quinta-feira, 15 de junho de 2023

CATORZE ANOS DE SAUDADE DA PEREGRINA DE DOCE OLHAR

Catorze anos de saudade da Peregrina de doce olhar

Neste 15 de junho completam-se 14 anos de saudade infinita da Peregrina de doce olhar. Uma ausência doída e eterna, em que o tempo apenas atenua o que é impossível de apagar. Em sua homenagem, republico a homenagem feita há quatro anos.

Dona Yoya, em seus dez anos de eternidade

15 de junho de 2009, seis horas e cinquenta minutos, em um dos apartamentos do hospital da Unimed de Campo Grande. Dona Yoya, nossa Mãe -- progenitora de nada menos que nove filhos vivos: seis mulheres e três homens --, dá seu último suspiro sobre o leito em que permaneceu por aproximadamente uma semana, da mesma forma como viveu, estoica e discretamente. Uma mulher que não se valeu de sua prole para justificar qualquer acovardamento: ao contrário, soube lutar com toda a dignidade e coragem, até para despertar entre seus filhos a altivez com que pautou sua Vida.

A Irmã que a assistiu diuturnamente, por ser médica e bastante resiliente, disse que esboçara um discreto sorriso, num misto de gratidão e alívio. Talvez fosse o seu modo de se despedir e ao mesmo tempo induzir estímulo para continuar a luta. Tanto para Dona Yoya como para Seu Schabib, nosso Pai, a Vida foi um chamado à resistência, à luta, não para abocanhar vantagens ou conquistas fáceis, mas para, com dignidade e ética, assumir grandes causas sem abandonar as obrigações de Pais responsáveis (desses com letra maiúscula).

Nascida em 11 de março de 1926, em plena Amazônia boliviana (San Joaquín de las Aguas Dulces, no Departamento de Beni), Wadia Al Hany Ascimani, desde tenra idade chamda de Yoya (tida por segunda mãe de seus Irmãos), era a segunda filha nascida viva de dez filhos do casal constituído pelo dentista libanês Youssef Al Hany e a jovem senhora Guadalupe Ascimani de Hany, boliviana de Pai libanês. Além do gosto pela costura e o cuidado com a Família, Dona Yoya herdara da Mãe o autodidatismo, pois, com as limitações impostas às mulheres no início do século XX, ler e escrever em casa era exigência mínima que se fazia às mulheres emancipadas.

Dona Guadalupe Ascimani de Hany, nossa saudosa Avó (com letra maiúscula), viveu intensamente o século XX em todas as suas profundas transformações. Não sem propósito, costumava advertir as filhas menores, que não tiveram sorte com seus respectivos companheiros -- como foi o caso da Tia Nena, May Teresa Hany de Paz, falecida há um ano e meio, a despeito de sua formação em odontologia, igual ao nosso Avô Youssef Al Hany, num tempo em que ser dentista na Bolívia profunda implicava em salvar vidas tal qual médico de campanha. Leitora de clássicos da literatura universal, Dona Guadalupe questionava as filhas por não terem sabido escolher bem seu pretendente: como eu, nascida e criada em um povoado com menos de cinco mil habitantes, pude me casar com um Doutor jovem, bonito e culto, enquanto vocês, com todos os estudos e currículo, só encontraram seres medíocres, sem qualquer atributo e destituídos de companheirismo?

Além da saúde física e psicológica para criar, educar e formar nove filhos em condições adversas, Dona Yoya tirou de seu âmago uma capacidade de resistência que se forjou numa luta interminável desde 1960, ano em que enfrentou praticamente sozinha, uma crise econômica sem precedentes na Bolívia da Revolução de Abril de 1952, quando já estava casada e com três filhos nascidos e um por nascer (dois meninos e duas meninas). Como nosso Pai era perseguido por sua atuação no jornalismo político e na intelectualidade de Cochabamba, nossa Mãe ousou desafiar milícias xenófobas que ameaçavam mulheres sozinhas em nome de um bizarro patriotismo, coisa que em nossos dias aflorou em território deste país-continente, em que o ódio toma conta da racionalidade e a violência sem precedentes toma conta de nosso cotidiano desesperador.

Primeiro no Líbano, para onde partimos de trem e depois de barco no início da década de 1960 em oito irmãos (a caçula nascera no Líbano dois anos depois) com nossos Pais, terra-natal do hoje saudoso Seu Schabib, mas que por razões de sobrevivência precisou se deslocar para a África a fim de cobrir jornalisticamente os movimentos de emancipação da Argélia, Líbia e Sudão (além do Egito, então República Árabe Unida, liderada pelo saudoso líder pan-arabista Gamal Abdel Nasser). Assim como na Bolívia de Victor Paz Estenssoro, no Líbano de Fuad Chehab (sob influência de Camile Chamoun) Dona Yoya soube fazer frente às investidas dos gendarmes que tentavam intimidar seu Companheiro e sua Família: além de ter granjeado a amizade de familiares que só conheceu quando foi para a terra dos ancestrais de seu Pai e do Pai de sua Mãe, os familiares de seu cônjuge fizeram de tudo para que permanecêssemos lá, mas a acuidade política de Seu Schabib já detectava a guerra civil fratricida que viria a eclodir uma década depois para destruir o país.

A escolha de Corumbá, no coração da América do Sul não foi casual: tratava-se de lutar pela sobrevivência num novo país, mas sem perder os vínculos com a Bolívia, em cujo território não só se encontravam vivos os Pais de Dona Yoya mas também a conclusão dos estudos dos filhos mais velhos. No entanto, o ciclo militar da história política da Bolívia (1964-1982), em que sucessivos golpes ensanguentaram o povo boliviano, acabou provocando uma tragédia familiar, que foi a morte aos 25 anos, em circunstâncias não elucidadas, de nosso Irmão mais velho, Mohamed Schabib Hany. De todas as adversidades enfrentadas em Vida, essa por certo foi a mais traumática e irreparável, razão pela qual toda a nossa Família tem “nojo e ódio à ditadura” (nas sábias palavras de Ulysses Guimarães).

A maturidade precoce e uma sabedoria inesgotável fizeram de nossa Mãe a discreta guerreira, determinada em seus generosos propósitos e ao mesmo tempo uma solidária companheira em todos os momentos de sua prole, que a partir de meados da década de 1980 dá início à segunda geração, com a chegada do(a)s neto(a)s ao longo de duas décadas: Igor, Luana, Janen, Hanen, Neder, Pedro, Dunia, Omar e Sofia. Não pôde conhecer a caçulinha dos netos e o primogênito dos bisnetos, o Nícolas (Filho de Igor e Fernanda), mas cujo legado por certo guiará todos os descendentes como fonte inspiradora de caráter inatacável, temperado na incansável lide de emigrantes peregrinos que cruzaram oceanos, percorreram continentes, abriram horizontes e semearam generosos ideais.

Com Dona Yoya e Seu Schabib é que aprendemos desde tenra idade que a humanidade é uma só, e que para o mundo se tornar melhor nós precisamos ser melhor desde nosso interior. Mais que um exemplo concreto, eis uma razão de ser, sobretudo nestes nada generosos tempos. Mas que os levaremos sempre conosco, como as gratas recordações de sua presença em nossas vidas...

Ahmad Schabib Hany

domingo, 11 de junho de 2023

AUGUSTO CÉSAR PROENÇA, REFERÊNCIA SEMPRE PRESENTE

Augusto César Proença, referência sempre presente

Escritor, memorialista, professor, roteirista e cidadão à frente de seu tempo, Augusto César Proença se eterniza no momento em que é necessária a preservação do patrimônio cultural imaterial e seu elegante estilo de registro, como nunca, é imprescindível.

Pelas mensagens consternadas de quatro Amigos queridos -- Armando Lacerda, Raquel Paulino, Luiz Taques e Edson Moraes -- acabo por me inteirar da fatídica notícia sobre a eternização do querido e agora saudoso Amigo e Companheiro de grandes causas Augusto César Proença.

Por meio do Armando Lacerda (então diretor da Urucum Mineração), em 1991, tive a honra de conhecer pessoalmente esse gigante, ser humano à frente de seu tempo. Estávamos em junho daquele ano, sob o governo faraônico de Pedro Pedrossian, que usava toda a sua sanha para antagonizar com a administração do Doutor Fadah Scaff Gattass, então prefeito de Corumbá.

A Casa de Cultura Luiz de Albuquerque (popular ILA) não apenas estava parecendo um mausoléu, como a gestão do principal centro cultural era prejudicada pelas disputas entre as diferentes forças políticas que se haviam aliado para derrotar os partidos progressistas que vinham administrando o estado desde a vitória do Doutor Wilson Barbosa Martins, em 1982.

A primeira vítima dessas disputas internas foi o saudoso Doutor Lécio Gomes de Souza, diretor do inicialmente (em 1978) Instituto de Estudos e Pesquisas Regionais Luiz de Albuquerque (ILA) e depois Casa de Cultura Luiz de Albuquerque (a partir de 1983, com a criação da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, pelo Doutor Wilson Barbosa Martins, e por seu primeiro presidente, o saudoso advogado e pesquisador José Octávio Guizzo).

Numa tentativa consenso, o saudoso Doutor Salomão Baruki foi nomeado para o ILA pela representatividade que detinha (afinal, como titular da Secretaria de Educação e Cultura do governo do Doutor Cássio Leite de Barros, último governador de Mato Grosso uno, foi ele que nomeara o Doutor Lécio Gomes de Souza diretor do ILA tão logo de sua criação). No entanto, em menos de 50 dias, foi publicada sua exoneração no Diário Oficial, sem ter sido previamente comunicado, num gesto de grosseria absurda.

Essa sucessão de nomeações e exonerações foi tão desgastante e o estado de abandono do prédio e do acervo bibliotecário e documental do ILA me incentivou a tomar a iniciativa de conversar com um saudoso Amigo herdado de meu Pai, o Senhor Lincoln Gomes de Souza, então responsável pela Carteira de Comércio Exterior da Agência do Banco do Brasil em Corumbá, além de aficionado da cultura.

Ex-colega de meu saudoso Irmão Mohamed no curso de Psicologia do então CPC/UEMT, o Senhor Lincoln Gomes não titubeou a aceitar o desafio de integrar uma comissão do que viria a ser a Sociedade dos Amigos da Cultura. Fomos às duas emissoras de rádio AM de então e nos dois programas de entrevistas do meio-dia o Senhor Lincoln e eu fizemos um apelo às pessoas sensíveis à questão da cultura e do patrimônio histórico regional. Ao tempo em que fomos ao gabinete do Prefeito e ao escritório político do deputado Armando Anache para convidá-los para integrar os esforços pela revitalização de nosso maior centro cultural regional, visitamos os consultórios do Doutor Salomão Baruki e do então vereador, saudoso Doutor Lamartine Figueiredo Costa (parente distante do então sucessor do Doutor Salomão na direção do ILA, embora em campos políticos diferentes).

Logo na primeira reunião, lá estava o Senhor Augusto César Proença, que não só apoiou todas as iniciativas como colocou seu nome para integrar a coordenação. Ele era uma referência nas letras desde a juventude: foi secretário de redação do diário O Momento em meados da década de 1950, antes de se mudar para o Rio de Janeiro, onde fez Letras e trabalhou com seu Padrinho de ofício (e Tio pelo lado materno), o renomado crítico literário M. (de Manoel) Cavalcanti Proença.

Humilde, disciplinado e generoso, Augusto César se revelou, ao lado do Senhor Lincoln Gomes, um incansável e dedicado sensibilizador. Com a consigna “Abra seu coração para a Cultura: adote o ILA”, a Primeira Semana da Cultura, entre 14 e 20 de setembro, das 16 horas às 21 horas, as diversas atividades artístico-culturais foram determinantes para alavancar um novo momento para a Casa de Cultura, que em menos de um ano passou por uma primeira reforma, para ser revitalizada em 1995, primeiro ano do segundo mandato do Doutor Wilson Martins, com a eficiente participação da Professora Idara Duncan Negreiros, então presidente da Fundação de Cultura de MS.

Além de ter sido vencedor de um concurso nacional em Brasília com seu primeiro livro de contos, Snack Bar (1979), Proença foi colaborador e integrante da primeira turma do O Pasquim (tempo da emblemática Editora Codecri, sigla do irreverente Comitê de Defesa do Crioléu), em Ipanema. Nesse período é que decidiu viver em Nova York por algum tempo, quando começou a elaborar as ideias gerais do que seria mais tarde o seu extraordinário Pantanal: gente, tradição e história, inicialmente lançado pela Editora da UFMS (1993), tendo-me dado a generosa oportunidade de ser seu revisor.

Discreto e profundamente introvertido, essas conquistas suas foram reveladas por seus queridos Amigos como os Senhores Celso e José Luiz (cujos sobrenomes não posso grafá-los por ora) e são confirmadas por contemporâneos que têm uma admiração inequívoca. No entanto, sou testemunha de sua vitória no concurso da Rádio França Internacional do conto Nessa poeira não vem seu pai (1993). Nas poucas, mas inesquecíveis, visitas que fiz à sua gigantesca biblioteca, herdada de seu igualmente saudoso Pai, o Doutor Nheco Gomes da Silva, há uma inesgotável fonte de conhecimento e de saber, próprio dos seres alados que fazem de sua existência uma via iluminada para décadas, séculos e, provavelmente, milênios vindouros.

Sua gestão no ILA, a pesquisa que resultou no Corumbá de todas as graças e a incansável participação na fundação do CENPER e da OCCA, na construção do Pacto pela Cidadania e no Comitê de Monitoramento do Programa Pantanal são a prova cabal e inquestionável de seu desapego por cargos, vaidades e veleidades. Sincero, sempre, em tudo o que o cativava e sem qualquer outro propósito que o compromisso com o coletivo, o senhor Augusto César Proença escreveu de modo universal e consistente os maiores passos que nos últimos 50 anos pudemos dar para a humanidade, ou melhor, para a História.

Afinal, a terra que fecundou a cosmovisão de Manoel de Barros, Lobivar Mattos, Wega Nery, Carmen Portinho, Graziela Barroso, Jorapimo, Augusto César Proença, Apolônio de Carvalho, Augusto Alexandrino dos Santos (Malah), Heloísa Urt e tantas outras cabeças iluminadas não menos importantes (e me desculpem não citar os que estão entre nós), é e será um celeiro, fonte inesgotável de talento sem fim. Mas, confesso, minha maior frustração foi ter visto em sua terra natal, para a qual Proença retornou há mais de 30 anos, um certo ar de indiferença quando ele, nas ruas ao lado do povo que tanto amava e pelo qual dedicou seu talento gigantesco, passeava solitário e compenetrado, mas sempre gentil, educado e atento, não lhe foi dado o afeto e o reconhecimento que tanto merecia.

Até sempre, querido Amigo Augusto César Proença! O Senhor e suas virtudes germinam e continuarão a germinar enquanto a humanidade trilhar pelo caminho da civilização. Obrigado pelas inesgotáveis lições de inabalável compromisso com o seu semelhante e de desapego da frivolidade com que marcou sua presença perene entre nós e nossos descendentes!

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 8 de junho de 2023

UM ANO SEM BRUNO PEREIRA E DOM PHILLIPS


 Um ano sem Bruno Pereira e Dom Phillips

No Dia Mundial do Meio Ambiente, fez um ano o covarde assassinato do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. Apesar do esforço do atual governo federal, a região continua tomada por quadrilhas de grileiros, garimpeiros, madeireiros e mineradores ilegais, estimulados pela ação/omissão do palerma que tomou de assalto os destinos da nação em 2018.

Neste 5 de junho, no coração da Amazônia, Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Brasília, e em diversas metrópoles do planeta, como Londres e Nova York, o indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips foram homenageados em seu primeiro ano de eternização, causada por um covarde atentado com requintes de crueldade.

As homenagens ocorreram no cinquentenário do Dia Mundial do Meio Ambiente, criado na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, 1972. Biomas como Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Chaco têm sido foco de atenção no planeta. Diferentemente de reacionários negacionistas, que vivem a enxergar chifre em cabeça de cavalo, a causa ambiental e a defesa da igualdade racial não têm donos nem ideologia: todo ser humano consciente tem esse compromisso de vida e, portanto, uma ação sincera, espontânea.

As respectivas viúvas, Beatriz Matos e Alessandra Sampaio, deixaram depoimentos muito emocionados, pois seus companheiros eram muito amados por suas famílias e amigos -- e, no caso de Bruno, pai muito presente, mesmo trabalhando a milhares de quilômetros de seus filhos. O mandante e seus matadores, membros de quadrilhas poderosas (ligadas a políticos delinquentes, da base de apoio ao inominável), foram incapazes de um gesto de racionalidade e de empatia.

O covarde assassinato, com requintes de crueldade, de Bruno e Dom, no Vale do Javari, coração da Amazônia, fez um ano, mas o terror continua. Apesar do esforço do governo federal, a região permanece tomada por quadrilhas do crime organizado (traficantes, grileiros, garimpeiros, madeireiros e mineradores ilegais) incentivados pela ação-omissão do palerma que tomou de assalto os destinos da nação em 2018.

A sucessão de crimes, em sua maioria impune (como, aliás, a execução da Vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes), tem sido estimulada pela conivência (na verdade, prevaricação criminosa, passível de sanção) de diversos agentes do Estado, cooptados pela ideologia miliciana daquele quase desertor cujo futuro político já está traçado, em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF). Em questão de dias, semana talvez, ele e seus asseclas encontrarão o que merecem, não perdem por esperar.

É fundamental registrar a atuação de repórteres investigativos de portais independentes e, inclusive, Sônia Bridi e Paulo Zero, que, além de fazer uma reconstituição da barbárie cometida com o afã de silenciar os que deram voz e vez a povos originários isolados (não só no Vale do Javari, como em outras regiões da Amazônia), resgataram pertences de Bruno e de Dom, entre eles o celular do indigenista, com provas irrefutáveis da sanha perversa da poderosa quadrilha mandante (e seus vínculos com organizações criminosas bem próximas de milícias acochadas do inominável e hordas, igualmente mefistofélicas).

Óbvio que precisamos estar atentos à ação sub-reptícia das ratazanas que vivem nos putrefatos esgotos do submundo do crime. Essas ratazanas foram superdimensionadas na representação parlamentar, em níveis estadual e federal, nos pleitos que se sucederam ao golpe em série de 2016-2018, base de apoio ao desgoverno genocida. Não por acaso, a aprovação açodada, a toque de caixa, pelo plenário da Câmara do Marco Temporal, da flexibilização da fiscalização e repressão ao desmatamento criminoso do cerrado e do esvaziamento dos ministérios do Meio Ambiente e dos Povos Originários, dias atrás.

Não é mantra (mas bem que poderia ser, de modo a iluminar as mentes obscuras desses perversos que vivem, como abutres, da tragédia humana), mas devemos reiterar sempre que possível a fala profética do líder originário andino Julián Apaza, o célebre Túpac Katari, quando condenado a esquartejamento pelos algozes colonizadores: “Somente a mim matareis, mas amanhã voltarei e serei milhões.” A Bolívia é testemunha da profecia (basta ver o destino de golpistas genocidas bolivianos, como Jeanine Áñez, Hugo Banzer, além de seu ‘padrinho’, o inominável). E toda vez que um ou mais aventureiros atentam contra os povos originários, a condenação é inevitável, vem a galope.

Assim como no martírio da Irmã Dorothy Stang, de Chico Mendes, de Marçal de Souza e, obviamente, de Marielle Franco e Anderson Gomes, não há sentença capaz de trazer as vítimas dos pistoleiros de aluguel de volta para seus lares, para o convívio com os seus e, sobretudo, para dar continuidade à sua sagrada labuta, covarde e traiçoeiramente interrompida. Que no Corpus Christi a infinita Luz se faça Presença e Amor incondicional para dar alento, afago, alívio aos corações esquartejados dos Túpac Katari hodiernos e seus desolados e inconsoláveis enlutados (em espanhol, deudos, ainda mais eloquente).

Ao concluir, gostaria de fazer chegar meus profundos sentimentos à Família e Amigo(a)s do Professor Carlos Augusto Espíndola, cuja súbita eternização tomou de perplexidade a todos, que pudemos vê-lo (e nos cumprimentar fraternalmente) no sábado anterior à sua partida em reunião pedagógica na escola de nossos Filhos. Desde que o conheci, há exatos 40 anos, quando cursava História no à época CEUC/UFMS, sua conduta discreta e constante o credenciou aos diferentes cargos que conquistou em sua vitoriosa carreira profissional, sobretudo como discreto e leal assessor da saudosa Professora Terezinha Baruki há três décadas, e desde então um incondicional e fraternal Amigo seu de todas as horas.

Ahmad Schabib Hany

Crédito da foto de Marçal de Souza: Jornalista Maria Helena Brancher (reproduzida em matéria do CIMI/MS), uma das fundadoras do GAIN-MS (Grupo de Apoio ao Índio), em 1980.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

ASSOMBRAÇÕES DO OBSCURANTISMO

Assombrações do obscurantismo

Roberto Campos Neto, Arthur Lira et caterva são, sim, herança maldita do inominável e do golpe de 2016-2018, em que Eduardo Cunha, Romero Jucá, Aéreo Never, Augusto Heleno, Eduardo Vilas Boas, Sérgio Etchegoyen, Deltan Dallagnol, Sérgio Moro e seus padrinhos desembargadores de Porto Alegre são parceiros.

A extenuante batalha pela aprovação da Medida Provisória da Reforma Ministerial do Presidente Lula dá a mostra precisa do campo minado em que se transformou a política brasileira depois do golpe em série de 2016 a 2018. Contra a Presidenta Dilma Rousseff, Eduardo Cunha, Romero Jucá e Aéreo Never trouxeram para seu centro gravitacional golpista os mais desprezíveis personagens saídos dos esgotos do submundo do fascismo mais cínico, travestido de ‘patriotismo’.

Oriundo do baixo clero, cujo representante apoteótico foi o execrável Eduardo Cunha e sua sanha contra Dilma e o Estado de Direito, Arthur Lira se aliou ao inominável e assim ganhou um poder que foi além da presidência da Câmara, ao gerir o nefasto ‘orçamento secreto’ para avalizar um desgoverno genocida e dar-lhe uma sobrevida inimaginável (além da tentativa frustrada de garantir ao palerma desmiolado um segundo mandato). Destituído de opção, o Presidente Lula precisou partir para o pragmatismo e sinalizou à sua base de apoio despejar seus votos em sua candidatura à reeleição na presidência da Câmara. Mas Lira não perde tempo, e o tempo todo atenta contra o governo, tal qual o seu mestre Cunha: criou a CPI do MST para acuar o atual governo, aprovou o PL do Marco Temporal a fim de afrontar o Supremo Tribunal Federal (STF) e enxertou perversidades no projeto de reforma ministerial constante da primeira Medida Provisória do Presidente Lula, esvaziando ministérios como o dos Povos Originários e o do Meio Ambiente.

Lira tem as patas enterradas na lama da podridão do desgoverno miliciano, e com isso, igual o ‘finado’ Eduardo Cunha, tenta manter-se ‘blindado’. Não hesita em posar como ‘primeiro-ministro’ num país de tradição presidencialista. Não por razões democráticas e doutrinárias, como era o saudoso e insubstituível Doutor Ulysses Guimarães: ele não passa de uma hiena saída do esgoto do baixo clero, ávido de poder e de dinheiro, como aos poucos vão se evidenciando as pegadas de sua ‘escalada política’. Ao lado de outra herança maldita do inominável, o neto de Roberto Campos, guindado ao Banco Central pelo quase desertor hoje às voltas com o STF, constituem campo minado para impedir Lula, estadista reconhecido mundialmente, fazer de seu terceiro mandato um resgate das conquistas sociais para a imensa maioria da população brasileira.

Mas há outras assombrações que conspiram contra o Estado de Direito e a democracia que a sociedade civil levou décadas para conquistar. É o caso de um dos maiores porta-vozes da ratazana política brasileira, Romero Jucá, em cujo rastro muitos aliados do inominável surfam, sobretudo, na Região Norte do país. Também há o neto do grande democrata brasileiro, que ao lado de Ulysses dirigiu a Frente Democrática nos anos de chumbo, Tancredo Neves. Trata-se de Aéreo Never, o playboyzinho que por pura vaidade e ganância (além do vício) desonrou a memória do Avô cuja saída de cena na véspera de sua posse como primeiro presidente civil depois da ditadura ainda é um mistério neste país de tramas e tramoias das que até Deus duvida.

Pivô da ‘primavera tropical’ enxertada pelos agentes da espionagem do império em franca decadência, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol et caterva (a republiqueta da ‘Leva Jeito’, do ‘cançei’, ‘mbl’ e ‘vem pra rua’ e assemelhados), como verdadeiros néscios -- movidos mais por sua vaidade que pela inteligência, que não têm --, a despeito de todos os holofotes e ‘efeitos especiais’ do pseudojornalismo das famiglias Marinho, Mesquita, Frias e Civita entre 2013 e 2019, encontram-se em franca dissolução. Depois de Urinol, mais dia, menos dia, será a vez do marreco de Maringá e de sua conja.

Dispensam apresentação: Augusto Heleno, ex-ajudante de ordens de Sylvio Frota, punido pelo general-presidente Ernesto Geisel por tentativa de golpe em 1977 contra o militar estadista que empreendeu a ‘distensão lenta, gradual e segura’ rumo à democratização; Eduardo Vilas Boas, que como comandante de sua força nomeado por Dilma Rousseff não hesitou em tramar contra ela e atentar contra o Estado de Direito ao subscrever um manifesto que afrontou a independência dos Poderes, um dos cânones da República, em nome de uma conjuração antidemocrática cujo saldo foi a ascensão do inominável e o desastre por ação/omissão ao longo de um período vergonhoso em que o país foi pária no concerto das nações e milhares de brasileiros perderam a vida injustificavelmente; Sérgio Etchegoyen, cujo comportamento autoritário e antinacional tem bases anteriores ao regime de 1964, de cujo período mais funesto, entre 1971 e 1974, seu tio e seu pai tiveram protagonismo registrado na história (o tio, coronel Cyro, era temido comandante da ‘Casa da Morte’, centro de tortura em Petrópolis, e o pai, Leo, assessor de Médici e comandante regional de sua força entre 1979 e 1982), tanto quanto seu avô, Alcides, que não só teve parte no golpe contra Washington Luiz em 1930, na conspiração contra Getúlio Vargas em 1954 e na tentativa de golpe contra os então recém-eleitos Juscelino Kubitschek e João Goulart em 1955, desarticulada pelo Marechal Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra (pasta equivalente à Defesa) legalista, depois candidato a presidente pela coligação PSD-PTB derrotada por Jânio Quadros em 1960.

É por essa razão que os verdadeiramente comprometidos com a defesa do Estado de Direito e com a Democracia pós-1988 no Brasil não devem (nem podem) ficar dando asas às especulações mesquinhas. Desde antes da posse do Presidente Lula os estrategistas e analistas políticos sérios vêm alertando que Lula tem desafios invisíveis para a maioria da sociedade: as minas deixadas não só pelo inominável, mas, sobretudo, pelo golpista mais cínico de todos os tempos, o ‘brimo’ temer (minúsculo, como sua alma indigna). É dele que partiu o leque de reformas constitucionais que vêm impedindo o atual governo de fazer seu projeto -- exequível e já comprovado -- se concretizar.

Não é ‘custo Brasil’, e muito menos ‘segurança jurídica’, o que trava Lula e seu sábio ministério da Frente Ampla (na verdade, de Reconstrução Nacional) devolver às imensas camadas populares as suas sagradas conquistas, de reaver a elevação do nível de vida já experimentado há menos de 10 anos. São as assombrações do obscurantismo, a herança maldita do inominável e do golpe em série de 2016 e 2018, as que vêm freando a retomada do crescimento, a distribuição de renda e o funcionamento pleno das políticas públicas sociais, sanitárias, educacionais, culturais, econômicas e tecnológicas neste país em que a casa grande foi transplantada do século XIX para os nossos dias pelas funestas mãos das elites canalhas, que não se envergonham de tanta indignidade.

Ahmad Schabib Hany