terça-feira, 13 de março de 2018

OS 92 ANOS DA PEREGRINA DE DOCE OLHAR



OS 92 ANOS DA PEREGRINA DE DOCE OLHAR
WADIA AL HANY DE SCHABIB (11/03/1926 - 15/06/2009)
Caso estivesse conosco, o presente que a Vida nos deu como Peregrina de doce olhar -- que nós chamávamos de Mãe -- estaria, neste domingo, 11 de março, fazendo 92 anos. Eternizada há menos de nove anos, sua presença não é apenas saudade, mas fonte de sensatez e candura a nortear nossos caminhos.
Nascida Wadia Al Hany Ascimani, a formosa donzela que encantaria duas décadas depois o meu saudoso Pai, Mahoma Hossen Schabib, era a segunda de onze filhos que a jovem senhora Guadalupe Ascimani de Hany procriou com seu companheiro, o dentista Youssef Al Hany, em San Joaquín de las Aguas Dulces, departamento do Beni, Bolívia. Nossa Avó Guadalupe, de Pai libanês maronita e Mãe boliviana, casara-se aos 16 anos, como toda donzela de seu tempo. Nosso Avô Youssef, aliás José, libanês druso que estudara na Alemanha até ser atraído pelos encantos e mistérios amazônicos, ainda no pós-guerra de 1917, trocou o Oriente Médio pelo Oriente boliviano, tendo-se dedicado ao povo como se tivesse nascido naquelas terras de promissão e carência.
Desde criança nossa Mãe recebera a incumbência de auxiliar nossa Avó a cuidar dos irmãozinhos, ainda que fossem reduzidos os riscos da Amazônia boliviana. Sendo a mais velha das meninas, cabia a ela o papel de “segunda mãe”, como era apresentada aos amigos da Família. Na década de 1920, período entre-guerras, o Beni, como toda a Amazônia, se transformara em centro provedor de castanha, seringa, carne e minerais preciosos para a Bolívia e o mundo. Por conta disso, levas de imigrantes europeus e asiáticos procuravam o mítico Eldorado (ou El Dorado, em espanhol), mas a maioria encontrava a morte causada pela malária, pelas feras da floresta ou pelos rios indômitos -- muitos aventuravam, mas poucos eram os vitoriosos e podiam contar a sua história para os descendentes.
Não demorou muito para que o imigrante libanês Youssef se transformasse no lendário “Doctor José Al Hany”, dentista que por falta de médicos acabara cuidando da saúde e salvando vidas nos vilarejos situados à beira dos temidos rios amazônicos. Quando ele faleceu, não faltou um prefeito que o homenageasse com o nome de uma rua em Trinidad, capital do Beni, mas que, durante a ditadura sanguinária de Hugo Banzer Suárez, algum interventor rancoroso retirou seu nome para pôr o de um ancestral seu. Se isso fizera falta aos seus descendentes? Absolutamente, até porque a quase totalidade dos Hany se espalhara pela Bolívia e toda a América Latina, fazendo jus à sua origem peregrina.
Mas para a Família Hany retirar homenagem póstuma beirava anedota diante das histórias canhestras contadas pelo Tío Simón Hany, Irmão mais velho e que chegara antes de nosso Avô José à Amazônia, pelo Brasil. No início do século XX, então recém-chegado à América, o Tío Simón foi trabalhar na extração de castanha e seringa e produção de carne na gleba de um grande fazendeiro português, descendente dos senhores de escravo da época da colonização. Cansado dos abusos e represálias do arrogante patrão, o então jovem imigrante decidira pedir as contas e mudar-se para o outro lado da fronteira, a Bolívia. Aconselhado por um amigo africano, havia mais tempo na fazenda, a não fazer isso para não perder a vida -- antes fugisse sem deixar vestígios, mesmo deixando seus haveres --, mas ele relutara por entender que eram seus direitos e que ninguém o enganaria. Resultado: depois de pegar todo o salário devido, o Tío Simón foi alvejado por jagunços do patrão e, enquanto parecia agonizar, era roubado todo o seu dinheiro. Ainda com vida, apesar de todo ferido pelas balas que o atingiram, foi resgatado pelo amigo africano e levado para um vilarejo pouco distante dali, para ser salvo por nativos. Por ironia da vida, dias depois de o Tío Simón ter sido alvejado, o patrão arrogante e ladrão foi morto por um raio que derrubou uma árvore frondosa sobre ele.
Naquela época, as donzelas eram instruídas em casa. Quando jovem, Wadia (Yoya, em casa) e sua Irmã Magiba queriam seguir os estudos, mas no interior do Beni isso era impossível. Por isso, tão logo se emancipou com o casamento -- três anos depois ela, meu Pai e meus dois Irmãos mais velhos foram morar na cidade universitária da Bolívia, Cochabamba, pois para eles o estudo era instrumento de emancipação de todo e qualquer cidadão --, fez um curso de técnica de enfermagem, o que lhe foi de muita valia até para cuidar dos nove filhos e dos filhos de muitas parentes e amigas.
Enquanto meu Pai fazia uma incursão pelas atividades jornalísticas e intelectuais, numa fase em que a Família tinha alcançado estabilidade financeira, sendo Dona Yoya a administradora dos negócios, uma crise sem precedentes se abateu sobre a Bolívia entre os anos 1953 e 1962, o que os levou a decidir emigrar com todos os filhos para o Líbano. Até porque meu Pai, minha Mãe e os filhos, por tabela, tinham automaticamente cidadania libanesa. Esse período, de quatro anos do Líbano, mostrou uma Wadia ainda mais extraordinária e companheira, o que permitiu que meu Pai retornasse às atividades jornalísticas, vinculando-se à imprensa egípcia, escrevendo em árabe e espanhol, pois os mesmos meios que antes publicavam seus artigos na Bolívia, Chile e Brasil tinham interesse de conhecer como as transformações decorrentes do nasserismo estavam se processando por todo o chamado Mundo Árabe.
A iminência da guerra civil no Líbano fez os meus Pais retornarem para a América do Sul, mas desta vez para o Brasil -- precisamente Corumbá, na divisa dos dois países, o que permitia que os filhos mais velhos pudessem cursar os últimos anos do ensino médio e seguir para a Universidade na Bolívia sem perda de tempo --, o que implicou numa fase de adaptação, sobretudo por causa do calor e das características de cidade de interior, ainda que com um cosmopolitismo ímpar. Com a mesma dignidade com que conduzira os negócios da Família na Bolívia e no Líbano, Dona Yoya se armou de valor e arregaçou as mangas para estar à frente de, inicialmente, uma pequena sorveteria e, depois, uma modesta pousada (na época soía ser chamada de “hospedaria”), com a qual custeou os estudos de todos os filhos, além de ter contribuído, ainda que modesta e anonimamente, para o desenvolvimento do turismo ecológico desta porção rica e singular do planeta por exatos 30 anos ininterruptos, além de ter inserido na agenda local alguns temas por meio de artigos publicados no emblemático decano da imprensa corumbaense, o combativo Diário de Corumbá.
Depois do encerramento das atividades comerciais, Dona Yoya aproveitou de desfrutar melhor da companhia do Seu Schabib, e fizeram memoráveis viagens para rever familiares no Brasil, na Bolívia, no Líbano e no México. Eis que o destino quis que o Companheiro de toda a Vida se eternizasse antes de que eles pudessem ter comemorado suas bodas de ouro, período de recolhimento e viagens curtas, na tentativa de esquecer a sofrida solidão. Mas não se deu por vencida, e com a mesma garra com que enfrentou adversidades em diferentes fases da Vida, viveu por mais treze anos de rica convivência com filhas, filhos, netas e netos, irmãs e irmãos.
Silenciou-se numa chuvosa manhã de 15 de junho de 2009, num leito de clínica em Campo Grande, depois de ter resistido estoicamente a um câncer voraz, oportunidade que nos permitiu conhecer melhor a Peregrina de doce olhar que a Vida nos presenteou como Mãe.
Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 9 de março de 2018

Pobre País: entre justiceiros togados, saudosistas da ditadura e a mediocridade golpista



Pobre País: entre justiceiros togados, saudosistas da ditadura e a mediocridade golpista
Peço licença a meus contemporâneos, mas tentarei seguir alguns dos passos do inimitável Tucídides -- que, diferentemente de Heródoto, celebrado como o pai da História, escrevera para a posteridade, e sem omitir o lado em que estava quando registrou a Guerra do Peloponeso -- nesta sincera tentativa de réquiem para a Democracia, esta balzaquiana mal-amada, fruto da luta de muitas gerações para ser perenizada por meio da aclamada Constituição Cidadã, hoje sangrando, nos estertores da morte, apunhalada por três agentes nefastos: os justiceiros togados, os saudosistas da ditadura e a mediocridade golpista que, pela incapacidade constatada de vencer nas urnas em quatro sucessivos pleitos, optou cínica e acintosamente pelo atalho perverso do trambique para atender aos inconfessáveis interesses dos amos e senhores da metrópole decadente representada pela derradeira superpotência do pós-guerra de 1945.
Não poderia haver roteiro mais “técnico”, mais preciso, mais meticuloso, melhor elaborado. Para decepção de muitos, não se tratava de alguma produção cinematográfica da criativa genialidade de Dias Gomes, crítico mordaz da perversão e da mediocridade das elites dirigentes deste país. Estava tudo televisionado, como aquele programa comprado da metrópole global a preço de ouro (e que não teve o mesmo sucesso entre os seus como tem entre os nossos) pela rede monopolista de televisão, funesta herança do regime de 1964. Tratava-se, isso sim, da sessão de julgamento, bem aos moldes hollywoodianos, pela Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do pedido de suplício, digo, de Habeas Corpus preventivo proposto pela defesa do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo reconhecimento popular cresce na mesma proporção em que vem sendo derrotado pelas nefandas instâncias do Judiciário brasileiro. Desnecessário dizer que, por (sic) unanimidade -- repito: u-n-a-n-i-m-i-d-a-d-e -- o referido pedido foi negado, pelo inimaginável escore de 5 a 0, só não maior que a vergonhosa humilhação imposta pela seleção alemã à nossa Canarinho, de triste memória.
Que me perdoem os doutos, mas, convenhamos: ninguém, em sã consciência, engoliu aquela história de que a decisão fora “técnica” -- como não fora “técnica” a decisão de prender e cassar o medíocre e arrogante ex-senador e ex-petista Delcídio do Amaral Gómez e de não prender o netinho mimado, igualmente arrogante e medíocre senador tucano Aécio Neves da Cunha, que foi pego tramando garfar propina milionária e ameaçando de morte o primo que o ajudasse a carregar a muamba. Se o Congresso Nacional está enlameado, suas excelências de toga, data vênia, estão pior que poleiro de pato na opinião do povo, e com essas condutas “tecnicamente” ensaiadas, logo, logo, ganharão do presidente golpista Michel Miguel Temer Lulia a lanterninha dos índices de confiança pelo sábio público.
Nas esquinas deste país é comum e recorrente encontrar pessoas humildes desejosas de fazer o curso de Direito para, em poucos anos, poder qualificar-se e dizer aos doutos senhores de toga o que pensam sobre o mito de que na Justiça -- isto é, no Direito positivado, como o nosso -- não há o sim e o não absoluto, mas o “em termos”, ou, em português coloquial, o clássico “depende”, como pude testemunhar nestas duas últimas semanas mais de meia dúzia de episódios. Não se trata apenas da “judicialização” da política, como sói dizer-se na crônica jornalística tupiniquim: o repentino ingresso do justiceiro togado no quotidiano político, como um salvador da pátria ou um super-herói, subverteu a ordem institucional, construída com muito custo nas últimas décadas, como há 50 anos a presença dos militares no âmbito da político, e sabemos hoje em que deu.
Nunca na história deste país um ex-presidente da República -- eleito e reeleito pelo voto soberano da maioria da população, em dois turnos (além de ter, pela primeira vez nos tempos recentes de nossa esquálida democracia, conseguido eleger e reeleger sua sucessora, a primeira mulher no mais alto cargo da nação) --, na iminência de empreender outra acachapante derrota aos seus adversários dos mais diferentes matizes nos dois turnos destas eleições gerais de 2018, recebeu tratamento de um reles criminoso, e, pior, corre o risco de ser tirado do mais democrático dos julgamentos, o popular, o do voto direto e secreto, sem terem conseguido provas consistentes -- modificaram, sem prévia mudança do texto legal, concepções e procedimentos, com o único intuito de fazer valer “convicção” de juiz em lugar das necessárias provas robustas para tipificar o crime cometido.
Se utilizassem ou tivessem utilizado esse mesmo expediente com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (nos casos da compra de deputados para aprovar o instituto da reeleição em 1997, da privatização das companhias telefônicas e da Vale entre 1996 e 2001, da compra de um apartamento para uma ex em Paris depois de ter deixado o cargo), com o ex-deputado Eduardo Azeredo (pivô do “mensalão tucano”, entre 1994 e 2005, que está há tempos no Supremo Tribunal Federal, já perto da prescrição), com o senador José Serra (casos de enriquecimento súbito da filha ainda bem jovem e da origem desconhecida de bens patrimoniais em nome de outros familiares, não elucidados quando ministro e governador, nas duas últimas décadas), com o governador Geraldo Alckmin (casos da merenda escolar, das novas linhas do Metrô e do Rodoanel, entre 2000 e 2013)? Não, pois eles são verdadeiramente intocáveis, são “do bem”, além de “bem-nascidos”...
Até o ingênuo e puro Jeca Tatu teria desconfiado da perfeita sintonia. Quanta harmonia nos argumentos, quanta coincidência na seleção de acórdãos jurisprudenciais e (auto)citações... É que quando as coincidências são grandes o inocente santo desconfia. Como, mesmo, falava aquele reacionário mas genial dramaturgo da ditadura passada, o Nelson Rodrigues? Ah, sim: “Toda unanimidade é burra.” Para atualizarmos, teremos que trocar “burra” por “farsa”. Aliás, desde a véspera do golpe de maio de 2016, tudo nas cortes intermediárias e superiores se caracteriza pelo monolitismo, pela unanimidade, pelas curiosíssimas coincidências, salvo raras e honrosas exceções que a história saberá resgatar na posteridade. Até porque, caro leitor, alguém se lembra do nome do justiceiro togado que mandou executar Tiradentes? E o do Frei Caneca? Os condenados ganharam seu, digamos, Habeas Corpos, ainda que tardio, já os juizecos, ah, a história os expeliu, feito coisa que fede, para o lixo, o esgoto, da história -- e, não custa avisar, sem direito a Habeas Corpus nem suplício...
Assim como na Vida, na História é imprescindível ter lado, como já dizia o milenar Tucídides. Assim como os saudosistas da ditadura e os medíocres golpistas, os justiceiros togados já escolheram o lado da história em que pretendem trilhar. E, ao contrário do “desfazer” do computador, na Vida não há lugar para correções de erros, pois o tempo não volta e os equívocos cometidos cobram vidas e gerações perdidas para nunca mais voltar. Togado ou não, medíocre ou não, saudosista ou não, é fundamental deixar fluir o sentimento de cidadania e, com humildade, deixar que a cidadania, do alto de sua autoridade democrática, manifeste sua vontade soberana, com altivez e parcimônia.
Ahmad Schabib Hany

A PROPÓSITO DO DIA INTERNACIONAL DA MULHER



A PROPÓSITO DO DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Feliz Dia Internacional de Luta da Mulher! Destaco com negrito, versalete e sublinhado, pois a data a ser celebrada é de luto (pelo massacre das tecelãs de Nova Iorque, em 1857, pelo “crime” de fazer greve para conquistar direitos, como jornada de trabalho não superior a 12 horas) e de luta (graças à coragem das mulheres, sobretudo as das décadas de 1900 a 1970 que, por meio de diferentes correntes políticas e nacionalidades, conseguiram unir sua voz em todo o mundo e, ao promover o Ano Internacional da Mulher, em 1975, instituíram essa data). Uma luta, aliás, incessante e crescente -- não apenas pelos desafios impostos pela evolução da sociedade, mas, sobretudo, pelas forças do atraso, que voltam a se fortalecer em todos os quadrantes do planeta --, cuja agenda (ou pauta) precisa ser atualizada diuturnamente por todas as cidadãs e cidadãos, independentemente do gênero, da opção sexual ou das concepções políticas, ideológicas, filosóficas ou religiosas.
Como termômetro, o dignificante empoderamento da mulher é não só mecanismo democratizante das sociedades em sua mais nobre qualificação humana -- a própria evolução da sociedade e a consolidação do humanismo só ganhou consistência e legitimidade com a efetiva afirmação do protagonismo da mulher --, mas elemento indispensável na construção de valores éticos, libertários e, sobretudo, solidários. Na História, às mulheres couberam papéis imprescindíveis na necessária transformação da vida em sociedade, as noções de coletividade e de liberdade, que vão do corpo à alma, no sentido mais amplo. Daí que a onda de intolerância retrógrada que vem ganhando espaço no vácuo de uma vassalagem religiosa obscurantista deve ser enfrentada por meio da luz, da ciência, da razão, do conhecimento, tal como o foi no Renascimento ocidental corajosamente protagonizado pelos humanistas de então, muitos dos quais tiveram a sua profícua vida ceifada precocemente.
Diferentemente do que diz a mi(r)dia deformadora e desinformante que predomina feito praga em nossa sociedade, o aumento da violência contra a mulher, seja em casa, no trabalho, no trânsito ou em outros espaços públicos ou privados, decorre do machismo, ou melhor, da misoginia meticulosamente alastrada por agentes do atraso travestidos de paladinos da moral, porta-vozes do obscurantismo medieval que desaba sobre nossas cabeças e quando menos esperarmos estaremos todos indo para o cadafalso. A luta de emancipação e empoderamento da mulher é, sim, luta de todo aquele que, com sinceridade, deseja uma sociedade mais justa, mais solidária, mais libertária e mais fraterna. Do contrário, as conquistas duramente consignadas na Constituição Cidadã e hoje ameaçadas acintosamente por seres bizarros impensantes estarão perdidas, a exemplo dos direitos trabalhistas, recentemente demonizados como causadores da crise produzida e alimentada pelos mesmos membros da quadrilha que tomou de assalto os destinos da nação.
Em nosso atual contexto, de infindáveis retrocessos e absurdos personagens (nada originais e totalmente bizarros), como certos sacerdotes fundamentalistas que se pretendem donos da verdade -- das mais diferentes denominações cristãs, judaicas, islâmicas e budistas -- que usam a religião para se promover politicamente, distorcendo seu papel. No Brasil, ligados a Eduardo Cunha (aquele deputado corrupto que usou e abusou da boa-fé de pessoas bem intencionadas para fazer das suas, locupletar-se, locupletar seus iguais e, pior, provocar o maior retrocesso da história do parlamento brasileiro), os tais sacerdotes são, na verdade, charlatães que usam fé, a religião, para angariar poder e atingir objetivos inconfessáveis. Não por acaso estão hoje de mãos, pés e rabos presos ao mais retrógrado dos candidatos à Presidência, aquele que foi expulso de sua corporação por tentativa de sabotagem no início da redemocratização e que ao longo de sua pífia trajetória no parlamento absolutamente nada produziu, além de polêmicas decorrentes de sua incontinência fecal, digo, mental.
Dessa forma, e com sinceridade, mantive-me no silêncio no dia de ontem por entender que não via motivo algum para comemorar. Reservadamente, desejei feliz dia de luta à mulher, mas me dei o direito de divergir de qualquer ato comemorativo, pois o momento é de luto e luta, muita luta, e não a hipócrita celebração promovida pelo mercado para vender flores, doces, cosméticos e roupas. A Vida é muito mais que o culto ao consumo, até por conta do momento em que vivemos. Como comemorar quando os meliantes da quadrilha que usurpou o poder apearam a primeira presidenta da República exatamente por ela ser íntegra e honesta para se acumpliciar com eles? Como comemorar quando a atual ministra que preside a mais alta corte do Judiciário exerce o seu mandato cada vez mais parecida aos seus colegas dos outros poderes, todos com o funesto semblante de mortos-vivos, insensíveis às conquistas democráticas duramente introduzidas no ordenamento jurídico pátrio?
A História cobrará, sim, dos obtusos obscurantistas de ocasião, que se valem das fraquezas e do atraso social em que vivemos, para formar hordas medievalescas ensandecidas e entorpecer os horizontes alvissareiros que dez anos atrás flamavam e inflamavam o cotidiano generoso então existente e cuja permanência foi interrompida pelo ódio, pela intolerância e pela inveja. Sim, porque justiceiros togados, pastores fundamentalistas, medíocres golpistas e saudosistas da (mal)ditadura são militantes em muitas bizarrices, sobretudo a inveja, a intolerância e o ódio.
Contudo, não podemos deixar de clamar: nefastos, tremei: chegaram as mulheres!
Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 1 de março de 2018

Dona Gabriela Soeiro, retrato da cidadã do século XXI



Dona Gabriela Soeiro, retrato da cidadã do século XXI
Dona Gabriela Soeiro é o protótipo da mulher guerreira do início da segunda metade do século XX. Estoica, corajosa, determinada, mas sem perder a ternura, a meiguice e a feminilidade. Dona Gabi, para os amigos, era filha de boliviana com português e se casou bem nova com um homem distinto, estudado, funcionário público federal, bem mais velho que ela. Ficou viúva bem jovem, vindo da Amazônia para Corumbá com os seus filhos, em fins da década de 1950.
Corumbá, então, era a mais cosmopolita das cidades do Centro-Oeste brasileiro. Tão logo chegou, encontrou emprego no imponente Grande Hotel Corumbá, na esquina do Jardim Independência. Era a telefonista, e dividia a função com a desde logo sua melhor Amiga até o final da Vida, Dona Genil da Silva Ojeda. Hotéis com aquele padrão, na época, dispunham de uma central telefônica (os veteranos “PBX”, uma geração anterior aos “PABX”), cuja operadora direcionava manualmente as ligações solicitadas ou recebidas para os ramais dos apartamentos ou dos diferentes setores da administração. As pessoas escolhidas, mais que hábeis, tinham que ser discretas e, sobretudo, de extrema confiança, pois acidentalmente podia se ouvir parte da conversa entre um e outro interlocutor.
Ela contava que, no tempo em que trabalhou naquele hotel, conheceu as pessoas mais ilustres da sociedade corumbaense, além de muitas pessoas públicas (políticos, empresários e artistas) que vinham visitar a Cidade Branca. Muito discreta, nunca revelou os bastidores da rotina dos funcionários quando, por exemplo, chegavam autoridades nacionais ou estaduais (geralmente em período eleitoral para apoiar os seus aliados regionais), tamanha a importância que detinha o então primeiro centro comercial da Região Centro-Oeste. Embora fosse conservadora na política (declaradamente fã do recém-falecido Doutor Wilson Barbosa Martins, à época na UDN), tinha um carinho especial pelo Doutor Wilson Fadul, deputado trabalhista e ex-ministro da Saúde do Presidente João Goulart, responsável pela criação do Serviço de Assistência Médica de Urgência (SAMDU), sendo Corumbá um dos municípios pioneiros a implantá-lo, com o Doutor Cleto Leite de Barros à frente.
Com Dona Genil partilhou de outras experiências laborais, sempre em empresas ligadas ao mesmo grupo proprietário do célebre hotel: funcionária dos glamourosos cines Tupi e Santa Cruz, e mais tarde, com a implantação da pioneira Cooperativa Telefônica Corumbaense (COTECO), das primeiras telefonistas, cujo salário permitiu dar um futuro melhor às suas três crianças, todas elas com formação universitária. Os dois filhos foram cedo estudar em Campinas, e a única filha, a querida Amiga Maria Auxiliadora Figueiredo, ex-colega de minha Irmã caçula, ficou para acompanhar Dona Gabi até concluir o ensino médio em Corumbá, em fins da década de 1970, depois tendo também rumado para a região de Campinas, onde reside e trabalha até a presente data.
Durante muitos anos ela foi proprietária de uma mercearia situada na esquina das ruas Cuiabá e Antônio João. Com a inflação descontrolada no governo do general João Figueiredo, o último do regime de 1964, ela foi obrigada a fechar seu comércio, passando a ser vendedora autônoma de produtos de catálogos, sobrevivendo com dignidade e altivez até fins da década de 1980. Para complementar sua renda, dedicava-se ao trabalho de manicura e pedicura, restrito a poucos clientes, atividade que exercia como uma verdadeira doutora, rigorosamente higiênica e delicada (jamais alguém reclamou de algum “bife”, como se sói dizer dos acidentes nessa atividade profissional). Sua conduta altiva, e ao mesmo tempo humilde, a tornou uma referência na cidade.
Em 1996 sobreviveu a um câncer depois de se submeter a diversas cirurgias e longo tratamento no hospital-escola da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). O fato de ter um filho farmacêutico com vasto relacionamento no estado de São Paulo muito contribuiu para que, graças a seu espírito empreendedor, seguisse em frente em sua Vida de guerreira e batalhadora incansável. Permaneceu algo como dez meses morando praticamente em São José do Rio Preto, em razão da complexidade do tratamento. Como o hospital-escola dispõe de equipe interdisciplinar para atender aos pacientes no final do tratamento -- ao ficar ostomizada em caráter definitivo, recebeu apoio psicológico e socioassistencial, em que aprendeu a conviver com a nova realidade --, voltou a Mato Grosso do Sul com a determinação de multiplicar os benefícios conquistados por meio daquela equipe.
Dona Gabi, com o apoio da enfermeira e professora Margarete Knock Mendonça, do curso de enfermagem da UFMS em Campo Grande, e outros colegas da área de saúde, criou o GARPO/MS (Grupo de Apoio e Reabilitação da Pessoa Ostomizada de Mato Grosso do Sul). Primeiro, dedicou-se à viabilização da entidade na capital, cujos ostomizados, em sua totalidade, passaram a ser atendidos dentro de um protocolo com muita dignidade e cidadania. Em 1998, como primeira região do interior do estado, passou a priorizar o Pantanal (GARPOPAN), por duas vezes tendo sido criada uma comissão provisória, mas a falta de apoio dos gestores naquela época inviabilizou o trabalho.
Nem por isso desistiu. Com o apoio do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário, criou um ponto-focal constituído de profissionais autônomos (psicóloga, assistente social, nutricionista, enfermeira, técnico de enfermagem, advogada e outros voluntários) e com o GARPO/MS, que era entidade de âmbito estadual, definiu um protocolo de encaminhamento direcionado para a Secretaria de Estado de Saúde, de modo que todos os pacientes recém-ostomizados na região do Pantanal pudessem receber as órteses e demais recursos de apoio às pessoas que, por acidente, doença ou nascença, precisassem desses instrumentos, considerados de altos custos, para manter sua saúde, com qualidade de vida e cidadania.
Dona Gabi era didática para explicar que, diante da iminência de uma cirurgia que levasse a uma ostomia (urostomia, colostomia, hiliostomia ou até uma traqueostomia), cabia ao ex-paciente (agora usuário do SUS) a capacidade de “dar a volta por cima”. É que muitos ostomizados ou ostomizadas perderam seus casamentos, empregos e até a vida por não poderem contar com um grupo de ajuda mútua como o GARPO/MS, que ela fundou e dirigiu como se fosse mais um filho em sua Vida. Além do risco de depressão, o desconhecimento de como lidar com a nova realidade e os dispositivos, higienizar-se, cuidar-se, alimentar-se adequadamente, saber até como relacionar-se com seu parceiro (ou sua parceira), era um desafio. Por isso a importância do empoderamento do usuário do SUS.
E Dona Gabi foi uma verdadeira cidadã para a consolidação do controle social, tanto em Corumbá e Ladário, como em Mato Grosso do Sul. Com a altivez que lhe era peculiar -- e a humildade igualmente indissociável à sua cativante personalidade --, entra para a história da cidadania pós-Constituição de 1988 como uma protagonista exemplar, digna de ser o retrato da cidadã do século XXI, sempre à frente de seu tempo.
Ahmad Schabib Hany