domingo, 4 de janeiro de 2015

Imigrantes que habitaram a Corumbá da segunda metade do século XX


‘Don Menéndez’ e a Corumbá da segunda metade do século XX
Qualquer corumbaense ou ladarense com mais de 50 anos de idade vai se lembrar dos inúmeros compradores de cobre que circulavam pelas movimentadas avenidas, ruas e alamedas da promissora Corumbá de meados do século XX. Empurrando, com dignidade, o seu carrinho de mão, geralmente confeccionado com muita originalidade, eles costumavam circular entre as oito horas da manhã e as cinco da tarde, cumprindo rigorosamente sua dura jornada de trabalho, sobretudo pelo calor causticante do centenário centro comercial cosmopolita, ainda vicejante. Apesar do anonimato que a Vida lhes impunha, cada qual tinha a sua rica história, sua biografia singular.
Pois um deles, de nacionalidade espanhola, povoou o imaginário de minha infância, por ter sido um grande Amigo de meu saudoso Pai, desde a nossa chegada à Cidade Branca, em 1964, até 1970, quando decidira retornar para Madri, em razão da idade avançada de sua Mãe. Era ‘DonMenéndez’ – ou Victorio José Menéndez Menéndez –, chegado a Corumbá no pós-guerra de 1945, bem jovem, como a maioria dos espanhóis perseguidos por Francisco Franco, o facínora aliado de Adolf Hitler e Benito Mussolini, ao vencer os republicanos na Guerra Civil Espanhola. Mas sobre esse passado ele se reservara o direito de não falar, até porque o conhecemos durante os anos mais difíceis do regime de exceção implantado no Brasil no mesmo ano de nossa chegada e depois proliferado por toda a nossa América Latina de muitos martírios e grandes silêncios.
Vestido com roupas bem proletárias (nessa época os blue jeans ainda não estavam na moda, e o seu uso era exclusivo de trabalhadores humildes que, para proteger sua integridade física, recorriam a esse tipo de traje mais por necessidade que por conforto) e calçando as velhas alpargatas Sete Vidas (cujo solado era totalmente confeccionado em cordas rudimentares), ‘Don Menéndez’ começou a frequentar, rigorosamente de segunda a sábado, sempre depois do pôr do sol, a modesta sorveteria que meu Pai acabara de instalar na Feira Boliviana para tomar um copo grande de refresco de ameixa quase congelado, um diferencial desenvolvido pelo seu tino comercial cuja composição era segredo dele (meu Pai), como atrativo para conquistar os clientes. Cabelos bem pretos, um tanto ralos, bigode ao estilo francês do início do século, tez mourisca e olhos castanhos, estatura mediana alta e bem magro, não recordo se fumava, mas seu aroma natural era de acentuado tempero mediterrâneo.
Como todos nós, em casa, falávamos (e ainda falamos) em espanhol, ‘Don Menéndez’ ficava à vontade para matar a saudade de sua língua materna, e aos poucos foi sentindo confiança para “sair do anonimato”. Mas isso levou algum tempo. Na verdade, por causa da doença de meu Avô materno, acometido de câncer no intestino, 1965 foi um ano duplamente duro para minha Família: sem a presença de minha saudosa Mãe, que precisara viajar a Cochabamba para assistir seu Pai, em Corumbá meu Pai tinha que “se virar” com os seis filhos mais novos e dar conta dos compromissos de seus novos empreendimentos: a sorveteria e a hospedaria. Nesse contexto é que o novo e verdadeiro Amigo de meu Pai adentra ao nosso cotidiano, Amizade que durou até o final da Vida dos dois, apesar das dezenas de milhares de quilômetros de distância entre Corumbá e Madri.
As primeiras conversas tratavam de filosofia clássica, que ‘Don Menéndez’ dominava bem, segundo meu Pai, cuja formação universitária era essa. Depois, sobre literatura e história da humanidade. Cada qual com seu ponto de vista, mas sempre com muito respeito e em voz prudentemente baixa, não se esquecendo de que os regimes de exceção ainda estavam em fase de implantação em toda a América Latina (e na Espanha, ainda muito enraizado, eis que só depois da morte do generalíssimo Franco, em 1975, é que começa a desanuviar o temporal intermitente imposto em 1938). Só me lembro de uma discussão que causou o “sumiço” temporário dele: quando, em tom de desabafo, falara de sua Mãe, em termos nada educados, e meu Pai, indignado, se permitiu exigir dele retratação. Esse mal-entendido deve ter durado não mais que uma semana, mas ao cabo desse interregno, feita a devida retratação, a Amizade jamais se abalara, ao ponto de meu Pai ter sido seu procurador com plenos poderes para tratar de vários interesses deixados pendentes ao retornar para a Espanha.
Assim como quando vivia em Corumbá, ‘Don Menéndez’ tratava de temas complexos em suas longas e ilustrativas cartas, mensalmente escritas, ora sobre filosofia clássica ou história da humanidade. Com a mesma atenção, meu Pai respondia ao debate epistolar e compartilhava seu olhar sobre a conjuntura local (Corumbá), sem deixar de enviar seu relatório periódico como procurador de seus bens, metodicamente separados. Isso ocorreu por décadas, até o momento em que ele decidira não mais retornar para o Brasil, autorizando meu Pai acordar com dois outros sócios seus para vender tudo que deixara aqui, documentado num longo relatório enviado antes de “bater o martelo” (é que algum dos sócios havia falecido ou havia alguma pendência que causara preocupação ao meu Pai).
Muitos anos depois, meu Pai nos contara que ‘Don Menéndez’ era filho único de mãe solteira, e isso havia sido motivo de muita controvérsia entre eles, pois não conhecera seu Pai, morto durante a Guerra Civil da Espanha. E foi graças à Amizade com meu Pai, órfão de Mãe aos 5 anos, que ele resolvera “quebrar o gelo” e fazer uma viagem de reaproximação com a Mãe em 1969, oportunidade que serviu para se decidir pelo seu retorno para sua terra natal no ano seguinte, quando passou a morar com ela até o final da Vida. Como sinal de gratidão, logo de sua chegada à Espanha, enviou uma edição atualizada do Dicionário Larousse Ilustrado em Espanhol, pois o do meu Pai, que eles usavam amiúde, datava de 1942.
Ainda que não fosse um entusiástico partidário das monarquias, certa ocasião ‘Don Menéndez’ fez questão de surpreender meu Pai com uma revista espanhola que vive a fazer apologia às ditas famílias reais mundo afora, com a novidade de que em um dos emirados árabes havia uma família real com nosso sobrenome. Mas, para nosso alívio, imediatamente meu Pai esclareceu de que se tratava de mera coincidência, pois sua ascendência era sírio-libanesa, nada tendo a ver com essas realezas impostoras criadas pelo colonialismo europeu, fosse turco ou franco-britânico, no Golfo. Todo final de ano, ele enviava diversos impressos (revistas, jornais ou livros com temas relacionados aos da longa correspondência mantida por décadas), para regozijo de meu Pai.
Quando ‘Don Menéndez’ recebera a notícia sobre o precoce falecimento de meu Irmão Mohamed (‘Tchítchi’), em setembro de 1974, o Amigo espanhol lhe enviara longa e comovida mensagem com seu depoimento sobre o “jovem idealista” e “grande promessa”, como ele se expressara, insistindo ao meu Pai que não acreditasse jamais ser ele um suicida, até porque seu perfil corajoso e transformador, a exemplo do incansável Pai, era conhecido e reconhecido por todos. A mesma opinião ele reiterara ao receber, 22 anos depois, a carta de minha autoria dando conta do súbito falecimento de meu Pai, em julho de 1996. Fiz questão de ler essa carta para minha saudosa Mãe, que sempre acompanhara a troca de correspondências entre meu Pai e seus Amigo(a)s, espalhado(a)s pelo mundo, num tempo em que Internet não passava de ficção, mas os Correios testemunhavam a existência de pessoas que não viviam sem expressar seus anseios, sentimentos e convicções por meio do papel cúmplice e solidário de todas as horas.
Além de cidadão do mundo, solidamente formado com generosos valores humanistas, ‘Don Menéndez’ era inventor (criara ferramentas geniais e projetara curiosos instrumentos para diferentes usos, provavelmente nas noites solitárias vividas aqui, lamentavelmente não patenteados), projetista, mestre de obras, hábil comerciante e grande investidor. Nos anos em que viveu modestamente em Corumbá, conseguiu a proeza de adquirir diversos imóveis, alguns dos quais em sociedade, em diversos bairros da cidade. Entre as relíquias que deixara hermeticamente acondicionadas em um sótão de um dos imóveis em que morara, havia grande quantidade de livros de filosofia, história e literatura em espanhol, além de curiosos relatos versando de diversos temas, inclusive sobre Amigos seus, cultivados com muito carinho, pois permitiu-se privar-se de aventuras ou relacionamentos afetivos em sua longa permanência no Brasil. Solteiro, sem filhos, ‘Don Menéndez’ faleceu solitário em Madri, no apartamento em que vivera com sua Mãe, em fins de junho de 2005, tendo sido sepultado imediatamente em razão de o seu corpo estar em avançado estado de decomposição.
‘Seu Rafael’ e a Casa Estrela
Durante quase trinta anos, ‘Seu Rafael’ atendeu, com roupas feitas, armarinhos e calçados, os consumidores corumbaenses, ladarenses e bolivianos em sua tradicional Casa Estrela, situada na esquina das ruas Delamare e Quinze de Novembro, no mesmo prédio em que hoje funciona um escritório de advocacia e administradora de imóveis. Entre o início da década de 1960 e meados da década de 1990 a “lojinha” era uma importante referência para clientes das mais diversas nacionalidades, classes sociais e procedências.
Ele contava que decidira assim denominar sua primeira loja em homenagem à Estrela de Belém, da milenar história do Peregrino Nazareno cujo nascimento fora anunciado pela também Estrela Guia, dos Reis Magos. Como o nome ficaria muito longo, optou pela forma reduzida, assim homenageando também a emblemática estrela egípcia, então em ascensão, Gamal Abdel Nasser, fundador da República Árabe Unida (RAU), estadista de inspiração socialista, mas não subordinado à União Soviética, embora aliado seu no Oriente Médio, que com Broz Tito e Jawaharlal Nehru criara o Movimento dos Países Não Alinhados.
Se bem me lembro, foi no início de 1965, ao lado de meu saudoso Pai, meu primeiro contato com o bem apessoado e verdadeiro gentleman Soubhi Issa Ahmad – o popular ‘Rafael’ –, refugiado palestino da região de Ramallah, forçado a sair de sua terra em plena juventude por ter ousado desafiar uma patrulha das forças coloniais inglesas no pós-guerra de 1945. Então estava por receber a esposa e duas filhas (de dois casais de filhos), que estavam chegando do Egito, depois de haver conseguido sair com apenas a roupa do corpo de Kafer Málek, na Cisjordânia Ocupada (por Israel, Estado criado em novembro de 1947 pela Organização das Nações Unidas – ONU –, sem ter consultado seus maiores interessados, os habitantes da Palestina milenar).
Foi o ‘Seu Rafael’ que, em meados da década de 1980, me contara, visivelmente emocionado, diante de meu Pai e de alguns amigos de juventude, que ao chegar da ilha caribenha de Martinica – onde se fala o francês, além do crioulo (idioma dos remanescentes da população originária) –, havia protagonizado um involuntário e constrangedor imbróglio com a esposa de um importante líder político local, morto seis meses depois. Tratava-se da saudosa Professora Eunice Ajala Rocha, então jovem esposa do vereador Edu Rocha, covardemente assassinado na saída da Câmara Municipal em fins de julho de 1959. Como ele não falava o português e iniciava sua lide de mascate urbano, pedira a um irreverente libanês ajuda para escrever o que serviria de roteiro para um diálogo de demonstração e venda de seus produtos, acondicionados em duas típicas malas de fibra.
Ocorre que o libanês brincalhão ensinara errado, e a brincadeira de gosto duvidoso poderia ter lhe custado a vida não fosse sua primeira tentativa de venda na casa desse emblemático político, residente à rua Major Gama, quase esquina com a rua Treze de Junho. Ele abordara a senhora que prontamente atendera à costumeira batida de palmas com uma inusitada proposta de “quer dormir comigo?”, em vez de “quer comprar comigo?”. Ele contava que, sem entender, vira a perplexidade da jovem senhora, razão pela qual voltara a ler o que trazia em sua “cola”, meticulosamente redigida em árabe para evitar qualquer mal-entendido por causa da pronúncia. Diante da insistência do mascate, a senhora, ofendida, chamara o esposo, que educadamente o acolheu, apesar de ter ouvido a mesma proposta inusitada. Depois de tê-lo convidado para tomar café no interior de sua casa, sob a visível contrariedade da esposa indignada, Edu Rocha comprara alguns produtos e lhe oferecera carona para ir até outro libanês, o afável Mohamad Omar, proprietário da tradicional Casa Glória, situada à rua Frei Mariano quase esquina com a Delamare, no afã de esclarecer a situação constrangedora daquele imigrante com inequívocas evidências de que desconhecia o que falava em português. Ao ouvir do conterrâneo árabe o significado daquilo que para ele eram inofensivas palavras, ‘Seu Rafael’ se ajoelhou em sinal de respeito e pediu, em francês, perdão pela proposta inocentemente formulada, e, depois de se despedir dos dois senhores, saiu desconcertado à procura do patrício brincalhão para lhe dar o merecido corretivo, nunca consumado porque simplesmente o imigrante levado, ciente do que fizera, sumira de sua vista por bom tempo.
Meses depois, qual não fora a sua consternação ao tomar conhecimento do assassinato daquele gentil e inesquecível cliente brasileiro que o tratara com cordialidade e compreensão em vez de haver-lhe desferido alguma retaliação diante da inusitada proposta, indecorosa, sobretudo em se tratando de uma sociedade de costumes conservadores de meados do século XX. Fizera questão de ir ao concorrido cortejo fúnebre em sinal de gratidão e admiração por aquele ser humano que nunca mais tornara a ver.
Por ironia da Vida, alguns anos depois, quando ele finalmente conseguira estabelecer-se num empreendimento mais confortável – precisamente aCasa Estrela –, Dona Eunice Ajala Rocha havia sido nomeada funcionária do Ministério do Trabalho na sede do Serviço de Navegação Bacia do Prata, distante poucos metros da loja do ex-mascate que involuntariamente a constrangera com sua “cola” atrevida. Diante de mim, ao confirmar o episódio, a Professora Eunice, em fins da década de 1980, repetira em tom jocoso a proposta do mascate recém-chegado e do qual, com o devir dos anos, se tornara amiga e de toda a sua família.
Em meados da década de 1960, ‘Seu Rafael’ havia conseguido trazer a esposa, Dona Afefa, e as duas filhas para o Brasil. A mais velha, Abla, ajudava os pais na loja. A mais nova, Afef, lembro-me que estudava no então GENIC, e que nos desfiles cívicos levava a bandeira da Palestina, tendo ido depois para o Cairo continuar os estudos, assim como os dois filhos homens, que se formaram em medicina, ambos cardiologistas, um deles tendo fixado residência em Madri e o outro em Nova Iorque. Foi Abla que, ao lado de outras moças e alguns jovens palestinos, organizou os pioneiros atos públicos pela Palestina em Corumbá. Só mais tarde é que fora fundada a Sociedade Árabe-Palestino-Brasileira (acredito que em 1982). Já a Liga Árabe-Brasileira de Corumbá, que reúne toda a comunidade árabe da região (libaneses, sírios, palestinos, líbios, jordanianos, egípcios e marroquinos), data da década de 1950.
Pai extremamente zeloso, ‘Seu Rafael’ se identificava com o meu Pai. Ainda que tivessem opiniões diferentes sobre diversas questões, inclusive políticas, unia-os um raro laço fraternal, próprio dos imigrantes, cidadãos do mundo. Tamanha afinidade, foi com ele que meu Pai aprendeu fazer café, já com idade avançada, e ficava feliz ao receber o elogio de seu “professor” todas as manhãs (quase madrugadas) em que recebia a visita do amigo para ouvir as primeiras notícias do rádio, em árabe, inglês, francês e espanhol. Quando meu Irmão Mohamed (‘Tchítchi’) falecera, ele e o libanês assumidamente comunista Mohamed Bazzi (afetuosamente chamado de ‘Abu Kamel’, ou ‘Pai do Kamel’), proprietário da Casa das Flores, situada à rua Frei Mariano (quase ao lado do GENIC), passaram a confortá-lo com visitas semanais, por meses a fio (na verdade, por toda a Vida, enquanto viveram em Corumbá).
‘Seu Rafael’ dizia, com orgulho, que havia formado dois médicos para a causa palestina, para que os palestinos fossem melhor assistidos na sua própria terra, vilipendiada pelos invasores sionistas. Em duas viagens que fizera ao Egito ainda no tempo de Gamal Abdel Nasser, em 1968 e 1969, por causa dos filhos que deixara estudando, fez verdadeiros comícios em prol da liberdade de sua nação do jugo sionista. Naturalizado brasileiro na década de 1980, ele enaltecia o País que o havia acolhido ainda jovem, questionando a falta de patriotismo dos figurões com quem convivia por conta das atividades comerciais.
Quando finalmente pôde comprar um carro, já maduro (com mais de 60 anos de idade), pois os filhos já podiam se sustentar, já formados, trabalhando em Madri e Nova Iorque, respectivamente (e de vez em quando enviando algum dinheiro aos pais), fez questão de comprar um Opala Sedan 1974, cor laranja, seu único carro em toda a vida: de cinco em cinco anos dava um “banho” de pintura e o deixava sedutoramente “novinho em folha”, tendo somente uma vez mudado a cor, para grafite (em 1990), como é possível ser visto ainda hoje com o novo dono, embora bem menos cuidado que com o anterior.
Em 1985 o incansável ‘Seu Rafael’ abrira seu segundo empreendimento, denominado Loja Primavera, também na rua Delamare, onde hoje funciona uma casa de instrumentos musicais, a poucos metros do então movimentado “Ponto Final” dos coletivos urbanos de Corumbá, ao lado da Praça da República. Sua iniciativa decorrera, sobretudo, de seu dever de consciência de assumir os cuidados de um bebê nascido fora do casamento cuja mãe perdera a visão e ficara dependente da ajuda de sua família – o Fabinho, sua razão de ser até seus momentos finais.
Quando recebeu, exultante, a notícia de que poderia retornar à sua querida Palestina, ainda que como turista (por apenas 30 dias) e sob o jugo sionista, pedira a todos os seus amigos, inclusive meu Pai, que cuidassem de seu caçula caso algo acontecesse com ele. E, pior, é que aconteceu mesmo: partira feliz, dançando até os estertores da morte, ao lado dos filhos cardiologistas, que nada puderam fazer, na festa de casamento de uma sobrinha-neta em sua querida Kafer Málek, em meados de 1993, há 21 anos. Meses depois, Dona Afefa e Abla liquidavam a loja e faziam as malas para retornar à sua terra. Fabinho, aos 9 anos e sob os cuidados da segunda e dedicada esposa, Dona Gregória, foi e é tratado como filho do coração por essa verdadeira mãe andina (de onde é oriunda), sendo hoje pai-coruja de seu primeiro filho, lembrando bem o Paizão que não pôde ter ao seu lado até chegar à maioridade, mas cujas recordações o cobrem de orgulho e lhe são referência como cidadão do mundo que ele também faz questão de ser.
O seu segundo nome, Issa, é Jesus em árabe. Um nome muito comum entre os palestinos, que, indistintamente de denominações religiosas, louvam e respeitam desde sempre. Ele era muçulmano sunita, como a maioria dos palestinos chegados ao Brasil depois da implantação do Estado sionista, mas suas filhas estudavam no tradicional colégio das Irmãs salesianas, então GENIC. Fabinho, seu quinto filho, temporão, teve total liberdade de opção religiosa, tendo estudado, enquanto o Pai era vivo, em uma escola particular laica (na época a mais procurada pelos pais de origem palestina por causa dos elevados índices de aprovação em vestibulares de cursos concorridos em universidades fora da cidade). Quando decidiu partir para um segundo casamento, soube conviver, com a mesma galhardia e respeito pela diversidade, com a sua segunda companheira sem ter tido qualquer conflito de ordem cultural ou religiosa. Além disso, era um socialista confesso, mas não discriminava os que, dentro de sua comunidade, fizessem apologia do capitalismo, irmão gêmeo, segundo ele, do imperialismo que tanta infelicidade trouxe para toda a humanidade, e, sobretudo, para a grande nação árabe, desde os tempos do colonialismo franco-britânico, recebido inicialmente de braços abertos pelos líderes árabes, na ânsia de se libertarem do obscurantista império turco-otomano, de triste memória, responsável pelo atraso medieval de todo o esplendor cultural árabe entre os séculos XV e XX.
‘Abu Kamel’ e a Casa das Flores
Nascido no sul do Líbano no raiar do século XX, Mohamad Bazzi – o popular ‘Abu Kamel’ da Praça Independência dos idos de 1960 a 1980 – chegou a Corumbá pela ferrovia, procedente de São Paulo. Ele desembarcara no porto de Santos em meados da década de 1950, já homem maduro, com a esposa e os filhos (dois casais, sendo o mais velho Kamel, por isso ‘Pai do Kamel’, como reza a tradição oriental). Decidiu-se por Corumbá, que conhecera pelos relatos de conterrâneos que iam periodicamente a São Paulo para abastecer seus modestos empreendimentos, depois de alguns anos de trabalho sôfrego na Pauliceia Desvairada, onde convivera com alguns militantes do sindicalismo engajado brasileiro.
‘Abu Kamel’ precisara abandonar sua terra por estar muito próximo de Israel, distante do grande centro industrial cairota e no âmago do seu Partido Comunista, perseguido pelas oligarquias libanesas que, desde 1942, se sucediam em Beirute no controle do Estado criado pela França, por meio do nefasto Acordo Nacional, que deixara uma constituição aparentemente democrática, mas fatiara o governo de acordo a critérios sectários (isto é, por seitas religiosas), em que a presidência da República cabia a um cristão maronita, o cargo primeiro-ministro a um muçulmano sunita, a presidência do Parlamento a um druso, a pasta das Relações Exteriores a um cristão ortodoxo, e a pasta da Justiça a um muçulmano xiita. Socialistas, comunistas e socialdemocratas, nem pensar: todos proscritos, proibidos, pois ameaçavam os interesses das famílias que haviam tomado de assalto os destinos da terra natal de Gibran Khalil Gibran.
Muito discreto, ‘Abu Kamel’ só falava sobre seu passado político a amigos muito próximos, como o meu falecido Pai, uma década mais novo que ele. Dono da poeticamente denominada Casa das Flores, loja de armarinhos e calçados situada à rua Frei Mariano, quase ao lado do tradicional GENIC, esse simpático imigrante passava horas a fio compenetrado em obras clássicas em árabe e francês, mas que com a vigência de um regime anticomunista no País que o acolhera generosamente optara, prudentemente, pela leitura de clássicos da literatura e da história universal. Com meu Pai ele se permitia, discretamente, ouvir programas em árabe da Rádio Paz e Progresso, de Moscou, em que a análise da conjuntura política mundial passava pelo crivo da Academia de Ciências da União Soviética.
Eu me lembro tê-lo conhecido em 1967, durante a trágica Guerra dos Seis Dias (em árabe, “Terceiro Assalto”), quando o grande estadista árabe Gamal Abdel Nasser sentira o peso de sua primeira derrota militar, vítima da traição de reis subservientes ao sionismo, como o Rei Hussein, da Jordânia, e o Rei Hassan, do Marrocos. Apesar de meus 8 anos de idade, partilhei da dor dessa humilhante usurpação israeloamericana dos territórios árabes da Palestina, Egito, Síria e Líbano, em sua maioria anexados ao Estado nazissionista israelense. Algumas vezes ao lado de meu Pai, outras ao lado de meu falecido Irmão Mohamed (‘Tchítchi’), a quem ele chamava carinhosamente de Camarada (“Rafik”, em árabe), ouvi as primeiras lições sobre a ética socialista e a necessidade de superar o capitalismo e seu peçonhento comportamento explorador de classes e povos oprimidos.
Em setembro de 1970, quando foi anunciada a morte de Gamal Abdel Nasser, o maior estadista árabe dos últimos quinhentos anos, ‘Abu Kamel’, ‘Seu Rafael’ (o palestino Soubhi Issa Ahmad) e meu Pai, como em vigília, passaram horas a fio diante do receptor de rádio, ora sintonizando as emissoras soviéticas em árabe, espanhol e francês, ora ouvindo os hinos religiosos e músicas instrumentais clássicas da Rádio Cairo, que de hora em hora dava flashes sobre a vida e o legado de Nasser. Numa área reservada da pequena hospedaria de meu Pai, os três trocavam ideias sobre aspectos importantes de serem ressaltados no artigo de homenagem póstuma que meu Pai preparava para publicar em espanhol, português e árabe (o semanário Al-Anbá, de São Paulo; o diário La Razón, da Bolívia, e a revista Mundo Árabe, de Santiago do Chile foram os destinatários desse artigo, cuja versão discursiva foi levada ao ar graças à generosidade da Doutora Laurita Anache, então diretora da antiga Rádio Clube de Corumbá, da qual meu Pai era assíduo colaborador, como também do emblemático Diário de Corumbá, sob a direção do saudoso Rônei Nunes Pereira, que recentemente sucedera seu pai, Jornalista Carlos Paulo Pereira, fundador do jornal).
Outro momento em que os três Amigos estiveram bem unidos, e por mais tempo, foi depois do falecimento de meu Irmão ‘Tchítchi’, também no mês de setembro (de 1974). Desde o velório, no funeral e por meses a fio, ‘Abu Kamel’ e ‘Seu Rafael’ ficavam horas e horas com meu Pai, que decidira reunir tudo o que fosse possível para escrever sobre as memórias de seu primogênito. Embora ‘Abu Kamel’ fosse declaradamente agnóstico (portanto não professava nenhuma religião), estava ao lado de seu Amigo nessas horas difíceis, apoiando-o em todas as suas iniciativas. E como naquele mesmo ano iniciava a Guerra Civil do Líbano, depois de um ato de sabotagem executado por falangistas e sionistas contra um ônibus em Beirute, essa amizade militante entre esses três Amigos se fortaleceria ainda mais.
A minha primeira conversa “de adulto” com ‘Abu Kamel’ se deu aos meus 17 anos, em 1976, quando estava concluindo o ensino médio. De modo didático e com muita delicadeza, explanou sobre sua militância, desde tenra juventude, no socialismo, sua opção pelas atividades políticas embora fosse um aluno dedicado no Líbano e da necessidade de abandonar sua terra, às pressas, depois que sionistas e falangistas celebraram um pacto secreto para exterminar toda e qualquer resistência patriótica em todos os países árabes. Até então, Gamal Abdel Nasser, o líder da Revolução Árabe de 1952 que depôs o fantoche israelobritânico Rei Faruk, ainda não entrara no cenário político do chamado mundo árabe.
Naquela oportunidade conheci o filho mais jovem de ‘Abu Kamel’, que havia chegado do Líbano na companhia de uma das duas irmãs (em razão da Guerra Civil eclodida dois anos antes) e, com a ajuda do Pai, me revelava detalhes da carnificina promovida com o aval das potências ocidentais. Esse genocídio, cujos alvos eram a esquerda libanesa, cada vez mais forte, e os refugiados palestinos (a quem os falangistas e sionistas atribuíam a causa do crescente avanço dos partidos de perfil socialista), durara quase vinte anos e destruíra toda a infraestrutura do país, além de ter causado a morte de mais de meio milhão de civis libaneses e palestinos. Os dois filhos vindos do Líbano permaneceram por quase dois anos, pois com o súbito falecimento da Esposa, ‘Abu Kamel’ ficara profundamente abalado, passando a depender da companhia e do afeto dos demais membros de sua pequena Família no Brasil.
Por conta da saúde debilitada e da idade avançada, ‘Abu Kamel’ decidiu-se pelo retorno ao Líbano no início da década de 1980, embora o Sul do Líbano, região da qual era oriundo, ainda estivesse sob o fogo cerrado das milícias falangistas libanesas e das tropas do exército regular de Israel. No mesmo ano em que o mundo testemunhou com perplexidade o ignóbil massacre de Sabra e Chatila (setembro de 1982), durante o rigoroso inverno libanês, ‘Abu Kamel’ se eternizava em razão de um infarto fulminante ao ser noticiado do precoce falecimento de seu primogênito Kamel, em circunstâncias não esclarecidas. Mais um cidadão do mundo e à frente de seu tempo que não conseguira ver seu país liberto da herança maldita do colonialismo europeu, cujas garras permanecem até hoje sangrando o berço da humanidade.
‘Don Fauze’ e a Sorveteria Superbom
Um dos primeiros Amigos de meu falecido Pai em Corumbá, o libanês Fauze Rachid, chegara à Cidade Branca junto com a ferrovia Brasil – Bolívia, em 1956, depois de ter vivido uma década naquele país, onde contraíra dois casamentos e conhecera o dentista José Al Hany, um conterrâneo sexagenário que, mais que Amigo, fora um conselheiro. Por conta do tempo em que passou nos trópicos bolivianos, ganhara a alcunha, inclusive no Brasil, de ‘Don Fauze’, que o acompanhou até o fim de seus dias. Era um homem de quase dois metros de altura e de estrutura óssea bem larga (mas não chegava a ser obeso), espirituoso, muito cordial e de voz alta e grave.
Deixara sua terra, como quase todos os seus contemporâneos, por motivos políticos: jovem patriota, recusara-se a alistar-se como soldado das tropas coloniais francesas durante a Segunda Guerra Mundial. Considerado desertor, não lhe restara outra via que a de se aventurar pelo mundo, à procura de perspectivas. Optara pela Bolívia, em cuja região amazônica tinha parentes próximos e onde fizera amizade com o popular dentista libanês que não raro tinha que atuar como médico na densa floresta eivada de enfermidades tropicais. Esse sisudo dentista lhe salvara a pele duas vezes: primeiro, ao tratá-lo de uma malária oportunista em plena selva, e, depois, ao salvá-lo de um intrincado casamento com uma exuberante mas terrivelmente mal-humorada filha de patrício que desde o começo não havia dado liga.
Fora o próprio ‘Doutor Hany’ (como meu Avô materno era carinhosamente chamado) que recomendara o genro (meu Pai) a ‘Don Fauze’, em fevereiro de 1964, quando ele se decidira por Corumbá, em razão da proximidade com a Bolívia (onde estudavam meus três Irmãos mais velhos, já se preparando para o ingresso à Universidade) e as perspectivas que o Coração do Pantanal e da América do Sul poderiam lhe proporcionar como responsável de uma Família numerosa e as despesas decorrentes das necessidades inerentes a quem sempre priorizara a formação profissional, cidadã e ética de sua prole.
Assim que minha saudosa Mãe, minha Irmã caçula e eu (os demais Irmãos estavam em idade escolar e foram matriculados em escolas de Cochabamba, sob a responsabilidade de meus Avôs, só vindo para Corumbá ao final do ano letivo, em dezembro de 1964) desembarcamos no aeroporto de Puerto Suárez, meu Pai, na companhia de ‘Don Fauze’, nos trouxe de carro até a então mal falada Feira Boliviana (quadrilátero que compreendia as ruas Frei Mariano, Antônio Maria, Quinze de Novembro, Joaquim Murtinho e Portocarrero), onde se encontrava o modesto comércio de armarinhos dele, em que nos esperavam três outros conterrâneos Amigos de meu Avô: os senhores Amouri, Wadih e Jamil (cujos sobrenomes não lembro, pois retornaram para a Bolívia alguns anos depois), que brindaram a nossa chegada com o emblemático refrigerante produzido pela Cervejaria Corumbaense S/A, o guaraná Maués, envasado em sua garrafa personalizada, de vidro grosso e transparente.
‘Don Fauze’ parecia galã de filme hollywoodiano, com seu calhambeque Ford 1930, de cor azul original, a circular garbosamente pelas concorridas ruas corumbaenses do início dos anos 1960. Diferentemente da maioria dos libaneses, ligados ao comércio de roupas feitas e calçados, ele era proprietário da próspera Sorveteria Superbom, situada na esquina das ruas Dom Aquino e Sete de Setembro, que, posteriormente, sob a carismática direção de Dona Benedita (uma senhorinha cuiabana muito simpática), esteve em plenas atividades até 1990. Além de atender por encomendas e em seu estabelecimento, a sorveteria possuía uma frota de vinte carrinhos de sorvete, com os quais promovia seus produtos, bastante populares até a chegada, em 1968, dos Sorvetes Cibran, de efêmera existência, mas que marcou os consumidores corumbaenses por causa dos picolés pasteurizados que até hoje não encontram similares.
Generoso, vendo as dificuldades de o meu Pai se estabelecer com seu modesto comércio de armarinhos na Feira Boliviana, ele o persuadira para que mudasse de ramo para o de sorvetes, com o argumento de que uma cidade tão quente sempre teria espaço para mais uma sorveteria, tendo sido seu primeiro avalista na aquisição de um maquinário italiano e demais equipamentos da então renomada casa Paulo Leandro (cujo slogan era “a sala de visitas da Praça Uruguai”). Como a estrutura da Cibran (formada pelas primeiras sílabas de ‘Cidade Branca’) era industrial e tinha se tornado uma febre em Corumbá, ‘Don Fauze’ vendeu sua sorveteria e, com o dinheiro, decidiu arrendar terras na região do Amolar de um conterrâneo e xará seu, para dedicar-se à agricultura. Passou quase cinco anos nessa localidade, retornando para Corumbá bastante desgostoso com a experiência. Contou ter sido vítima de grileiros e de ter sobrevivido com a esposa e filho por puro milagre, pois escapara de diversas tocaias ao longo desse período.
Com o pouco que lhe restava das economias investidas, ‘Don Fauze’ decidiu por se estabelecer em Puerto Suárez, em fins de 1973, abrindo um pequeno hotel, chamado Seis de Agosto, na rua principal da cidade fronteiriça, ao lado do prédio de um renomado supermercado muito frequentado atualmente por corumbaenses e ladarenses. Em mais de quinze anos de atividades, ele foi referência de turistas bolivianos e estrangeiros pela cordialidade com que os atendia. Brincando, ele dizia ter vencido na vida graças ao exemplo de seu ex-aluno, aprendiz de sorveteiro que virara dono da pousada mais popular de Corumbá entre os turistas mochileiros (referindo-se ao meu Pai, que, depois de abrir a sorveteria, abriu uma modesta pousada com um pequeno restaurante, empreendimento com o qual custeou os estudos e a formação de toda a sua Família).
Risonho e afável, ‘Don Fauze’ era casado com Dona Pura Ceballos de Rachid, boliviana, sua segunda esposa, com quem adotara em meados da década de 1960 um bebê, seu único filho, que se chamou Ahmad Rachid, bem ao estilo libanês. Vítima de infarto fulminante, Dona Pura falecera em meados de 1987, episódio que abalou profundamente ‘Don Fauze’, e, diabético, idoso e por conta de sua saúde frágil, decidiu retornar para o Líbano, deixando seus bens ao filho Ahmad Rachid, hoje casado e pai de dois filhos em Puerto Suárez. Recentemente soubemos que, em sua terra, depois de ter recebido uma única visita do filho, acabou falecendo por complicações cardíacas. Mas o seu caráter nobre e impetuoso deixou profundas marcas nas terras por onde peregrinou como cidadão do mundo.
‘Seu Emílio’ e a Casa Brasil
Na cosmopolita Corumbá dos fins da primeira metade do século XX, entre as muitas casas de móveis de bom gosto existentes no movimentado centro comercial estava a popular Casa Brasil, situada à rua Frei Mariano, entre as ruas América e Colombo, do discreto e afável ‘Seu Emílio’ (Emílio Sayegh, cristão ortodoxo do norte do Líbano, chegado ao Brasil pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial), de estatura média, olhos claros e fala mansa. Da mesma geração de meu saudoso Pai, de quem era Amigo e conselheiro, tratava-se de ávido leitor do poeta Gibran Khalil Gibran e um devorador de livros em árabe, português e francês.
Sua loja de móveis era voltada para o grosso da população, embora o exigente gosto de homem cosmopolita desse um charme metropolitano ao seu empreendimento. Por que Casa Brasil?, certa vez meu Pai perguntara, ao que ele, sem titubeios, respondera: “Esta é nossa Pátria, Okhti! Acolheu-nos, nos deu porvir e nos provê diuturnamente.” Seu apurado e elegante critério estético fazia da Casa Brasil uma filial da Brasília de linhas arrojadas e modernas que desconcertavam os conservadores de plantão. Embora criança, as delicadas combinações de cores de móveis em fórmica e o estilo niemayeriano que ganhara todos os quadrantes do mundo vanguardista me marcaram profundamente. O ‘Tio Emílio’ foi uma referência do bom gosto em boa parte de minha infância.
Era casado com uma elegante senhora, Dona Elza, goiana de ascendência italiana, com quem acabou retornando em 1966 ao estado de Goiás, mas não tiveram filhos. Motorista destro, gostava de dirigir seu recém-adquirido Simca Chambord cinza metálico, versão moderna dos rabos-de-peixe cujo contrabando havia levado à morte o Vereador Edu Rocha em fins da década anterior. Foi sob sua direção que conhecemos o velho “cinturão verde” que Corumbá ainda possuía na década de 1960, além dos balneários e distritos próximos ao perímetro urbano. Gostava de passear, mas não sozinho. Quando não podia contar com a companhia de nossa Família, levava os familiares de algum de seus funcionários, pelo prazer da companhia, de compartilhar o que lhe aprazia.
Com meu Pai, reuniam-se todas as semanas exclusivamente para trocar livros e debater sobre a história e a literatura árabe com o simpático e generoso imigrante sírio Mohamad Ale (ligeiramente mais velho que os dois), outro leitor compulsivo, atacadista de secos e molhados e proprietário de um imponente prédio de esquina, na Frei Mariano com a América, de vários andares, todo coberto de pastilhas, então em voga. Assim como ‘Seu Emílio’, o senhor Mohamad Ale, cuja feição delicada lembrava meu falecido Avô materno, à exceção dos inconfundíveis olhos azuis, da cor do Mediterrâneo, era assinante dos principais jornais brasileiros e de diversas revistas árabes, e fazia questão de enviá-los imediatamente ao meu Pai, sabendo das dificuldades desse imigrante recém-chegado.
‘Seu Emílio’ vivera, no Brasil, em diversas cidades antes de aportar ao concorrido entreposto comercial esplendoroso e cosmopolita que seduzira homens de todas as procedências e aptidões. Ele se confessava “vítima” da sedução pantaneira, pois trocara o promissor Planalto Central goiano para se estabelecer no Pantanal Mato-grossense, na expectativa de ver implantada por estas plagas a Zona Franca, similar à de Manaus. Seu guarda-livros (como os técnicos em contabilidade eram então chamados) era o ‘Seu Maneco’, um pouco mais velho que ele, que fazia as vezes de consultor jurídico, dadas as peculiaridades do fisco brasileiro, já em plena ditadura.
Houve um episódio, em Corumbá, em que outro imigrante libanês, Rafael Laraj (em árabe Abul Araje), vizinho de ‘Seu Emílio’, fora encontrado morto a machadadas em sua própria fábrica de sabão, em meados de 1965. Salvo engano, o prédio era o mesmo do antigo Batidão, do saudoso Clarindo, na esquina das ruas Frei Mariano e Colombo. O crime nunca fora elucidado, e a viúva e filhos da vítima (uns dez anos mais velho que meu Pai), a despeito das diversas tentativas frustradas de, pelo menos, saber quais teriam sido as verdadeiras motivações desse sórdido crime, jamais receberam quaisquer notícias sobre os rumos das investigações. Nessa mesma época, um modesto imigrante libanês, de sobrenome Hamad, fora assassinado em seu próprio veículo (não sei ao certo, se calhambeque ou charrete), deixando viúva e filhos sem qualquer amparo. Essa sucessão de assassinatos de patrícios não elucidados magoou profundamente ‘Seu Emílio’, que a esposa, Dona Elza, deprimida, convenceu o marido a retornar a Goiás, seu derradeiro destino, segundo ‘Seu Maneco’, que havia ficado como seu procurador em Corumbá até meados da década de 1980.
Corumbá teve um tempo em que a chamada “colônia” árabe era, no dizer de meu saudoso Pai, multifacética e sedutoramente diversificada, ao ponto de os diferentes saberem se entender sem qualquer tipo de atrito, sobretudo por conta do generoso cosmopolitismo em pleno coração do Pantanal e da América do Sul. Era, obviamente, tempo de esperanças no mundo árabe, pela liderança do inigualável estadista Gamal Abdel Nasser, o libertador do jugo franco-britânico e israelo-americano – e a despeito dos sanguinários regimes de exceção patrocinados pelo grande império do Norte, causador de profundos traumas em toda a nossa América Latina de povos altivos e atos libertários.
Ahmad Schabib Hany

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

AOS CEM ANOS DO INCANSÁVEL PEREGRINO




AOS CEM ANOS DO INCANSÁVEL PEREGRINO
 MAHOMA HOSSEN SCHABIB (1º/10/1914 – 04/07/1996)

Se estivesse vivo, o Peregrino que a Vida generosamente nos presenteou como Pai estaria completando 100 anos nesta quarta-feira, dia 1º de outubro de 2014.

Nascido no dia em que eclodira a Primeira Guerra Mundial na bucólica e formosa Rasen-Hache (província de Batroun), no Líbano, o incansável Peregrino chamado Mahoma Hossen Schabib ficara órfão de Mãe, dona Maquie Madi, aos 5 anos de vida. O Pai, Hussein Schabib, não quisera que os sete filhos (quatro meninas e três meninos) tivessem madrasta. Como caçula, coube às irmãs, bem mais velhas, cuidar dele. Por influência do primo mais velho, matemático e poeta Scandar Shalak, alfabetizara-se precocemente, e logo fora para o internato na distante Damasco (capital da Síria), onde concluíra com destaque os níveis fundamental e médio.

Ele contava, emocionado, que tivera o privilégio de ver a comoção popular quando da chegada do corpo do imortal poeta libanês Gibran Khalil Gibran (autor de “O Profeta”, entre outras obras) a Damasco para as homenagens póstumas na Síria e Líbano, quando professores participaram como oradores das celebrações ecumênicas. Igualmente, narrava com indisfarçável indignação sobre a repressão, pelos gendarmes franceses, ao movimento juvenil sírio contrário à opressão colonialista em meados da década de 1920, em que milhares de intelectuais e universitários foram torturados e mortos sem piedade, logo por aqueles que se diziam agentes da civilização e do progresso ao substituir o igualmente obscurantista e opressor império turco-otomano, de triste memória.

Obstinado, não sossegara enquanto não transpusesse as fronteiras políticas da Arábia, dividida à época pelos impérios britânico e francês (Líbano e Síria, colônias francesas; Palestina e Egito, colônias britânicas). Para tanto, passou-se por beduíno e atravessou todo o território da Palestina (ainda livre da ocupação sionista), pela fronteira do sul do Líbano e chegar, por Gaza, ao Cairo, no Egito, para cursar Filosofia na milenar Universidade Al-Azhar – fechada em 1954, início do governo de Gamal Abdel Nasser, por causa de seus arqui-inimigos da Irmandade Islâmica, contrária ao Estado laico implantado pelo maior estadista árabe dos últimos cinco séculos. Mas ele (meu Pai) não pôde concluir o curso universitário por causa da eclosão da Segunda Guerra Mundial: o Egito era colônia da Grã-Bretanha e o ardil colonialista obrigava os jovens mais instruídos ao alistamento militar – uma acintosa forma de eliminar a juventude inquieta porque esclarecida, feito bucha de canhão.

Mesmo a contragosto, acabou interrompendo os estudos no final do curso (1939), aceitando o conselho de seu irmão mais velho, Ale Hossen Schabib (que, naturalizado boliviano, virou Alejandro Hossen, pois, como em todo país hispânico, o primeiro sobrenome é o que conta). Esse irmão havia emigrado para a América no fim da Primeira Guerra Mundial e, depois de incursionar pela Amazônia brasileira, decidira estabelecer-se na Bolívia, de onde custeava os estudos do irmão caçula, além de ajudar a família com o que fosse possível naquele período de miséria e tragédias no Hemisfério Norte. A sua esperança – e consolo – era que a guerra não levasse muito tempo e que ele não demorasse a retornar ao Cairo para concluir seus estudos e seguir seu projeto de vida no Oriente Médio.

OUTRA CULTURA, NOVOS DESAFIOS
Mas não foi bem assim. Para começar, foi uma verdadeira epopeia chegar até a América do Sul, atravessando dois oceanos num barco de cruzeiro da companhia italiana de navegação Costa, o “Ana C”. Aportou em Arica, no Chile, após a travessia do Canal do Panamá com as suas comportas deslumbrantes. Em seguida, voou literalmente sobre a Cordilheira dos Andes até chegar a La Paz, a mais de três mil metros de altura, e seguir em outro voo até a capital do departamento de Beni, Trinidad, na Amazônia boliviana, para finalmente conhecer o irmão mais velho com quem só se relacionara até então por cartas – afinal, ele partira quando meu Pai era de colo. Adaptar-se à vida de mascate num país de cultura totalmente diferente da sua foi outra proeza. Com a ajuda do irmão que era como Pai, procurou estabelecer-se num povoado menor, Magdalena, para capitalizar-se e logo ganhar autonomia financeira. Mas as adversidades (entre elas, o naufrágio de seu batelão carregado de mercadorias) o fizeram descapitalizar-se e quase lhe custaram a própria vida, em 1940, que ele passara a grafar como “0000” (quatro zeros), pois os prejuízos o fizeram voltar à estaca zero.

Perseverante, em cinco anos – praticamente o período da sangrenta guerra que acabou com a inocência da humanidade –, entre a disciplina nos estudos (não abandonara o hábito de estudar, nem quando atingiu a terceira idade, lendo sistematicamente no mínimo quatro horas diárias) e no trabalho, aprendeu a arte do comércio e dois novos idiomas (espanhol e inglês), e logo era detentor de um capital monetário respeitável. Por essa razão, o irmão que fazia as vezes de Pai o aconselhara a ir se preparando para casar-se. Coincidência ou não, nessas incursões como mascate havia conhecido um dentista muito popular, de nacionalidade libanesa, o assim chamado doutor José (Yussef) Al Hany, Pai de dez filhos (seis meninas e quatro meninos) com uma única companheira, a jovem senhora Guadalupe Ascimani de Hany, afável, culta e hospitaleira.

O doutor Hany, druso (ou derzi, religião espiritualista oriental); a dona Guadalupe, católica, de Pai maronita (variação libanesa de catolicismo cujo sacerdote pode se casar). Meu Pai, muçulmano. Como os árabes, a exemplo dos brasileiros, vivem e celebram a diversidade, não demorou muito para que a mais velha das filhas, a bela Wadia Hany Ascimani, decorrido algum tempo, viesse a contrair núpcias com o jovem imigrante. Não é demais dizer que naquela época, entre os árabes, não era tão acirrada a intolerância religiosa de hoje, alimentada pelas potências ocidentais dentro da ignóbil lógica do “dividir para reinar”, iniciada com a imposição do Estado sionista no território da Palestina em 1948, como perniciosa reparação dos danos causados pelos europeus nazistas em território europeu, e que nada têm a ver com os árabes, estes também vítimas dos abusos colonialistas até a presente data.

Casaram-se em abril de 1948 (ironicamente três semanas antes da formalização, pelas potências mundiais, do Estado de Israel), uma relação conjugal que durou 48 anos e dois meses (meus Pais já planejavam comemorar suas bodas de ouro, quando uma parada cardíaca interrompeu, em 1996, seus projetos comuns de Vida). Mas essas quase cinco décadas, como em tudo na Vida, não foram um mar de rosas, pois tiveram altos e baixos. Os primeiros cinco anos de vida conjugal, sim, por conta da estabilidade econômica então reinante na Bolívia, foram tranquilos: minha Mãe aprendeu logo as habilidades comerciais, tendo se tornado referência nos negócios crescentes da família. Deixaram a Amazônia depois do nascimento da segunda filha, indo residir na chamada cidade-jardim boliviana, Cochabamba, localizada num formoso vale da Cordilheira dos Andes e com excelente qualidade de vida, cultura e cosmopolitismo.


VOLTA ÀS ATIVIDADES INTELECTUAIS
Nesse importante centro cultural boliviano, até por conta da estabilidade da economia familiar, meu Pai decidiu retomar os estudos na Bolívia, e não demorou muito para que exercesse com maestria o jornalismo, além de conduzir um programa radiofônico sobre a cultura árabe e as relações com a América Latina. (Era um período de efervescência política em todo o mundo: além da consolidação do socialismo como alternativa real para todos os povos vítimas do saque e da exploração de suas riquezas naturais e de sua gente, na Bolívia viviam-se as transformações decorrentes do triunfo da Revolução de 1952 boliviana, e na Arábia espalhavam-se os ideais de Nasser, um dos jovens líderes da Revolução de 1952 egípcia, que acabou com o jugo pró-inglês do rei Faruk no Egito e mudou os rumos do povo árabe disperso em 22 Estados divididos pelo Ocidente e das nações do Terceiro Mundo no século XX, ao fundar, com Broz Tito, Jawaharlal Nehru e Chu En-Lai, o Movimento dos Países Não Alinhados.) Talvez a excessiva visibilidade tivesse exposto muito meu Pai diante de adversários poderosos, até então desconhecidos, que se valeram da crise sociopolítica e econômica na Bolívia para desencadear contra ele uma série de ações judiciais e fragilizá-lo comercial e economicamente. Em meio a uma avalanche inflacionária de mais de nove mil por cento ao ano, no início da década de 1960, meus Pais decidiram vender todo o seu patrimônio, construído com muito esforço ao longo de três décadas, a fim de reunir o máximo possível para adquirir as passagens para dez pessoas (dois adultos e oito crianças) de trem e navio a fim de retornar ao Líbano, onde nasceu a caçula dos filhos e permanecemos por quase quatro anos. Nesse meio-tempo, meu Pai cobriu para a Rádio Cairo em espanhol, uma revista árabe-chilena chamada “Mundo Árabe” e uma edição em espanhol da revista brasileira “O Cruzeiro” a luta pela independência das nações árabes do norte da África (Argélia, Líbia e sobretudo o Egito, que passara a se denominar República Árabe Unida, um Estado confederado com a Síria e o Iraque, mas que não durou muito por conta das investidas ocidentais e de seus fantoches dos reinos, emirados e sultanatos árabes, temerosos de que a experiência socialista de Nasser no Egito irradiasse para os demais países do Oriente Médio).

Como o jornalismo não lhe proporcionara o suficiente para o sustento de uma família de onze pessoas (nove delas crianças e adolescentes), meu Pai lançara mão de suas últimas economias para tentar se estabelecer com um restaurante na segunda maior cidade libanesa, Trípoli (capital da província de Batroun), em sociedade com um primo que já fora seu sócio na fronteira da Bolívia com o Brasil (Guajará Mirim, Rondônia), Hussein Khalil Schabib. Entre as atividades comerciais e a agricultura (nas terras herdadas do Pai), tentou se recuperar financeiramente, mas decidiu por retornar para a América do Sul, pois o clima político no Líbano não lhe inspirava bons augúrios. Ele pressentira, pela insustentabilidade do cotidiano do cidadão comum libanês, a revolta das camadas populares contra as oligarquias libanesas, fato que eclodiu em 1974 com a trágica guerra civil que durou duas décadas, dizimou e empobreceu a população e destruiu a infraestrutura do país após a invasão de tropas israelenses e americanas, no início da década de 1980, provocando uma série de massacres nunca antes vistos no Líbano ou qualquer outra nação árabe, à exceção da Palestina e da Argélia em sua luta pela independência (depois, sim, vimos, em maior escala, a invasão do Iraque e da Líbia – e agora na Síria – pelos mesmos gendarmes e mercenários de Israel e Estados Unidos, em pleno século XXI).



A ESCOLHA DE CORUMBÁ
Nos quase 25 anos que vivera na Bolívia, inúmeras vezes viajara de avião ou trem pela região do Pantanal, tendo ficado em Corumbá por breves estadas, sobretudo depois que fixara residência em Cochabamba. Rumo a São Paulo, de onde comprava muitos itens para abastecer seu comércio atacadista, havia se encantado com o desenvolvimento desta região, que, depois da inauguração da ferrovia Corumbá – Santa Cruz de la Sierra, passou a compará-la à região de Milão pelo tronco ferroviário e a importância desse transporte para a integração do continente. Por isso, quando se decidiu por retornar para a América do Sul, sua escolha recaiu sobre Corumbá, de modo que os três filhos mais velhos (que estavam por chegar à universidade) ficassem na casa da Vovó Guadalupe e os demais não tão distantes do país que o acolhera na juventude e, a despeito das adversidades, lhe ensinara muito. Ele era muito grato ao povo boliviano por tudo que lhe ocorreu na Vida. Obviamente, como todo imigrante, amava todos os países que o acolheram. E sua relação com o Brasil foi como o coroar de seus sonhos e lutas, até pelo fato de haver feito a escolha em plena maturidade. Assim, quando se estabeleceu com um modesto comércio de armarinhos, à rua Joaquim Murtinho, plena Feira Boliviana (a poucas quadras da estação ferroviária da Red Oriental da Bolívia, à época separada por uma centena de metros da ferroviária da Noroeste), semanas antes do golpe militar de 1964, iniciava uma nova fase em sua renhida existência de Peregrino incansável.

Seis meses mais tarde, início da primavera de 1964, meu Pai deu início a seu projeto de trabalho (e de Vida) no coração do Pantanal e da América do Sul (era assim como ele via Corumbá, centro do bioma e do subcontinente): abrir uma sorveteria (com a solidária assessoria de um Amigo libanês, Fauze Rachid e sua esposa boliviana Pura Ceballos de Rachid, proprietários da popular Sorveteria Superbom, e que anos depois se mudaram para Puerto Suárez) e construir uma hospedaria (pousada) com menos de uma dezena de quartos, que em pouco mais de cinco anos se transformara em referência para comerciantes bolivianos e jovens turistas de todo o mundo por causa da higiene, segurança e atenção de seu proprietário poliglota e bem informado (como recomendavam os guias pioneiros que descobriram a rota dos Incas e os safáris fotográficos do Pantanal, sem qualquer incentivo das instâncias de governo federal, estadual e municipal de todos os países sul-americanos, que viam os mochileiros barbudos como suspeitos, quer fosse como “subversivos” ou como “maconheiros”), depois de ter conseguido comprar, com o pouco que lhe restava da venda de seus bens do Líbano, uma casa modesta de um simpático casal de idosos (o senhor Afonso, português, e dona Paulina, corumbaense, irmã de uma vizinha que logo ganhou status de vovó, a dona Ventura, muito cordial e sempre presente nos primeiros anos da chegada de toda a Família).

Foi com essa modesta pousada que, por quase trinta anos, assegurou o sustento digno de uma numerosa família de nove filhos, tendo como meta dar-lhes formação universitária. Quando um amigo bem próximo lhe propôs um empréstimo para ampliar as instalações da pousada, diante do movimento e do reconhecimento de seus serviços, ele revelou que não pretendia ser dono de rede de pousadas ou fazendas, mas pai realizado por ver todos os seus filhos a concluir os seus estudos, independentemente da profissão escolhida. Obviamente que a perda do filho mais velho (ocorrida em circunstâncias não elucidadas pela polícia em 1974, que me induziu a declarar, aos 15 anos, que fora por suicídio, fato questionado por seus colegas universitários e sobretudo por um investigador de uma seguradora que por coincidência se hospedara dois meses depois da tragédia), Mohamed (ou carinhosamente “Tchítchi”), o abatera profundamente: ainda que não abandonara as metas que traçara para sua Vida, com a maior dignidade e responsabilidade, não era difícil pegá-lo lacrimejando ao ler ou conversar com jovens que lembrassem o espírito arrojado do saudoso filho.

A propósito dessa tragédia, houve quem propusesse que denunciássemos o governo do mais sanguinário, corrupto e mercenário dos ditadores bolivianos, Hugo Banzer Suárez, pela morte de nosso irmão, cuja memória foi criminosamente vilipendiada pela chefia da polícia local nos tempos nefastos da ditadura. Lembro-me como hoje que, acompanhado de dois queridos Amigos (Juvenal Ávila de Oliveira, então radialista, e João de Souza Álvarez, fotógrafo à época da tragédia), visitamos quase todas as redações de jornais locais que haviam estampado a manchete sensacionalista do tipo “estudante (sic) universitário se fuzila sem deixar carta” (coisa típica de crônica policial chapa-branca, espreme-sai-sangue) a fim de esclarecer os fatos e pedir que republicassem a matéria dando-nos o direito de mostrar o outro lado dessa notícia. Alguns, obviamente, nem se deram a esse trabalho. Mas o velho Diário de Corumbá, então dirigido pelo jornalista Carlos Paulo Pereira Júnior, corrigiu a notícia com o devido destaque. O Pai dele, fundador do jornal em 1969, jornalista Carlos Paulo Pereira, tinha uma relação de amizade com o meu Pai, que desde as primeiras edições colaborava com matérias de política internacional. Por conta desse gesto, a partir de então meu Pai passou a assinar também matérias de fundo espiritual, não doutrinário, em que homenageava de alguma forma meu saudoso Irmão. Talvez o artigo dele que mais tenha repercutido na década de 1970 tenha sido “De onde viemos, para onde vamos e por quê?”, o qual foi publicado em dois idiomas em diversos jornais do Brasil e da Bolívia.


A MILÃO SUL-AMERICANA
Ainda na década de 1970, por ocasião do bicentenário da fundação de Corumbá, publicou outro emblemático artigo, desta vez voltado para as perspectivas de desenvolvimento da região do Pantanal, quando explicou por que o turismo, ao lado do comércio, eram a vocação natural de Corumbá – tendo então comparado a posição estratégica do coração do Pantanal a Milão, na Itália. Essa matéria foi levada por um turista para publicá-la num jornal espanhol e em outro italiano. Desde então, quando calhava de se hospedar algum jornalista em sua pousada, meu Pai fazia questão de entregar alguns artigos de sua autoria, autorizando-o a publicar como quisesse, ainda que sequer publicasse a autoria. Ele foi um defensor declarado de que as ideias não têm “dono”, e é um dever fazê-las circular, em benefício da humanidade.

Mas foi ao lado de outros dois imigrantes como ele – William “Bill” Sefusatti, o ítalo-britânico dono dos barcos Califórnia, e Hermann Pettersen, alemão casado com Dona Maria, cuiabana, dono do Restaurante El Pacu, ambos localizados no Casario do Porto – que anonimamente deu sua contribuição para a consolidação do turismo contemplativo no Pantanal entre os fins da década de 1970 e início da década de 1990, quando alguns guias pioneiros brasileiros também passaram a integrar a atividade, tais como Clóvis Brandão Carneiro, Rodrigues, Guilherme Carstens, Armando Duprat, Roberto Kassar, Joaquim, Catu, Gilberto, José Bobadilha, José Paraguaio, Johnny Índio, entre outros. De forma bem profissional, ao lado da pioneira La Barca Tours, da família Nader, o também pioneiro J. Carneiro e seu Expresso do Pantanal consolidaram de forma sustentável o turismo voltado para as famílias que vinham conhecer o bioma pantaneiro pelo majestoso Rio Paraguai.

No início da década de 1990, frustrado com a sucessão de equívocos cometidos pelos gestores do turismo em nível estadual e municipal, que em troca de favores eleitoreiros, permitiam que os chamados guias piratas prostituíssem a atividade em Corumbá, iniciou uma série de artigos sobre a importância do turismo e fazendo explícitas advertências às instâncias administrativas. Recebia telefonemas de cumprimentos “pela coragem”, mas as sugestões reiteradas para a organização da atividade na região jamais viu serem implementadas. Tanto assim, em maio de 1994 encerrou as atividades de sua modesta pousada, depois de trinta anos de trabalho ininterrupto, em protesto contra a pirataria que então tomava conta do turismo.

Para não se deprimir, fez sucessivas viagens com a minha Mãe – ao México, onde mora um de meus irmãos e suas filhas; ao Líbano, onde deixou praticamente toda a Família, e à Bolívia, onde visitou a Família e amigos contemporâneos seus, ainda saudáveis – e, quando se preparava para organizar sua “segunda lua-de-mel”, para comemorar suas bodas de ouro, faleceu subitamente, ao meio-dia de uma quinta-feira, 4 de julho de 1996, aos 82 anos incompletos.

Minha Mãe, dona Wadia, viveu mais treze anos, tendo resistido estoicamente a um câncer virulento que a silenciou sem lhe tirar o gosto pela Vida, em menos de seis meses. Internada num hospital de Campo Grande, ela deu seu último suspiro no início da manhã de uma segunda-feira, dia 15 de junho de 2009, aos 83 anos de idade. Eles tiveram nove filhos (seis mulheres e três homens) e um legado de trabalho e muita dignidade, um exemplo para todos nós que nos orgulhamos de sermos filhos seus.

Ahmad Schabib Hany
1º de outubro de 2014 

sábado, 27 de setembro de 2014

GAMAL ABDEL NASSER (1918 -- 1970)



Gamal Abdel Nasser


GAMAL ABDEL NASSER (1918-1970)

 

Setembro de 1970. As ovações ao tricampeonato da Seleção Canarinho ainda ecoavam pelos quatro cantos do país enquanto eram sufocados os gemidos das masmorras, nos piores dias do regime de 1964 (entre 1968 e 1973). Na pacata Corumbá, o querido Amigo Orlando Bejarano (cunhado do Professor Huguinho) e eu estávamos, na tarde do dia 28 (acredito que uma terça-feira), estudando para uma prova de Inglês, ministrado pela querida e competente Professora Suzana Maia, titular da disciplina no Ginásio Industrial Dr. João Leite de Barros, quando meu saudoso Pai nos surpreendeu, em indisfarçável estado de comoção, com a notícia do súbito falecimento do grande líder pan-arabista Gamal Abdel Nasser, aos 56 anos, então presidente da República Árabe Unida (nome do Egito durante pouco mais de uma década), vítima de um infarto fulminante quando retornava do aeroporto internacional do Cairo, depois de despedir as delegações de chefes de governos que participaram de um encontro da Liga dos Estados Árabes na capital egípcia, na tentativa de solucionar e apaziguar os ânimos dos líderes árabes revoltados pela repressão a centenas de ativistas palestinos na Jordânia, massacre mais tarde conhecido por Setembro Negro.

 

Não é demais lembrar que o Rei Hussei, de uma suposta “dinastia hashemita”, da Jordânia, nunca passou de um servil tirano, fantoche do Ocidente, entronizado por meio de um ardil do império britânico, que ao abandonar o território da Transjordânia (antigo nome, por conta do Rio Jordão, dos tempos bíblicos) deixou seus aliados tomando conta da porção árabe da Palestina, ocupada desde 1948 pelos sionistas, que em maio (dia 15) instalaram um governo para nunca mais deixar aquele território milenar e espalhar seitas fundamentalistas com o afã de “igualar”, bem aos moldes fascistas, os lados do conflito, um nefasto modo de justificar que a razão da interminável questão israelo-árabe é religiosa. O mesmo, aliás, os colonizadores fizeram no Egito, onde impuseram o Rei Faruk, deposto por Nasser e demais jovens oficiais egípcios contrários à subserviência do títere com máscara real, em 1956. Nada diferente foi no Marrocos, onde deixaram o Rei Hassan como feitor; na Arábia Saudita, onde reina até hoje uma fictícia (e medieval) “dinastia wahabita”, que por fazer o jogo dos “donos do mundo” de hoje, Estados Unidos e Israel, não sofrem qualquer tipo de sanção pelas violações sistemáticas dos direitos humanos, num regime tirânico, sanguinário e intolerante com os que ousam defender princípios verdadeiramente democráticos em seu território.

 

Mas, voltando à súbita (e suspeita) morte de Nasser, o maior líder árabe dos últimos trezentos anos, os 22 países árabes, a totalidade das nações asiáticas e africanas, todos os Estados socialistas e boa parte das nações latino-americanas se uniram na dor, por semanas a fio, fato comparado aos funerais de Jawaharlal Nehru, seis anos antes. Depois da interminável despedida ao líder árabe, começaram a circular notícias, nunca desmentidas, de que emissários da Irmandade Islâmica (com o apoio do Mossad, o serviço secreto israelense), arqui-inimiga do presidente egípcio, laico e anticlerical, teriam envenenado o incansável inimigo do invasores ocidentais, a despeito das duas derrotas sofridas entre 1954 e 1967 contra o Ocidente.

 

Ao contrário dos autoproclamados líderes árabes de seu tempo, Nasser causava muita preocupação ao Ocidente (sobretudo aos Estados Unidos e Israel) por ser um estadista laico e pró-socialista, mas sem curvar-se aos ditames soviéticos – tanto que foi um dos fundadores do Movimento dos Países Não Alinhados, ao lado de Broz Tito e de Nehru – além de ter sido determinante na criação da Organização da Unidade Africana e da Liga dos Estados Árabes, enfraquecidas depois de sua morte prematura. Internamente, Nasser foi responsável pela modernização do Egito, pela promulgação de uma Constituição republicana democrática de forte perfil socialista (mas não estalinista), pela construção de importantes obras de infraestrutura, como a represa de Assuã, em seu tempo a maior do mundo (construída em cooperação com a União Soviética), e a malha rodoferroviária que integra o território do Egito aos demais países do Norte da África, cuja conclusão foi preterida por Anwar Sadat e Hosni Mubarak, respectivamente, durante o longo período de arbítrio e entreguismo protagonizado pelos dois fantoches ocidentais.

 

Gamal Abdel Nasser foi um generoso estadista árabe que inspirou muitos líderes do então chamado Terceiro Mundo a promover mudanças estruturais em seus respectivos países, além de ter incentivado, em toda a África, as corajosas lutas pela emancipação do jugo colonial europeu. Quarenta e quatro anos depois de sua morte (ainda não esclarecida), reverenciar a sua digna memória é, acima de tudo, um gesto libertário, um ato da saudável rebeldia disseminada nas duas décadas posteriores ao pós-guerra de 1945, quando a humanidade com perplexidade conheceu sem máscaras a intolerância e o ódio germinado na autoproclamada “civilizada” Europa de todos os holocaustos, de todas as inquisições e de todas as cruzadas. Mas como não há mal que dure cem anos, cá estamos a saudar o novo amanhã junto às novas gerações...


Ahmad Schabib Hany

domingo, 21 de setembro de 2014

MOHAMED SCHABIB HANY (25/01/1949 -- 21/09/1974)



MOHAMED SCHABIB HANY (25/01/1949 -- 21/09/1974)

Precisamente hoje, às 17h30m, o nosso eternamente querido Irmão Mohamed ("Chíchi") faz 40 anos de sua lamentada eternização, aos 25 anos de uma Vida generosa e de intensa atividade. Ele se encantara no pôr-do-sol da véspera da primavera e em pleno aniversário de fundação de Corumbá, em 1974. As nebulosas circunstâncias de sua morte, por projétil detonado no olho esquerdo, jamais foram esclarecidas pela polícia da época, mas um perito de uma empresa multinacional de seguros que estivera por coincidência algumas semanas depois afirmara categoricamente que não se tratara de suicídio, como me haviam induzido a declarar, como única testemunha (sem ter sido), aos 15 anos de idade!

Eram tempos duros, difíceis, draconianos. Embora adolescente, pude acompanhar os últimos meses deste que mais que Irmão foi um verdadeiro Mestre. Generoso, solidário, corajoso, autêntico, determinado, verdadeiro, Amigo, Companheiro e Camarada. Cento e noventa dias antes, na madrugada de aniversário de nossa agora também saudosa Mãe, Wadia Schabib Hany ("Yoya"), em 11 de março (de 1974), pistoleiros que se passavam por policiais -- ou policiais que se passavam por pistoleiros -- tentaram alvejá-lo enquanto dormia numa tórrida noite de verão do lado de fora de casa, sob pretexto de estarem à procura de um meliante que estava a atirar pedras a um bar noturno de nossa vizinhança.

De igual coragem e caráter, nosso também saudoso Pai, Mahoma Hossen Schabib, repelira de imediato os pistoleiros, com cinco tiros de sua arma legalmente registrada e em exercício de legítima defesa. Só então, de pistoleiros à sorrelfa, à tocaia, se transformaram em policiais, num tempo em que os "homens da lei" tinham permissão para matar, como o querido Amigo Jornalista Edson Morais denunciara três anos depois em seu memorável diário "O Tempo" (o que o levou a fechar o jornal e se mudar para Campo Grande). Tentaram dar-lhe voz de prisão, mas tanto meu Pai quanto meu Irmão, indignados, resistiram, com o apoio de toda a Família, àquele ato de arbitrariedade, denunciado depois junto às mais altas autoridades de então. Mas isso não livrou meu Irmão de tentativas de intimidação nas ruas, quando ia ou vinha da faculdade, no mesmo local em que hoje se encontra o Campus do Pantanal da UFMS, em Corumbá.

Mohamed ("Chíchi") estava perto de concluir sua graduação em Psicologia no antigo Centro Pedagógico de Corumbá (à época UEMT). Viera para Corumbá três anos antes (1971), depois de que o fascínora-mor Hugo Banzer Suárez fechara as universidades bolivianas por mais de quatro anos, além de prender, torturar, assassinar e fazer desaparecer mais de dez mil líderes estudantis, sindicais, camponeses e políticos de esquerda em toda a Bolívia, cumprindo as ordens da CIA, FBI e demais amos do Hemisfério Norte.

Nosso irmão mais velho, "Chíchi" tinha sido dirigente estudantil desde meados da conturbada década de 1960 na Bolívia, terra que protagonizara em 1952 uma insurreição popular que promoveu as maiores reformas de base até ser cooptada pela pequena burguesia financiada pelo Colégio Interamericano de Washington, em fins da década de 1950 e receber o tiro de misericórdia pelas mãos de um traidor chamado René Barrientos Ortuño, eleito vice-presidente do caudilho Víctor Paz Estenssoro, e que em novembro de 1964 não hesitara em golpeá-lo e a partir de então inaugurar um ciclo de ditaduras militares até 1982, quando Hernán Siles Zuazo, da Unidade Democrática e Popular, reinicia pela vontade soberana da politizada população boliviana a normalidade constitucional na Bolívia.

Como que soubesse que não tinha segura a sua Vida, conversava muito conosco, alertando-nos sobre muitas situações aparentemente "normais", mas de modo didático e discreto. Lia muito, e por meio da leitura ensinava-nos a ver o mundo de outro modo, e a ver a América Latina diferentemente daquela estampada na imprensa sabuja de todos os tempos. Aguçou-nos o espírito crítico, a irreverência e sobretudo a solidariedade incondicional com as camadas exploradas em todos os quadrantes do planeta.

Seu legado iluminado e nada doutrinador, de livre-pensador, tal qual meu Pai, e assumidamente socialista amalgamou nossas convicções libertárias e transformadoras num mundo que hoje se encontra numa encruzilhada: ou segue o fundamentalismo medieval de diversas denominações religiosas (como que vivêssemos numa maldita Cruzada extemporânea) ou consolida uma nova ordem internacional (e não mundial), com base na distribuição da renda, na soberania e autodeterminação dos povos de todas as etnias indistintamente e sobretudo na reafirmação do Estado laico, verdadeiramente democrático e inspirado nos mais elevados legados da humanidade ao longo do último milênio.

Em outras palavras, que a democracia política, econômica, social e cultural deixe de ser palavra vã para a maioria da humanidade! Esse ideal -- ou razão de ser -- de Mohamed Schabib Hany será dignificado pelas novas gerações de livres pensadores, não por vaidade dos que trazem seu sobrenome, mas por consciência dos que clamam novos tempos para a humanidade!

"Que os sonhos que sempre nos acalentaram renasçam em outros corações..." (Charles Chaplin)

Ahmad Schabib Hany

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Pedro - Por Mário Márcio da Rocha Cabreira on 11/09/2014 (http://fazmuitobem.com/pedro/)

Resenha de livro de grande valor: Pedro, de Luiz Taques

ALMAS INQUIETAS

* Por Mário Márcio da Rocha Cabreira
(rcabreira.mariomariocio@gmail.com)

TAQUES, Luiz. Pedro. Londrina: Kan, 2013, 80 p.

Luiz Taques nasceu em Corumbá (MS), em 1958. É jornalista e escritor. Atuou em vários jornais do país, recebendo, em 1991, o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, com reportagem sobre escravidão em carvoarias. É autor de dois volumes de contos O casamento vai acabar com o poeta (Casa Amarela, 2002), Madá (Letradágua, 2011), e do infantojuvenil A história de Zé Vida de Barraca (edição do autor, 1997). Mora em Londrina (PR).

*** 

A obra em destaque evidencia o diálogo entre irmãos, e PEDRO é um deles. Às vezes, a narrativa se confunde com um monólogo. A história se passa em Buraco Quente, que tem um rio de águas profundas, onde a natureza é degradada, as pessoas vivem relações marcantes, dramáticas e chocantes. Prostituição, adultério, golpes comerciais e políticos, dor e sofrimento, amor e desamor. A sordidez de sentimentos escondidos, mágoas intermináveis, mesmo no seio familiar, a visão aguda e sincera sobre as fraquezas físicas e de caráter moral, nada escapa da lâmina afiada do narrador, que não poupa pessoas, instituições, amigos ou inimigos que atravessaram  sua jornada em Buraco Quente.

Por não se tratar de uma narrativa linear, mas ousada, sobretudo, em termos de pontuação, exige do leitor mais atenção para que se possa captar a essência da história. Os capítulos não têm títulos, e as reminiscências se confundem com fatos presentes. Não segue o rigor dos rigores acadêmicos, e isso, talvez, desagrade aos mais ortodoxos. A linguagem escatológica e provocativa pode chocar aos mais sensíveis. Então, cuidado! A família e os eventos retratados são, ao mesmo tempo, locais e universais. Nesse mister, o autor conseguiu, com maestria, tirar da obra o caráter autobiográfico que, pura e simplesmente, poder-se-ia lhe atribuir. As aventuras e os dramas apresentados são tão convincentes, que realidade e ficção se confundem na obra. Mas, como sempre “qualquer semelhança é mera coincidência”.

Trata-se de um romance psicológico, com dramas intensos, pessoais e familiares, dos seus atores centrais. Reminiscências da infância e da relação com os amigos, irmãos e pais. São detalhes cômicos, obscuros, sórdidos, inconfessáveis, que ficaram escondidos em cartas e bilhetes guardados em antigos armários, ou que, por conveniência, ficaram retidos apenas na memória do seu narrador. Entretanto, por alguma motivação, resolvem revelar-se.

Remexer no passado pode ser motivo de dor ou alegria, mas é certo que incomoda a muita gente. À medida que as tramas familiares se reavivam, emerge, também, uma angústia com a degradação da flora e da fauna, antes, ricas e abundantes, mas, agora, violentadas e destruídas. Parecem ser mais uma vítima da sociedade decadente e corrompida, como a de Buraco Quente. Fruto da inocência ou mesmo da riqueza e da diversidade, a beleza da natureza compensava as injustiças e o sofrimento vividos pelas personagens na infância e na adolescência, quando gozavam de mais saúde, liberdade e, por que não, mais felicidade. Talvez, o espaço geográfico e as pessoas de Buraco Quente sempre tenham sido os mesmos e se desenvolvido ou regredido muito pouco. Tudo depende da memória de cada um. O nome da localidade é uma prova disso. O que muda é a visão das personagens; já em sua fase adulta, passam a agir com mais consciência preservacionista e a contar com um olhar mais crítico sobre as relações intrafamiliares, começam a compreender melhor o jogo de poder entre os diversos segmentos que compõem a sociedade do lugar.

O livro tem uma linguagem simples, mas não falta clareza de pensamento. O autor consegue nos envolver e cativar com os dramas pessoais e profissionais das personagens. São dramas universais de muitas famílias e, assim, rompe-se com o caráter de pessoalidade que se poderia ter em uma narrativa autobiográfica. Ainda, no plano político-social, os personagens, às vezes, com traços regionais, revestem-se de características universais, pois o jogo de poder que é revelado em Buraco Quente encontra-se em pequenas localidades, mas, também, em metrópoles. Só o que se sabe é que Buraco Quente tem um rio de águas profundas, onde a natureza é degradada, as pessoas vivem relações intensas, marcantes, angustiantes e chocantes. O livro permeia por temas como prostituição, adultério, golpes comerciais e políticos, dor e sofrimento, amor e desamor, tendo sempre a natureza como moldura. A degradação da natureza e a degradação moral permeiam toda a história.

Quem mora, já morou, ou só está de passagem em um lugar assim, não tem como não se envolver com a vida intensa nas barrancas do rio e a energia que emana dos personagens e de suas histórias de vida. Há quem possa se ofender com o tom realista e a linguagem escatológica do autor. Mas, é preciso separar ficção de realidade, realismo e Arte, Literatura de Jornalismo, embora os dramas e as dores humanas estejam presentes em todos eles, e, deles, não há como se esquivar. Confesso que ao ler o livro pela primeira vez, choquei-me com a força dos personagens e da linguagem empregada por Luiz Taques, em “Pedro”.

Como todo acadêmico, preso ao rigor da forma, dei a ela mais importância do que ao conteúdo. Mas, por fim, tive que me render ao fascínio provocado pelas intensas histórias humanas, tão bem construídas por seu autor. Uma varredura nas profundezas do espírito humano. Não recomendado para os mais sensíveis aos dramas do homem e da natureza. Mas, um livro de histórias intensas, de grande valor.

* Jornalista, professor de Língua Portuguesa e mestrando em Desenvolvimento Local –
Universidade Católica Dom Bosco – UCDB.

Capa Livro Pedro
Pedro, de Luiz Taques Capa da artista plástica Regina Menezes