domingo, 12 de fevereiro de 2023

A VIDA E A HISTÓRIA SOB ESCOMBROS

A Vida e a História sob escombros


Como se o terremoto fosse a única tragédia, Síria e Turquia, duas repúblicas vítimas da islamofobia desde as Cruzadas (sobretudo na Europa e América do Norte), vivem o drama de serem ‘diferentes’, a despeito das generosas contribuições dos árabes para a humanidade, desde a Antiguidade Clássica e Idade Média.

Desde o dia 5 de fevereiro o mundo assiste ao drama dos sobreviventes sob os escombros causados por um terremoto (na verdade, vários abalos sísmicos de grande magnitude) na Síria e na Turquia, cujo número de vítimas não para de crescer (até o momento, mais de 25 mil pessoas mortas nos dois países). As imagens demonstram, mais que os estragos materiais, a angústia de familiares e socorristas na ânsia de salvar o maior número de sobreviventes, bebês, crianças, puérperas, jovens, adultos, sobretudo idosos.

O mundo todo se mobiliza, cada país como pode, para prestar sua solidariedade urgente e fundamental. O Brasil, como é de sua tradição, já enviou missão para ajudar a mitigar a crise humanitária decorrente dessa que é considerada uma das cinco maiores tragédias do século XXI. Os impactos desse flagelo são agravados na Síria, por conta da guerra civil de 12 anos, estimulada, sobretudo, pelos Estados Unidos e Israel, em sua sanha de terminar de se apossar de um dos focos mais aguerridos da resistência ao ávido expansionismo sionista dos últimos 70 anos.

Só sendo muito desatento(a) ou ingênuo(a) demais para não perceber a diferença entre a cobertura ao flagelo na Síria e na Turquia pela mídia corporativa. Embora não morra de amores pelo fundamentalista turco Recep Tayyip Endorğan -- que fez carreira política como ‘islâmico’ e, sob pressão da OTAN e da União Europeia, fundou um partido ‘social-conservador’ (que defende o liberalismo econômico e a pauta dos costumes, tal qual o pateta inominável e seu amo e senhor, o pato Donald, Trump, que também poderia ser chamado de Fanta Laranja) --, a cobertura realizada em território turco tem enfoque ‘humanizado’, repleta de sensibilidade e empatia.

Não se pode dizer o mesmo da cobertura baseada em território sírio, em que o foco está dividido entre a narrativa ideologizada pelos falcões do Pentágono (para justificar a sua sanguinária invasão desde 2010, que destruiu o milenar território mediante mercenários ‘democratas’ depois revelada a sua verdadeira face terrorista, os sinistros ISIS e ‘Estado Islâmico’ (treinados e armados pelo Mossad, o serviço secreto sionista). Mas isso veio à tona depois de terem sido desmascarados e parcialmente destruídos por forças regulares do exército sírio graças ao apoio russo, cuja força aérea levou à saída, sob pressão, de assessores militares estadunidenses, daí a ‘reiva’ com Vladimir Putin).

A localização estratégica da Síria, cujo governo havia celebrado um tratado com a Rússia em 2013 para a exploração de gás e petróleo e construção de importante oleoduto para abastecer o mercado internacional por meio de empresas parceiras russas provocou uma intensificação das agressões dos Estados Unidos e da União Europeia, que antes estavam menos vorazes, por meio da mefistofélica ‘Primavera Árabe’, em 2011. Ocorre que Síria, desde a queda do governo soberano do Iraque, passou a ser o alvo da cobiça e da sanha do ocidente. Não por acaso, a derrubada do governo da Líbia, representado por um dos maiores inimigos dos Estados Unidos e Israel, o coronel controvertido Muammar Khadafi, que teve a morte em um linchamento público monitorado por ninguém menos que a ex-primeira-dama e ex-secretária de Estado estadunidense, Hillary Clinton, que fez questão de celebrar a morte por linchamento do presidente líbio. Depois da deposição e morte de Khadafi (não muito diferente do ocorrido com o Iraque), o país ficou totalmente sem governabilidade e entrou em estado caótico, em que quadrilhas patrocinadas por países ocidentais (inclusive Estados Unidos e União Europeia) saqueiam o petróleo líbio, o que impede que a população tenha uma vida institucional, como antes, durante as mais de cinco décadas de vida soberana.

Estudiosos da geopolítica têm tratado disso com muita propriedade, como o querido conterrâneo e Professor Lejeune Mirhan [em Campo Grande nesta quinta-feira, dia 15 de fevereiro, na sede do IGHMS, 19 horas, faz palestra e lança livros], o renomado Jornalista Pepe Escobar (ex-correspondente nos bons tempos da Veja de Mino Carta em Nova York e Londres, hoje repórter especial das mais influentes mídias especializadas em geopolítica e economia política), o Jornalista Rogério Anitablian (repórter incansável de mídias digitais de referência, como o DCM e revista Fórum, em cujo canal do You Tube tem entrevistado importantes pensadores da atualidade com foco na geopolítica, economia e conflitos bélicos) e o saudoso Professor da Universidade Heidelberg Luiz Antônio Moniz Bandeira (um dos maiores estudiosos da Geopolítica dos últimos 60 anos, até sua eternização, em 2017).

Reiteramos: essa tragédia é agravada pela ‘pax americana’, que bem poderia ser grife de uma grande empresa funerária transnacional, mas é, sim, a doutrina pós-guerra fria concebida, desenvolvida, efetivada, financiada e disseminada por ninguém menos que os ‘falcões do Pentágono’ do tempo de George Bush, o pai do alcoólatra nanico, de alma e de físico, e dono de uma perversidade do tamanho de sua cobiça. A trágica ocorrência do vil atentado às Torres Gêmeas em Nova York (o fatídico 11 de setembro de 2001) é a constatação da errática política externa dos Bush com sua obsessão por se apoderar do Planeta, sem comedimento, noção de limites, e comiseração.

O Pato Donald (Trump), aquele que ‘empoderou’ o pateta inominável, é satanizado, mas a doutrina básica do Partido Republicano nos Estados Unidos vem do tempo de James Monroe, no início do século XIX, quando o continente americano começava a romper os grilhões da colonização europeia. “América para os americanos”, era a consigna da doutrina Monroe, ao que, segundo o brilhante e saudoso Eduardo Galeano, Simón Bolívar teria respondido: “América para os americanos, não; a América é para a humanidade.”

É esse o pano de fundo das constantes intervenções do império em evidente decadência (basta vermos o desespero contra a ascensão indisfarçável e demonizada da China, cujas ações beligerantes começam a ser implementadas com a mesma virulência de Trump, sempre em nome da ‘democracia’, da ‘liberdade’ e da ‘civilização’) em nosso Planeta cada vez mais famélico, explorado, oprimido e deteriorado. Não é preciso ser cientista para perceber os estragos ambientais causados pela cobiça, maquiada pela usura cínica de ‘desenvolvimento’ ou de ‘progresso’. Todos esses flagelos ‘naturais’ não ocorrem por acaso. Ou o(a) atento(a) leitor(a) acredita que as mudanças climáticas são uma invenção de ‘ambientalistas mentirosos’, ‘cientistas endemoniados’, como pensam os seguidores cegos do Pato Donald (Trump) e do Pateta.

Triste, muito triste assistirmos impotentes às tragédias naturais agravadas pela cobiça dos defensores do ‘deus mercado’. De um lado, a extrema direita assanhada, a conspirar contra o Estado de Direito e a Democracia; do outro, Estados Unidos e União Europeia na ânsia de impedir o iminente fim de uma hegemonia sanguinária e exploradora que dura mais de quinhentos anos. Em nome da cristianização do ‘Novo Mundo’ -- como ‘novo’, se já viviam aqui havia milênios os povos originários, Tupi, Guarani, Asteca, Maia, Quéchua, Aimara etc, cuja cultura, caso a caso, tinha uma relação totalmente diferente que a dos predadores europeus? -- cometeram saque, massacre, escravidão, usurpação, genocídio, etnocídio e ecocídio, em um tempo menor que o tempo da presença ‘moura’ (árabe) na Península Ibérica (300 anos em terras lusitanas e 800 anos em terras hispânicas).

Para concluir, em praticamente trezentos anos (Portugal) ou oitocentos anos (Espanha), os ‘mouros’ (árabes) não só não impuseram a sua língua (o árabe) e muito menos a sua religião (o islã), até porque entre eles havia muitos cristãos, como provam os censos das capitais árabes de então (Damasco, capital da atual República da Síria; Bagdá, capital da atual República do Iraque; Cairo, capital da atual República do Egito; Beirute, capital da atual República do Líbano; Jerusalém, capital da milenar Palestina -- sob ocupação sionista desde 1948 --, e Fez, importante cidade milenar do atual Reino do Marrocos, sede de uma das primeiras universidades dos tempos modernos). Mas, em meu modesto entendimento, o mais importante: os chamados mouros ou sarracenos pelos ocidentais, os árabes, além de generosamente terem contribuído para o desenvolvimento das letras (entre elas a sistematização da gramática hispânica e lusitana, além de traduções de clássicos da literatura universal), filosofia (resgate de obras clássicas de filósofos da Antiguidade Clássica, sobretudo o resgate da genial dialética de Heráclito de Éfeso e do legado de Tales de Mileto -- aliás, a Milésia corresponde ao atual território do Líbano), ciências (física, química, matemática, geometria, geografia, arquitetura, engenharia, economia, matemática, astronomia, medicina -- não esqueçamos de que para os cristãos a anatomia era vedada por ter que abrir corpos, inclusive humanos), artes (à exceção do desenho de figuras humanas, foram desenvolvidos desenhos geométricos, arabescos e perspectivas bastante ousadas), construção civil, comércio (uso da escrita fiscal, técnicas contábeis, conceitos monetários e cálculos transacionais), navegação (uso de cartas náuticas e técnicas de orientação por instrumentos como o astrolábio, bússola e vela triangular), o legado de técnicas culinárias para dar qualidade de vida com sabores e odores convidativos e de milhares de palavras que até hoje são usados por lusófonos e hispanofalantes.

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

PADRE OSVALDO SCOTTI, PRESENTE!

Padre Osvaldo Scotti, presente!


Ex-diretor do Santa Teresa e da Cidade Dom Bosco e ex-pró-reitor de Extensão da UCDB, Padre Osvaldo Scotti é da geração dos desassossegados que fizeram da Igreja Católica uma usina de transformação e resistência. Ao lado do Padre Pasquale Forin, foi um dos que ouviram Dona Josefina Ferreira, Matriarca dos Guató, e acionaram o CIMI, que conseguiu provar a (re)existência do Povo Guató, canoeiros do Pantanal, ao longo do Rio Paraguai.

O dia 9 de fevereiro passa a ser um dia despedida, e, apesar da incontida tristeza e da saudade profunda, a irreverente alegria do Padre Osvaldo Scotti, o eternamente jovem Salesiano incansável e, no bom sentido, provocador -- um verdadeiro desassossegado.

Padre Osvaldo, argentino de alma latino-americana, era tão brasileiro, tão nato, quanto os Guató que ele, ao lado do Padre Pasquale Forin, ajudou a fazê-los retornar à Ilha Ínsua, de onde foram expulsos durante o regime de 1964. Foi ele, que trabalhara em missões a comunidades indígenas em Mato Grosso, que acionou antropólogos ligados ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI), entre eles a Professora Yara Blum Penteado, que na época trabalhava na antiga FUCMT (hoje UCDB). Graças aos dois saudosos salesianos e ao CIMI, os Guató deixaram de ser considerados ‘extintos’ (sic) pela FUNAI (Fundação Nacional dos Povos Indígenas, como passou a ser denominada em 2023) e passaram a ter o processo de resgate de sua rica cultura milenar.

Além de diretor do tradicional Colégio Salesiano de Santa Teresa, na década de 1970, e da Cidade Dom Bosco na década de 2000, Padre Osvaldo foi pró-reitor de Extensão da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande, na década de 1990. Veio a Corumbá pela segunda vez em substituição do Padre Carlos Estremera, para colaborar na gestão das obras sociais fundadas pelo Padre Ernesto Saksida, entre 2003 e 2011, sendo substituído pelo Padre Amércio Rezende, que na década de 1990 foi o diretor do Colégio Salesiano de Santa Teresa.

Ao deixar Corumbá, foi missionário nas comunidades indígenas de Meruri e Sangradouro, em Mato Grosso, por dois anos. A partir de 2013 dedicou-se ao trabalho pedagógico e pastoral em diversas paróquias de Cuiabá, e nos últimos anos era vice-diretor e pároco em Coxipó, na Paróquia da Guia, seu trabalho derradeiro, enquanto enfrentava o câncer que o fez interromper sua profícua jornada, sobretudo, entre os jovens. Há poucos dias, deixou uma mensagem em áudio a todos os Amigos, em que manifestava sua confiança e fé na Vida, quando revelara o desafio derradeiro que vinha enfrentando até a manhã do fatídico 9 de fevereiro.

Conheci o Padre Osvaldo no tempo em que os alunos e alunas do Colégio Santa Teresa o chamavam carinhosamente de ‘Padre Pastinha’, por causa do penteado que então usava, nos idos de 1970. A alegria e a irreverência ecoavam nos amplos corredores da à época Escola Estadual Santa Teresa, pois a Secretaria Estadual de Mato Grosso havia feito um convênio com a Missão Salesiana, permitindo que o mais antigo e tradicional colégio ‘de rapazes’ fosse acessível a todas e todos os jovens. Foi uma verdadeira explosão de novos talentos, uma geração de vanguarda que entrou para a História.

Amigas e Amigos querida(o)s, como Mara Leslie do Amaral e Arturo Castedo Ardaya, seus aluno(a)s inseparáveis, têm um contagiante carinho por ele, que até parece membro de suas respectivas Famílias. Foi, aliás, nessa época que celebrou o casamento de Amigos igualmente queridos, como o Professor João Bosco e a Professora Jussara e, senão me engano, o saudoso Doutor Lamartine e a Professora Carminha, casais com os quais Padre Osvaldo tinha uma relação literalmente familiar, praticamente fraternal.

Como eu não estudei no Santa Teresa (sou dos alunos do saudoso Professor Octaviano Gonçalves da Silveira Junior no antigo Centro Educacional Julia Gonçalves Passarinho, o atual JGP), passei a conviver com ele em sua segunda permanência em Corumbá, entre 2003 e 2011, quando diretor da Cidade Dom Bosco. Além da Amizade -- difícil era não ser amigo do querido Padre Osvaldo --, tenho profunda gratidão por ele, pois foi de uma generosidade única ao dar oportunidade à minha então futura Companheira, Solange, que retornava na época de Cuiabá.

Em 2005, Padre Osvaldo, depois de relutância inicial, aceitou o desafio de representar a Cidade Dom Bosco no processo de eleição de membros do Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Corumbá, e foi o mais votado, tendo sido eleito por unanimidade presidente daquele lócus, embora num primeiro momento não quisesse aceitar esse encargo -- mas como não era de fugir dos reptos, acabou aceitando e foi um dos melhores presidentes que o CMDCA teve em suas três décadas de existência. Em seu mandato foram realizadas importantes adequações regimentais e processuais, de acordo com as legislações estadual e federal, que até a gestão municipal anterior não eram implementadas: foi um período em que as conquistas cidadãs ocorreram sem conflitos, até porque os gestores eram pessoas próximas e ótimos interlocutores com a sociedade, como o Professor João Bosco Silva e Souza, o saudoso Doutor Lamartine Figueiredo da Costa e o saudoso Prefeito Ruiter Cunha de Oliveira.

Em meados de abril de 2005, dois dias depois da realização do conclave que elegeu o Cardeal Joseph Ratzinger, surpreendeu-me em uma das visitas que me fizera em casa ao revelar a existência de duas correntes bem definidas -- a conservadora, que elegera o Papa Bento XVI, e a progressista, que tinha como papabile o Cardeal Claudio Hummes, Arcebispo de São Paulo, e que no conclave de 2013 apoiou a candidatura do Cardeal Jorge Mario Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires, e que lhe sugerira a adoção do nome Francisco, como homenagem a São Francisco de Assis (os dados de 2013 são meus, não do querido Padre Osvaldo, que não mais o vi depois de sua remoção em 2011). Causara-nos surpresa a nitidez de sua compreensão do processo sucessório papal, com uma objetividade singular.

Entre o gigante legado do Padre Osvaldo, destacamos a inesgotável confiança, efetiva alegria, com que encarava todos os desafios e os transformava em conquistas coletivas. Avesso ao individualismo, da geração dos católicos desassossegados que transformaram a sisuda congregação salesiana de décadas anteriores em verdadeiro celeiro de inquietude libertadora e reveladora de talentos, ele é referência da irreverência acolhedora. Tanto quanto Padre Pasquale Forin e Dom José Alves da Costa, também nascidos em meados do mês de abril, o Padre Osvaldo fez do sacerdócio ofício de protagonismo coletivo. Seja ao lado do Padre Ernesto ou do Padre Pasquale, ele soube como ninguém potencializar as obras sociais sem ofuscar a identidade de seus Irmãos de congregação.

Quando sua longa trajetória religiosa, de 61 anos, é interrompida em meio ao pranto de tantos e tantas Amigas e Amigos de fé, de caminhada e de esperança, temos certeza de que o querido Padre Osvaldo venceu e convenceu a tudo que atravessou o seu caminho, inclusive a doença que lhe causou tantos dissabores. Sua eternização ocorre no momento em que os poderosos inimigos dos povos originários e dos excluídos são desmascarados de modo cabal, sereno e sob a égide da legalidade. Sem dúvida, Padre Osvaldo parte para a eternidade em paz, com a consciência de quem esteve do lado da fé, da justiça e da concórdia, que em palavras laicas correspondem ao lado da História.

Obrigado, Padre Osvaldo, por ter existido e ter aceitado caminhar ao lado dos excluídos, dos sem voz e sem vez! Até sempre, querido Amigo de fé, Irmão, Camarada!

Ahmad Schabib Hany

APOIO INTERNACIONAL À DEMOCRACIA ABORTOU GOLPE

Apoio internacional à Democracia abortou golpe


Além da importante atuação das forças democráticas brasileiras, o firme apoio internacional ao Governo de Reconstrução Nacional do Presidente Lula, isto é, à Democracia, frustrou o golpe fascista em curso deflagrado pelas hordas terroristas de 8 de janeiro.

Um mês pós-intentona miliciana, em que aos poucos vão sendo desmascarados o(a)s terroristas responsáveis pelo vandalismo excretado, planejado, estimulado, apoiado e financiado por homens e mulheres ‘de bem’ (bens?), ‘de fé’, ‘de moral’, ‘de civismo’ (cinismo?) y otras cositas más, a opinião pública, ainda atônita, não para de se pasmar com a sucessão de ‘surpresas’ (decepções!) de ‘cristãos’ e ‘patriotas’ que por baixo dos panos não passavam de bandidos, criminosos, milicianos, fora da lei.

Além da rápida atuação das forças democráticas brasileiras, que, ante a perplexidade de pronto interviram e se articularam, inclusive com forças democráticas de vários países de todos os continentes. Graças à cobertura de correspondentes internacionais sediados no Brasil e de Jornalistas brasileiros de renome mundial, relatos e imagens causaram um forte impacto e ato contínuo diversos governos começaram a repudiar o golpe então em curso e se articular para inibir setores golpistas para não respaldar essa vergonha.

De supetão, feito estouro da boiada, hordas de terroristas arruaceiros atabalhoados foram tomando conta da Esplanada dos Ministérios. A masturbação fascista cometida sistematicamente, dia após dia, durante todo o maldito mandato do inominável levou a uma criminosa e sórdida ejaculação extemporânea e fétida, tal qual a desavergonhada defecada sobre as sagradas instituições democráticas à luz do dia e diante de milhares de celulares a registrar.

Depois da manifestação da ONU e União Europeia, foi a vez da OEA, com o apoio do representante da Grã-Bretanha, de fazer declaração contundente em defesa do Governo de Reconstrução Nacional do Presidente Lula, isto é, do Estado Democrático de Direito e contra os atos terroristas cometidos no dia 8 de janeiro em Brasília, respaldadas (essas declarações dos organismos multilaterais) pelos presidentes dos outros Poderes, Ministra Rosa Weber (STF), Ministro Alexandre Moraes (TSE), Procurador Augusto Aras (PGR), Senador Rodrigo Pacheco (Senado) e Deputado Raymundo Lira (Câmara Federal).

A pá de cal, obviamente, foi a imediata atuação do Ministro Flávio Dino, que de pronto e sem titubeios informou o Presidente Lula, em visita a Araraquara (interior de São Paulo, atingida pelas fortes enxurradas de verão). O flagrante dado à Secretaria de Segurança Pública do governo do Distrito Federal (que se beneficia de um fundo bilionário federal para proteger a Esplanada dos Ministérios e todo o Plano Piloto) e aos chefes militares que prevaricaram ao não cumprir com a sua missão institucional foram um divisor de águas para o abortamento de um golpe de Estado em curso.

Como era de se presumir, a ‘viagem de férias’ do ex-ministro da Justiça do inominável, transformado em titular da Secretaria de Segurança Pública do DF, aos Estados Unidos, para se encontrar com o chefe das hordas, aquele pateta covarde, digno de um desertor de quinta que, aliás, nunca deixou de ser. E se isso não bastasse, boa parte da cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal, certos da impunidade, acabaram arrastados por seus ‘campanheiros’ delirantes e totalmente deslumbrados com a sensação de ter tomado o poder, ainda que defecando sobre objetos sagrados do ponto de vista republicano.

Mas o pior veio depois: além de minuta para legitimar o golpe ao Estado Democrático de Direito, via GLO (‘Garantia da Lei e da Ordem’ sob comando de militares), descobriram-se aberrações hollywoodianas, em que o bizarro senador da SWAT e e a parlamentar pistoleira acabaram se desmascarando: ambos de calças curtas, ou melhor, por vestir, ante a revelação inverossímil de que praticaram os piores atos da República Federativa do Brasil, um se passando por confidente e a outra patrocinando hackerismo (terrorismo digital) contra a maior autoridade da Justiça Eleitoral.

Quando vemos os sinistros semblantes contrariados de generecos e assemelhados, como Heleno, Mourão, Villas-Boas, Pazuello, Braga Neto e Etchegoyen, é que nos damos conta de que há de fato rede golpista por trás dos acampamentos das vivandeiras espalhados por todo o país. Nas palavras do Ministro Flávio Dino, tratava-se de efetivas “incubadoras de terroristas”, verdadeiros centros de aliciamento e preparação de agentes e milicianos para atentar contra a Democracia e o Estado de Direito.

Um mês atrás, as instituições democráticas brasileiras foram postas à prova, elas, porém e felizmente, saíram fortalecidas, sobretudo graças à maturidade da sociedade civil e do Governo de Reconstrução Nacional, cujo titular, dotado de experiência e serenidade, soube conduzir e superar o momento crítico. Obviamente, o concerto das nações, foi determinante para não permitir que a tentativa de golpe tivesse qualquer chance de dar o bote, há tanto tempo esperado pelas hordas fascistas, que não hesitaram de assumir o lado mais feio, nauseabundo, que é o terrorismo.

À véspera de seu encontro com o presidente Joe Biden, dos Estados Unidos, o Presidente Lula não só tem o reconhecimento de tratar-se de líder mundial (não apenas regional) e que é importante interlocutor para questões que interessam à humanidade. Diferente do antecessor inominável, fantoche do Pato Donald (Trump), pateta que se encontra por lá para fugir das patacoadas de seus terroristazinhos de meia pataca (de fanáticos a generecos que devem ficar no xadrez por atentar contra as instituições e o Estado de Direito).

Estadista é assim: em 40 dias, Lula já conversou com mais de uma dezena de chefes de Estado e de governo para literalmente endireitar o Brasil, isto é, reinseri-lo na História e no Mundo, depois de ter ‘navegado à deriva’ sob o desgoverno de um ‘patriota cristão’ com trejeitos de capetão. A despeito de ser estigmatizado por ser ‘de esquerda’, Lula é que endireita de verdade o Brasil, enquanto o inominável corre da lei como o diabo foge da cruz...

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

SOCIÓLOGO CORUMBAENSE VAI LANÇAR LIVRO EM CAMPO GRANDE

Sociólogo corumbaense vai lançar livro em Campo Grande


Dia 15 de fevereiro (quarta-feira), às 19 horas, no IHGMS (Avenida Mato Grosso, Esplanada Ferroviária), Campo Grande, o cientista social, professor, pesquisador, escritor, analista internacional e ativista político Lejeune Mirhan lançará diversos livros de sua autoria sobre geopolítica, história árabe, marxismo, sociologia e filosofia.

 O Professor Lejeune Mirhan Xavier de Carvalho é um corumbaense ilustre. Filho de Dona Georgeta Mirhan, Sobrinho do Promotor de Justiça (e fundador do PT em Mato Grosso do Sul) Doutor José Mirrha, o seu primeiro candidato a Senador em 1982, Lejeune também é ativista político, filiado ao PCdoB. Duas vezes presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, de cuja fundação participou ao lado de grandes personalidades da Sociologia brasileira, entre eles o Professor Florestan Fernandes, seu Orientador quando no Mestrado pesquisou sobre o movimento estudantil pós-1968, do qual foi dirigente na região de Campinas, época em que era conhecido por Lejeune Mato Grosso.

Descendentes de uma das treze famílias da minoria étnica surianne que chegaram, em pleno apogeu do entreposto comercial, a Corumbá no início do século XX, os Mirhan (ou Mirrha, no caso do Doutor José Mirrha e seus descendentes) estiveram tanto no comércio (‘Casa Palmira’, ‘Jeta’s Lanches’ e ‘Restaurante Mistura Fina’, entre outras iniciativas emblemáticas) como em atividades artístico-culturais e intelectuais em Corumbá, basta vermos os apoteóticos festivais de vanguarda e os jornais das décadas de 1960/1970 com artigos, poemas e crônicas que deixaram marcas indeléveis.

Professor aposentado da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), Lejeune passou a se dedicar à análise política nacional e internacional, além do ativismo político dentro e fora do Brasil. Durante décadas integrou delegações humanitárias para a Palestina e a Síria, bem como articulou iniciativas de apoio e solidariedade internacional às grandes causas humanitárias no Oriente Médio e Golfo Pérsico. Verdadeiro ‘devorador’ de livros clássicos de Ciências Sociais, Filosofia, História Árabe, Geopolítica, Literatura Universal, também é escritor compulsivo: seus livros já passam de uma dezena, em sua maioria são ‘tijolões’ em que analisa com propriedade e argúcia as mais ‘cabeludas’ questões que afligem a humanidade: guerra israelo-árabe, agressão à Síria, bloqueio econômico ao Irã, invasões e destruições imperiais, geopolítica do século XXI, estudos marxistas-leninistas e pesquisa pioneira sobre a imigração surianne a Corumbá no século XX. 

Sempre que pode, o Professor Lejeune vem a Corumbá. Como em 2016, quando tive a honra de convidá-lo a dissertar sobre a conjuntura internacional de então aos estudantes de História e de outros cursos no CPAN/UFMS. Foi emblemático o debate suscitado entre jovens desassossegados e o veterano Professor Universitário e analista internacional de várias mídias nacionais e internacionais. Mas desta vez sua estada maior será em Campo Grande, onde estão agendados a palestra sobre “O Brasil sob o Governo Lula e a nova ordem internacional” e o lançamento de seus livros, quarta-feira, dia 15 de fevereiro, às 19 horas, no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS), Avenida Mato Grosso, perto da antiga Ferroviária, no centro da bucólica cidade de interior mato-grossense dos idos das décadas 1930 a 1970.

Ao preço de 69 reais, o mais recente livro, “Atualidade da luta anti-imperialista”, é o carro-chefe, mas há outros, em sua maioria da Apparte, editora criada por ele há pouco tempo. Depois de atuar no ensino e pesquisa na universidade, Lejeune faz de sua Vida de aposentado um instrumento de luta e transformação por meio do conhecimento e da informação crítica em um mundo conturbado pela relutância de o governo dos Estados Unidos deixar de agir como ‘polícia do mundo’, e a extrema-direita tenta se fortalecer por meio da difusão do ódio, da intolerância e da mentira em série. Eis um corumbaense que faz de seu ofício uma fonte de resistência, conhecimento crítico e solidariedade aos povos de todo o Planeta, até como forma de retribuir a acolhida a seus ancestrais no início do século passado, em uma Corumbá cosmopolita e hospitaleira que ainda pulsa no generoso cotidiano hodierno. 

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

VENTANITA DE ARRABAL (TANGO)


VENTANITA DE ARRABAL (TANGO). Guitarra: Nacho Fernández. Bandoneón: Adrián Argat. Torcán: Alfredo "el Kartu" Katurchi.

SIN LÁGRIMAS (tango / 1941)


SEU JORGE KATURCHI, SEMPRE NA MEMÓRIA E NO CORAÇÃO

Seu Jorge Katurchi, sempre na memória e no coração


No último dia de janeiro deste 2023 que timidamente acena para o porvir, a fatídica notícia da eternização do querido e agora saudoso Senhor Jorge José Katurchi nos dilacera corações e mentes: a saída de cena do incansável e inabalável Paladino da Cidadania deixa um profundo vazio logo no momento em que começávamos a nos rearticular nas lutas em defesa das causas maiores, das quais o eternamente jovem nonagenário era nossa referência maior.

No momento em que nosso querido Amigo e grande Companheiro das causas maiores, esse gigante chamado Jorge José Katurchi, partia para o seu encontro com a querida e saudosa Dona Anna Thereza de Copacabana Rondon Maldonado Katurchi, sua eterna Namorada, Corumbá derramava copiosamente suas lágrimas, ciente de que, senão o maior, um dos maiores sinceramente apaixonados por este querido torrão e pelo seu povo generoso, acolhedor e sedutor se despedia condoído desta relação ética, única e pródiga.

Terça-feira, 31 de janeiro de 2023 (a quatro anos de seu centésimo aniversário). Era a hora do pôr do sol mais encantador de todo o Planeta, como descrevera com a peculiaridade que o caracterizava o eterno e terno Poeta Manoel de Barros, em cuja juventude provavelmente se encontrara com Seu Jorge, o Argentino mais Corumbaense -- ou melhor, o mais Corumbaense (sempre maiúscula) de todos os tempos --, até porque entre seus Amigos mais próximos estava o igualmente encantador e saudoso Doutor Cleto Leite de Barros, Primo e admirador incondicional de Manoel de Barros.

Quem teve a honra e o privilégio de conviver com Seu Jorge Katurchi é testemunha do valor e da personalidade generosa e abnegada desse incansável apaixonado pelo Povo Corumbaense e pela Corumbá de todos os encantos e utopias, onde aportou a bordo do vapor Argentina aos 5 anos, em 1932, em companhia de sua Mãe, Dona Amélia Abraham Katurchi, e sua Irmã, Dona Maria Rosa Katurchi, ao encontro do Pai, o Senhor José Katurchi, que chegara alguns anos antes na ânsia de assegurar um porvir próspero e seguro, livre do fanatismo e intolerância que ao longo do século XX destruíra o Oriente Médio como herança funesta do Império Turco Otomano, e continuada pelos nefastos impérios inglês, francês, estadunidense e sua face dissimulada, o sionismo que destrói até hoje a milenar Palestina, Terra Santa de todas as religiões.

Lembra-se com invejável memória de seu deslumbramento com a Corumbá cosmopolita que o recebeu e à sua Família: coincidência ou destino, o mesmo vapor que os trouxera, homônimo de seu país-natal, trazia também o primeiro hidroavião e a primeira tripulação, então vinculada à Marinha do Brasil. Desde o primeiro instante, sentiu-se em casa, com a certeza de que o Paraíso era aqui. Mas aos 18 anos, como cidadão consciente de suas obrigações, retornou à Argentina para fazer o serviço militar obrigatório, período em que se encantou com a Dama dos Descamisados, Evita Perón e o peronismo, embora no Brasil as ligações com a UDN, até por causa da Família de sua Amada, fizesse com que mantivesse com discrição essa queda pelo trabalhismo argentino, mas até o momento em que repetia com entusiasmo e emoção o discurso de Evita no ato alusivo ao Primeiro de Maio de 1945: “Compañeros de la valerosa Central General de los Trabajadores de la Argentina ...”

A gratidão é uma das inegáveis qualidades de Seu Jorge Katurchi. Embora lá vivera poucos anos, nunca se esqueceu de Magdalena, província de Buenos Aires, sua cidade-natal. Aprendeu com Seu José, seu saudoso Pai, que a América, embora desconhecida e muito diferente de sua Mardini eterna -- terra de sua ancestralidade, da etnia suriane, como nos ensina o querido Professor Lejeune Mirhan em sua primorosa pesquisa digna de doutorado sobre a saga das treze Famílias chegadas a Corumbá no começo do século XX --, é da diversidade, da pluralidade e da concórdia, a amálgama da emancipação e do empoderamento, daí o histórico papel do Brasil e da América Latina.

Não por acaso, apaixonou-se e se casou com sua eterna Namorada, Dona Anna Thereza, uma jovem Filha de imigrante boliviano, o Senhor Reyes Maldonado, e de Dona Maria da Conceição Rondon Maldonado, descendente direta do Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, o grande responsável pela integração territorial por meio da construção das linhas telegráficas e fundador do Serviço de Proteção do Índio (SPI), depois transformado, nos anos 1960, em Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Sempre se referiu com orgulho aos membros da Família Maldonado, em especial ao Cunhado Dr. Hênio Rondon Maldonado e ao Sobrinho Professor Doutor Carlos Alberto Reyes Maldonado, ex-secretário de Estado de Educação de Mato Grosso (primeiro governo de Dante de Oliveira) e fundador e primeiro reitor da Universidade Estadual de Mato Grosso (UNEMAT), que hoje leva o seu nome, como homenagem póstuma.

Aluno destacado dos emblemáticos Colégio Salesiano de Santa Teresa e Escola Técnica de Comércio, onde obteve sua habilitação de contabilista em fins dos anos 1940, seu Jorge foi um jovem desassossegado, como dizia o Poeta Fernando Pessoa: participara de todos os movimentos ligados às causas maiores, como os da implantação das linhas de transmissão de energia elétrica, criação do Instituto Superior de Pedagogia (mais tarde UEMT, hoje UFMS) e implantação da Zona Franca de Corumbá, na década de 1960. Humilde, foi várias vezes vice-presidente atuante (talvez tanto quanto ou mais que os titulares) da Associação Comercial de Corumbá e da Sociedade Beneficente de Corumbá (entidade mantenedora do Hospital de Caridade), sendo apenas uma vez presidente do Lions Clube Corumbá, quando, ao lado de grandes diretores como o Doutor Cássio Leite de Barros (seu grande Companheiro de UDN), Doutor Hélio Sacher de Souza e Professor Sérgio Freire, recebeu o que para ele representou um verdadeiro diploma de Doutor Honoris Causa, uma emblemática carta do Presidente do Lions Clube Internacional reconhecendo-o como Presidente Cem-por-cento entre todos os países lusofalantes (na época, Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e Ilha Madeira).

Embora no Brasil estivesse ligado por razões afetivas (familiares, por parte de sua Companheira de Vida) à UDN, ele desfrutava de excelente relacionamento com grandes Amigos ligados aos velhos PTB, PSD e PCB, tendo sido aluno no Santa Teresa do Professor de Matemática que era Irmão do célebre Apolônio de Carvalho, do advogado e ex-deputado estadual Amorésio de Oliveira, bem como do primeiro candidato a senador (em 1982) e fundador do PT em Mato Grosso do Sul, o saudoso Promotor de Justiça que na infância foi seu colega de Santa Teresa, o Doutor José Mirrha, a quem chamava carinhosamente de ‘Zé Borracha’ desde os tempos escolares. Não foram poucas vezes em que ele se dirigira ao coronel responsável pelos IPMs no alvoroço de abril de 1964 (e período posterior, como entre 1968 e 1973), para pedir clemência por acusados de “subversão”, muitas vezes ignorando conselhos de Amigos da UDN.

Além da influência paterna, que ensinara desde cedo a respeitar a diversidade e não enveredar pelo fanatismo, que é sinônimo de terror, Seu Jorge Katurchi teve oportunidade de receber em seu ambiente familiar hóspedes ilustres como o Doutor Wilson Barbosa Martins, um Democrata que acabou cassado pelo regime de 1964, e também ex-pessedistas ligados a Juscelino Kubitschek como Pedro Pedrossian, que depois aderiu à ARENA, ao lado de um dos ideólogos do período mais duro, o então senador Filinto Müller, cuja esposa argentina visitava com frequência Dona Amélia Katurchi, com quem falava fluentemente em espanhol. Por isso não teve nenhum constrangimento ao receber em sua residência o então candidato a governador José Orcírio Miranda dos Santos (PT) e o candidato a senador Carmelino de Arruda Rezende (PPS), durante e depois da emblemática campanha de 1998, tendo convidado seu Amigo e Companheiro de UDN, o ex-governador Cássio Leite de Barros, a participar de algumas conversas.

Em todos esses encontros com esses dirigentes, estigmatizados mais recentemente ‘de esquerda’, Seu Jorge se revelara hábil diplomata: em nome do Pacto Pela Cidadania (pois antes se reunia com Dom José Alves da Costa e Padre Pasquale Forin e as respectivas comissões setoriais temáticas para referendar as propostas que seriam apresentadas formalmente), conquistara muitas benfeitorias para Corumbá, entre elas o emblemático financiamento pelo governo do estado (gestão de José Orcírio) da grande obra da agora saudosa Dona Izulina Gomes Xavier do Cristo Rei do Pantanal e toda a Via Crucis, por meio do Lions Clube Corumbá, então presidido pelo saudoso Carlos Alberto Machado, depois presidente do Centro Padre Ernesto de Promoção Humana e Ambiental (CENPER). Não que tivesse ficado magoado, mas questionou enfaticamente o seu companheiro leão Machado por não ter sido incluído o Pacto Pela Cidadania na placa, pois em nome desse Espaço Público não Estatal o nosso querido Seu Jorge havia reivindicado ao então governador Zeca o financiamento da obra, recorrendo ao Lions Clube Corumbá por questões burocráticas e de gestão pecuniária.

Sem ter sido empossado em algum cargo público, o Senhor Jorge Katurchi fez discreta e efetivamente muito mais que qualquer detentor de cargo eletivo ou por nomeação. Na verdade, o então governador Zeca chegou a reivindicar um cargo no primeiro escalão para o Seu Jorge na primeira administração petista de Corumbá, mas por razões de acomodação política seu nome acabou preterido, o que provocou um dissabor em seu seio familiar. Para ele, isso nunca foi motivo para deixar de lutar, como voluntário, por sua Corumbá de todos os povos e, sobretudo, pela população corumbaense, pela qual sempre foi grato. Tanto é verdade, que, a despeito dos tempos sombrios sob a batuta do inominável, Seu Jorge chegou a participar de rápidas reuniões do Pacto Pela Cidadania antes do período de distanciamento social por causa da pandemia, o que representou para ele um verdadeiro confinamento.

Além da pandemia, o encerramento das atividades comerciais -- a sua razão de viver, o comércio, em verdade, era um pretexto para estar em contato com o povo, com o qual ele deixou de conviver depois que as portas se fecharam definitivamente -- o abateu muito. Parece que não, mas o fato de as pessoas terem que adentrar à residência familiar o isolou, quando essa interação era o oxigênio de que precisava para viver. Um verdadeiro homem público, que não precisava fazer demagogia, porque não era de seu feitio. E que sempre era assediado por candidatos das mais diferentes correntes ideológicas para angariar apoio popular. Ele o fazia com desenvoltura e muita espontaneidade. Tal qual sua resposta inusitada quando um repórter de televisão o entrevistou no velório do saudoso Prefeito Ruiter Cunha de Oliveira: Ele está sendo recebido pelo Padre Ernesto que, ao lado de São Pedro, estão a velar por nossa querida Corumbá e seu povo maravilhoso.

Os últimos anos de sua jornada foram muito duros, sobretudo do ponto de vista afetivo: em 2015, perdeu sua Irmã, Dona Maria Rosa; em 2016, sua eterna namorada, Dona Anna Thereza, se foi, deixando-o profundamente abatido; em pleno auge da pandemia, Mário Márcio se eternizou. Uma sucessão de perdas que abalaram a sua saúde, mas resistiu e lutou pelas causas maiores pelas quais sempre batalhou. Isso lhe deu fôlego, mas quem o acompanhou sabe do sofrimento que viveu, dia após dia. Para atenuar essas ausências, dores indescritíveis, ele conversava com seus entes queridos. E não duvido que eles o ouviam e o aconselhavam, pensando em José Eduardo, cuja saúde é frágil, e resiste com a maior dignidade, com o apoio de toda a Família, sobretudo do Zequinha, seu Filho.

Nosso encontro derradeiro foi na véspera de seu aniversário de 96 anos, quando me permiti reivindicar que se mantivesse firme e forte para a confraternização de seus 100 anos, e com bolo de baunilha, que o remetia aos tempos de sua infância na Argentina. Tempos em que ele ouvia de Dona Amélia, sua querida Mãe, uma canção de ninar que ele sabia decor: “Aroró mi Nena, Aroró mi sol...” Essa mesma canção de ninar Dona Amélia cantarolava quando embalava a neta que hoje é a realização plena de Seu Jorge, a Doutora Tereza Katurchi Exner, a primeira mulher Corregedora-geral do Ministério Público do Estado de São Paulo, eleita e reeleita por seus pares, sem qualquer ingerência partidária. Sonho que viu realizar, com a felicidade de quem teve as dores causadas por tantas perdas pessoais mitigadas por uma Filha que ele considera sua terceira Mãe.

Contenhamos nossas lágrimas, ainda que com dificuldade. É que nosso center alf Perón foi se reencontrar com Seu Eldo Delvizio, Seu Walmir Provenzano e os demais saudosos integrantes do time que abalava os torneios de futebol amador de sua geração. Mas não sem antes ser recebido por sua eterna Namorada, Dona Anna Thereza, acompanhada dos igualmente saudosos Mário Márcio, Dona Maria Rosa, Dona Amélia e Seu José Katurchi, que em festa contarão com a presença do Padre Ernesto Saksida, do Padre Pasquale Forin, de Dom José Alves da Costa, de Dom Segismundo Álvarez Martínez, de Dom Miguel Alagna, do Pastor Antônio Ribeiro, do Pastor Cosmo Gomes e de tantos outros Amigos de fé, futebol, sonhos e lutas... Ele que teve a felicidade de ver o Papa Francisco, um Argentino como ele, só não torcedor do Boca Juniors, mas do San Lorenzo.

Até sempre, Seu Jorge Katurchi, querido Amigo e Companheiro, sempre na memória, no coração e na alma! Seu lugar não será preenchido por ninguém, e faremos a sua festa dos 100 anos porque estará em meio às ações de cidadania, das causas maiores, pensando sempre no coletivo, nestes tempos sombrios, de egoísmo, arrogância e insensatez, sendo um farol a iluminar as gerações mais jovens, como jovem nonagenário que nunca desistiu das boas causas, ainda que difíceis de serem conquistadas. Obrigado pelas lições e pela honrada companhia!

Ahmad Schabib Hany