segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Discurso de posse do vice-presidente David Choquehuanca, do Estado Plurinacional da Bolívia

Discurso de posse do vice-presidente David Choquehuanca, do Estado Plurinacional da Bolívia

15/11/2020, tradução revista, com auxílio de Tlaxcala, Rede Internacional de Tradutores; notas traduzidas da versão ao francês. Vídeo em espanhol.

“Com a permissão de nossos deuses, de nossos irmãos mais velhos e de nossa Pachamama,[1] de nossos ancestrais, de nossos achachilas,[2] com a permissão de nosso Patujú,[3] de nosso arco-íris, de nossa folha de coca sagrada.

Com a permissão de nossos povos, com a permissão de todos os presentes e não presentes nessa Câmara.

Hoje quero compartilhar aqui, o nosso saber, em alguns minutos.

Comunicar é obrigação, dialogar é obrigação, é um dos princípios do bem-viver.

Os povos de culturas milenares, da cultura da vida, mantemos nossas origens desde os primórdios da antiguidade.

Nós, crianças, herdamos uma cultura milenar que entende que tudo é interligado, que nada é dividido, que tudo é dentro e nada é fora.

‘Vamos juntos’

Por isso nos dizem que caminhemos juntos, que vamos todos juntos, que deixar ninguém para trás, que todos tenham tudo e nada falte a ninguém.

Que o bem-estar de todos é o bem-estar de si mesmo. Que ajudar é razão de crescer e ser feliz, que desistir pelo bem do outro nos fortalece, que nos unir e reconhecer-nos no todo é o caminho de ontem, hoje, amanhã e sempre do qual nunca nos desviamos.

O ayni,[4] a minka,[5] a tumpa,[6] nosso colka[7] e outros códigos de culturas milenares são a essência de nossa vida, de nosso ayllu[8].

Ayllu não é apenas organização de sociedades humanas, ayllu é sistema de organização da vida de todos os seres, de tudo que existe, de tudo que flui em equilíbrio em nosso planeta, nossa mãe, a Terra.

Durante séculos os cânones civilizadores de Abya Yala[9] foram desestruturados, dessemantizados e muitos deles exterminados, o pensamento originário foi sistematicamente submetido ao pensamento colonial.

Mas não conseguiram nos apagar, nós estamos vivos, somos de Tiwanaku,[10] somos fortes, somos como pedra, somos Kalawawa[11] somos cholke,[12] somos sinchi,[13] somos rumy,[14] somos Jenecherú,[15] fogo que não se apaga, somos de Samaipata,[16] somos o jaguar, somos Katari,[17] somos Aïnous, Maoris, Comanches. Somos Maias, somos Guaranis, somos Mapuches, Mojeños, somos Aimaras, somos Quechuas, somos Jopis e somos todos os povos da cultura da vida que despertamos nossos larama,[18] iguais, rebeldes cheios de sabedoria.

‘Uma transição, a cada 2.000 anos’

Hoje, Bolívia e o mundo vivem uma transição que se repete a cada 2.000 anos, o ciclo do tempo. Vamos de nenhum tempo ao tempo, do intemporal ao temporal, começando um novo amanhecer, um novo Pachakuti[19] em nossa história.

Um novo sol e uma nova expressão na linguagem da vida, na qual a empatia pelo outro ou o bem coletivo substitui o individualismo egoísta.

Onde os bolivianos nos olhamos todos iguais e sabemos que unidos valemos mais. Estamos em tempo de ser Jiwasa[20] de novo, não se trata de ‘eu’: trata-se de ‘nós’.

Jiwasa é a morte do egocentrismo, Jiwasa é a morte do antropocentrismo e o fim do eurocentrismo.

Estamos em tempo de voltar ao Jisambae,[21] o código que protegeu nossos irmãos Guaranis. Jambae[22] é o que não tem dono. Ninguém nesse mundo há de se sentir proprietário de alguém e de algo.

Desde 2006, na Bolívia, iniciamos um trabalho árduo para conectar nossas raízes individuais e coletivas, para voltar a ser nós mesmos, para retornar ao nosso centro, ao nosso taypi,[23] à pacha,[24] ao equilíbrio que deixa brotar a sabedoria das civilizações mais importantes de nosso planeta.

Estamos em processo de resgatar nossos conhecimentos, os códigos da cultura da vida, os cânones civilizatórios de uma sociedade que viveu em íntima conexão com o cosmos, com o mundo, com a natureza e com a vida individual e coletiva. De construir o nosso sumak kamaña,[25] nosso bem-viver, a partir do nosso sumajakalle,[26] que é garantir o bem individual e o bem coletivo ou comunitário, nosso sake.[27]

Uma das referências inabaláveis da nossa civilização é a sabedoria herdada da terra, e da Pachakama[28]. Garantir equilíbrio em todo o tempo e espaço é saber administrar todas as energias complementares, a cósmica que vem do céu, e a da Terra, que emerge de debaixo do chão.

Chacha-warmi[29]

Estamos em tempos de resgatar nossa identidade, nossas raízes culturais, nosso bem. Temos raízes culturais, temos filosofia, temos história, temos tudo, somos pessoas e temos direitos.

Essas duas forças telúricas interagem criando o que chamamos de vida, como uma totalidade visível (Pachamama) e espiritual (Pachakama).

Ao entender a vida em termos de energia, temos a possibilidade de modificar nossa história, matéria e vida como a convergência da força chacha-warmi, quando nos referimos à complementaridade dos opostos.

O novo tempo que iniciamos será sustentado pela energia do ayllu, da comunidade, do consenso, da horizontalidade, dos equilíbrios complementares e do bem comum.

Historicamente, a revolução é entendida como um ato político para mudar a estrutura social, a fim de transformar a vida do indivíduo. Nenhuma revolução jamais modificou a conservação do poder para controlar o povo. Não conseguimos mudar a natureza do poder, e o poder conseguiu distorcer a mente dos políticos. O poder conseguiu corrompê-los.

“Nossa revolução é a revolução das ideias”

Esse é um desafio que assumiremos com a sabedoria dos nossos povos.

Nossa revolução é a revolução das ideias, é a revolução dos equilíbrios, porque estamos convencidos de que para transformar a sociedade, o governo, a burocracia e as leis e sistemas políticos, devemos mudar como indivíduos.

Vamos promover a conjunção com as oposições, buscar as coincidências entre a direita e a esquerda, entre a rebeldia dos jovens e a sabedoria dos anciãos, entre os limites da ciência e da natureza inquebrantável. Entre as minorias e as maiorias tradicionais. Entre os doentes e os sãos. Entre os governantes e os governados. Entre o culto à liderança e doação do indivíduo, para servir aos outros.

Nossa verdade é muito simples. O condor só alça voo quando sua asa direita está em perfeito equilíbrio com a esquerda. A tarefa de nos formarmos como indivíduos equilibrados foi brutalmente interrompida há séculos. Não a concluímos. Mas o tempo da era ayllu, comunidade, chegou e já está conosco.

Requer que sejamos indivíduos livres e equilibrados para construir relacionamentos harmoniosos com os outros e com o nosso meio ambiente. É urgente que sejamos seres capazes de manter o equilíbrio, para nós mesmos e para a comunidade.

Estamos no tempo de Apanaka Pachakuti,[30] irmãos da mudança, quando nossa luta não é luta só por nós, mas também por eles, não contra eles. Buscamos o mandato, não buscamos o confronto. Buscamos a paz. Não somos da cultura da guerra nem da dominação. Nossa luta é contra todas as formas de submissão e contra o pensamento colonial único, patriarcal, venha de onde vier.

A ideia do encontro entre o espírito e a matéria, o céu e a terra de Pachamama e Pachakama nos permitem pensar que uma nova mulher e um novo homem serão capazes de curar a humanidade, o planeta e a bela vida que nele há e devolver a beleza para nossa terra-mãe.

Defenderemos de todas as interferências os tesouros sagrados de nossa cultura. Defenderemos nossos povos, nossos recursos naturais, nossas liberdades e nossos direitos.

“Voltaremos a Qhapak Ñan”

Voltaremos ao nosso Qhapak Ñan[31] – o nobre caminho rumo à unidade, à integração, o caminho da verdade, o caminho da fraternidade, o caminho do respeito a nossas autoridades, a nossas irmãs, o caminho do respeito ao fogo, o caminho do respeito à chuva, o caminho do respeito às nossas montanhas, o caminho do respeito aos nossos rios, o caminho do respeito à nossa terra-mãe, o caminho do respeito à soberania dos nossos povos.

Irmãos, para concluir

Os bolivianos devemos superar a divisão, o ódio, o racismo, a discriminação entre compatriotas. Devem pôr fim à perseguição contra liberdade de expressão. Fim da judicialização da política.

Chega de abuso de poder. O poder tem de ajudar, o poder tem de circular, o poder, assim como a economia, tem de ser redistribuído, tem de circular, tem de fluir, assim como o sangue corre em nosso corpo. Chega de impunidade. Justiça, irmãos.

Mas a justiça tem de ser verdadeiramente independente. Ponhamos fim à intolerância, à humilhação dos direitos humanos e de nossa terra-mãe.

O novo tempo significa ouvir a mensagem dos nossos povos, que vem do fundo do coração, significa curar feridas, olhar para nós com respeito, recuperar a pátria, sonhar juntos, construir fraternidade, harmonia, integração, esperança para garantir a paz e a felicidade das novas gerações.

Só então podemos alcançar o bem-viver e governar-nos nós mesmos.

!Jallalla Bolivia! Viva a Bolívia! [fim do discurso]

 


[1] Mãe-terra.

[2] Espíritos dos ancestrais que protegem a comunidade.

[3] Flor cujas cores vermelha, amarela e verde são simbolizadas na bandeira da Bolívia.

[4] Princípio da reciprocidade.

[5] Tradição do trabalho coletivo para finalidades sociais.

[6] Protocolo de convite, de invocação dos espíritos sagrados dos mortos.

[7] Grande armazém onde se guardam principalmente alimentos.

[8] Comunidade de várias famílias cujos membros consideram que tenham origem comum, seja filial ou religiosa, que trabalha coletivamente em território de propriedade da comunidade.

[9] Nome que o povo Kuna usa para se referir às Américas.

[10] Designa o local considerado berço da civilização pré-incaica de mesmo nome.

[11] Transparente, que nada esconde.

[12] Grão muito difícil de quebrar, tradicionalmente posto em volta do pescoço de recém-nascidos.

[13] Fortes, corajosos.

[14] Duros de cozinhar.

[15] Palavra de origem tupi-guarani que significa “fogo eterno”, “fogo que não se apaga”.

[16] Nome do local onde se ergue o rochedo esculpido, místico e misterioso de Samaipata.

[17] Divindade representada pela serpente alada, que simboliza a vitalidade da água que irriga as terras cultivadas e permite a existência das comunidades.

[18] Os sábios, filósofos e cientistas.

[19] “Mudança da terra”, chegada de novo tempo, volta ao equilíbrio, à igualdade original.

[20] Um todo, composto de singularidades.

[21] Sistema codificado de comunicação dos Guaranis.

[22] Como lê-se no texto, “indivíduo livre, sem patrão”.

[23] Núcleo ou centro da Terra, ponto de encontro das energias positivas e negativas, lugar dos opostos, onde coexistem os contrários.

[24] Terra, cosmos, universo, tempo-e-espaço.

[25] Bem-viver. O conceito do bem-viver.

[26] Ação de assegurar o bem individual e o bem coletivo ou comunitário.

[27] Raiz cultural.

[28] Universo espiritual, que complementa a Pachamama.

[29] Complementaridade de opostos, dualidade e harmonia.

[30] “Compreendamos os irmãos da oposição política”.

[31] Verdadeira via, o justo caminho. Expressão que também designa a famosa rede de estradas que cobria o Império Inca.

 

(Compartilhado do Grupo Internacionalista, coordenado pelo Amigo, Camarada Professor Lejeune Mirhan, a quem agradeço pela generosidade da iniciativa.)

sábado, 21 de novembro de 2020

SOMOS TODOS JOÃO ALBERTO

 SOMOS TODOS JOÃO ALBERTO

Em imagens muito parecidas às que denunciam a violência psicótica de policiais que mataram George Floyd em maio deste ano, a opinião pública brasileira, na véspera do Dia Nacional da Consciência Negra, é tomada de perplexidade pelo surto assassino de “seguranças” (sic) do Supermercado Carrefour em Porto Alegre que levou à morte, em menos de seis minutos, João Alberto Silveira de Freitas.

As trágicas imagens flagradas na véspera do Dia Nacional da Consciência Negra deste ano em Porto Alegre põem por terra todos os argumentos hipócritas da “democracia racial”. Estão na gênese do Estado brasileiro ─ como de resto todos os Estados decorrentes das igualmente criminosas colonizações hispânica, inglesa, francesa, holandesa e belga ─ as causas da desumanização do africano escravizado e de sua coisificação. Ou teriam se esquecido de que negros e índios “não tinham alma”? E que a hegemonia econômica e “civilizatória” europeia foi conquistada ao custo de um voraz genocídio superior a 100 milhões de vidas africanas, além da total desestruturação das sociedades ancestrais da África, reduzidas entre os séculos XVI e XIX (na verdade até hoje, pleno século XXI) a centro provedor de um rentável negócio, o comércio escravista que encheu de dinheiro a Inglaterra, França, Holanda, Bélgica... (não por acaso, junto com a Espanha e Portugal, metrópoles coloniais enriquecidas também com as riquezas locais, entre elas ouro, prata, pau-brasil, esmeraldas, cana-de-açúcar...).

Tão inconsistentes quanto a narrativa negacionista de hoje ─ feito diarreia fétida a ser expelida como rajadas de metralhadora de milicianos cada vez mais poderosos e bem representados nas diversas esferas de poder ─, os argumentos de que a “indolência” dos povos originários foram a causa do criminosamente rentável comércio de escravizados (aliás, origem do capitalismo, em sua fase chamada mercantilista, metalista e outras caracterizações transitórias). Reitero: tudo isto está na essência do Estado que somente no século XX, graças a muita luta de gerações generosas que deram seus melhores dias para a construção do Estado Democrático de Direito, como consignado na Constituição Federal de 1988.

Não nos esqueçamos, porém, de que há uma reduzidíssima minoria, hoje muito poderosa ─ porque subitamente guindada ao poder graças a um golpe malsucedido gestado por ex-democratas, se assim pudermos denominá-los, na ânsia de retornar ao poder por meio de atalho, e que acabaram por entregá-lo a um lobo solitário, verdadeiro predador dos valores democráticos ─, que tem ojeriza por tudo aquilo que foi construído entre 1985 e 2016. Se Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Tancredo Neves, Franco Montoro, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Mário Covas, Florestan Fernandes, Freitas Nobre, Alencar Furtado e Marcos Freire, entre outros/as não menos importantes, estivessem vivos, figuras como obtusas como Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin, Roberto Freire, Tasso Jereissati e Fernando Henrique Cardoso jamais teriam consumado a desestabilização política que, entre 2014 e 2016, criou as condições para o golpe travestido de impeachment.

E por que, afinal, a violência desproporcional vem se multiplicando em todas as regiões do País? Ao contrário do negacionismo cúmplice e cínico de agentes políticos que hoje galgaram importantes cargos federais, a “caixa de pandora” aberta para dar o golpe em 2016 disseminou e multiplicou os mais retrógrados conceitos (aliás, preconceitos) que se remetem aos séculos XV, XVI e XVII (período anterior ao Iluminismo): quando os porta-vozes dessas hordas néscias criminosas negam e renegam tudo o que lhes incomoda, não fazem mais que reconstruir o maniqueísmo inquisitorial, o pérfido dualismo do “bem” contra o “mal” (obviamente eles são o “bem”, e tudo o que se contrapuser é o “mal”).

Não duvide o/a leitor/a de que eles são a reencarnação dos funestos seres da Inquisição, tanto que a Bíblia, em sua leitura fundamentalista (tanto quanto a Torá e o Alcorão, também pelo viés fundamentalista), cumpre essa mesma função. Lembram-se, um ano atrás, na “assunção” da golpista Jeanine Áñez Chávez como “presidenta” da Bolívia, seu juramento (ou teria sido perjúrio?) foi sobre a Bíblia, e não sobre a Constituição Política do Estado Plurinacional da Bolívia, em plena vigência? O governo nazissionista de Ben Netanyahu e os governantes wahabitas e hashemitas de Saud e Hussein fazem o mesmo, sobre a Torá e o Alcorão. Com o aval do império decadente de... Donald Trump, que não reconhece a vontade popular e quer se impor como um Nero em pleno século XXI.

A trágica morte do brasileiro ─ com virtudes e defeitos, como todos os seres humanos ─ João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, afrodescendente, pai de quatro filhos, filho, marido e torcedor do São José do Rio Grande do Sul, diante de sua Companheira e às vistas de muitos que se omitiram, por “seguranças” (sic) de um dos supermercados Carrefour de Porto Alegre, escancara uma das maiores feridas da sociedade brasileira: o racismo estrutural, que, somado à injustiça social tão secular quanto aquele, ameaça a sobrevivência do Estado Democrático Brasileiro, duramente construído ao longo de todo o século XX por gerações generosas de brasileiros muitos dos quais já eternizados.

Destemperos daquele que deveria agir como estadista (e desde que tomou posse não age como tal) à parte, mexer na ferida é, sim, urgente e necessário, gostem ele e sua horda de seres anacrônicos e bizarros. Somos todos João Alberto. Somos todos Marielle Franco e Anderson Santos. Somos todos Marçal de Souza, o Tupãí covardemente assassinado em 1983 por essa gente “de bens” que incendeia as matas, mata índios e posseiros e hoje, mais “empoderada” que nunca, apoia os inimigos da democracia, em nome da “tradição, da família e da propriedade”. Como em 1964, 1937, 1889, 1822 e 1500. Como sempre.

Só que enquanto houver cidadãos/ãs com consciência, sejam eles/as afrodescendentes, originários/as, trabalhadores/as, intelectuais ou livre-pensadores/as, a história seguirá sua inexorável marcha evolutiva rumo a uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. E, sim, o lixo, de onde tais hordas costumam sair, será o destino desses seres bizarros e anacrônicos, travestidos de ovo da serpente do fascismo, do racismo ou do machismo.

Ahmad Schabib Hany

sábado, 7 de novembro de 2020

TRAFICANTES, CONTRABANDISTAS E DELINQUENTES EM DESESPERO NA BOLÍVIA

 TRAFICANTES, CONTRABANDISTAS E DELINQUENTES EM DESESPERO NA BOLÍVIA

 A vitória acachapante do presidente eleito Luis Arce sobre golpistas, racistas, sonegadores, traficantes, contrabandistas e delinquentes deixou em total desespero aqueles que se diziam arautos da democracia e da liberdade. Só que não: bastou-lhes passar onze meses se lambuzando em nababescas orgias no Palacio Quemado, ignorando as leis e as reais necessidades do povo frente à pandemia e à fome ao longo deste período de ausência do Estado, para desviar acintosamente recursos públicos e quintuplicar o volume do tráfico, que voltou aos índices das ditaduras de Banzer e García Meza. E apesar da ínfima votação recebida pelos líderes de si mesmos, os cínicos da fronteira novamente fazem atentados, bloqueios e outras formas de sabotagem para extorquir caminhoneiros, turistas e comerciantes, que só podem passar mediante pedágio extorsivo e ilícito. Órfãos de ditadores, traficantes e contraventores, vivem da ilegalidade.

Dez de outubro de 1983. Como toda a Bolívia (à exceção das hordas narcotraficantes apoiadoras e beneficiárias de Hugo Banzer Suárez, Alberto Natush Busch e Luis García Meza Tejada), La Paz está em festa, pois os integrantes da Unidad Democrática Popular -- UDP, formada pelo Movimiento Nacionalista Revolucionario de Izquierda (MNRI), Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) e Partido Comunista de Bolivia (PCB) --, Hernán Siles Suazo e Jaime Paz Zamora, tomam posse dando início a mais de três décadas de vigência do Estado de Direito no país latino-americano que mais avançou na democratização de suas instituições com estabilidade econômica e inclusão social nestas duas décadas, sobretudo quando Juan Evo Morales Ayma venceu as eleições e refundou a Bolívia.

Tal qual o Brasil, em que maus perdedores como Aécio Neves e José Serra não hesitaram destruir o Estado Democrático de Direito, bolivianos derrotados nas eleições de 2019 acabaram com a democracia em seu país, disseminaram ódio e impuseram regime ditatorial racista e de pilhagem, derrotado mais uma vez nas urnas, diferentemente do Brasil, que naufragou na promiscuidade institucional entre grupelhos de Moro e Dallagnol, milicianos do ex-capitão que até hoje não exerce o mais alto cargo que a República conferiu e os saudosistas da casa grande e da senzala que não se deram conta que não mais vivemos no século XIX.

E não é demais deixar registrado que emissários do capitão renegado, já entronizado como chefe de Estado, estiveram na Universidad Católica Boliviana (UCB) de La Paz, participando da estratégia de “partilha do poder” com os/as golpistas que tomaram de assalto os destinos da Bolívia nos dias subsequentes à deposição do Presidente constitucional Evo Morales e do Vice-presidente Álvaro García Linera. Além de funcionários da UCB a testemunhar as nefastas negociações, interlocutores arrependidos (entre eles servidores de carreira da chancelaria) acabaram por dar com a língua nos dentes. Só não sabiam Donald Trump, Jair Bolsonaro, Jeanine Áñez Chávez, Carlos Mesa, Arturo Murillo, Branko Marinkovic e Fernando Camacho que não fica impune quem abusa dos povos originários. Como ironia da história, o amo Trump e seu fantoche tupiniquim, na véspera da posse do presidente eleito Luis Arce, vivem o luto pela fragorosa derrota sofrida pelo psicopata-mor para o adversário Joe Biden na corrida para a Casa Branca.

É indiscutível, e eles/as sabem disso, que nos 14 anos de governo de Evo Morales a Bolívia não só aperfeiçoou o Estado de Direito como fortaleceu suas instituições para melhor prestar os serviços públicos à população, em especial os mais vulneráveis (não por acaso, trabalhadores, camponeses, originários e pequenos comerciantes são a base de apoio do Movimiento al Socialismo, MAS). Isso tudo sob a indiferença da mídia empresarial -- da qual o candidato perdedor por duas vezes Carlos Mesa é representante --, que, tal como no Brasil, não só não reconheceu nem cobriu eticamente como disseminou fake news enlameando a conduta moral do primeiro estadista originário de um país cujas elites desde a colonização só promoveu massacres e saques sistemáticos aos herdeiros dos Incas.

Aliás, se há algo que incomoda as elites bolivianas (e seus cúmplices estadunidenses e brasileiros) é a sabedoria comunitária, sintetizada na saudação milenar quéchua: Ama Sua, Ama Llulla, Ama Quella! (Não mentir, não roubar, não ter preguiça!) Afinal, os pretensos civilizados são obsessivos praticantes da mentira, da pilhagem e do ócio. Nas opulentas avenidas de Manhattan e na Paulista esses parasitas vivem a explorar seu próximo com o maior cinismo e arrogância. Se pairassem dúvidas, quem são os imigrantes ilegais que trabalham em regime de escravidão nas fabriquetas da rua Vinte e Cinco de Março? Tanto lá como cá, e os fatos não negam, esses arrogantes tiveram a pachorra de oprimir, explorar, humilhar, achincalhar e desmerecer culturas ancestrais em toda a América, África, Ásia e Oceania, sem pudor nem comedimento.

Mas nós que estamos na fronteira do Brasil com a Bolívia não podemos fingir não vermos cínicos que se passam por “cívicos”, patrioteiros de ocasião, que como mercenários demonstram o falso patriotismo somente quando lhes convêm. É o que ocorre neste momento em que a Bolívia se reencontra com a História, e como bactérias, miseráveis parasitas, aparecem esses bizarros órfãos das ditaduras malditas de Hugo Banzer Suárez, Alberto Natush Busch, Luis García Meza Tejada e Jeanine Áñez Chávez para levar vantagem, tirar proveito, promover a pilhagem, ostentar a força, praticar a prepotência e cultuar a opressão.

É tarefa nossa, de todos/as os/as cidadãos/ãs do mundo, de todos/as os/as amantes da paz, de todos/as os/as combatentes da opressão e da exploração, apoiar o Estado Plurinacional da Bolívia, sua honrada população diversa e plural e suas autoridades democraticamente constituídas. Não permitiremos que traficantes, delinquentes, contrabandistas, parasitas e assemelhados atentem contra a soberania popular e plurinacional da Bolívia. Somemos todos/as numa só voz: somos todos/as bolivianos/as, como somos todos/as palestinos/as, e enquanto houver um só parasita a infestar a liberdade de nossos povos, mais dia, menos dias conhecerão a derrota da prepotência, como hoje experimentam Donald Trump e todos/as os/as fantoches pelo mundo afora.

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

BOLÍVIA: A CERTEZA NA FRENTE, A HISTÓRIA NA MÃO...

 

Bolívia: a certeza na frente, a História na mão...

 

Com a humildade peculiar dos povos originários, a Bolívia dá uma lição de coragem, sensatez e cidadania àqueles que usurparam o poder mediante um golpe truculento. E às potências globais e regionais que apoiaram parasitas que desde antes da Revolução de 1952 e das ditaduras de Barrientos, Banzer e García Meza vivem de privilégios que dilapidam as fartas riquezas naturais de um país rico e um povo paupérrimo.

No último domingo, 18 de outubro, num clima tenso com tropas armadas nas ruas, o povo boliviano deu provas para a humanidade de sua coragem, sensatez e cidadania, ao eleger com 55,1% o economista e ex-ministro da Economia Luis Arce. A diferença é de 26,27% em relação ao segundo colocado, com 28,81%, o jornalista e ex-vice-presidente renunciante Carlos Mesa, um ex-progressista arrependido e acusado de apropriação de um clássico livro de História da Bolívia cujo principal autor é o falecido historiador Humberto Vásquez Machicado, em coautoria com os pais do candidato.

Em sua primeira entrevista coletiva, o presidente eleito Luis Arce, ao agradecer ao povo boliviano pela vitória contundente, afirmou que não guarda rancor pelos ataques dos adversários e que governará, sem exceção, para todos os bolivianos. Antecipou também suas duas primeiras medidas tão logo tomar posse: distribuição de um bônus solidário (espécie de renda emergencial) de mil bolivianos e reestruturação da economia do país, que nos últimos 12 meses foi dilapidada pelo governo golpista. Em entrevista para o jornal “Folha de S.Paulo”, anunciou que seu governo pretende rever os novos termos do acordo com o governo de Jair Bolsonaro para venda do gás natural ao Brasil. Desde a gestão de José Serra no Itamaraty, no governo de Michel Temer, o volume de gás foi reduzido a 25% dos valores originais, acordados em 2006.

Uma das primeiras a reconhecer a derrota foi a presidenta autoproclamada Jeanine Áñez Chávez, que usou as redes sociais para enviar a sua mensagem. Um mês antes ela havia renunciado à sua candidatura para apoiar Mesa. Também o ex-presidente Tuto Quiroga, dias antes do pleito, saiu da disputa pedindo voto contra Arce. Fernando Camacho, com magros 14%, não quis renunciar em favor de Mesa por causa do passado “comunista” do ex-vice-presidente que abandonou a presidência quando o povo foi às ruas contra as privatizações, em 2003, tendo sido a água a gota que faltava para transpor o limite de tolerância dos bolivianos aos governos neoliberais.

Foi um não rotundo aos usurpadores do poder, que em novembro de 2019 se valeram das observações não comprovadas da missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) de que houvera irregularidades no escrutínio. Isso deu margem à narrativa de Mesa e dos demais derrotados naquele pleito de ter havido fraude na reeleição do presidente Evo Morales. Diante da incredulidade da população, organizações fascistas como “Juventud Cruceñista”, “Juventud Cochala”, “Motoqueros” e “cívicos” parasitários. Eles levaram o caos, por mais de 20 dias, a todos os cantos da Bolívia, num blecaute sem precedentes na história recente do país. Num cenário à la “Guernica”, aparecem como “justiceiros”, perseguindo líderes populares e parentes de membros do governo de Morales em suas casas, Luis Fernando Camacho -- o célebre “Qué Macho”, filho de um ex-capanga dos ex-ditadores Hugo Banzer e Luis García Meza --, Arturo Murillo Prijic -- de uma família de croatas que colaboraram com Banzer e Garcia Meza em suas respectivas ditaduras, cuja conduta como ministro de Governo de Jeanine Áñez revelou sua truculência, desapego pelos valores democráticos e sem qualquer urbanidade -- e Roxana Lizárraga -- alter ego da jornalista e comunicadora Amalia Pando, de quem é cria e se afastou para fazer uma carreira ainda mais ousada que a madrinha, teve efêmera e polêmica passagem pelo ministério de Jeanine Áñez, na Comunicação, mas em dois meses se incompatibilizou com a presidenta a quem teria que obedecer, não sem antes ter criado um dos maiores imbróglios do governo golpista, por ter ameaçado enquadrar em crime de sedição os jornalistas bolivianos e estrangeiros em exercício do ofício que fizessem qualquer denúncia (pelo que responde, inclusive na Comissão de Direitos Humanos da OEA por atentar contra a liberdade de imprensa).

Descendentes diretos de sérvios e croatas, aliás, são os que estão em maior número num gabinete ministerial outrora marcado por diferentes etnias de povos originários. Inepta e racista, a obscura senadora Jeanine Áñez nomeou “gente branca” para compor o ignóbil ministério golpista, cujo critério foi o pedigree, tendo como carro-chefe o truculento Arturo Murillo, ex-piloto de rallies e de ideias fascistas e segregacionistas, entre elas a de fundar a “meia-lua” (um suposto “país” formado pelos territórios de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija). Chanceler de um vexame só (no Parlamento Europeu), a néscia Karen Longaric também esnoba sua ascendência sérvia como cartão de visita. Já Branko Marinkovic, igualmente descendente de sérvios, exibe seu currículo de tecnocrata bem sucedido que o levou a socorrer o desgoverno de Áñez em pleno processo de desmanche.

Reles fantoches de interesses imperialistas, em especial pelas reservas de lítio, gás, petróleo, ferro, estanho, prata, ametista, água, bancos genéticos e terras férteis, os grupos parasitários (rentistas, sonegadores, maus empresários, oligarcas e serviçais de delinquentes de toda espécie: contraventores, contrabandistas, traficantes e laranjas), não perderam tempo e formaram um consórcio criminoso para saquear a Bolívia sem dissimulo. Isso graças ao aval de Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), reeleito com o apoio de Trump e Bolsonaro, e dos meios de comunicação empresariais de todo o continente, que mais uma vez se prestaram ao papel de hienas ávidas de carne em decomposição.

A despeito de toda ordem de truculência, sobretudo massacres como o de Sacaba (em Cochabamba), Senkata (em La Paz) e Yapacaní (em Santa Cruz), com mais de 50 mortos, além de ameaças, assédio e cerceamento de liberdade, o eleitorado boliviano preferiu fazer do voto a sua arma contra o medo e a opressão dos golpistas. O Movimento ao Socialismo (MAS) protagoniza mais um passo pela emancipação e soberania do sofrido povo boliviano, enquanto aventureiros que tomaram literalmente de assalto os destinos da nação preparam seu plano de fuga aos Estados Unidos (são 150 pedidos de visto diplomático, enquanto estiverem nos cargos usurpados), indo assim para o lixo da História, de onde jamais deveriam ter saído.

Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

PROFESSORA JOANA D'ARC, FONTE DE LUZ, COERÊNCIA E LEALDADE...

 


PROFESSORA JOANA D’ARC, FONTE DE LUZ, COERÊNCIA E LEALDADE...

 

Quem, como eu, teve o privilégio e a felicidade de conhecer a querida e agora saudosa Professora Joana D’Arc Gomes Braga em tenra idade, sabe que ela sempre será sinônimo de alegria, esperança, sabedoria e lealdade. Sua precoce eternização empobrece ainda mais nossa cosmopolita Corumbá de todos os povos, os encantos e os sonhos...

Era março de 1989. O hoje CPAN (Campus do Pantanal) da UFMS ainda se chamava CEUC (Centro Universitário de Corumbá). Ainda que, não muito diferente de hoje, esse importante centro de excelência, ciência e altos estudos fosse acintosamente ignorado pelas (obscurantistas) elites políticas, nunca deixou de ser uma usina de inquietude juvenil, de despertar para o saber que incomoda porque questiona e clama por transformações. Foi como tive a honra e o prazer de conhecer a caçulinha dos calouros de Biologia, aos 18 anos, a agora saudosa Joana D’Arc Gomes Braga, cujo sorriso e espontaneidade desconcertavam os senhores engravatados de então.

Ao lado das igualmente queridas Márcia Ivana do Amaral, Maria Helena Andrade, Greice Kelly Bastos, Simone do Valle Leone e Kátia Braga e dos Amigos Abel Maia, Amaro Feitosa e Amilton Evangelista, além do agora saudoso Joaquim Ivan do Amaral, todos do curso de Biologia, tão dedicados a estudos e pesquisas quanto questionadores e irrequietos, a ponto de terem sido alvo de demonstração do autoritarismo ainda remanescente do regime de 1964, então impregnado nas instituições universitárias, até por conta da longa vigência de uma legislação repressora liderada pela Lei Federal nº 5.540/1968 e dos famigerados decretos nos. 228 e 477, também do mesmo ano, fruto do nefasto Acordo MEC-USAID, responsável pela reforma universitária goela abaixo e da Lei Federal nº 5.692/1971, que retirou o conteúdo humanista e impôs o ensino profissionalizante aos estudantes do ensino fundamental e médio (então “primeiro” e “segundo” graus).

É verdade que a Constituição Cidadã acabara de ser promulgada apenas uns meses antes, mas a cultura do autoritarismo não havia sido erradicada do cotidiano repressor do ambiente escolar e universitário. Aliás, essa aproximação se deu por meio de Mara Leslie do Amaral, Irmã que a Vida me presenteou, que fazia algumas disciplinas de História depois de ter concluído Letras havia uns anos antes. Os seus dois Irmãos (Joaquim Ivan e Márcia Ivana) faziam Biologia e também sentiram na própria pele as retaliações de professores/as mais antigos, desacostumados/as à inquietude salutar e fecunda desses jovens estudantes.

Nesse contexto de vida universitária em que a irreverência é uma das características da juventude transformadora e autêntica, é que conheci a alegria sem fim da querida Joana D’Arc. Então o CEUC carecia de um meio de circulação de ideias, sugestões, críticas e opiniões, devidamente assinadas, e não demoramos muito para estruturar coletivamente um periódico acadêmico, cujo nome, por votação livre e secreta, foi “Embrião” (a maioria o escolheu porque, segundo o seu entendimento, viria à luz para transformar nosso local de convívio, “muito careta e pouco dinâmico”). A contribuição da Joana D’Arc foi surpreendente: um texto bastante objetivo, coerente e de uma irreverência contagiante pela alegria com que encarava a realidade.

Além dos colegas de Biologia, tivemos a participação de estudantes de Psicologia, com destaque para o hoje Professor Marco Antônio Oliva Monje (depois eleito por grande maioria, por voto direto, para a primeira presidência do Diretório Setorial de Estudantes); História, em que o hoje Professor Jorge Eremites de Oliveira, então presidente do Centro Acadêmico de História, também se destacou, além do sargento Edson Barbosa, bastante atuante e estudioso, transferido para sua cidade-natal antes de concluir o curso; Letras foi muito pródigo, tendo se destacado os hoje Professores Júlio Xavier Galharte, Maria Inês Arruda, Ana Cláudia Pimenta e Dary Jr. (que depois se transferiu para Campo Grande para seguir brilhante carreira jornalística e musical), e Henrique (o sobrenome não lembro, então tenente da Marinha, também transferido antes de concluir a graduação) e Gilson Sávio de Souza (falecido precocemente em acidente rodoviário antes do final daquele ano, uma grande promessa cuja breve existência deixou um vazio nunca preenchido).

O ambiente universitário ainda padecia da cultura dos popularmente chamados de X9, ou dedos-duros, que em troca de vantagens com professores alinhados ao antigo regime eram encarregados da delação (e muitas vezes pura invencionice) sobre o que era tratado nas reuniões estudantis. Somado a isso, a paralisação dos docentes por mais de três meses e a realização da primeira eleição presidencial direta pós-1964 (nove candidatos no primeiro turno, e a disputa entre Collor e Lula no segundo turno), acabaram por atropelar o projeto de periódico acadêmico. Mas entre os estudantes de Biologia, cada vez mais empoderados, a querida Joana D’Arc se sobressaía de modo especial.

Aos poucos, os estudos e a maturidade a tornavam ainda mais influente e generosa. Quando foi a colação de grau, em 1993 se não me engano, ela era uma referência entre os colegas no CEUC. Em toda a sua trajetória de conquistas milimetricamente construídas com solidariedade e lealdade Joana D’Arc foi como uma ex-aluna a descreveu (e confirmado pela querida Professora Angélica Bezerra): vítima de depressão, a grande epidemia juvenil de nossos tempos, a jovem confidenciou o gesto angelical de Joana D’Arc, que desenhou em seu braço cheio de marcas das dores da alma um coração, dizendo-lhe que cada ferida representava uma dor no coração materno. Atitude que revela quem sempre foi a querida jovem alegre, irreverente e leal que iluminou a vida de quem teve a sorte de conviver com ela em algum momento de sua rica, generosa e intensa Vida. Com letra maiúscula.

Obrigado, Joana D’Arc, por ter-nos presenteado com a sua iluminada e generosa existência. Até sempre, querida e inesquecível Amiga e Companheira de lutas e sonhos...

Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Homenagem do Dia das Mães (da Filha, Karina) para a querida e hoje saudosa Professora Joana D'Arc Gomes Braga

 



Mãe a vida me forçou a aprender
Tudo aquilo que eu ouvia de você
Mas entre os problemas
Acho que ainda sei sorrir
Mãe pra muito coisa eu sei que demorei
E quanto tempo isso faz eu já nem sei
Os anos insistiram em passar
E eu cresci
Foi quando aprendi voar e o mundo
Inteiro quis pegar pra mim
A gente nasce, cresce, casa e sonha em
Ser feliz por isso eu fui buscar no
Mundo tudo o que eu quis
Todas as vezes minha mãe
Que alguém me disse não
Você disse sim pro meu coração
Mãe chegou o meu futuro e eu não tô só
Em pouco tempo alguém vai te chamar de vó
O mundo em nove meses torna a renascer
O tempo implacável vai continuar
Deixando sua marca em nosso olhar
E com meu filho isso também vai acontecer
Te juro que a ele eu vou ensinar
As coisas que aprendi de tanto ouvir você falar
Feliz Dia Das Mães.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

OUTUBRO, MÊS DE CONQUISTAS E CELEBRAÇÕES

OUTUBRO, MÊS DE CONQUISTAS E CELEBRAÇÕES

 

Mês de importantes conquistas na História, outubro também conta com importantes celebrações de referências pessoais que, presentes ou em memória, participam de nossa luta por uma sociedade melhor.

Há pessoas que se refugiam nos signos zodiacais, astrais ou mitológicos. Mas há também aquelas que procuram na História uma forma de concatenar processos, conquistas ou condutas para tentar estabelecer um fio condutor capaz de explicar certa correlação de personalidades ou momentos que de alguma forma contribuíram para transformar povos, comunidades ou pessoas ao longo da Vida.

Indiscutivelmente, o mês de outubro traz para o Brasil nos últimos 32 anos emblemático marco transformador: a promulgação da Constituição Cidadã, a 5 de outubro de 1988. O Deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte e líder da maior frente partidária de oposição ao regime de 1964, nascido nesse dia, décadas antes daquele evento, é uma das referências de minha geração cuja coragem e determinação não podem ser esquecidas. Como não esqueceremos o retirante que a História revelou um dos maiores estadistas dos últimos 150 anos, dentro e fora do Brasil: o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou o País num patamar de respeito e reconhecimento como poucos o fizeram na conturbada vida republicana, seja no enfrentamento da miséria secular ou na tentativa de adoção de políticas de reparação da desigualdade social.

Já no plano mundial, outubro é emblemático porque celebra a vitória bolchevique sobre a nobreza medieval, tirânica e decadente russa, liderada por Vladimir Ilych Ulianov, Lênin. Gostemos ou não de seus ideais, o fundador da União Soviética liderou com seiva, sabedoria e determinação uma nação em estado de pré-indigência e a transformou em superpotência em menos de 30 anos, a ponto de o Ocidente ter precisado se reinventar para não capitular diante da efervescência de suas ideias ao derrotar eloquentemente o III Reich e seus satélites, dentro e fora da Europa.

Igualmente, o líder Mao Tsé Tung, fundador da República Popular da China, hoje a maior potência econômica do planeta, derrotou em outubro de 1949 a então maior potência colonial, Grã-Bretanha, e aliados, tirando-a de um regime com características feudais e transformando-a na segunda maior economia industrial do mundo. Mesmo havendo quem encontrasse motivos para questionar, Mao reafirmou o marxismo-leninismo uma doutrina libertadora do milenar povo chinês rumo ao século XXI. Tudo isso em menos de 40 anos, disputando com os camaradas soviéticos a hegemonia daquilo que compreendiam como a doutrina de superação do imperialismo.

Nem tudo é festa, claro. No funesto 8 de outubro de 1967, fantoches dos Estados Unidos, comandados pelo general-ditador boliviano René Barrientos Ortuño, atiraram contra o corpo de um homem já que não oferecia qualquer ameaça. A ameaça estava nos ideais do médico argentino Ernesto Rafael Guevara de La Serna, consagrado pela História como “Che”, líder da emancipação dos povos explorados pelo mundo afora, entre os quais os latino-americanos. Não satisfeitos de assassiná-lo covardemente, deceparam-lhe as mãos para entregá-las como troféu para seus amos estadunidenses (só não lhe arrancaram a cabeça para enviá-la ao carrasco Lyndon Johnson porque um servidor de carreira da Polícia Federal Argentina impediu que seu conterrâneo tivesse o cadáver profanado).

Outubro, além de celebrar tais momentos emblemáticos da trajetória humana ao longo da História, também é tempo de celebração entre nós do aniversário do meu saudoso e querido Pai Mahoma Hossen Schabib; do meu grande e querido Amigo, Senhor Jorge José Katurchi, Companheiro há quase 30 anos do Pacto Pela Cidadania, que completa 94 anos de Vida com lucidez e saúde invejáveis, embora tenha motivos para não fazer festa, pois uma das almas gêmeas que trouxe para o mundo eternizou-se há pouco mais de um mês; o igualmente querido Amigo Raul Valle Herrera, há algumas décadas na capital, também celebra seu quarto pentadecanato, porque ele tem essa capacidade de “acumular juventude”, no dizer de nossa Amiga e Companheira Estela Márcia Rondina Scandola, cujo aniversário é também nestes dias.

Outra Amiga e Companheira de jornadas memoráveis é a pesquisadora Sílvia Maria Costa Nicola, primeira pesquisadora da então UEPAE (e desde 1984 CPAP, Centro de Pesquisas Agropecuárias do Pantanal), hoje Embrapa Pantanal. À época Mestre em Ciência Animal e Pastagens, essa querida Amiga soube abrir perspectivas na área da Pedologia com uma instituição francesa similar, a ORSTOM, presidida pelo saudoso Pedólogo Allan Ruellan, correligionário e amigo do Presidente François Mitterrand, que focou no Nordeste e no Pantanal do Brasil importantes esforços para o desenvolvimento da agricultura familiar.

Hoje o outubro não é só vermelho, como também é rosa pelo enfrentamento inadiável de uma das manifestações de câncer mais avassaladoras e trágicas: o câncer de mama. É que, sobretudo com o distanciamento social causado pela pandemia de covid-19, este ano a incidência de casos aumentou em relação aos anos anteriores. Assim como a Mãe Terra está sofrendo pelos desatinos e ganância de uma ínfima minoria de “donos do mundo” que põe fogo em tudo, as mulheres padecem, além da violência doméstica, da misoginia e do assédio moral, as consequências da falta de políticas públicas que deem eficácia e eficiência às medidas preventivas de doenças de grande mortalidade como o câncer de mama, cujo diagnóstico precoce assegura uma vida longeva e com qualidade às mulheres, e homens também, de todas as idades.

Vida longa e muita saúde a todas e todos, na certeza de que com ânimo, sensatez e lealdade venceremos todas as adversidades, a começar pela falta de empatia, o respeito pela outra, pelo outro...

Ahmad Schabib Hany