sexta-feira, 15 de outubro de 2021

ONDE ERRAMOS?

ONDE ERRAMOS?

Neste 15 de outubro, em que celebramos o Dia dos Professores e Professoras e o aniversário de 104 anos do Padre Ernesto, é preciso fazermos uma autocrítica inadiável. Onde foi que erramos, diante da indisfarçável conjuntura caótica que atenta contra os valores civilizatórios e que o porvir é uma verdadeira incógnita?

Neste 15 de outubro, Dia dos Professores e Professoras e do natalício do saudoso Padre Ernesto Saksida (que estaria comemorando seus 104 anos), urge a reflexão, autocrítica, que não quer calar, diante da conjuntura caótica - de ódio, intolerância, corrosão dos valores civilizatórios, obscurantismo e truculência -, engendrada na última década por hordas negacionistas em conluio com fora de lei de diversos setores (parasitas sociais, sonegadores, grileiros, madeireiros, garimpeiros, jagunços, milicianos, traficantes, contrabandistas, mercadores da fé, ‘viúvos’ da ditadura, neofascistas etc).

Este dia ganha maior relevância por estarmos no ano do Centenário de Paulo Freire, o grande brasileiro, mais lido e reconhecido em todo o Planeta que em seu próprio país. O Brasil, aliás, é pródigo com as suas mentes iluminadas: Milton Santos, o Pai da Geografia no Brasil; Josué de Castro, o Pai da Segurança Alimentar (criador e primeiro diretor da FAO, Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, e autor do célebre Geografia da Fome - O dilema brasileiro: pão ou aço), apenas para cotejar. O fato é que Paulo Freire virou um pária nos anos de véspera de seu centenário, que se estivesse vivo encontraria vândalos endinheirados ávidos por linchá-lo.

Por essa razão, e com profunda dor, é que questionamos: onde foi que erramos? Não que pretendêssemos ser infalíveis. Se somos perfectíveis, é porque não somos perfeitos, e nossas ações têm a mesma sina. Até porque elas vêm para tentar encontrar solução àquilo que nos incomoda, que nos indigna, quando é o caso. Desde antes da construção daquilo que se chamou de Estado Democrático de Direito, em decorrência da Constituição Federal de 1988, estivemos nas bases das comunidades, urbanas e rurais, para debater, ouvir e facilitar um conjunto de tentativas de solução dos ‘gargalos’ que a própria sociedade brasileira tem, desde sua origem, profundamente excludente e exploradora.

Recorremos às mais variadas dinâmicas de grupo, sempre com os espíritos desarmados. Para sermos leais com os verdadeiros protagonistas, nos despimos de nossas vaidades. Foi um duro aprendizado, e muito rico, porque transformador. Mas, a bem da verdade, faltou algo. E esse algo que faltou permitiu que o vírus da discórdia, do ódio, germinasse e se reproduzisse três décadas depois, enquanto nós ainda estávamos focados no rigor de nossa metodologia. O fato é que a História, movida pela dialética (em que os opostos são determinantes), nos atropelou. Porque nos faltou algo, e esse algo nos custou caro, muito caro.

Cidadão do mundo, como os ilustres brasileiros citados em parágrafo anterior, Herbert de Souza, o saudoso Betinho (Sociólogo que criou e estruturou a Campanha contra a Fome de 1992 em todo o Brasil, mais conhecida como Ação da Cidadania contra a Fome e pela Vida), em seu memorável Textos indignados, nos ensina com a elegância que lhe era peculiar a sabermos superar nossas diferenças e até divergências para empreender as causas maiores de nossa sociedade, como a fome e a exclusão social, por exemplo. Nós, em Corumbá e Ladário, fomos modelo para muitas regiões do Brasil, como ficou constatado nos preparativos para a Segunda Semana Social Brasileira, de 1994.

A capilaridade (capacidade de conexão, ou melhor, capacidade de articulação de base) conquistada é indiscutível: durante os primeiros cinco anos (de 1993 a 1998) atingimos um nível de intervenção extraordinário, mais a interlocução efetiva junto a autoridades constituídas. Isso permitiu a construção simultânea de outros dois espaços públicos não governamentais igualmente inéditos e, portanto, históricos: o Pacto Pela Cidadania (ou Movimento Viva Corumbá) e o Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (FORUMCORLAD), desde 2013 Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa.

Obviamente, foi fruto de muito estudo, reflexão, debate, criatividade, lealdade e, sobre tudo, compromisso ético. O respeito com o outro. A horizontalidade. A transparência. A inesgotável capacidade de procurar respostas efetivas aos desafios. Isso nos custou caro, inclusive em termos pessoais (todos os articuladores tiveram perdas pessoais durante o período, até porque não há transformação indolor, tudo tem um custo, que costuma ser elevado). E o mais importante: as pessoas mais humildes e simples foram os mestres mais solventes, isto é, os melhores exemplos que tivemos para toda a Vida. A começar por Seu Zózimo de Paula e Professora Maria de Paula, um casal muito querido do bairro Nova Corumbá (com a Cunhada Rose e a Filha Cristiane). Dona Alice de Moura, do Cristo Redentor, igualmente. Donas Elígia, Vera e Imaculada, antes de se aposentar da Enersul, de Ladário, também fundamentais.

Fátima Garcia, do Banco do Brasil; Fabiana Costa, Professora Marilda Ribeiro e Suzete dos Santos, da FACOR; Professores Ivaneide Minozzo, Luiz Carlos Vargas, Milton Zanotto, Amélia Pereira Zanella e Delari Botega, da Pastoral da Terra; Mara Leslie do Amaral, do INSS; Irmã Zenaide Brito, da Creche-Lar Santa Rosa; Pastor Antônio Ribeiro, da Igreja Batista Missionária; Irmã Antônia Brioschi, do GENIC; Dona Cerize de Campos Barros, da Associação das Senhoras Católicas da Diocese de Corumbá; Padre Emílio Zuza Mena, Matriz; Ednir de Paulo, na época pela Câmara Municipal, e Professora Cristiane Sant’Anna de Oliveira, do SINTRAE Pantanal, e Noemi Feitosa, da TELEMS, imprescindíveis. Seu Jorge Katurchi, Luz Marina Cavalcanti da Silva, Doutora Angélica Anache e Seu Mahmud Mustafa, pela Área de Livre-Comércio; Seu Vicente Mosciaro, Seu Arthur Moreira Ferreira e Seu Matateu de Paulo, Terminal Pesqueiro; Jocimar Campos, Ubirajara Junior e Cássia da Silva, Passe-Livre Estudantil; Anísio Guilherme da Fonseca, Manoel do Carmo Vitorio e Vivaldo Salles, Trem do Pantanal; Alexandre Gonçalves e Francisco Ormand, Camelôs e Feirantes; Marlene Terezinha Mourão, Arturo Castedo Ardaya, Augusto César Proença e a saudosa Heloísa Helena da Costa Urt, Revitalização do ILA; Professores Raul Delgado, Obeltran Navarro, Iracema Santos, e Lineise Amarilio, na Valorização da Educação; Aurélio Mansilla Tórrez, Sonner Rodrigues, Hernani Coelho, Rafael Fernandes, Socorro de Maria Pinho, Vergínio Alves de Moraes, Mirane dos Santos Costa, Denise Mansano, Norma Taciana Ramos, Marilza Pinheiro, Aguinaldo Rodrigues, Iliane Esnarriaga e Ariodê Martins Navarro, na Efetivação do SUS; José Batista de Pontes, Tânia Nozieres de Santana e Luciene Cunha, Efetivação do Estatuto da Criança e do Adolescente; Camila de Pontes, Joaquim Padilha, Rosely Bispo, Ruth Esnarriaga, Lindivalda Gonçalves dos Santos, Armando Marques e Assunção do Carmo Vieira, no Controle Social da LOAS; Armando Carlos Arruda de Lacerda, Pastor Marcelo Moura, Pastor Fernando Sabra Caminada, Padre Julio Mônaco, Padre Ernesto Saksida, Padre Antônio Müller, Padre Pasquale Forin e Dom José Alves da Costa, na articulação geral e Coordenação dos referidos espaços públicos.

Não se trata de simples menção. São protagonistas de uma experiência histórica. Em que a Educação, como instrumento de afirmação da cidadania, teve seu papel, no sentido mais amplo e efetivo. Pela prática de Paulo Freire, nós fomos ensinados pelo público protagonista ao longo destas décadas. E temos consciência desse importante legado. No entanto, alguns segmentos se mantiveram enclausurados apesar de nossas insistentes tentativas de envolvê-los nesse processo. Hábil e altivamente não participaram de nossa construção, bem como souberam neutralizar suas conquistas. De repente, passamos a ser criminalizados, estigmatizados, como se visássemos algum objetivo espúrio. Caímos como patinhos, embora eles ostentassem o pato amarelo na Avenida Paulista.

Daí porque precisamos redefinir estratégias. Isso requer muito estudo da realidade e da História. Mais que encontrar formas de superação de nossos limites, trata-se de puxar o fio da meada. Daí o valor de autocrítica autêntica. Revisar toda a trajetória para rever os erros e os acertos. É um processo coletivo, difícil, mas não impossível. Precisamos, de modo sincero e efetivo, nos reencontrar com a História, sem a qual não iremos a lugar algum.

Com honestidade e sem qualquer risco de estarmos cometendo um ato de soberba, mas não nos arrependemos de nada - absolutamente nada - do que nossa geração fez. Arrependimento, sim, pelo que não pudemos fazer, não porque não quisemos, mas porque não nos foi possível. E, à guisa de reflexão e autocrítica, assumimos que foi esse ‘não fazer’ que fez o nosso valente barquinho entornar, feito um Titanic à deriva, diante do iceberg da História. Mas nos resta o devir da própria História: como fênix a renascer das cinzas, estamos reconstituindo o processo histórico, sem angústia nem ansiedade, para nos reencontrarmos na hora oportuna, sem nunca havermos parado um instante. Ainda que muitos de nós foram invisibilizados pelo establishment e, pior, alguns de nós criminalizados precisamente pelos que organizaram as hordas de fora da lei e parasitas de todo o sempre para tomar de assalto os destinos da Nação.

Fica, entretanto, patente a importância da Educação neste processo de afirmação do protagonismo popular. E cabe a todos e todas os/as que se dedicam ao ofício de trabalhador e trabalhadora da Educação a consciência de seu papel histórico, sobretudo nesta quadra da História em que temos que fazer frente ao obscurantismo genocida, etnocida e ecocida. Parabéns, Professor e Professora, e mãos à obra, para fazermos jus às lutas do Professor Paulo Freire e do Padre Ernesto Saksida!

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 12 de outubro de 2021

BOLÍVIA: GOLPISTAS EM DEFESA DE INTERESSES INCONFESSÁVEIS

GOLPISTAS EM DEFESA DE INTERESSES INCONFESSÁVEIS

A Bolívia, mais uma vez, é cenário de uma tentativa de golpe pelas mesmas hordas parasitárias de sempre: traficantes, contrabandistas e sonegadores. Eles defendem a manutenção da impunidade, seus privilégios e a ilegalidade que sempre os beneficiou ao longo da história, sobretudo no período colonial e no cinicamente chamado de "republicano" (à exceção de 1952-1958, 1970-1971 e 1982-1985).

Em defesa da ilegalidade, dos privilégios e da impunidade. Essa é a tríade da ‘mobilização’ (na verdade, tentativa de blecaute) dos chamados ‘cívicos’ (pero no mucho) de Santa Cruz de la Sierra, Puerto Suárez, Trinidad, Cochabamba, Sucre etc. Perdedores há mais de 20 anos em sucessivas eleições presidenciais (porque não têm agenda nacional, só a defesa de interesses corporativos e quadrilheiros), sem apoio popular, eles recorrem a uma pauta golpista e trambiqueira. Afinal, quem já conhece Luis Fernando Camacho (famigerado “¡Qué macho!”) e os vínculos de seu pai com as narcoditaduras de Hugo Banzer Suárez e Luis García Meza (apoiadas por Klaus Barbie, o Carniceiro de Lion) não põe a mão no fogo por ele e seus croatas, a começar por Branko Marinkovic e assemelhados, ocupantes do primeiro escalão do desgoverno da genocida Jeanine Áñez Chávez, hoje atrás das grades.

Pude testemunhar, durante o período em que o desgoverno golpista de Jeanine Áñez (com o apoio declarado de Carlos D. Mesa Gisbert, Arturo Murillo, Branko Marinkovic, Fernando López, Luis Larrea e as velhas raposas da oligarquia boliviana, como Jorge Tuto Quiroga e Manfred Bombón Reyes Villa, herdeiros do espólio do sanguinário Hugo Banzer Suárez e aliados), a RKC (https://radios.com.bo/rkc-shinahota/) se revelou uma incansável rede de Jornalistas e Radialistas (com letras maiúsculas) que mantiveram uma resistência digna e valente, informando e combatendo as mentiras do desgoverno entreguista dos fantoches de Trump, Bolsonaro, Macri e Piñera.

Nove meses depois da posse do governo democrático do Presidente Luis Arce Catacora, quando a Bolívia recupera suas finanças saqueadas pelos criminosos que tomaram de assalto os cofres do Estado Plurinacional, os golpistas voltam a tentar paralisar as atividades econômicas para inviabilizar a democracia, como ontem (dia 11) e hoje (dia 12) vem ocorrendo na fronteira entre Corumbá (MS) e Puerto Quijarro (SC), na fronteira Brasil-Bolívia, onde foram vistos na véspera apoiadores de Bolsonaro circulando para dar (sic) ‘apoio logístico’ aos baderneiros, traficantes, contrabandistas e sonegadores que nunca trabalharam e, pelo contrário, submeteram as amplas maiorias da população a um estado de saque e de exploração que vigeu por décadas, senão quase dois séculos de existência do Estado boliviano, desde 1825.

E é bom que se esclareça que não há ‘comitê cívico’ que não tenha as mãos manchadas de sangue de 2019: todos esses ‘cívicos’ não passam de cínicos fantoches de interesses inconfessáveis, de olho no lítio, nas jazidas de gás natural e petróleo e nas terras férteis da Bolívia (https://www.brasildefato.com.br/2021/08/18/novo-relatorio-confirma-que-houve-massacres-e-abuso-policial-durante-golpe-na-bolivia-em-2019). A mobilização, como em 2019, é para garantir as ilegalidades por meio das quais sempre saquearam o Estado e o Povo Boliviano, que mostrou nas urnas sua altivez e dignidade e apeou contundentemente todo(a)s o(a)s envolvido(a)s na trama para saquear a Bolívia, tendo emissários de Trump (https://theintercept.com/2021/06/18/ex-ministro-bolivia-golpe-eua/) e de Bolsonaro (https://www.poder360.com.br/internacional/bolivia-investiga-se-houve-participacao-de-brasil-e-chile-na-queda-de-morales/), de Macri e de Piñera, como de hábito, nos bastidores.

Para os que não tiveram oportunidade de acompanhar a renhida resistência popular ao golpe de 2019 e à golpista Jeanine Áñez durante seu desgoverno em 2020, nesse nefasto período, esta fronteira (Corumbá, MS) e a de Cáceres (MT) puderam registrar o aumento significativo do tráfico de cocaína, além das toneladas apreendidas em território paraguaio nesse ínterim. É essa a verdadeira razão da tentativa de golpe nestes dias protagonizada pelos cívicos de Santa Cruz, porta-vozes de traficantes, contrabandistas, sonegadores e parasitas das oligarquias bolivianas, que desde a ditadura de Hugo Banzer Suárez fizeram do narcotráfico fonte de financiamento enquanto a população boliviana era submetida à fome e à tortura dessa ditadura sanguinária.

À exceção de diários e semanários bolivianos dignos de respeito, a maioria dos jornais da Bolívia controlada pela oligarquia midiática que por décadas manipulou a informação em todo o seu território escondeu de seus leitores a censura sofrida pela então ‘primeira-dama’ Yolanda Prada de Banzer no Brasil. No início dos anos 1970, quando a chancelaria brasileira enviou um telegrama ao então ditador Banzer com a decisão do governo de então de retirar o status diplomático da primeira-dama, de cuja comitiva havia sido apreendida uma valise com cinco quilos de cocaína num voo oficial. Na época, a censura à imprensa havia proibido jornais como a Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil dar o furo, mas o aguerrido O Pasquim havia furado o bloqueio e deu a nota, que foi traduzida e publicada pelo memorável Presencia, de La Paz. O saudoso Jornalista René Bascopé Aspiazu, sucessor do Padre Luis Espinal no semanário Aquí, denunciou esse episódio em seu emblemático livro La veta blanca (“O veio branco”), de 1983, em que prova, com farta documentação, os vínculos de Hugo Banzer Suárez com o narcotráfico.

Como não compreender como legítima a vitória retumbante de um presidente eleito a despeito de uma conjunção de fatores adversos em toda a campanha eleitoral, além das hoje provadas tentativas de eliminação (inclusive física) dele e de seus principais candidatos a cargos majoritários e proporcionais numa eleição realizada sob total controle das forças golpistas? Como não enxergar a capacidade de gestão financeira e institucional de Luis Arce Catacora, que em menos de seis meses de mandato já recolocou as finanças bolivianas nos trilhos do desenvolvimento com soberania, sem entregar as jazidas de lítio e de petróleo e gás natural aos abutres do império, ávidos para controlá-las, como no período chamado republicano, mas que nunca deixou de ser colonial, pelo servilismo das elites ‘brancas’ (na verdade, entreguistas) às potências coloniais?

Finalmente, compartilho com o(a)s Jornalistas independentes e comprometidos este link (https://radios.com.bo/rkc-shinahota/), uma das confiáveis fontes para cobrir os fatos que neste momento ocorrem na Bolívia. Não permitam a proliferação de fake news dos cínicos (coadjuvantes do desgoverno de Jeanine Áñez). Não é demais lembrar que quando se faz uma cobertura isenta, há de se cobrir todos os lados da questão, não só a desbotada narrativa dos mafiosos endinheirados ligados ao establishment do vizinho país, cujo Povo deu demonstração eloquente de dignidade e lealdade a sua soberania, tanto popular quanto plurinacional.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 5 de outubro de 2021

SEU JORGE KATURCHI, O JOVEM DE 95 ANOS

SEU JORGE KATURCHI, O JOVEM DE 95 ANOS

Do alto de seus 95 anos de muito trabalho, convicções sólidas, conquistas, alegrias, tristezas e perdas pessoais, o Patriarca da Família Katurchi nos ensina a conexão com a realidade. Neste dia 11 celebra seu aniversário com muita lucidez e sensibilidade.

O Senhor Jorge José Katurchi celebra no mesmo dia da divisão de Mato Grosso e criação de Mato Grosso do Sul seus 95 anos, com lucidez invejável e sensibilidade incontida. Ele costuma se justificar a todo interlocutor que o flagra com os olhos marejados: “Desculpe meu jeito, mas é que sou chorão mesmo...”

Seu Jorge aportou em Corumbá aos 5 anos de idade, na companhia de Dona Amelia Abraham Katurchi, sua saudosa Mãe, e Dona Rosa Maria Katurchi, sua Irmã mais velha, ao encontro de Seu José Katurchi, o Pai, que se instalara no à época próspero entreposto comercial que ligava a América do Sul ao Mundo já com a célebre grife Casa Katurchi, que chegou aos 90 anos de atividades ininterruptas no coração do quadrilátero central de Corumbá, e cujo encerramento ocorreu no mesmo ano em que o saudoso Mário Márcio Maldonado Katurchi, o filho do meio, se eternizou.

Cidadão a toda prova, apaixonado por Corumbá desde tenra juventude: depois de ter feito o serviço militar em sua terra, a Argentina, onde recebera propostas tentadoras, irrecusáveis, para permanecer por lá, estava convencido de que há, sim, paraíso na Terra, e para lá teria que retornar. E foi logo premiado com sua cara metade, a querida e saudosa Dona Anna Thereza de Copacabana Rondon Maldonado Katurchi, Companheira de Vida, de sonhos e de luta, Mãe de seus três Filhos - José Eduardo, Mário Márcio e a Doutora Tereza Cristina - e parceira incondicional em suas iniciativas cidadãs, que se eternizou em 2017.

Aluno do Colégio Salesiano de Santa Teresa, Seu Jorge foi contemporâneo de diversos homens públicos, de diferentes posições políticas e ideológicas: os saudosos Armando Anache, Eldo Delvizio, Walmir Provenzano, Ney Philbois e José Mirha, entre tantos não menos importantes e igualmente Amigos. Interessante é que, apelidado de Perón por causa da simpatia pelo caudilho argentino (ainda que no Brasil fosse declarado apoiador da UDN do Brigadeiro Eduardo Gomes), Seu Jorge nunca discriminou amizades de todo o gradiente político, de dentro e fora do Brasil.

Ele conta que, recém-casado, encontrava-se em Cáceres, terra-natal de Dona Anna Thereza, quando encontrou o Doutor José Mirha, seu velho contemporâneo de Santa Teresa. Não pensou duas vezes para chamá-lo pelo apelido, “Zé Borracha”. Baixinho, o velho Amigo pediu para que guardasse o apelido, pois em Cáceres ele era Promotor de Justiça. Nada que tivesse abalado a velha Amizade que atravessou décadas e que toda vez que o Doutor José Mirha estava de férias aproveitava de visitá-lo e dar boas gargalhadas.

Quando o regime de 1964 se abateu sobre a vida nacional, o Promotor José Mirha e outros simpatizantes da esquerda da época se viram em apuros. Diplomaticamente, bem ao seu estilo discreto mas efetivo, Seu Jorge encontrou interlocutores que ouviram as oportunas ponderações dele em defesa dessas pessoas de bem, punidas apenas por terem ideais diferentes dos novos detentores do poder. Foi também o que aconteceu com o emblemático advogado, Doutor Amorésio de Oliveira, quando esteve detido por algum tempo assim que a ‘redentora’ foi instalada no país.

Seu Jorge sempre soube lidar com polidez e gentileza as diferenças. Lembra com riqueza de detalhes do inesquecível Professor Fragoso, de Matemática. Amigo de sua Família, não deixava de frequentar a casa de Seu José e Dona Amélia. Irmão do lendário dirigente comunista Apolônio de Carvalho, o Professor Fragoso era muito culto e respeitador das ideias liberais de Seu Jorge, tanto que nunca o convidou a qualquer reunião ou atividade de sua organização. Como com os anteriores, em 1964 ofereceu ajuda para poupá-lo de maiores constrangimentos.

Amigo do engenheiro Pedro Pedrossian desde os tempos em que trabalhara na Noroeste do Brasil e periodicamente visitava sua residência, Seu Jorge também tinha relações de Amizade com a Família do Doutor Wilson Barbosa Martins, cassado pelo regime de 1964, e que diversas vezes visitou ao longo de sua Vida, antes e depois do período em que teve seus direitos políticos cassados. Tanto com Pedrossian como com o Doutor Wilson soube manter uma relação de respeito e, sobretudo, de defesa dos interesses de Corumbá, tanto que toda vez em que a cidade era objeto de alguma obra ou questão, recebia emissário do governo para ouvir seu parecer.

Quando o Pacto Pela Cidadania foi constituído, em 1994 (final do governo derradeiro de Pedro Pedrossian), Seu Jorge Katurchi desempenhou um papel estratégico na articulação com as autoridades do estado. A pedido de Dom José Alves da Costa e do Padre Pasquale Forin, Seu Jorge se incumbiu dos contatos preliminares, o mesmo tendo feito quando do agendamento da caravana do Pacto em Campo Grande, já no último governo do Doutor Wilson Barbosa Martins, cuja secretária particular era a Dona Neusa Chacha, esposa do Professor João Jorge Chacha, ex-reitor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, primo de Seu Jorge. Humilde e discreto, manteve os contatos com prudência e zelo, mas em Campo Grande foi centro das atenções na longa agenda cumprida na capital.

Da mesma forma, quando o governador José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, exerceu seus dois mandatos, Seu Jorge recebia com primazia determinadas informações de interesse da região, em especial de Corumbá. Entre as inúmeras, de cujas reivindicações foi porta-voz, o financiamento da construção do Cristo Rei do Pantanal, por Dona Izulina Gomes Xavier. Como o Pacto Pela Cidadania é um espaço público e não tem personalidade jurídica constituída (CNPJ), o presidente do Lions Clube de Corumbá, o saudoso Carlos Alberto Machado, foi o gestor dos recursos enviados pelo estado. Porém e lamentavelmente, da placa não consta o nome de Seu Jorge, incansável e maior articulador dessa iniciativa.

Mas como presidente desse mesmo clube de serviços, uma década antes, e tendo como seu secretário o saudoso Professor Sérgio Freire, Seu Jorge Katurchi foi contemplado com um diploma que é um verdadeiro prêmio de reconhecimento internacional: o de “Presidente Cem por Cento”, obtido num certame entre todos os Lions sediados em países de língua portuguesa, fato que muito o lisonjeia. Como democrata, compartilha a honra ao mérito com todos os membros de sua diretoria, cujos nomes não esquece. Uma memória privilegiada.

Aliás, u’a memória fotográfica, do alto de seus 95 anos, celebrados no mês em que a Constituição Federal de 1988 foi promulgada (dia 5) e que hoje chega aos 33 anos; que o memorável democrata que dirigiu a Assembleia Constituinte, Doutor Ulysses Guimarães, fazia aniversário (dia 6); que o grande estadista brasileiro do século XXI, Luiz Inácio Lula da Silva, faz aniversário (dia 6); que o nosso saudoso Amigo, o Padre Ernesto Sassida, comemorava seu aniversário, no Dia dos Professores e Professoras (dia 15), neste País-continente que tem na Educação o passaporte para a emancipação de seu laborioso Povo hospitaleiro, que acolheu sua Família de imigrantes, como a minha Família, cujo saudoso e querido Patriarca, Mahoma Hossen Schabib, também celebrava seu aniversário (dia 1º).

Com a habilidade de um diplomata e a argúcia de um político veterano, Seu Jorge tem sido um baluarte das grandes causas de Corumbá e do Pantanal. No entanto, costuma agir com discrição, razão pela qual tem sido vítima de uma invisibilidade injusta. Não que ele precise de holofotes, mas perante a história e o domínio público as louváveis iniciativas por ele protagonizadas têm que ser registradas e reconhecidas. Lembrando que sem ter sido, ao longo de sua Vida, detentor de cargo público. É justo e necessário que isso seja feito. Afinal, trata-se de um jovem de 95 anos, e com muita conexão com a realidade.

Parabéns, Seu Jorge Katurchi! Vida longa e muita saúde, que, como nunca, precisamos de sua lucidez e cosmopolitismo para assegurar um porvir alvissareiro para as gerações futuras de corumbaenses e ladarenses, natos ou por opção (como o Senhor), ávidos por horizontes largos e majestosos como o Rio Paraguai, mais uma vítima da usura, cobiça e insensatez sem limites.

Ahmad Schabib Hany