quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

NO OLHO DO FURACÃO, SOB A MIRA DO UFANISMO


ARTIGO ESCRITO EM 2007, AUGE DOS ATAQUES AOS MOVIMENTOS SOCIOAMBIENTAIS

No olho do furacão, sob a mira do ufanismo
Reza a lenda que Corumbá, no coração do Pantanal Mato-grossense e do subcontinente sul-americano, teria sido amaldiçoada por ninguém menos que um generoso frade capuchinho, o Frei Mariano, que vivera o clímax da Guerra da Tríplice Aliança em solo pantaneiro e que no pós-guerra de 1870 se dedicara a cuidar de órfãos e viúvas, mas que, vítima da disputa entre a Igreja e a Maçonaria, acabara difamado e, à revelia, transferido ao interior de São Paulo, onde se suicidara mais tarde. A bizarra lenda em que alegóricas sandálias teriam sido enterradas para eternizar tal maldição – a representar outro linchamento moral, post-mortem, do sacerdote franciscano – foi difundida numa cartilha que circulou pelo então ainda próspero centro comercial na primeira metade do século 20, como uma infame tentativa de justificar o anacronismo e a miopia das elites diante da falta de estratégias para a superação da crise iminente do maior pólo comercial do interior da América do Sul.

Quase sessenta anos depois, transcorrido um período de indisfarçável (des)compasso de espera entre os discursos ufano-desenvolvimentistas reciclados de paladinos efêmeros e as teses realistas de estudiosos comprometidos tão-somente com a honestidade científica aliados às demandas corajosas de movimentos sócio-ambientais sinceros, o que resta de cosmopolitismo e altivez do outrora porto-livre do coração da América do Sul converteu-se em palco de uma aparvalhada batalha em que autoproclamados arautos, de diatribes conspiratórias e de maniqueísmo incorrigível, insistem em arranjar bodes expiatórios para tamanha iniqüidade histórica – desta vez parodiando o discurso dos caçadores de comunistas do pós-guerra de 1945 com aviltantes bravatas de que dirigentes e voluntários do terceiro setor (organizações não governamentais) estariam conspirando contra o desenvolvimento do coração do Pantanal e atentando contra a soberania nacional. Coincidentemente, nesse meio-tempo, ganhou destaque a lenda das sandálias do Frei Mariano, quer como peça de teatro, quer como samba-enredo de entidade carnavalesca, mas num contexto em que se evidencia o leviano propósito de deslegitimar qualquer opinião diferente, divergente ou antagônica à proposta requentada dos tempos getulistas de pólo siderúrgico, ora com o eufemismo de Zona de Processamento de Exportações, ora com o rótulo de Pólo Gás-químico ou Minero-siderúrgico.

Como membro de uma ONG sócio-ambiental de perfil comunitário fundada e consolidada no olho do furacão, sob a mira do ufanismo, confesso ter ficado preocupado com a integridade física dos generosos e corajosos estudiosos que foram alvo de uma ensandecida campanha difamatória, precisamente no ápice dessa atabalhoada verborragia intolerante e desprezível dos que, na falta de argumentos razoáveis e racionais, partiram para a prática fascista da negação do contraditório, de fazer inveja aos mais recalcitrantes títeres da virulência obscurantista que envergonha a espécie humana. Graças à postura irretocável dos representantes locais do Ministério Público Estadual, da Procuradoria da República, da Polícia Federal e do Poder Judiciário, de entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e de jornalistas éticos dignos do maior reconhecimento público (cujos nomes são preservados para não torná-los alvo de retaliações), dentro e fora do estado de Mato Grosso do Sul, foi possível assegurar um mínimo de respeito pela dignidade humana a esses cidadãos da maior autoridade moral e técnico-científica. E, justiça seja feita, meu reconhecimento sincero a um diminuto número de empresários locais de grande espírito público, alguns dos quais ainda sem ter qualquer mandato representativo de entidade classista para resguardar-se na potestade inerente a uma função pública.

Por certo, a experiência e a maturidade cidadã de muitos desses pesquisadores foi fundamental para transpor as provocações próprias dos tempos odiosos dos regimes de arbítrio que assolaram países latino-americanos, de triste memória, quando uma caricata mobilização ganhou proporções inusitadas no emblemático Dia Internacional do Trabalhador, chegando à linha divisória internacional entre o Brasil e a Bolívia, em Corumbá. É, no mínimo, bizarro o fato de representantes de órgãos oficiosos não dissimularem – e ostentarem até – o apoio institucional a tal façanha, num gesto nada amigável ante um governo constitucional e democraticamente eleito da nação irmã, por conta de uma decisão governamental que nada tem a ver com as demandas locais por desenvolvimento. Indiscutivelmente, o oportunismo de certos agentes políticos dos dois lados da mesma fronteira serviu de combustível para ações incendiárias e admoestações extemporâneas que confirmam a mesma origem antidemocrática, partilhada, aliás, num mesmo período histórico, ainda perceptível.

Órfãos ou viúvos de correntes cinicamente nazi-fascistas que sobreviveram ao segundo quartel do século 20, os paladinos de causas inconfessáveis (muitas vezes vinculados ao crime organizado) travestidos de porta-vozes da livre-iniciativa e do mercado livre nos nada generosos tempos de globalização adotaram um discurso postiço, nada convincente, de arautos da justiça social no exuberante, mas excludente, coração do Pantanal. Embora todos tivessem o pleno direito de lutar por interesses legítimos, diga-se de passagem, a arrogância e a leviandade com que tentaram impor seus pontos de vista – usando truculência explícita e poder econômico sobre os que racionalmente procuram alternativas exeqüíveis para um sólido e consistente desenvolvimento sustentável no contexto do que é preconizado pela Carta da Terra e pela Agenda 21 – empobrecem e invalidam o necessário desenvolvimento do processo civilizatório da humanidade assentada neste singular território de riquezas incomensuráveis, desde sempre, dos dois lados desta fronteira de povos irmãos.

A despeito das vis agressões e das campanhas difamatórias, o terceiro setor tem dado eloqüentes provas de generosidade e compromisso com a vida em todos os quadrantes do planeta, seja na defesa dos recursos naturais, na afirmação do protagonismo cidadão, na inclusão social ou mesmo na preservação da identidade cultural ou do Estado de direito. Senão, vejamos: mesmo com todas as tentativas levianas de deslegitimar suas ações pioneiras, não foram senão as ONGs as que corajosamente não só assumiram para valer como implementaram as iniciativas de interlocução que ganharam a denominação de Plataforma de Diálogo – fórum pelo qual membros do terceiro setor vêm pactuando de forma inovadora e sensata com o segundo setor no sincero intuito de fazer avançar os mecanismos institucionais de proteção ambiental causado pelo delicado processo de licenciamento de empreendimentos industriais em Corumbá. Por outro lado, são as ONGs as que decididamente têm chegado onde o Estado ainda não assumiu suas prerrogativas, preservando contingentes humanos do assédio de quadrilhas organizadas que se valem da ausência institucional para ampliar seus tentáculos e estender suas teias delinqüentes sobre populações inteiras, que viram reféns dos criminosos e dos servidores públicos corruptos, de todos os poderes e escalões, cooptados por eles.

No dizer do inigualável sociólogo brasileiro Herbert de Souza, o saudoso Betinho, fundador do pioneiro Instituto Brasileiro de Análises Sócio-Econômicas (Ibase), “não basta dar um prato de feijão; é preciso ser cidadão para conferir cidadania aos 32 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza”. Pois, então, nessa linha de raciocínio, podemos dizer que não basta bradar pela defesa do desenvolvimento da região, mas é fundamental que esse desenvolvimento seja construído sob o império da lei, à luz da ética e da solidariedade universal e com a participação democrática de todos os diferentes atores sociais, para que, ao lado da geração de emprego, a qualidade de vida represente, de fato, o progresso que a humanidade almeja, sob pena de que, em duas ou três décadas, sobre, mais uma vez para a população local, a herança maldita de iniciativas feitas para o enriquecimento de alguns que sequer ficarão para sentir as conseqüências dos estragos deixados (as voçorocas expostas, os rios contaminados, a vegetação nativa degradada e a fauna dizimada) para as próximas gerações de pantaneirinhos que absolutamente não têm culpa de que seus pais tenham caído mais uma vez na cantilena esperta das sereias de águas turvas e solos contaminados...
Ahmad Schabib Hany(*)


(*) É fundador e membro da coordenação-executiva da Organização de Cidadania, Cultura e Ambiente (OCCA), entidade sócio-ambiental sediada no coração do Pantanal (Corumbá, MS), além de membro da coordenação colegiada do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (FORUMCORLAD).

REUNIÃO PÚBLICA SOBRE O PROJETO DE TERMELÉTRICA DE LADÁRIO


Decorridos quinze anos de longas discussões relativas à implantação de uma termelétrica em Corumbá, movida a gás natural (e que deu o que deu), agora Ladário é a bola da vez, conforme convocação de reunião pública a ser realizada em Ladário, quinta-feira, dia 1o. de dezembro, às 19 horas, no Clube Marisco.

Apesar da convocação ter chegado em cima da hora, é necessária a presença de pessoas com um mínimo de intervenção qualificada, de modo a permitir um detalhamento maior dos impactos socioambientais na região, coração do Pantanal. Mas todo cuidado é pouco. Até porque muito curiosa a realização dessa reunião num espaço militar quando há espaços como a sede da Câmara Municipal de Ladário para reuniões públicas dessa natureza (basta dizer que a maioria das conferências municipais daquele município se realizou na Câmara).

Sabemos da intolerância semeada nos últimos três anos (a partir de 2013, de modo a sedimentar condições políticas e psicossociais para o golpe midiático-parlamentar empreendido), o que requer agir com muita habilidade e cautela, para o não fortalecimento do discurso ufano-desenvolvimentista recorrente, e muito utilizado pelos grupos econômicos e políticos que atuam nos bastidores (inclusive os "amigos do Delcídio", agora, mais que nunca, aliados dos grupos instalados no núcleo de poder do governo pós-neoliberal vigente), os mesmos que venderam ilusões como os tais pólos minero-siderúrgico e gás-químico em Corumbá, que nunca saíram do papel (e dos palanques) por total inconsistência técnica e econômica.

É fundamental saber qual o grupo empreendedor, qual a sua experiência no negócio, qual o montante a ser financiado pelo BNDES e qual percentual no custo total do empreendimento, mas, sobretudo, qual a tecnologia adotada (no caso das anteriores, tanto em Corumbá, como Campo Grande e inclusive Puerto Suárez -- no governo neoliberal de Gonzalo Sánchez de Lozada, anterior ao Evo Morales --, a adoção de tecnologia obsoleta inviabilizou o projeto, sobretudo por razões econômicas, pois os custos eram absurdamente anacrônicos).

Por outro lado, é preciso saber como funcionará a usina, quais serão seus resíduos (líquidos, sólidos e gasosos) e qual a sua quantidade diária e onde serão despejados (local e em que condições de segurança ambiental e de saúde dos trabalhadores e da comunidade do entorno), qual a temperatura média atingida pela usina, qual o plano de evacuação em caso de emergência, qual o projeto de desenvolvimento a que vinculada a usina (se gás-químico, minero-siderúrgico, industrial etc), qual o número de empregos diretos e indiretos a serem gerados pelo projeto e qual o perfil do trabalhador a ser contratado (nível de escolaridade, formação técnica, qual a percentual de trabalhadores da região e seus respectivos salários), qual o cronograma de execução da obra, qual o cronograma de funcionamento da usina e de absorção da mão de obra local, entre outras questões a serem depreendidas durante a reunião pública.


Divulgue, articule, informe e desmistifique. O melhor exemplo de "projeto desenvolvimentista" mentiroso, perdulário e danoso para Ladário é o famigerado "pôlder" iniciado e abandonado durante os anos de chumbo (entre 1973 e 1978, último ano de Mato Grosso uno), região hoje conhecida como CODRASA (sigla da empresa contratada para a dragagem, "Companhia de Dragagens S/A"), um verdadeiro poço sem fundo que sugou milhões de dólares jamais vistos ou devolvidos aos cofres públicos. Há, obviamente, dezenas de outros, como o PRODEPAN e o Programa BID Pantanal, mas agora foquemos no projeto de termelétrica de Ladário e seus impactos socioambientais e econômicos para a região.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

CENTENÁRIO DO POETA MANOEL DE BARROS

MANOEL DE BARROS, O GARIMPADOR DE SIGNIFICADOS
“Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem.” (Manoel de Barros, “Livro de Pré-Coisas”)
Manoel de Barros, o garimpador de significados, tratou da alma pantaneira como sua razão de ser, muito mais que mera matéria-prima.
Essa alma pantaneira, igual a ele mesmo, é discreta em seu comportamento; generosa em suas atitudes, e cativante em seu proceder.
Cosmopolita e à frente de seu tempo, o Poeta praticamente cresceu com o século XX, em sua mais ampla acepção. Viveu a dinâmica Cuiabá, a apoteótica Corumbá cosmopolita e a vanguardista Capital Federal (Rio de Janeiro).
Viajou por diversos países, enveredou por “ideologia exótica” (o socialismo), mas só encontrou sua identidade quando se voltou infinitamente para o universo pantaneiro.
Por isso, cosmopolita e “enraizado” – dialética e coerentemente.
Um dos mais originais poetas da língua portuguesa, tratava das palavras – ou, melhor, de seus significados – com a mesma dignidade que um peão pantaneiro ou um operário urbano encara sua lida: com humildade e disciplina – mas sem perder a irreverente inocência jamais!
Na verdade, essa inocência era, mesmo, pura sabedoria. Porque era – aliás, é e será – impressionantemente desconcertante: mais que pela originalidade do trato com as palavras, pela profundidade de seus significados, de sua cosmovisão.
Inesgotável na linguagem, genial na descrição e no trato das palavras e profundo na reflexão, Manoel de Barros é único, como o Pantanal.
Eis que, por sua grandeza, dispensou o narcisismo que toma conta desta sociedade “globalizada”, a do cacoete do “selfie” ou do “consuma-e-descarte”. Feito antídoto natural, a obra do Poeta nos resgata da futilidade e tantas outras taras recorrentes desta rasa, amorfa, despersonalizada e nada original “pós-modernidade”.
E o caráter universal de sua obra se sustenta pelo movimento vivo – pela vida – de sua criação, que interage com o leitor, pela eternidade afora.
Atrevo-me, por isso, a cometer uma leviandade imperdoável – reconheço – ao compará-lo a um igualmente genial (mas pouco conhecido) pensador grego de dois milênios e meio atrás: o grande Heráclito de Éfeso, acintosamente apequena por seus contemporâneos pela originalidade de sua obra, mordacidade de sua visão, mas sobretudo pela complexidade de seu pensamento.
Heráclito, igualmente twiteriano em sua linguagem, foi tardiamente reconhecido no Ocidente como Pai da dialética, sobretudo pelo filósofo alemão Friedrich Hegel.
Justifico minha leviandade por conta do movimento permanente com que suas obras ganham a eternidade. Cada qual ao seu tempo e ao seu modo, permitem uma inesgotável leitura viva (ou, se quiserem, interpretação viva), em constante movimento – por isso, dialética, interativa, transformadora.
Senão, o que pode ser mais dialético que “Penso que os homens deste lugar são a continuação destas águas.” (Manoel de Barros, “Águas”)?!
Dito isso, agradeço infinitamente ao meu querido Amigo, um Irmão que a Vida me presenteou, o brilhante Jornalista Luiz Taques (autor, entre outros, de “Vaso de colher chuvas”, com contos-reportagem com Manoel de Barros), que por pura generosidade, primeiro em 2004, me desafiou a traduzir para o espanhol o poema “Águas” – lançado na primeira edição do Festival América do Sul –, e depois, em 2012, me permitiu conhecer pessoalmente, em seu lar, o eterno e terno Poeta e sua querida Companheira, Dona Estela, e partilhar com eles eternos minutos (não sei quanto tempo estive, pois me encontrava sob o encanto indescritível de uma pessoa doce e gentil, além de irreverente e sincera – aliás, bem pantaneira).
Duas experiências que a generosidade infinita da Vida me propiciou, sem que eu tivesse qualquer mérito, com sinceridade. No caso da tradução, só posso dizer que me exigiu profundo respeito, cuidado e, obviamente, uma deliciosa e irresponsável imersão ao universo manuelino, de modo a me impregnar, a me amalgamar, como em um processo de reprodução celular que não sei descrever por minha profunda ignorância sobre as ciências naturais.
E faço questão de registrar que, se essa tradução foi aprovada (inclusive pelo Poeta), foi graças à generosidade de minha querida e leal Irmã Wadia Hanny e dos hoje saudosos Amigos o brilhante Jornalista argentino-boliviano Lorenzo Carri e o renomado escritor boliviano Néstor Taboada Terán, que graças à internet deram seu elegante aval a este atrevido tradutor de um poema só.
Para concluir, agradeço ao também querido Amigo e Irmão o Professor Doutor Júlio Galharte (do CPAN-UFMS), desde pelo menos três décadas, que gentil e generosamente me oportunizou participar da celebração do centenário de nascimento de Manoel de Barros, uma verdadeira “epifania da natureza”, com a devida licença do Poeta. Obrigado, querida Amiga Professora Mestra Marcelly Saboya Ravanelli, gestora de Cultura do SESC; Professora Doutora Regina Baruki Fonseca (CPAN-UFMS), e Professora Doutora Ângela Varella Brasil (CPAN-UFMS).
Ahmad Schabib Hany
Sugestão de links
http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet323.htm
http://www.revistaecologico.com.br/materia.php?id=20&secao=206&mat=240
http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,manoel-de-barros-o-poeta-que-veio-do-chao,523717
https://www.publico.pt/2014/11/13/culturaipsilon/noticia/morreu-o-poeta-brasileiro-manoel-de-barros-1676117
https://www.youtube.com/watch?v=QZLC8wNVtfs

http://fazmuitobem.com/vaso-de-colher-chuvas/

domingo, 27 de novembro de 2016

O DIA EM QUE A HUMANIDADE PERDEU O ÚLTIMO LÍDER REVOLUCIONÁRIO DO SÉCULO XX


O DIA EM QUE A HUMANIDADE PERDEU O ÚLTIMO LÍDER REVOLUCIONÁRIO DO SÉCULO XX

Que tempos estes em que vivemos! Fantoches, títeres, marionetes, em vez de líderes. Mentes rasas, seres obtusos, medíocres, canastrões, charlatães, mentirosos, pobres diabos, canalhas – simplesmente canalhas, como bem os definiu Tancredo de Almeida Neves nos idos de 1964.
Depois que Joseph Goebbels fez escola e a mentira passou a ser chamada de estratégia de marketing no ocidente, qualquer ameba, verme não pensante, calhorda, parasita ou assemelhado pode ser guindado, nas plutocracias em que se metamorfosearam as frágeis democracias do século XX, à condição de gestor, gerente ou presidente de araque destes áridos tempos globalizados.
Logo quando um apático e obscuro vice-presidente golpista ascende à condição de titular numa das maiores democracias do planeta, mediante arranjos maquinados desde as metrópoles financeiras.  Logo quando um bizarro nefelibata ianque com incontinência fecal por via oral sucederá o primeiro presidente negro que deixou simplesmente tudo a desejar no império em decadência. Logo quando fundamentalistas de todos os credos e matizes se transformam em salvadores da pátria a serviço do demo...
Justo nesse momento sai de cena o último dos líderes forjados literalmente na luta. Na luta contra a maior potência militar de todos os tempos. A menos de 100 milhas de seu território. A despeito da desproporção abismal entre os dois Estados: o imperial e o rebelde. Tal qual o Vietnã de Ho Chi Min, a Cuba de Fidel deu uma homérica banana ao sinistro e usurpador Tio Sam!
Gostem ou não os serviçais do império, Fidel Alejandro Castro Ruz – o grande Comandante rebelde – é o último líder da segunda metade do século XX, ao lado de Gamal Abdel Nasser, Broz Tito, Jawaharlal Nehru, Mao Tsé-Tung, Ho Chi Minh, Nelson Mandela, Agostinho dos Santos e Salvador Allende. Gostem ou não de sua personalidade forte e de sua inteligência privilegiada, Fidel Castro enterrou todos os seus principais inimigos, depois de vencê-los de forma acachapante. Inclusive as mais de 500 tentativas de assassinato, patrocinada por agentes da CIA e seus lacaios.
Companheiro de outros três igualmente valorosos líderes – Camilo Cienfuegos, Ernesto Che Guevara e Raúl Castro Ruz –, o incansável líder cubano soube superar a si mesmo para fazer frente às inesgotáveis tentativas de atentados, golpes e invasões dos nefastos vizinhos, que por quase um século impingiram à sua nação a triste condição de bordel a céu aberto dos ianques. Porque Cuba antes de Fidel não passava de – com o perdão da palavra! – reles prostíbulo impune e barato dos endinheirados estadunidenses canhestros, cuja maldita tara ejaculavam nos cortiços e casarões fétidos da horda “civilizada”.
A propósito, socialistas arrependidos como Roberto Freire, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aloysio Nunes (vulgo “Nicomedes”, motorista de Carlos Marighela, incrível e suspeitamente sobrevivente à balaceira de sua execução numa lúgubre rua do centro de São Paulo), nem às dúzias, chegam aos pés calejados desse determinado e leal dirigente de seu povo em luta (até porque é difícil ser líder de um povo em plena rebeldia, em cujo front não há ninguém menos que o mais bem armado exército do mundo).
Pois o 25 de novembro de 2016 entra para a história como o dia em que a humanidade perdeu o último – o derradeiro – líder revolucionário da segunda metade do século XX: Fidel Alejandro Castro Ruz. Aguerrido Comandante de um povo cuja dimensão é reconhecidamente superior ao vasto território de seu canhestro inimigo, o império do caos. A História já te entronizou no panteão dos galhardos, dos autênticos, dos corajosos. Até sempre, Fidel! Sempre na memória, Comandante!

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

CONFLITO GERACIONAL OU LUTA DE CLASSES? (Prof. Antônio Carlos Rodrigues de Moraes)

A LIÇÃO DO PROFESSOR ANTÔNIO CARLOS RODRIGUES DE MORAES



CONFLITO GERACIONAL OU LUTA DE CLASSES?

O conflito entre gerações, antes presente em todas as relações sociais, hoje parece se restringir às relações familiares e às do chamado mundo corporativo. No campo da política, houve tempos, principalmente para os nascidos antes da década de 1960, em que era normal ser “revolucionário” na juventude e “reacionário” na maturidade da vida. Até hoje, quase todos os “reacionários” conhecidos vangloriam-se de terem sido comunistas na juventude, ou, no mínimo, ter votado alguma vez no PT. Depois, dizem, a maturidade os fez criar juízo. Rejeitam um passado cuja lembrança serve para exorcizar a traição de classe, transmutando-a em sentimento de decepção com os erros cometidos pela esquerda.

Hoje em dia, em que ser revolucionário restringe-se muitas vezes a dominar as tecnologias da informação, parte significativa da juventude não se vexa em adotar posições nazistas, defender pastores midiáticos exploradores da boa-fé, embebedar-se com os discursos dos bolsonaros da vida, enfim, defender os ideais da direita, mormente a meritocracia, contra os vagabundos que vivem dos subsídios do governo. Ser jovem não garante mais, ipso facto, ideais revolucionários, e os limites entre esquerda e direita atravessam por dentro de todas as gerações e não mais as separam.

No campo de batalha contra as mudanças no ensino médio impostas pelo governo golpista através de MP 746 e a precarização dos investimentos à educação através da PEC 241, onde se multiplicam as manifestações de rua e, principalmente, ocupação de escolas e universidades em vários estados, podemos observar duas trincheiras opostas, dentro da mesma geração: de um lado, a estudante Ana Júlia, chamando às falas o governo e os deputados do Paraná, escancarando às suas vistas a consciência dos ocupantes das escolas e de outro, o Kim Kataguiri, com seu MBL, conchavado pelo governo golpista para desqualificar a luta dos estudantes. Através de seus vídeos editados, com entrevistas seletivas, tenta passar a ideia de que os participantes das ocupações não sabem o que estão fazendo lá.

Creio ser importante mostrar, antes de mais nada, que a imagem do estudante inocente, incapaz de pensar por si, é pressuposto e pós suposto da política da atual administração do Ministério da Educação. Pressuposto porque imaginam o estudante como totalmente exposto à manipulação ideológica de professores esquerdistas e pós suposto porque esse é seu objetivo, que ele se conserve alienado, através de projetos abençoados pelo MEC, como a escola sem partido, sustentada pelo peso moral de um Alexandre Frota, além da eliminação de disciplinas que desenvolvem o pensamento crítico, como filosofia e sociologia, redução de importância de outras disciplinas humanas como história e geografia e abono ao retorno de disciplinas doutrinárias como a já falecida educação moral e cívica.

Obviamente as medidas impostas à educação através da MP 746 e PEC 241 não são defensáveis no plano da discussão crítica e, por isso, não cabe aos seus defensores outra estratégia que não a sabotagem que se disfarça pela participação de movimentos integrados e liderados por jovens da mesma geração dos que lutam contra elas. Durante a reação contra as ocupações de escolas pelos que rejeitavam a tal “reorganização” do governo tucano do estado de São Paulo, a juventude do PSDB teve papel importante na ajuda a arrebentar cadeados e invadir escolas ocupadas, com o apoio de pais direitosos e do braço armado e truculento da polícia. Hoje, a truculência da polícia é coadjuvada pela ação sabotadora do MBL que, sem poder discutir com os estudantes os benefícios de uma política educacional que visa transformá-los em idiotas, tenta desqualificar quem se rebela contra esse processo.

Essa desqualificação é feita através de entrevistas que usam questões numéricas sobre o PIB brasileiro, sobre a dívida pública, etc., que as pessoas não trazem sempre à memória, para confundir os entrevistados e, com isso, tentar convencê-los de que não dominam os motivos pelos quais estão lutando. Passam longe de tentar convencer os estudantes de que as mudanças impostas pelo governo são benéficas a todos eles. Não se preocupam em discutir os efeitos de um congelamento dos investimentos em educação por vinte anos, tempo em que a população não deixará de crescer, nem a educação deixará de requerer maiores esforços para melhoria e nem que os míseros salários dos profissionais da educação não poderão esperar por vinte anos para sua recomposição, sem risco de seu desaparecimento. Não se preocupam também em refutar as acusações de tecnicismo da MP 746, que tem em vista apenas a formação de profissionais eficientes e obedientes para o mundo do trabalho e que a suposta possibilidade de escolha dos estudantes entre os cinco itinerários formativos é balela, na medida em que a escola não tem a obrigação de oferecê-los todos.

Felizmente, nem esses jovens cooptados, nem o governo que os coopta conhecem os mecanismos de formação da consciência dos estudantes em luta. A obra recém-lançada pela Ed. Veneta, “Baderna – Escolas de Luta”, de Antonia M. Campos, Jonas Medeiros e Márcio M. Ribeiro, mostra a trajetória da luta dos estudantes que ocuparam cerca de duzentas escolas no estado de São Paulo e derrotaram o projeto do governo tucano de “reorganização” das escolas estaduais. Agora, a mesma luta contagia milhares de estudantes em mais de mil escolas em vários estados contra a imposição de mudanças que hão de restringir investimentos e deteriorar o espírito crítico que caracteriza o ensino médio. Tanto na narrativa do livro, quanto agora na fala de Ana Júlia, podemos perceber que a consciência do estudante se forma na luta e não como produto de doutrinação por parte dos professores e nem pode ser apagada por uma doutrinação contrária. E, com certeza, ela há de crescer, alimentada, não por ideias estranhas ao mundo do estudante, mas pela percepção dos efeitos dessas mudanças na precarização do ensino. Essa consciência, forjada na luta, resultará, ao fim e ao cabo, numa valorização maior das disciplinas instrumentadoras de reflexão crítica que os estudantes estão ameaçados de perder.

Antonio Carlos Rodrigues de Moraes,
Professor aposentado

Compartilhado da página da Senadora Gleisi Hoffmann

Crise do capitalismo e a nova ofensiva global pelos recursos naturais pós-2008 (Andrey Cordeiro Ferreira)

Por Andrey Cordeiro Ferreira (publicado no "Le Monde Diplomatique Brasil" em 9 mar. 2016, disponível pelo link , compartilhado de mensagem da Amiga Silvia Murad)


A LUTA PELA ENERGIA




Crise do capitalismo e a nova ofensiva global pelos recursos naturais pós-2008






O resultado da crise da Petrobras no Brasil levou a uma reestruturação da empresa que vem se refletindo no aprofundamento da privatização e internacionalização da mesma, que passará a ser diretamente controlada pelas grandes multinacionais do setor, de acordo com seu plano de negócios 2015-2019






Por Andrey Cordeiro Ferreira






A crise financeira global do capitalismo em 2008 desencadeou uma nova corrida pelos recursos naturais e energéticos no mundo, que se manifesta na geopolítica, economia e ecologia política. Essa corrida pode ser percebida por algumas tendências aparentemente desconexas:
1) elevação dos preços dos recursos naturais e primários no mercado internacional, dos investimentos externos diretos (IED) e lucratividade das empresas desse setor;
2) eclosão de conflitos dentro dos Estados e entre Estados (guerras convencionais e civis relacionadas a recursos naturais, com a fragmentação e descentralização de alguns Estados e a centralização de poder em outros; conflitos diplomáticos, governamentais e entre elites; conflitos entre movimentos sociais, camponeses e povos indígenas);
3) luta pelo controle dos processos de produção de energia e fluxos energéticos, especialmente a tentativa de colocar os mesmos sob controle dos mercados e das grandes corporações dos países centrais.
Iremos mostrar aqui como fatores de economia política, geopolítica e meio ambiente se combinam para produzir uma luta (entre grandes potências, corporações, Estados nacionais, povos e classes sociais) que aparece aos nossos olhos de forma relativamente enigmática.
 
Crise e corrida pelos recursos naturais
A luta pela energia e pelos recursos naturais se intensificou depois da crise do capitalismo iniciada em 2008. Essa luta pode ser observada por meio de diferentes estratégias e é condicionada por uma série de fatores: 1) tendência de elevação dos preços internacionais das commodities, especialmente da energia; 2) disputa pela redefinição do controle das reservas de recursos naturais; 3) embate pelo controle das empresas de energia. Essa luta se desdobrou em diferentes estratégias políticas e empresariais, desde a intervenção militar direta, passando pelo apoio a forças militares locais em guerra civil, até campanhas políticas de desestabilização de governos.
Os dados mostram que a crise de 2008 não criou a tendência de expansão da indústria extrativa e energética, especialmente petróleo e gás, mas deu a ela um novo impulso. Para demonstrar nosso argumento vamos considerar a atuação de um ator-chave, os Estados Unidos. Uma boa forma de entender esse processo é observando os Investimentos Externos Diretos (IED) dos Estados Unidos no mundo.
Em 1999, os setores de manufatura e químicos lideravam os IED dos Estados Unidos. Entre 2001 e 2005, o setor de indústria extrativa (mining) cresceu no mesmo ritmo que o de química, mas, a partir de 2006, o setor extrativo tomou maior impulso e tornou-se o segundo setor mais importante dos IED, tendência que se manteve mesmo depois da crise de 2008 (ver Figura 1). Ou seja, o investimento na indústria extrativa passou a ser o segundo mais importante da economia dos Estados Unidos. Por outro lado, tal indústria cresceu paralelamente ao crescimento do setor de manufaturados, o que nos obriga a lembrar que energia e recursos naturais são produtos intermediários e seu crescimento está condicionado pela expansão industrial e produção de bens finais.
Figura 1- IED dos Estados Unidos por setor de atividade econômica

Quando consideramos os Investimentos Externos Diretos na indústria extrativa, vemos que desde o final dos anos 1990 existe uma tendência de crescimento (saindo de US$ 70 bilhões naquele ano para algo em torno de US$ 140 bilhões em 2007). Na sequência, os investimentos totais na indústria extrativa saem de US$ 140 bilhões, em 2007, para US$ 220 bilhões, em 2014; os investimentos em petróleo (petroleum) também crescem, saindo de US$ 140 bilhões e alcançando cerca de US$ 210 bilhões, em 2014; enquanto os investimentos em extração de óleo e gás (oil and gas extraction) saem de US$ 90 bilhões, em 2007, para US$ 120 bilhões, em 2014 (ver Figura 2).
Figura 2– IED nos subsetores da indústria extrativa

A figura 3 mostra uma mudança de distribuição da localização desses IED por região. Em 2002, a Europa era o principal destino dos IED dos Estados Unidos. Até 2008 essa tendência se manteve, mas, depois da crise, a América do Sul deu um salto, chegando, em 2010, a ficar muito próxima da Ásia e do Pacífico e acima da Europa. Em 2011, a África superou a América do Sul que, por sua vez, concentrou ainda importantes investimentos em 2014.
Figura 3- IED dos Estados Unidos por subsetor da indústria extrativa

O que podemos afirmar conclusivamente é que a crise de 2008 não interrompe certas tendências verificadas no início da chamada globalização nos anos 1990. Nesse sentido, observa-se: 1º) um forte crescimento, que se dá de forma paralela, dos investimentos em manufatura e em indústria extrativa; 2º) a partir da crise de 2008 ocorre um aprofundamento dos IED no setor de extração, petróleo e energia, que provocam umboom na economia internacional; 3º) a substituição da Europa pela Ásia em termos de principal destino dos IED dos Estados Unidos, ao longo dos anos 2000, e a retomada pela América do Sul, assim como pela África, de uma importante posição em relação aos investimentos externos. Em termos de economia política, a crise de 2008 não apenas não reverteu como consolidou tais tendências e diversificou a alocação geográfica dos Investimentos Externos Diretos.1
 
A quarta guerra mundial? O neoimperialismo e suas duas táticas
O eurocentrismo é mais que um sistema de ideias ou uma cosmovisão que afirma a centralidade das sociedades de origem europeia na história e evolução humana. É um modo de conhecer, viver e narrar essa suposta superioridade na história, na ciência, em suma, em todos os domínios. Pode ser a exaltação das sociedades europeias, da sua estética, fisionomia ou a invisibilização dos demais povos, ou essas várias coisas ao mesmo tempo.
Isso se reflete na forma como se define o conceito de “guerra mundial” e a história política da humanidade: “guerra mundial é guerra na qual estão engajadas as principais nações”. O mundo todo pode estar em guerra, mas se as superpotências ou “nações mais importantes” não estiverem, não se considera que haja uma guerra mundial. É por isso que a guerra fria não é contabilizada como uma guerra mundial.2
O arcabouço epistêmico do eurocentrismo não é capaz de fazer uma leitura satisfatória da geopolítica e da economia política mundial no final do século XX e início do século XXI. Uma leitura antieurocêntrica surgiu curiosamente de dentro de um dos conflitos armados na América Latina, sendo realizada pelo Subcomandante Marcos no texto “A quarta guerra mundial”. Nesse texto, expondo a cosmovisão zapatista, ou seja, de povos indígenas-camponeses que vivenciavam uma guerra de libertação, ele propôs uma redefinição da história: o mundo não viveria sob a ameaça da terceira guerra mundial, pois, na realidade, já vivenciava a “quarta guerra mundial”.
Nessa periodização, fundada numa epistemologia periférica, a terceira guerra mundial foi a guerra fria que perdurou entre 1945-1989: nela as superpotências se enfrentaram indiretamente, por meio de outros países.A quarta guerra mundial começou com a queda do Muro de Berlim e fim da URSS entre 1989-1991 e trouxe, segundo o Subcomandante Marcos, diferenças substanciais. Em primeiro lugar, as guerras mundiais anteriores foram centradas na guerra convencional entre Estados nacionais. Na quarta guerra mundial, com a supremacia e unipolaridade relativa dos Estados Unidos no sistema interestatal, as guerras convencionais deram lugar às guerras irregulares. Em segundo lugar, a política das guerras, em razão do desaparecimento dos antigos inimigos, se modificou: da guerra ideológica entre sistemas (nazismo x democracia e depois capitalismo x socialismo), passamos a formas difusas como a “guerra ao terror” e a “guerra às drogas”, em que o inimigo passou a ser representado por “redes descentralizadas”. Assim, a quarta guerra mundial teria continuidades e mudanças em relação às anteriores. Os fatores constantes seriam: 1º) conquista e mudança na organização territorial ou do mapa-múndi. Isso aconteceu ao final da Guerra Fria e também com a globalização; 2º) elas só terminam com destruição total do inimigo (como ocorreu com o nazismo, o socialismo); 3º) elas implicam na “Administração da Conquista”.
Por outro lado, o Subcomandante Marcos chama a atenção para o fato de que a globalização, que acompanha a quarta guerra mundial, implicou num paradoxal processo de homogeneização e fragmentação. Mais uma vez os mesmos casos ilustram: a difusão das instituições da democracia ocidental foi acompanhada da divisão de países como Iraque, Afeganistão e Líbia, representando esse duplo movimento de fragmentação e mudança do mapa-múndi e organização territorial. O “inimigo difuso” permitiu que este pudesse ser escolhido situacionalmente, identificado com um Estado ou governo a ser destruído.3
No nosso entendimento, os processos que hoje estão em curso no sistema-mundo podem ser compreendidos por estas lentes: hoje, o imperialismo se organiza por meio da luta pelo controle de recursos naturais, especialmente energéticos, que se dá num complexo quadro social que podemos chamar sem exagero de quarta guerra mundial.
A geopolítica dos recursos naturais e energéticos, entretanto, modifica-se bastante. Concomitantemente à expansão dos IED, existe um aprofundamento da competição internacional entre empresas e o uso de diversas estratégias dos países centrais, especialmente da intervenção militar direta, indireta e ação política indireta por meio de oposições a governos dentro de determinados países. Nesse sentido, se considerarmos América Latina e África, vemos que foram palco não somente da exportação de capitais, mas também da intensificação de conflitos e rebeliões populares, de conflitos governamentais e guerras civis.
Se fizermos uma cronologia dos conflitos, podemos identificar dois tipos: os conflitos militares dentro dos Estados africanos em regiões que receberam muito investimento e que tiveram como resultado guerras civis e renegociação dos contratos que envolvem acesso aos recursos energéticos; os conflitos empresariais e governamentais (entre oposição e situação nos órgãos de governo), que dividiram as posições sobre política econômica, com destaque para o tema do petróleo e energia. Vejamos a cronologia abaixo:
2011: Derrocada do governo Kadafi. Guerra civil e divisão da Líbia. Hoje milícias controlam diversas cidades importantes, mas a produção de petróleo foi retomada. Rebeliões populares na Síria contra o governo resultaram em repressão e depois na criação de forças armadas de oposição ao governo. Estados Unidos e União Europeia se colocam favoráveis à derrubada de Bashar al-Assad, enquanto Rússia e Irã apoiam o mesmo.
2012: Na República Democrática do Congo, o início da exploração de Petróleo pela companhia inglesa SOCO coincide com a criação do M23 e o início de mais uma guerra civil envolvendo desta vez a exploração de petróleo no Parque Nacional do Virunga;
2014: Na Venezuela, cresce o movimento de oposição ao governo Maduro, mesmo ano em que Exxon Mobil ganha processo bilionário contra a PDVSA, recebendo indenização pelas estatizações realizadas no governo Hugo Chávez.
2014/15: No Brasil, inicia-se uma crise na Petrobras por conta do processo contra a empresa nos Estados Unidos que resulta em perda bilionária. Logo depois, a Operação Lava Jato investiga casos de corrupção envolvendo a Petrobras, que será um dos principais estopins da “campanha pelo impeachment”, organizada pelo PSDB-PMDB, com apoio dos Estados Unidos. A Petrobras nesse contexto é pressionada a realizar um plano de negócios que prevê privatização de patrimônio e desinvestimento.
As principais intervenções militares depois da crise de 2008 ocorreram na Líbia e Síria, países estratégicos na geopolítica do petróleo e da energia. Estes foram países que vivenciaram ao mesmo tempo revoltas populares durante a Primavera Árabe. Nigéria e Congo enfrentam guerras civis com intervenção indireta de potências estrangeiras. Na Líbia, a derrubada do antigo governo desenvolvimentista e a morte de Kadafi, em 2011, desencadearam uma guerra civil que perdura até hoje; depois de 2008 a Ocidental Petroleum tentou expandir suas operações na Líbia, juntamente com a empresa italiana de petróleo e gás, ENI. Ou seja, podemos ver que a partir de 2008 houve um aumento exponencial de batalhas, protestos e violência contra populações civis no continente africano.



 


As grandes companhias de petróleo estão envolvidas em ações cada vez mais nebulosas na África, incluindo o estreitamento de relações com organizações paramilitares e a intensificação dos conflitos armados e da violência contra a população civil. A Shell, na Nigéria, e a SOCO, no Congo, foram acusadas publicamente de estarem envolvidas no financiamento de guerras civis, todas elas motivadas pela luta pelo controle e exploração dos recursos naturais, com destaque, nesses dois países, para o petróleo.
Figura 4 – Conflitos relacionados aos recursos naturais na África 1997-2014. Fonte: Acled Dataset

Brasil e Venezuela, os produtores e detentores das maiores reservas de petróleo da América Latina, vêm enfrentando movimentos internos de desestabilização visando o impeachment ou a mudança de política econômica (tendo como alvos, no Brasil, o PT e, na Venezuela, o PSUV). Em 2014, o governo da Venezuela lançou formalmente uma acusação contraum grupo de opositores venezuelanos – incluindo a deputada destituída María Corina Machado – e o embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, Kevin Whitaker, de planejarem um golpe de Estado e uma tentativa de assassinato do presidente Nicolás Maduro. Por sua vez, os Estados Unidos classificaram de “absolutamente falsas” e “sem base” as acusações de autoridades venezuelanas contra o embaixador americano.4
No caso do Brasil, uma crise na Petrobras, espinha dorsal da exploração energética no país, foi desencadeada em parte nos Estados Unidos. Hoje, as denúncias de corrupção na Petrobras estão praticamente concentradas no caso da “Operação Lava Jato”, mas na realidade essa operação ganhou impulso e teve como desdobramentos principais os fóruns judiciais dos Estados Unidos: em 2014, a Astra Oil, parceira da Petrobras na aquisição da refinaria Pasadena, no Texas/Estados Unidos, entrou com uma ação na justiça alegando que a empresa brasileira deveria adquirir a sua parte (50% das ações) da refinaria em razão de cláusulas contratuais. A aquisição da refinaria de Pasadena acabou custando US$ 1,18 bilhão à petroleira nacional, mais de 27 vezes o valor que a Astra Oil teve de desembolsar inicialmente. Essa questão se refletiu diretamente no Brasil e nas pressões para reestruturação da empresa que resultaram no Plano de Negócios da Petrobras anunciado em 2015. No final de 2014, fundos de pensão entraram com ações contra a Petrobras em Providence e Nova York, nos Estados Unidos. Ou seja, a judicialização da gestão das ações da Petrobras nos Estados Unidos tem sido um dos principais mecanismos de apropriação de recursos da mesma. O resultado da crise da Petrobras no Brasil levou a uma reestruturação da empresa que vem se refletindo no aprofundamento da privatização e internacionalização da mesma, que passará a ser diretamente controlada pelas grandes multinacionais do setor, de acordo com seu plano de negócios 2015-2019.  
Nesse sentido, a geopolítica pode ser melhor compreendida a partir das duas políticas do que chamamos de neoimperialismo: 1ª) tomada do controle estatal dos recursos naturais, especialmente energia e petróleo, nos países periféricos, pelos Estados centrais e/ou suas corporações; 2ª) expropriação por meio da centralização como uma forma que precede ou sucede a política anterior, retirando o controle comunitário e local sobre os recursos, eliminando direitos territoriais ou restringindo os mesmos (no que podemos chamar, seguindo a tradição crítica latino-americana de ciências sociais, de colonialismo interno), visando à expansão de um modelo de desenvolvimento centrado no extrativismo (por sua vez, este expansionismo, em países como o Brasil, pode ser denominado de subimperialista, uma vez que expandiu capitais de corporações estatais e privadas para outros países e continentes, como ocorreu com a Petrobras e as grandes construtoras). No caso de determinados países da África e do Oriente Médio, esse controle se fez pela destruição dos próprios Estados nacionais e/ou sua fragmentação; já nos países da América Latina, a tomada de poder vem se dando pelo enfraquecimento do controle estatal-governamental sobre os recursos energéticos, que ironicamente promoveram a centralização do poder e o enfraquecimento do controle dos povos e comunidades camponesas e indígenas sobre tais recursos, centralização essa que foi condição necessária para a expansão do poder do capital monopolista das corporações e do próprio imperialismo. Assim, no caso da América Latina, essa acomodação estrutural ao regime de acumulação e aos interesses dos Estados Unidos parece permitir um deslocamento da intervenção das formas militares para o jogo político promovido pelas oposições internas e pela própria judicialização dos conflitos envolvendo empresas multinacionais de energia em tribunais dos Estados Unidos e Europa.
O ponto principal a ser observado dessa geopolítica é a disputa pelo controle dos recursos naturais e energéticos, especialmente de reservas e empresas estatais de energia. O mapa abaixo nos permite dimensionar o que está em jogo na luta pelo controle das empresas de energia como a Petrobras e a PDVSA. O mapa mostra o número das maiores empresas de energia do mundo. Vemos que são poucos os países que atuam no mercado de petróleo e energia. O mundo anglo-saxão (Estados Unidos, Inglaterra e Canadá) detém 18 das 23 maiores empresas, com destaque para os Estados Unidos. Submeter a Petrobras e a PDVSA às políticas imperialistas mencionadas significa criar um quase-monopólio nas Américas e ampliar o controle da exploração de reservas importantíssimas em termos mundiais, já que as maiores reservas comprovadas estão na Venezuela.
Figura 5– Mapa das maiores empresas de petróleo por país, segundo dados da Forbes 2015

Para concluir, podemos dizer que a crise de 2008 consolidou e mesmo acirrou uma tendência de luta pelo controle dos recursos naturais, especialmente energéticos. Essa tendência da economia se expressou em termos geopolíticos numa luta e competição internacional entre empresas de energia e petróleo, que se articula a movimentos de oposição aos governos estatizantes do setor energético na América Latina e à realização de intervenções militares diretas e indiretas no Oriente Médio e África, com o recrudescimento das guerras civis e da fragmentação dos Estados. A fragmentação de países e a concorrência entre empresas monopolistas compõem, portanto, esse quadro da quarta guerra mundial.
Nesse sentido, é fundamental romper com a leitura eurocêntrica da geopolítica internacional. O eurocentrismo conduz a uma leitura que reduz os conflitos acima a “intrigas palacianas” ou guerras entre elites (como no caso do Brasil, em que se tentou reduzir os conflitos apenas a uma luta PT versus PSDB), ou a disputas entre Estados e intervenções “externas” maquiavélicas. Como procuramos demonstrar, os processos de descentralização ou fragmentação dos Estados periféricos em determinadas regiões, como África e Oriente Médio, são acompanhados por outros de centralização do poder estatal e colonialismo interno em países da América Latina, e ambos são entrecortados por conflitos étnicos, de classe e campo-cidade. Logo, o conflito interestatal e o conflito entre diferentes elites não são uma chave suficiente para entender a geopolítica internacional.
O imperialismo hoje se manifesta por meio da exportação de capitais monopolistas que tendem a produzir conflitos armados e/ou oposição política dentro de Estados da periferia. Esses conflitos assumem diferentes formas em função da relação previamente estabelecida no sistema interestatal; países como o Brasil, se inseriram no ciclo de expansão capitalista tentando combinar o subimperialismo com o colonialismo interno. No caso da África e Oriente Médio a situação é distinta. Alguns Estados nacionais foram induzidos à fragmentação por meio de guerras civis com intervenção estrangeira e colocados numa posição de neocolônias, seja formalmente, como no caso do Iraque em que ocorreu uma conquista territorial, ou de profunda dependência e subordinação, como no caso de Líbia e Congo. Na América Latina, os chamados governos progressistas se apoiaram no colonialismo interno e/ou subimperialismo, sendo preciso entender como muitas vezes projetos desenvolvimentistas nacionais auxiliam na centralização e expropriação necessárias à expansão do imperialismo que hoje os desestabiliza. Na África e Oriente Médio, o neocolonialismo foi a principal forma de estruturação das relações e geopolítica.
 
A dialética da energia: fome, crise ambiental e resistências
O que é a energia? Que recurso é esse, objeto da luta global? Podemos dizer que a energia é uma categoria complexa, essencialmente dialética. Na teoria física moderna, especialmente na termodinâmica, “energia é a capacidade de realizar trabalho”. Desse ponto de vista energia é trabalho. Quando falamos de recursos energéticos estamos falando sempre de energia para alimentar a maquinaria capaz de realizar trabalho produtivo: vapor, eletricidade, petróleo, são fontes de energia que substituem ou intensificam o trabalho humano. Mas a energia também é uma categoria da ecologia: os próprios seres vivos e os seres humanos dependem de fontes de energia que podem ser transformadas em energia humana. A alimentação é um tipo de transformação de energia. Todas essas formas de energia são, em última instância, equivalentes do trabalho.
Essa dialética emerge na ofensiva e luta pela energia no seu conjunto. Por exemplo, por meio dos dados da FAO, podemos observar que paralelamente ao processo de expansão do preço das commodities, ocorreu, no mesmo período, um enorme aumento do preço dos alimentos. Desse ponto de vista, alimentos geram energia para seres humanos, enquanto petróleo e eletricidade geram energia para máquinas.
Figura 6- Inflação global do preço dos alimentos. Fonte: FAO-ONU

A luta por recursos naturais e energéticos é um dos principais motores da quarta guerra mundial em curso. É cada vez mais claro que a combinação de fatores de economia política e geopolítica (exportação de capitais e luta pelo controle dos recursos naturais, conflitos entre Estados, povos e grupos sociais, elevação dos preços dos alimentos), somados aos ambientais (mudanças climáticas, degradação ambiental, destruição dos ecossistemas locais), estão provocando, sem supormos nenhuma relação linear de causa e efeito, uma situação que induziu ao aumento dos preços dos alimentos.
A energia tornou-se mais cara para os humanos e várias causas contribuem para isso: aumento da exportação de capitais aplicados na atividade extrativista e de petróleo e gás; aumento nos preços dos alimentos; elevação nos custos de produção agrária e agroindustrial; processos de expropriação e conflito territorial; desestabilização política e intervenção militar direta e indireta; desestruturação de sistemas ecológicos e produtivos locais que erodem a economia de subsistência, ampliando a desnutrição, a expulsão de populações e a fome.
O paradoxo então é que o aumento da produção de energia para o capital e a produção levou a um desequilíbrio na produção de energia para os seres humanos. Assim, na luta pela energia existe uma importante questão ecológica e política, que é a ampliação da fome ou do custo da alimentação que, do ponto de vista energético, é a distribuição desigual da energia entre capital e trabalho, entre máquinas e seres humanos, entre campo e cidade, e entre povos, comunidades, classes sociais e nações centrais e periféricas.
A luta pelos recursos energéticos pode ser considerada então de dois grandes pontos de vista: 1) da produção capitalista e mercantil, em que recursos energéticos são absorvidos pelo capital; 2) de economias de subsistência nas quais alimentos são recursos energéticos para reprodução material e social humana. O impacto, já debatido, sobre a expansão da indústria extrativa sobre os preços dos alimentos, sobre a exaustão dos recursos naturais e destruição de sistemas de organização social e sua base ecológica são apenas a expressão da dialética da energia (que pode ser combustível para a maquinaria ou alimento para sociedades humanas), da luta social e ecológica entre capital e trabalho.
Essa luta esteve e está na base dos conflitos pós-crise de 2008: o termo food revolt (revoltas alimentares) expressa exatamente uma tendência global. A luta dos povos camponeses e indígenas pelo mundo para se manter nos seus territórios pode ser lida não somente como uma luta pela identidade cultural, mas como uma luta pela capacidade de produção e acesso a alimentos e, consequentemente, pela redistribuição “da” e acesso “à” energia. Vários países do mundo enfrentaram a intensificação dos conflitos e resistências, e cresce o número de conflitos envolvendo petroleiras, mineradoras, empresas agroindustriais que absorvem muitos recursos naturais e energéticos, a começar pela apropriação da terra.
É por isso que vários analistas tentaram relacionar as revoltas da Primavera Árabe com a inflação global de alimentos. Tunísia, Camarões, Líbia, Zimbábue e Egito são todos países altamente dependentes do mercado internacional para a compra de alimentos. Além disso, a partir dos anos 1990, outros conflitos relacionados aos recursos naturais (terra, água, minério, petróleo) cobriram o território africano e também o Oriente Médio. Como podemos ver pelo mapa abaixo, existem registros de revoltas e protestos em quase todo o continente africano.
Figura 7- Conflitos armados e revoltas relacionados a recursos naturais - África 1997-2014. Fonte: Acled Dataset

Na América Latina, esse período de expansão dos IED e de ofensiva pelos recursos naturais engendrou diversos conflitos. Antes da crise, podemos citar a tentativa de golpe contra Hugo Chávez, na Venezuela, em 2002 (em razão dos conflitos, especialmente envolvendo o petróleo) e as “guerras da água e do gás”, na Bolívia, no início dos anos 2000. Mas, todo o ciclo de governos chamados de “progressistas” (PT, no Brasil, Tupamaros, no Uruguai, Partido Justicialista, na Argentina, PSUV, na Venezuela, e vários outros) desencadeou um processo de centralização do poder e repressão contra povos indígenas e camponeses, visando exatamente favorecer a exploração extrativa e a produção de energia. Ou seja, a expansão dos investimentos e a luta por recursos naturais têm provocado uma intensificação da violência e de conflitos também na América Latina. Segundo dados da ONG Global Witness, o Brasil lidera o ranking de violência no campo, com 477 “ativistas ambientais ou agrários” assassinados desde 2002.Nesse período, apenas em 2011, o Brasil não liderou a lista de assassinatos no campo, estando à frente de países como Colômbia, Filipinas e Honduras, com 25, 15 e 12 mortes, respectivamente, no ano de 2014.5 O Brasil, um dos principais destinos dos IED e realizador de um modelo econômico industrial comandado pela indústria de transporte e pela cadeia mercantil da logística (que inclui indústria extrativa, energia, construção civil), foi o país que mais registrou mortes durante esse “ascenso” do extrativismo e da industrialização, como podemos ver pelo mapa abaixo. A figura mostra a distribuição de vítimas em conflitos socioambientais no mundo segundo a ONG Global Witness, em que fica claro o lugar ocupado pela América Latina.
Figura 8– Fonte: Global Witness, Mortes de ativistas agrários e ambientais no mundo

Na Colômbia, Equador e diversos outros países, têm se intensificado os conflitos com povos indígenas e camponeses, especialmente em razão do processo de reorganização territorial nos Estados nacionais. Se no caso da África a quarta guerra mundial se apresenta como a fragmentação/descentralização dos Estados, na América Latina essa se mostra como a centralização do poder sobre os territórios nas mãos de instituições estatais. Assim, o neoimperialismo não age na América Latina apenas de forma direta, mas indireta, por meio dos governos desenvolvimentistas e nacionalistas que concentraram o poder de reorganização territorial, implicando na expropriação de camponeses e indígenas; em processos de aprofundamento da superexploração do trabalho, que são uma forma de apropriação da energia humana; e na transferência de riquezas para a mão do capital (que podem ser vistos no seu conjunto como exploração de diferentes fontes de energia).
Logo as resistências e revoltas colocam uma importante contribuição à reflexão crítica sobre o “capitalismo extrativista”. Em primeiro lugar, tais resistências mostram que as políticas dos Estados e os modelos nacionalistas de gestão da energia são tão antipopulares quanto os modelos corporativo-privatizantes de produção e gestão dos fluxos energéticos. Da ótica energética, esses conflitos podem ser considerados como a luta entre a apropriação da energia centralizada-capitalista e a apropriação descentralizada/não capitalista. Povos indígenas e camponeses vivem da pequena agricultura, caça-coleta e pequena extração. Os produtos agrícolas dessa pequena produção (cereais, leguminosas etc.) ou da coleta (fruta, raízes) são depósitos naturais de energia: a matéria viva das plantas converte a energia solar por meio da fotossíntese, os alimentos consumidos pelas sociedades são fontes energéticas e, por sua vez, a fonte do trabalho dessas sociedades. Assim, a agricultura é, como atividade social, cultural e econômica, um modo de transformação da energia. Quando as terras são incorporadas pela indústria extrativa e energética, elas perdem essa funcionalidade energética descentralizada e concentram o controle dos fluxos energéticos no capitalismo monopolista. 
A luta pelos recursos naturais e energéticos é hoje parte do centro da dinâmica do sistema-mundo capitalista. Existe uma guerra em escala global na qual esta luta se realiza por diferentes estratégias. Sem compreendê-la, não compreendemos os conflitos e transformações nos sistemas políticos. Por isso, devemos dimensionar a importância da questão energética num sentido amplo para as resistências e lutas dos povos e classes, que se apresenta como uma luta entre dois modelos energéticos de sociedade: as sociedades de capital monopolista-centralizador dos fluxos energéticos (seja pelos Estados centrais, seja pelos periféricos); e as de descentralização socializada dos recursos energéticos de acordo com modos culturais e políticos. Esse conflito está em curso e será chave para a compreensão da economia política do século XXI. 
Andrey Cordeiro Ferreira
Professor do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade – CPDA/Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Coordenador do Núcleo de Estudos do Poder – NEP (https://nepcpda.wordpress.com).

1 A atual queda no preço do petróleo e de commodities pode ser interpretada de diversas maneiras. Alguns trabalham com a tese do “pico”, ou seja, a valorização do preço do petróleo alcançaria um patamar máximo e depois tenderia a cair, e alguns projetam isso para a próxima década, de forma que tal reversão representaria a crise da própria “civilização”. No nosso entendimento, o atual processo é parte de um ciclo de estagnação, mas também tem sido útil para a recuperação econômica em países que são intensivos em energia.
2 Essa análise poderia ser considerada como fantasiosa. Entretanto, mesmo com toda as controvérsias possíveis sobre medição de mortes, é certo que as guerras civis revolucionárias e guerras coloniais deixaram mais de 7 milhões de mortos na Coreia e no Vietnã nos anos 1950. Durante a chamada globalização, a guerra civil em Ruanda (1994-95) e a 1ª e 2ª Guerra do Congo (1996-97 e 1998-2003) deixaram pelo menos 6 milhões de mortos. O envolvimento de países como Estados Unidos, Inglaterra, França e Bélgica nas guerras africanas é notório. Ou seja, existe uma invisibilização do caráter mundial dos conflitos locais e da ferocidade da guerra.
3 O Iraque foi identificado como portador de armas de destruição em massa, o Afeganistão acusado de ser a sede da Al-Qaeda (terrorismo internacional) e o Irã de desenvolver armas nucleares.
4 http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/05/eua-negam-acusacao-de-tentativa-de-assassinato-contra-maduro.html.
5 Pelo 4º ano seguido, Brasil lidera ranking de violência no campo. http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/04/150419_relatorio_mortes_ativistas_rm.






09 de Março de 2016






Palavras chave: Petróleo, energia, Petrobras, geopolítica, economia política, conjuntura, imperialismo