segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

CENAS SURREAIS NA MATERNIDADE DE CORUMBÁ

 CENAS SURREAIS NA MATERNIDADE DE CORUMBÁ

Em sã consciência, não há nada que justifique intervenção policial no sagrado espaço em que nosso(a)s filho(a)s vêm ao mundo. Onde estão o Humaniza SUS e demais programas criados com base na ciência, no amor e em valores civilizatórios? Cadê os Conselhos Municipal e Estadual de Saúde, o Conselho Gestor do Hospital, os FUSUS municipal e estadual? É hora de tomar atitude!

Vídeos com imagens surreais de familiares de uma parturiente na Maternidade de Corumbá e a ação de efetivos da Polícia Militar vêm causando perplexidade e indignação em todos os segmentos da população. Assim como não devemos criminalizar a família da mãe que estava internada com o(a) recém-nascido(a), obviamente não podemos a priori condenar os policiais que foram chamados a intervir no interior do sagrado espaço onde nosso(a)s filho(a)s vêm ao mundo. Mas podemos e devemos questionar a hipotética “gestão de crise” que não soube agir com base em programas há décadas implantados no Hospital de Caridade e na Maternidade de Corumbá, entre os quais o Humaniza SUS.

Qualquer que fosse o cenário de crise, a Maternidade é um local que não pode nem deve admitir forças de segurança em seu interior, sobretudo em tempos de pandemia. Além disso, aquela casa de saúde dispõe de profissionais de todas as áreas para uma eventual gestão de crise, como psicólogos e assistentes sociais, ademais de médicos, enfermeiros, nutricionistas e técnicos de enfermagem. Não é um administrativo que deve atuar num momento de adversidade, até porque há vidas inocentes em questão. Parece termos voltado um século atrás nestes tempos sombrios em que a racionalidade e todo o avanço protagonizado pela cidadania depois de 1988 se diluíram inexplicavelmente.

Graças à imprensa e às redes sociais foi possível que a população local tomasse ciência desse episódio que nos envergonha não só como moradores do coração do Pantanal e da América do Sul, mas como a primeira região em Mato Grosso do Sul a efetivar o controle social de políticas públicas de saúde, assistência social, direitos da criança e do adolescente, das pessoas com deficiência, do negro, da cultura etc. Desde 1993, fomos protagonistas de conquistas exemplares, por meio do incansável Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (Forumcorlad), que durante quase 20 anos atuou, com independência e desenvoltura, na composição/monitoramento de pelo menos 14 lócus (entre conselhos, conselhos gestores e comitês).

Durante o período de 1993 a 2012, Corumbá e Ladário foram referência no controle social não só no estado como em Mato Grosso e no Distrito Federal, a ponto de pelo menos quatro fóruns estaduais terem adaptados o regimento interno e os princípios norteadores do Forumcorlad para disciplinar seu funcionamento e dinâmica interna: o FUSUS/MS, o FEDCA/MS, o FORMADS/MS, o FORMAD/MT e o da Cultura de MS. Em 2000, momento de uma intervenção qualificada dos setores organizados da sociedade civil sul-mato-grossense, chegamos a criar a Plenária Permanente de Fóruns de Políticas Públicas de Mato Grosso do Sul (PPFPP/MS), que, em decorrência do governo centralizador e de cooptação de representantes não governamentais instalado em 2007, aos poucos todas essas importantes conquistas foram deixando de existir, como em efeito dominó.

Inegavelmente, foi um tempo de total sintonia entre a sociedade civil organizada e os promotores de Justiça e procuradores da República. Isto é, o Ministério Público Federal e de Mato Grosso do Sul, sobretudo a Doutora Sara Francisco da Silva, a Doutora Andréia Cristina Peres da Silva e o Doutor Ricardo Mello Alves (do MP/MS) e o Doutor Carlos Humberto Prola Júnior e o Doutor Wilson Rocha Assis (PR/MS). Cada qual ao seu tempo e graças à desenvoltura com que desempenharam seu cargo, rigorosamente à luz da legislação, a cidadania local teve assegurados importantes direitos durante esse período. Honroso e fecundo período, aliás.

Felizmente, temos na atualidade excelentes promotores de Justiça e procuradores da República, sempre pautados nos mais rigorosos critérios de Justiça e de compromisso com o Estado de Direito. Para não incorrer em qualquer temeridade, não farei citação de seus honrados nomes, mas a sintonia é igualmente profícua e republicana. A atuação do Ministério Público, seja de Mato Grosso do Sul como da União, tem sido uma garantia para a atuação da cidadania no exercício de seus deveres/direitos junto aos órgãos colegiados de controle público. Não por acaso, é recorrente a procura de representante dessa importante instituição por membros de diversos conselhos e comitês, na ânsia de assegurar cumprimento das garantias constitucionais.

Entretanto, hoje, além de, lamentavelmente, vermos esses lócus (conselhos, conselhos gestores e comitês) reduzidos a instâncias burocráticas destituídas de iniciativa própria, seus membros, salvo honrosas exceções, têm se restringido a papéis subalternos da burocracia estatal, em todas as instâncias. E, me permitam a sinceridade, como permitir que um conselheiro apenas se licencie da função relevante para a qual foi eleito em foro próprio (é o que determinam as leis federais que tratam, cada qual em seu texto próprio, da composição do conselho) para se candidatar para vereador ou qualquer outro cargo eletivo? No memorável tempo do Forumcorlad, nada disso era permitido: ninguém estava impedido de ser candidato ao que quisesse, mas para sê-lo precisava abrir mão da (renunciar à) função de conselheiro, até porque não se pode ser conselheiro com vínculo com os grupos políticos que controlam o Executivo ou o Legislativo.

Não tenho dúvida de que, em 2012, por tal razão, nos enxotaram como representantes do Forumcorlad, por meio de ameaças de toda sorte. Resistimos até o último momento, mas o(a) então promotor(a) de Justiça da época não se manifestou, embora tivéssemos reunido diversos documentos expondo as arbitrariedades. Ao contrário, membros de uma conduta comprovadamente ilibada foram alvo de acusações absurdas, felizmente repelidas com altivez e serenidade. A bem da verdade, a Prefeitura de Ladário, sob a condução do Professor José Antônio Assad e Faria, teve um comportamento íntegro e, com total transparência, permitiu o exercício pleno dos membros do Forumcorlad. Os então gestores de políticas públicas de Corumbá, à revelia do então prefeito, tentavam o tempo todo deslegitimar ou duvidar da competência dos cidadãos eleitos no âmbito do mais antigo e modelar espaço público não estatal.

Decorridos quase 10 anos, o resultado é este: o controle social diluído e invisibilizado, as unidades de saúde sem o efetivo monitoramento dos lócus legal e legitimamente criados por força de lei federal e respectivas legislações estadual e municipais e, mais grave, em plena pandemia o não cumprimento dos princípios que devem reger a administração pública, levando a episódios lamentáveis como o ocorrido na Maternidade de Corumbá. Mais que questão policial, trata-se do esgotamento de um modelo de gestão em que o improviso e a falta de transparência levam a qualidade dos serviços de saúde ao campo do embate literal.

É hora de parar com isso. É hora de respeitar o usuário do SUS como cidadão, não como integrante de horda de meliantes sobre as quais as forças policiais têm que intervir. Em respeito, sobretudo, à memória de generosos cidadãos que dedicaram seus melhores momentos de suas vidas em favor dessas conquistas, como o Padre Pasquale Forin, Dom José Alves da Costa, Padre Ernesto Sassida, Padre Antônio Müller, Pastor Antônio Ribeiro de Souza, Pastor Cosmo Gomes de Souza, Irmã Beatriz de Barros, Doutor Humberto da Silva Pereira, Heloísa Helena da Costa Urt, Aurélio Mansilha Tórrez, Ariodê Martins Navarro e José Batista de Pontes, entre tantos outros não menos importantes.

Ainda que vivamos sob a sufocante pressão de tempos sombrios, em que o argumento da força teima sobrepor-se à força do argumento, precisamos exercer nosso inalienável direito-dever de transformar essa lógica perversa. Somos todos usuários dos SUS, somos todos cidadãos: é hora de somar para multiplicar, não podemos silenciar diante de atos e intentos funestos de retroagir aos tempos medievais. Um mais um é sempre mais que dois, portanto, somemos nossa indignação e transformemos esta realidade bizarra que nada tem a ver com nossa história coletiva recente, e muito menos com a história de cada um dos protagonistas dos generosos tempos conquistados.

Ahmad Schabib Hany

 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

O COMITÊ POPULAR E A CONJUNTURA DE PANDEMIA

O COMITÊ POPULAR E A CONJUNTURA DE PANDEMIA

Dedicamos este momento à memória das mais de duas centenas de milhares de vítimas fatais da covid-19 no Brasil, na pessoa do grande e querido Companheiro Padre Pascoal Forin, que nos deixou na madrugada do dia 10 de janeiro.

A História, para os que a compreendem como meio de emancipação popular, representa o conjunto de saberes coletivos, se apropriados, capazes de transformar a realidade, sempre adversa para a imensa maioria da população.

Sem nos pretendermos donos da verdade - ao contrário, dando voz e vez ao verdadeiro protagonista da História, a classe trabalhadora -, desde 1993 incessantemente tentamos, e insistimos continuar tentando, que cabe a todas as pessoas invisibilizadas a construção do novo tempo há tanto tempo esperado, há tanto tempo prometido.

Nós, do Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa - como passou a denominar-se desde abril de 2013, depois de aproximadamente 20 anos como Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (FORUMCORLAD) -, temos como eixo motriz a prática, e somente a prática, como critério da verdade.

Assim, quando a pandemia de covid-19 impôs novas relações sociais, nos somamos às trabalhadoras e trabalhadores da Educação de Corumbá e Ladário e às demais entidades, categorias, segmentos, movimentos e instituições desassossegados para construirmos um espaço popular para o enfrentamento do novo coronavírus, e por extensão dos grupelhos que, sob a proteção de um (des)governo cada vez mais fascista, vão se fortalecendo de modo crescente, na ânsia de impor ao povo brasileiro um regime aos moldes de 1964.

O enfrentamento à covid-19 é, sim, uma questão política. Ao contrário do que aparenta, não se trata de assistencialismo, mas uma ação política planejada, com definição de estratégia e tática, de modo a construir um protagonismo afirmativo, proativo, no momento em que o país está sendo submetido a um cenário sombrio e autoritário.

Por se tratar de ação que requer estratégia, e hoje o voluntarismo e o espontaneísmo predominam entres nossos Companheiros e Companheiras de gerações mais jovens, pode e deve ter causado incômodos entre os menos experientes ou mais afoitos.

Apesar de avanços e recuos, o simples fato de estarmos resistindo de forma proativa já nos motiva e mobiliza para continuarmos a jornada. Até porque o CPEP não veio para substituir o centro operacional integrado por técnicos e cientistas. Nosso papel não é outro senão construir, articular e fortalecer a rede popular de controle e participação cidadã, seja junto aos fóruns e, sobretudo, aos conselhos e gestores de políticas públicas (tanto em Corumbá como em Ladário).

Para concluir, a dinâmica do CPEP é totalmente horizontal e adotou três frentes de ação em seu início de atuação: a) a de solidariedade (encarregada da atenção emergencial de famílias em situação de vulnerabilidade, com foco para desempregados e migrantes, que, aliás, já fez entrega de donativos a famílias atendidas pela Pastoral da Mobilidade Humana e pela CRIPAM); b) a de educação popular (frente a se encarregar da formulação de campanha educativa, que inclui a prevenção à contaminação pelo novo coronavírus e de difusão de proteção de direitos individuais, coletivos, sociais e difusos), e c) a de controle social (com foco na transparência da aplicação e efetividade dos recursos para o enfrentamento da pandemia, bem como o fortalecimento do SUS).

Obviamente, se for possível ampliar nossa articulação com a participação de entidades e movimentos de âmbito estadual, o tensionamento, a correlação de forças, será muito mais favorável para as camadas populares, seja no monitoramento da campanha de vacinação, bem como na efetivação de estratégias de contenção do contágio pelo novo coronavírus. Como nunca, é preciso somar para multiplicar.

Avante na luta!

Corumbá (MS), 5 de fevereiro de 2021.

ODJAC (Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa), um espaço público não estatal, instituído em assembleia-geral ordinária de abril de 2013 do FÓRUMCORLAD (Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário), fundado em setembro de 1994, que durante aproximadamente 20 anos atuou no processo de composição dos órgãos colegiados de controle social de Corumbá e Ladário.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

POBRE PAÍS, POBRE SOCIEDADE SUICIDA...

 POBRE PAÍS, POBRE SOCIEDADE SUICIDA...

A vacina Sputnik V não é aprovada pela Anvisa porque, em plena pandemia, não seguiu os trâmites da burocracia; no maior acinte, o governo integrado por fascistas assumidos estupra mais uma vez a República e os autoproclamados democratas fingem que não é com eles; a quadrilha da “Leva Jeito” fica com os glúteos expostos, mas o cartel do golpe (Globo, Abril, Folha e Estadão) protege os justiceiros porque “as gravações foram obtidas ilegalmente”. Como nunca, fica escancarada a hipocrisia de uma sociedade de míopes cujas elites insistem em dar as costas para o próprio futuro...

Neste Dia da Padroeira de Corumbá, Nossa Senhora da Candelária, o planeta não pôde ter ficado indiferente diante da revelação, por uma renomada revista científica, de que a vacina russa de nome sugestivo, Sputnik V, apresenta uma eficácia de 91,6% - portanto, superior a muitas ocidentais e à similar chinesa, estigmatizada anteriormente pelos “impolutos” membros da corte senhorial que agora usa a “soberania” como defesa quando há muito abriu as pernas e escancarou suas fétidas vergonhas para o mundo...

E o que têm esses senhores “impolutos” a ver com este fato histórico?

Enquanto seus sinistros e tacanhos chefetes lançam mão de toda ordem de mezinhas para sustentar seus ignóbeis argumentos de negação da ciência - como que ignorantes da medicina pudessem opinar ou prescrever “tratamento preventivo” pelo simples fato de estarem ocupando cargos do primeiro ou segundo escalão e, mais grave, disporem dos recursos públicos para comprar e distribuir para todo o país a garrafada verde-amarela (sic) enquanto faltam medicamentos e insumos imprescindíveis para a imensa maioria de usuários do SUS -, a ANVISA não autoriza o uso emergencial da Sputnik V porque - ah, sim! - os seus representantes no Brasil não seguiram os trâmites legais.

Aos amigos tudo; aos inimigos os rigores da lei. Aliás, era assim como “O Pasquim”, o mais odiado e perseguido semanário brasileiro da história, escancarou a “justissa” (com dois “ss”, não sabemos se de SS, a temida legião hitlerista, ou da inépcia própria dos pouco letrados obscurantistas patrioteiros cujos órfãos tentam ressurgir com a abertura da caixa de pandora em 2016) praticada nos tempos de “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Esses mesmos monstrengos, de competência duvidosa e pouco chegados ao trabalho desde que assumiram postos-chave por eles tão cobiçados, dedicam a maior parte do tempo a verdadeiras conspirações contra o Estado Democrático de Direito. Não gostando de jogar o jogo limpo, recorrem a todo tipo de ardil, para o qual criam inimigos imaginários, e assim justificar a inobservância à boa prática republicana. Não por acaso impuseram sem constrangimento seus áulicos nas duas casas legislativas, de modo a blindar o presidente e seus dependentes diretos e indiretos.

Mas como é possível estuprar impunemente a República à luz do dia?

Simplesmente porque há uma grande maioria de pseudodemocratas que foram eleitos para agir como representantes cartoriais de interesses muitas vezes inconfessáveis, como a famigerada bancada “BBB” (da bala, da Bíblia e do boi). Além de bem articulada e poderosíssima, usa a pressão, de cima para baixo, ao contrário da lógica democrática. Agora, com a ascensão do grupo declaradamente fascista, o mecanismo passa a ter uma dinâmica, digamos, “aritmética”, prescinde de qualquer engenharia política, do jeito que o pouco iluminado líder gosta.

Como se isso não bastasse, há aqueles autoproclamados democratas de uma tibieza insólita, para os quais, sem quaisquer escrúpulos, é preferível conviver com a extrema-direita (para se vangloriar como arautos da democracia) a ter que construir uma sólida base parlamentar de sincera e autêntica defesa das liberdades democráticas, da soberania nacional e popular e do conjunto de conquistas consignadas na legislação pós-Constituição Cidadã, entre elas a rede de proteção social, o controle cidadão das políticas públicas e o conjunto de leis ambientais, de acessibilidade e de redução das desigualdades sociais.

Embora o golpe de 2016 tivesse sido gestado pela trupe de Aécio Neves (que inclui todo o tucanato e seus aliados de passado democrata), a horda fascistoide do chamado baixo clero do parlamento brasileiro é que soube, pela mão de Eduardo Cunha, se apossar com toda destreza do serviço sujo, isto é, do desmonte do Estado Democrático de Direito. É mais ou menos o que ensina o adágio popular: “Vergonha é roubar e não poder levar.”

Todo o ardil dos “democratas arrependidos” esteve baseado, sobretudo, na quadrilha da Leva Jeito (ou seria Luva Justa?), de triste memória. Seus principais expoentes, Sérgio Moro e Daltan Dallagnol (que flertaram com os mefistofélicos da Barra, acreditando dar-lhes o golpe durante o início do mandato), ficaram com os glúteos expostos com a liberação das gravações de conversas nada republicanas, próprias de serviçais golpistas de quinta categoria. Ainda têm o partido da imprensa golpista (PiG), como o saudoso Jornalista Paulo Henrique Amorim costumava chamá-lo: Globo, Abril (ainda que falida), Folha e Estadão insistem na blindagem aos seus “heróis” com patas de barro, teimando na tese desbotada de que os vergonhosos diálogos entre o juizeco e uma das partes devem ser ignorados porque a interceptação das mensagens “foi obtida ilegalmente”.

Todos esses meios usaram e abusaram de gravações ilegais ao longo de todo o processo de desgaste do governo de Dilma Rousseff e de criminalização da política com base na estigmatização da esquerda, em especial do Partido dos Trabalhadores e de seu líder máximo, o ex-presidente Lula, até conseguir levá-lo à prisão sob os holofotes da Vênus platinada. A “classe mé(r)dia”, que não saía das ruas em sua “luta contra a corrupção”, hoje finge não saber de escândalos como a flexibilização da regulamentação ambiental, do esvaziamento da fiscalização do Ibama e ICMBio, da demora no enfrentamento das queimadas criminosas na Amazônia e Pantanal, do corpo-mole no enfrentamento da pandemia de covid-19, da demora na vacinação, do esquema de “rachadinhas”, do leite condensado superfaturado e do leilão de cargos do primeiro e segundo escalões do (des)governo Bestassauro para impor seus candidatos a presidente das casas legislativas.

As elites míopes e excessivamente egoístas podem até enganar seus contemporâneos, mas sua postura cinicamente suicida, por fingir que desconhece o desmonte do Estado brasileiro pela horda que tomou de assalto os destinos da nação, será registrada pela História. Trata-se de uma ignóbil atitude de ema diante do risco iminente de pôr a perder todas as conquistas dos últimos dois séculos, obtidas a um elevado custo humano, com o vexatório propósito de jogar na lata do lixo os avanços sociais que culminaram com a Lei da Empregada Doméstica, a Lei Maria da Penha e a Lei de Cotas (sociais e raciais), entre outras.

Pobre país, tão longe da razoabilidade das elites e tão perto do entreguismo cínico dos patrioteiros de plantão... Não restará aos poucos seres minimamente indignados ter que refundar a República, mas desta vez com a efetiva participação da sociedade, por meio dos setores organizados e forjados na luta pelas liberdades democráticas. Mais uma vez, o reencontro do país-continente com a História se dará mediante a efetiva participação dos setores organizados da sociedade, sob pena de enveredarmos num perigoso rumo de recolonização de consequências imprevisíveis.

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

SEU JORGE KATURCHI, EXEMPLO A SEGUIR...

SEU JORGE KATURCHI, EXEMPLO A SEGUIR...

Do alto de seus 94 anos bem vividos, o Senhor Jorge José Katurchi se preparou nesta sexta-feira, 29 de janeiro, para se vacinar. Mas qual não foi sua decepção ao saber que Corumbá ainda não tinha definidas a data e a estratégia de imunização para as pessoas maiores de 80 anos...

Cena de emocionar até os mais durões, como sempre me pretendi: o Senhor Jorge José Katurchi, 94 anos, o corumbaense por opção mais apaixonado pelo coração do Pantanal e da América do Sul, acordou às cinco horas da madrugada da última sexta-feira de janeiro para se preparar para o encontro com a vacina que imunizará a humanidade da pandemia de covid-19.

Testemunha partícipe das oito últimas décadas, o nonagenário mais informado e ativo da região pantaneira se sentiu frustrado quando se deparou com o fato de que Corumbá ainda não tinha data e estratégia definidas para o grupo de pessoas maiores de 80 anos. Ficou incrédulo, pois acompanhou toda a evolução das campanhas de vacinação ao longo do século XX, sobretudo a partir da década de 1970.

Seu Jorge Katurchi tem consciência de que seu gesto incentivará as pessoas hesitantes que duvidam da ciência por conta da sórdida campanha de desinformação nunca antes vista no País. Mais que mero gesto de ser vacinado, trata-se de uma sincera declaração de amor pelo povo generoso e acolhedor que o viu crescer, constituir Família, firmar-se como um dos mais antigos comerciantes da região e atuar como verdadeiro influenciador em sua amada Corumbá, sejam entidades filantropias, clubes de serviço, entidades de defesa de direitos ou espaços públicos não estatais.

Viúvo há quase cinco anos, Seu Jorge chegou no vapor Argentina, aos 5 anos, em 1932, em companhia de sua progenitora, Dona Amélia Abraham Katurchi, e sua irmã mais velha, a saudosa Dona Rosa Maria Katurchi, uma segunda Mãe para ele, para reencontrar seu Pai, Seu José Katurchi. Ele não se cansa de dizer que é muito feliz por ter contado com tantas mulheres fortes e solidárias, como a saudosa Companheira de mais de 60 anos, a querida Dona Anna Thereza de Copacabana Maldonado Katurchi, e a sua única Filha, a Procuradora de Justiça Tereza Cristina Maldonado Katurchi Exner, primeira Corregedora-geral do Ministério Público do Estado de São Paulo.

Aluno e Amigo de emblemáticos salesianos, como Dom Miguel Alagna e o saudoso Padre Ernesto Sassida, Seu Jorge herdou de seus Pais uma longa Amizade com religiosos católicos, ainda que seu José Katurchi fosse membro da Igreja Cristã Ortodoxa Síria, cujo Patriarca, em fins da década de 1950, esteve visitando a outrora pujante Corumbá da primeira metade do século XX. Ainda jovem, ele participou da criação da União dos Ex-alunos de Dom Bosco (UEDB) e, quatro décadas depois, do Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER), quando abriu mão de ser seu primeiro presidente para indicar o falecido ex-prefeito Ruiter Cunha de Oliveira.

Além de empresário coroado pelo êxito, tendo sido representante regional e para a Bolívia de empresas como a 3M do Brasil, a Cia. Fermentos Fleischmann & Royal S/A e a Cia. Vidraria Santa Marina Ltda., Seu Jorge canalizou seu prestígio junto à população local e autoridades estaduais e federais no voluntariado em entidades como a Sociedade de Beneficência Corumbaense (mantenedora do Hospital de Caridade), da qual foi vice-presidente em seus áureos tempos, e do Lions Clube de Corumbá, cuja gestão mereceu o reconhecimento como a melhor gestão do clube entre os países de língua portuguesa.

No entanto, hoje ele se sente realizado ao dizer que, como coordenador-adjunto do Pacto Pela Cidadania (sendo titular o saudoso Padre Pasquale Forin), obteve do então governador José Orcírio Miranda dos Santos a liberação de recursos financeiros para a execução do projeto do Cristo Rei do Pantanal pela artista plástica e escultora Izulina Gomes Xavier. Como o Pacto Pela Cidadania é um espaço público e não dispõe de CNPJ, pediu ao seu colega de clube e então presidente, o hoje também saudoso Carlos Alberto Machado, a intermediação dos recursos para um dos maiores atrativos turísticos da fronteira dos últimos 15 anos.

Pois esse encantador jovem nonagenário faz da imunização um manifesto de cidadania. Mais um gesto espontâneo de Seu Jorge Katurchi, do alto de seus quase 100 anos, para reiterar a inesgotável gratidão de imigrante acolhido pelo generoso povo corumbaense em uma sincera história de amor que se encontra na terceira geração. Bem ao seu modo charmoso, Seu Jorge faz da vacina uma declaração de amor pela Vida, pelo próximo e pelo progresso da humanidade, do qual a ciência é a mola propulsora.

Ahmad Schabib Hany

PS: No final da tarde da sexta-feira a Secretaria Municipal de Saúde divulgou uma nota dando conta da vacinação, neste sábado, 30 de janeiro, de pessoas maiores de 89 anos, pelo sistema drive thru, em local situado ao longo da Avenida General Rondon, das 8h ao meio-dia. Seu Jorge estará, por certo, para dar seu testemunho participante e exemplar em mais um gesto eloquente de afirmação de sua cidadania universal.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

O QUE HÁ POR TRÁS DO SOMBRIO REINO DO LEITE CONDENSADO

 O QUE HÁ POR TRÁS DO SOMBRIO REINO DO LEITE CONDENSADO

 

Pobre país cujas elites recalcadas pariram um monstrengo e hoje fingem surpreender-se com seu bizarro comportamento de predador compulsivo...

Embora indignante, a escandalosa prática de “corrupção formiga” (em todos os sentidos) em que se desvia dinheiro público em, digamos, “conta-gotas” (sic) não surpreende nem os mais desavisados habitantes do sombrio reino do leite condensado.

Mas, claro, as elites dir-se-ão estupefatas. Logo elas que, por puro recalque anacrônico que as remeteu ao século XIX (auge da escravatura), cravaram o punhal traiçoeiro na frágil, mas efetiva, democracia conquistada por generosas gerações ao longo de décadas no século XX.

Cínicas, insistirão em seu mantra de que “fizeram esse sacrifício” para salvar o país da anarquia iminente - como que anarquia fosse dar voz e vez aos milhões de brasileiros que não só engordaram suas fortunas ao aquecer o mercado interno para, pela primeira vez na história, ter acesso a bens de consumo antes produzidos para o exterior, dentro da ignóbil lógica do “exportar é o que importa”.

Retornando, agora, ao indigesto escândalo da compra em mais de 15 milhões de reais de latas de leite condensado por 162 reais a unidade, nada surpreende vindo de onde vem.

Ainda que não fosse de conhecimento público e notório o esquema de “rachadinhas” que enriqueceu a famigerada dinastia dos desatinados membros do baixo clero parlamentar desde o primeiro quinquênio posterior à promulgação da Constituição Cidadã (contra a qual, aliás, a horda de patéticos saudosistas do regime de arbítrio se levantou inúmeras vezes), a reiterada prática do rola-bosta é por demais reconhecida em todos os meios.

Por questão de princípio e para não ofender os roedores que prestam relevantes serviços dentro da cadeia alimentar (que por quase um século tiveram na figura emblemática de Mickey Mouse o “american way of life”), usaremos o termo coprófagos, alusivo aos chamados come-bosta que infestam todos os quadrantes do planeta, esta conduta predadora, própria de monstrengos saídos da caixa de pandora da casa grande.

Já dizia o arguto Doutor Ulysses Guimarães que as hienas sorriem para as suas presas enquanto selam seus destinos sem qualquer compaixão. Desde que os pseudodemocratas liderados por Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra e Roberto Freire decidiram deter o processo democrático em 2016 - na ânsia de encontrar um atalho para o tão sonhado retorno às gordas tetas do erário -, a imersão da então promissora potência pacifista ao sombrio reino medieval era iminente.

Miguel Michel Temer Lulia não vem ao caso; é a mais exata tradução da vil e lúgubre pinguela do pandemônio, mordomo mefistofélico. O monstro mesmo veio via eleitoral, feito um voraz e sórdido estupro ao Estado Democrático de Direito. Desde o fatídico dia em que seu sorriso de lagarto matreiro veio à tona em uma mórbida sessão de pajelança neopentecostal liderada por Magno Malta, depois regada a café passado pelo anfitrião com pãozinho de sal e, pasmem, leite condensado (sic), era previsível a sucessão de idas e vindas rumo a lugar algum, ao nada - não, rumo às centenas de milhares de vidas ceifadas por genocidas ávidos, feito “papa-defuntos”...

A bem da verdade, em Nioaque, segundo o genial Professor Altevir, ele não gozava de muita amizade e seu apelido entre os desafetos era “Conde Nado”, coisa que até hoje jura que é intriga. Segundo esse Amigo Professor, desde então era chegado ao comércio formiga, época de ouro dos videocassetes “quatro cabeças”.

Conhecidíssimo ele já era. Sobretudo para essas elites “cançadas” (com “c” cedilhado, mesmo) dos aeroportos lotados, os shoppings entulhados de “povinho” e, pior, com as domésticas cheias de direitos, tendo uma lei só para elas... Isso é demais na cabeça de penico de uma elite que vive de um passado que, a rigor, nunca teve, pois, no tempo do império, vivia das migalhas da corte. Ou, como se costuma dizer, “come farofa e arrota caviar”!

Se não foi golpe mesmo, que o Tribunal de Contas da União, tão implacável com Dilma Rousseff, cumpra com sua missão: além do leite condensado, há cloroquina e muitas outras “inas” a serem rastreadas, e que o Congresso Nacional pare de brincar com o Estado Democrático de Direito que assegurou esse superemprego aos seus mais de 500 membros e fiscalize de fato e de direito os evidentes desvios de função cometidos inúmeras vezes pelos declaradamente inimigos da Democracia, esta construída com o sacrifício de muitas vidas ao longo do século passado.

Afinal, a história aboliu a política do café com leite há quase um século, e as gordas tetas do erário produzem tudo, menos leite condensado...

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

ATÉ SEMPRE, PADRE PASCOAL!

 


ATÉ SEMPRE, PADRE PASCOAL!

 

Mais que Sacerdote (com letra maiúscula) dedicado e laborioso, foi um cidadão do mundo à frente de seu tempo, pautado pela justiça social, a humildade, o amor ao próximo e a solidariedade. Um Mestre que fazia questão de aprender com seus companheiros de diferentes jornadas com a mesma dignidade com que exercia sua vocação pastoral, sem fazer distinção de classe social, grau de instrução, nacionalidade, etnia, cor da pele, denominação religiosa ou convicção filosófica ou ideológica...

Padre Pasquale Forin. Esse era o nome de batismo do Missionário Salesiano de estatura física relativamente pequena, mas de dimensão humana, ética e espiritual do tamanho de seu coração, generosidade e abnegação. Chamado simplesmente de Padre Pascoal, foi, sem dúvida, um Cristão ao pé da letra, para honra e felicidade dos que tiveram a sorte de privar de seu convívio e Amizade em sua fecunda existência.

Em seus pouco mais de 32 anos de permanência em Corumbá, como titular da Paróquia de São João Bosco ou como Vigário-Geral da Diocese de Santa Cruz de Corumbá, Padre Pascoal se dedicou com uma entrega impressionante ao povo humilde, aos mais fracos e excluídos sem perder de vista sua vocação pastoral. Com a extraordinária experiência de ter realizado em Campo Grande uma série de iniciativas, entre elas dois marcos da cidadania no estado: o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Marçal de Souza Tupã-i (CDDHMS), com o saudoso Doutor Ricardo Brandão, e o Centro de Documentação e Apoio aos Movimentos Populares (CEDAMPO), com o incansável Haroldo Borralho.

Em Corumbá, sua vocação missionária chegou antes dos hipertrofiados órgãos públicos e empresas privadas remuneradas a peso de ouro... Ao contrário de autoridades que não punham o pé na lama, Padre Pascoal conseguia chegar com a emblemática picape de cor vermelha vinho aos lugares mais recônditos do Pantanal. Ou em sua resistente lancha para atender famílias assentadas, pescadoras ou ribeirinhas (e depois aos sobreviventes originários Guató ou Camba na identificação e no retorno à Ilha Ínsua).

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) que ele estruturou na região, inicialmente com um casal de agentes de pastoral apenas, desenvolvia um serviço multi e interdisciplinar, em que saúde, educação, assistência, apoio técnico e espiritualidade estavam articulados à solidariedade. Sua equipe, tão generosa e laboriosa quanto ele, nunca passou de meia dúzia de grandes seres humanos, da estatura cidadã desse querido Amigo. Ele, diferente de prefeitos e vereadores, tinha noção do tamanho de Corumbá e da dignidade de seu povo.

Tive a honra de conhecê-lo logo de sua chegada a Corumbá, em fins da década de 1980, quando da realização de uma celebração ecumênica no antigo Auditório do então Centro Universitário de Corumbá (CEUC, hoje CPAN). Mês de novembro, estávamos celebrando o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino (dia 29), com a participação do hoje saudoso Pastor Antônio Ribeiro de Souza, da Igreja Batista Missionária.

Não esqueço. É como se fosse hoje. Aquele seu olhar atento, seu sorriso largo e seu jeito acolhedor. Parecia tratar-se de um velho Amigo. E a Vida nos provou de que se tratava de grande e verdadeiro Amigo. Incansável Companheiro de lutas honradas e generosas, sobretudo nestes tempos tacanhos, em que o ódio disseminado vilipendia, ameaça a espécie humana, em todos os quadrantes do planeta.

Meses antes, nesse mesmo auditório, havíamos assistido à inesquecível fala do eterno e terno Dom Hélder Câmara, Cardeal Arcebispo de Olinda e Recife. Ao final, meu querido e saudoso Pai, já beirando os 80 anos, fizera questão de ir ao seu encontro para lhe confidenciar o carinho e a admiração que nutria pelo “Cardeal rebelde” do Brasil quando ele, imigrante libanês, ainda não morava no País. Como mensageiro de boas novas, o já idoso Dom Hélder, respondera ao meu Pai algo como “Vocês terão logo aqui um irmão que vai me superar, tenham fé”...

O primeiro encontro com o Padre Pascoal, em novembro de 1988, me fez lembrar a fala profética de Dom Hélder. Mas só cinco anos depois é que lhe confidenciei o que testemunhara ao lado de meu Pai. Em 1989, tínhamos um casal de Amigos comuns, Geralda e Dionísio, incansáveis agentes de pastoral, com os quais passei a conhecer o drama das famílias instaladas sem qualquer infraestrutura nos projetos de assentamento de Corumbá. Não havia falta de dinheiro nem de terras, mas sobrava má vontade, preconceito e, sobretudo, a cultura da casa grande contra os trabalhadores sem terra, cuja vinda não só assegurou aumento populacional para potencializar os recursos do fundo de participação dos municípios como alavancar a diversificação das atividades econômicas do campo, sobretudo da agricultura familiar e agroecologia.

Graças ao querido Amigo Armando Lacerda, que sugeriu a inclusão de meu nome em reunião preparatória para a Segunda Semana Social Brasileira, em 1993, é que passei a compartilhar de atividades mais amiúde com o Padre Pascoal, oportunidades que me permitiram rever o querido e saudoso Dom José Alves da Costa, que espontaneamente, recém-chegado à Diocese (1991), participara conosco da Primeira Semana da Cultura de Corumbá (pela revitalização da Casa de Cultura Luiz de Albuquerque). Assim, ao lado de religiosos inesquecíveis, como a Irmã Antônia Brioschi, Irmã Zenaide Britto, Padre Antônio Müller, Padre Amércio Rezende, Pastor Fernando Sabra Caminada e Pastor Marcelo Moura da Silva, a cidadania corumbaense protagonizou a retomada da história.

Com a efetiva participação dos queridos Amigos Ernesto Cuellar, Fátima Garcia da Silva, Fabiana Figueiredo Costa e Padre Ernesto Sassida, o Comitê de Corumbá e Ladário da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida foi estruturado horizontalmente, com seis coordenações setoriais. Dom José e Padre Pascoal, por unanimidade, foram conduzidos para a coordenação-geral, abrindo três linhas de ação: mapeamento das famílias mais necessitadas, mapeamento das iniciativas então existentes (para não haver sobreposição de ações) e mapeamento das ações a serem efetivadas pelos voluntários. Até mesmo depois de aposentado, Padre Pascoal acompanhou as atividades, como titular na coordenação, focadas na campanha Natal Sem Fome.

Além da emblemática participação das comunidades católica, presbiteriana, batista, adventista e espírita, também muitas instituições e empresas se deram as mãos, com destaque para os funcionários do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Embratel, Telems, Enersul, Sanesul, Urucum Mineração (estatal), Embrapa Pantanal, CEUC/UFMS, INSS, Correios, Empaer, Corpo de Bombeiros, Polícia Federal, Receita Federal, 2ª Brigada Mista, VI Distrito Naval, Prefeituras de Corumbá e de Ladário, Genic, Santa Teresa, Tenir, CEAC/Cirandinha, Cidade Dom Bosco e São Miguel, que voluntariamente doavam parte de seus vales-refeição ou organizaram professores e estudantes para as atividades de voluntariado.

Mesmo com a implantação pelo governo federal dos programas Fome Zero, Bolsa-Família e o Cadastro Único (Cadu), do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), as atividades, ainda que bem diminutas, eram conduzidas com extremo cuidado pelo Padre Pascoal. Só não neste ano de pandemia, ainda mais ele acometido pela covid-19 desde meados de dezembro. No entanto, o zelo e a atenção nunca deixaram de estar desde 1993, quando, além de ter sido realizado o primeiro Censo da Fome da história de Corumbá (dando conta da existência, então, de mais de 7.800 famílias abaixo da linha da pobreza nesta região de abundância natural e de mesquinhez secular), foram doadas mais de dez mil cestas básicas, além de roupas e brinquedos - sendo vedada a exposição das famílias beneficiárias ou dos doadores, em respeito à dignidade humana, uma questão de ética.

Com a promulgação da Lei Orgânica da Assistência Social, em dezembro de 1993, foi criado em Ladário um grupo de estudos que foi a fase embrionária do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (Forumcorlad), por meio das queridas Companheiras da Ação da Cidadania, então colegas de trabalho na Enersul, Dona Vera, Dona Imaculada e Dona Elígia Assad, com apoio do então titular da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, Padre Júlio Mônaco. Em menos de três meses, já estava em pleno funcionamento, tendo sido o primeiro espaço público para o controle social de políticas públicas do interior do estado. Até então só havia congêneres de abrangência estadual, como revelaram na época as assistentes sociais Gregória de Oliveira e Carmen Salatta, do Conselho Regional de Serviço Social (CRESS/MS) quando da primeira eleição para a área não governamental do Conselho Municipal de Assistência Social de Corumbá, sob a fiscalização do Ministério Público.

A primeira coordenadora do Forumcorlad foi a Irmã Antônia Brioschi, representante do Geniquinho. Na sequência, pela entidade mantenedora do Asilo São José (Associação das Senhoras Católicas da Diocese de Corumbá), a Senhora Cerize de Campos Barros, e como coordenador-adjunto o Senhor Vergílio Alves de Moraes, do Sindicato dos Trabalhadores de Instituições Federais de Saúde e Previdência (SINTSPREV). Com a ampliação das plenárias setoriais (assistência social, saúde, direitos da criança e do adolescente etc), entendeu-se que devesse ser constituída uma coordenação colegiada, tendo como presidente de honra o Padre Ernesto Sassida, emblemático fundador da Cidade Dom Bosco e de um conjunto de projetos pioneiros de inclusão social.

Nesse meio-tempo, Dom José e o Padre Pascoal se dedicavam à solução de conflitos de interesses em nossa região de fronteira. Mediante um processo participativo, mais de 15 segmentos sociais e categorias de atividades econômicas passaram a se reunir dentro de uma dinâmica desenvolvida na Segunda Semana Social Brasileira e, por meio de um manifesto, no dia 13 de junho era constituído o Pacto Pela Cidadania (camelôs, artistas, feirantes, empresários de turismo, ferroviários, assentados, pescadores, trabalhadores rurais, ribeirinhos, professores, estudantes, taxistas, comerciantes, exportadores e transportadores rodoviários), também denominado de Movimento Viva Corumbá.

Sob a coordenação de Dom José (tendo o Padre Pascoal como adjunto), o Pacto Pela Cidadania realizou importantes reuniões na Assembleia Legislativa e na Governadoria, em Guajará-Mirim (Rondônia), Cuiabá e Cáceres (Mato Grosso), além de Brasília. Os governadores Wilson Barbosa Martins e José Orcírio Miranda dos Santos receberam em agenda oficial seus integrantes para debater uma agenda propositiva, em que projetos eram objeto de debate, como Área de Livre-Comércio, reativação do Trem do Pantanal, revitalização da Casa de Cultura Luiz de Albuquerque, Programa Monumenta (para o Patrimônio Histórico), passe-livre estudantil, terminal pesqueiro para acabar com os atravessadores na pesca artesanal, Plano Diretor do Município, turismo contemplativo e cultural etc.

Curiosamente, quando neopetistas (ou melhor, petistas camaleônicos) passaram a dirigir os destinos de Corumbá, tanto o Pacto Pela Cidadania como o Forumcorlad se tornaram objeto de retaliação da administração local. No mesmo ano em que o Padre Ernesto se eternizou, feitores locais começaram a perseguir membros não governamentais, alvo de retaliações piores às do período de arbítrio. Da mesma forma, o Pacto Pela Cidadania, depois da saída de Dom José da Diocese, por motivos de saúde, o parlamentar que se dizia de todos, mas que não era de ninguém, ignorava interlocutores reconhecidos com mais de oitenta anos de idade, até porque o Movimento Viva Corumbá não se prestava à manipulação do lobby depois desvendado de grupelhos empresariais predadores, sem qualquer respeito pela identidade cultural e a biodiversidade regional.

Resultado: o incansável batalhador de grandes causas, Padre Pascoal, preferiu se restringir à articulação interna desses três espaços públicos, leal e solidariamente. Com a peculiar generosidade que caracterizava sua atuação como cidadão do mundo e à frente de seu tempo, referendou apoio para a participação dos membros do Pacto Pela Cidadania e do Forumcorlad em diversos programas da rádio comunitária que ajudara a fundar, a FM Pantanal, de Corumbá. Nesse meio-tempo, viu sua menina dos olhos, a CPT ir minguando pela evidente falta de compromisso de autoridades e de dirigentes locais. Tomava conhecimento de tudo, e não conseguia esconder sua decepção. Mas de forma resignada e sábia, nos ensinou que o tempo é o melhor conselheiro. Pena que não esteja fisicamente conosco neste processo de retomada que haveremos de protagonizar.

Ainda que passássemos algum tempo sem trocar mensagens ou opiniões sobre o rumo das políticas públicas em razão do desmonte do Estado a partir de 2016, nosso reencontro era permeado de trabalho, de atividades. É bem verdade que, em 4 de dezembro de 2012, o telefonema dele não era para desenvolvermos alguma atividade, mas, com a voz visivelmente embargada, me confidenciava que naquele instante recebera o telefonema da Congregação a que pertencera Dom José, em Catanduva (SP), para informar-lhe da eternização de nosso querido e sábio Amigo. Até porque sempre, em tom de brincadeira, observávamos a coincidência de termos nascido na segunda quinzena de abril, em dias muito próximos...

Enganam-se os que pensam que ele desistiu da luta. Ao contrário, passou a se dedicar à Casa de Recuperação Infantil Padre Antônio Müller (CRIPAM), fundada quando Dom José era titular da Diocese de Corumbá, por meio de suas duas frentes, implantadas anos depois: a Casa de Acolhimento Irmã Marisa Pagge (para 10 crianças de zero a 5 anos e 11 meses, vítimas de abandono ou agressão) e o Centro de Apoio Infanto-Juvenil (CAIJ), para 600 crianças e adolescentes de 4 a 17 anos e 11 meses. Sábio, o Padre Pasquale focou seus dias de maior maturidade para preparar as novas gerações, com amor e formação integral, sobretudo nutricional e afetiva.

Nos últimos tempos, preferíamos reunir-nos na hora do almoço, o que muito nos honrou poder desfrutar por algumas oportunidades (poucas, pois gostaríamos que pudessem ter sido mais) com nossas crianças, com as quais sempre dava um jeito de brincar. Neste dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, tive a honra de receber seu “bom dia” entusiástico, ao qual respondi com os cumprimentos pelo emblemático dia, imediatamente retribuído por ele. Foi nosso diálogo derradeiro, que hoje deixei gravado no computador. Na ânsia de que estivesse se recuperando, me atrevi a lhe enviar duas breves mensagens, mas ele não teve condições de visualizá-las.

Parece até que o Poeta Bertolt Brecht tivesse se inspirado nele quando profetizou o poema-oração de que: “Há homens que lutam um dia, e são bons; / Há outros que lutam um ano, e são melhores; / Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; / Porém há os que lutam toda a vida - esses são os imprescindíveis.”

Inspirados em seu exemplo de humildade, resignação, disciplina e determinação, Padre Pascoal, não desistiremos e pacientemente esperaremos sucumbir a horda desses seres mefistofélicos que usurparam o porvir da humanidade, para podermos entregar às próximas gerações este planeta que lhes pertence, com todo o legado civilizatório dos últimos milênios, anônima e generosamente construído por pessoas como o senhor, que hoje o recebem em outra dimensão, entre os quais por certo estão Dom José Alves da Costa, Padre Ernesto Sassida e Doutor Ricardo Brandão.

Até sempre, querido Amigo, e obrigado por ter existido!

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A VERDADE QUE TEIMA NOS TEMPOS DE PÓS-VERDADE...

A verdade que teima nos tempos de pós-verdade...

2020 entra para a história como o ano em que muitos mitos caíram por terra, talvez numa avalanche maior e mais intensa que durante o período da queda da União Soviética, comemorada pelos órfãos das ditaduras e combatentes arrependidos. Apesar das fake news, em que negacionistas se uniram à horda de cultores do racismo e do fascismo, o fio tênue da verdade sob o fogo cerrado do obscurantismo começou a raiar sobre as consciências dos cidadãos do mundo. Que 2021 permita o novo tempo tão acalentado pelas gerações que lutaram por um mundo igualitário e mais justo...

Nem os geniais roteiristas e diretores dos tempos de ouro do cinema imaginaram um cenário de tragédias com as características deste ano que vai partindo e que leva consigo milhões de vidas, sonhos e lutas de pessoas célebres e anônimas de todo o Planeta, além das outras vidas consumidas pelas labaredas em diversos biomas.

Não foi só a pandemia de covid-19. Os incêndios criminosos no Pantanal, na Amazônia e em tantos outros biomas, cujos estragos ainda não foram contabilizados. E dificilmente serão, a despeito do esforço de generosos voluntários que caminham com a ciência, enquanto pusilânimes ocupam os mais altos cargos de uma nação que um dia não muito distante ousou ser alvissareiro modelo de potência de paz e justiça social...

O que vi de gente arrependida por ter contribuído, por ação ou omissão, para a ascensão desta caricata figura que só vergonha e constrangimento vem causando no concerto das nações... Pena que arrependimento não conserte seus estragos, irreversíveis em sua totalidade. E, pior, a horda que com ele passou a agir pelos quatro cantos deste país de dimensões continentais: fundamentalistas, racistas, misóginos, homofóbicos, fascistas etc.

Winston Churchill, o premiê britânico que lutou ao lado de Joseph Stalin contra Adolf Hitler na Segunda Grande Guerra, era conservador, mas nem por isso deixou de pôr seus soldados no combate, lado a lado, do Exército Vermelho e derrotar o nazifascismo. Sem a participação dos soldados soviéticos, as principais forças do Eixo em território europeu não teriam sido fragorosamente derrotadas.

Mas essas experiências, tão recentes e impactantes na história da humanidade, são ignoradas pelos negacionistas e demais obscurantistas que, como saídos da caixa de pandora, relativizaram os fatos, revisaram a história para tomar de assalto os destinos desta e de outras nações.

Felizmente nem o pai de todas as fakes, Donald Trump, escapou de ser mandado para o lixo da história...

Aliás, a capacidade de resistência, tenacidade e luta demonstrada pelo Povo Boliviano (em maiúsculas), que empreendeu uma derrota acachapante aos golpistas assassinos, permite, no mínimo, uma reflexão: enquanto as camadas supostamente instruídas do Brasil demonstram, senão preconceito, falta de memória pelo período de crescimento, distribuição de renda e afirmação soberana durante os anos de bonança dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Vana Rousseff, sem titubeio a expressiva maioria da população da Bolívia soube dar o “não rotundo”, no dizer do saudoso Leonel Brizola, aos “filhotes da ditadura” e os processa judicialmente pelos danos causados às pessoas perseguidas e aos cofres do país.

Sem margem a dúvidas, 2020 foi cenário de cenas dantescas. Mais que tsunami, o mundo foi varrido pela virulência de um vírus que serviu de alerta para toda a humanidade e pela intensidade das labaredas que literalmente queimaram a diversidade de biomas únicos. A ciência, sempre a ciência e a consciência de quem lida com ela, trouxe a paz, a esperança e a possibilidade de cura, ainda que a horda de obscurantistas, sobretudo, negacionistas, propaguem seus delírios irresponsáveis para desacreditar na única opção capaz de salvar o processo civilizatório.

O importante é que mitos como Trump e sua versão tupiniquim estejam desabando, ainda que seus estragos sejam irreversíveis. Com eles, o deus-mercado também começa a desabar, à revelia dos grandes conglomerados e suas redes “jornalísticas” insistam na negação. A maior prova é a de que, assim como a ciência, a medicina (ou a saúde) não é mercadoria, não tem preço. No Brasil, como em quase a totalidade dos países, o sistema único (ou público) de saúde se reafirmou como a salvação da vida de todos.

A falácia canalha da “democracia racial” também não resistiu aos fatos, ou melhor às tragédias. Não bastasse o assassinato por asfixia de George Floyd nos EUA, a morte, no Brasil, do menino Miguel Otávio Santana da Silva em Recife e do cidadão João Alberto Silveira Freitas em Porto Alegre, entre outros anônimos, põe por terra o mito de que não há racismo no país.

Outra cafagestagem que desmoronou é a dicotomia mentirosa da vida versus economia, isto é, do mito do antagonismo entre a saúde e o trabalho. Aliás, neste ano ficou claro, como a luz do dia, que a economia de mercado faz mal para a saúde, para a vida das pessoas. Daí a intensidade da propaganda neoliberal de que é possível enfrentar a covid-19 graduando as atividades econômicas. Hoje sentimos o resultado dessa falácia: seja ou não uma “segunda onda”, o fato é que as vítimas da pandemia vêm aumentando apesar do discurso dos políticos situacionistas de que a economia não pode ser “sacrificada” (sic) pela proteção da vida, da saúde das pessoas.

Mentira cabeluda, mesmo, foi aquela endossada por ninguém menos que, do alto do cargo mais importante, antes de afirmar em eventos oficiais deveria checar seus dados nos órgãos governamentais. Como de hábito, teve a imprudência de atribuir aos povos da floresta e originários a autoria dos incêndios criminosos que órgãos ambientais e policiais constataram ter sido de autoria de garimpeiros, madeireiros e grileiros (aliados do atual governante) para expandir as terras para criação de gado e soja. Falou o que quis, ouviu o que não gostou, mundo afora...

Como nunca, nestes tempos de pós-verdade, a verdade teima em ser notada, a despeito de tanta adversidade. Nada como uma velha consigna da esquerda marxista nos tempos imemoráveis da resistência à ditadura: “A prática, e somente a prática, é o critério da verdade.”

Tal qual fênix a renascer das cinzas - não só pela pandemia, nem pelas labaredas, nem pela política de terra arrasada -, nossa esperança militante, insistentemente militante, se sobrepõe ante este cenário de caos e nos induz a mantermos a fé de que 2021 seja um ano de recuperação, de renascença, de reconquista. Demo-nos, por isso, as mãos e as consciências para que fortaleçamos a lealdade aos valores mais caros construídos ao longo dos últimos milênios, sobretudo a verdade, a solidariedade, a justiça social, o respeito à dignidade dos seres vivos (humanos e as outras espécies), ao Estado de Direito e às liberdades democráticas.

Nas palavras atribuídas a um grande combatente que não mais está entre nós, o poeta e advogado Ricardo Brandão: “Trata-se de lutar por uma sociedade em que liberdade não seja uma palavra vã...”

Ahmad Schabib Hany