quinta-feira, 9 de setembro de 2021

FRENTE AMPLA PELA DEMOCRACIA MS

Frente ampla pela Democracia MS

Fonte: Correio de Corumbá 8 de Setembro de 2021


Ulysses Guimarães, deputado federal do PMDB-SP e presidente da Assembleia Nacional Constituinte, levanta um exemplar da Constituição do Brasil, no dia da promulgação no Congresso Nacional.

JOAO RAMID/Dedoc

A democracia é uma conquista da civilização. Fora dela, só a barbárie. No Brasil ela foi conquistada com dura luta. Na década de 1980, os brasileiros foram às ruas no movimento "Diretas Já". Esse movimento permitiu a conquista da Constituição de 1988 com todo um regramento democrático pactuado, inclusive as eleições diretas. A amplitude dessa frente política foi a condição da vitória. Três décadas depois, a Democracia brasileira encontra-se ameaçada.

No epicentro dessa crise está o Presidente da República, um populista incapaz de enfrentar a crise sanitária, o desemprego e a inflação. Além disso, investe contra as instituições democráticas e o estado de direito. Sentindo-se ameaçado quanto à sua reeleição, lança-se diariamente na construção de crises que têm o objetivo de criar uma cortina de fumaça para tentar esconder seus propósitos autoritários de ruptura da ordem democrática, com um golpe de Estado.

Não resta aos brasileiros outro caminho senão o da resistência com a formação de uma frente ampla democrática. Esse manifesto é uma conclamação à luta contra as ameaças de golpes que pairam sobre o país. Conclamamos também ao apoio ao trabalho da CPI do COVID 19, que está revelando toda a extensão da incapacidade da área de Saúde do governo e expondo fortes indícios de envolvimento com a corrupção.

Nosso caminho é construir um combate sem tréguas em todas as frentes, nos parlamentos, nas instituições sociais, nas redes e principalmente nas ruas. Devemos apoiar as passeatas que têm sido realizadas, cobrando o seu caráter aberto e democrático, levando a elas todas as cores com as quais os brasileiros se identificam.

A luta pela democracia deve ser de todos.

Acileu Brun (Músico e Compositor; Academia de Letras do Brasil, seccional de Campo Grande); Ahmad Schabib Hany (Professor; UFMS Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa, Corumbá); Aldo José dos Santos (Vereador de Anastácio; PDT); Aleixo Paraguassú Netto (Juiz de direito; aposentado); Alexandre de Morais Cantero Advogado trabalhista; Conselho OAB nacional); Alfredo Sulzer (Economista); Ályson Jordan Ladislau Gamarra (Produtor Cultural; Acredito); Amarildo Cruz (Deputado Estadual; PT); Amarílio Ferreira Junior (prof. UFSCar); Ana Claudia Salomão da Silva (Jornalista; Sindicato dos Jornalistas de MS e diretora da CUT-MS); André Luiz das Neves Pereira (Advogado trabalhista); Antônio Firmino de Oliveira Neto (Geógrafo; Professor UFMS); Aparecida Bueno Nogueira (Engenheira e profissional de Saúde Pública); Arthur Pedro Jara Cristaldo (Advogado trabalhista); Athayde Nery de Freitas Júnior (Advogado; Cidadania); Beatriz Rahe Pereira (Cirurgiã-dentista); Ben Hur Ferreira (Advogado; Professor UCDB); Bianca Maria Machado de Oliveira (Atriz e Produtora cultural; Fórum de Cultura MS); Branca Maria de Menezes (Professora universitária); Bosco Martins (Jornalista); Camila B. Jara (Vereadora; PT); Carla Centeno (Professora ; UEMS); Carmelino Rezende (Advogado; Cidadania); Carmem Ferreira Barbosa (Assistente Social); Celso Cordoniz (médico); Celso Costa (Arquiteto e Urbanista); Celso Pereira da Silva (Advogado trabalhista; ex-Delegado Regional do Trabalho MS); Celso Petit Mercado (Músico); Dagoberto Nogueira Filho (Advogado e Administrador; Deputado Federal PDT); Daniel Estevam Miranda (Professor; UEMS); Dante Teixeira de Godoy Filho (Jornalista e Escritor); Dario Pires Xavier (Químico; Professor UFMS); Demétrio Ferreira de Freitas (Sindicalista; Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Coletivos Urbanos de Campo Grande, MS); Dirceu de Oliveira Peters (Arquiteto e Urbanista); Edilson dos Santos Sarate (Economista, Assessor parlamentar; PT); Edir S. Viégas (Jornalistra); Eduardo Rocha (Dep. Estadual PMDB); Eliza Cesco (Professora, UEMS); Elma Tânia de Oliveira Gomes (Técnica em enfermagem ); Elvio Garabini (Arquiteto e Urbanista); Emidia Lopes Penha (Professora e Escritora ; Academia de Letras do Brasil/Campo Grande); Fábio Alex Salomão Bezerra (Advogado e Sindicalista; Presidente Sindimassa /Secretario Geral Federação Trabalhadores em Panificação); Fábio Trad (Advogado; Deputado Federal PSD); Fausto Matto Grosso (Professor UFMS; Cidadania); Fayez José Rizk (Arquiteto e Urbanista); Felipe de Moraes Gonçalves Mendes (Advogado trabalhista); Gabriel Felipe Felix (Músico e Cineasta); Gaspar Francisco Hickmann (Advogado e dirigente sindical; Sindsep-MS); Geraldo Espíndola (músico; compositor); Gilmar Conceição; Gregória Mirtes Belmondes (Servidora pública federal); Heitor Miranda (Procurador de Justiça aposentado; Consultor em logística); Luiz Herique Mandetta (Médico; DEM); Ismael Gonçalves (Advogado trabalhista); Izaias Pereira da Costa (Médico; UFMS); Jairo Fontoura Corrêa (Advogado; ex-vereador); James Jorge; João Carlos T. Gordin (Economista); João Leite Schimidt (Advogado; PDT); Jorge Chacha (Médico; ex-Reitor UFMS); Jorge Eremites de Oliveira (Professor em História; UFPEL); Jorge Marques Batista (Servidor Público; aposentado); José Francisco Ferrari (Arte Educador; Ativista cultural); José Luiz dos Santos Filho (Funcionário dos Correios); José Orcirio Miranda dos Santos (Bancário; Produtor rural; empresário turismo; ex-governador do Estado); José Ribas Woitschach (Publicitário; assessor Sindimassa); Jozyne Andrea Simioli Fontoura Correa (Assistente Social); Jussimara Barbosa Bacha (Psicóloga; Empresária Rural); Katia Nascimento Figueira (Professora; UEMS); Lairson Palermo (Advogado; ADJC/MS); Lamartine Santos Ribeiro (Professor; UCDB); Landes Pereira (Economista; Consultor de agronegócio, articulista); Lázaro de Godoy Neto (Biólogo; Presidente do Sindagua-MS); Leandro M. Barbosa (historiador; Func. Público); Leia Teixeira (Prof.UFMS, mov. Mulheres e povos indígenas); Lucimar Rez; Luiz Gonçalves Mendes Júnior (Farmacêutico; Presidente do Sindicato dos Farmacêuticos de MS SINFAR/MS); Luiz Herique Mandetta (Médico; DEM); Luiz Taques (Jornalista e escritor); Maíra Maluf Esselin (Médica); Marcelo Bluma (Engenheiro Civil / Advogado; Presidente Estadual do Partido Verde / MS); Márcia dos Reis Meggiolaro (Jornalista aposentada; UFMS); Marcia Ledesma (Assistente administrativo; Cidadania); Márcia Regina Ledesma Vaneli (Assistente administrativo; Cidadania); Maria Augusta Rahe Pereira (Médica; Cidadania); Maria Celina Piazza (Química ; UFMS); Maria Cristina de Matos Maluf (Professora; Rede Pública); Marisa Bittar (Prof. UFSCar); Maria Emilia Sulzer (Assistente Social); Maria Helena Silva Andrade (Bióloga; Professora); Mário Cesar Fonseca (Advogado; Associação dos Advogados e Advogadas pela Democracia, Justiça e Cidadania - ADJC); Mariza Pereira Santos (Psicóloga); Matheus Seixas Cavalcante (Gestor de Recursos Humanos; Liderança Acredito MS); Marta Hoffman (Eng. Florestal); Milton Mariani (Professor ; Democracia Já); Moacir Saturnino de Lacerda (Engenheiro; meio ambiente/música); Myrian Conceição Silvestre dos Santos (Aposentada; Empresária); Natacha Simei Leal (Antropóloga; Professora universitária); Neide Gomes de Moraes (Advogada; PT); Neila Janes (Arquiteta e Urbanista, UNIDERP); Neuza Chacha (Jornalista); Horácio Cerzosimo (Eng. Agrônomo); Paulo Cabral (Sociólogo); Pedro Celestino Pereira (Engenheiro); Paulo Cesar; Paulo Marcos Esselin (Professor; ADUFMS); Paulo Roberto Cimó Queiroz (Professor; UFGD); Paulo Roberto Paraguassú (Comerciário); Pedro César; Pedro Kemp (Deputado Estadual; PT); Ricardo Maia (Cientista Social; Cidadania); Roberto Figueiredo (Professor); Rogê Teissere Delgado (Gestor; PV); Semy Ferraz (Engenheiro, direitos humanos); Sergio Cruz (jornalista); Silvana Terena (Artesã e microempresária; Cidadania); Silvia Cesco (Poetisa romancista e Professora de português); Silvia Rahe Pereira (Bióloga); Simone Tebet (Advogada e Senadora); Suely Pletz Neder (Defensora Pública ; aposentada); Suzana Dias de Souza de Albuquerque (Artesão e micro empresária; Cidadania); Tânia Bertolotto (Médica); Tânia Mara; Tito Carlos M Oliveira (Geógrafo; UFMS); Valdeli Van; Valter Pereira (Advogado; Constituinte de 88 e ex-senador); Vânia Aparecida; Vânia Mugartt (Professora/Administradora de Empresas; Coletivo Mães de Bonito / PSB); Vera Lúcia Kodjaoglanian (Saúde pública); Vinicius de Moraes G. Mendes (Músico e Compositor; Advogado Sindicato Músico); Vladimir da Silva Ferreira (Professor, PT); Walter Guedes (Professor; UEMS); Wender Lúcio Martins (micro empresário; Acredito); Yonne Ribeiro Orro (Professora; Cidadania); Yves Drosghic (Advogado).

Fonte: Correio de Corumbá (8 set. 2021)

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

NEM COM 'CHUPETA'...

NEM COM ‘CHUPETA’...

Na falta do cérebro perverso de Steve Bannon, tentou-se golpear com Mason Miller, ambos seguidores do maluco Donald Trump. Mas nem com ‘chupeta’, os cérebros tupiniquins conseguiram engatar. E, pior, têm a cara de pau de falar de patriotismo...

Por que aquele desequilibrado que vive a assombrar o Planalto tem tanta ira do STF? Ele desatou a soltar uma fétida diarreia verbal contra o Ministro Alexandre Moraes.

Durante o esvaziamento da bolsa de colostomia que traz em lugar do cérebro, segundo as más línguas, não parava de metralhar pelas ventosas inferiores, ao ritmo da Marcha Militar de Schubert (com o devido respeito à arte universal e, em especial, ao grande gênio da música, Franz Schubert, que teve a felicidade de não ter convivido com hienas em forma de gente como as destas hordas).

Além de sempre ter tido dificuldade de raciocinar, como o Professor Altevir já revelou, o mico, digo, ‘mito’ exala odores pouco admissíveis (talvez por isso a alta rotatividade em seus casamentos). Nem por isso seu rebanho de insanos usa máscara...

Mas, por que tanta ‘reiva’ do Ministro Alexandre Morais?

É que o Ministro Moraes determinou a detenção do 02 de Steve Bannon, Jason Miller, que, na semana que antecedeu o feriado da Independência, veio palestrar, palestrar, palestrar...

Foi só uma ‘coincidência’, tão inocente quanto a população do inferno: uma associação ‘conservadora’ convidou o seguidor do maluco do Donald Trump para ‘arejar’ os pensamentos, e em sua bagagem trouxe alguns programas usados pelo ex-inquilino da Casa Branca, entre eles o da invasão do Capitólio (o Congresso Nacional deles).

Convenhamos: nem fazendo ‘chupeta’ com os perversos cérebros de Trump esses caras conseguem ‘fazer’ dentro do penico? Por que acham que ‘mentes tão brilhantes’ tenham ficado mofando desde que a (mal)ditadura caiu de podre? Nessa corja de recalcados só há gente mal-amada, pervertida e podre, por fora e por dentro. Nem satanás os quer...

As hordas insanas ontem molharam as calçolas à beça... Nem as melhores marcas de absorventes masculinos contiveram tanto assanhamento. Até em nossa distante fronteira a cizânia promovida pela besta-fera do apocalipse atingiu em cheio um casal de adultos que, além de rasgar uma bandeira nacional, chegou às vias de fato quase culminando em feminicídio, o que é comum entre seguidores do misógino-mor.

Indiscutivelmente, o ex-capitão deveria ser, isto sim, cabo eleitoral. De seus adversários - é incompreensível a obsessão por tomar de goleada (contra si mesmo). Daí porque a ‘fakeada’ foi providencial, o que o poupou de dar vexame nos debates. Senão, nem com fraude teria sido eleito.

Mas se esqueceram de adestrá-lo. Ser dignitário em país com um regime presidencialista como é o nosso requer mínima conexão com a realidade e, sobretudo, apreço pelo trabalho. Nem uma coisa, nem outra: desde que foi empossado, só trabalha contra ou, quando muito, só atrapalha sua própria equipe, que, como ele, não é tão brilhante, tal qual o próprio chefe.

Essa conjunção de fatores, levou o Brasil a uma sucessão de crises - sanitária, hídrica, ambiental, educacional, elétrica, cultural, econômica, social, habitacional, política etc -, nenhuma delas encaradas de frente pelo desgoverno. Em vez de agir na hora e com medidas estratégicas (ele e a equipe dele, por serem da caserna, deveriam entender disso), agem quando ‘Inês é morta’.

Não por desconhecimento, mas por opção: é a chamada ‘necropolítica’. Certos agentes políticos têm certo apreço pela morte, como abutres. E pelo visto as hordas que estão em volta do ‘messias’ são chegadas a uma mortezinha aqui, outra acolá. Bem muitos de seus ‘ídolos’, tal qual Brilhante Ustra, eram profissionais da tortura e da morte com requintes de crueldade...

Em resumo, o ‘mito’ anda cavando a sua própria cova, deliberadamente. Não há mais quem o justifique entre as pessoas que gozam de pleno juízo. E se ele acha que vai virar ‘imperador’ com apenas 20% de popularidade, ele simplesmente vai correr o risco de ser linchado, como foi aquele militar boliviano, Gualberto Villarroel, que em 1947 não só foi pego pela multidão ensandecida, como seu corpo foi pendurado em um poste e imolado, tal qual o palácio presidencial, que desde então se chama ‘Palacio Quemado’.

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

‘¿CUÁL ES TU GRANDEZA?’



‘¿CUÁL ES TU GRANDEZA?’

Cinquenta anos depois do envio do telegrama em que comunicava o suposto falecimento do nosso saudoso Irmão ‘Chichi’ durante o sangrento golpe militar de Banzer, o ‘Tío Yoco’ se eterniza, não sem antes ver a Bolívia democratizada.

“Mis pésames. Chichi falleció. Yoco.” Esse era o lacônico teor do telegrama recebido por nossos Pais em um dia de semana de agosto de 1971, durante a eclosão do sangrento golpe militar protagonizado por dois coronéis fascistas - Andrés Selich e Hugo Banzer -, fantoches do Colégio Interamericano de Washington, em que haviam sido adestrados na doutrina da segurança nacional, durante a guerra fria.

Carinhosamente chamado por nós de ‘Tío Yoco’, Irmão mais novo de nossa saudosa Mãe, o Professor José Tamim Hany Ascimani fora incumbido por nossa saudosa Avó materna, Guadalupe Ascimani Vda. de Hany, de escrever aos nossos Pais para comunicar o trágico desenlace de nosso saudoso Irmão mais velho, Mohamed Schabib Hany, chamado na intimidade de ‘Chichi’. Na mesma hora, nossa Mãe e nosso Irmão Muslim, hoje médico aposentado no México, pegaram o primeiro trem de passageiros rumo a Santa Cruz de la Sierra para providenciar o traslado do corpo, que supostamente estaria nos escombros daquilo que um dia fora o Restaurante Universitário da UMSA (Universidad Mayor de San Andrés), em La Paz.

Por meio de Amigos e parentes residentes em La Paz, o mesmo ‘Tío Yoco’ constatou o erro cometido pelas fontes, em meio aos tiros e bombardeios aéreos sobre o chamado ‘monobloco’ (prédio original) da UMSA, durante a realização do massacre que precedeu à vitória dos golpistas sanguinários, capitaneados por dois facínoras chamados Andrés Selich e Hugo Banzer, coronéis do Exército boliviano, serviçais do Colégio Interamericano de Washington. O golpe militar visava derrubar o general esquerdista Juan José Torres, que um ano antes fora apoiado pelos movimentos populares durante o malogrado golpe do general Rogelio Miranda, que ficou por apenas quatro horas no Palacio Quemado, sede de governo. Os mesmos movimentos populares que o apoiaram um ano antes eram os que faziam o cerco de proteção ao Presidente Torres ante as investidas sanguinárias dos golpistas, que tinham em Santa Cruz o epicentro do levante golpista. E era lá onde se encontrava ‘Chichi’, como dirigente estudantil, com líderes operários, camponeses, indígenas, intelectuais e religiosos, razão pela qual estivera a salvo dos bombardeios no RU da UMSA.

Decorridos 50 anos do envio desse histórico telegrama, guardado durante muitos anos por nossos Pais, eis que o protagonista José Tamim encerra sua jornada de oito décadas, mesmo dia em que o emblemático ator, dramaturgo e ativista cultural Sérgio Mamberti também se eternizou, para consternação da cultura universal. Seja o Professor José Hany ou simplesmente ‘Tío Yoco’, mais por seu caráter que pela formação teológica (foi seminarista católico, Professor de Filosofia e Ensino Religioso por décadas a fio, inclusive depois de ter sido sócio em uma escola tradicional de Cochabamba, para onde a Família de nossos Avós se mudaram quando nossa Mãe ainda era solteira).

No dia 3 de setembro de 2021, era de nosso Primo Luis Antonio Mejía Hany a lacônica mensagem, por WhatsApp: “A las 9h50m de esta mañana Tío Yoco falleció. ¡Que en paz descanse!” Eternizara-se um incansável peregrino, um idealista inesgotável. E como num filme, voltei décadas atrás, quando me descobri na casa de nossa Avó Guadalupe, a eterna ‘Abuelita’, tamanho o afeto que lhe devotamos, e que se eternizou, aos 73 anos, depois de ter resistido a um câncer no fígado, no fatídico 1980, ano em que o general narcotraficante Luis García Meza implantou a sanguinária ditadura da cocaína.

As mais antigas lembranças que tenho na memória do ‘Tío Yoco’ são das férias de 1966, um ano depois da eternização do ‘Abuelito’, o Avô materno José Al Hany, que também foi atormentado por um câncer no intestino que o impediu de chegar aos 80 anos. Tudo ainda lembrava o nosso Avô José, inclusive os equipamentos de dentista guardados na despensa da casa, uma ‘broca’ de pedal, do tempo em que a eletricidade ainda não era tão comum, em especial na Amazônia boliviana, onde trabalhou desde que chegou à Bolívia, na segunda década do século XX.

Embora nunca tivesse perguntado ao ‘Tío Yoco’, sempre me deu a impressão do fato de ser homônimo do Vovô acabou pesando sobre ele a responsabilidade de ser o ‘homem da casa’, muito comum nas famílias do início do século XX. Lembro-me que nossa saudosa Mãe se dirigia a ele por ‘Viejo’, mesmo ele sendo 10 anos mais novo que ela e, inclusive, caçula dos homens (antes dele vinham três Tios, dois deles casados e residentes na Argentina). Creio que por essa responsabilidade ele tivesse deixado a vida religiosa (afinal, passara bons anos no seminário, para ser sacerdote católico, razão pela qual se manteve celibatário até o final da Vida).

O ano de 1966 não me sai da memória por ter sido o ano da celebração do ‘bachillerato’ de nossos dois Irmãos mais velhos - Mohamed e Muslim -, quando ‘Chichi’ ganhou o anel de honra ao mérito por ter sido o melhor aluno da escola em três anos sucessivos (mas Muslim também fora, pois estava com ele, logo a seguir, com as menções honrosas típicas daquele tempo). O colégio tinha um nome emblemático: Colegio Nacional Daniel Sánchez Bustamante, tradicional e ‘fiscal’ (isto é, público). Na festa de ‘formatura’, o diretor do colégio fez questão de ir até a mesa de nossa Família, em que estavam, além de nossa Mãe, o ‘Tío Yoco’ e os dois Irmãos, muito cumprimentados pelos Professores, colegas e suas Famílias.

Dias depois (acredito que tenha sido no dia seguinte), Mohamed e Muslim tiveram que ir até um dos quartéis do Exército para fazer o que era chamado de ‘serviço pré-militar’ (espécie de prova de tiro, durante quatro meses), antes de ingressar na Universidade, segundo as leis bolivianas da época. Era o ‘Tío Yoco’ um dos responsáveis por nossos Irmãos perante as Forças Armadas, tal como ocorreu comigo quanto tive que me alistar no serviço militar, já no fim dos anos 1970, ditadura Banzer. Graças ao Amigo do ‘Tío Yoco’ pude cumprir com as minhas obrigações na fronteira, sem problemas.

Creio que tenha sido esse mesmo Amigo do ‘Tío Yoco’ quem tenha resolvido todas as pendências com o ‘Chichi’ em 1971, que, a despeito de seu nome ter constado de uma lista de ‘inimigos’ do regime banzerista, pôde usar passaporte especial assim que obteve os documentos emitidos pela UMSA para a transferência de seus papéis, o que lhe permitiu vir estudar no Brasil. O fato de o ‘Tío Yoco’ ter frequentado o seminário católico representou abertura de portas em diversas instituições, e sempre o fez para os outros, nunca pensou em aquinhoar vantagens para si.

No início da década de 1970, enquanto a Bolívia estava sob a ditadura de Banzer, ele foi para a Áustria, oportunidade em que se capacitou na área de Serviço Social, vinculado à fundação católica austríaca conhecida na América Latina por Gota de Leche. Ao retornar para a Bolívia, em fins dos anos 1970, ele coordenou durante muitos anos os trabalhos da Gota de Leche em Cochabamba, até aceitar a proposta de fazer parte de uma sociedade educacional na mesma cidade, para a qual se dedicou por mais de uma década ao ensino de Filosofia e Ensino Religioso.

Em dezembro de 1983, minha derradeira viagem a Cochabamba e La Paz, em companhia de nossa saudosa Mãe, tive o prazer de passar a Noite de Natal e o Revéllion de 1984 na casa dos Tios. Nessa ocasião, a Vida me permitiu um diálogo muito informal com esse Tio, que sabiamente me inquiriu: “Qual é a sua grandeza?” Era seu lado de Professor de Filosofia que o fez enveredar por esse caminho, e se tratou de uma oportunidade ímpar para eu, com quase 25 anos, começar a dar uma guinada na própria Vida. Não por acaso, sempre que eu quis questionar certas pessoas usei essa sábia indagação metafísica para aprofundar debates nessa perspectiva. Jamais esqueci. Um de seus maiores legados, pelo que lhe agradeço.

Em fins da década de 1980, quando vendeu a parte dele na sociedade educacional, deu início a outra fase da Vida: dedicar-se à venda de ativos financeiros da Bolívia, que se encontrava em franco processo de desmonte pelas políticas neoliberais. Curiosamente, seus contemporâneos de ‘esquerda’ (tipo tucanos no Brasil) eram os que promoviam uma verdadeira privataria no país, o que viria a causar sérios problemas econômicos e sociais, e lhe causava verdadeiros dramas de consciência. Provavelmente esse tivesse sido um dos fatores determinantes para que não alçasse voo nessa atividade, embora tivesse trânsito e prestígio em todos os países árabes industrializados.

Em 1995, quando o ‘Tío Yoco’ retornara de uma de suas viagens ao Oriente Médio, à procura de investidores na Bolívia, fiz questão apresentá-lo a um Amigo honesto e muito inteligente que tinha sido alto executivo da antiga Urucum Mineração e que denunciara as irregularidades na transferência de ações da Metamat S/A para a então CVRD, hoje Vale, cujo nome não vem ao caso. O Amigo, muito sincero, lhe disse que seu trabalho era muito arriscado, pois nas leis de muitos países árabes essa atividade era passível de sanção penal, razão pela qual não poderia assessorá-lo nessas empreitadas. Com a crise causada pelas medidas econômicas de Gonzalo Sánchez de Losada, o Goni, a situação da Bolívia ficou insustentável, quando a crise política culminou com a renúncia de Goni e depois de seu vice, Carlos Mesa. Lamentavelmente, não compreendeu o sentido inovador do Processo Cultural de Revolução Democrática implementado por Evo Morales e o MAS, ainda que reconhecesse a inconsistência dos falsos democratas como Carlos Mesa.

Foi quando ele preferiu se estabelecer no Líbano e centrar foco no Oriente Médio. De lá retornou muito doente e desanimado alguns anos depois. Nosso encontro derradeiro foi em Corumbá, quando ‘Tío Yoco’ e a saudosa ‘Nena’, das caçulas das Irmãs de nossa Mãe, vieram para meu casamento com Solange, em 2005. Ele e ‘Nena’ nos deram a honra de comer um peixe conosco nas primeiras semanas de casado. Desde então, somente pela internet mantínhamos contato. A saúde se debilitara nos últimos anos e a eternização de seu último Irmão, o ‘Tío Cuyé’ (Miguel Safwat Hany Ascimani), um genial arquiteto que dedicara sua Vida a restaurar monumentos históricos pela Bolívia e a lecionar História da Arte no curso de Arquitetura da UMSS (Universidad Mayor de San Simón), há dois anos, precipitou a precarização de seu quadro clínico. Nas duas semanas derradeiras de sua Vida, a saúde ficou muito instável, mas não quis ser internado, tendo-se eternizado em casa.

Com missa de corpo presente, o ‘Tío Yoco’ se despediu de toda a Família, Amigos e ex-alunos do Colegio Seis de Junio, de Cochabamba. Recebeu homenagens dos familiares, Amigos, ex-colegas, contemporâneos e ex-alunos. A discrição e perseverança com que agiu em toda a sua Vida marcou sua passagem por entre nós, sempre com uma generosa utopia nem sempre explicada. Seu legado em meio a uma luz enigmática permanecerá entre nós.

‘¡Hasta siempre, querido Tío Yoco!’ Que sua inquietude inesgotável, que o tornou jovem desde sempre, abra horizontes generosos entre as novas gerações, obviamente no contexto dos novos tempos.

Ahmad Schabib Hany

domingo, 5 de setembro de 2021

PROFESSOR FRANCISCO VIVE

PROFESSOR FRANCISCO VIVE

Quinze dias depois da eternização da Professora Terezinha, o Professor Francisco Carlos se eterniza, ampliando o vazio nas mentes e corações da comunidade educativa de Corumbá e Ladário.

Professor Francisco Carlos Ignácio. Professor de Matemática, Geometria e, sobretudo, de Vida. Um corumbaense por opção, nascido em Rezende (RJ). Simples, sincero, brincalhão e com total domínio de suas disciplinas. Como um meteoro, deixou marcas indeléveis nas mentes e corações dos estudantes de todas as idades, dos pais e colegas.

Professor de talento e comportamento inesquecíveis, tamanha a dedicação ao seu ofício, envolvimento e solidariedade espontânea. Em tempos tão adversos, não demonstrava qualquer desânimo ou cansaço quando incursionava pelo universo do raciocínio lógico, por meio do qual demonstrava e ensinava as tão temidas (quanto cativantes) disciplinas de Arquimedes, Pitágoras e outros mestres que parecem nossos contemporâneos.

Pessoas assim nos dão a impressão de que são para sempre: não têm problemas, nem de saúde. Por onde o encontrássemos, lá estava ele com seu alto astral, bom-humor, sorriso largo e contagiante, solícito e atento. Na despedida à Professora Terezinha Baruki, segundo testemunho dos que estiveram no funeral, a comoção dele era contagiante. Ele também se despedia dos colegas e Amigos.

No primeiro dia de aula posterior ao luto pela Professora Terezinha, veio a notícia de que fora acometido por um acidente vascular cerebral isquêmico, dos mais graves e cujas sequelas são profundas. Embora seu temperamento o destacasse por sua inesgotável capacidade de superar obstáculos, não pôde resistir às sequelas do AVC, e na quinta-feira, dia 2 de setembro, encerrou sua iluminada jornada.

Ao testemunhar a profunda consternação (com uma dose de revolta juvenil) de dois de seus alunos, que são os nossos Filhos Omar e Sofia (de 13 e 11 anos), ainda não refeitos do baque pela perda da Professora Terezinha, ficou claro que eles tiveram dificuldade de aceitar o fato de uma mente brilhante, “um crânio”, e Amigo inspirador, pudesse adoecer e vir a se eternizar...

Não foi só uma grande perda para sua Família, que obviamente conviverá com um vazio do tamanho de sua generosa dimensão, sempre a irradiar alegria, irreverência e afeto de Avô e Pai especial. Era assim, aliás, como se relacionava com os seus alunos. Por conta disso, o luto, essa dor, terá uma dimensão ainda maior.

Conhecemos o Professor Francisco em 2019, quando o IBEC/Objetivo apresentou os seus Professores para as séries que nossas Crianças então estavam fazendo, no matutino. Mais que fã, Omar, então aos 11 anos, virou seu Amigo, e assim o Professor Francisco passou a ser uma referência para ele (e não foi diferente com a Sofia, que dois anos depois passou a ser sua aluna e fã, chamando-a de ‘Mundo da Sofia’).

Por conta da pandemia, o relacionamento interpessoal passou a não ocorrer como antes. Diante da dificuldade enfrentada por Omar, que tem dificuldades com o distanciamento social, o Professor Francisco, generosa e espontaneamente, fez questão de visitá-lo algumas vezes em casa, quando conversava como Amigo, o que o deixou muito animado e mais seguro com os seus estudos.

A maneira de o Professor Francisco interagir com os alunos nos cativou profundamente, a ponto de compará-lo a dois brilhantes Professores de Matemática das décadas de 1970 e 1980 que não mais estão entre nós. Humilde, ele apenas sorriu. É que sua simplicidade o tornava mais acessível às novas gerações, e o domínio das disciplinas facilitava, ou descomplicava, a compreensão dos alunos.

Em sua derradeira visita, no mês de junho, havíamos ficado de conversar sobre as lições de Malba Tahan, autor brasileiro do célebre e universal “O homem que calculava”. Não houve tempo, mas o legado e o exemplo de entrega a seu ofício e seu modo de ser estão presentes, vivos em nossas mentes e corações.

O Professor Francisco vive, sim, e suas aulas eternas e ternas ecoam descortinando os horizontes das novas gerações - como sempre, a reafirmar o conhecimento, a Ciência, como luz inesgotável que assegura um futuro civilizatório para a humanidade.

Até sempre e obrigado, Professor Francisco, pela generosidade, afeto, talento e simplicidade com que ensinou e cativou seus alunos, suas famílias e a todos nós em tempos tão adversos!

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O QUE HÁ POR TRÁS DO 'GOLPE'

O QUE HÁ POR TRÁS DO ‘GOLPE’

Serviçais do império decadente, as hordas em desespero estariam preparando a farsa como cenário para eliminar o líder das pesquisas: é preciso preservar Lula de todas as possibilidades de atentado. Não tendo competência para governar, precisam fazer algo, a exemplo do crime impune contra Marielle Franco e os massacres durante o golpe de novembro de 2019 na Bolívia, protagonizados por jagunços, travestidos de ‘matoqueiros’.

Protegidos desde os tempos da colonização, os jagunços que compõem as matilhas de hienas na retaguarda do 3d (desqualificado, desconectado e delinquente) precisariam fazer o que fazem e sempre fizeram com desenvoltura: matar, matar, matar...

Até porque no (des)governo só fizeram mamar, mamar, mamar...

Se o nosso saudoso hebdomadário irreverente e ousado, O Pasquim, estivesse ativo, já estaria na boca do povo o novo mote do desgoverno de ratazanas incompetentes: Pátria (m)amada, Brasil.

A farsa do ‘golpe’ (na verdade, ‘autogolpe’) teria um propósito claro: eliminar o líder das pesquisas e maior estadista brasileiro do século XXI, Lula. Seria a única maneira de ‘sair por cima’ perante seus amos e senhores de Manhattan depois do descalabro vergonhoso que foi o desgoverno do 3d.

O cientista político Cláudio Couto, colaborador de CartaCapital, em seu mais recente artigo analisou a falta de funcionalidade de um ‘golpe’ protagonizado por milicianos de todos os matizes e ofícios. Em síntese, não há sentido prático nem razão.

O derretimento de seu desgoverno, o descontrole total dos indicadores econômicos, a perda de credibilidade do ‘Posto Ipiranga’ e o indisfarçável desespero que toma conta da ‘dinastia’ Nero são fatores determinantes para um ato suicida, kamikaze, para ‘lavar a alma’ (?) de suas hordas ensandecidas...

Por outro lado, há poucos dias um bolsonarista fanático (até parece redundância) gravou um vídeo em que ameaça de morte o Presidente Lula. Simplesmente silenciaram. Aliás, há um pacto de silêncio entre eles para não dar pistas sobre os objetivos reais, e entre os seus amos e senhores, em vez de preocupação, há uma expectativa inconfessável, que os observadores mais antigos comparam à véspera do desfile de John Kennedy em Dallas, em 1962.

Dia 31 de agosto, durante a reunião da comissão interministerial de gestão da crise hídrica, o clima era de fim de governo. Melancolia e desalento são a expressão mais eloquente de um ajuntamento de hienas que nunca teriam se encontrado não fosse o golpe midiático-parlamentar meia-boca que descambou no fascismo mais retrógrado, incompetente e bizarro da história da humanidade.

Na falta de capacidade para governar ou construir uma mísera obrinha aos fundos de qualquer condomínio da barra, às hordas patrioteiras, de alma delinquente, não resta repetir o que julgam fórmula perfeita - a execução da Vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson -, protegidas pela impunidade criminosa que sempre existiu.

Cabe a todos os cidadãos e cidadãs verdadeiramente comprometidos com os valores mais caros construídos pela humanidade nos últimos milênios fazer um contundente clamor às Nações Unidas (ainda que a ‘Pax Americana’ ainda seja hegemônica), em especial para a alta comissária dos Direitos Humanos Michelle Bachellet, para fazer, antes do Dia da Independência, uma peregrinação pelo Brasil e intimidar os monstros que saíram da caixa de pandora e atentam contra o passado, o presente e o futuro deste País-continente.

É hora de Lula ser preservado de todas as atividades públicas. Sem falsos pruridos, ele tem que ser protegido. Porque é, para esses facínoras pernetas-patetas, o único trunfo de que dispõem neste momento de desespero e insanidade explícita. Incompetentes, não conseguiram fazer absolutamente nada além de patacoadas ridículas.

Esse alerta foi dado por um veterano Jornalista chileno baseado nos Estados Unidos, que há décadas acompanha os gusanos cubanos que, que cócoras, clamam por Mi-ami, Mi-ami, Mi-ami... Trata-se de um produtor de um canal árabe que garimpa as bizarrices do império, motivo pelo qual usa um pseudônimo nas redes socais.

Na verdade, o ‘plano a’ era para ter sido adotado, caso a popularidade do imbecil não tivesse despencado tanto, por meio do caos protagonizado por ‘matoqueiros’, como o facínora-mor andou tentando, mas faltou volume, densidade, para os seus nefastos propósitos.

A proposital demora na elucidação da execução da Vereadora Marielle Franco serviu de incentivo para a adoção do que para eles agora é a ‘fórmula perfeita’. Isso nos remete a 1980, no início da decadência sôfrega da (mal)ditadura, quando, em 1º de maio, ocorreu o acidente do Riocentro (acidente de ‘trabalho’, porque o atentado, felizmente, não ocorreu, que teria sido durante o show de Chico Buarque, num auditório tomado de fãs), cujo resultado é de conhecimento de todos.

‘Teoria da conspiração’ ou não, é melhor preservar a Vida e a integridade física de Lula, o único líder popular capaz de fazer uma transição tranquila para colocar o Brasil nos trilhos e restaurar o Estado Democrático de Direito. Além das sobejas provas de lucidez, capacidade e reconhecimento internacional que ele deu ao longo de oito anos de seus dois mandatos presidenciais, avalizou os dois mandatos conquistados por Dilma, ainda que tivesse sido golpeada no início do segundo mandato.

Mais uma vez, o Povo Brasileiro demonstra a sua grandeza, por meio do retirante que não só venceu no ‘sul maravilha’, mas comprovou aquilo que os ancestrais conheciam e reconheciam: a sabedoria, a humildade e o amor ao próximo não são apenas virtudes, mas os melhores parâmetros para a governabilidade.

Direitos não são benesses, favores, mas conquistas que não podem ser perdidas, como vêm ocorrendo desde 2016, quando o ‘brimo’ Temer arranjou uma pinguela para dar o bote e acabou tratorado pelas hordas fascistas que tomaram de assalto os destinos da Nação.

Não percamos o foco: preservar o Estado Democrático de Direito é também assegurar a integridade física do maior líder popular dos últimos 60 anos, e cada cidadão digno do nome pode assegurar a Vida e a dignidade do Povo Brasileiro respeitando a Democracia e a normalidade das instituições.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 31 de agosto de 2021

COMPANHEIRO ROQUE FERREIRA, SEMPRE NA MEMÓRIA!

REPUBLICADO COM INCLUSÃO DO NOME DO INCANSÁVEL COMPANHEIRO VALDEMIR VIEIRA, O POPULAR 'XIS', QUE DEPOIS DE DEIXAR A DIREÇÃO DO SINDICATO DOS FERROVIÁRIOS FUNDOU A ASSOCIAÇÃO DOS FERROVIÁRIOS APOSENTADOS E DEMITIDOS DE MATO GROSSO DO SUL E PUBLICOU UM LIVRO COM AS MEMÓRIAS COLETIVAS DO SINDICATO E DE SUA CATEGORIA.

COMPANHEIRO ROQUE FERREIRA, SEMPRE NA MEMÓRIA!

Primeiro dirigente sindical ferroviário classista, Roque Ferreira foi mais que um Companheiro, foi um Mestre que abriu os horizontes de outras categorias de trabalhadores ainda tolhidos pela ditadura não só em Bauru e MS, mas em toda a América Latina. Seu legado de luta e internacionalismo viverá sempre em nossa memória.

Por meio do Companheiro Anísio Guilherme da Fonseca, o Anísio Guató, soube da triste eternização do grande, gigante, Companheiro Jornalista Roque Ferreira, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Bauru e Mato Grosso do Sul. Depois de ter lutado renhidamente contra a covid-19, esse ser humano de infinita grandeza encerrou sua incessante jornada no dia 4 de setembro de 2020, cujo legado atravessa as fronteiras da categoria ferroviária de toda a América Latina, como líder leal da classe trabalhadora e internacionalista.

Tive a honra de conhecê-lo em meados da década de 1980, quando viera a Corumbá, de carro, para conhecer de perto a realidade dos ferroviários desta fronteira. Já passava das 22 horas e estava à procura de uma estalagem para se restaurar da viagem. Uma feliz coincidência, nessa noite meu Pai decidira esperar pela chegada de um grupo de turistas ao Pantanal com as portas abertas do refeitório da pousada, e eu me incumbira de aguardar pelo grupo. Nisso chega um carro com quatro passageiros a perguntar por alguma refeição, e como Dona Divina, a cozinheira, ainda estava a postos, disse que sim, que podiam adentrar ao salão.

Discreto, o grupo se sentou à mesa e, enquanto aguardava pela refeição, tomava algum refrigerante, sem alardes. Com a chegada do grupo de turistas (Corumbá vivia a febre da telenovela ‘Pantanal’, da extinta TV Manchete, e fervilhavam os grupos de brasileiros ávidos pelas maravilhas do bioma, até então desconhecidas pela maioria dos brasileiros), passamos a nos dedicar também à recepção dos jovens turistas à pousada. Em seguida, como bom Jornalista que Roque era, começou a me indagar com uma série de perguntas sobre o turismo, o Pantanal e as ferrovias, tanto a ex-Noroeste como a Oriental, da Bolívia.

Provavelmente pela forma como respondi, se sentiu mais à vontade para falar sobre as questões dos trabalhadores na região. Mesmo não sabendo ainda com quem eu estava conversando, falei sobre a primeira paralisação dos ferroviários ocorrida na região no ano anterior (quando um diretor do Sindicato, de nome Jesus, viera de Bauru, e pela forma como conduzira o movimento, o ferroviário Manoel Vitório acabara transferido à revelia, primeiro para a estação de Urucum e depois para a de Luiz Gama, perto de Água Clara, na região do Bolsão).

Eles se entreolharam, e aí finalmente o agora saudoso Roque se identificou. O grupo estava viajando de carro pelas cidades da rota da ferrovia Bauru - Corumbá porque a direção da ferrovia, ainda sob as orientações dos sabujos de 1964, detinha controle absoluto da circulação de sindicalistas em seus comboios. Não é demais lembrar que os x-9 permaneceram até a privatização da RFFSA, no governo de FHC, em 1996, fossem eles de carreira ou das empresas terceirizadas que já atuavam em seu percurso.

Quiseram saber algo mais sobre Manoel Vitório e sua transferência para Luiz Gama. Depois, sobre o acidente por picada de cascavel sofrido por ele e sua recuperação em Ribas do Rio Pardo. Como eu o conhecera, por meio do Companheiro Tito de Oliveira (de quem ele era aluno) e não demorara muito para nos tornarmos amigos, senti confiança e me permiti dar-lhes o endereço da residência dele, numa vila de casas nas proximidades do Hospital de Caridade. Só então soube o nome dele e dos membros da caravana sindical. Mas a partir de então, toda vez que vinha para Corumbá, Roque fazia questão de parar na pousada para trocar algumas ideias conosco.

Decorridos alguns meses, qual não foi minha surpresa ao ver Manoel Vitório com o Roque Ferreira, já eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Bauru e Mato Grosso do Sul. Não demorou muito, Manoel já havia sido eleito pela base delegado regional do Sindicato, e aos poucos foi passando a integrar as diferentes instâncias deliberativas da categoria. Não posso esquecer a felicidade dele ao retornar de uma viagem ao Caribe, quando participou de uma conferência latino-americana da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes Ferroviários. Roque era assim: para ele, sindicato era uma escola de formação classista, ideológica, e ele atuava como Mestre, com a clareza de que as grandes causas não têm ‘donos’, e a História não têm amos nem senhores.

Impressionava seu proceder: sempre estudioso, comedido, discreto. Era metódico sem enveredar para a pieguice. Disciplinado, um verdadeiro autodidata, Roque descortinou horizontes com pioneirismo e determinação, tendo preparado muitos jovens ferroviários para a formação política. Ainda na década de 1980, tão logo assumiu a coordenação colegiada do Acordo Metro-ferroviário dos Trabalhadores Sobre Trilhos, acredito dentro da CUT (Central Única dos Trabalhadores), empreendeu novas atividades formativas para companheiros da classe trabalhadora. O domínio das ferramentas da Comunicação Social tornara sua atuação ainda mais abrangente.

Humilde, atencioso, observador e criterioso, o Companheiro Roque Ferreira, ao longo do período em que tive a honra de testemunhar sua atuação, tratou com muita dignidade e respeito os ferroviários. Diferentemente do caudilho populista que por décadas atuara naquele sindicato, um deputado federal da Arena (depois de seu sucedâneo, o PDS) cujo nome não lembro, e que quando vinha a Corumbá queria ser recebido como autoridade, não como representante de uma categoria espezinhada no tempo da ditadura.

Terra de Apolônio de Carvalho, o coração do Pantanal e da América do Sul inspirara os membros da gestão “Pau na Máquina” (também nome do boletim sindical) a abrir canais de diálogo com os ferroviários da Bolívia, filiados à emblemática Central Operária Boliviana (COB). Lembro-me de uma de suas viagens, em companhia da Jornalista Tatiana Calmon, responsável pela Comunicação Social (mais tarde sua Companheira), a preocupação de reunir-se com os colegas de ofício que atuavam na região para desmistificar algumas questões da luta dos ferroviários.

É que, início dos anos 1990, no rastro da verborragia neoliberal de Fernando Collor, era comum a resistência de repórteres não suficientemente conscientes do papel dos movimentos sociais que traziam em sua atuação o olhar patronal na cobertura da luta sindical. Aliás, a vinda de Roque Ferreira com a Companheira Tatiana, senão me engano, decorrera de um lamentável episódio em que a esposa de um engenheiro da ferrovia, estudante no campus local, tentara desacreditar a atuação da nova gestão sindical (ela não fazia ideia de que muitos dirigentes ferroviários eram também universitários). Daí que o velho preconceito pequeno-burguês de que ‘atuação de trabalhador é questão de polícia’ acabou não mais tendo vez.

Foi entre o final do mandato de José Sarney e o primeiro mandato de FHC que o destino da RFFSA foi selado, quando do desmembramento e privatização das superintendências regionais (a de Bauru era a SR-8). Graças à capacidade de mobilização de Manoel e à sensibilidade do então Prefeito Fadah Scaff Gattass, em 1989, foi realizada a memorável passeata multitudinária (algo como quatro quadras de pessoas apinhadas exigindo a permanência dos trens de passageiros e contra a privatização da ferrovia quase centenária). Embora todos os segmentos sociais da região tivessem se manifestado pela manutenção do trem, os parlamentares da base parlamentar do governo nos dois estados (Mato Grosso do Sul e São Paulo) nada tinham feito para evitar a privatização.

A última década do século XX foi extremamente fértil para o movimento popular nesta região, e o Sindicato dos Ferroviários de Bauru e MS, sem dúvida, foi carro-chefe das conquistas protagonizadas. Claro que a empresa já havia acionado seu ‘plano b’ e criado um ‘sindicato cartorial’ com base territorial em MS, mas não vingara. Sob a sábia coordenação de Roque Ferreira, a atuação de Anísio Guató, Valdemir Vieira (incansável Xis), Roberto Teixeira, Peninha, Seu Luiz, Seu Guedes e Seu Vivaldo, além de Manoel, entre tantos outros Companheiros não menos importantes, fez a diferença para a afirmação do protagonismo popular na região.

Em 2005, uma atividade conjunta da Câmara Municipal de Corumbá, Sindicato dos Ferroviários de Bauru e MS, Comitê de Revitalização da Ferrovia e Reativação do Trem do Pantanal, OCCA Pantanal, Pacto Pela Cidadania e FORUMCORLAD (hoje Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa), culminou com a realização da Audiência Pública que permitiu o encontro derradeiro dos agora saudosos Companheiros Roque Ferreira e Carlos Machado, vítimas da covid-19. Jamais esqueceremos a emoção de veteranos da ferrovia, inclusive da Bolívia, na expectativa de ver concretizada a volta do trem de passageiros. Infelizmente a megalomania de paraquedistas - tal qual o senador que dizia ser ‘de todos’ e que a história provou que não era de ninguém - fez com que fossem priorizados projetos mirabolantes nitidamente predadores, como os tais polos minero-siderúrgico e gás-químico e a hidrovia, em detrimento de projetos históricos, como o Trem do Pantanal.

Mais que dirigente sindical, o Companheiro Roque foi um Mestre que humilde e sabiamente soube conduzir sua categoria num patamar sem igual, de lealdade e solidariedade. Um ano de sua fatídica eternização, num misto de consternação e saudade, manifestamos nossa profunda solidariedade à Companheira Tatiana Calmon e Família, aos Companheiros da incansável categoria dos ferroviários e, de modo fraternal, a toda a classe trabalhadora, razão de ser do Companheiro Roque Ferreira.

Seu legado de coerência, disciplina, lealdade e dedicação à causa da classe trabalhadora e do internacionalismo fecundará os horizontes das novas gerações rumo a uma sociedade liberta, justa e igualitária.

Até sempre, Companheiro Roque Ferreira, sempre na memória e no coração!

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?

QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?

Não fosse trágica, a patacoada protagonizada pelo desmiolado que se pretende imperador seria uma ridícula piada de mau gosto. Em vez de hino, deveria ter como fundo musical a, para nós, saudosa canção com que nossos Pais embalaram nossa inocente infância: “Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau?”

Embora injusta com os lobos, a fábula, que no início do século XX a genial criatividade da equipe de Walt Disney transformou em um dos clássicos da cinematografia infantil com a trilha sonora que atravessou décadas, nos adverte para o perigo que ronda nossas vidas, seja na floresta ou mesmo na cidade.

Foi como as gerações anteriores à conexão em tempo real aprenderam a tomar todos os devidos cuidados com tudo aquilo que pode oferecer algum risco à nossa sobrevivência. O lobo pode ser qualquer ameaça real à espécie humana ou a um determinado segmento da população.

Em nosso atual contexto histórico, pode ser representado pelos artífices das fake news, disseminação da intolerância e do ódio, pelo fascismo e todas as suas variantes regionais e locais, requentando velhas fórmulas nada criativas para angariar apoiadores, em sua  maioria pessoas com evidentes desajustes com a realidade.

Aliás, como que nestes dias não houvesse uma sucessão de crises, obviamente agravadas pela inépcia de um despreparado ocupante do mais alto cargo da República, o candidato a Pantaleão Patoaparte dedica todo o seu tempo a conspirar, conspirar, conspirar...

É o que a sua mente rasa sabe fazer. Nada mais. E as elites econômicas e políticas deste País-continente sabiam sobejamente de que se tratava de um típico 3d: despreparado, delirante e delinquente. Perfeito desastre: incapaz de manter um casamento, ou até mesmo permanecer no mesmo partido. Quanto mais fundar um partido...

É verdade. O ‘brimo’ Temer e o cinismo de sua ascensão foram inspiradores para a corja de meliantes que gravitam em seu torno: também carecia de atributos para superar o estadista que o antecedeu, a verdadeira razão pela qual a aglomeração de raposas de toda sorte foi traçada, obedecendo à orientação de Manhattan, patrocinador e mentor de toda a farsa midiática meticulosamente ensaiada desde 2005, e concretizada a partir de 2014.

Mesmo assim, sabendo dos riscos de um psicopata na presidência, partiram para o ‘tudo ou nada’ - sórdidos cúmplices de um golpe mal engendrado desde 2014. A velha prática de usar fantoches, seres manipuláveis, desde o tempo da colonização.

Steve Bannon, o mesmo ‘muso’ inspirador do delinquente contumaz Donald Trump, foi o marqueteiro da pretensa dinastia: na falta de cérebro, aluga-se um, ainda que perverso, ensinam os cultores do ‘deus mercado’. Foi, aliás, esse o ‘reforço’ recebido pelas hordas auriverdes em 2018, disseminando fake news e mensagens de ódio e intolerância para levar o pânico às pessoas menos informadas.

Se a verdade liberta, a mentira oprime, domina, manipula. Nessa lógica pervertida, cínica e rasteira, armaram o circo do terror, sob o qual ainda milhões de seres humanos se encontram, iludidos ou atolados, aguardando talvez o Dia do Juízo Final... Dormiram com a ilusão do ‘messias’ e acordaram com a besta do apocalipse.

Em vez de ‘mito’, um mico de fazer inveja aos romanos de dois milênios atrás, quando Naro, isto é, Nero lhes roubou não só o direito de viver, mas destruiu seu passado, presente e futuro.

A história ensina, senão por amor, pela dor. É desta forma que nos impuseram os obtusos que caíram na conversa dos vigaristas de 2018. Mas que fique claro, podemos não sobreviver à hecatombe da fétida bolsa de colostomia a ser despejada sobre nossas cabeças, mas permaneceremos de pé para entoar a cantiga com a qual nossos Pais acalentaram nossa inocência no início de nossas vidas, até porque só se é adulto saudável quando se desfruta de uma infância feliz, cheia de sonhos e inocentes utopias:

“Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau?”

(Este texto é dedicado aos milhões de crianças e adolescentes órfãos pela covid-19, pela violência criminosa, pelo desemprego e pela fome e miséria promovidas pelas hordas de delinquentes que tomaram de assalto os destinos da Nação.)

Ahmad Schabib Hany