sábado, 7 de abril de 2018

LULA, CIRO E O POETA (Por Luiz Taques)


Lula, Ciro e o Poeta
                Por Luiz Taques

O poeta Manoel de Barros, um inventor de mundos, votava em Lula para presidente da República. Foi assim em 1989, 1994 e 1998.

Mas, naquela eleição de 2002, ele andava simpatizando com Ciro Gomes, do PPS.

Estávamos em Corumbá (MS), na fronteira com a Bolívia, quando Ciro deu entrevista para o Jornal Nacional. O poeta somente saiu da casa da irmã dele, a Eudes, e da frente da televisão, para irmos a um barzinho, só após o fim da fala do presidenciável cearense.

O poeta havia ido a Corumbá inaugurar a ampliação da biblioteca da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Passados alguns dias, Ciro visitaria Campo Grande (MS), a capital do estado. Uma oportunista colunista social avisara à então esposa de Ciro Gomes, a atriz Patrícia Pillar, que Manoel de Barros era eleitor dele. Patrícia Pillar tratou de pedir-lhe que agendasse um encontro com o poeta.

A colunista social, por sua vez, apressou-se de passar à imprensa a informação desse encontro e do apoio do poeta ao candidato do PPS.

Nessa tarde, antes da chegada de Ciro Gomes –- marcada para o início da noite –- Manoel de Barros me ligou, pedindo socorro. O poeta, sujeito autêntico e sensível, estava nervoso. Muito nervoso.

-– Você poderia me ajudar a acabar com esse boato?
            
-– Pô, eu voto no Lula, do PT.

-– Se ele descobrir isso?

Lula talvez ainda não saiba que Manoel de Barros era seu eleitor e que ficaria magoado se o petista descobrisse que ele pretendia votar em outro candidato para presidente do Brasil.

Conseguimos, com colegas da imprensa, desfazer esse mal-entendido eleitoreiro.

Dias depois, em carta ao Poeta, a colunista social pediu desculpas e mandou uma garrafa de vinho de presente.

Manoel de Barros me ligou:

-– Traga um queijo bacana, porque o vinho parece ser muito bom.

Como milhões de brasileiros, acho que o poeta dos cheiros, das cores e dos seres do Pantanal dormiria mais triste hoje, ao saber que Luís Inácio Lula da Silva foi preso.

Preso por crime que diz que não cometeu.

Falecido em 13 de novembro de 2014, aos 97 anos de idade, o poeta era avesso a injustiças.

domingo, 1 de abril de 2018

BOLSONAZI, O OVO DA SERPENTE NO NINHO DOS GOLPISTAS


BOLSONAZI, O OVO DA SERPENTE NO NINHO DOS GOLPISTAS
BolsoNazi, o aprendiz de “presidenciável” que capitalizou o ódio e a intolerância disseminados ao longo dos últimos cinco anos, é a materialização do “ovo da serpente” há décadas remanescente dos tenebrosos tempos do regime de 1964. Obviamente, a incompetência comprovada dos derrotados em sucessivos pleitos eleitorais (2002, 2006, 2010 e 2014), que se aventuraram a fazer um golpe complexo (envolvendo setores do Judiciário, do Parlamento, do empresariado rentista e da mídia empresária), comprovaram a velha tese de que bom conspirador jamais será bom articulador. É que “trabalhar contra” não é igual a “trabalhar a favor”, daí porque os aventureiros do golpe de 2016 não conseguiram sequer se reunir para definir uma candidatura de consenso entre eles.
Resultado: ao disseminar ódio e intolerância para criar um “clima” para o golpe, os demotucanos (PSDB e DEM) e comunistas arrependidos (PPS) e aliados de legendas de aluguel não foram capazes de se unir e apoiar um mesmo candidato, permitindo que o fantasma do nazifascismo subestimado durante a transição para a democracia, em meados de 1980, como o ovo da serpente no ninho dos tucanos, viesse a lhes dar o bote e, graças ao vácuo da desinteligência reinante desde 2013 (ardilosamente planejado, treinado e financiado desde a metrópole do império decadente, por meio de grupelhos autodenominados de “apolíticos”, como o MBL, MCC e VPR), tomou a dianteira do antilulismo e hoje aglutina com certa folga o segundo lugar nas pesquisas de intenção de votos, embora bem atrás do campeão consagrado -- o ex-presidente perseguido e difamado Luiz Inácio Lula da Silva, com mais do dobro sobre o segundo colocado, reiteramos, o ex-capitão e hoje deputado federal Jair Messias Bolsonaro.
Mandado para a reserva depois de ter respondido a processo em que era acusado de tentativa de ato terrorista (explosão da adutora da cidade do Rio de Janeiro e atos de sabotagem em quartéis situados na metrópole carioca) pelo então ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, ele vem sendo eleito e reeleito (sempre por um partido diferente) deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro desde 1990, tendo sido, em 1988, eleito vereador da cidade do Rio. No entanto, até a presente data, em trinta anos de vida parlamentar, não apresentou sequer um projeto que pudesse dar-lhe um mísero reconhecimento perante o conjunto da sociedade.
Alimenta seus medíocres mandatos por meio de polêmicas bizarras de misoginia, homofobia, intolerância e racismo cujos processos judiciais entopem os armários do Judiciário, além do oportunista discurso recorrente de propor o fechamento do Congresso Nacional, sob alegação de que o Legislativo só serve para onerar o País. Detalhe: não só se vale da imunidade parlamentar para se proteger de sucessivas condenações, como usa o parlamento como cabide de emprego para sua família -- seus três filhos mais velhos, do primeiro de seus três casamentos, estão todos exercendo cargos eletivos (um é vereador no Rio, outro é deputado estadual no Rio de Janeiro, e o mais velho é deputado federal por São Paulo).
Poço de contradições, BolsoNazi nem na caserna conta com expressivo apoio. Militares com formação sólida não o veem com bons olhos pelo temperamento imprevisível e pela conduta indisciplinada já demonstrada quando na ativa, afinal o respeito à hierarquia é ponto de honra de todo integrante de uma organização castrense, qualquer que seja sua graduação. Essa imprevisibilidade já lhe rendeu problemas no convívio partidário, tanto que não parou em nenhuma legenda, sempre por conta da postura pedante e troglodita. Seu discurso oportunista de defender a família padece de coerência pela forma como dissolveu dois casamentos anteriores. Nem entre seus familiares chega a ser um consenso, pois dizem as más línguas que alguns membros mais distantes da família Bolsonaro nem querem entrar no mérito da política para não passar vexame.
Esse é o ovo da serpente que, como fruto da incompetência dos golpistas, acabou capitalizando o discurso do ódio e da intolerância plantado a partir de 2013 pelos grupelhos mercenários sobejamente financiados por grupos empresariais conhecidíssimos, do porte do Habib’s, Riachuelo, Marisa e Fiesp com seu pato que virou sapo. A base do aprendiz de presidenciável acabou sendo a dos (sic) “cançado(a)s” -- na grafia “original” do(a)s pouco afeito(a)s à leitura e à reflexão, mas cheio(a)s de querer --, incomodado(a)s com a expansão do mercado (para seus ideólogos, um “deus”) que incluiu milhões de brasileiro(a)s à vida econômica, ocupando os mesmos espaços antes exclusivos à pretensiosa pequena burguesia (aquela que consome farofa mas ostenta caviar), como shoppings, aeroportos, universidades e até barzinhos e academias de musculação.
A generosa realidade nos traz uma luz no fim desse túnel tenebroso e medonho -- não nos esqueçamos de que o nazifascismo sempre deixa às nações vitimadas um rastro trágico de caos, destruição e, sobretudo, genocídio --, pois a sabedoria popular é maior que a mesquinhez das elites obtusas que sempre viveram da corrupção e do tráfico de influências (desde os tempos coloniais, de triste memória). O ódio e a intolerância disseminados não conseguem transpor os ambientes fétidos da burguesia ignorante e anacrônica (que não se apercebeu de que não mais vivemos no século XIX, mas no XXI), e mais uma vez o povo, em sua sábia humildade, nos ensina que, parafraseando o poeta, o ódio não derrota o ódio; só o amor derrota o ódio; seja abençoado o sândalo que derrota o ódio...
Ahmad Schabib Hany

sábado, 24 de março de 2018

AFINAL, QUAL É A GRANDEZA DE MORO?


AFINAL, QUAL É A GRANDEZA DE MORO?
Ninguém está livre da lei do retorno, por maior prestígio possa ter na bancada dos golpistas do Congresso, que jamais poderá “revogá-la” para proteger-se...
Produto mal-acabado de uma narrativa golpista construída nos nada criativos moldes da outrora (sic) “Vênus platinada” -- hoje Rede Gloebbels de Conspiração, da famiglia Ma(erd)inho, 53 anos de manipulação e sonegação acintosa --, o juiz Sérgio Moro, de primeira instância da Justiça Federal de Curitiba, virou celebridade cometendo excessos e atropelos para agradar a volúpia da mí(r)dia treteira, bem ao gosto de uma classe mé(r)dia (sic) “cançada” -- no dizer ignorante (em todos os sentidos) de um cartaz carregado por madames cariocas da Zona Sul durante as opulentas “manifestações” convocadas pelos fantoches do MBL e do Ponha-se na Rua, digo, Vem Pra Rua, organizações fascistas regadas a dólares de empresas multinacionais e de algumas “igrejas” que de fé absolutamente nada têm -- de dividir espaços “privilegiados” como universidades, aeroportos, shoppings e trânsito com a multidão de trabalhadores que ascenderam à pirâmide social graças às tímidas (mas efetivas) políticas de distribuição de renda dos governos dos Presidentes Lula e Dilma desde 2003.
Sim, cometendo excessos e atropelos -- nunca punidos, aliás --, como o da divulgação de gravação ilegal de conversa entre a então Presidenta Dilma e o Presidente Lula, que muito contribuiu para a deflagração do golpe, semanas posteriores. Aquela absurda e despropositada (sic) “condução coercitiva”, sem qualquer motivação real, apenas pirotecnia midiática, do Presidente Lula, além da invasão de sua privacidade em seu apartamento, constrangendo Dona Marisa Letícia, sem qualquer justificativa. E a aceleração de processos de correligionários, amigos e aliados do Presidente Lula com o claro propósito de criminalizar Lula durante a tentativa de desgastar politicamente os governos petistas, o seu partido e toda a esquerda? E a desconsideração explícita de denúncias contra as proeminências dos partidos adversários, como o PSDB, DEM, PP, PMDB etc, como Serra, Alckmin, Azeredo e a esposa de Eduardo Cunha, poupados seletivamente de qualquer processo?
Se isso fosse pouco, o que dizer, então, da “linha-direta” que mantém com o Departamento de Justiça do governo dos Estados Unidos (confirmada pelo alto escalão estadunidense), sem autorização prévia de superiores ou do Executivo brasileiro, sob cuja jurisdição se encontra a Chancelaria, responsável pelas relações exteriores do Estado nacional? E quanto ao status conquistado informalmente de pressionar e discorrer considerações nada ortodoxas em relação às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), já observadas pelo ministro Marco Aurélio Mello? Com que direito Moro age com tal, digamos, “desenvoltura”, quando tem o dever de ater-se a sua jurisdição e cumprir a lei como funcionário público que é, sob pena de estar cometendo crime de prevaricação?
Passados alguns anos do início da campanha de desestabilização protagonizada contra a Presidenta Dilma, em junho de 2013 (até então ela se encontrava em “céu de brigadeiro”, gozando de uma popularidade de fazer inveja a FHC, pois só era menor que a do Presidente Lula), hoje é possível perceber certas “coincidências” -- só que não (no linguajar juvenil), tamanhos os vínculos reais com outros episódios, no mínimo curiosos -- entre o cronograma de realização das “manifestações” e as operações da Leva-Pato (não há erro de ortografia, não), as coletivas dos procuradores, delegados e outros servidores públicos, subitamente empoderados, segundo a mí(r)dia golpista, pela “legitimidade das ruas” -- inexplicavelmente, hoje não mais fazem tamanho escarcéu diante de revelações muito, mas muito mais cabeludas (cenas gravadas de ocupantes de cargos privativos da Presidência da República e do Senado Federal com malas de dinheiro e denúncias provadas de recebimento de propina por pessoas da confiança pessoal do presidente golpista), todas não elucidadas, nem processados os envolvidos.
Este reles escrevinhador indignado teve a honra e o privilégio de conhecer um ex-colega de faculdade seu, totalmente diferente de Moro (para começar, avesso ao exibicionismo midiático, profundamente garantista e filho de opositor ao regime de 1964), que nutria ainda que tênue esperança de que seu ex-colega de curso pudesse contribuir para o aperfeiçoamento do sistema democrático. Não tenho conversado com ele há algum tempo, mas, coerente como é, não tenho dúvida de que deve ter-se frustrado com a sua, digamos, “seletividade”. Outro ex-colega seu, este da magistratura, classificado em primeiro lugar no mesmo concurso em que Moro concorreu para a Justiça Federal (hoje governador Flávio Dino, do Maranhão), não esconde a perplexidade por sua conduta extremamente anacrônica, sobretudo pela tabela que faz com procuradores federais como Deltan Dallagnol e Carlos Lima, explicitamente políticos, cheios de motivações ideológicas e reconhecidos por serem movidos por suas “convicções” -- basta nos lembrarmos da apresentação em data show em que Lula é o (sic) “chefe da quadrilha” e os tentáculos, risíveis, incluem instituições governamentais e programas sociais (portanto de governo), como que nisso houvesse alguma “trama” ou ilicitude.
Para encerrar, lembremo-nos do advogado Rodrigo Tacla Durán, que defendeu a Odebrecht e a UTC há pouco tempo. Ele causou verdadeiro alvoroço ao denunciar, da Espanha (onde se encontra por ter dupla cidadania, à procura de proteção do governo espanhol), os bastidores da operação Leva-Pato em que o ex-sócio da esposa do juiz Moro, Carlos Zucolotto Jr., pratica extorsões e um comportamento nada ético com seus clientes. Depois de ter sido assessora de Beto Richa, governador tucano do Paraná, a mulher de Moro passou a ser assessora jurídica da Shell no Brasil -- a multinacional do petróleo que mais está ganhando com as concessões do Pré-Sal e da privatização de subsidiárias da Petrobrás, estatal que está sendo fatiada pelo (des)governo de Me(rd)chel T(r)emer.
Diante disso, juiz Sérgio Moro, qual é a sua grandeza? Como bem escreveu o blogueiro Esmael Morais, o justiceiro togado está virando aquela personagem de desenho chamada de Sargento Garcia, que não consegue pegar o herói mascarado, e o Lula se consolidando como o Zorro, sobretudo na popularidade -- é que, como sempre ocorreu, quanto mais perseguem Lula, ele aglutina maior apoio da população, que muito se identifica com ele. Está na hora de os adversários procurarem outras estratégias, pois a destituição de Dilma para entronizar uma verdadeira quadrilha, e mais esta, para o desgosto dos (sic) “cançados”, já capitularam, já feneceram, tendo deixado no ninho tucano o ovo da serpente.
Lei do retorno ou não, é melhor já ir se acostumando com a iminência de um novo mandato popular, e tudo indica que seja com Lula mais que com alguém que ele apoie, ainda que com o mesmo perfil dele. E aos desavisados, a tal lei do retorno é igual à lei da gravidade, não pode ser revogada pela bancada dos golpistas no Congresso...
Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 23 de março de 2018

"O ESTADO É MEU!"

“O ESTADO É MEU!”
Do Rei Sol ao Príncipe das Trevas, a falência do Estado...
Não, não se trata do célebre Luís XIV -- o de “o Estado sou eu” --, iniciador do absolutismo, gênese do Estado Nacional ou Moderno, quando a burguesia recém-capitalizada pactua com o rei sua participação no poder e alija a nobreza parasitária. Ironia da História, hoje é a burguesia a parasitária, e pactua até com o crime organizado qualquer artifício que estique seus dias no topo da pirâmide social, valendo-se, inclusive, de fórmulas bizarras, tiradas do lixo da história, como caricaturas de Hitler, porém nada inteligentes...
Como bem disse o “velho barbudo”, a História só se repete como farsa.
Mas o grande Jornalista Paulo Moreira Leite, articulista do 247, escreveu há pouco menos de um ano que Michel Miguel Temer Lulia -- MT para o departamento de propinas da Odebrecht, ou Me(rd)chel T(r)emer para a História -- tenta inspirar-se em algum grande personagem histórico para os seus devaneios senis e justificar-se perante os seus, talvez diante de sua “recatada e do lar” e do inocente Michelzinho (afinal, não tem, absolutamente, qualquer culpa pelo pai que tem). Poderia ter sido Napoleão Bonaparte, mas escolheu arbitrariamente o Rei Sol, assunto muito bem tratado em seu (de Paulo Moreira Leite) memorável artigo.
Filho de um casal de imigrantes libaneses (não sei se “nascido no Brasil aos nove anos”, o que o impediria chegar ao mais alto cargo do País), depois de se formar na renomada Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo, passou no concurso para promotor de Justiça do estado de São Paulo. Anos mais tarde, graças à sensibilidade política de um grande brasileiro chamado André Franco Montoro, então recém-eleito governador em São Paulo ao derrotar de modo acachapante o então deputado Paulo Salim Maluf, encarnação da (mal)ditadura, foi convidado para chefiar o Ministério Público de São Paulo, como reconhecimento da importância da comunidade libanesa de São Paulo e gesto de cordialidade com os imigrantes árabes, de modo geral.
Exerceu o cargo até ser convidado, novamente por Montoro, para substituir o titular da Secretaria de Segurança Pública, quando teve seus quinze minutos de fama por ter criado a primeira Delegacia de Polícia de Atendimento à Mulher. Além de conquistar uma súbita notoriedade, T(r)emer conseguiu o apoio incondicional de um dos cardeais da oposição ao regime de 1964, ligado à igreja católica e bastante influente na sociedade paulistana. Ele deve ao então governador Montoro a sua candidatura a deputado constituinte em 1986, mas, com a sina de sempre ser suplente, acabou no banco de reservas da bancada paulista na Constituinte. Graças à inesgotável habilidade de seu padrinho, acabou participando dos debates da nova Carta Constitucional, pois um dos deputados titulares, a pedido de Montoro, passou a integrar o secretariado de Orestes Quércia, sucessor no governo estadual.
No entanto, T(r)emer nunca correspondeu à lealdade de Montoro, tanto que um ex-assessor seu não conseguiu segurar e deixou escapar, como ato falho, o desconforto desse democrata de excepcional quilate quando o lembravam que ele havia sido responsável pela, digamos, iniciação política do então obscuro aprendiz de político. Montoro e Mário Covas, no final da vida, romperam com o PMDB e foram fundamentais para a criação daquilo que viria a ser o ninho da serpente, o PSDB. Mas a deslealdade de T(r)emer, que não resistiu ao convite do governador quercista Luiz Antônio Fleury Filho, ex-membro como ele do Ministério Público de São Paulo, para assumir a Secretaria de Segurança Pública depois do vergonhoso e trágico massacre do Carandiru.
Há quem diga que o início da ascensão da -- segundo a Gloebbels dos Ma(erd)inhos -- “organização criminosa” que há décadas comanda as penitenciárias (e, de certo modo, também a política) paulistas tenha se dado durante a medíocre gestão de Temer à frente da administração dos presídios. Lenda ou não, é de causar preocupação, muita preocupação. Por quê? Nenhum governo tucano, em sã consciência, de 1995 aos nossos dias (pois é, Alckmin, Serra e demais tucanos vêm se revezando há 23 anos em São Paulo, e depois vêm falar em alternância para justificar o golpe contra Dilma...), pôs limite à expansão do domínio dessa quadrilha -- hoje um verdadeiro partido político com tentáculos em todo o Brasil (e até fora, como se pôde ver no Paraguai, Bolívia, Colômbia e Peru) -- e não por acaso, no início do (des)governo T(r)emer, houve uma verdadeira disputa de facções criminosos em presídios de diferentes estados. E o que fez T(r)emer? Absolutamente nada, pois nem as promessas de liberação de verbas para construir novas unidades penais se realizaram.
T(r)emer não se imagina distante do Palácio do Planalto. Ele pegou gosto pela coisa. Pior, tem convicção (êta palavrinha desgastada pelos justiceiros, togados ou não) de que o Estado lhe pertence, de que é “o predestinado”, e que sem ele o País sucumbirá, tamanha a sua obsessão pelo poder. Por isso a intervenção federal no Rio, para alavancar a sua (sic) “candidatura à reeleição” (como “reeleição” se não foi eleito presidente?). No ímpeto de saciar tal desejo, ele não se dá conta da tragédia que ameaça disseminar em todo o Brasil, a partir dessa sua iniciativa bizarra pra cima dos cariocas e fluminenses: além da dispersão de membros de milícias e organizações criminosas por conta da repressão, e se eclode (como está já ocorrendo) uma guerra entre a maior organização criminosa do Rio com a maior organização criminosa de São Paulo? E se a quadrilha paulista (nos dois sentidos) se apropria do Rio, e por extensão de todo o Brasil? Será um deus-nos-acuda (para todos nós, que não temos absolutamente nada a ver com isso)...
Em resumo -- com o devido pedido de desculpas ao genial Jornalista Paulo Moreira Leite --, T(r)emer está bem longe de imitar o Rei Sol, mas muito perto de ser o próprio Príncipe das Trevas. Para ele, “o Estado é meu!”, portanto, muito mais impregnado do medievalismo de uma mente obtusa que o rei francês que introduziu o absolutismo, tendo contribuído -- ao seu modo, é verdade -- para a consolidação do Estado Moderno, ou Nacional, hoje desesperadamente destruído pelas hordas neoliberais, um eufemismo para o parasitismo econômico que grassa (ou, melhor, desgraça) na contemporaneidade, em que rentistas, agiotas e os abutres do cassino financeiro internacional promovem golpes aqui, no Paraguai, em Honduras e em outros países pelo mundo afora.
Ahmad Schabib Hany

domingo, 18 de março de 2018

MARIELLE ESTÁ AUSENTE. DORCELINA TAMBÉM (Luiz Taques)


Marielle está ausente. Dorcelina, também.

Por Luiz Taques


Dorcelina Folador foi assassinada em outubro de 1999.

Como Marielle Franco, ela não tinha 40 anos de idade; deixara duas meninas órfãs.

Todos os anos, as filhas, hoje crescidas, ocupam as mídias alternativas para lembrar a prematura e indignante morte da mãe.

Repórter popular do MST, Dorcelina se filiara ao PT para se candidatar à prefeitura.

Lá, da longínqua e abandonada Mundo Novo, na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, onde morava.

Havia tido paralisia infantil, por isso, puxava de uma das pernas.

Na eleição de 1996, Dorcelina vencera os barões do tráfico e do contrabando que dominavam o pedaço.

Ousara ser honesta: não roubara; não deixara que roubassem.

Foi o bastante para encomendarem a sua morte.

O pistoleiro a matou com seis tiros – dos sete disparados, ele errou um.

Com o impacto do primeiro projétil, o corpo de Dorcelina se movimentara: ela estava numa cadeira de balanço. Foi quando o pistoleiro, que era profissional mas não manjava de física, apertara o gatilho pela segunda vez: sua mira falhara.

Porém, igual aos seus mandantes, era bandido de raciocínio rápido: esperou o corpo se estabilizar, para, só então, efetuar mais cinco disparos. Dorcelina Folador morrera na varanda da sua casa.

No Rio de Janeiro, com a morte encomendada da vereadora do PSOL, Marielle Franco, qual negra ou jovem pobre, oriunda de favela, tentará um mandato popular, para ser porta-voz dos excluídos no parlamento ou no executivo?

Não tentem, viu?

Parece que esse recado já havia sido dado com o assassinato da prefeita de Mundo Novo.
E nós, homens combalidos e do tapinha nas costas, e, tampouco, as Marielles da vida não deram conta disso.

Fica a pergunta: que mulher íntegra e comprometida se atrevera, desde o assassinato da proba e aguerrida Dorcelina Folador, chegar ao poder naquela região sombria de Mato Grosso do Sul?