terça-feira, 3 de agosto de 2021

MÁRCIO NUNES PEREIRA: 24 ANOS DE SAUDADE...

MÁRCIO NUNES PEREIRA: 24 ANOS DE SAUDADE...

Neste 2 de agosto, o Jornalista Márcio Nunes Pereira fez 24 anos de eternização. Desde 1997, quando interrompeu sua sagrada jornada de bem informar, o Jornalismo perdeu o encanto, a saga investigativa desse grande repórter que nunca pareceu patrão, mas um incansável Companheiro de trabalho determinado e corajoso.

Destemido, determinado e incansável, o Jornalista Márcio Nunes Pereira se eternizou aos 42 anos de Vida, depois de uma intensa resistência contra uma neoplasia impiedosa. Essa doença ladina não só interrompeu a sua sagrada jornada de bem informar como roubou da jovem esposa, Dona Margareth Matas Pereira, e de seu único Filho, ainda criança, o querido Paulinho - Paulo Afonso Matas Pereira -, uma convivência amorosa e invejável, um exemplo para os seus contemporâneos.

Tive a honra de conhecer o então adolescente Márcio na primeira sede do emblemático Diário de Corumbá, sob direção do igualmente talentoso e incansável Irmão mais velho Carlos Paulo Pereira Junior. Márcio era o caçula, e a disciplina do quase menino era admirável: trabalhava em diversas frentes do à época Jornal de maior circulação, fosse na reportagem, na composição ou na impressão.

Situado à rua Antônio João, ao lado do prédio do Café São Paulo, da Família Darmanceff, por quase duas décadas o Matutino Independente (como se apresentava para o leitor) funcionou com todas as suas instalações naquele espaço. Era uma verdadeira Escola de Jornalismo: quando o Pai, Jornalista Carlos Paulo Pereira, fundador do Jornal, ficou impossibilitado de prosseguir com seu Ofício, coube ao jovem Filho Ronei Nunes Pereira dirigi-lo, contando com uma equipe invejável, entre eles os Jornalistas Adolfo Rondon Gamarra, Clarimer de Meira Navarro, Jorcêne José Martinez, Montezuma Cruz, Roberto Hernandes, Rosália de Fátima Nunes Pereira, Waldir Nunes Pereira e o sucessor imediato de Ronei, falecido precocemente, o primogênito Carlos Paulo Pereira Jr.

Entre 1974 e 1978, quando meu saudoso Pai, Mahoma Hossen Schabib, dedicou um pouco mais de seu exíguo tempo para escrever, em decorrência da súbita e trágica eternização de seu Primogênito, o meu querido Irmão Mohamed, era constante nosso encontro na Redação do Jornal: como permitiam que a revisão dos artigos dele fosse feita por mim, nos encontrávamos com muita confiança e naturalidade para conversar sobre os mais diversos temas. Márcio era humilde e atencioso e desde tenra idade conviveu com pessoas das mais diferentes gerações e, em especial, opiniões diversas, a despeito da censura então existente na imprensa.

No período em que morei em Campo Grande, entre 1978 e 1984, pude testemunhar a inquietude e combatividade do já maduro Márcio Nunes Pereira: ao lado do saudoso Jornalista e Radialista Roberto Hernandes, fundou o combativo A Gazeta, diário de vida efêmera, mas que muito incomodou a administração do Prefeito Armando Anache por causa das manchetes irreverentes, bem ao estilo do semanário carioca O Pasquim. O igualmente querido Amigo Juvenal Ávila de Oliveira, da Assessoria de Imprensa da Prefeitura, vivia numa saia justa em razão de sua Amizade com os dois Jornalistas.

Assim que retornei da capital, em 1984, Márcio, então diretor do Diário de Corumbá, conversou comigo para reiterar o convite de que meu Pai continuasse a colaborar com o Jornal. Como primeiro correspondente assalariado de um grande jornal da capital (meu antecessor era um renomado advogado, amigo do patrão e não recebia salário nem tinha obrigação de enviar notícias diariamente), o Márcio generosamente foi dos companheiros mais leais, presente em todas as duras etapas de readaptação à Corumbá pós-divisão de Mato Grosso uno. Obviamente, o Professor Valmir Batista Corrêa e os saudosos Doutor Joilce Viegas de Araújo e o Professor Dilermando Luiz Ferra, igualmente muito leais e queridos, eram fundamentais na checagem de informações no dia a dia.

Corumbá experimentara um súbito esvaziamento populacional e o decorrente processo de depauperação daquele que fora o município que mais arrecadava em tributos para a receita estadual. Como poucos, Márcio era crítico ao comportamento da maioria da elite política local, que embarcou na ilusão de que a divisão de Mato Grosso fosse benéfica para o Pantanal e em particular para Corumbá. Observador, demonstrava com dados tal decadência, já comprovada pela realidade logo nos primeiros anos de Mato Grosso do Sul - agravada pela evasão de pessoas qualificadas para Cuiabá e Campo Grande e, por conta dos anos de regime ditatorial, o despreparo dos agentes políticos locais, diferente e acintosamente opostos às gerações sacrificadas pelas perseguições políticas do regime de 1964.

O Governador Wilson Barbosa Martins e o Prefeito Fadah Scaff Gattass, ambos baluartes da resistência democrática ao regime de 1964, se empenhavam na reconstrução daquele que fora o mais importante entreposto comercial de Mato Grosso e o maior município arrecadador de ICM do estado (com a Constituição de 1988 é que passou a ser chamado de ICMS). Ao lado do Doutor Fadah, em Corumbá, estavam velhos Companheiros do PSD de Juscelino Kubitschek - os saudosos Doutor Cleto Leite de Barros, Professor Salomão Baruki e Seu Hélio Péres - articulados a ex-adversários da UDN do Brigadeiro Eduardo Gomes, entre eles os saudosos Doutor Cássio Leite de Barros, Doutor José Feliciano Batista Neto e o Senhor Aurélio Scaffa, além de igualmente queridos baluartes como Seu Jorge José Katurchi, Doutor Hugo Silva da Costa e Doutor Luiz Alberto Pinto Figueiredo.

Foi na espeteria de Seu Juca, esquina das ruas Cuiabá com Antônio João, que o Márcio me pôs a par das coisas: quatro anos antes, o querido Roberto Hernandes, com a dicção inconfundível, emprestara sua voz para a divulgação do modesto, mas histórico, ato de lançamento da pioneira comissão provisória municipal do PMDB, em que ele proclamava: “Na tentativa de dividir a oposição, o governo impôs o fim do MDB; a seus parlamentares ofereceu cargos públicos, dinheiro do povo, ameaçou, cassou, torturou e prendeu; mas os verdadeiros oposicionistas não se deram por vencidos, e juntos com o Povo vão construir um Partido mais forte e lutador, o PMDB!” Hernandes sofreu uma retaliação da emissora de rádio a que estava vinculado, pois o rígido controle ideológico sobrevivera nos meios radiofônicos, televisivos e impressos.

E ninguém melhor que o Márcio, com seu faro invejável de repórter nato, para advertir que a política era tão instável quanto o clima no verão. Na sala da direção do Diário de Corumbá ele recebia políticos de todos os matizes, desde os gaetistas, ainda muito fortes, até aqueles ligados ao ex-prefeito Ruy Valdo Albaneze, cuja administração teve muita turbulência, sobretudo na gestão financeira e os atrasos no pagamento dos salários dos servidores municipais. A Redação do Jornal era relativamente próxima à cabine pública de telex (naquele tempo ainda não existia fax nem internet), o que me permitia recorrer ao seu apoio para fazer (‘datilografar’) o material que minutos depois iria digitar nas máquinas de telex Olivetti da agência local dos Correios.

O jornalão de Campo Grande não saía aos domingos, e às segundas ia para as bancas. Era um sério problema para um correspondente sediado em Corumbá, cuja cabine pública de telex fechava aos domingos: enquanto o editor não dava sinais de que disponibilizaria um telex que pudesse assegurar a independência do então jovem correspondente, a gentileza da saudosa Doutora Laurita Anache, então diretora da Rádio Clube, permitiu um fôlego. Mas, pouco tempo depois, um fato constrangedor envolvendo um querido funcionário da emissora me obrigou a deixar o posto. Solidário, Márcio se prontificou a solucionar o caso, e desde então nossas relações foram ainda mais fraternais.

É a partir de 1988 que nossa relação se estreitou ainda mais: coincidentemente com a mudança da sede do Diário de Corumbá, da Antônio João para a Cuiabá (em frente a um colégio particular), no começo passei a colaborar diariamente com uma pequena crônica sobre o cotidiano de Corumbá, que ele generosamente publicava na primeira página. Quando a situação do Jornal se estabilizou, ele me contratou como redator, tendo sido, durante o período de transição do governo de Pedro Pedrossian para o de Wilson Barbosa Martins, em 1994, correspondente na capital (algo como três meses). Em Campo Grande, o Amigo Paulo Yafusso generosamente me disponibilizava as instalações da Agência Folha para enviar meu material para o Jornal que tem como consigna “Um jornal se mede pelas verdades que diz”.

Foi como assalariado que conheci a grandeza do repórter, do Jornalista investigativo Márcio Nunes Pereira. Jamais fui um ‘subordinado’, tratou-me como Companheiro, com dignidade. Muitas vezes, era eu a lhe pedir moderação, preocupado com sua Família e com o futuro do Diário de Corumbá, pois sabíamos da ‘torcida contra’ que existia, em particular pelos grupelhos corruptos inoculados na administração pública. Não foram poucas as ameaças à sua integridade física e de sua Família, por conta de sua coragem, de sua lealdade ao Jornalismo, seu compromisso com a verdade. Nunca se amedrontou: ao contrário, quando se deparava com um processo judicial, competentemente delegado ao igualmente saudoso Doutor Joilce Viegas de Araújo, é que se sentia mais motivado a manter a linha combativa do Jornal.

Decorridos 24 anos de sua eternização, a saudade e o vazio no Jornalismo combativo o tornam referência digna para os seus contemporâneos e para as novas gerações. Como poucos, Márcio Nunes Pereira fez do Ofício de repórter fonte de dignidade e ética, mas sem hipocrisia, sem ‘heroísmo’. Jamais angariou alguma vantagem ou notoriedade, a despeito das inúmeras tentativas de cooptação, delicadamente apresentadas por intermediários, bem tratados, com educação e polidez, mas declinando sempre dessas tentações.

Márcio Nunes Pereira é fonte de dignidade, ao lado dos maiores Jornalistas corumbaenses de todos os tempos, entre eles os saudosos Renato Báez, Carlos Paulo Pereira, Ronei Nunes Pereira, Luiz Gonzaga Bezerra, Arnaldo Gomes da Costa, Jorcêne José Martinez, Armando Amorim Anache, Farid Yunes Solomini e José Carlos Cataldi, e os graças a Deus presentes Edson Moraes, Luiz Taques, Dary Junior, Mariliz Romero, Adolfo Rondon Gamarra, Clarimer de Meira Navarro, Nelson Abdnur Urt, Marcelo Fernandes, Alexandre Maciel e Lívia Gartner.

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 30 de julho de 2021

O Brasil sob as cinzas da Cinemateca e os laços neonazistas

O Brasil sob as cinzas da Cinemateca e os laços neonazistas

No final de tarde desta quinta-feira, incêndio no galpão da Cinemateca Brasileira transforma em cinzas documentos, imagens equipamentos da extinta Embrafilme. Essa tragédia que acabou com um acervo de cem anos do cinema brasileiro ocorreu dias após o ex-capitão ter sido flagrado em relações espúrias com neonazistas ‘de pedigree’ pelo interior e exterior do País.

Uma semana depois do apagão da Plataforma Lattes, responsável pelo cadastro oficial de pesquisas e pesquisadores brasileiros, e o risco de perdermos a soberania científica nacional, cá nos vemos às voltas com um incêndio com características no mínimo curiosas: três salas do galpão da Cinemateca Brasileira, no final da tarde desta quinta-feira, dia 29, foram reduzidas a cinzas com centenas de milhares de documentos, filmes e equipamentos da extinta Empresa Brasileira de Cinema (Embrafilme), um acervo único com mais de 100 anos da história do cinema no País.

Sou da geração que aprendeu muito, que ‘descobriu o Brasil’, com o cineclubismo - e aí faço um agradecimento sincero aos Amigos que me deram essa oportunidade assim que ingressei na FUCMT, em Campo Grande, hoje quase todos docentes universitários bem realizados, por seus próprios méritos: Amarílio Ferreira Junior, Paulo Roberto Cimó Queiroz, Mário César Ferreira, José Carlos Ziliani, Marisa Bittar, Tito Carlos Machado de Oliveira, Paulo Marcos Esselin, Mário Sérgio Lorenzetto, João José de Souza Leite, Paulo Eduardo Cabral, Yara Brum Penteado e Luiz Salvador de Sá -, daí que Embrafilme foi, sim, uma usina de talentos que, com arte, graça, talento e irreverência, abriu os horizontes das amplas maiorias cerceadas de liberdade pela censura imposta pelo regime de 1964, sobretudo a juventude desassossegada, ávida de conhecimento e de novos horizontes.

O incêndio que destruiu todo o acervo em audiovisual e documentos da Embrafilme não parece ter sido casual. Ou melhor, não foi casual. Não se trata de acusação leviana, aliás, recorrente entre os atuais ocupantes dos principais cargos do País. O proceder que caracteriza a gestão em curso, em que o aparente abandono é marca registrada, só pode levar a tragédias como essas. Os fatos falam por si: há menos de duas semanas o Ministério Público havia advertido o governo federal sobre o risco de incêndio por conta do abandono, a despeito do compromisso do gestor federal de assumir em 45 dias seu dever de cuidar do patrimônio cinematográfico nacional, vencido no início deste mês.

A subalternização da Cinemateca Brasileira, cujo contrato de gestão com a Fundação Roquete Pinto (do Ministério da Educação) venceu e não foi renovado desde 2019, está devidamente constatada não apenas com o corte de verbas previstas nas rubricas do orçamento público como pelo abandono institucional explícito: a precarização das instalações desde 2016 vem produzindo uma sucessão de perdas irreparáveis causadas por incêndios e enchentes que poderiam ter sido evitados.

Além disso, o indisfarçável desapreço pela cultura, pelas artes, pelo conhecimento, que eles chamam de mecanismo de ‘aparelhamento’, quando na verdade são oportunidades únicas de libertação, emancipação, de milhões de pessoas dos grilhões da submissão, da ignorância, da subserviência, da opressão, do mandonismo e da opressão. Inclusive dessa sectária medieval, travestida de fundamentalismo neopentecostal, em que tudo que não é como seu dogma recebe o tratamento obscurantista de herege...

O escárnio com que este (des)governo trata a coisa pública é de causar indignação. Seu misto de negacionismo e fundamentalismo contumaz está destruindo, em efeito cascata, as bases da identidade nacional, do patrimônio cultural, da riqueza da cativante diversidade e pluralidade que faz do Brasil um país cosmopolita por natureza. Creditar à fatalidade o abandono deliberado de tudo aquilo que é sagrado é caçoar da inteligência coletiva de uma nação de luto.

A necropolítica está assumindo contornos de crueldade requintada. Até quando teremos que fingir que crimes de lesa-pátria como esse não ‘acidentais’? O nazifascismo está se assenhorando do porvir de uma das maiores potências mundiais e, como se nada de fora da ordem houvesse, a ‘opinião pública’ permanece plácida, inerte...

Mais de meio milhão de vidas humanas perdidas, nas cidades, campos, florestas, reservas indígenas, quilombos e favelas, com suas respectivas histórias individuais e coletivas, suas inquietudes, sonhos e realizações. Incomensuráveis perdas de vidas em todos os reinos de seres vivos, em sua maioria ainda não identificados pela ciência, nos biomas atingidos pelas queimadas impunes (Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Chaco). Desmonte criminoso dos sistemas que garantem a soberania nacional nas áreas tecnocientífica e cultural (INPE, INPA, IPHAN, CNPq etc). Entrega de empresas estratégicas brasileiras (estatais e privadas) aos concorrentes transnacionais, verdadeiros abutres, financiadores do golpe de 2016, entre tantas outras perdas.

Enquanto outros povos do Planeta se encantam com o esplendor cultural, étnico, ambiental, mineral, hídrico, econômico e territorial, as sucessivas tragédias - irreparáveis, enfatize-se, porque não há como recuperá-las -, por ação ou omissão, empobrecem um porvir modelar, paradigmático. Uma nação que já havia se encontrado e conquistado seu lugar no concerto das nações, vocacionada para liderar uma nova era, de multilateralismo e pacifismo. Mas que o servilismo de parcela de sua elite econômica e de corporações de abutres e quadrilhas de fora de lei (milicianos, jagunços, parasitas, sanguessugas, grileiros, garimpeiros, madeireiros, sonegadores, vendedores de sentenças judiciais, mercadores de fé e vidas humanas e serviçais do império maldito) formaram o consórcio do genocídio e, com destreza e despudor, aniquilam o gigante adormecido.

Mais um gentil oferecimento da alcateia de facínoras que tomou de assalto os destinos da nação. A maioria desses recalcados, na acepção de Sigmund Freud, deveria ter sido interditada, colocada em camisa de força, para não causar mais estragos irreparáveis ao Brasil. Na verdade, para os nazistas, eles estão acima de todos e seu projeto de nação está acima de tudo, o resto é farsa, como todas as juras que fazem quando são pegos de calças curtas, ou melhor, são pegos com seus fétidos glúteos expostos diante de seu crime inconfessável...

Agora, sim, é hora de parar essa sangria. Cada dia protelado, maiores serão os prejuízos que as futuras gerações terão. A razão clama por justiça. A história, por resgate. O Povo (com letra maiúscula), a verdadeira razão de ser do Estado de Direito, por soberania.

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 29 de julho de 2021

A DAMA DE SÃO PEDRO

A DAMA DE SÃO PEDRO

Aos 79 anos, Dona Ivone Torres de Moraes se eterniza depois de perder seu Companheiro e grandes Amigos, como Seu Agripino Magalhães Soares, Padre Pascoal Forin e Dom Segismundo Martínez. Festeira de São Pedro desde a juventude, a ausência física da incansável realizadora está sendo sentida pela comunidade de pescadores e da Cervejaria.

No ano em que o banho de São João de Corumbá e Ladário foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Dona Ivone Torres de Moraes, que veio de Cuiabá para ser a emblemática festeira de São Pedro, se eternizou, aos 79 anos, no dia 23, em Campo Grande, onde visitava as duas Filhas que lá residem.

Dona Ivone era devota de São Pedro desde a juventude, quando, já casada, passou a peregrinar com a bandeira do santo pelas casas de doadores de Corumbá e Ladário para realizar a festa do Padroeiro dos pescadores. Sua fé e devoção fez com que superasse as dificuldades próprias de uma pessoa de origem humilde e desconhecida pela população até ganhar o reconhecimento da coletividade pantaneira.

Em fins dos anos 1980, ganhou o apoio da Professora Terezinha Baruki, então vereadora, com quem realizou diversas atividades em favor de sua comunidade e de quem se tornou Amiga inseparável. Mesmo depois de ter deixado a atividade parlamentar, a Professora Terezinha e Dona Ivone estiveram juntas em várias frentes pioneiras de empoderamento feminino. Era comum ver Dona Ivone em visita à Professora Terezinha em sua sala de direção de escola.

Personalidade forte e bastante determinada, Dona Ivone Torres esteve presente nos mais diferentes eventos realizados durante as últimas quatro décadas. Em 2013, foi uma das personalidades homenageadas pelo Festival América do Sul. Mas a honraria não lhe subiu à cabeça: ao contrário, tornou-a ainda mais humilde e leal com a sua comunidade, constituída de pessoas com muitas carências e invisibilidade.

Seu Alfredo Torres de Moraes, um dos Filhos da Matriarca, revelou algum tempo atrás que para Dona Ivone não havia diferença de credo religioso ou laços de família: bastava pertencer à sua comunidade para merecer o mesmo tratamento que dispensava ao Padroeiro de sua devoção. Não por acaso, o café da manhã era servido em sua modesta e acolhedora casa todo dia 29 de junho, dia do Santo.

Além de sua Família, ela construiu uma Irmandade que saberá transpor sua ausência física, porque a fé com que fortaleceu os laços de uma das mais antigas comunidades da bicentenária Corumbá, sem dúvida, será o sagrado alicerce do povo que tem o mesmo humilde e sagrado ofício de Pedro, escolhido para erigir, dois milênios atrás, a Igreja de Jesus, como ‘pescador de gente’.

A comunidade de pescadores e todo o Bairro Cervejaria estão sentindo a perda de um de seus ilustres baluartes depois da partida de Seu Agripino Magalhães Soares - centenário cururueiro e construtor de viola de cocho -, Padre Pasquale Forin - titular da Paróquia de São João Bosco durante décadas -, Dom Segismundo Álvarez Martínez - Bispo Emérito da Diocese de Corumbá e inúmeras vezes capelão de São Pedro, a capela da comunidade - e Seu Moraes, o Companheiro de Dona Ivone e Pai de seus Filhos.

Nas poucas vezes que, em companhia de Seu Alfredo, tive a honra de ser recebido no lar de Dona Ivone pude constatar o grande coração que palpitava nesse espírito de devota convicta e fervorosa, e que não resistiu às vicissitudes destes nada generosos tempos sombrios. Seu legado de luz, paz e concórdia renascerá em outros corações...

Até sempre, Dona Ivone, e obrigado por ter existido e nos ensinado solidariedade, amor e humildade na cândida forma de mulher do povo, poderosa pela força interior e a fé inarredável de pessoa sábia e guerreira de paz e empatia!

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 28 de julho de 2021

RÉQUIEM PARA A SOBERANIA CIENTÍFICA

RÉQUIEM PARA A SOBERANIA CIENTÍFICA

Reportagem da revista Fórum revela que o servidor do CNPq queimou no mesmo dia em que o sinistro da (não)Ciência, Tecnologia e Inovações dava salamaleque a uma líder neonazista alemã. É o que negacionistas podem chamar de coincidência ‘providencial’. Para eles, é claro, porque para o País é uma tragédia.

Fazer ciência em meio a tantas adversidades decorrentes do caos promovido pelos déspotas nada esclarecidos que tomaram de assalto os destinos da nação já é uma proeza. Imagine-se agora, privados da mais elementar ferramenta de trabalho sediada no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que é o cadastro nacional de iniciativas científicas.

Na última quinta-feira, dia 22, o servidor (computador responsável pelo banco de dados das pesquisas desenvolvidas ou em desenvolvimento e o cadastro geral de pesquisadores e professores universitários, conhecido como Plataforma Lattes) do CNPq queimou e, por não dispor de back up, corre-se o risco de informações estratégicas de anos de produção científica terem sido perdidas.

Em síntese, o violento corte de verbas para o desenvolvimento da ciência desde 2016, quando o governo Temer iniciou o desmonte do Estado com a emenda constitucional do teto dos investimentos públicos, é o principal fator pela precarização das políticas públicas de consolidação da soberania tecnocientífica nacional. É claro que a gestão controversa do ex-capitão, que não tem usado todos os recursos constantes das rubricas do já minguado orçamento, é o responsável por essa tragédia: é inconcebível que não haja back up para salvaguardar o banco de dados da produção científica.

Gostem os fundamentalistas ou não, a soberania científica nacional foi consolidada nos anos 2003-2016, não por acaso nos governos de Lula e Dilma. A despeito do discurso patrioteiro do atual governo, absolutamente nada o sinistro Marcos Pontes fez em favor do necessário desenvolvimento da ciência, da tecnologia e das inovações brasileiras. Ele, que se beneficiou do avanço tecnocientífico dos anos Lula quando virou celebridade por ter sido o primeiro astronauta brasileiro, acabou refém do complexo de subalternidade do núcleo duro do governo do ex-capitão.

Aliás, enquanto o servidor da Plataforma Lattes, do CNPq, sofria as avarias decorrentes dessa intercorrência, como revelou a reportagem da revista Fórum, o titular da pasta recebia a líder neonazista da Alemanha, deputada Beatrix Amelie. Apesar do ranço nazista da parlamentar alemã, seu partido, AfD, tem um posicionamento oposto à subalternidade doentia dos atuais inquilinos do Planalto, o que não justifica o fanatismo excludente dos neonazistas alemães, cujos ancestrais protagonizaram crimes de lesa-humanidade julgados pelo Tribunal de Nuremberg, e hoje negados pelos seguidores.

A propósito de soberania científica, o patrono da Plataforma Lattes, o renomado físico e matemático brasileiro César Lattes, foi um cientista que dedicou seus melhores anos ao desenvolvimento da ciência em todo o mundo. Falecido em 2005, o legado de Lattes está presente em todos os quadrantes do Planeta, tendo sido injustiçado pela Academia de Ciências da Noruega ao premiar com o Nobel de Física o chefe da equipe, Cecil Power (e não o descobridor, ele) de uma subpartícula atômica que revolucionou os conceitos básicos da Física, em 1946. Na década de 1960, construiu um observatório astronômico em La Paz, Bolívia, que leva seu nome, com o generoso objetivo de aprimorar as redes de observação do Universo.

Pena que os atuais gestores da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovações na esfera federal não tenham noção da importância da consolidação da soberania tecnocientífica em território brasileiro. E a maior prova disso é a perda absurda do cadastro geral de pesquisadores e sua valiosa produção científica. Mais um crime cometido contra a soberania nacional, no âmbito da ciência e tecnologia, que não tem justificativa.

Ahmad Schabib Hany

sábado, 17 de julho de 2021

EDMIR FIGUEIREDO DE MORAES (IN MEMORIAM)

EDMIR FIGUEIREDO DE MORAES (IN MEMORIAM)

Abelha, Neno, Sandino. Mas seu maior orgulho era ser o ‘Irmão do Edson Moraes’. Fez história e empoderou expressivos segmentos sociais durante sua existência de grandes conquistas coletivas. Por conta do desapego ao poder e ao dinheiro, enfrentou dificuldades próprias de quem é motivado pelas grandes causas. Neste dia 15 de julho encerrou sua intensa jornada, sempre na luta...

Edmir Leocádio Figueiredo de Moraes. O eterno e terno Abelha das grandes causas. Eu o conheci em Campo Grande, quando ele ainda era secundarista e liderava a oposição, ao lado de outros jovens idealistas, a um capacho da ditadura cujo nome não vem ao caso. Foi-me apresentado pelo querido e saudoso Senhor Mário Corrêa Albernaz, que, surpreso por não conhecê-lo, completara: “É o Irmão do Edson Moraes.”

Embora a Amizade (dessas com letra maiúscula) com o Edson, já naquela época, fosse longeva, do tempo em que ele foi a grande revelação do Jornalismo combativo em Corumbá, nos idos de 1975, tendo como mestre o querido e saudoso Jornalista Luiz Gonzaga Bezerra, na emblemática Folha da Tarde de Daniel de Almeida Lopes, só fui conhecer o incansável (e muitas vezes desconcertante) Sandino em Campo Grande no início da década de 1980.

De fala bem articulada e envolvente, seus olhos claros e vívidos e um sorriso espontâneo (tipicamente cuiabano-pantaneiro), Sandino ou Edmir, Neno ou Abelha, era contraponto do comportamento padrão da vanguarda estudantil da época. Discrição e comedimento eram predicados imprescindíveis na luta pela democratização. Mas a espontaneidade do querido ‘Irmão do Edson’, que muito o lisonjeava, fazia o mais sisudo combatente pela democracia embarcar em sua cativante narrativa de verdadeiro contador de causos. Um pantaneiro universal e internacionalista.

A oposição à direção fantoche da entidade representativa dos secundaristas da capital era constituída por um coletivo bem diverso e politizado. Entre eles, jovens com traços de adolescentes, como Márcio Bittar, Valdir Neves, João Pedro Wessner e Carlos Mena, hoje quase todos com uma carreira política sólida, embora distantes da utopia socialista acalentada. O forte laço que os mantinha unidos era a agenda pela democratização do País: Assembleia Nacional Constituinte, eleições diretas em todos os níveis, ensino público gratuito do fundamental ao superior, liberdade de organização e manifestação do pensamento (fim da proscrição e censura), revogação do AI-5 e legislação correlata (Lei de Segurança Nacional e decretos 228 e 477) e volta dos militares aos quartéis.

Durante algum tempo eu chamei o querido e agora saudoso Abelha de Sandino. Coube ao próprio Amigo Mário Albernaz me advertir que seu nome não era esse e que em Família o apelido era Neno. Na primeira oportunidade, fui tirar dúvida: por que ‘Sandino’? Deu-me uma verdadeira aula sobre o líder nicaraguense Augusto César Sandino e sua luta contra a opressão ianque. A Frente Sandinista de Libertação Nacional comemorava, então, o primeiro ano da derrota do ditador sanguinário e dócil serviçal ianque Anastasio Somoza, que, asilado no Paraguai de Alfredo Stroessner, foi assassinado por aliados como queima de arquivo, com disparos de bazuca em Assunção, após ter prestado relevantes serviços aos seus amos e senhores imperialistas.

Além de sua atuação no movimento secundarista, Abelha apoiou a formação da JPMDB, ou o setor jovem do PMDB, tendo percorrido o estado todo na campanha pela eleição do Doutor Wilson Barbosa Martins, em 1982. Mas foi na mobilização pelas Diretas-Já, em 1983-84, que percebeu que sua atuação era estratégica em Corumbá, o que o trouxe de volta para o coração do Pantanal, onde atuou nas mais importantes causas de seu tempo (sobretudo, no processo de efetivação do Estado Democrático de Direito, consignado na Constituição Federal de 1988).

Muito espontâneo e sincero, militou em vários partidos até se identificar com o Partido dos Trabalhadores, em 1989, quando da primeira campanha presidencial pós-1964, com o apoio a Lula contra Collor: participou da organização do velho PCB, depois do PCdoB e de modo efêmero da ‘Hora do Povo’, um grupo instável que muitas vezes fazia alianças com setores da direita, como durante o golpe contra Dilma. Sem constrangimento, Abelha explicava de modo convincente sua peregrinação até se encontrar no PT, como fruto de amadurecimento pessoal e do próprio Partido dos Trabalhadores, que evoluiu com desenvoltura até se consolidar como o maior partido brasileiro.

As mobilizações pela democratização e a necessidade de resgatar sua própria condição de afrodescendente lhe despertaram o gosto pela História, cursada no então CEUC (hoje Campus do Pantanal da UFMS). Foi um dos pioneiros na organização dos grupos de estudo e de luta pela igualdade dos negros, como à época se dizia. Trouxe para Corumbá ícones da luta contra o racismo estrutural e, por mérito, foi o primeiro titular da Coordenadoria de Políticas de Igualdade Racial de Corumbá, quando atuou ao lado de Companheiros de primeira hora, como os queridos Arturo Castedo Ardaya e Cristiane Sant’Anna de Oliveira (subsecretário de Cidadania e coordenadora de Políticas para a Mulher), na gestão do então petista (e primeiro prefeito do PT em Corumbá), Ruiter Cunha de Oliveira.

Solidário e combativo, Abelha esteve ao lado dos povos originários (sobretudo, Guató, Guarani, Terena e Ayoreo), palestino, boliviano, paraguaio, cubano, venezuelano, sírio e haitiano ao longo das últimas décadas. Foi um ardoroso defensor dos Direitos Humanos, em todas as suas dimensões. Incansável combatente, apaixonado pelas grandes causas, Abelha viveu com intensidade e humildade, generosamente se entregando às grandes causas coletivas. Era avesso aos cargos e às benesses do poder, ainda que brigasse pelo reconhecimento das bases na composição das estruturas de governo, como garantia das conquistas a serem mantidas.

Coincidência ou não, nosso Sandino se eternizou quatro dias antes do dia em que 42 anos atrás sandinistas empreendiam uma acachapante derrota à ‘dinastia’ Somoza e seus 43 anos de ditadura familiar na Nicarágua. Mais que discreto militante de causas maiores, foi, é e será sempre um expoente de luta por uma sociedade melhor, um mundo mais justo e solidário. Até sempre, Companheiro Abelha, e obrigado pelo generoso legado de solidariedade e humildade em toda a sua existência de entusiasmo coerente!

Ahmad Schabib Hany