sábado, 17 de novembro de 2018

UM GOVERNO DE OUTRO MUNDO


UM GOVERNO DE OUTRO MUNDO
Quando você acha que já viu tudo, vêm mais novidades...

Com todo respeito, mas nem nosso imortal Dias Gomes -- o genial criador de Odorico Paraguaçu, de O Bem-Amado, que entre 1974 e 1980 abalou homeopaticamente as estruturas do regime de 1964 -- teria sido capaz de imaginar algo tão bizarro quanto estes (sic) “lampejos de lucidez” da mais nova cópula, perdão, cúpula política brasileira...

Não é que o, digamos, chanceler da exodiplomacia Ernesto Araújo fez uma palestra em que defendeu (toc, toc, toc!) o estabelecimento de relações diplomáticas com seres de outros planetas?! Tal como seu chefe, o futuro ministro das Relações Exteriores também negou tudo, dizendo tratar-se de “brincadeira”...

Saudades dos sisudos chanceleres da ditadura Mário Gibson Barbosa, Antônio Azeredo da Silveira e Ramiro Saraiva Guerrero, que conduziram a diplomacia brasileira com altivez e sobriedade. Apesar das imposições do regime, quando era o caso, discreta e polidamente se limitavam a dizer, com a voz grave e solene dos diplomatas de carreira: “Houve um mal-entendido...”

Brincadeira, não, nunca, jamais: isso é coisa de “emebelistas, lavajatistas, vemprarruístas e revanchistas”, para prestar uma homenagem ao atualíssimo Odorico Paraguaçu, encarnado pelo imortal Paulo Gracindo, de saudosa memória.

Mas, parodiando um secular ditado espanhol, “o que a natureza não dá, Instituto Rio Branco não empresta...” (Para os hispanofalantes, “lo que natura no da, Salamanca no presta”.)

Então os arremedos de viúva Porcina – “aquela que foi sem nunca ter sido” –, também da genial criação do camarada Dias Gomes, dirão peremptoriamente que é “ranço do PT”. Não é: foi o circunspecto “Estadão”, baluarte e porta-voz oficial da tradição, família e propriedade, que deu o furo (no sentido jornalístico, bem entendido).

Aliás, se o saudoso autor de Roque Santeiro estivesse entre nós, não há dúvida de que finalmente o Nobel de Literatura viria a contemplar a célebre genialidade brasileira, numa perspicaz amálgama de Gabriel García Márquez e Eduardo Galeano, ambos também ausentes para testemunhar até que nível a desfaçatez de nossas elites néscias consegue chegar.

Pior, quando acreditamos termos chegado ao fundo do poço é quando nos damos conta de que ainda temos muito mais por submergir. Uma verdadeira tortura. Primeiro, o ex-quase desertor que vira capitão (e agora presidente eleito) usa o que mais lhe causa repulsa -- os Direitos Humanos! -- para “defender” os agora “pobres cubanos, vítimas de trabalho escravo” (mas trabalhadores rurais em situação de trabalho escravo, aí é “coisa de comunista”), que já podem pedir penico, digo, asilo a ele (como que já tivesse tomado posse), mas não sem antes arrogantemente pôr em dúvida a sua formação de médicos.

O deliberadamente ignorante da origem do Programa (ou depois Estratégia) de Saúde da Família, como no Brasil foi denominado, finge não saber que seu ex-aliado José Serra, quando ministro da Saúde de FHC, trouxe esse know how de Cuba depois de conhecer as experiências pioneiras de Santos e Fortaleza. Além disso, a medicina cubana é mundialmente reconhecida, inclusive por seus ídolos da Comunidade Europeia. Para seu raciocínio primário, tal qual Calabar, “o que é bom para a Holanda, é bom para o Brasil”...

E depois mais uma (novamente sic) “fraquejada” para falar em Direitos Humanos. Desta vez dos “pobres” que têm que se submeter a tratamento (desumano?) prescrito por aqueles médicos (impostores?), membros de uma missão sanitária coordenada pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS), da qual o Brasil é país-membro. Pois é, capetão, por que não se lembrou disso quando era deputado de oposição? Ao lado de seu ídolo Caiado, poderia ter-lhe rendido uma belíssima CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito), até para tirar seus obscuros mandatos parlamentares do ostracismo.

Mas não para aí. Como numa obra de Hitchcock, mal entregou seu pedido de exoneração o carcereiro-mor da Republiqueta de Curitiba (a contar de 19 de novembro, “a posteriori”, como que ele tivesse que ter tratamento diferenciado dos demais servidores públicos), o futuro “super-hiper” da Justiça e Segurança Pública já começa a convocar seus colegas da Lava Jato para postos-chave de seu futuro ministério. Não poderia faltar a tristemente célebre delegada cuja operação levou ao suicídio o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, e, não se dando por satisfeita, indiciou todos os responsáveis por um ato de desagravo à memória do Reitor Cancelier (o que a levou para um distante estado do Nordeste).

Esse é o preço com que pagaremos por não termos agido à altura quando os tais “emebelistas, lavajatistas, vemprarruístas e revanchistas” iniciavam, em 2013, sua (sic) “jornada cívica” para a sucessão de atropelos à Constituição Federal de 1988 e as ações ilegais orquestradas por membros do Executivo, Legislativo e Judiciário. Não nos esqueçamos das palavras do maestro do golpe, “com Supremo, com tudo”...

Peço licença à saudosa memória do igualmente magistral José Wilker para trazer à lembrança seu... Bye, bye, Brasil! E acrescento: Wellcome, Brazil!

Schabib Hany

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Sem apoio de prefeitos e de candidato a governador do segundo turno, Haddad é bem votado em Corumbá e Ladário

Sem apoio de prefeitos e de candidato a governador do segundo turno, Haddad é bem votado no Coração do Pantanal e da América do Sul (Corumbá e Ladário, MS)

O Jornalista Luiz Taques, um brilhante corumbaense que trabalha no Paraná há décadas, participou esta semana, por telefone, do programa do incansável radialista e Amigo Joel de Souza, na FM Pantanal, e revelou alguns dados das eleições de 2018 que nos enchem de orgulho.

A população de Corumbá e Ladário, sem apoio dos prefeitos municipais e de qualquer candidato a governador no segundo turno, deu seu voto espontâneo, de reconhecimento aos programas sociais implantados por Lula e Dilma, ao Professor Fernando Haddad (do PT), cujo percentual foi, respectivamente, de 42,47% em Corumbá e de 42,39% em Ladário – bem próximos, aliás, do percentual nacional. O Coração do Pantanal deu provas de que não se curva à pressão psicótica exercida por mensagens apócrifas de ódio, medo e intolerância, e com toda a altivez peculiar exerceu seu direito pelo voto sem covardia nem subserviência.

Corumbá tem 69.208 eleitores.
Somente 50.332 compareceram às urnas no segundo turno (72,73%).
O candidato do PSL teve 27.107 (57,53%)
Fernando Haddad/PT: 20.013 (42,47%)
Votos em Brancos: 856 (1,70%)
Nulos: 2.356 (4,68%)
Deixaram de votar: 18.876
*
Ladário tem 13.347 eleitores.
Somente 9.431 compareceram às urnas (70,66%)
O candidato do PSL teve 5.073 (57,61%)
Fernando Haddad/PT: 3.732 (42,39%)
Brancos: 141
Nulos: 485

É necessário reiterar que nenhum dos dois candidatos a governador do segundo turno apoiou Haddad em Mato Grosso do Sul, como também dos dois prefeitos municipais. Aliás, nas inserções televisivas ficou a bizarra disputa dos dois candidatos a governador do estado pelo candidato do PSL, agora presidente eleito, expondo a decadência das lideranças políticas deste estado criado em plena ditadura para dar mais três senadores para a antiga Arena (Aliança Renovadora Nacional), o partido de sustentação do regime por quinze anos, depois mudado para PDS (Partido Democrático Social).

Entre 1982 e 2006, apesar do conservadorismo das elites econômicas e políticas, havia um mínimo de racionalidade democrática, em que a aceitação da diversidade, da diferença e do antagonismo fazia de Mato Grosso do Sul um estado de vanguarda. Depois que André Puccinelli foi empossado governador do estado e se tomou para si a liderança do partido que lutou contra a ditadura durante o regime de 1964, setores democráticos liberais e de perfil social-democrático foram ofuscados ou simplesmente anulados. Não por acaso, um dos mais influentes ministros do presidente golpista Michel Temer é do que restou do núcleo duro de Puccinelli, hoje preso com seu filho em Campo Grande.

No entanto, o ranço reacionário que capitaneou a política do sul de Mato Grosso desde os tempos da República Velha -- e que entre 1982 e 2006 esteve ligeiramente menos intenso --, em certos momentos do primeiro governo eleito pelo voto direto, do grande democrata Wilson Barbosa Martins (ex-governador, ex-senador, ex-deputado federal e ex-prefeito), se manifestou, como na morte nunca elucidada do líder Guarani Marçal Tupã-i de Souza, em 1983, e do primeiro governo popular, do líder de esquerda José Orcírio Miranda dos Santos (primeiro também a ser reeleito), como na morte da prefeita Dorcelina Follador, de Mundo Novo, em 1999.

Obviamente, no tocante à votação em Corumbá e Ladário do Professor Haddad, há de se reconhecer e destacar o incansável trabalho anônimo de membros de coletivos e movimentos sociais (sobretudo de mulheres, da juventude, universitários, professores e demais trabalhadores da educação, ativistas de Direitos Humanos, LGBT, religiosos, anarquistas) e dos militantes e simpatizantes do PT, PSOL, PCdoB, PCB, PSTU, PROS, PCO, PSB e PDT, além da leal e árdua presença do candidato a governador Humberto Amaducci, do PT, e do candidato a senador Anísio Guató, do PSOL, em diversas oportunidades no Coração do Pantanal, e dos ex-candidatos a deputados federais Rosinha e Machado, e ex-candidatos a deputados estaduais Corumbá e Jairto, fazendo o corpo a corpo com alguns dirigentes municipais, estaduais e nacionais desses partidos.

Por outro lado, devemos registrar, com sincera perplexidade, a bizarra e injustificável conduta (sic) “pessoal” do ex-governador e ex-candidato a senador Zeca do PT, de apoiar o atual governador -- e seu apoio foi determinante para a sua reeleição --, em vez de peregrinar pelo estado para pedir o voto para o Professor Haddad. Não esqueçamos que em 1998, no emblemático comício da virada de Zeca, foi o presidente Lula e outros dirigentes nacionais que impulsionaram sua candidatura, então vitoriosa, tendo sido o primeiro governador eleito e reeleito (1998 e 2002).

terça-feira, 23 de outubro de 2018

ULYSSES GUIMARÃES: DISCURSO DE PROMULGAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO CIDADÃ


"SENHORAS E SENHORES CONSTITUINTES, MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES! DOIS DE FEVEREIRO DE 1987. ECOAM NESTA SALA AS REIVINDICAÇÕES DAS RUAS. A NAÇÃO QUER MUDAR, A NAÇÃO DEVE MUDAR, A NAÇÃO VAI MUDAR. SÃO PALAVRAS CONSTANTES DO DISCURSO DE POSSE COMO PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE. HOJE, CINCO DE OUTUBRO DE 1988, NO QUE TANGE À CONSTITUIÇÃO, A NAÇÃO MUDOU. A CONSTITUIÇÃO MUDOU NA SUA ELABORAÇÃO, MUDOU NA DEFINIÇÃO DOS PODERES, MUDOU RESTAURANDO A FEDERAÇÃO, MUDOU QUANDO QUER MUDAR O HOMEM CIDADÃO, E É SÓ CIDADÃO QUEM GANHA SUFICIENTE SALÁRIO, LÊ E ESCREVE, MORA, TEM HOSPITAL E REMÉDIO, LAZER QUANDO DESCANSA, NUM PAÍS DE TRINTA MILHÕES, QUATROCENTOS E TRINTA E UM MIL ANALFABETOS, AFRONTOSOS VINTE E CINCO POR CENTO DA POPULAÇÃO, CABE ADVERTIR: A CIDADANIA COMEÇA COM O ANALFABETO. CHEGAMOS, ESPERAMOS A CONSTITUIÇÃO, COMO VIGIA ESPERA A AURORA. A NAÇÃO NOS MANDOU EXECUTAR UM SERVIÇO: NÓS O FIZEMOS COM AMOR, APLICAÇÃO E SEM MEDO. A CONSTITUIÇÃO CERTAMENTE NÃO É PERFEITA. ELA PRÓPRIA O CONFESSA AO ADMITIR A REFORMA. QUANTO A ELA, DISCORDAR, SIM; DIVERGIR, SIM; DESCUMPRIR, JAMAIS; AFRONTÁ-LA, NUNCA! TRAIDOR DA CONSTITUIÇÃO É TRAIDOR DA PÁTRIA! CONHECEMOS O CAMINHO MALDITO: RASGAR A PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO, TRANCAR AS PORTAS DO PARLAMENTO, CERCEAR A LIBERDADE, MANDAR OS PATRIOTAS PARA A CADEIA, PARA O EXÍLIO, PARA O CEMITÉRIO. QUANDO, APÓS ANOS DE LUTAS E SACRIFÍCIOS, PROMULGAMOS O ESTATUTO DO HOMEM, DA LIBERDADE, DA DEMOCRACIA, BRADAMOS POR IMPOSIÇÃO DE SUA HONRA: TEMOS ÓDIO À DITADURA -- ÓDIO E NOJO! --, AMALDIÇOAMOS A TIRANIA, ONDE QUER QUE ELA DESGRACE HOMENS E NAÇÕES, PRINCIPALMENTE NA AMÉRICA LATINA! FOI A AUDÁCIA INOVADORA A ARQUITETURA DA CONSTITUINTE, RECUSANDO ANTEPROJETO FORÂNEO OU DE ELABORAÇÃO INTERNA. O ENORME ESFORÇO É DIMENSIONADO PELAS 61.020 EMENDAS, ALÉM DE 122 EMENDAS POPULARES, ALGUMAS COM MAIS DE UM MILHÃO DE ASSINATURAS, QUE FORAM ELABORADAS, PUBLICADAS, DISTRIBUÍDAS, RELATADAS E VOTADAS, DO LONGO TRAJETO DAS SUBCOMISSÕES À REDAÇÃO FINAL. A PARTICIPAÇÃO FOI TAMBÉM PELA PRESENÇA, POIS DIARIAMENTE CERCA DE 10 MIL POSTULANTES FRANQUEARAM LIVREMENTE AS ONZE ENTRADAS DO ENORME COMPLEXO ARQUITETÔNICO DO PARLAMENTO À PROCURA DOS GABINETES, COMISSÕES, GALERIA, SALÕES... HÁ, PORTANTO, REPRESENTATIVO E OXIGENADO SOPRO DE GENTE, DE RUA, DE PRAÇA, DE FAVELA, DE FÁBRICA, DE TRABALHADORES, DE COZINHEIRAS, DE MENORES CARENTES, DE ÍNDIOS, DE POSSEIROS, DE EMPRESÁRIOS, DE ESTUDANTES, DE APOSENTADOS, DE SERVIDORES CIVIS E MILITARES, ATESTANDO A CONTEMPORANEIDADE E AUTENTICIDADE SOCIAL DO TEXTO QUE ORA PASSA A VIGORAR... COMO CARAMUJO, GUARDARÁ PARA SEMPRE NAS COSTAS O BRAMIDO DAS ONDAS DE SOFRIMENTO, ESPERANÇA, REIVINDICAÇÕES DE ONDE PROVEIO. NÓS, OS LEGISLADORES, AMPLIAMOS NOSSOS DEVERES, TEREMOS DE HONRÁ-LOS. A NAÇÃO REPUDIA A PREGUIÇA, A NEGLIGÊNCIA, A INÉPCIA. SOMA-SE À NOSSA ATIVIDADE ORDINÁRIA, BASTANTE DILATADA, A EDIÇÃO DE 56 LEIS COMPLEMENTARES E 314 LEIS ORDINÁRIAS. NÃO ESQUECEMOS DE QUE NA AUSÊNCIA DA LEI COMPLEMENTAR OS CIDADÃOS PODERÃO TER O PROVIMENTO SUPLEMENTAR PELO MANDADO DE INJUNÇÃO. TEM SIGNIFICADO DE DIAGNÓSTICO, A CONSTITUIÇÃO TERÁ LARGADO O EXERCÍCIO DA DEMOCRACIA EM REPRESENTATIVA ALÉM DE PARTICIPATIVA -- É O CLARIM DA SOBERANIA POPULAR INDIRETA, TOCANDO NO UMBRAL DA CONSTITUIÇÃO, PARA ORDENAR O CAMPO DAS NECESSIDADES SOCIAIS. O POVO PASSOU A TER A INICIATIVA DE LEIS. MAIS DO QUE ISSO, O POVO É UM SUPERLEGISLADOR, HABILITADO A REJEITAR PELO REFERENDO PROJETOS APROVADOS PELO PARLAMENTO. A VIDA PÚBLICA BRASILEIRA SERÁ TAMBÉM FISCALIZADA PELOS CIDADÃOS, DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA AO PREFEITO, DO SENADOR AO VEREADOR. A MORAL É O CERNE DA PÁTRIA. A CORRUPÇÃO É O CUPIM DA REPÚBLICA. REPÚBLICA SUJA PELA CORRUPÇÃO IMPUNE TOMA NAS MÃOS DE DEMAGOGOS QUE, A PRETEXTO DE SALVÁ-LA, A TIRANIZAM! NÃO ROUBAR, NÃO DEIXAR ROUBAR, PÔR NA CADEIA QUEM ROUBE, EIS O PRIMEIRO MANDAMENTO DA MORAL PÚBLICA. NÃO É A CONSTITUIÇÃO PERFEITA: SE FOSSE PERFEITA, SERIA IRREFORMÁVEL. ELA PRÓPRIA, COM HUMILDADE E REALISMO, ADMITE SER REFORMADA, REMENDADA, ATÉ POR MAIORIA MAIS ACESSÍVEL, DENTRO DE CINCO ANOS. NÃO É A CONSTITUIÇÃO PERFEITA, MAS SERÁ ÚTIL, PIONEIRA, DESBRAVADORA: SERÁ LUZ, AINDA QUE DE LAMPARINA, NA NOITE DOS DESGRAÇADOS... É CAMINHANDO QUE SE ABREM OS CAMINHOS! ELA VAI CAMINHAR E ABRI-LOS. SERÁ REDENTOR O CAMINHO QUE PENETRAR NOS BOLSÕES SUJOS, ESCUROS, IGNORADOS DA MISÉRIA! A SOCIEDADE SEMPRE ACABA VENCENDO, MESMO ANTE A INÉRCIA OU ANTAGONISMO DO ESTADO. O ESTADO ERA TORDESILHAS. REBELADA, A SOCIEDADE EMPURROU AS FRONTEIRAS DO BRASIL, CRIANDO UMA DAS MAIORES GEOGRAFIAS DO MUNDO. O ESTADO, ENCARNADO NA METRÓPOLE, RESIGNARA-SE ANTE A INVASÃO HOLANDESA NO NORDESTE. A SOCIEDADE RESTAUROU NOSSA INTEGRIDADE TERRITORIAL COM A INSURREIÇÃO NATIVA DE TABOCAS E GUARARAPES, SOB A LIDERANÇA DE ANDRÉ VIDAL DE NEGREIROS, FELIPE CAMARÃO E JOÃO FERNANDES VIEIRA, QUE CUNHOU A FRASE DA PREEMINÊNCIA DA SOCIEDADE SOBRE O ESTADO: "DESOBEDECER EL-REY PARA SERVIR A EL-REY." O ESTADO CAPITULOU NA ENTREGA DO ACRE, A SOCIEDADE RETOMOU COM AS FOICES, OS MACHADOS E OS PUNHOS DE PLÁCIDO DE CASTRO E DOS SEUS SERINGUEIROS. O ESTADO PRENDEU E EXILOU, A SOCIEDADE, COM TEOTÔNIO VILELLA, PELA ANISTIA LIBERTOU E REPATRIOU. A SOCIEDADE FOI RUBEM PAIVA, NÃO OS FACÍNORAS QUE O MATARAM... FOI A SOCIEDADE MOBILIZADA NOS COLOSSAIS COMÍCIOS DAS DIRETAS JÁ E PELA TRANSIÇÃO E PELA MUDANÇA DERROTOU O ESTADO USURPADOR. TERMINO COM AS PALAVRAS COM QUE COMECEI ESTA FALA: A NAÇÃO QUER MUDAR, A NAÇÃO DEVE MUDAR, A NAÇÃO VAI MUDAR! A CONSTITUIÇÃO PRETENDE SER A VOZ, A LETRA, A VONTADE POLÍTICA DA SOCIEDADE RUMO À MUDANÇA... QUE A PROMULGAÇÃO SEJA O NOSSO GRITO: MUDAR PARA VENCER! MUDA, BRASIL!..." (ULYSSES GUIMARÃES, 5 DE OUTUBRO DE 1988)

sábado, 20 de outubro de 2018

"A ALEMANHA ACIMA DE TUDO", ESSÊNCIA DO TOTALITARISMO NAZISTA


 Fonte: Regis Gallo (2018)



“Alemanha acima de tudo”, essência do totalitarismo nazista

Frase-síntese do totalitarismo nazista, a aparentemente patriótica e inocente consigna “Alemanha acima de tudo” foi a ideia-força com a qual o Partido Nacional Socialista (isto é, nazista) se consolidou nas mais diferentes camadas da sociedade alemã no período entre-guerras do século XX até destruir significativa área da Europa e promover um dos maiores genocídios da história.

Por que uma frase patriótica como essa encarnaria o temido totalitarismo nazista? É que por trás dessa inocente consigna está a alma do conjunto de conceitos e desvarios que justificaram a ação nazista e o rastro de horror por ela deixado.

Se pensarmos bem, o oposto de “tudo” é “nada”, portanto, quem não se enquadrar nessa lógica é considerado um desgarrado na ótica de (sic) “porteira fechada” dos atuais cultores desse ideário que volta a infestar com igual vigor e virulência de outrora, como se novidade fosse em plena segunda década do século XXI.

Nem novo, nem inocente.

O “nacional socialismo”, aliás, foi uma esperteza para que o conjunto de excrescências compiladas com frágil articulação entre si ganhasse um rótulo, digamos, palatável – a eufonia necessária para uma cacofonia desfigurante, dominada pelo primarismo maniqueísta – para pessoas pouco afeitas à leitura ou de mente rasa, na tentativa de cooptar segmentos da classe média que haviam perdido seu lugar ao sol na sociedade alemã do início do século XX.

O “nacional” atendia ao apelo da pequena burguesia despojada pela guerra, e o “socialista” para ludibriar setores do proletariado alijados do processo produtivo, também conhecidos como “lúmpen proletariat” (proletariado parasita) das economias colapsadas pelo caos sociopolítico.

Enquanto patrões empobrecidos se irmanavam com os trabalhadores por um Estado forte, resultado da união de todos em favor da Alemanha, os trabalhadores tinham a ilusão de, finalmente, terem sua ascensão de classe promovida, no âmbito de uma igualmente Alemanha forte, sob os auspícios do nazismo. Assim, em nome da sobrevivência do Estado alemão, as classes se uniam numa só e lutavam contra o “inimigo comum”.

Não bastavam a eloquência e a desenvoltura do bizarro arrebatador Adolf Hitler. Os ideólogos nazistas precisavam contrapor-se de modo eficaz diante da difusão dos ideais socialistas por conta da Revolução Soviética e do desgaste de partidos tradicionais como a social-democracia, liberais e conservadores, sobretudo depois da derrota sofrida pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial.

Num ambiente de crise fundamentalmente econômica, política e social, o então recém-constituído Estado alemão (afinal, as forças de Otto Von Bismark haviam derrotado os seus inimigos havia aproximadamente cinquenta anos na emblemática guerra franco-prussiana, passo determinante para a unificação alemã) vivia um dilema atroz, existencial até, quando hordas de homens de baixa racionalidade e elevado vigor físico eram espalhados como “protetores” da pátria, da nacionalidade, num falso protagonismo popular pelo adestramento nazista sobre a depauperada população alemã, ainda não refeita de sua primeira derrota bélica de âmbito mundial, responsável pelo caos econômico e baixo moral reinante.

Além de uma eficiente máquina de propaganda estruturada pelo célebre ideólogo nazista Joseph Goebbels, a cúpula do partido nazista contava com qualificada equipe de estrategistas oriundos da academia, da caserna e do mercado, num funesto tripé cujo propósito era literalmente uma política de “terra arrasada”, tal qual a guerra assim caracterizada.

O binômio academia-caserna, aliás, foi determinante para definir o “inimigo interno” a ser eliminado – sim, eliminado, pois não só a concepção como a prática é totalitária –, manipulando a realidade de modo simplista e patrioteiro, do tipo “quem estiver contra é inimigo, e precisa ser eliminado para o bem da nação”.

Explicando melhor o primarismo maniqueísta, mediante a redução da realidade a “bons” contra “maus” – ou melhor, no vocabulário de hoje, os “do bem” contra os “do mal” –, descaracterizou de tal maneira a variedade de legítimos interesses –- obviamente muitas vezes conflitantes -–, que a mensagem simplista da perfeição absoluta, messiânica, arrebatadoramente calou fundo nas almas tacanhas de bizarros seres que povoavam o imaginário do povo alemão naquele contexto histórico.

E é bom que se diga que não foram só os alemães os atingidos: vieram nessa avalanche arrebatadora italianos com o fascismo de Benito Mussolini, os espanhóis com o franquismo do generalíssimo Francisco Franco e os portugueses com o salazarismo de António Salazar.

Tal qual pandemia a devastar populações, esse conjunto de estratégias mórbidas (que não se pode denominar de “ideologia”, pois, a rigor, não tem qualquer propósito edificante, dignificante da espécie humana para merecer este tratamento), durante a chamada “guerra fria”, foi transplantado para a América Latina pela superpotência ocidental que hoje ficou reduzida a um império decadente que reluta a abrir mão de sua hegemonia absoluta sobre toda a humanidade. Em nome dos valores democráticos, os Estados Unidos “generosamente” promoveu uma série de ditaduras nas décadas de 1960 e 1970 com igual perfil: stroessnerismo no Paraguai de Alfredo Stroessner, o banzerismo na Bolívia de Hugo Banzer e o pinochetismo no Chile de Augusto Pinochet, além do Brasil, Argentina, Peru e Uruguai, que não tiveram a personalização de seus comandantes, mas uma sucessão deles.

Não é demais recordar, a título de conclusão, que os nossos pracinhas -– os mártires brasileiros da Força Expedicionária Brasileira (FEB) –- sacrificaram suas próprias vidas para extirpar do seio da sociedade pretensamente civilizada esse verdadeiro câncer que teima em retornar menos de oitenta anos depois de ter sido fragorosamente derrotado. Não há melhor homenagem à suas honradas memórias que a rejeição a esse conjunto de ideias esdrúxulas recomposta sobre o sangue inocente de milhões de anônimos seres humanos em toda a face da Terra.

Ahmad Schabib Hany

"ALEMANHA ACIMA DE TUDO", ESSÊNCIA DO NAZISMO




“Alemanha acima de tudo”, essência do nazismo

(Schabib Hany, professor de História)

Frase-síntese do totalitarismo nazista, a aparentemente patriótica e inocente consigna “Alemanha acima de tudo” foi a ideia-força com que o Partido Nacional Socialista (nazista) se consolidou nas mais diferentes camadas da sociedade alemã no período entre-guerras do século XX até destruir significativa área da Europa e promover um dos maiores genocídios da história.

Por que uma frase patriótica como essa encarnaria o temido totalitarismo nazista? É que por trás dessa inocente consigna está a alma do conjunto de conceitos e desvarios que justificaram a ação nazista e o rastro de horror por ela deixado.

Se pensarmos bem, o oposto de “tudo” é “nada”, portanto, quem não se enquadrar nessa lógica é considerado um desgarrado na ótica de (sic) “porteira fechada” dos atuais cultores desse ideário que volta a infestar com igual vigor e virulência de outrora, como se novidade fosse em plena segunda década do século XXI.

Nem novo, nem inocente.

O “nacional socialismo”, aliás, foi uma esperteza para que o conjunto de excrescências compiladas com frágil articulação entre si ganhasse um rótulo, digamos, palatável – a eufonia necessária para uma cacofonia desfigurante, dominada pelo primarismo maniqueísta – para pessoas pouco afeitas à leitura ou de mente rasa, na tentativa de cooptar segmentos da classe média que haviam perdido seu lugar ao sol na sociedade alemã do início do século XX.

O “nacional” atendia ao apelo da pequena burguesia despojada pela guerra, e o “socialista” para ludibriar setores do proletariado alijados do processo produtivo, também conhecidos como “lúmpen proletariat” (proletariado parasita) das economias colapsadas pelo caos sociopolítico.

Enquanto patrões empobrecidos se irmanavam com os trabalhadores por um Estado forte, resultado da união de todos em favor da Alemanha, os trabalhadores tinham a ilusão de, finalmente, terem sua ascensão de classe promovida, no âmbito de uma igualmente Alemanha forte, sob os auspícios do nazismo. Assim, em nome da sobrevivência do Estado alemão, as classes se uniam numa só e lutavam contra o “inimigo comum”.

Não é demais recordar, para concluir, que os nossos pracinhas – os mártires brasileiros da Força Expedicionária Brasileira (FEB) – sacrificaram suas próprias vidas para extirpar do seio da sociedade pretensamente civilizada esse verdadeiro câncer que teima em retornar menos de oitenta anos depois de ter sido fragorosamente derrotado. Não há melhor homenagem à suas honradas memórias que a rejeição a esse conjunto de ideias esdrúxulas recomposta sobre o sangue inocente de milhões de anônimos seres humanos em toda a face da Terra.

PS: Texto feito a pedido de um Amigo muito querido. No entanto, recomendo os importantes artigos do Jornalista Luís Nassif no GGN, do blogueiro Rhangel Ribeiro no El Coyote, do Frei Görgen na Revista Fórum, entre outros portais e blogues.