sexta-feira, 9 de março de 2018

A PROPÓSITO DO DIA INTERNACIONAL DA MULHER



A PROPÓSITO DO DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Feliz Dia Internacional de Luta da Mulher! Destaco com negrito, versalete e sublinhado, pois a data a ser celebrada é de luto (pelo massacre das tecelãs de Nova Iorque, em 1857, pelo “crime” de fazer greve para conquistar direitos, como jornada de trabalho não superior a 12 horas) e de luta (graças à coragem das mulheres, sobretudo as das décadas de 1900 a 1970 que, por meio de diferentes correntes políticas e nacionalidades, conseguiram unir sua voz em todo o mundo e, ao promover o Ano Internacional da Mulher, em 1975, instituíram essa data). Uma luta, aliás, incessante e crescente -- não apenas pelos desafios impostos pela evolução da sociedade, mas, sobretudo, pelas forças do atraso, que voltam a se fortalecer em todos os quadrantes do planeta --, cuja agenda (ou pauta) precisa ser atualizada diuturnamente por todas as cidadãs e cidadãos, independentemente do gênero, da opção sexual ou das concepções políticas, ideológicas, filosóficas ou religiosas.
Como termômetro, o dignificante empoderamento da mulher é não só mecanismo democratizante das sociedades em sua mais nobre qualificação humana -- a própria evolução da sociedade e a consolidação do humanismo só ganhou consistência e legitimidade com a efetiva afirmação do protagonismo da mulher --, mas elemento indispensável na construção de valores éticos, libertários e, sobretudo, solidários. Na História, às mulheres couberam papéis imprescindíveis na necessária transformação da vida em sociedade, as noções de coletividade e de liberdade, que vão do corpo à alma, no sentido mais amplo. Daí que a onda de intolerância retrógrada que vem ganhando espaço no vácuo de uma vassalagem religiosa obscurantista deve ser enfrentada por meio da luz, da ciência, da razão, do conhecimento, tal como o foi no Renascimento ocidental corajosamente protagonizado pelos humanistas de então, muitos dos quais tiveram a sua profícua vida ceifada precocemente.
Diferentemente do que diz a mi(r)dia deformadora e desinformante que predomina feito praga em nossa sociedade, o aumento da violência contra a mulher, seja em casa, no trabalho, no trânsito ou em outros espaços públicos ou privados, decorre do machismo, ou melhor, da misoginia meticulosamente alastrada por agentes do atraso travestidos de paladinos da moral, porta-vozes do obscurantismo medieval que desaba sobre nossas cabeças e quando menos esperarmos estaremos todos indo para o cadafalso. A luta de emancipação e empoderamento da mulher é, sim, luta de todo aquele que, com sinceridade, deseja uma sociedade mais justa, mais solidária, mais libertária e mais fraterna. Do contrário, as conquistas duramente consignadas na Constituição Cidadã e hoje ameaçadas acintosamente por seres bizarros impensantes estarão perdidas, a exemplo dos direitos trabalhistas, recentemente demonizados como causadores da crise produzida e alimentada pelos mesmos membros da quadrilha que tomou de assalto os destinos da nação.
Em nosso atual contexto, de infindáveis retrocessos e absurdos personagens (nada originais e totalmente bizarros), como certos sacerdotes fundamentalistas que se pretendem donos da verdade -- das mais diferentes denominações cristãs, judaicas, islâmicas e budistas -- que usam a religião para se promover politicamente, distorcendo seu papel. No Brasil, ligados a Eduardo Cunha (aquele deputado corrupto que usou e abusou da boa-fé de pessoas bem intencionadas para fazer das suas, locupletar-se, locupletar seus iguais e, pior, provocar o maior retrocesso da história do parlamento brasileiro), os tais sacerdotes são, na verdade, charlatães que usam fé, a religião, para angariar poder e atingir objetivos inconfessáveis. Não por acaso estão hoje de mãos, pés e rabos presos ao mais retrógrado dos candidatos à Presidência, aquele que foi expulso de sua corporação por tentativa de sabotagem no início da redemocratização e que ao longo de sua pífia trajetória no parlamento absolutamente nada produziu, além de polêmicas decorrentes de sua incontinência fecal, digo, mental.
Dessa forma, e com sinceridade, mantive-me no silêncio no dia de ontem por entender que não via motivo algum para comemorar. Reservadamente, desejei feliz dia de luta à mulher, mas me dei o direito de divergir de qualquer ato comemorativo, pois o momento é de luto e luta, muita luta, e não a hipócrita celebração promovida pelo mercado para vender flores, doces, cosméticos e roupas. A Vida é muito mais que o culto ao consumo, até por conta do momento em que vivemos. Como comemorar quando os meliantes da quadrilha que usurpou o poder apearam a primeira presidenta da República exatamente por ela ser íntegra e honesta para se acumpliciar com eles? Como comemorar quando a atual ministra que preside a mais alta corte do Judiciário exerce o seu mandato cada vez mais parecida aos seus colegas dos outros poderes, todos com o funesto semblante de mortos-vivos, insensíveis às conquistas democráticas duramente introduzidas no ordenamento jurídico pátrio?
A História cobrará, sim, dos obtusos obscurantistas de ocasião, que se valem das fraquezas e do atraso social em que vivemos, para formar hordas medievalescas ensandecidas e entorpecer os horizontes alvissareiros que dez anos atrás flamavam e inflamavam o cotidiano generoso então existente e cuja permanência foi interrompida pelo ódio, pela intolerância e pela inveja. Sim, porque justiceiros togados, pastores fundamentalistas, medíocres golpistas e saudosistas da (mal)ditadura são militantes em muitas bizarrices, sobretudo a inveja, a intolerância e o ódio.
Contudo, não podemos deixar de clamar: nefastos, tremei: chegaram as mulheres!
Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 1 de março de 2018

Dona Gabriela Soeiro, retrato da cidadã do século XXI



Dona Gabriela Soeiro, retrato da cidadã do século XXI
Dona Gabriela Soeiro é o protótipo da mulher guerreira do início da segunda metade do século XX. Estoica, corajosa, determinada, mas sem perder a ternura, a meiguice e a feminilidade. Dona Gabi, para os amigos, era filha de boliviana com português e se casou bem nova com um homem distinto, estudado, funcionário público federal, bem mais velho que ela. Ficou viúva bem jovem, vindo da Amazônia para Corumbá com os seus filhos, em fins da década de 1950.
Corumbá, então, era a mais cosmopolita das cidades do Centro-Oeste brasileiro. Tão logo chegou, encontrou emprego no imponente Grande Hotel Corumbá, na esquina do Jardim Independência. Era a telefonista, e dividia a função com a desde logo sua melhor Amiga até o final da Vida, Dona Genil da Silva Ojeda. Hotéis com aquele padrão, na época, dispunham de uma central telefônica (os veteranos “PBX”, uma geração anterior aos “PABX”), cuja operadora direcionava manualmente as ligações solicitadas ou recebidas para os ramais dos apartamentos ou dos diferentes setores da administração. As pessoas escolhidas, mais que hábeis, tinham que ser discretas e, sobretudo, de extrema confiança, pois acidentalmente podia se ouvir parte da conversa entre um e outro interlocutor.
Ela contava que, no tempo em que trabalhou naquele hotel, conheceu as pessoas mais ilustres da sociedade corumbaense, além de muitas pessoas públicas (políticos, empresários e artistas) que vinham visitar a Cidade Branca. Muito discreta, nunca revelou os bastidores da rotina dos funcionários quando, por exemplo, chegavam autoridades nacionais ou estaduais (geralmente em período eleitoral para apoiar os seus aliados regionais), tamanha a importância que detinha o então primeiro centro comercial da Região Centro-Oeste. Embora fosse conservadora na política (declaradamente fã do recém-falecido Doutor Wilson Barbosa Martins, à época na UDN), tinha um carinho especial pelo Doutor Wilson Fadul, deputado trabalhista e ex-ministro da Saúde do Presidente João Goulart, responsável pela criação do Serviço de Assistência Médica de Urgência (SAMDU), sendo Corumbá um dos municípios pioneiros a implantá-lo, com o Doutor Cleto Leite de Barros à frente.
Com Dona Genil partilhou de outras experiências laborais, sempre em empresas ligadas ao mesmo grupo proprietário do célebre hotel: funcionária dos glamourosos cines Tupi e Santa Cruz, e mais tarde, com a implantação da pioneira Cooperativa Telefônica Corumbaense (COTECO), das primeiras telefonistas, cujo salário permitiu dar um futuro melhor às suas três crianças, todas elas com formação universitária. Os dois filhos foram cedo estudar em Campinas, e a única filha, a querida Amiga Maria Auxiliadora Figueiredo, ex-colega de minha Irmã caçula, ficou para acompanhar Dona Gabi até concluir o ensino médio em Corumbá, em fins da década de 1970, depois tendo também rumado para a região de Campinas, onde reside e trabalha até a presente data.
Durante muitos anos ela foi proprietária de uma mercearia situada na esquina das ruas Cuiabá e Antônio João. Com a inflação descontrolada no governo do general João Figueiredo, o último do regime de 1964, ela foi obrigada a fechar seu comércio, passando a ser vendedora autônoma de produtos de catálogos, sobrevivendo com dignidade e altivez até fins da década de 1980. Para complementar sua renda, dedicava-se ao trabalho de manicura e pedicura, restrito a poucos clientes, atividade que exercia como uma verdadeira doutora, rigorosamente higiênica e delicada (jamais alguém reclamou de algum “bife”, como se sói dizer dos acidentes nessa atividade profissional). Sua conduta altiva, e ao mesmo tempo humilde, a tornou uma referência na cidade.
Em 1996 sobreviveu a um câncer depois de se submeter a diversas cirurgias e longo tratamento no hospital-escola da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). O fato de ter um filho farmacêutico com vasto relacionamento no estado de São Paulo muito contribuiu para que, graças a seu espírito empreendedor, seguisse em frente em sua Vida de guerreira e batalhadora incansável. Permaneceu algo como dez meses morando praticamente em São José do Rio Preto, em razão da complexidade do tratamento. Como o hospital-escola dispõe de equipe interdisciplinar para atender aos pacientes no final do tratamento -- ao ficar ostomizada em caráter definitivo, recebeu apoio psicológico e socioassistencial, em que aprendeu a conviver com a nova realidade --, voltou a Mato Grosso do Sul com a determinação de multiplicar os benefícios conquistados por meio daquela equipe.
Dona Gabi, com o apoio da enfermeira e professora Margarete Knock Mendonça, do curso de enfermagem da UFMS em Campo Grande, e outros colegas da área de saúde, criou o GARPO/MS (Grupo de Apoio e Reabilitação da Pessoa Ostomizada de Mato Grosso do Sul). Primeiro, dedicou-se à viabilização da entidade na capital, cujos ostomizados, em sua totalidade, passaram a ser atendidos dentro de um protocolo com muita dignidade e cidadania. Em 1998, como primeira região do interior do estado, passou a priorizar o Pantanal (GARPOPAN), por duas vezes tendo sido criada uma comissão provisória, mas a falta de apoio dos gestores naquela época inviabilizou o trabalho.
Nem por isso desistiu. Com o apoio do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário, criou um ponto-focal constituído de profissionais autônomos (psicóloga, assistente social, nutricionista, enfermeira, técnico de enfermagem, advogada e outros voluntários) e com o GARPO/MS, que era entidade de âmbito estadual, definiu um protocolo de encaminhamento direcionado para a Secretaria de Estado de Saúde, de modo que todos os pacientes recém-ostomizados na região do Pantanal pudessem receber as órteses e demais recursos de apoio às pessoas que, por acidente, doença ou nascença, precisassem desses instrumentos, considerados de altos custos, para manter sua saúde, com qualidade de vida e cidadania.
Dona Gabi era didática para explicar que, diante da iminência de uma cirurgia que levasse a uma ostomia (urostomia, colostomia, hiliostomia ou até uma traqueostomia), cabia ao ex-paciente (agora usuário do SUS) a capacidade de “dar a volta por cima”. É que muitos ostomizados ou ostomizadas perderam seus casamentos, empregos e até a vida por não poderem contar com um grupo de ajuda mútua como o GARPO/MS, que ela fundou e dirigiu como se fosse mais um filho em sua Vida. Além do risco de depressão, o desconhecimento de como lidar com a nova realidade e os dispositivos, higienizar-se, cuidar-se, alimentar-se adequadamente, saber até como relacionar-se com seu parceiro (ou sua parceira), era um desafio. Por isso a importância do empoderamento do usuário do SUS.
E Dona Gabi foi uma verdadeira cidadã para a consolidação do controle social, tanto em Corumbá e Ladário, como em Mato Grosso do Sul. Com a altivez que lhe era peculiar -- e a humildade igualmente indissociável à sua cativante personalidade --, entra para a história da cidadania pós-Constituição de 1988 como uma protagonista exemplar, digna de ser o retrato da cidadã do século XXI, sempre à frente de seu tempo.
Ahmad Schabib Hany

domingo, 18 de fevereiro de 2018

SINAL DE ALERTA: TEMER BRINCA COM FOGO E ATENTA CONTRA A DEMOCRACIA



Sinal de alerta: Temer brinca com fogo e atenta contra a democracia
Oportunismo, leviandade e cinismo caracterizam últimas ações emanadas pelo “núcleo de poder” do Planalto. Ao brincar com a vida da população, a quadrilha que tomou de assalto os destinos da nação usa a violência como pretexto para experimentar próximos passos e rasgar a Constituição.
Beira o surreal a conduta nada republicana do atual inquilino do Planalto. Seu comportamento nunca convenceu os menos desatentos leitores da impren$a balofa ou da ágil mídia altiva, mas a obsessão de aprovar as tais “reformas” para cumprir compromissos inconfessáveis pactuados para angariar apoio à sua aventura golpista, isso já extrapolou o limite da racionalidade.
Dias Gomes, o genial criador de Odorico Paraguaçu, teria granjeado o Nobel de Literatura para o país caso ainda estivesse entre nós, pois não lhe faltaria farto material para um inesgotável enredo capaz de superar o não menos genial García Márquez em seu célebre “Cem anos de solidão”, entre outras obras não menos ricas e originais.
Uma de suas declarações mais recentes deixou patente que, com leviandade insana, recorreu à intervenção federal da segurança pública no Rio de Janeiro como mecanismo de pressão aos parlamentares indecisos ou não suficientemente convencidos da necessidade dessa reforma na previdência. Em outras palavras, vale-se da chantagem para convencer e obter maioria, já que por vias escusas, largamente usadas desde sua “entronização” no cargo para o qual não foi nem seria, jamais, eleito, não estava obtendo sucesso.
Nada ético, nada republicano, ele vem agindo com um grau de cinismo de causar inveja a tiranos que entraram para a história por sua insanidade e obtuso irracionalismo. Canastrão, pois sua encenação é incapaz de convencer os mais ingênuos espectadores daquela emissora que bancou o golpe e hoje quer a sua cabeça por ter sido incompetente para realizar o pactuado.
O oportunismo dessas medidas se constata na inexistência de dados que justifiquem, em estatísticas oficiais confiáveis, as tais medidas. Até onde a imprensa independente teve acesso, não houve qualquer aumento expressivo da violência que fundamentasse a medida, que foi preparada pelo nefasto núcleo de poder coordenado por Moreira “Angorá” Franco, Carlos “Metralha” Marun, Eliseu “Qua” Padilha e, pasmem, Rodrigo “Botafogo” Maia (genro e beneficiário de “Angorá”). Além de hábeis no desvio das funções republicanas, o que essa corja entende de segurança pública? De privada, isso lá, talvez...
Como descendente de libanês, causa-me perplexidade e vergonha a postura insolente desse que, se estivesse na terra de seus pais, não teria chegado à metade do tempo que permanece. Se as autoridades (de lá) já não tivessem tomado a medida cabível – o Legislativo lá não tem esse grau de submissão, de um servilismo de lesa-pátria –, a população se encarregaria de tomar as ruas para demonstrar seu descontentamento e sua vontade de destituí-lo do cargo que usurpou acintosamente. Não faltará algum detrator da honorabilidade do civilizado povo libanês (e árabe, por extensão) para dizer que o “terrorismo” e o “sectarismo” poderiam atentar contra a integridade física dele, mas não seria verdade, pois as vezes em que líderes (líderes, bem entendido!) libaneses perderam a vida pela ação de “terroristas”, descobria-se que a procedência era o Mossad, serviço secreto de Israel, sempre em sintonia com o estadunidense. Assim como aqui, lá não se mexe em coisa fedorenta.
Até quando as amplas camadas populares permanecerão impávidas e passivas ante tanto deboche e acinte à inteligência do cidadão comum e anônimo? É preciso ignorar a tal intervenção e ir pra rua. Desobediência civil, já!
Ahmad Schabib Hany

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

DR. WILSON BARBOSA MARTINS, O ETERNO DEMOCRATA



Dr. Wilson Barbosa Martins, o eterno democrata
Um dos maiores democratas da história de Mato Grosso do Sul, ex-governador, ex-senador, ex-deputado federal e ex-prefeito, Wilson Barbosa Martins, carinhosamente chamado de Doutor Wilson, se eternizou, aos 100 anos, em sua sóbria residência (a mesma em mais de sete décadas), no centro de Campo Grande, nesta terça-feira de carnaval. Partiu com a mesma discrição, comedimento e prudência com que viveu, fosse no exercício de seus mandatos eletivos ou em sua reservada vida particular. Igual a ele, só o irmão mais novo, o querido e terno Doutor Plínio Barbosa Martins, eternizado em 1998, na véspera do segundo turno das últimas eleições do século XX.
Doutor Wilson cursou, na década de 1930, Direito na emblemática Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), celeiro da intelectualidade e dos ícones da democracia no século XX. Casou-se cedo com a artista plástica e escritora Nelly Martins, filha de um tio seu, o líder divisionista Vespasiano Barbosa Martins, governador do efêmero estado de Maracaju, instalado à revelia do governo central, em 1932. Foi prefeito da ainda provinciana Campo Grande dos fins da década de 1950, tendo-a preparado para instalar a sede de governo de um futuro estado, à época inimaginável, o que lhe valeu o reconhecimento, pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam) e da então poderosa revista O Cruzeiro, fato que muito o envaidecia.
Democrata convicto, embora pertencente ao partido que articulara o golpe de 1964 (a União Democrática Nacional, UDN), colocou-se contra o regime que se instalava, tendo sido dos primeiros a cerrar fileiras no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a única oposição consentida, e de cuja bancada foi vice-líder, membro titular da Comissão de Constituição e Justiça e presidente da CPI sobre a venda de terras a estrangeiros, o que lhe custou o mandato de deputado federal -- escolhido pela imprensa política de então como um dos dez melhores parlamentares da legislatura -- e a perda dos direitos políticos até 1979. Sua sólida formação intelectual somada a um comportamento estoico, singular no meio político, permitiu que, mesmo à margem do cenário político, fosse uma referência para militantes das mais diferentes ideologias: conservadores, liberais, social-democratas, socialistas e comunistas dos mais diferentes matizes o tinham como uma reserva moral da política.
Durante a (mal)ditadura, o Doutor Wilson foi interlocutor discreto de lideranças políticas não só de Mato Grosso, como de todo o Brasil. Embora nunca tivesse escondido sua amizade com o controvertido ex-presidente Jânio da Silva Quadros, foi um dos maiores críticos de sua renúncia intempestiva, que contribuiu para a precipitação da conspiração que, desde antes do suicídio de Getúlio Vargas, vinha rondando a política nacional, com os auspícios da embaixada dos Estados Unidos, no Rio de Janeiro. Tanto ele como seu irmão Plínio, advogados respeitados, defenderam réus acusados de atentar contra a "segurança nacional", bordão esgarçado dos golpistas de 1964 para justificar prisões ilegais contra adversários do regime -- como do ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Aldo Arantes, em cujo processo judicial seu irmão Plínio, como juiz auditor militar, teve a coragem de se posicionar eticamente, tendo que renunciar ante a iminência de ser cassado.
Foi paradigmática a defesa do Doutor Wilson, em plena ditadura, de um casal de camponeses de Fátima do Sul -- Joaquim Evaristo e Adélia da Gama Evaristo --, vítima das disputas de terras promovidas pelos coronéis da região. O depoimento deles, em 1980, quando moravam em Campo Grande, no bairro Guanandi, foi emocionante, ao expor a parcialidade das instituições públicas no regime de 1964. Tratava-se de uma família de meeiros, pequenos agricultores, expulsos de sua lavoura antes que vencesse o tempo acordado, e, diante da prepotência dos jagunços que haviam destruído suas plantações, decidiram ir até a capital, onde procuraram o renomado advogado, que os defendeu em todo o processo, sem cobrar-lhes os honorários advocatícios. O casal, já maduro e com filhos jovens, acabou por se fixar em Campo Grande, tornando-se os maiores cabos eleitorais do candidato a governador em 1982. Mas, ao contrário dos políticos contra os quais se insurgira em toda a sua vida, Doutor Wilson não permitia que fossem usados depoimentos como esse nas disputas eleitorais de que participara.
Nos bastidores, empreendeu derrotas acachapantes contra os serviçais da ditadura, não só quando elegeu o Doutor Plínio prefeito de Campo Grande (início da década de 1970, tempos cruentos), interrompendo o ciclo da Aliança Renovadora Nacional (Arena) na administração municipal. Aliás, sua postura ética o aproximou de dirigentes trabalhistas, como Wilson Fadul e Humberto Neder -- cuja candidatura a senador na sublegenda do MDB com Plínio em 1978 consolidou a articulação de centro-esquerda contra o regime de 1964 em Mato Grosso do Sul. Em 1982, essa articulação foi prejudicada pela extinção do bipartidarismo (e, por conseguinte, do MDB), com o desfalque de lideranças à esquerda, como Antônio Carlos de Oliveira, candidato a governador e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), e Wilson Fadul, também candidato a governador e fundador do Partido Democrático Trabalhista (PDT). No entanto, com as dissidências da extinta Arena, partido de sustentação do regime, Ramez Tebet (ex-Arena), Harry Amorim (ex-Arena), Lúdio Coelho (ex-UDN e ex-Arena), José Fragelli (ex-UDN, ex-Arena e ex-PDS), Mendes Canale (ex-PSD, ex-Arena e ex-PDS), Saldanha Derzi (ex-UDN, ex-Arena e ex-PDS) e Marcelo Miranda (ex-Arena e ex-PDS) se filiaram ao PMDB e apoiaram a candidatura vitoriosa do Doutor Wilson a governador, sendo Ramez vice, e Marcelo senador, tendo Canale como seu suplente, por conta da sublegenda para o Senado.
Mas ganhar aquela eleição não fora fácil. Além dos boatos plantados pelos adversários, apoiados na máquina administrativa e toda a estrutura de poder (além dos meios de comunicação), a candidatura oficial contava em muitos municípios com um esquema parecido ao do Rio de Janeiro, o tristemente conhecido "Caso Proconsult". Em Campo Grande, a elucidação e equacionamento de um escrutínio moroso e tumultuado foram realizados pelo competente juiz eleitoral e grande democrata, Doutor Aleixo Paraguassu Neto, que posteriormente foi secretário de Segurança Pública e de Educação do Doutor Wilson, como reconhecimento de sua corajosa intervenção. Em Mato Grosso, o Padre Raimundo Pombo, e no Rio Grande do Sul, o senador Pedro Simon, ambos candidatos do PMDB com a vitória já anunciada, não tiveram a mesma sorte. Afinal, em 21 anos de governo de fato, o controle do poder, dos meios de comunicação e das pessoas-chave havia sido aperfeiçoado, que não bastava ter capacidade de convencimento, mas estratégia para mitigar o esquema viciado para perpetuar no poder os autoproclamados "paladinos da moral e da democracia", que na calada da noite praticavam as prisões ilegais, torturas, chacinas, a censura e o medo.
Avesso a essa conjuntura obscurantista e truculenta, o Doutor Wilson, primeiro governador eleito pelo voto democrático em Mato Grosso do Sul, deixou em seu primeiro mandato a marca da democracia: a despeito da aliança com influentes dirigentes oriundos da ditadura, conseguiu empreender uma agenda propositiva inimaginável para a época, tendo criado políticas autônomas dentro das estreitas brechas permitidas pela draconiana Constituição da época (ou Emenda Constitucional nº 1, de 1969, auge do AI-5), como a Educação para a Democracia, Sindicalizando Muda e Cultura com Cidadania, bem como da mudança total na relação do estado com os municípios e, além da realização de velhas promessas nunca cumpridas pelos serviçais do regime, como a construção do trecho entre Corumbá e Miranda da BR 262, reivindicado pelo então deputado Armando Anache, pedrossianista, para assegurar uma frágil maioria parlamentar na Assembleia Legislativa, em que o PDS elegera a metade dos deputados.
Doutor Wilson não só provou que a oposição ao regime sabia governar, como praticava a democracia. Em seu primeiro mandato, a adesão das principais cidades sul-mato-grossenses à luta pelas Diretas-Já (apoio ao Projeto de Emenda Constitucional do deputado federal Dante de Oliveira, do PMDB de Mato Grosso, propondo eleições diretas em todos os níveis, de prefeito de capital a presidente da República) e depois à eleição do governador mineiro Tancredo Neves à presidência da República, em 1985, foi natural decorrência de sua postura democrática, um exemplo de governo transparente e participativo. Isso permitiu que pela primeira vez um governador fizesse seu sucessor no estado, com a vitória do aliado Marcelo Miranda em 1986, sua eleição para senador e a reeleição de Saldanha Derzi para um novo mandato -- o então deputado Roberto Orro, seu companheiro de primeira hora, também candidato a senador, ficou como suplente de Derzi, mas nunca assumiu o cargo.
Na Assembleia Nacional Constituinte, embora com um perfil mais liberal que Plínio (eleito Deputado Nota 10 pelo movimento sindical), o Doutor Wilson se destacou pelas posições democráticas e nacionalistas. Não por acaso, sua derradeira atuação no Congresso Nacional produziu a Constituição Cidadã, materializando o maior legado de sua geração, o Estado Democrático de Direito. Na sucessão de seu maior adversário, Pedro Pedrossian, derrotou, em 1994, o ex-senador Levy Dias, ao sagrar-se governador num segundo mandato, e elegeu seu ex-vice Ramez para o Senado. Mas a política neoliberal empreendida pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso na presidência da República o prejudicou enormemente. A lealdade aos velhos aliados da luta pela redemocratização e, sobretudo, a ausência do grande timoneiro da democracia, o Doutor Ulysses Guimarães (vítima, em 1992, de um acidente aéreo nunca elucidado), tornaram seu governo refém dos compromissos com os tucanos palacianos, cujo principal representante, o candidato Ricardo Bacha, seria a maior vítima dos descompassos acumulados. O desgaste político do Doutor Wilson abriu caminho para a eleição de um ex-correligionário seu na luta contra a ditadura, o ex-governador e hoje deputado federal Zeca do PT, cujo candidato para o Senado era o seu também ex-aliado político Carmelino Rezende.
O Doutor Wilson bem que tentou deixar uma herdeira política, a sua filha Celina Jallad, cuja carreira política foi diferente que a sua, tendo falecido precocemente, pouco tempo depois da grande companheira dele, Dona Nelly Martins. Aliás, tanto ele quanto Plínio -- cujo filho, o bem-sucedido advogado Marcelo Barbosa Martins, decidira encerrar a sua brevíssima carreira política como atuante vereador da capital ainda no primeiro mandato --, detentores de um legado ético e democrático no tacanho cenário político sul-mato-grossense, entram para a História como verdadeiros democratas num estado de perfil oligárquico em que os vários setores progressistas -- sobretudo as esquerdas -- ainda não se encontraram e equivocadamente apoiaram mediocridades como, primeiro, Marcelo Miranda e, depois, Delcídio Amaral para representar os legítimos anseios populares há décadas represados.
Que a coerência e a sobriedade do Doutor Wilson sejam capazes de iluminar as escassas consciências dos cada vez mais raros cidadãos comprometidos com as causas populares e o Estado Democrático de Direito, um dos maiores legados de sua geração.
Ahmad Schabib Hany