domingo, 24 de agosto de 2014

Blog do Carlos Carvalho: PEDRO, O RIOCORRENTE DE LUIZ TAQUES

Blog do Carlos Carvalho: PEDRO, O RIOCORRENTE DE LUIZ TAQUES:

PEDRO, O RIOCORRENTE DE LUIZ TAQUES

Era o ano de 1939, quando James Joyce (1882 – 1941) publicara o seu último trabalho; denominado de Finnegans Wake. Riverrun é a palavra que abre o livro do referido escritor irlandês, tendo sido traduzida para o português pelos irmãos Campos como riocorrente. Tendo em vista que a circularidade e o recomeço podem ser consideradas como as principais marcas da narrativa de Finnegans Wake, logo se deduz que o livro não tem fim, mas sempre um novo começo. E é esse sempre recomeço, assim como o fluxo da narrativa, que vão dar o necessário sentido à palavra joyceana. Dessa forma, a caudalosidade da narrativa do autor de Ulisses  (1922) se assemelha ao fluxo de um rio que corre. Mas não exatamente de “um rio que corre”, mas de umrioquecorre. Um riocorrente. Neste caso, observa-se a constituição de uma unidade narrativa que se compara à correnteza natural de um rio. 

A experiência estilística levada a cabo por James Joyce, pode ser identificada, guardando-se as devidas proporções, na narrativa Pedro, do escritor Luiz Taques, publicado no ano de 2013, pela editora Kan. Taques não é marinheiro de primeira viagem, sendo autor de outras obras literárias e devidamente premiado como jornalista. A edição de 2013 tem capa elaborada por Regina Menezes e conta com gravuras do artista Beto, sendo a referida edição  apresentada por Luciano Schmeiske Pascoal. O livro de Taques contém vinte e dois capítulos e está devidamente catalogado como romance, embora sua estrutura formal, no que diz respeito à narrativa propriamente dita e a constituição das personagens, indique tratar-se, na verdade, de uma novela. Isso, no entanto, tendo-se em vista a hibridização dos gêneros na contemporaneidade, não depõe contra a obra. Mais que a forma, o que consideramos realmente relevante é o conteúdo. Assim sendo, Pedro consiste em uma narrativa bastante expressiva, tendo um narrador que conversa com o irmão distante, Pedro e, através dessa conversa iniciada e mantida como forma de desabafo acerca do descaso deles e da cidade para com o rio que “lambia” o quintal da casa da família, muitas outras questões, sejam elas políticas, sociais, econômicas, existenciais; vão tomando forma ao longo dessa conversa da qual, assim como no Dom Casmurro (1899), só temos conhecimento das coisas a partir de um único ponto de vista; no caso, o do narrador.

Como Pedro não se manifesta, temos somente o narrador a reclamar do abandono da casa, do distanciamento do irmão, da doença do outro irmão, bem como das irmãs consideradas um fardo para a família. Tudo isso é feito em uma constante de velocidade que aproxima a narrativa da fluidez de um rio. Pedro é, assim, o riocorrente de Luiz Taques, a margear, assorear, invadir ou recuar conforme os objetivos da narrativa. Dessa forma, o autor impõe à sua narrativa um fluxo de consciência (aquele mesmo fluxo criado por Joyce e retomado por Virginia Woolf e Clarice Lispector) que se assemelha ao fluxo de um rio. O resultado é positivo, constituindo-se como um diferencial se compararmos com outros recentes trabalhos na literatura brasileira. 

A novela de Taques é ambientada na cidade de Buraco Quente, da qual temos poucas informações, mas que nada deixa a dever às milhares de cidades espalhadas por esse país de mais de duzentos milhões de habitantes. Buraco Quente poderia ser vizinha de Comala, Torvelinho, Macondo, a Curitiba do vampiro Nelsinho ou simplesmente não existir. É pela boca do narrador que sabemos tudo que ocorre na cidade. Assim como o rio, a vida continua a correr, mesmo que seu quintal esteja dominado pelo mato. O rio na novela de Taques é a metaforização da própria vida, do próprio existir. A vida em termos bem amplos ou a vida em Buraco Quente ou, em termos bem mais específicos, a vida da família do narrador.

E já que tocamos no assunto “narrador” é bom deixarmos bem claro que narrador e autor são pessoas diferentes. É por isso que aceitamos o narrador, erroneamente afirmar que crianças de 13, 14 e 15 sejam prostitutas, quando na verdade são vítimas de exploração sexual (p.24). O narrador, por vezes demonstra um  caráter conservador e preconceituoso, o que o faz destoar da qualidade vanguardista da estrutura narrativa escolhida pelo autor. Em outras palavras, o narrador quase  não dá conta da história que tem que narrar. E, retomando a metáfora do rio, parece-nos que o narrador estava sentado em um barranco, quando de repente cai na água e passa a perder o controle do que faz em um misto do desespero e do medo que antecedem um afogamento. Mas ainda bem que ele se agarra a um galho e volta para a margem, retomando o controle da narrativa.

Luiz Taques 
O Pedro, de Luiz Taques, também guarda aproximações com a novela Pedro Páramo (1955), de Juan Rulfo (1917 – 1986), no que diz respeito tanto a sua estrutura quanto à forma de narrar, bem como a linguagem utilizada. As duas novelas também se aproximam, no que concerne ao vazio que tomara conta da vida de Pedro Páramo, assim como o vazio que agora preenche a vida do narrador de Pedro. Isso é perceptível quando, nas páginas de abertura, diz: “Lembra do lugar onde ficavam as bananeiras?”. “Plantamos o vazio no lugar das bananeiras!”. No decorrer da narrativa, o leitor perceberá que o vazio, além de ter sido plantado no lugar das bananeiras, também foi plantado no íntimo de cada membro daquela família, sendo mais que urgente capinar o quintal, (re)ver o rio (a vida) com novos olhos, extirpar o vazio e replantar o pomar. Voltando ao Pedro Páramo, sabemos que a personagem mais relevante na narrativa de Rulfo é a própria Comala, cidade de mortos-vivos. Isso, no entanto, não pode ser afirmado em relação a Buraco Quente, cidade que respira desejo por todos os seus poros. No caso de Pedro, é o rio que se mostra como personagem principal da narrativa, tal qual o Cão sem Plumas, do poema de João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999). E se para alguns, as surpresas, estripulias e sobressaltos da vida podem ser tudo; para outros elas nada mais são do que aquilo que diz aquele bom e velho samba do Paulinho da Viola: “...Foi um rio que passou em minha vida/e meu coração se deixou levar”. Quem sabe não seja essa a trilha sonora da vida de Pedro? E assim sendo, nunca seria demais perguntar ao rio, pois, como naquela máxima de Heráclito: "o mesmo homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio, pois, da segunda vez, homem e rio não mais serão os mesmos, mas outros".



Além de Pedro (2013), Luiz Taques também publicou dois volumes de contos O casamento vai acabar com o poeta (2002), Madá (2011) e o infanto-juvenil A história de Zé Vida de Barraca (1997). E assim sendo, lá do seu cantinho, na bela Londrina (PR), desejamos que Luiz Taques continue produzindo. Daqui, ficamos na expectativa, aguardando o que de mais dele virá. Leiamos Pedro, de Luiz Taques!

terça-feira, 27 de maio de 2014

VIDEO / Monika Ertl: Ella ajustició al hombre que cortó las manos al Che




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NINA RAMON /  ANNCOL – En Hamburgo, Alemania, eran las diez menos veinte de la mañana del 1 de abril de 1971. Una bella y elegante mujer de profundos ojos color de cielo entra en la oficina del cónsul de Bolivia y, espera pacientemente ser atendida.Mientras hace antesala, mira indiferente los cuadros que adornan la oficina. Roberto Quintanilla, cónsul boliviano, vestido elegantemente de traje oscuro de lana, aparece en la oficina y saluda impactado por la belleza de esa mujer que dice ser la australiana, y quien días antes le había pedido una entrevista.
Por un instante fugaz, ambos se encuentran frente a frente. La venganza aparece encarnada en un rostro femenino muy atractivo. La mujer, de belleza exuberante lo mira fijamente a los ojos y sin mediar palabras extrae un revolver y dispara tres veces. No hubo resistencia, ni forcejeo, ni lucha. Los impactos dieron en el blanco. En su huida, dejó atrás una peluca, su bolso, su Colt Cobra 38 Special, y un trozo de papel donde se leía Victoria o muerte. ELN.
¿Quién era esta audaz mujer y por qué habría asesinado a “Toto” Quintanilla?
En la milicia guevarista había una mujer que se hacia llamar Imilla cuyo significado en lengua quechua y aimara es Niña o joven indígena (ahora considerado un insulto en Bolivia). Su nombre de pila: Mónica (Monika) Ertl. Alemana de nacimiento que había realizado un viaje de once mil kilómetros desde la perdida Bolivia con el único propósito de ajusticiar a un hombre, el personaje más odiado por la izquierda mundial: Roberto Quintanilla Pereira.
Ella, a partir de ese momento, se convirtió en la mujer más buscada del mundo. Acaparó las portadas de los diarios de toda América. Pero ¿cuáles eran sus razones y cuáles sus orígenes?
Retornemos al 3 de marzo de 1950, fecha en la que Mónica había llegado a Bolivia con Hans Ertl –su padre– a través de lo que sería conocida como la ruta de las ratas, sendero que facilitó la huida de miembros del régimen nazi hacia Sudamérica al finalizar el conflicto armado más grande y sangriento de la historia universal: la II Guerra Mundial.
La historia de Mónica pudo ser narrada con grandes pasajes gracias a la investigación de Jürgen Schreiber. La que yo le presento es apenas un pincelazo de ésta apasionante historia que involucra muchos sentimientos y personajes.
Hans Ertl (Alemania, 1908-Bolivia, 2000) alpinista, innovador de técnicas submarinas, explorador, escritor, inventor y materializador de sueños, agricultor, converso ideológico, cineasta, antropólogo y etnógrafo aficionado. Muy pronto alcanzó notoriedad al retratar a los dirigentes del partido nacionalsocialista cuando filmaba la majestuosidad, la estética corporal y las destrezas atléticas de los participantes en los Juegos Olímpicos de Berlín (1936), bajo la dirección de la cineasta Leni Riefenstahl quien glorificó a los nazis.
Sin embargo, tuvo el infortunio de ser reconocido para la historia (y su posterior desgracia), como el fotógrafo de Adolfo Hitler, aunque el iconógrafo oficial del Führer haya sido Heinrich Hoffman del escuadrón de defensa. Citan algunas fuentes que Hans estaba asignado para documentar las zonas de acción del regimiento del famoso mariscal de campo, apodado el ”Zorro del Desierto” Erwin Rommel, en sus travesía por Tobruk, África.
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Como dato curioso, Hans no perteneció al partido nazi pero, a pesar de que aborrecía la guerra, exhibía con orgullo la chaqueta diseñada por Hugo Boss para el ejército alemán, como símbolo de sus gestas de otrora, y su garbo ario. Detestaba que lo llamaran “nazi”, no tenia nada contra ellos, pero tampoco contra los judíos. Por irónico que parezca fue otra víctima de la Schutzstaffel.
Al término la Segunda Guerra Mundial, cuando el Tercer Reich se derrumbó, los jerarcas, colaboradores y allegados al régimen nazi huyeron de la justicia europea refugiándose en diversos países, entre ellos, los del continente americano con el beneplácito de sus respectivos gobiernos y el apoyo incondicional de Estados Unidos. Se dice que era una persona muy pacífica y no tenía enemigos, así que optó por quedarse en Alemania un tiempo trabajando en asignaciones menores a su status, hasta que emigró con su familia. Primeramente a Chile, en el austral archipiélago de Juan Fernández, “fascinante paraíso perdido”, donde realizó el documental Robinson (1950), antes que otros proyectos.
Después de un largo viaje, Ertl se establece en 1951 en Chiquitania, a 100 kilómetros de la ciudad de Santa Cruz. Hasta ahí llegó para instalarse en las prósperas y vírgenes tierras cual conquistador del siglo XV, entre la espesa e intrincada vegetación brasileño-boliviana. Una propiedad de 3.000 hectáreas donde construiría con sus propias manos y materia autóctona lo que fue su hogar hasta sus últimos días; “La Dolorida”.
El vagabundo de la montaña, como era conocido por los exploradores y científicos, deambulaba con su pasado a cuestas, por la inmensa naturaleza con la visión ávida de desentrañar y capturar con su lente todo lo percibido de su entorno mágico en Bolivia al tiempo que comenzaba una nueva vida acompañado de su esposa y sus hijas. La mayor se llamaba Mónica, tenía 15 años cuando dio lugar el exilio y, aquí empieza su historia…
Mónica había vivido su niñez en medio de la efervescencia del nazismo de Alemania y cuando emigraron a Bolivia aprendió el arte de su padre lo que le valió para trabajar después con el documentalista boliviano Jorge Ruiz. Hans realizó en Bolivia varios filmes (Paitití y Hito Hito) y trasmitió a Mónica la pasión por la fotografía. Por cierto, fácilmente podemos reclamarla como mujer pionera de las realizadoras de documentales en la historia del séptimo arte.
Mónica se crió en un círculo tan cerrado como racista, en el que brillaban tanto su padre como otro siniestro personaje al que ella se acostumbró a llamar con cariño “El tío Klaus”. Un empresario germano (seudónimo de Klaus Barbie (1913-1991) y ex jefe de la Gestapo en Lyon, Francia) mejor conocido como el “Carnicero de Lyon”.
Klaus Barbie, cambiaría su apellido por ”Altmann” antes de involucrarse con la familia Ertl. En el estrecho círculo de personalidades en La Paz, donde este hombre ganó suficiente confianza de tal forma que, el propio padre de Mónica, fue quien lo introdujo, incluso, le consiguió su primer empleo en Bolivia como ciudadano Judío Alemán, de quien se dice asesoró dictaduras sudamericanas.
hans erlt Ertl capta tomas aéreas, eskiando con una cámara sujeta.
La célebre protagonista de esta historia, se casó con otro alemán en La Paz y vivió en las minas de cobre en el norte de Chile pero, luego de diez años, su matrimonio fracasó y ella se convirtió en una política activa que apoyó causas nobles. Entre otras cosas ayudó a fundar un hogar para huérfanos en La Paz, ahora convertido en hospital.
Vivió en un mundo extremo rodeada de viejos lobos torturadores nazis. Cualquier indicio perturbador no le resultaba extraño. Sin embargo, la muerte del guerrillero argentino Ernesto Che Guevara en la selva boliviana (octubre de 1967) había significado para ella el empujón final para sus ideales. Mónica –según su hermana Beatriz– ”adoraba al “Che” como si fuera un Dios”.
A raíz de esto, la relación padre e hija fue difícil por la combinación: ese fanatismo adherido a un espíritu subversivo; quizá factores detonantes que generaron una postura combativa, idealista, perseverante. Su padre fue el más sorprendido y, muy a su pesar, la echó de la granja. Quizás ese desafío produjo en él cierta metamorfosis ideológica en los años 60, hasta convertirse en colaborador y defensor indirecto de los izquierdistas en Sudamérica.
Mónica fue su hija favorita, mi padre era muy frío hacia nosotros y ella parecía ser a la única que amaba. Mi padre nació como resultado de una violación, mi abuela nunca le mostró afecto y eso lo marcó para siempre. El único afecto que mostró fue para Monika”, dijo Beatriz en una entrevista para la BBC News.
A finales de los sesenta, todo cambió con la muerte del Che Guevara, rompió con sus raíces y dio un drástico giro para entrar de lleno a la milicia empuñando el brazo con la Guerrilla de Ñancahuazú, tal como lo hiciera en vida su héroe por la desigualdad social.
Mónica dejó de ser aquella chica apasionada por la lente para convertirse en “Imilla la revolucionaria” refugiada en un campamento de las colinas bolivianas. A medida que fueron desapareciendo de la faz de la Tierra la mayor parte de sus integrantes, su dolor se trasformó en fuerza para reclamar justicia convirtiéndose en una clave operativa para el ELN.
Durante los cuatro años que permaneció recluida en el campamento escribió a su padre, solamente una vez por año, para decir textualmente; no se preocupen por mí… estoy bien. Lamentablemente, nunca más la volvió a ver; ni viva, ni muerta.
En 1971 cruza el Atlántico y vuelve a su natal Alemania, y en Hamburgo ejecuta personalmente al cónsul boliviano, el coronel Roberto Quintanilla Pereira, responsable directo del ultraje final a Guevara: la amputación de sus manos, luego de su fusilamiento en La Higuera. Con esa profanación firmó su sentencia de muerte y, desde entonces, la fiel “Imilla” se propuso una misión de alto riesgo: juró que vengaría al Che Guevara.
Después de cumplir su objetivo comenzaría una cacería que atravesó países y mares y que solo encontró su fin cuando Mónica cayó muerta en el año de 1973, en una emboscada que según algunas fuentes fidedignas le tendió su traicionero “tío” Klaus Barbie.
Después de su muerte, Hans Erlt siguió viviendo y filmando documentales en Bolivia, donde murió a la edad de 92 años (año 2000) en su granja ahora convertida en museo gracias a la ayuda de algunas instituciones de España y Bolivia. Allí permanece enterrado, acompañado de su vieja chaqueta de militar alemán, su fiel compañera de los últimos años. Su sepulcro permanece entre dos pinos y tierra de su natal Bavaria. El mismo se encargó de prepararlo y su hija Heidi de hacer sus deseos realidad. Hans había expresado en una entrevista concedida a la agencia Reuters:
No quiero regresar a mi país. Quiero, incluso muerto, quedar en esta mi tierra.
En un cementerio de La Paz, se dice que descansan “simbólicamente” los restos de Mónica Ertl. En realidad nunca le fueron entregados a su padre. Sus reclamos fueron ignorados por las autoridades a partir del hecho. Estos permanecen en algún sitio desconocido del país boliviano. Yacen en una fosa común, sin una cruz, sin un nombre, sin una Bendición de su padre.
Así fue la vida de esta mujer que en un período, al decir de la derecha fascista de aquellos años, campeaba en “el comunismo” y por ende “el terrorismo” en Europa. Para unos su nombre quedó grabado en los jardines de la memoria como guerrillera, asesina o quizá terrorista, para otros como una mujer valiente que cumplió con una misión.
En mi opinión, es el costado femenino de una revolución que luchó por las utopías de su época, y que a la luz de nuestros ojos nos obliga a reflexionar, una vez más sobre esta frase: “Jamás subestime el valor de una mujer”.
Publicado em 17 de maio de 2014 em CONTRAINJERENCIA

http://www.contrainjerencia.com/?p=87650#comment-55743 


No dia em que na Bolívia se celebra o Dia das Mães, em homenagem à coragem das mulheres desarmadas que ousaram enfrentar as tropas realistas --chamadas de "Heroínas de la Coronilla" (Cochabamba, 27 de maio de 1812) -- depois de haverem subjugados os insurgentes comandados por Esteban Arze, conhecer o protagonismo de Monika Ertl, uma revolucionária boliviana de ascendência alemã assassinada por ninguém menos que Klaus Barbie em 1973 (durante a ditadura sanguinária do amaldiçoado Hugo Banzer Suárez, a serviço dos facínoras dos anos de chumbo, é prestar uma dupla homenagem à mulher boliviana, à mãe boliviana e sobretudo à revolução boliviana que algum dia será vitoriosa, pois o seu digno povo assim o deseja.

En este 27 de mayo --fecha en que, en 1812, las Heroínas de la Coronilla enfrentaron digna y corajosamente a los gendarmes del colonialismo español después de que cobardes dirigentes habían claudicado ante las fuerzas realistas, pagando con sus propias vidas por el gesto comandado por Doña Manuela Rodríguez y Terceros (esposa de Esteban Arze) ante la capitulación de sus esposos, padres y hermanos--, conocer la hazaña de Monika Ertl representa un justo homenaje a las madres bolivianas, pues hoy esta fecha también es para festejar a la gran luchadora latinoamericana, la madre boliviana.
!Gloria a Monika Ertl!
!Gloria a las Heroínas de la Coronilla!
!Viva la Madre boliviana!
!Viva la Mujer boliviana!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

ETERNAMENTE GUERREIRA



ETERNAMENTE GUERREIRA

(EM MEMÓRIA DA PROFESSORA MARIA AUXILIADORA FERREIRA)

Neste chuvoso fim-de-semana chegou-nos a notícia do encantamento da querida Professora Maria Auxiliadora Ferreira, incansável e altiva mestra de História desde os áridos tempos do obscurantismo ditatorial. Desafiou e venceu grandes embates, mas na manhã deste fatídico 17 de maio deixou de resistir, com o estoicismo que lhe era peculiar, a um processo de metástase causado por um tumor naquela divina garganta que irradiou saber e dignidade por décadas a fio.

Há exatos 40 anos tive a honra de ser seu aluno por três anos no antigo Centro Educacional Júlia Gonçalves Passarinho. Era março de 1974, quando a então jovem professora se apresentara como titular de História Geral, esclarecendo que por razões curriculares estabelecidas pela legislação vigente (a Lei 5.692/1971, de triste memória) naquele ano a escola não ofereceria História do Brasil. Atitude corajosa, pois naquele mês o regime de 1964 comemorava seu décimo ano de “desenvolvimento com segurança” e todos os educandários do País tinham a obrigação de promover concursos de redação e gincanas patrioteiras para manter o clima “democrático” alardeado pelos estrategistas do “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

Dona de um sorriso espontâneo que explicitava o que não podia falar nos duros anos de chumbo, a Professora Maria Auxiliadora poupara seus alunos do primeiro ano do então segundo grau da apologia forçada a um momento da história bastante controverso mas que na época era inimaginável esboçar-se qualquer questionamento. A inglória tarefa acabara ficando, em nossa turma, para a titular de Organização Social e Política Brasileira, a também querida Professora Elza, que no meio do ano se mudara para Cuiabá. Uma seleta equipe de docentes dignos do maior reconhecimento, entre os quais os hoje saudosos Professores Otaviano Gonçalves da Silveira Júnior, Augusto Alexandrino dos Santos (Malah), Dilermando Luiz Ferra e Alcides dos Santos Mauro.

Instigante, generosa, reflexiva e sobretudo libertária, a Professora Maria Auxiliadora dedicou os melhores dias de sua Vida à formação das novas gerações na escola pública, como uma verdadeira missionária, sem abrir mão de sua contagiante alegria e de suas convicções inabaláveis por um mundo melhor. Ao lado de sua antecessora na disciplina no antigo Ginásio, Professora Lourdes, ela despertou em todos os seus alunos do ensino médio daquela geração o amor, o gosto, pela História (não por acaso a maioria deles seguiu, em nível universitário, as ciências humanas sem hesitação).

Com responsável discrição e prudência, acompanhava o crescimento intelectual de seus alunos tal qual mãe a velar pelos filhos. Ainda depois de nossa turma ter concluído o ensino médio em 1976, ela fazia questão de seguir, com a mesma atenção e generosidade, os passos de seus ex-alunos – todos tratados como amigos, da maneira mais respeitosa e cordial que já tivemos. Não posso esquecer que, ainda na década de 1970, ao lhe comunicar, diante da inexistência no estado do curso de Jornalismo, sobre minha opção pelo curso de História em Campo Grande, o seu entusiástico abraço de acolhida: “Isso mesmo, colega! Já conhecia sua vocação para a História...”

Desde então não foram mais de dez encontros de pouco menos de meia-hora com a agora saudosa Professora Maria Auxiliadora. Em 2007, quando do funeral de uma tia sua, a igualmente guerreira Dona Ernestina Araújo Ferreira, ficamos de nos rever com maior frequência, mas a ironia da Vida nos manteve próximos apenas por esporádicos encontros fortuitos. O último deles foi defronte a um supermercado, há pouco menos de um ano, quando, em indisfarçável tom de despedida, ela disse estar se preparando para fazer tratamento fora de Corumbá para combater um câncer na garganta, sempre com aquele sorriso companheiro, instigante, apoiador...

Manteve até o derradeiro momento de se despedir da Família, dos amigos e colegas a mesma discrição eloquente com que pautou sua Vida e norteou seu sagrado ofício de Professora (com letra maiúscula). A querida Professora Maria Auxiliadora fez, literalmente, História. Agora, eternizada igual luz a abrir horizontes dos que virão depois de nós, inspirará, entusiasmará e sobretudo conspirará (no melhor sentido) a juventude à razão, ao compromisso e à evolução das sociedades humanas – hoje reféns dos que se pretendem donos dos destinos da humanidade, mas que, a exemplo dos impérios que desmoronaram ao longo da História, voltarão à insignificância da qual jamais deveriam ter saído.

Até sempre, querida Professora Maria Auxiliadora! Sua coerência e dedicação se multiplicarão nas mentes e corações das novas gerações, para a felicidade da juventude que renasce todos os dias...

Schabib Hany
(Mensagem de 21 de maio de 2014)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Estimado(a)s Amigo(a)s,
Ao agradecer, em nome de toda a Família, pelos votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, retribuo a todo(a)s o(a)s Amigo(a)s com esta mensagem da Peregrina Sarah Nawajah, uma beduína palestina de 70 anos que passou a Vida praticando a esperança por um mundo menos desigual e mais justo, a despeito da opressão e constantes ataques em que se encontra desde 1948 no lugar em que nasceu e cujos ancestrais estabeleceram sua cultura milenar.
No ano em que perdemos um dos maiores líderes da espécie humana, o imortal Nelson Mandela, e desassossegados como Hugo Chávez saíram de cena (mas deixaram seu legado de luta incansável por uma vida mais digna para a humanidade), não é demais trazer à lembrança dois africanos imortais que há mais de quatro décadas eram silenciados por atos assassinos (comprovados ou não) -- Martin Luther King e Gamal Abdel Nasser -- e dois brasileiros igualmente imortais -- Marçal de Souza e Chico Mendes --, que tombaram pelas coisas boas pelas quais lutavam, sempre a favor da Vida e da Liberdade verdadeira (aquela que não se encontra no mercado e está cada vez mais rara, embora desvalorizada, como tudo que é original e inimitável).
Que as pegadas deixadas pelas pessoas anônimas como a Peregrina Sarah Nawajah, com a mesma dignidade de Mahatma Gandhi, Oscar Niemeyer, Yasser Arafat, George Habash e Túpac Katari, sejam as sendas libertárias para um novo tempo que desde há muito clama por raiar, a despeito das ações repressivas dos que se creem "donos da história" e há séculos saqueiam, humilham e oprimem a humanidade toda.
Fraternalmente,
Schabib
PS: A matéria abaixo foi indicada pelo Companheiro Cláudio Daniel e socializada pela Companheira Caia Fittipaldi, Amigo(a)s do Grupo "Palestina Já", feita pelo Jornalista Diogo Bercito, enviado especial de um jornal paulistano que num passado recente nos fazia acreditar que era confiável, do ponto de vista do leitor, mas que o inexorável devir dos dias nos provou que nunca deixou de merecer seu passado de serviçal dos piores grupos paramilitares que infestaram a ditadura em ações criminosas como a Operação Bandeirantes (OBAN).


Mulher das cavernas
Muçulmana que mora há 45 anos como beduína relata ataques de autoridades israelenses contra sua família
RESUMO Sarah Nawajah é conhecida no acampamento de Susya, na Cisjordânia, como "a peregrina", por ter ido a Meca, cidade sagrada para o islamismo, na Arábia Saudita. "Mas esta terra também é sagrada", diz, sobre a caverna em que vive --apesar da animosidade dos vizinhos, colonos israelenses de Qyriat Arba.
(...) Depoimento a
DIOGO BERCITOENVIADO ESPECIAL A SUSYA (CISJORDÂNIA)
Venho de um vilarejo ocupado, perto de Beer Sheva, tomado em 1948. Meus filhos nasceram aqui, na caverna. É um modo de vida beduíno. Nós vivemos com as ovelhas.
Mudei para cá com meu marido em 1968. Os colonos israelenses tentam nos expulsar. Sofremos muito. Um dia, há cinco anos, eles vieram com seus jipes e destruíram tudo o que nós temos. Eu perdi meu azeite, eles levaram a comida das ovelhas.
No ano passado, estávamos plantando quando nos atacaram. Queimaram nossas videiras, mataram 50 de nossas ovelhas com seus rifles. Eu corria e gritava todo o tempo quando vi aquilo.
Fui reclamar no vilarejo vizinho de Qyriat Arba. Quiseram que eu assinasse um papel dizendo que sou uma causadora de distúrbios. Meus filhos foram presos. Tive de pagar [o equivalente a] R$ 3.500 para tirá-los da prisão.
Há uma torre de vigia aqui perto. Só posso ficar no vale. Se os colonos veem que eu saí, vêm tomar minha casa.
Toda vez que eles me veem, dizem que sou uma puta. Querem tomar a terra.
Tudo o que você vê aqui tem uma ordem de demolição. Não querem que a gente fique aqui. Mas eles, sim, podem ficar. Podem sair. Podem construir. Eu não. Pedi várias vezes ao governo para ter permissão, nunca me deram nada. Querem demolir até o nosso poço de água.
PECADO
Temos dificuldade para trazer ambulâncias. Um dia, meu marido, que já morreu, teve ataque de asma, e o Exército não deixou a ambulância vir. Nós o pusemos em um burro para ir ao hospital.
Dois anos atrás, os israelenses vieram e atiraram um... como se diz? Coquetel molotov. Eles não sabem o que é "haram" [pecado].
Esta é a minha terra. Não quero que tomem de mim. Posso fazer azeite dessas oliveiras e viver disso. Tenho 70 anos. Por quanto tempo consigo lidar com essa situação?
Antes de eles destruírem a caverna, era muito bonito aqui. Nos sentávamos aqui no verão, era lindo. É muito fresco no verão e quente no inverno. Mas eles não querem que a gente viva aqui.
Eu moro na tenda, agora, durante o verão. No inverno, fica frio, então arrumo um canto e venho à caverna.
O governo palestino não pode fazer nada. Nem podem vir até aqui.
SAGRADO
Eu acordo de manhã, rezo, sirvo o café da manhã para as ovelhas e começo o meu dia com os animais. Depois, levo eles para os campos, limpo minha casa e cozinho.
Na temporada, faço manteiga e iogurte do leite das ovelhas. Também planto trigo. Então temos as colheitas.
Na primavera, às vezes a colheita não é boa, então tenho de alimentar os burros com as azeitonas colhidas.
Nossa terra é valiosa. Não vamos entregar aos judeus. Só saio daqui quando morrer. Estou feliz, e só consigo dormir quando estou aqui.
Vou ficar feliz, também, quando todos os colonos forem embora. São monstros.
Uma vez, bati em um soldado. Ele veio nos dizer para sair. Eu atirei um sapato de plástico na cabeça dele. Eles estavam me empurrando!
Fui para a cidade sagrada de Meca duas vezes, por isso me chamam de "hajja [peregrina] Sarah". Mas aqui, esta terra, também é sagrada.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino



Dia de Solidariedade ao Povo Palestino
“Dizemo-lhes:
Cantem pela terra que permanece!
Rebelem-se!
Ensinem nossa história sombria aos filhos
A fim de que nosso sangue
Permaneça na bandeira dos criminosos
Como sinal de catástrofe.”
Mahmoud Darwish (renomado poeta palestino, falecido no exílio em 2008)
Hoje, 29 de novembro, é observado em todo o mundo o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino. Foi instituído pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1977. A data foi escolhida para relembrar o dia da partilha do território da Palestina milenar, ocorrida em 1947 por decisão da própria ONU, sem ter sido consultado o maior interessado – o Povo Palestino, que desde então vive a peregrinar por todos os cantos mundo, sem direito a voltar, sequer para visitar seus familiares e rever seu berço querido, sob pena de ser aprisionado pelos invasores de suas casas, suas plantações e de seu torrão natal.
Como se vê, não é dia festivo. É dia de reflexão e de celebração pelas vidas ceifadas, trabalho espoliado. Aos milhares? Não, aos milhões, pois nestas mais de seis décadas, milhões de palestinos se espalharam pelo mundo. Eles não têm direito a ter direitos. São tratados pior que os judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, e a imprensa mundial finge que nada vê.
E para que a humanidade não se esqueça de que os Palestinos existem faz milhares de anos, e que 65 anos atrás perderam o direito inalienável à sua Pátria milenar, é que reuniões como a de hoje são feitas em todo o mundo. Porque, desde antes de o Ocidente vencer a Guerra Fria, as potências se acham as donas do mundo. Quiseram reparar os danos do nazismo contra os judeus na Europa à custa da tragédia palestina, invadindo, saqueando, difamando, prendendo, torturando e matando com requintes de crueldade os palestinos e demais árabes, como vemos todos os dias pelo noticiário, que insiste em chamar os palestinos, iraquianos, líbios, sírios, libaneses, egípcios, argelinos, iemenitas, tunisianos e tantos outros árabes de “terroristas”, como se patriotismo e coragem de lutar pelo que é seu direito fosse uma heresia, um crime, uma aberração.
Poucos sabem (porque isto não se ensina na maioria das escolas), mas o Renascimento do Ocidente só foi possível graças à verdadeira tolerância e generosidade árabe (“mouros”, na história ocidental), pois, enquanto os senhores feudais e seus aliados queimavam livros e pessoas sob acusação de heresia, os sábios da Arábia conservaram todas as bibliotecas da Antiguidade clássica grega e a traduziram ao árabe.
Aliás, os árabes, que haviam conquistado por mais de oitocentos anos a Península Ibérica, e nem por isso proibiram a fala dos idiomas nativos – no caso o castelhano e o galego, entre outros – ou o culto cristão, tanto que os reinos castelhano e lusitano foram as duas potências ocidentais depois do Renascimento. Já os descendentes lusos, castelhanos, além dos ingleses, franceses e holandeses, quando senhores de outros povos, submeterem com intolerância e humilhação os seus colonizados, a ponto de promover o comércio de pessoas escravas da África e o saque às suas riquezas.
Portanto, a manifestação de solidariedade que os cidadãos libertários do mundo promovem de modo sincero ao Povo Palestino é um ato político em favor da emancipação da humanidade. Não é possível um mundo melhor, se o berço da humanidade estiver convulsionado. E está desde o final da Primeira Guerra Mundial, quando os governos da Inglaterra e da França fizeram um acordo para entregar o território da Palestina aos sionistas do mundo inteiro – da Polônia, Alemanha, Estados Unidos, Rússia, Inglaterra etc.
Mas enquanto existir um árabe no mundo – e enquanto existirem brasileiros, bolivianos, cubanos e demais latino-americanos solidários e altivos, que não se curvem diante da opressão e humilhação –, será possível continuar a lutar por um mundo melhor para os nossos filhos e demais descendentes.
Corumbá e Ladário, aliás, vêm fazendo com pioneirismo desde a década de 1970, quando foram realizadas as primeiras manifestações de solidariedade ao Povo Palestino. Isso fez surgir, na década de 1980, o Comitê de Solidariedade 29 de Novembro (o mais antigo do Centro-Oeste) e a primeira lei municipal em Mato Grosso do Sul, por iniciativa do então vereador do PT Valmir Corrêa, instituindo o Dia de Solidariedade ao Povo Palestino, sancionada pelo saudoso Prefeito Fadah Gattass.
Antes de rotular o Povo Palestino, como a todo o Povo Árabe, de terrorista e intolerante, é preciso ler a verdadeira História da Humanidade e conhecer a contribuição daqueles que não se curvaram e não se curvarão diante da prepotência e da ganância dos senhores da guerra, que levam a morte e a injustiça aos demais povos, e ainda lhes imputam o ódio injustificável, promovendo a pior de todas as mortes – a perda de sua história milenar, sua cultura universal, sua vida cosmopolita.
Como o grande poeta alemão Berthold Brecht disse: “Do rio que tudo arrasta, dizem que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o comprimem.”
A Paz Mundial começa na Palestina!
Ahmad Schabib Hany
Comitê 29 de Novembro de Solidariedade ao Povo Palestino

domingo, 6 de outubro de 2013

Professor Otaviano, garimpador de talentos

Professor Otaviano, garimpador de talentos
Otaviano Gonçalves da Silveira Júnior. Era esse seu nome completo. Professor de Língua Portuguesa e Literatura. Em plena maturidade (aos 42 anos), procedente da capital de São Paulo, chegara a Corumbá, então estado de Mato Grosso, em 1974. No auge do período mais crítico da ditadura que se abatera sobre o Brasil e toda a América do Sul. Com sua jovem esposa, de aproximadamente 25 anos de idade, o Professor Otaviano chamava a atenção por sua desenvoltura, erudição e cordialidade. Eu o conheci aos 15 anos, no então Centro Educacional Júlia Gonçalves Passarinho (mais tarde Escola Estadual Júlia Gonçalves Passarinho, ou JGP), que distava apenas meia quadra de sua modesta casa, localizada na mesma rua da escola, defronte à sede provisória de assistência médica do então Instituto Nacional de Previdência Social (INPS).
Dizem que era filho de um influente oficial da Polícia Militar de São Paulo (criada pelo regime militar, em substituição à Polícia do Exército, e executora do serviço repressivo institucional), coronel Otaviano Gonçalves da Silveira. Dizem também que fora diretor do Colégio Judaico de São Paulo no período anterior à sua saída da capital paulista. O fato é que se tratava de um profundo conhecedor das disciplinas que ministrava (Língua Portuguesa e Literatura), aliás, com bastante desenvoltura, a ponto de dispensar a adoção de livros didáticos, muito comum naquele período em que havia controle absoluto daquilo que era ensinado. O máximo que se permitia, para facilitar a vida dos alunos, preocupados com o vestibular, era a reprodução de um material que se assemelhava a uma apostila, de sua própria autoria, com um resumo esquemático dos temas que estava abordando em sala de aula.
Se ele era colaborador do regime ou simpatizante do sionismo, nunca deixou explícito e muito menos insinuou, nem agia como tal. O Professor Otaviano era, isso sim, generoso em seu ofício de professor. Além de árabe sem qualquer dissimulo, eu era declaradamente simpatizante do socialismo, posições que nunca me questionou nas diversas dissertações (redações escolares em que podíamos expressar nosso ponto de vista), muitas vezes elogiadas e lidas por ele para os colegas. Nos dois anos em que atuou em Corumbá e nos anos seguintes, que antecederam à instalação do novo estado (1979), em que troquei intensa correspondência com ele (ao ponto de enviar e receber três cartas por semana), era extremamente meticuloso nas questões idiomáticas, jamais tendo emitido qualquer juízo de valor sobre os temas que eu abordava, a despeito de minha despreocupada manifestação de pensamento (fosse sobre a questão do Oriente Médio, a Guerra Fria ou a situação da América Latina e do Brasil).
Além de ter proposto interpretação de poemas de Chico Buarque (“Roda Viva”) e Vinícius de Moraes (“Rosa de Hiroshima”), exaustivamente discutidos em sala de aula com total liberdade, o Professor Otaviano incentivou a organização de um jornal estudantil (o qual acabou ganhando a dimensão de meio interescolar), apesar da posição contrária do então diretor da escola, um medíocre vereador da Arena (partido de sustentação do regime) que mais tarde se afastara para tentar sua reeleição. A um reduzido grupo de alunos, com os quais tratava do jornal e de outras atividades extracurriculares, revelara que quando estudante fora revisor e repórter da Folha de S.Paulo, onde também trabalhava sua tia, a crítica de televisão Helena Silveira (titular da coluna “Helena Silveira vê TV”, na Folha Ilustrada).
Depois de ter lecionado na famosa escola campo-grandense MACE (Moderna Associação Campo-grandense de Ensino), ele foi chamado pelo então reitor da UEMT (Universidade Estadual de Mato Grosso), João Pereira da Rosa, para ser seu chefe de gabinete. Quando, em 1979, me mudei para Campo Grande, tendo trocado Letras por História, ele havia sido transferido para Dourados, onde assumira a direção do CEUD (Centro Universitário de Dourados). Nesse período eu perdi o contato com ele, pois enquanto eu dava vazão à ânsia juvenil de entrar para o movimento estudantil, ficara sabendo que ele, como diretor do CEUD, havia chamado a polícia para os estudantes do curso de Agronomia que, em greve, reivindicavam a contratação de professores para o curso. Isso, para mim, foi uma ducha de água fria.
Mas, acredito que em 1984, como repórter de um diário de Campo Grande, eu o procurara para que me desse informações relativas ao CCHS (Centro de Ciências Humanas e Sociais da agora UFMS, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), de cuja direção era titular, e aproveitamos de conversar rapidamente. Era fim do mandato do reitor Edgar Zardo e havia uma intensa articulação que culminou com a eleição do reitor Jair Madureira, que havia conseguido um amplo arco de alianças na Universidade Federal, reunindo professores da esquerda à direita, refletindo o momento que antecedeu à Nova República em nível nacional.
Algum tempo depois, acredito que em 1985, quando eu retornara a Corumbá como correspondente de outro diário de Campo Grande, encontrei-o na rua Frei Mariano, perto da avenida General Rondon. Então responsável pela Comunicação Social da UFMS, o Professor Otaviano estava em serviço e aproveitava as horas que antecediam o horário de partida do trem noturno para matar saudades de Corumbá e do imponente rio Paraguai. Eu estava em companhia da querida Amiga Sílvia Maria Costa Nicola, agrônoma, a primeira pesquisadora e primeira mestra da Embrapa Pantanal (à época CPAP, ou Centro de Pesquisas Agropecuárias do Pantanal), e conversáramos por alguns minutos. Ele estava cheio de planos para a Comunicação Social da UFMS, e eu lhe falara rapidamente dos projetos que me motivavam então. Foi o nosso diálogo derradeiro.
Uma década depois, soube por amigos que ele se aposentara por ter sofrido sérias lesões causadas por dois AVC (acidentes vasculares cerebrais), havendo ficado preso a uma cadeira de rodas. Havia sido visto por ex-colegas circulando solitário pelas ruas centrais da capital, motivo pelo qual fora socorrido, em fins de 1997, por sua Mãe e levado para morar com ela em São Paulo. Em 1999 permaneci alguns meses naquela cidade e tentei por todos os meios entrar em contato com o Professor Otaviano, mas não tive sucesso. Algum tempo depois, quando estava trabalhando em Campo Grande, tive a sorte de falar com o também querido Professor Altevir Alberton, compadre seu, e foi ele e a esposa que me deram a triste notícia de seu falecimento um ano antes (em 5 de junho de 1998), em São Paulo, aliás, meses antes de sua Mãe, que o cuidou até os últimos momentos de vida.
A única homenagem existente em Mato Grosso do Sul ao brilhante Professor Otaviano é a Escola Estadual Professor Otaviano Gonçalves da Silveira Júnior, no Lar do Trabalhador, em Campo Grande. Na Universidade Federal, nada: nem na capital e muito menos em Corumbá, por onde chegou ao estado. Já passa da hora de resgatar a sua memória pelo seu generoso legado, independentemente de quaisquer divergências políticas ou ideológicas que possam ter ocorrido ao longo daquele período de embates intensos. O fato é que, mais que Professor (desses com letra maiúscula), foi um garimpador de talentos, que com muita generosidade soube lapidar sem exercer qualquer influência, em termos ideológicos, sobre os inúmeros alunos de orientou quase paternalmente.
Há pouco mais de três anos, construímos um blog, o “Alunos do Professor Otaviano Gonçalves da Silveira Júnior” (http://alunosdoprofotaviano.blogspot.com.br/) para iniciar um movimento de resgate de sua memória. Decorrido todo esse tempo, retomo esta temática para “cutucar” a consciência adormecida de seus ex-alunos e amigos que deixou nesta terra de tanta ingratidão para que se faça algo em sua memória, pois quem esquece seus mestres não merece conhecer nem aquilo que recebeu daqueles cujos nomes sequer guardou em seu cérebro.
Ahmad Schabib Hany
(Mensagem de 6 de outubro de 2013)