morales Ayma:

Mi vida. De Orinoca al Palacio Quemado, 2020, Argentina: Ed. Página 12

(Compartilhado do Grupo Debate Internacionalista, coordenado pelo Amigo Camarada Professor Lejeune Mirhan, a quem agradeço pela generosidade da iniciativa.)

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

ROBERTO ORRO, UM DEMOCRATA A TODA PROVA...

Roberto Orro, um democrata a toda prova...

Pela voz embargada do querido Amigo-Irmão Edson Moraes, fico sabendo da eternização do advogado Roberto Moaccar Orro, deputado constituinte em 1979, diversas vezes deputado estadual e uma vez secretário de Estado de Justiça, no mandato peemedebista do ex-governador Marcelo Miranda Soares.

Conheci o então Deputado Roberto Orro na recém-inaugurada sede da Seccional Sul-mato-grossense da Ordem dos Advogados do Brasil (situada então no imponente prédio da esquina das ruas Pedro Celestino e Cândido Mariano), mesmo evento em que também conheci o deputado Sérgio Manoel da Cruz, seu chefe de gabinete Mário Corrêa Albernaz e os advogados Carmelino de Arruda Rezende e Wilson Barbosa Martins (presidente da entidade) e reencontrei o vereador e ex-candidato a senador Plínio Barbosa Martins (que conhecera em campanha em Corumbá, ao lado do incansável Hugo Pereira, seu maior fã e apoiador).

Afetuoso, o Deputado Orro, assim que ouviu meu nome, como bom “patrício”, fez questão de me perguntar o nome de meu Pai e de que cidade era oriundo. Bastou uma vez, para que ele me identificasse em qualquer evento onde nos reencontrássemos, e não demorou muito para que ele mesmo me apresentasse o também querido Seu Anízio Salamene, mais que Primo seu um grande fã, falecido há alguns anos. Sua Companheira, grande guerreira e incansável socialista, é a Professora Yonne Ribeiro Orro, anos-luz à frente de seu tempo.

Eram tempos de arbítrio e a cooptação de quadros da oposição era feito cinicamente. A bancada do então MDB (oposição ao regime) havia perdido um terço dos parlamentares. O líder era o Deputado Sérgio Cruz, incansável aríete contra os serviçais da ditadura, e o vice-líder naquele momento era o Deputado Roberto Orro, acusado inclusive por outros oposicionistas de ter vínculos com “subversivos”, por sua postura democrática e não discriminar pessoas acusadas de militar em partidos de esquerda, então proibidos de existir.

As convicções democráticas de Roberto Orro são conhecidas por todos, sobretudo por causa das inúmeras perseguições que sofrera durante o regime de 1964. Comedido e reservado, o então deputado contrastava com aquela imagem parcimoniosa quando era chamado para a defesa da causa democrática, fosse na tribuna, perante um batalhão de jornalistas ou ante autoridades ligadas à ditadura: defesa dos Direitos Humanos, das terras dos povos originários, da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, da Assembleia Nacional Constituinte, dos direitos dos trabalhadores ou das liberdades democráticas.

No breve período em que tive a honra de integrar dois projetos sediados na Assembleia Legislativa (no tempo em que estava instalada em frente da Praça do Rádio Clube), primeiro no gabinete da Liderança do PMDB, sob a coordenação do saudoso Amigo Mário Corrêa Albernaz e do Irmão Edson Moraes, e um tempo depois no gabinete da Vice-liderança do PMDB, sob a coordenação dos Amigos Mário Sérgio Lorenzetto e Amarílio Ferreira Júnior, constatei a coerência, coragem e lealdade de alguns deputados oposicionistas, em especial de Sérgio Cruz e Roberto Orro, que quando possível desenvolviam atividades conjuntas, para desespero das forças conservadoras.

No processo de construção do PMDB, entre 1980 e 1982, Roberto Orro manteve a sua postura discreta, mas contundente, frente às investidas do então governador Pedro Pedrossian e seus inúmeros projetos ousados, como o Guatambu, o Panelão e o Apa-Poré. Ora ao lado de Sérgio Cruz ou em companhia de Plínio Barbosa Martins, Roberto Orro dividia o mandato de deputado com as obrigações de dirigente partidário para dar cobertura jurídica ou política aos correligionários assediados pela força poderosa do regime, personificado na figura de caudilho predestinado Pedrossian.

Não posso esquecer da defesa sôfrega e emocionante dos Terena na Aldeia do Bananal, em Aquidauana. O Cacique Domingos Terena se impunha como liderança legítima de sua comunidade ante a arrogante postura dos coronéis da FUNAI em Campo Grande e em Brasília. À época, os parlamentares do PMDB davam lição aos seus sucessores como atuar em tempos de autoritarismo, e aí há que se reconhecer a coerência do também Deputado Sultan Rasslan, de Dourados, em sua atuação de parlamentar oposicionista.

Quando Roberto Orro era secretário de Justiça, em 1987, atendeu a um chamado nosso, com a maior generosidade, para o ato de lançamento do Comitê 29 de Novembro de Solidariedade ao Povo Palestino, em companhia da Professora Yonne Orro, da saudosa Jornalista Margarida Marques e da igualmente querida Jornalista Maria Helena Brancher. Muito gentil, fez questão de conhecer pessoalmente meus Pais, dedicando uma meia hora com minha Família, embora sua agenda em Corumbá fosse bastante atribulada. Creio que foi meu encontro derradeiro com esse grande democrata cujo rico legado é motivo de honra para seus contemporâneos.

Até sempre, querido Companheiro Roberto Orro!

Ahmad Schabib Hany