segunda-feira, 5 de julho de 2021

INCENTIVO À VACINAÇÃO EM MASSA

INCENTIVO À VACINAÇÃO EM MASSA

Para incentivar a população para a vacinação em massa, é fundamental oferecer prêmios, mediante o sorteio, por exemplo, de 100 cestas básicas, 50 botijões de gás de cozinha e, se possível, 10 aparelhos de televisão. Essa, aliás, poderia ser a contrapartida de entidades como a Associação Comercial, Sindicato Rural e grandes empresas, como a Vale, numa demonstração de empatia e responsabilidade social ante a pandemia.

Corumbá, Ladário e mais onze cidades fronteiriças de Mato Grosso do Sul foram contempladas pela pesquisa do Professor Doutor Júlio Croda (UFMS/FIOCRUZ), com o objetivo de avaliar o impacto da vacinação em massa e a efetividade da vacina da Janssen no enfrentamento à covid-19.

É verdade que, enquanto a ciência, generosamente, proporciona à população fronteiriça a oportunidade ímpar de reduzir, senão bloquear, a circulação do novo coronavírus, haja políticos trogloditas, como o atual inquilino do Planalto e o prefeito de Campo Grande, incapazes de compreender a importância de a população ser vacinada massivamente, sobretudo aquela que vive em faixa de fronteira internacional, mais exposta à circulação de variantes agressivas, como a Delta e a Gama.

Contudo, a despeito da oportunidade ímpar de ter uma vacinação em massa, até por conta da dispersão criminosa de fake news para promover o negacionismo, terraplanismo e o fanatismo fundamentalista que tanto mal vem fazendo ao País, parte da população de Corumbá e Ladário não está correspondendo às expectativas dos gestores estadual e municipais de vacinar as metas traçadas com base na infraestrutura oferecida.

Diante disso, é hora de oferecer prêmios e brindes para contrapor à ação negacionista, que divulga mentiras criminosas para amedrontar as pessoas menos informadas e atingir seu ignóbil propósito, de fazer circular mais e mais o novo coronavírus para tornar o País ‘campeão’ mundial de vidas interrompidas.

Assim, todo aquele que acorresse aos postos de vacinação contra a covid-19 receberia, além da confirmação de ter sido vacinado, uma senha ou tique numerado que lhe daria direito a concorrer a um conjunto de prêmios, hoje fundamentais para amplas camadas da população, como 100 cestas básicas, 50 botijões de gás de cozinha e 10 televisores.

Tais prêmios poderiam ser doados por entidades representativas dos setores econômicos, como a Associação Comercial, Sindicato Rural, além de grandes empresas, como a Vale, até como demonstração de empatia e responsabilidade social com a população diante das perdas humanas causadas pela pandemia.

Ainda há tempo para que o setor chamado produtivo demonstre sua solidariedade ao povo que há mais de um século vem acolhendo empresas e empresários de todos os quadrantes do planeta sem ter pedido nada em troca. Ao contrário, prestigiando como consumidores, dentro de seu poder aquisitivo limitado, e oferecendo humildemente sua força de trabalho nas condições em que são dadas. Até porque, com a vacinação em massa, a economia voltará ao seu ritmo histórico mais rapidamente.

Quando se quer transformar uma realidade, não basta ficar reclamando: é preciso criar as condições possíveis para encontrar, com inteligência e empatia, a solução tangível. Em vez de querer ‘inventar a roda’, façamos a roda da história girar em benefício de todos, até porque, como diz o ditado popular, “o sol nasceu para todos”...

Ahmad Schabib Hany

domingo, 4 de julho de 2021

AOS 100 ANOS DO INCANSÁVEL PEREGRINO MAHOMA HOSSEN SCHABIB

(REPUBLICADO PELOS 25 ANOS DE SUA ETERNIZAÇÃO)

AOS 100 ANOS DO INCANSÁVEL PEREGRINO

MAHOMA HOSSEN SCHABIB (1º/10/1914 – 04/07/1996)


Se estivesse vivo, o Peregrino que a Vida generosamente nos presenteou como Pai estaria completado 100 anos nesta quarta-feira, dia 1º de outubro de 2014.

Nascido no dia em que eclodira a Primeira Guerra Mundial na bucólica e formosa Rasen-Hache (província de Batroun), no Líbano, o incansável Peregrino chamado Mahoma Hossen Schabib ficara órfão de Mãe, dona Maquie Madi, aos 5 anos de vida. O Pai, Hussein Schabib, não quisera que os sete filhos (quatro meninas e três meninos) tivessem madrasta. Como caçula, coube às irmãs, bem mais velhas, cuidar dele. Por influência do primo mais velho, matemático e poeta Scandar Shalak, alfabetizara-se precocemente, e logo fora para o internato na distante Damasco (capital da Síria), onde concluíra com destaque os níveis fundamental e médio.

Ele contava, emocionado, que tivera o privilégio de ver a comoção popular quando da chegada do corpo do imortal poeta libanês Gibran Khalil Gibran (autor de “O Profeta”, entre outras obras) a Damasco para as homenagens póstumas na Síria e Líbano, quando professores participaram como oradores das celebrações ecumênicas. Igualmente, narrava com indisfarçável indignação sobre a repressão, pelos gendarmes franceses, ao movimento juvenil sírio contrário à opressão colonialista em meados da década de 1920, em que milhares de intelectuais e universitários foram torturados e mortos sem piedade, logo por aqueles que se diziam agentes da civilização e do progresso ao substituir o igualmente obscurantista e opressor império turco-otomano, de triste memória.

Obstinado, não sossegara enquanto não transpusesse as fronteiras políticas da Arábia, dividida à época pelos impérios britânico e francês (Líbano e Síria, colônias francesas; Palestina e Egito, colônias britânicas). Para tanto, passou-se por beduíno e atravessou todo o território da Palestina (ainda livre da ocupação sionista), pela fronteira do sul do Líbano e chegar, por Gaza, ao Cairo, no Egito, para cursar Filosofia na milenar Universidade Al-Azhar – fechada em 1954, início do governo de Gamal Abdel Nasser, por causa de seus arqui-inimigos da Irmandade Islâmica, contrária ao Estado laico implantado pelo maior estadista árabe dos últimos cinco séculos. Mas ele (meu Pai) não pôde concluir o curso universitário por causa da eclosão da Segunda Guerra Mundial: o Egito era colônia da Grã-Bretanha e o ardil colonialista obrigava os jovens mais instruídos ao alistamento militar – uma acintosa forma de eliminar a juventude inquieta porque esclarecida, feito bucha de canhão.

Mesmo a contragosto, acabou interrompendo os estudos no final do curso (1939), aceitando o conselho de seu irmão mais velho, Ale Hossen Schabib (que, naturalizado boliviano, virou Alejandro Hossen, pois, como em todo país hispânico, o primeiro sobrenome é o que conta). Esse irmão havia emigrado para a América no fim da Primeira Guerra Mundial e, depois de incursionar pela Amazônia brasileira, decidira estabelecer-se na Bolívia, de onde custeava os estudos do irmão caçula, além de ajudar a família com o que fosse possível naquele período de miséria e tragédias no Hemisfério Norte. A sua esperança – e consolo – era que a guerra não levasse muito tempo e que ele não demorasse a retornar ao Cairo para concluir seus estudos e seguir seu projeto de vida no Oriente Médio.

OUTRA CULTURA, NOVOS DESAFIOS
Mas não foi bem assim. Para começar, foi uma verdadeira epopeia chegar até a América do Sul, atravessando dois oceanos num barco de cruzeiro da companhia italiana de navegação Costa, o “Ana C”. Aportou em Arica, no Chile, após a travessia do Canal do Panamá com as suas comportas deslumbrantes. Em seguida, voou literalmente sobre a Cordilheira dos Andes até chegar a La Paz, a mais de três mil metros de altura, e seguir em outro voo até a capital do departamento de Beni, Trinidad, na Amazônia boliviana, para finalmente conhecer o irmão mais velho com quem só se relacionara até então por cartas – afinal, ele partira quando meu Pai era de colo. Adaptar-se à vida de mascate num país de cultura totalmente diferente da sua foi outra proeza. Com a ajuda do irmão que era como Pai, procurou estabelecer-se num povoado menor, Magdalena, para capitalizar-se e logo ganhar autonomia financeira. Mas as adversidades (entre elas, o naufrágio de seu batelão carregado de mercadorias) o fizeram descapitalizar-se e quase lhe custaram a própria vida, em 1940, que ele passara a grafar como “0000” (quatro zeros), pois os prejuízos o fizeram voltar à estaca zero.

Perseverante, em cinco anos – praticamente o período da sangrenta guerra que acabou com a inocência da humanidade –, entre a disciplina nos estudos (não abandonara o hábito de estudar, nem quando atingiu a terceira idade, lendo sistematicamente no mínimo quatro horas diárias) e no trabalho, aprendeu a arte do comércio e dois novos idiomas (espanhol e inglês), e logo era detentor de um capital monetário respeitável. Por essa razão, o irmão que fazia as vezes de Pai o aconselhara a ir se preparando para casar-se. Coincidência ou não, nessas incursões como mascate havia conhecido um dentista muito popular, de nacionalidade libanesa, o assim chamado doutor José (Yussef) Al Hany, Pai de dez filhos (seis meninas e quatro meninos) com uma única companheira, a jovem senhora Guadalupe Ascimani de Hany, afável, culta e hospitaleira.

O doutor Hany, druso (ou derzi, religião espiritualista oriental); a dona Guadalupe, católica, de Pai maronita (variação libanesa de catolicismo cujo sacerdote pode se casar). Meu Pai, muçulmano. Como os árabes, a exemplo dos brasileiros, vivem e celebram a diversidade, não demorou muito para que a mais velha das filhas, a bela Wadia Hany Ascimani, decorrido algum tempo, viesse a contrair núpcias com o jovem imigrante. Não é demais dizer que naquela época, entre os árabes, não era tão acirrada a intolerância religiosa de hoje, alimentada pelas potências ocidentais dentro da ignóbil lógica do “dividir para reinar”, iniciada com a imposição do Estado sionista no território da Palestina em 1948, como perniciosa reparação dos danos causados pelos europeus nazistas em território europeu, e que nada têm a ver com os árabes, estes também vítimas dos abusos colonialistas até a presente data.

Casaram-se em abril de 1948 (ironicamente três semanas antes da formalização, pelas potências mundiais, do Estado de Israel), uma relação conjugal que durou 48 anos e dois meses (meus Pais já planejavam comemorar suas bodas de ouro, quando uma parada cardíaca interrompeu, em 1996, seus projetos comuns de Vida). Mas essas quase cinco décadas, como em tudo na Vida, não foram um mar de rosas, pois tiveram altos e baixos. Os primeiros cinco anos de vida conjugal, sim, por conta da estabilidade econômica então reinante na Bolívia, foram tranquilos: minha Mãe aprendeu logo as habilidades comerciais, tendo se tornado referência nos negócios crescentes da família. Deixaram a Amazônia depois do nascimento da segunda filha, indo residir na chamada cidade-jardim boliviana, Cochabamba, localizada num formoso vale da Cordilheira dos Andes e com excelente qualidade de vida, cultura e cosmopolitismo.

VOLTA ÀS ATIVIDADES INTELECTUAIS
Nesse importante centro cultural boliviano, até por conta da estabilidade da economia familiar, meu Pai decidiu retomar os estudos na Bolívia, e não demorou muito para que exercesse com maestria o jornalismo, além de conduzir um programa radiofônico sobre a cultura árabe e as relações com a América Latina. (Era um período de efervescência política em todo o mundo: além da consolidação do socialismo como alternativa real para todos os povos vítimas do saque e da exploração de suas riquezas naturais e de sua gente, na Bolívia viviam-se as transformações decorrentes do triunfo da Revolução de 1952 boliviana, e na Arábia espalhavam-se os ideais de Nasser, um dos jovens líderes da Revolução de 1952 egípcia, que acabou com o jugo pró-inglês do rei Faruk no Egito e mudou os rumos do povo árabe disperso em 22 Estados divididos pelo Ocidente e das nações do Terceiro Mundo no século XX, ao fundar, com Broz Tito, Jawaharlal Nehru e Chu En-Lai, o Movimento dos Países Não Alinhados.) Talvez a excessiva visibilidade tivesse exposto muito meu Pai diante de adversários poderosos, até então desconhecidos, que se valeram da crise sociopolítica e econômica na Bolívia para desencadear contra ele uma série de ações judiciais e fragilizá-lo comercial e economicamente. Em meio a uma avalanche inflacionária de mais de nove mil por cento ao ano, no início da década de 1960, meus Pais decidiram vender todo o seu patrimônio, construído com muito esforço ao longo de três décadas, a fim de reunir o máximo possível para adquirir as passagens para dez pessoas (dois adultos e oito crianças) de trem e navio a fim de retornar ao Líbano, onde nasceu a caçula dos filhos e permanecemos por quase quatro anos. Nesse meio-tempo, meu Pai cobriu para a Rádio Cairo em espanhol, uma revista árabe-chilena chamada “Mundo Árabe” e uma edição em espanhol da revista brasileira “O Cruzeiro” a luta pela independência das nações árabes do norte da África (Argélia, Líbia e sobretudo o Egito, que passara a se denominar República Árabe Unida, um Estado confederado com a Síria e o Iraque, mas que não durou muito por conta das investidas ocidentais e de seus fantoches dos reinos, emirados e sultanatos árabes, temerosos de que a experiência socialista de Nasser no Egito irradiasse para os demais países do Oriente Médio).

Como o jornalismo não lhe proporcionara o suficiente para o sustento de uma família de onze pessoas (nove delas crianças e adolescentes), meu Pai lançara mão de suas últimas economias para tentar se estabelecer com um restaurante na segunda maior cidade libanesa, Trípoli (capital da província de Batroun), em sociedade com um primo que já fora seu sócio na fronteira da Bolívia com o Brasil (Guajará Mirim, Rondônia), Hussein Khalil Schabib. Entre as atividades comerciais e a agricultura (nas terras herdadas do Pai), tentou se recuperar financeiramente, mas decidiu por retornar para a América do Sul, pois o clima político no Líbano não lhe inspirava bons augúrios. Ele pressentira, pela insustentabilidade do cotidiano do cidadão comum libanês, a revolta das camadas populares contra as oligarquias libanesas, fato que eclodiu em 1974 com a trágica guerra civil que durou duas décadas, dizimou e empobreceu a população e destruiu a infraestrutura do país após a invasão de tropas israelenses e americanas, no início da década de 1980, provocando uma série de massacres nunca antes vistos no Líbano ou qualquer outra nação árabe, à exceção da Palestina e da Argélia em sua luta pela independência (depois, sim, vimos, em maior escala, a invasão do Iraque e da Líbia – e agora na Síria – pelos mesmos gendarmes e mercenários de Israel e Estados Unidos, em pleno século XXI).

A ESCOLHA DE CORUMBÁ
Nos quase 25 anos que vivera na Bolívia, inúmeras vezes viajara de avião ou trem pela região do Pantanal, tendo ficado em Corumbá por breves estadas, sobretudo depois que fixara residência em Cochabamba. Rumo a São Paulo, de onde comprava muitos itens para abastecer seu comércio atacadista, havia se encantado com o desenvolvimento desta região, que, depois da inauguração da ferrovia Corumbá – Santa Cruz de la Sierra, passou a compará-la à região de Milão pelo tronco ferroviário e a importância desse transporte para a integração do continente. Por isso, quando se decidiu por retornar para a América do Sul, sua escolha recaiu sobre Corumbá, de modo que os três filhos mais velhos (que estavam por chegar à universidade) ficassem na casa da Vovó Guadalupe e os demais não tão distantes do país que o acolhera na juventude e, a despeito das adversidades, lhe ensinara muito. Ele era muito grato ao povo boliviano por tudo que lhe ocorreu na Vida. Obviamente, como todo imigrante, amava todos os países que o acolheram. E sua relação com o Brasil foi como o coroar de seus sonhos e lutas, até pelo fato de haver feito a escolha em plena maturidade. Assim, quando se estabeleceu com um modesto comércio de armarinhos, à rua Joaquim Murtinho, plena Feira Boliviana (a poucas quadras da estação ferroviária da Red Oriental da Bolívia, à época separada por uma centena de metros da ferroviária da Noroeste), semanas antes do golpe militar de 1964, iniciava uma nova fase em sua renhida existência de Peregrino incansável.

Seis meses mais tarde, início da primavera de 1964, meu Pai deu início a seu projeto de trabalho (e de Vida) no coração do Pantanal e da América do Sul (era assim como ele via Corumbá, centro do bioma e do subcontinente): abrir uma sorveteria (com a solidária assessoria de um Amigo libanês, Fauze Rachid e sua esposa boliviana Pura Ceballos de Rachid, proprietários da popular Sorveteria Superbom, e que anos depois se mudaram para Puerto Suárez) e construir uma hospedaria (pousada) com menos de uma dezena de quartos, que em pouco mais de cinco anos se transformara em referência para comerciantes bolivianos e jovens turistas de todo o mundo por causa da higiene, segurança e atenção de seu proprietário poliglota e bem informado (como recomendavam os guias pioneiros que descobriram a rota dos Incas e os safáris fotográficos do Pantanal, sem qualquer incentivo das instâncias de governo federal, estadual e municipal de todos os países sul-americanos, que viam os mochileiros barbudos como suspeitos, quer fosse como “subversivos” ou como “maconheiros”), depois de ter conseguido comprar, com o pouco que lhe restava da venda de seus bens do Líbano, uma casa modesta de um simpático casal de idosos (o senhor Afonso, português, e dona Paulina, corumbaense, irmã de uma vizinha que logo ganhou status de vovó, a dona Ventura, muito cordial e sempre presente nos primeiros anos da chegada de toda a Família).

Foi com essa modesta pousada que, por quase trinta anos, assegurou o sustento digno de uma numerosa família de nove filhos, tendo como meta dar-lhes formação universitária. Quando um amigo bem próximo lhe propôs um empréstimo para ampliar as instalações da pousada, diante do movimento e do reconhecimento de seus serviços, ele revelou que não pretendia ser dono de rede de pousadas ou fazendas, mas pai realizado por ver todos os seus filhos a concluir os seus estudos, independentemente da profissão escolhida. Obviamente que a perda do filho mais velho (ocorrida em circunstâncias não elucidadas pela polícia em 1974, que me induziu a declarar, aos 15 anos, que fora por suicídio, fato questionado por seus colegas universitários e sobretudo por um investigador de uma seguradora que por coincidência se hospedara dois meses depois da tragédia), Mohamed (ou carinhosamente “Tchítchi”), o abatera profundamente: ainda que não abandonara as metas que traçara para sua Vida, com a maior dignidade e responsabilidade, não era difícil pegá-lo lacrimejando ao ler ou conversar com jovens que lembrassem o espírito arrojado do saudoso filho.

A propósito dessa tragédia, houve quem propusesse que denunciássemos o governo do mais sanguinário, corrupto e mercenário dos ditadores bolivianos, Hugo Banzer Suárez, pela morte de nosso irmão, cuja memória foi criminosamente vilipendiada pela chefia da polícia local nos tempos nefastos da ditadura. Lembro-me como hoje que, acompanhado de dois queridos Amigos (Juvenal Ávila de Oliveira, então radialista, e João de Souza Álvarez, fotógrafo à época da tragédia), visitamos quase todas as redações de jornais locais que haviam estampado a manchete sensacionalista do tipo “estudante (sic) universitário se fuzila sem deixar carta” (coisa típica de crônica policial chapa-branca, espreme-sai-sangue) a fim de esclarecer os fatos e pedir que republicassem a matéria dando-nos o direito de mostrar o outro lado dessa notícia. Alguns, obviamente, nem se deram a esse trabalho. Mas o velho Diário de Corumbá, então dirigido pelo jornalista Carlos Paulo Pereira Júnior, corrigiu a notícia com o devido destaque. O Pai dele, fundador do jornal em 1969, jornalista Carlos Paulo Pereira, tinha uma relação de amizade com o meu Pai, que desde as primeiras edições colaborava com matérias de política internacional. Por conta desse gesto, a partir de então meu Pai passou a assinar também matérias de fundo espiritual, não doutrinário, em que homenageava de alguma forma meu saudoso Irmão. Talvez o artigo dele que mais tenha repercutido na década de 1970 tenha sido “De onde viemos, para onde vamos e por quê?”, o qual foi publicado em dois idiomas em diversos jornais do Brasil e da Bolívia.

A MILÃO SUL-AMERICANA
Ainda na década de 1970, por ocasião do bicentenário da fundação de Corumbá, publicou outro emblemático artigo, desta vez voltado para as perspectivas de desenvolvimento da região do Pantanal, quando explicou por que o turismo, ao lado do comércio, eram a vocação natural de Corumbá – tendo então comparado a posição estratégica do coração do Pantanal a Milão, na Itália. Essa matéria foi levada por um turista para publicá-la num jornal espanhol e em outro italiano. Desde então, quando calhava de se hospedar algum jornalista em sua pousada, meu Pai fazia questão de entregar alguns artigos de sua autoria, autorizando-o a publicar como quisesse, ainda que sequer publicasse a autoria. Ele foi um defensor declarado de que as ideias não têm “dono”, e é um dever fazê-las circular, em benefício da humanidade.

Mas foi ao lado de outros dois imigrantes como ele – William “Bill” Sefusatti, o ítalo-britânico dono dos barcos Califórnia, e Hermann Pettersen, alemão casado com Dona Maria, cuiabana, dono do restaurante El Pacu, ambos localizados no Casario do Porto – que anonimamente deu sua contribuição para a consolidação do turismo contemplativo no Pantanal entre os fins da década de 1970 e início da década de 1990, quando alguns guias pioneiros brasileiros também passaram a integrar a atividade, tais como Clóvis Brandão Carneiro, Rodrigues, Guilherme Carstens, Armando Duprat, Roberto Kassar, Joaquim, Catu, Gilberto, José Bobadilha, José Paraguaio, Johnny Índio, entre outros. De forma bem profissional, ao lado da pioneira La Barca Tours, da família Nader, o também pioneiro J. Carneiro e seu Expresso do Pantanal consolidaram de forma sustentável o turismo voltado para as famílias que vinham conhecer o bioma pantaneiro pelo majestoso Rio Paraguai.

No início da década de 1990, frustrado com a sucessão de equívocos cometidos pelos gestores do turismo em nível estadual e municipal, que em troca de favores eleitoreiros, permitiam que os chamados guias piratas prostituíssem a atividade em Corumbá, iniciou uma série de artigos sobre a importância do turismo e fazendo explícitas advertências às instâncias administrativas. Recebia telefonemas de cumprimentos “pela coragem”, mas as sugestões reiteradas para a organização da atividade na região jamais viu serem implementadas. Tanto assim, em maio de 1994 encerrou as atividades de sua modesta pousada, depois de trinta anos de trabalho ininterrupto, em protesto contra a pirataria que então tomava conta do turismo.

Para não se deprimir, fez sucessivas viagens com a minha Mãe – ao México, onde mora um de meus irmãos e suas filhas; ao Líbano, onde deixou praticamente toda a Família, e à Bolívia, onde visitou a Família e amigos contemporâneos seus, ainda saudáveis – e, quando se preparava para organizar sua “segunda lua-de-mel”, para comemorar suas bodas de ouro, faleceu subitamente, ao meio-dia de uma quinta-feira, 4 de julho de 1996, aos 82 anos incompletos.


Minha Mãe, dona Wadia, viveu mais treze anos, tendo resistido estoicamente a um câncer virulento que a silenciou sem lhe tirar o gosto pela Vida, em menos de seis meses. Internada num hospital de Campo Grande, ela deu seu último suspiro no início da manhã de uma segunda-feira, dia 15 de junho de 2009, aos 83 anos de idade. Eles tiveram nove filhos (seis mulheres e três homens) e um legado de trabalho e muita dignidade, um exemplo para todos nós que nos orgulhamos de sermos filhos seus.

BOLSONARO POUCO É BOBAGEM...

BOLSONARO POUCO É BOBAGEM...

A história é testemunha da cumplicidade das elites, sem qualquer tradição democrática, na entronização de um bando de fora de lei - milicianos, sonegadores, grileiros, garimpeiros, madeireiros, jagunços, matadores de aluguel, juiz-ladrão e assemelhados -, e uma vez ‘empoderados’ se sentem ‘donos’ do País e dos destinos da Nação. Mas os setores verdadeiramente democráticos conseguirão tirá-los do Planalto, sob pena de transformar o Brasil num Afeganistão.

Finalmente o Brasil começa acordar. Demorou, é verdade, mas aos poucos o gigante adormecido mostra que tem sangue nas veias e muita dignidade. A despeito dos cuidados com a pandemia, as ruas ganham o legítimo palpitar de um Povo com letra maiúscula. A despeito da lavagem cerebral feita entre 2013 e 2018, a consciência popular retoma seu lugar na história. O protagonismo cidadão renasce, feito fênix, das cinzas.

Os farsantes que se cuidem. Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e assemelhados. Jair Messias Bolsonaro, 01, 02, 03 e todos os líderes das hordas suspeitas de atentar contra o Estado Democrático de Direito. Aécio Neves, Romero Jucá, Eduardo Cunha, Michel Temer, Roberto Freire, Darcísio Perondi, Onyx Lorenzoni, Osmar Terra, Carlos Marun, Marcos Rogério, Alex Manente, Celso Russomano, Mara Gabrili, Tiricica e Sérgio Reis, entre outros, que, com o falso moralismo puxado por ‘Aecinho’ desencadearam a sucessão de golpes a partir de 2016. ‘Bispos’, ‘pastores’ e similares da indústria da fé, essas seitas que funcionam como franquias, vinculadas ao sionismo ‘cristão’, do neopentecostalismo fundamentalista, como Malafaia, Crivella e Edir Macedo. O parasitismo financeiro e toda a rede de ‘entidades’ empresariais que representam uma casta de sanguessugas com o dinheiro público e seus tentáculos no sindicalismo pelego de tiranetes oportunistas, a começar por Paulo Skaff e seus pares.

Não é demais reafirmar que, se democratas verdadeiros como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Mário Covas, Franco Montoro, Severo Gomes, Tancredo Neves, Teotônio Vilella (Pai) e Dante de Oliveira estivessem vivos, teriam repelido, de início, a farsa das ‘pedaladas fiscais’, que com a republiqueta da ‘leva jeito’ de Moro-Dallagnol, não só atentaram contra o Estado Democrático de Direito, a soberania nacional (vide o início da entrega de empresas estratégicas e pré-sal para multinacionais), a soberania popular, perda de direitos constitucionais (‘pec do teto’ e ‘reforma trabalhista’) e da transparência da gestão (início do desmonte do controle social de políticas sociais e de gestão participativa) ainda no desgoverno entreguista de Michel Miguel Temer Lulia.

É fundamental que fique registrado para a história da democracia que Aécio Neves não teve competência de consolidar o golpe que tanto implorou - tal qual menino mimado, implorou, mas não fez por merecer. Mais uma vez, a presidência lhe escapou por entre os dedos de uma das mãos, pois o Centrão preferiu leiloá-la para a bancada BBB (Bíblia, boi e bala), acertando durante as ‘negociações’ (acertos) para o desgoverno Temer a ascensão da extrema-direita com o tal ‘mito’, tudo isso preparado desde a metrópole de Donald Trump, o novo ‘imperador’, com seu PR estafeta, por controle remoto...

É uma pena que tenha custado mais de meio milhão de vidas humanas ceifadas pela pandemia; um incalculável número de vidas destruídas de espécies animais, vegetais e de reinos ainda não catalogados dos biomas imolados por causa das queimadas de 2019 e 2020; um imensurável valor de bens materiais e imateriais desaparecidos com a morte e o assassinato de anciões das populações originárias e tradicionais, além de comunidades quilombolas e de outros detentores de saberes ancestrais das mais diferentes etnias e culturas; um sem-número de vidas humanas vítimas de feminicídio, pedofilia, violência policial, exploração sexual infantojuvenil, racismo e LGBTQIAfogia; milhões de postos de trabalho formal, contribuindo para a consolidação do desemprego estrutural, e explosão da concentração de renda, um dos maiores crimes cometidos por Temer e Bolsonaro.

Como consequência disso, aliás, o aumento exponencial da fome e da miséria, sobretudo com o desmonte criminoso das políticas sociais compensatórias, como o Bolsa-Família, as políticas de cotas e de bolsas de assistência e de estudos de universitários oriundos das classes proletárias. É uma vergonha, sem falso moralismo, o pulular de campanhas de doações que lembram 1993, quando a Ação da Cidadania contra a Fome e pela Vida (de iniciativa do saudoso Betinho e com o apoio de Dom Mauro Morelli, Arcebispo de Duque de Caxias e São João de Meriti) disseminou comitês por todo o Brasil, mas que durante o primeiro mandato do Presidente Lula, com o Fome Zero e o Brasil sem Fome, tornou o País modelo no mundo no enfrentamento à fome e à miséria e na inclusão social.

Portanto, senhores e senhoras ‘coxinhas’, desçam do salto e enxerguem a realidade, mas não sem antes assumir sua parcela de cumplicidade pela ascensão dos fascistazinhos incompetentes que tomaram de assalto os destinos da nação: a sua incompetência na gestão do golpe, tanto quanto sua incompetência em campanhas presidenciais limpas e transparentes, é que nos levou a esta realidade bizarra, para a qual Vocês também terão que somar, seja na mitigação dos malefícios do extremismo maniqueísta que ajudaram a criar com a difusão inicial do ódio a Lula e ao PT e que desencadeou no fortalecimento do fascismo que, se não o controlarmos já, vai começar devorando os ‘comunistas’ que hoje querem ser chamados de ‘Cidadania’, e, pior, alguns dos quais até no PSL, como o médico deputado federal eleito em Mato Grosso do Sul, ex-militante do PCB.

Sem dúvida, Bolsonaro pouco é bobagem... Quanto mais a população brasileira afunda em uma série de barbaridades, mais ele, sua ‘sagrada’ família e seus sequazes deliram e se jactam de suas maldades. Não é normal, é caso de manicômio. Eles querem espalhar ódio e guerra, a balcanização da América Latina, o Brasil em Afeganistão. É inadiável que todos aqueles que tiverem qualquer humanismo em sua formação descruzem os braços e sem hesitação partam para a defesa inadiável do Estado Democrático de Direito. Observadas todas as medidas de biossegurança, as ruas precisam retomar o curso da História com letra maiúscula, e os fascistazinhos incompetentes, serviçais desavergonhados de Trump e seus iguais, voltarem ao lixo da história, de onde jamais deveriam ter saído.

Ahmad Schabib Hany