quinta-feira, 11 de março de 2021

UM ALERTA PARA AS NOVAS GERAÇÕES

UM ALERTA PARA AS NOVAS GERAÇÕES

Longe de pretender fazer um ‘testamento’, este modesto e despretensioso depoimento não tem outro intuito que alertar as novas gerações sobre equívocos cometidos por nossas gerações, na sincera vontade de acertar...

Sou de uma das gerações que derrotaram a ditadura, e isso me honra. Não por vaidade, mas em respeito às gerações que nos antecederam, cujos expoentes tiveram as suas vidas brutalmente ceifadas, e às gerações futuras, pois é a elas que o mundo pertence.

Tínhamos consciência dos riscos iminentes e muita convicção de que nosso compromisso com o porvir nos exigia não errar, não cometer aventuras. Obviamente, não foi fácil: muitas vidas foram sacrificadas, muitas carreiras mutiladas, muitos projetos adiados ou abandonados, muitas reputações enxovalhadas, muitos relacionamentos interrompidos. O objetivo individual generosamente ficava subordinado aos justos e legítimos interesses coletivos, sem titubeio, hesitação ou arrependimento.

No entanto, na ânsia de erradicar o vírus inoculado ao longo de mais de duas décadas de autoritarismo e intolerância, incorremos em erros próprios de quem pretende acertar, o que permitiu que fosse fecundado o ovo da serpente, ardilosamente fincado no coração do Planalto Central e com tentáculos bem distribuídos por todos os quadrantes deste país de dimensões continentais.

De antemão, entendo que a incompetência da penca de ‘olheiros’ (para evitar outros termos para essa atividade repugnante, oportunamente tratada pelo Amigo-Camarada Fausto Matto Grosso em “Arapongagem no Partidão”, em seu blog esta semana), causou prejuízos, mas não equivalentes aos estragos da época da ditadura, embora não tenham sido poucos os constrangimentos por suas trapalhadas ao longo de seus (des)serviços. Conhecidos e reconhecíveis pelas bizarras condutas (e uma delas é a de ‘afanar’ e acumular papéis, sem quaisquer critérios), os pobres diabos (mais diabos que pobres, pois auferem desde sempre altos proventos) não se estabeleceram por falta de competência, como podemos constatar com estes fantoches travestidos de patrioteiros.

Dando nomes aos bois (já que uma das pedras angulares do golpe de 2016 foi a adesão desse setor da economia e seus vínculos com o segmento dos sertanejos, salvo honrosas exceções): no processo de efetivação do Estado Democrático de Direito, a partir de 1988 (pós-Constituição Cidadã), dedicamo-nos quase cegamente à institucionalização das conquistas democráticas, sobretudo à consolidação do chamado controle social (isto é, a participação da cidadania nos conselhos deliberativos de elaboração, monitoramento e fiscalização das políticas sociais, com ênfase para a saúde, assistência social, direitos da criança e do adolescente, pessoas com deficiência, idosos, juventude, mulher, negro, direitos humanos, alimentação escolar, educação, cultura, desenvolvimento rural, cidade, plano diretor participativo, meio ambiente, patrimônio histórico, saneamento ambiental, recursos hídricos, gestor de área de preservação ambiental, transportes urbanos, erradicação do trabalho infantil, combate à exploração sexual infantojuvenil etc.

À exceção de Corumbá - cujos gestores setoriais conseguiram antever e antecipar o golpe em preparação na esfera federal e sem qualquer pudor nos apearam em 2011 e 2012 com a execrável contribuição de colegas não governamentais -, entre 1993 e 2016 priorizamos com exclusividade o controle social das políticas públicas, deixando para segundo plano as imprescindíveis atividades de formação de jovens, adolescentes, mulheres, trabalhadores urbanos e rurais, ribeirinhos, indígenas, desempregados, comunidades religiosas e periferia.

Enquanto gastávamos dinheiro de nosso próprio bolso para efetivar o controle social e a intervenção qualificada das políticas públicas, consultores ligados, sobretudo, a igrejas neopentecostais, entidades filantrópicas e OSCIPs profissionais, obtinham financiamento público para megaprojetos de efetividade marqueteira. Resultado: no momento em que, baseados na prática desenvolvida em regime de voluntariado em mais de duas décadas, nos valíamos de nossas contribuições pioneiras, tudo isso não dizia mais nada porque não tinha o chancela da burocracia, o carimbo do cartório.

Desde então, passamos a ser tratados como delinquentes, farsantes, demagogos (quando com pioneirismo provado desenvolvemos expertise que compartilhávamos de graça, no afã de disseminar conhecimento e empoderar as pessoas anônimas, que acabaram sendo cooptadas por técnicos e burocratas chamados de consultores e avalizados por agentes equivocados do estado, já sob a administração do calabrês que fez de Mato Grosso do Sul terra de ninguém, como vem sendo constatado nestes dias com o desbaratamento de grupelhos, verdadeiras quadrilhas, seja no desvio de dinheiro público ou em atividades delitivas, em que o tráfico de influência e a extorsão passaram a ser moeda de troca.

Também, o consórcio BBB (bala, boi e Bíblia) foi se consolidando em nível local, e, pior, com nossa ingênua contribuição, ao ceder generosamente informações estratégicas, sem malícia ou mesquinharia. Passado o período de distanciamento temporal, hoje temos o cenário explícito, todo o emaranhado exposto com a limpidez matinal. Não são poucas as OSCIPs que ajudamos a fundar e a se viabilizar, cujas direções não hesitaram em virar as costas, sem qualquer dissimulo. Mas “agora Inês é morta”...

Não que devêssemos ter sido tacanhos, avarentos com o que a Vida generosamente nos propiciou mediante nossa experiência e estudo (muito estudo, eis que nada se adquire do acaso). O fato é que enquanto ‘ralávamos’ com denodo e voluntarismo, estrategistas de organismos multilaterais e ONGs internacionais foram desenvolvendo os chamados “novos paradigmas de empoderamento” construídos e pensados por nós mas registrados e patenteados por ‘eles’.

Tudo isso, além da teologia da prosperidade, que nada tem de teologia e muito menos de prosperidade: é um esquema primário de autoajuda e muita, mas muita extorsão. Um grande Pastor (com letra maiúscula, tamanha a sua dignidade) evangélico revelou, em tom de advertência, que o período representado pelos mais de 13 anos de governos petistas, de franca prosperidade para amplas camadas da população, propiciou ajustada e estratégica oportunidade para o segmento neopentecostal fundamentalista disseminar a ideia de que a fé na teologia da prosperidade estava produzindo a ascensão econômica e social do convertido, como um livramento (sic) proporcionado pela fé. Essa foi uma das razões do alastramento do fundamentalismo neopentecostal nos segmentos sociais emancipados pelos programas sociais dos governos de Lula e Dilma, e a razão para não guardarem qualquer memória ou gratidão desse período de bonança, pois se tratara do “milagre do livramento”, conforme a doutrinação do fundamentalismo neopentecostal.

É desse Pastor a seguinte provocação: além de trabalhar muito para despertar os irmãos vitimados por essa verdadeira obsessão, resta-nos assistir aos argumentos dos dirigentes fundamentalistas neopentecostais ante as inegáveis perdas econômicas ocorridas nos últimos anos, de modo recorrente e sucessivo. Dentro da lógica medieval maniqueísta, do bem contra o mal, terão que criar figuras satânicas para justificar a inoperância de uma gestão dissociada dos reais interesses do povo para beneficiar setores empresariais, como o financeiro e as corporações transnacionais, as maiores beneficiárias das medidas de fato priorizadas pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro (ao lado do lumpesinato constituído pela rede de dirigentes de igrejas fundamentalistas pentecostais e de grupos milicianos nas periferias urbanas ou no campo, travestidos de ‘seguranças’, ‘síndicos’, ‘olheiros’, provedores, pistoleiros, garimpeiros e grileiros).

Quem contar com mais de 60 anos de idade certamente se lembrará que, nos anos 1970, quando a juventude brasileira, levada pela cruenta realidade, começava a questionar o estado de coisas em que vivíamos, uma horda de “Meninos de Deus” e assemelhados (entre elas a seita de Jim Jones, tristemente célebre pelo suicídio coletivo ocorrido) se espalhavam pelo mundo, inclusive o Brasil. Com uma liturgia alienante e individualista, em que a promessa de que o reino dos céus era esperado para os seus seguidores, essa seita (categorizada assim pelas instituições depois que elucidados os dogmas e práticas) foi investigada, denunciada e condenada por práticas similares à exploração da boa-fé, escravidão e trabalho indecente.

Por outro lado, enquanto políticos corruptos camaleônicos, então travestidos de petistas ou aliados dos governos petistas, agiam como corretores, agenciadores de grandes grupos empresariais, em megaprojetos inconsistentes, como a ‘retificação’ e dragagem da hidrovia, do polo ‘gás-químico’ e ‘minero-siderúrgico’ no coração do Pantanal (requentados do tempo da ditadura), em que mercenários de toda ordem nos difamavam como que fôssemos patrocinados pelos países árabes do petróleo ou de nações irmãs como Bolívia, “interessadas em ‘atrasar o progresso’” (eufemismo para enriquecimento ilícito de verdadeiros pilantras, porque sonegadores, como o famoso empresário-predador, filho de alto executivo do regime de 1964, hoje preso, desmascarado e falido).

Enquanto os difamadores, mercenários, recebiam seus gordos jabaculês, nós, que nada mais fazíamos que o livre exercício da cidadania (assegurado pela Constituição de 1988), recorríamos à fundamentação científica e tirávamos dinheiro da boca de nossas crianças para reproduzir documentos e tentar contrapor à enxurrada de fake news disseminadas sem qualquer pudor por todos os meios possíveis e imagináveis. Entre eles um conhecido traficante de drogas a financiar a defesa dos valores (digam-se: cifrões, $$$) ocidentais, alugando caminhões de som, ‘jagunços’ e motoqueiros ensandecidos, na ignóbil ânsia de amedrontar nossas Famílias e Amigos/as (com letras maiúsculas, pois são dignos/as de toda reverência de nossa parte por não terem se deixado levar por esses insanos atos de  terrorismo obscurantista).

Isso acontecia em Corumbá em pleno governo Lula, quando o Brasil era reconhecido no concerto das nações como democracia em ascensão e potência mundial no combate à fome e às desigualdades sociais e étnicas. Essas mesmas quadrilhas, é bom que se diga, atuaram com a mesma ‘desenvoltura’ (sic) e sordidez durante a preparação do golpe criminoso (porque assassino, com três massacres comprovados pela OEA e ONU) na Bolívia entre outubro de 2019 e setembro de 2020. Diferentemente que no Brasil, nossos irmãos bolivianos lhes deram a sova merecida, nas urnas e no aprendizado político, pois, depois desta experiência, eles aprimoraram suas estratégias de enfrentamento a esse bando de hienas, sob coordenação de Steve Bannon e a quadrilha, digo, ‘dinastia’ trapo, aquela que quer se perpetuar no coração do poder, no Planalto Central.

É oportuno dizer também que os tais ‘paladinos’ (de interesses inconfessáveis), falsos moralistas e patrioteiros de ocasião, são incapazes de pensar: agem apenas sob o mando e o comando (isto é, a inteligência, em todos os sentidos) do hemisfério Norte, seja na execução do serviço sujo, isto é, de ‘jagunços’, ou no cumprimento de tarefas mais elaboradas, como no caso da trupe de Curitiba, aquela matilha de doninhas sorrateiras que atendia pelo sugestivo nome de ‘trepanação leva jeito’. Mas isto é apenas a ponta do iceberg (como será denunciado para o mundo), tanto durante a execução do golpe em La Paz (Bolívia) em novembro de 2019, como na malsucedida tentativa de golpe no Capitólio, em Washington, em janeiro deste ano.

Em síntese, há muito por ser feito, sobretudo depois do, no dizer da Amiga-Camarada Estela Scandola, ‘pandemônio’. Agravado, sim, pelo nefelibata que arrebatou corações amargurados e mentes equivocadas. Até porque, assim como a Vida, a História é um devir incessante e imponderável, para felicidade dos desassossegados que não pensam como Francis Fukuyama (um Bannon mais erudito) e seu nada sábio Fim da História, de 1989, que celebrava o triunfo do liberalismo sobre o fascismo e o socialismo, e atribuía em linhas gerais ao mercado a solução dos grandes desafios da humanidade (que acabou negado pela própria História ao se constatar que, nas últimas décadas, aumentaram os conflitos, a desigualdade social, exclusão, fome e miséria e, sobretudo, a exploração econômica e social dos trabalhadores em todo o mundo), um ensaio elaborado apenas e tão somente para agradar seus amos e senhores de Manhattan.

Ainda que com erros inevitáveis - porque, nas sábias palavras de Paulo Freire, “a Vida não tem ensaio” -, cometidos com as melhores intenções, é verdade, conseguimos fazer com que a Constituição de 1988 não ficasse nas frias letras da lei, não fosse ‘letra morta’. Mas nossa priorização extremada no institucional acabou abrindo brecha para que abutres, serpentes e hienas tomassem de assalto os destinos da nação. No entanto, enganam-se os que pensam que os que venceram a ditadura permanecerão impávidos no momento em que esses fantoches produtos do ódio tomaram de assalto o porvir do país-continente e teimam em levar toda a população ao precipício, sem esboçar qualquer gesto de empatia ou solidariedade.

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 8 de março de 2021

DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES: LUTA E LUTO

DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES: LUTA E LUTO

Nossa geração testemunhou a celebração, a partir de 1976, do Dia Internacional das Mulheres, que antes era no singular. No entanto, desde o golpe de 2016, no Brasil, passou a ser também dia de luta e de luto, sobretudo depois que o fascismo foi inoculado no centro do Planalto Central...

Lembro-me como se fosse hoje. Em 1975, Ano Internacional da Mulher (no singular), cuja Conferência Mundial, patrocinada pela ONU e realizada na Cidade do México, definiu esta data em reconhecimento da imolação de mulheres tecelãs em Nova York, em 8 de março de 1857.

Este fato está presente não por acaso: nós (Juvenal Ávila de Oliveira, então radialista; João de Souza Alvarez, à época fotógrafo, e eu, aprendiz de cidadão, secundaristas da Escola Estadual Júlia Gonçalves Passarinho, orientados pelo saudoso Professor Octaviano Gonçalves da Silveira Júnior) decidíramos criar naquele ano um jornal intercolegial, “O Clarim Estudantil”, razão pela qual registramos tudo que nos parecia importante. Por isso passamos a acompanhar, entre outros/as, as grandes Jornalistas Irede A. Cardoso, Martha Alencar, Heloneida Stuart, Moema Wiezer (autora de “Se me deixam falar”, com base em um depoimento de Domitila Chungara, viúva de dirigente sindical mineiro da Bolívia perseguido pela ditadura sanguinária de Hugo Banzer Suárez) e Oriana Fallaci (em cuja juventude era progressista e libertária, diferentemente que quando chegara à terceira idade, conservadora e profundamente eurocêntrica).

Obviamente, antes e depois houve muitas conferências mundiais para tratar dos direitos das mulheres e da infância na sociedade contemporânea. Tratar da emancipação social, política, econômica e cultural das mulheres e do proletariado no mundo. Entretanto, 1975 foi emblemático, pois a agenda política em todos os países passou a incluir o tema como questão prioritária. Não houve Conferência Mundial mais debatida que ela, houve, sim, uma igualmente debatida, a Rio-92, que produziu a Agenda 21 e que representou outra revolução silenciosa em nossas vidas.

O Brasil, tanto na questão dos direitos das mulheres, da infância e adolescência, do meio ambiente, da cultura, do trabalho e do combate à fome, foi modelo, exemplo. Isso até 2016, quando democratas arrependidos se aliaram às hordas fascistas, de milicianos e fundamentalistas neopentecostais para golpear não Dilma Rousseff, Lula ou o PT, mas o Estado Democrático de Direito, construído com muita luta ao longo do século XX. Hoje está comprovado o ardil não apenas na autobiografia da caricatura de Amigo da Onça, Michel Miguel Temer Lulia, e no livro-depoimento do general conspirador Vilas-Boas, mas nas revelações comprometedoras da Vaza Jato, que deixaram expostos os fétidos glúteos impregnados de sujeira da quadrilha que posava de “liga da justiSSa” (com dois “s”, por sua formação nazifascista e pouco apreço ao vernáculo), os lavajatistas de fazer inveja a Odorico Paraguaçu e a surreal Sucupira do genial Dias Gomes.

Pois neste 8 de Março, permito-me reverenciar a luta das mulheres mediante as mártires de todos os tempos nas pessoas de Marielle Franco, cuja execução ainda não elucidada respinga em muitas figuras que participaram do golpe de 2016 (por ação ou omissão), as mulheres que tombaram na pandemia, pela explícita omissão dos genocidas que dizem governar mas não assumem as responsabilidades inerentes aos mais altos cargos da República, nas pessoas da técnica de enfermagem Rosemeiri Ajala, as matriarcas Camba e Guató Lucinda Surubi Arteaga e Sebastiana da Silva, a Professora Vilma Cavalheiro de Souza (presidente do Centro Espírita Bezerra de Menezes, eternizada no dia 7 de março), e as vítimas de violência empresária Liane Arruda e médica Luz Mila Ledezma Ramallo, cujas honradas memórias iluminam os horizontes civilizatórios da humanidade e inspiram a inesgotável luta por melhores dias para todas e todos.

Ainda mais nestes sombrios e autoritários tempos, em que autoproclamados arautos da “moral e dos bons costumes” teimam em impor sua verdade a despeito da realidade ser muito diferente da que veem, são as mulheres, incansáveis guerreiras de luz, luta e labuta, a consolidar com firmeza e candura a necessária solidez de um novo raiar, de um novo tempo, em que liberdade não seja uma palavra vã, como profetizou o saudoso poeta e advogado libertário Ricardo Brandão nos anos 1970.

Longe de estarmos num embate mesquinho, porque medieval, “do bem contra o mal”, estamos, sim, em mais uma etapa de superação civilizatória, em que o fundamentalismo terá que dar lugar à dinâmica, dialética, realidade, sem amos nem senhores, mas iguais nas diferenças, semelhantes na diversidade, próximos na variedade. Então, os patéticos seres que tomaram de assalto não passarão de resíduos sólidos execrados pela História, como Adolf Hitler, Benito Mussolini, António Salazar, Francisco Franco, Augusto Pinochet e Rafael Videla o foram...

Marielle Franco presente, e com ela todas as mártires da covid-19, dos feminicidas, dos milicianos, dos fascistas e todos os demais criminosos, que retornem ao lixo de onde não deveriam ter saído!

Ahmad Schabib Hany

domingo, 7 de março de 2021

"PÁSCOA, VOCÊ SE ENCANTOU NESSE PANTANAL?" (Estela Scandola, no blog "Rua Balsa das 10")


 Cantar dos cantares em texto da Companheira Estela Scandola, publicado no blog "Rua Balsa das 10", com foto da Serra do Amolar (Pantanal de Corumbá, MS), de Joelson Soares.

PÁSCOA, VOCÊ SE ENCANTOU NESSE PANTANAL?

À Corumbá só se vai com coração acelerante e o meu anda apertadinho desde que soube que o Páscoa tornou-se encantado. A ideia é que ele encantou-se por essas bandas pantaneiras. Ele não voltaria para o velho mundo, embora seu corpo tenha vindo prá cá há mais de 5 décadas. Talvez, quando nasceu por lá a vida o trouxe para encontrar sua energia vital aqui, no meio dos paratudos, garças, colhereiros, jacarés, águas que vem e vão, nascem e somem... flora chaquenha, tuiuiús sempre em pose prá alçar vôo e, sem dúvida, encharcando-se de vida como se fosse camalotes em flores nos encontros com as gentes fronteiriças do centro do mundo...

É! Ele próprio encantou-se... e está aí...

Schabib falou que ele se eternizou... acho que é a ideia que ficará para sempre entre nós. Suas ideias, seu jeito de fazer as pequenas revoluções, a sabedoria de realizar a gestão dos conflitos, os olhos e a boca que combinavam as expressões entre si... Uma vez rimos falando que eu era tão intensa que a cara mostrava o que vinha na alma e meu espírito livre sempre me traía... E rimos... sua sapiência manejava até suas expressões... lembro da cara dele na reunião com o MP quando queriam azedar as eleições no FORUMCORLAD...  Eu fazendo caras e bocas e ele calmo com expressão de acreditar no que o promotor falava... só a expressão...

Eternizou e encantou...

Quando conversava com a Nanci, durante todo o velório feito por muitas solitariamente, ficamos falando sobre o que nos marcou... lembrei da confiança que depositou em mim quando estava construindo a origem do que viria a ser o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua – MNMMR. Fui, viajei em nome da pastoral do menor, voltei e expus as ideias no grupo e saí indo em busca de gente que podia ser nosso primeiro núcleo em Mato Grosso do Sul... E ele deixou tudo sob minha responsabilidade... era corajoso e eu saí por aí... toda me achando...

Nos últimos 20 anos, quase nunca nos víamos pessoalmente, mas eu sempre avisava que estava indo ou que estava na cidade branca.  Parecia que só de saber que ele estava lá já me aquietava, fazia com que eu  sentisse o fio da teia... tipo passarinho que encontra um galho firme e, sem precisar pousar, sabe que está lá e que poderá ir descansar de forma segura se for preciso. Assim eu ia a Corumbá.

Duas cenas são fortes em minhas lembranças quando penso na cumplicidade do cuidado. A primeira na Igreja São João Bosco, aqui na Vila Célia. Papai havia morrido (eu não sabia nem de encantados nem eternizados na época) e eu estava ainda triste e então enfiava a cabeça no trabalho... Numa segunda-feira à tarde, dia que os padres descansam do pastoreio do domingo, sentada no interior da Igreja fazendo o relatório do trabalho com os grupos de jovens, o Páscoa sentou ao meu lado:

- Uai, você aqui hoje?

- Uai, você aqui hoje!

Rimos... ambos responsáveis demais da conta trabalhando em dia de descanso. E aí falei:

- Páscoa, vou casar...

- Sério?

- Ontem combinamos...

- Precisa?

- Não precisa mas eu quero... você sabe que quero procriar... (rimos muito!)

- Precisa casar?

- Ah... vai ser bom... o moço vai ser um bom pai...

- Sim... entendi...que bom!

Ainda lembro que, sentados lado a lado, ele segurou minha mão direita entre as suas. Está há mais de 30 anos assim... sinto a proteção das mãos macias e que me envolviam... não era só aquela jovem ali sentada naquele momento. Era toda a minha vida envolvida pelo seu amor cuidadoso.

Ele me conhecia bem... ter filhos era o forte desejo. Quando eu estava prá parir sempre conversávamos sobre os nomes... Havia sempre a Tainá se fosse menina. João veio primeiro porque era o apóstolo confidente de Jesus, depois veio o Luca (tiramos o S para ficar no italiano) que foi o evangelista que mais falou de Maria e falava o magnificat, quase um poema comunista... então, João e Luca se fizeram em mim, cheinhos de histórias e afetos nos seus nomes.

O outro momento que ainda sinto suas mãos foi lá no interior da Igreja São João Bosco em Corumbá. Eu estava no meio de um furacão em Mato Grosso do Sul, com a cara do moço e um monte de gente nos jornais e fui encontrar aquela que havia se constituído em família... eu precisava de colo. Quando cheguei ainda no sábado de manhã, embotada em choro guardado pros meninos não desmontarem fui recebida sem acolhimento do sofrimento... “ah, cunhada, falem mal, mas falem de mim! Isso tudo vai ser esquecido!”. Calei-me e fui deslizante e entrei no frescor do átrio.

Já estava há muito sentada quando ele entrou. Olhou-me, pegou minhas mãos e colocou entre as suas. Não falou nada. Só olhava prá minha alma e segurava minhas mãos como se segura um passarinho assustado caído na tempestade. Eu desabada em choro e desespero finalmente podia sofrer... já, já não poderia de novo...

- Fica quieta, só respira. Quando tem uma tempestade grande a gente se guarda em lugar seguro e espera passar prá ver o tamanho do estrago. Mas é preciso guardar-se, cuidar-se, sobreviver. E você precisa guardar também os meninos.

Sim, ainda sinto suas mãos segurando um passarinho se debatendo sem forças para um vôo comprido nem tampoco demorado. E, quando tive a notícia que o COVID-19 havia vencido suas células  físicas, me coloquei em velório tal qual fiz com todos da minha família. Dispus-me ao luto. Durante todo o dia que velei pela sua memória no dia que se eternizou encantado ouvi Albinoni... parecia que falava prá mim em seu Adágio...



Nao sei onde te encontrar
Não sei como te procurar
Mas ouço uma voz que
No vento fala de você
Esta alma sem coração
Te espera
Devagar

Ouvia repetidamente sua voz na última live que fui surpreendida por sua participação e disse:

- Estela, aqui é o Pascoal... um abraço prá você!

Ele nem sabia, eu não lhe falei... que suas mãos e seus olhos, de verdade mesmo, abraçavam eu inteira e você me dava e dá espírito livre. Eu devia ter furado a bolha da live, o tema da amorosidade e falado da sua importância em mim. Fiquei tão emocionada de você me chamar que emudeci... só falei: Páscoaaaaa, amo você! No dia seguinte teve o diagnóstico de COVID-19, veio às pressas prá Campo Grande e não encontrei mais o seu corpo. Encontrei na letra do Adágio uma forma de senti-lo perto... talvez devesse tocar ao piano...

As noites sem pele
Os sonhos sem estrelas
Imagens do teu rosto
Que passam de repente
Me fazem ainda esperar
Que te encontrarei
Devagar
Fecho os olhos e te vejo

Como pode alguém nascido em Veneza, no século XVII, conhecer tanto o que preciso de música nesse momento? Tomaso Giovanni Albinoni fez do seu Adágio em sol menor as mãos carinhosas que me guardaram em velamento do Páscoa... E, nas vozes atuais de El Divo, quando estava lá pela 10ª. um dia inteiro com muitas versões, eu já cantava...

Encontro o caminho que
Me leve embora
Da agonia
Sinto bater em mim
Esta música que
Inventei pra você
Se você sabe como me encontrar
Se você sabe onde me procurar
Abraça-me com a mente
O sol pareçe apagado
Acenda o teu nome no céu
Me diga que vc esta ai
O que eu gostaria
Viver em você
O sol como parece apagado
Me abrace com a mente
Perdida sem você
Me diga que vc esta ai e eu vou acreditar
Você é musica
Devagar

E Páscoa se fez brisa. Fui pensando em como continuar sentindo-o pertinho de mim... talvez agora eu o sinta mais perto ainda. É como se estivesse na brisa que entra pela janela, às vezes nos pores-do-sol menos bravos, na poeira baixa do bocaiuval, no vento sul que faz o tremulum dos rios, nas aparentes águas paradas dos corixos...

Talvez porque não lembro de vê-lo gritar, mas do balançar da cabeça frente a alguma desgraceira contra nossos movimentos por direitos; de ir sempre fazer a curva prá voltarmos ao lugar de onde paramos... a sapiência, a sapiência. Devagar e sem parar feito o Adágio que sinto e me mantenho abraçada por suas mãos.

Estela Márcia Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos, ainda como convidada. Hoje com a imagem da região da Serra do Amolar, fotografada pelo compa amigo Joelson Soares.


sábado, 6 de março de 2021

"AS GRADES DA LIVRARIA GUATÓ" (Fausto Matto Grosso)

AS GRADES DA LIVRARIA GUATÓ

(Esta crônica, será publicada no livro Histórias que ninguém vai contar )

Crônica-memória do Camarada Fausto Matto Grosso, publicada em seu blog "Fausto Matto Grosso", como parte do livro em elaboração "Histórias que ninguém vai contar", com imagem do prédio da saudosa Livraria Guató (Campo Grande, MS), captada por tecnologia do Google Earth.

Os guatós formavam um grupo indígena que habitava na zona fronteiriça entre Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e a Bolívia. Eram índios canoeiros, respeitados pelo manejo certeiro do arco e flecha.  Não formavam grandes aldeias, mas viviam em grupos familiares esparsos que acabaram sendo afugentados pela criação de gado na região, que os levaram a se refugiarem na Bolívia ou nas periferias pobres das cidades da região.  Foram considerados extintos a partir de 1950 e, por isso, não receberam qualquer assistência do governo até 1976, quando foi encontrada uma aldeia do grupo próxima à periferia da cidade de Corumbá. A partir daí, passaram a lutar pelo seu reconhecimento étnico, com apoio de diversos setores da sociedade sul-mato-grossense. A palavra guató passou a ter um significado de resistência.

No início da década de 1980, o amigo Manoel Sebastião da Costa Lima, que viria a ser conhecido como Mané Guató, fundou uma livraria que se transformou em um dos mais importantes locais de encontro da intelectualidade do estado.

A Livraria Guató foi instalada em um sobradinho à Rua Rui Barbosa, no centro da cidade. Na edícula dessa casa, com entrada independente, funcionava o Centro de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos (CEPES), uma espécie de escola de formação política do Partidão, aberta à sociedade. A Guató funcionava como uma sala de espera para o CEPES. O CEPES e a Guató faziam uma combinação perfeita.

Ali podia ser encontrada uma ampla literatura geral e política, das mais importantes editoras nacionais e estrangeiras, entre elas a soviética O Progresso. Os temas sociais, políticos e econômicos eram o forte da livraria e os temas marxistas o carro chefe. O comando do Mané Guató era a consagração do espaço.

À livraria afluía a intelectualidade do estado, para conversar, discutir, saber das últimas e também, abastecer-se de livros clássicos e de lançamentos recentes. Era ponto de encontro de professores, jornalistas, artistas, estudantes e amantes da boa leitura. Lembro-me de um médico amigo, que passava vários meses em uma pequena cidade do interior, onde morava, e quando vinha a Campo Grande apenas ia à Guató comprava uma mala de livros e imediatamente voltava para o autoexílio na sua cidade para ler como um desesperado.

Manoel era agrônomo de profissão, com engajamento político desde os tempos de faculdade no Rio de Janeiro onde fora ligado com a Juventude Universitária Católica (JUC). Era também bacharel em direito. Como agrônomo foi funcionário do Instituto Brasileiro do Café - IBC. Tinha uma vasta cultura, fruto da leitura disciplinada e metódica que mantinha por décadas a fio, nas primeiras horas do dia, antes do alvorecer.

Na livraria era um grande anfitrião, sempre convidando as pessoas para um chá amigo no 1º andar. Generoso, franco e sincero, era uma pessoa doce e agradável, amigo de todos. Paciência não lhe faltava para conversar horas a fio. Morava com a sua companheira Joana e dois filhos em uma casa ao lado da livraria. Dizia que a livraria não era dele, era de todos, ele seria um simples “zelador”, já que “contra a propriedade privada”. Permitia inclusive que jovens estudantes sem moradia, dormissem no estabelecimento. Segundo diziam, o zelador Mané Guató várias vezes viu pessoas roubando livros e nada fez, achava que o importante era que os livros fossem lidos. Passados os anos, a livraria se revelou comercialmente insustentável e o Mané, “mais” a Joana e os dois filhos Paulo e Júnior, foram viajar de Kombi pelo Brasil em um longo itinerário que levou anos.

A Livraria Guató foi um local que deixou saudades. Ainda hoje passei lá em frente, passeando de Google, o que me lembrou um antigo enigma que muito me intrigava. Por que o prédio tinha grades apenas no andar de cima? Certa vez inquiri ao proprietário do imóvel sobre isso. Seu Onofre, pai do Mané Guató, me contou que antes da livraria, morava ali um jovem advogado comunista. Certa vez esse acordou, no meio da madrugada, achando que a polícia estava subindo a escada para prendê-lo. Não teve dúvidas deu um salto pela janela foi parar lá embaixo. A partir desse fato, tornou-se necessária a colocação da grade no primeiro andar.

FAUSTO MATTO GROSSO

(Esta crônica foi escrita com ajuda à memória de Ahmad Schabib Hany, Airton Sampaio e  Professor Paulo Cabral)

Ajustado em 03.03.2021 por indicação de Paulo Esselin

sexta-feira, 5 de março de 2021

EMPÁFIA, APATIA E ESCÁRNIO

EMPÁFIA, APATIA E ESCÁRNIO

Há uma família que pode servir de exemplo de tudo, menos de empatia e humildade, duas características necessárias para quem foi guindado ao cargo mais importante da República sem ter dado provas de preparo, condições psicológicas e, sobretudo, sensatez.

Escárnio. Não há palavra mais eloquente para descrever a conduta da dinastia que quer se instalar a qualquer preço no coração do poder no Planalto Central.

Em plena pandemia, no dia em que se atinge o triste ápice diário do número de pessoas que não puderam resistir à pandemia que vem assolando os lares brasileiros, os membros de uma pretensa dinastia seleta, “ungida por Deus”, apresenta sua face mais cruel. Não bastasse a empáfia e a apatia com que encara o drama de amplas camadas sociais em decorrência da falta de um programa de governo voltado para os reais interesses do povo brasileiro, efetua a aquisição de uma mansão milionária, digna de magnatas do setor financeiro.

O valor da transação, nesse caso particular, não é uma questão privativa. Até porque a pessoa que adquiriu o imóvel tem proventos oriundos do erário. É o que determina a lei. E, se bem nos lembrarmos das consignas dos “cançados” (com “c” cedilhado, tamanho seu “apreço” pela leitura), “ninguém está acima da lei”...

Voltamos, pois, aos sombrios tempos do “aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei” - em que os usurpadores do poder se sentem proprietários não só dos bens públicos como da vida e da morte da população.

Memória curta, a dessas vaquinhas de presépio. Como que por encanto, desapareceram a ética e a moral que embasavam todo o discurso que legitimou o golpe perpetrado, não contra Dilma, Lula ou o PT, mas contra o Estado Democrático de Direito, que custou a tantas gerações conquistá-lo.

Não faltarão argumentos e justificativas para convencer as hordas de insanos que a seguem como rebanho a caminho do abatedouro. Sim, abatedouro, pois as medidas tacanhas para enfrentar a pandemia nos oferecem um cenário tétrico para as próximas semanas. Como se isso fosse pouco, a flexibilização das regras para aquisição de armas e munições (inclusive de grosso calibre) é, por si só, reveladora, de “morte aos inimigos”: ou quer nos fazer acreditar que com esse armamento será possível combater o novo coronavírus?

Foi eloquente a fala do nefasto em Uberlândia, que só é macho quando está cercado por iguais, como todo fascistazinho que amarela quando se vê diante da realidade. Além de mais um flagrante ato de quebra de decoro (afinal, o cargo têm bônus, mas também tem ônus, coisa que parece desconhecer), esse indivíduo ofendeu progenitoras que nada têm com sua paranoia. Pobre diabo...

Melhor, pobre país, pobre sociedade... Se, em sã consciência, esse ex-parlamentar do baixo clero, indolente e mal educado, não tomou consciência da gravidade do momento e insiste em levar para o abismo toda uma nação com mais de 200 milhões de cidadãos, o que fazem as instituições que assistem impávidas a uma caricatura (deploravelmente feia, como a própria alma) de Nero a incendiar um país-continente, cujos biomas, reservas naturais, patrimônio cultural, história e, sobretudo, generosa população estão diante de um risco iminente?

Tal qual o imperador incendiário, o mito, ou melhor, a dinastia começa a construir seu bunker na ânsia de sobreviver a uma hecatombe virulenta, com empáfia, apatia e escárnio, muito escárnio...

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 4 de março de 2021

COMPANHEIRO ROQUE FERREIRA, SEMPRE NA MEMÓRIA!



COMPANHEIRO ROQUE FERREIRA, SEMPRE NA MEMÓRIA!

Primeiro dirigente sindical ferroviário classista, Roque Ferreira foi mais que um Companheiro, foi um Mestre que abriu os horizontes de outras categorias de trabalhadores ainda tolhidos pela ditadura não só em Bauru e MS, mas em toda a América Latina. Seu legado de luta e internacionalismo viverá sempre em nossa memória.

Por meio do Companheiro Anísio Guilherme da Fonseca, o Anísio Guató, soube da triste eternização do grande, gigante, Companheiro Jornalista Roque Ferreira, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Bauru e Mato Grosso do Sul. Depois de ter lutado renhidamente contra a covid-19, esse ser humano de infinita grandeza encerrou sua inesgotável jornada no dia 4 de setembro de 2020, cujo legado atravessa as fronteiras da categoria ferroviária de toda a América Latina, como líder leal da classe trabalhadora e internacionalista.

Tive a honra de conhecê-lo em meados da década de 1980, quando viera a Corumbá, de carro, para conhecer de perto a realidade dos ferroviários desta fronteira. Já passava das 22 horas e estava à procura de uma estalagem para se restaurar da viagem. Uma feliz coincidência, nessa noite meu Pai decidira esperar pela chegada de um grupo de turistas ao Pantanal com as portas abertas do refeitório da pousada, e eu me incumbira de aguardar pelo grupo. Nisso chega um carro com quatro passageiros a perguntar por alguma refeição, e como Dona Divina, a cozinheira, ainda estava a postos, disse que sim, que podiam adentrar ao salão.

Discreto, o grupo se sentou à mesa e, enquanto aguardava pela refeição, tomava algum refrigerante, sem alardes. Com a chegada do grupo de turistas (Corumbá vivia a febre da telenovela ‘Pantanal’, da extinta TV Manchete, e fervilhavam os grupos de brasileiros ávidos pelas maravilhas do bioma, até então desconhecidas pela maioria dos brasileiros), passamos a nos dedicar também à recepção dos jovens turistas à pousada. Em seguida, como bom Jornalista que Roque era, começou a me indagar com uma série de perguntas sobre o turismo, o Pantanal e as ferrovias, tanto a ex-Noroeste como a Oriental, da Bolívia.

Provavelmente pela forma como respondi, se sentiu mais à vontade para falar sobre as questões dos trabalhadores na região. Mesmo não sabendo ainda com quem eu estava conversando, falei sobre a primeira paralisação dos ferroviários ocorrida na região no ano anterior (quando um diretor do Sindicato, de nome Jesus, viera de Bauru, e pela forma como conduzira o movimento, o ferroviário Manoel Vitório acabara transferido à revelia, primeiro para a estação de Urucum e depois para a de Luiz Gama, perto de Água Clara, na região do Bolsão).

Eles se entreolharam, e aí finalmente o agora saudoso Roque se identificou. O grupo estava viajando de carro pelas cidades da rota da ferrovia Bauru - Corumbá porque a direção da ferrovia, ainda sob as orientações dos sabujos de 1964, detinha controle absoluto da circulação de sindicalistas em seus comboios. Não é demais lembrar que os x-9 permaneceram até a privatização da RFFSA, no governo de FHC, em 1996, fossem eles de carreira ou das empresas terceirizadas que já atuavam em seu percurso.

Quiseram saber algo mais sobre Manoel Vitório e sua transferência para Luiz Gama. Depois, sobre o acidente por picada de cascavel sofrido por ele e sua recuperação em Ribas do Rio Pardo. Como eu o conhecera, por meio do Companheiro Tito de Oliveira (de quem ele era aluno) e não demorara muito para nos tornarmos amigos, senti confiança e me permiti dar-lhes o endereço da residência dele, numa vila de casas nas proximidades do Hospital de Caridade. Só então soube o nome dele e dos membros da caravana sindical. Mas a partir de então, toda vez que vinha para Corumbá, Roque fazia questão de parar na pousada para trocar algumas ideias conosco.

Decorridos alguns meses, qual não foi minha surpresa ao ver Manoel Vitório com o Roque Ferreira, já eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Bauru e Mato Grosso do Sul. Não demorou muito, Manoel já havia sido eleito pela base delegado regional do Sindicato, e aos poucos foi passando a integrar as diferentes instâncias deliberativas da categoria. Não posso esquecer a felicidade dele ao retornar de uma viagem ao Caribe, quando participou de uma conferência latino-americana da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes Ferroviário. Roque era assim: para ele, sindicato era uma escola de formação classista, ideológica, e ele atuava como Mestre, com a clareza de que as grandes causas não têm ‘donos’, e a História não têm amos nem senhores.

Impressionava seu proceder: sempre estudioso, comedido, discreto. Era metódico sem enveredar para a pieguice. Disciplinado, um verdadeiro autodidata, Roque descortinou horizontes com pioneirismo e determinação, tendo preparado muitos jovens ferroviários para a formação política. Ainda na década de 1980, tão logo assumiu a coordenação colegiada do Acordo Metro-ferroviário dos Trabalhadores Sobre Trilhos, acredito dentro da CUT (Central Única dos Trabalhadores), empreendeu novas atividades formativas para companheiros da classe trabalhadora. O domínio das ferramentas da Comunicação Social tornara sua atuação ainda mais abrangente.

Humilde, atencioso, observador e criterioso, o Companheiro Roque Ferreira, ao longo do período em que tive a honra de testemunhar sua atuação, tratou com muita dignidade e respeito os ferroviários. Diferentemente do caudilho populista que por décadas atuara naquele sindicato, um deputado federal da Arena (depois de seu sucedâneo, o PDS) cujo nome não lembro, e que quando vinha a Corumbá queria ser recebido como autoridade, não como representante de uma categoria espezinhada no tempo da ditadura.

Terra de Apolônio de Carvalho, o coração do Pantanal e da América do Sul inspirara os membros da gestão “Pau na Máquina” (também nome do boletim sindical) a abrir canais de diálogo com os ferroviários da Bolívia, filiados à emblemática Central Operária Boliviana (COB). Lembro-me de uma de suas viagens, em companhia da Jornalista Tatiana Calmon, responsável pela Comunicação Social (mais tarde sua Companheira), a preocupação de reunir-se com os colegas de ofício que atuavam na região para desmistificar algumas questões da luta dos ferroviários.

É que, início dos anos 1990, no rastro da verborragia neoliberal de Fernando Collor, era comum a resistência de repórteres não suficientemente conscientes do papel dos movimentos sociais que traziam em sua atuação o olhar patronal na cobertura da luta sindical. Aliás, a vinda de Roque Ferreira com a Companheira Tatiana, senão me engano, decorrera de um lamentável episódio em que a esposa de um engenheiro da ferrovia, estudante no campus local, tentara desacreditar a atuação da nova gestão sindical (ela não fazia ideia de que muitos dirigentes ferroviários eram também universitários). Daí que o velho preconceito pequeno-burguês de que ‘atuação de trabalhador é questão de polícia’ acabou não mais tendo vez.

Foi entre o final do mandato de José Sarney e o primeiro mandato de FHC que o destino da RFFSA foi selado, quando do desmembramento e privatização das superintendências regionais (a de Bauru era a SR-8). Graças à capacidade de mobilização de Manoel e à sensibilidade do então Prefeito Fadah Scaff Gattass, em 1989, foi realizada a memorável passeata multitudinária (algo como quatro quadras de pessoas apinhadas exigindo a permanência dos trens de passageiros e contra a privatização da ferrovia quase centenária). Embora todos os segmentos sociais da região tivessem se manifestado pela manutenção do trem, os parlamentares da base parlamentar do governo nos dois estados (Mato Grosso do Sul e São Paulo) nada tinham feito para evitar a privatização.

A última década do século XX foi extremamente fértil para o movimento popular nesta região, e o Sindicato dos Ferroviários de Bauru e MS, sem dúvida, foi carro-chefe das conquistas protagonizadas. Claro que a empresa já havia acionado seu ‘plano b’ e criado um ‘sindicato cartorial’ com base territorial em MS, mas não vingara. Sob a sábia coordenação de Roque Ferreira, a atuação de Anísio Guató, Roberto Teixeira, Peninha e Seu Luiz, Seu Guedes, Seu Vivaldo, além de Manoel, entre tantos outros Companheiros não menos importantes, fez a diferença para a afirmação do protagonismo popular na região.

Mais que dirigente sindical, o Companheiro Roque foi um Mestre que humilde e sabiamente soube conduzir sua categoria num patamar sem igual, de lealdade e solidariedade. Seis meses de sua fatídica eternização, num misto de consternação e saudade, manifestamos nossa profunda solidariedade à Companheira Tatiana Calmon e Família, aos Companheiros da incansável categoria dos ferroviários e, de modo fraternal, a toda a classe trabalhadora, razão de ser do Companheiro Roque Ferreira. Seu legado de coerência, disciplina, lealdade e dedicação à causa da classe trabalhadora fecundará os horizontes das novas gerações rumo a uma sociedade mais liberta, justa e igualitária.

Até sempre, Companheiro Roque Ferreira, sempre na memória e no coração!

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

MARÍLIA, FILHA DA PROFESSORA EUNICE E EDU ROCHA, SE ETERNIZA

MARÍLIA, FILHA DA PROFESSORA EUNICE E EDU ROCHA, SE ETERNIZA

A Radialista Marília Rocha, Filha da Professora Eunice Ajala Rocha e do Vereador Edu Rocha (assassinado covardemente em 1959), se eterniza aos 74 anos, no interior de São Paulo. No início dos anos 1990 veio a Corumbá para resgatar a produção acadêmica da Mãe, oportunidade em que fez contato com os membros da Sociedade dos Amigos da Cultura.

Por meio do Jornalista Luiz Taques, tomamos conhecimento de que a Radialista Marília Rocha, Filha da Professora Eunice Ajala Rocha e do Vereador Edu Rocha (assassinado em julho de 1959, depois de uma sessão da Câmara Municipal em que denunciara o líder da máfia dos carros “rabos de peixe”), se eternizou, aos 74 anos, neste 19 de fevereiro, em decorrência de infecção generalizada, em Peruíbe (SP).

Segundo o Jornalista e Radialista Adolfo Rondon, Marília Rocha iniciou nos anos 1960 seu ofício de locução em Corumbá, na então Rádio Difusora Mato-grossense S/A (ZYA-2, 1490 KHz). Depois seguiu para São Paulo, tendo marcado época em grandes emissoras, como a Rádio Mulher, pioneira nesse segmento.

Marília Rocha esteve em meados da década de 1990 em Corumbá para resgatar a obra acadêmica da Mãe, a Professora Eunice Ajala Rocha, aluna da primeira turma do curso de História do à época CPC (Centro Pedagógico de Corumbá), então vinculado à UEMT (Universidade Estadual de Mato Grosso). Sob orientação dos Professores Valmir Batista Corrêa e da Professora Lúcia Salsa Corrêa, desenvolveu importantes pesquisas sobre a contribuição dos afrodescendentes escravizados e a cultura popular, como o resgate do siriri e do cururu, da viola de cocho e das celebrações do São João na região de Corumbá e Ladário, tema de sua dissertação de Mestrado. Docente da UFMS, Eunice caracterizou-se pelo empreendedorismo e a inovação, tendo promovido um curso pioneiro de arquivo público, para o qual vieram docentes da Universidade de São Paulo (USP), oportunidade em que criou um núcleo de arquivo no então CEUC (Centro Universitário de Corumbá).

Em uma de suas últimas estadas em Corumbá, Marília Rocha se encontrou com membros da Sociedade dos Amigos da Cultura, quando expôs as razões de seu projeto. Ao lado do escritor Augusto César Proença, que conhecera no tempo em que trabalhava no rádio corumbaense, ela tentava publicar o legado da Professora Eunice mediante patrocínio da Lei Rouannet de Incentivo à Cultura. Diante da falta de apoio pelas autoridades da época, preferiu publicar por seus meios a íntegra da dissertação de Mestrado de sua Mãe, hoje disponível graças a essa sua iniciativa.

De personalidade forte e convicções bem definidas, Marília herdou dos Pais o caráter e a determinação, provavelmente o que a tenha afastado da sociedade em que a hipocrisia e o mau-caratismo, sobretudo a partir do golpe de 1964, passaram a reinar em sua cidade-natal. Além de ter perdido o Pai Edu Rocha na infância, vítima de um atentado covarde quando denunciava o crime organizado sob a proteção do mandonismo udenista (o líder local da UDN, Caribaldo Salles, apesar das evidências de ter sido mandante do crime, ficou impune), viu a Mãe ser a única condenada, pelo fato de simpatizantes do vereador assassinado terem feito um panfleto em que questionavam a conduta do juiz do caso, conforme denúncia de reportagem de capa da revista O Cruzeiro da época.

Assim como a Professora Eunice não pôde ver a memória do Vereador Edu Rocha ter sido reparada, Marília Rocha se eterniza sem ter podido ver o reconhecimento, pelos órgãos oficiais, das generosas contribuições a Corumbá e região de Eunice Ajala Rocha como pesquisadora e gestora da Educação e Cultura, bem como de Edu Rocha como paladino do combate à corrupção institucional vigente em seu tempo, exatamente por aqueles que, cinco anos depois, promoveram um golpe de Estado em nome da “moral e dos bons costumes”.

A História, disciplina que a Professora Eunice escolheu não apenas por vocação, costuma oferecer tribunais mais justos: sem o oportunismo imediatista ou as odes desprezíveis, escancara de maneira límpida os interesses inconfessáveis que os mandarins de plantão conseguem encobrir, geralmente ao custo de muito sangue e medo. Passaram-se anos, décadas inclusive, mas não demorará o dia em que a História, que amedronta meliantes de todos os tempos, traga a luz para toda a população, a verdade que outrora foi silenciada com balas, injustiças, intimidações, censura e opressão.

Nós, que não tínhamos idade para conhecer pessoalmente Edu Rocha, podemos dizer que a Vida nos presenteou pessoas como a querida e saudosa Professora Eunice Ajala Rocha e a Radialista Marília Rocha, cuja memória honrada qualifica a humanidade, sobretudo nestes dias funestos em que canalhas travestidos de patrioteiros enxovalham a República e o Estado Democrático de Direito.

Ahmad Schabib Hany