segunda-feira, 9 de setembro de 2024
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sábado, 7 de setembro de 2024
UFPantanal: mais que sonho, necessidade urgente
UFPantanal:
mais que sonho, necessidade urgente
Adesão da sociedade civil e
científica vem crescendo a passos largos, enquanto hesitação, em vez de
entusiasmo, divide docentes e discentes do CPAN/UFMS.
Eis que titubeio, hesitação, é o que tem demarcado
os espaços imaginários entre alunos/as e docentes-pesquisadores/as do CPAN/UFMS,
e fico lisonjeado ao ver que professoras e professores são os mais entusiastas,
mais engajados. Por quê? Elas e eles, docentes, sabem -- porque conhecem -- a
importância desta região, independentemente da área de estudo a que se dedicam,
para a soberania tecnocientífica brasileira e para o desenvolvimento
estratégico regional, nacional e continental. Mais: a instalação de um centro
de pesquisas de referência é bom para a população regional e de interesse
geopolítico em tempos de afirmação do protagonismo do Brasil, seja como
potência regional ou como membro do concerto das nações como agente da paz, do
desenvolvimento soberano e do combate à fome.
Porque é alvissareiro o novo paradigma de
universidade, inclusiva e inovadora, liberta do burocratismo imposto pelo
famigerado Acordo MEC-USAID, de 1968, que vem atravancando o desenvolvimento
tecnocientífico há diversas décadas -- na verdade, desde o início da
redemocratização do Brasil, em 1985, pois, à exceção dos governos dos
presidentes Lula e Dilma, nenhum ministro da Educação pós-Nova República teve
sucesso nas diferentes tentativas de resgatar o papel de vanguarda na pesquisa
pelas universidades tradicionais --, uma das razões da letargia e do individualismo
reinantes na academia brasileira. Até porque a adoção de ranking na produção e
no desempenho acadêmicos leva a um perigoso ‘pragmatismo’ que se reflete em
quase todas as universidades brasileiras.
Não há exagero ao afirmar que as pesquisas
pioneiras em diversas áreas do conhecimento não só em Mato Grosso e Mato Grosso
do Sul começaram com pesquisadores instalados no então Centro Pedagógico de
Corumbá (da Universidade Estadual de Mato Grosso) e depois no Centro Universitário de Corumbá (da Universidade Federal
de Mato Grosso do Sul). Há duas semanas, resgatamos o pioneirismo dos docentes
pesquisadores Cláudio de Almeida Conceição, Wilson Uieda e Masao Uetanabaro.
Todos eles das ciências biológicas. Agora iremos citar o pioneirismo na
História, com os docentes pesquisadores Valmir Batista Corrêa e Lúcia Salsa
Corrêa, desde início da década de 1970.
Casal que veio bem jovem
a Corumbá, ambos dedicados à História, não só estruturaram o curso de
licenciatura, mas sistematizaram a História Regional e, sobretudo, iniciaram um
importante processo de pesquisa ousado e metódico em todo o sul de Mato Grosso.
Tive a honra e o prazer de conhecer o Professor Valmir Corrêa em 1975, quando eu
ainda estava no segundo ano do ensino médio, no antigo Centro Educacional Julia
Gonçalves Passarinho, e o saudoso Professor Octaviano Gonçalves da Silveira Junior,
titular de Língua Portuguesa e de Literatura, nos orientou para que fizéssemos
uma enquete com os alunos da escola sobre a divisão de Mato Grosso, ainda em
cogitação. Por recomendação dele, fomos até o CPC/UEMT para saber fazer a
enquete e a pessoa indicada era o Professor Valmir Corrêa.
Em 1978, quando iniciei o
curso de licenciatura em Letras, no período vespertino, tive um contato maior
com ele: o Centro de Estudos Históricos Ricardo Franco, embora restrito ao
alunado de História, me cativava muito, tendo participado de algumas de suas
atividades. Mesmo deslumbrado com o nível do ensino no CPC, eu já estava com
planos de, ao final daquele ano, antes da instalação do governo de Mato Grosso
do Sul, ir trabalhar em algum jornal, mesmo porque o Amigo Edson Moraes,
referência de nossa geração, trabalhava no Tribuna, do Jornalista e Deputado Sérgio Cruz. Antes de me mudar para Campo
Grande, doei ao Professor Valmir uma hemeroteca modesta, com jornais de
Corumbá, Ladário, Cuiabá, Campo Grande, São Paulo, Rio de Janeiro, La Paz,
Cochabamba, Trinidad, Santa Cruz de la Sierra, Assunção, Buenos Aires, Madri, Cairo
e Beirute, em português, espanhol, inglês e francês.
A revista acadêmica Dimensão, editada por
uma equipe de docentes do CPC, traz síntese das primeiras pesquisas dos
Professores Valmir e Lúcia, além de outros pesquisadores, obviamente, em que
consta de catalogação de jornais corumbaenses do final do século XIX e início
do século XX, bem como a descrição do movimento do entreposto comercial de
importância continental. Com a participação do Professor Gilberto Luiz Alves,
do curso de Pedagogia e igualmente pioneiro em História da Educação, Valmir e
Lúcia realizaram a justificativa para o tombamento do Casario do Porto em 1986,
uma luta iniciada em 1978 por causa da demolição de três prédios históricos do
centro de Corumbá: Cine Santa Cruz (onde hoje está a agência local do Bradesco), Intendência Municipal (onde estava situada
a sede do Café Néctar) e a Rádio Difusora Mato-grossense S/A (em frente à
agência local do Banco do Brasil).
A artista plástica
Marlene Terezinha Mourão, a querida Peninha, convidada pela Irmã Sofia para
trabalhar como professora no saudoso Ginásio e Escola Normal Imaculada
Conceição (GENIC), trocou Coxim e Campo Grande por Corumbá e deu uma guinada em
sua Vida. Em tom bastante descontraído, Peninha conta que, anos depois, foi
convidada pelo Doutor Salomão Baruki para dar aula no Instituto Superior de
Pedagogia, no prédio do então Grupo Escolar Luiz de Albuquerque (mais tarde,
transformado no ILA, no governo derradeiro de Mato Grosso uno, em que o
corumbaense Cássio Leite de Barros era governador e Salomão Baruki deixara a
vice-reitoria para ser secretário de estado de Educação e Cultura).
Professora de Introdução
à Metodologia Científica até 1974, a criadora de Maria Dadô foi colega dos professores
Gilberto, Valmir, Lúcia e Masao, com quem tinha uma relação bem descontraída
(em 1977, todos eles estavam nas diferentes edições da Grifo, revista mato-grossense editada em Campo
Grande pela Edimat. Mesmo sem saber, Peninha era uma seguidora do método de
Paulo Freire com a sua pedagogia libertária e descomplicada, em um tempo de
censura e muita tortura. Ela justificava não ler jornais, porque havia muita
mentira, não mostravam a verdade, porque a censura prévia não deixava que
saísse nada que não fosse do interesse dos governantes. Foi assim que vim saber
que meu Irmão Mohamed, eternizado 50 anos atrás, fora seu aluno e, curiosamente,
ela ainda se lembrava dele, de seu jeito irreverente -- provocador, até -- para
a época.
Amiga da Professora Lígia, Filha do Professor
Salomão Baruki, Peninha retorna para o CPC, desta vez como técnica do ‘Seção de
Multimeios’ (hoje, multimídia), depois de ter sido secretária do vice-reitor da UEMT, Doutor
Salomão, que assinara a sua carteira de trabalho numa das substituições ao Professor
João Pereira da Rosa, primeiro reitor da UEMT e, com a federalização, de sua
sucedânea, UFMS. Para ela, não se trata apenas da assinatura do empregador,
senão de autógrafo de um homem público muito querido, com quem conviveu apesar
da diferença de pontos de vista, tanto que até hoje mantém uma Amizade
fraternal com a Professora Lígia Baruki e Melo, sua correligionária e
confidente.
Mar, Marlene Mourão ou
simplesmente Peninha é prima do igualmente talentoso poeta e compositor
coxinense Zacarias Mourão, o célebre autor de “Pé de Cedro” eternizado há
algumas décadas com pouca idade. Humilde, não gosta dessas associações a celebridades,
pois ama o anonimato. Mas a autora de “Pacu era um peixe feliz que nadava nas
águas do Rio Paraguai” foi prefaciado pelo Poeta Manoel de Barros sem tê-lo
pedido: ele ficara encantado com o conto-poema que ela enviara por correio em
1987, mas que só publicou em 2002, graças
ao Fundo de Investimento Cultural criado no governo do correligionário Zeca do
PT.
Além de docente
universitária e técnica de ‘multimeios’, a querida e talentosa Peninha é
artista plástica, caricaturista, cartunista, poeta, escritora, ativista cultural
e Mãe-Avó de Luiz Eduardo, Felipe, Leonardo e Helô, a Netinha. Ama o óleo, a
aquarela e, sobretudo, o bico de pena. Não por acaso, suas ilustrações são presença
obrigatória em livros do ex-colega Gilberto, em edições da década de 1980 e em sua coleção para a
Associação dos Bibliófilos do Instituto Cultural Gilberto Luiz Alves (ICGLA),
em 2023, inaugurada com “Pantanal
da Nhecolândia: pecuária e modernização tecnológica”, Volume 1 da coleção. Há
poucos dias, o ICGLA promoveu o lançamento do Volume 2, coautoria de Valmir
Batista Corrêa e Lúcia Salsa Corrêa, “A produção de charque e de tanino no sul
de Mato Grosso: cenários e dilemas”, coedição do ICGLA com a Editora Maria
Petrona, de Londrina.
As universidades são feitas por humanos e para
humanos. Uma sociedade que se pretende moderna e desenvolvida não pode abrir
mão de criar uma universidade inovadora, ousada e inclusiva. O progresso não
vem por acaso: é fruto do esforço realizado por seres humanos esclarecidos e
libertos. Assim, em plena fronteira, o coração do Pantanal e da América do Sul,
do Sol e do Sal -- como solenemente agasalhou o legítimo Festival da América do
Sul a partir de 2004 -- manterá
o cosmopolitismo / vanguardismo com que marcou na história, na memória e,
sobretudo, na Vida. UFPantanal não é sonho, é necessidade urgente.
Ahmad
Schabib Hany
Mohamed, 50 anos de seu silêncio
Mohamed,
50 anos de seu silêncio
Neste 21 de setembro
transcorrem 50
anos da eternização de Mohamed Schabib Hany, jovem que teve a sua Vida
interrompida aos 25 anos. Eram tempos sombrios e as perspectivas para
desassossegados como ele tinham gosto de chumbo, censura e repressão.
Se o mês de setembro de 1973 representara para a
América Latina uma tragédia sem fim (por causa do cruento golpe protagonizado
pelo sanguinário general Augusto Pinochet no Chile), o de 1974,
sobretudo para nossa Família, tinha gosto de chumbo e sangue. No dia em que transcorriam
os 196 anos de fundação de Corumbá (sem festa, pois na semana anterior um avião
se acidentara levando a óbito o comandante da 9ª Região Militar, de Campo
Grande),
meu Irmão Mohamed, o mais velho e ‘guru’ de todos os Irmãos e Irmãs, se
eternizava, ao cair da tarde, em circunstâncias nunca esclarecidas.
Tempo de censura e repressão, a imprensa não pôde
apresentar outra versão que a da polícia, que sequer investigara ou, ao menos,
realizara um exame de balística. Minutos depois do traslado do corpo ao
necrotério local, o caso foi encerrado como ‘suicídio’ com base em uma declaração
atribuída ao ‘menor’ de apenas 15 anos, levado na mesma viatura (uma Veraneio
da Polícia Civil),
desacompanhado e sem qualquer orientação, logo depois do desenlace. Detalhe: o ‘menor’ era precisamente eu, em
estado de choque, pois até então não tinha visto um corpo inerte, logo de
alguém querido como o Irmão mais velho.
O delegado regional era
um ex-professor de Matemática meu e de Educação Moral e Cívica de três Irmãs. Uma
década depois fui saber que ele, bacharel em Direito, fora nomeado, dois anos
antes do fatídico dia em que meu Irmão se eternizou, com o aval do poderoso e
temido senador Filinto Strubing Müller, que até sua trágica morte, nas
imediações do Aeroporto de Paris, fora presidente nacional da Arena, partido de
sustentação do regime, do Senado Federal e do Congresso Nacional, homem forte
do general Emílio Médici.
Nem o apelo de minha
saudosa Mãe sensibilizara o delegado para ao menos cumprir o protocolo de um
mero inquérito policial. O que dizer do ofício do general da então Segunda
Brigada Mista, pessoalmente levado por minha Mãe por orientação do advogado contratado
para a elucidação do caso e devolução de pertences da vítima, levados com o
corpo e que teoricamente teriam sido juntados aos autos? Nem devolução de
pertences, que não era o que interessava aos nossos Pais, e, pior, nem o
esclarecimento das circunstâncias em que ocorrera a tragédia.
Meses antes,
precisamente no aniversário de 48 anos de nossa Mãe, esse mesmo delegado agira
com ardil quando uma equipe da patrulha da polícia (à época Corumbá só contava
com Polícia Civil) tentara invadir, durante a madrugada, o quintal da casa de
nossos Pais, como que estivesse no encalço de algum criminoso, sem mandado
judicial ou contato prévio com os responsáveis pela moradia, no caso nossos
Pais. Armado de um revólver Smith & Wesson 1948 calibre 32, com registro e
autorização de posse, Seu Mahoma não hesitou em dar cinco disparos no rumo das
lanternas, para assustar o que, no entender dele, eram assaltantes ou algo
parecido. Jamais imaginou que policiais pudessem agir em arrepio da lei,
sobretudo naqueles tempos em que civis deviam obediência à Polícia do Exército,
que mensalmente realizava blitze noturna em toda a região em que morávamos, a
Feira Boliviana, um conjunto de seis quarteirões situados nos arredores da
Estação Ferroviária da Red Oriental, da Bolívia.
De março a setembro de
1974 meu Irmão confidenciara a nossos Pais que esporadicamente a viatura da
‘rádio patrulha’, como então eram chamados o Fusca e a Veraneio da Polícia
Civil em Corumbá, o cercava quando, ao final da tarde, estava a caminho da
faculdade ou ao retorno, à noite. Para evitar eventual arbitrariedade dos
policiais, Mohamed passou a usar carona de Amigos para ir e para retornar das
aulas. Bastante prudente, ele sabia dos abusos cometidos pelas autoridades
durante as ditaduras na América Latina. Antes de estudar em Corumbá, ele fazia
Sociologia na Universidad Mayor de San Andrés, em La Paz, interrompido com o
recesso universitário decretado pelo coronel Hugo Banzer Suárez assim que
consumou o sangrento golpe contra o seu superior, general Juan José Torres, em
agosto de 1971.
A despeito de se dizer
admirador de nossos Pais (a esposa, de ascendência síria, era de uma Família
amiga), o delegado não só agira arbitrariamente no episódio dos agentes da
Polícia Civil que invadiram sem autorização o quintal de nossa casa durante a
madrugada, insinuando que nosso Irmão Mohamed era alvo de investigação nunca
dada a público, como depois de sua eternização fez questão de liberar para a
imprensa uma ocorrência cuja investigação não havia sido instaurada, que
propiciou manchetes sensacionalistas do nível do jornal Notícias
Populares, editado pelo grupo
‘Folhas’, de São Paulo.
Graças à solidariedade
dos Amigos Juvenal Ávila de Oliveira, radialista na época, e João de Souza
Alvarez, então repórter fotográfico, fui em sua companhia a todas as redações
de jornais e rádios para deixar a versão de nossa Família, observando que o
inquérito sequer tinha sido instaurado pela polícia. Por razões que desconheço
(mas, obviamente, deduzo, afinal, estávamos nos anos de chumbo), somente o Diário de
Corumbá, dirigido na ocasião
por Carlos Paulo Pereira Junior, Filho do fundador, Amigo de meu Pai, assegurou
o direito de resposta, em tom de retratação.
Um alivio em meio a esse
sofrimento representou a solidariedade dos colegas de turma do curso de
Psicologia do à época Centro Pedagógico de Corumbá da Universidade Estadual de
Mato Grosso (CPC/UEMT), manifestada pelo saudoso Senhor Lincoln Gomes de Souza,
também funcionário da agência local do Banco do Brasil. Seu Lincoln, tenor do
coral da Igreja Matriz, conseguira autorização de Dom Ladislau Paz, Bispo
Diocesano de Corumbá, para que fosse celebrada Missa de Sétimo Dia em memória
de meu Irmão (na época suicida não podia ter celebração religiosa), bastante
concorrida e na qual ele, com sua memorável voz de tenor, fizera questão de
entoar cantos religiosos e temas líricos.
Outro gesto solidário
foi de Dona Elza, esposa do popular Seu Brotinho, proprietário da quitanda
próxima à pensão de nossa Família. Ela era seguidora da doutrina de Allan Kardec
e, depois de consultar nossos Pais se aceitavam participar de sessão reservada
na sede da União Espírita Corumbaense, foram informados de que, em mensagem recebida
por um médium da entidade, meu Irmão dissera que não era suicida e que tivessem
certeza de que, apesar da saudade que sentia por eles, a Família e os Amigos,
ele estava bem em seu novo estágio de Vida. Além de inúmeras demonstrações de
carinho e Amizade de pessoas dos mais diferentes segmentos sociais e
denominações religiosas, esses gestos solidários proporcionaram um consolo para
nossos Pais, que ficaram gratos com Seu Lincoln Gomes e demais colegas de curso;
com Dona Elza, sua Família e seus Irmãos espíritas; com Juvenal Ávila e João
Alvarez, e com a Família Nunes Pereira, proprietária do Diário de
Corumbá, em que nosso Pai
publicava seus artigos desde 1969, ano em que voltara a circular, depois de
mais de 50 anos de interrupção.
Em La Paz e Cochabamba,
onde Mohamed passou a maior parte de sua Vida, os Amigos e Companheiros do
movimento estudantil e sindical também manifestaram a solidariedade altiva e
ativa dos que não se curvaram ante o facínora Banzer e sua prepotência
ilimitada. Em La Paz, onde ele cursara alguns anos de Engenharia Civil e depois
Sociologia, o Frei Javier Luna Pizarro, ex-colega de movimento estudantil, se
incumbiu de celebrar a missa em sua memória, destacando que em circunstância
alguma seu Amigo e Companheiro de lutas inesgotáveis jamais seria um ‘suicida’,
e desafiou as autoproclamadas ‘autoridades’ golpistas a provarem, até porque
sabia que os policiais em Corumbá sequer tinham feito exame de balística. Por
quê?
Cochabamba, que o
acolheu ainda criança e o reencontrou jovem desassossegado nos anos 1960, foi a localidade em que em
diversos setores da então cidade universitária da Bolívia homenagens e
manifestações de pesar foram entoadas. O líder sindical Virgilio Céspedes,
cruzenho de nascimento, foi uma das dezenas de vozes que não se constrangeram
para chorar com intensidade. Fez questão de enviar um testemunho escrito ao
nosso Pai em que assegurava que, em meio a inúmeras confidências, o caráter
firme de Mohamed jamais permitiria um gesto suicida. Anos depois, pessoalmente,
revelou a nossos Pais o rigor e a convicção com que conduzia a sua práxis
transformadora.
No Líbano, igualmente,
familiares, Amigos e ex-colegas do ensino médio fizeram uma noite de vigília em
que poemas, crônicas e canções foram dedicadas à sua memória. Foram enviadas
cinco fitas k-7 (‘cassete’) do áudio das manifestações de pesar, de
solidariedade e, sobretudo, de retratação à memória daquele jovem exemplar que,
nos quatro anos em que viveu no Líbano, foi líder emblemático por sua
generosidade, abnegação e coragem. O professor de Filosofia, que se tornou seu
Amigo, disse com todas as letras que em sã consciência Mohamed era mais um
mártir do porvir libertador que não demoraria a chegar.
Havia 10
anos que nosso Pai emigrara pela segunda vez do Líbano, via Bolívia, para o
Brasil, à procura de perspectivas promissoras para a nova geração de sua
Família. Bastante atento às adversidades políticas no Oriente Médio, ele
vislumbrara com uma década de antecedência a convulsão social que se gestava em
seu país natal, em que em agosto de 1974 eclodira um conflito transformado em
guerra civil que se arrastaria por mais de 25 anos, destruíra toda a infraestrutura da
até então ‘Suíça do Oriente Médio’ e empobrecera a quase totalidade da
população libanesa.
Nos quatro anos em que nossos Pais residiram no
Líbano, de 1960 a 1963,
em Ra’ssen-hache, cidade natal (departamento de Batroun, norte do Líbano) de
Seu Mahoma, os oito filhos e filhas acabaram ganhando mais uma, a caçula,
conterrânea do Pai. O bucólico povoado em que moramos foi cenário de uma tomada
de consciência para toda a prole do casal de peregrinos em que, fosse da
Amazônia ou dos Andes bolivianos, até o coração das montanhas libanesas,
palpitara a consciência libertária cuja razão de ser é a Palestina milenar e
seu incansável povo heroico.
“La
vida no vale nada / sino es por perecer / por que otros puedan tener / lo que
uno disfruta y ama.” (Pablo Milanés, ‘La Vida no Vale Nada’)
Ahmad Schabib Hany
sexta-feira, 6 de setembro de 2024
UFPantanal na Câmara Federal
UFPantanal
na Câmara Federal
Indicação da Deputada Camila
Jara, o projeto de criação da UFPantanal já se encontra na Câmara Federal. Pesquisadores
de todo o Brasil e do exterior continuam a se somar na construção de um novo
paradigma de universidade, inclusiva e inovadora.
Uma discreta notícia numa das mídias da capital dá
conta da indicação na Câmara Federal do projeto de criação da Universidade
Federal do Pantanal (UFPantanal) pela Deputada Camila Jara (PT-MS), semana retrasada.
Fazendo jus à sua gênese protagonista, o decano da imprensa corumbaense,
semanário Correio de Corumbá, desde o início vem dando a público os
passos parcimoniosos mas determinados na construção cidadã da UFPantanal.
Com a mesma discrição, a mobilização da sociedade
civil e científica segue, sem alardes nem atropelos, as pegadas prudentes e
firmes dos paladinos do saudoso Instituto Superior de Pedagogia de Corumbá (ISPC), em 1967,
anterior à criação da Universidade Estadual de Mato Grosso (UEMT), que com desenvoltura e altivez marcou o
pioneirismo da oferta de cursos universitários no coração do Pantanal e da
América do Sul. O legado é inspirador, mas a concepção inovadora e inclusiva da
UFPantanal requer protagonismo.
Como toda causa nobre, é a cidadania a construtora
deste projeto de universidade feita para todas e todos, sem exclusão e sem
privilégios. Fruto do legado pioneiro desta e outras universidades que
trilharam, com anterioridade, caminhos da transformação e da inovação não só
tecnológica e científica, mas humanista e cidadã. Porque a história, diferente
das lendas e mitos, é fruto da prática, da experiência, da entrega. É assim
como vem sendo construída a UFPantanal, coletiva e generosamente.
Por estarmos em pleno processo eleitoral na esfera
municipal e no âmbito do Campus do Pantanal da UFMS, têm sido evitadas
pirotecnias panfletárias e, sobretudo, o desgastante debate de obviedades,
pretexto para a procrastinação da autonomia e gestão local. Tudo ao seu tempo
será devidamente dialogado, pactuado e construído, de modo transparente e
democrático. Diferentemente de experiências que não prosperaram pelo caráter excludente,
burocrático e autoritário, hoje a cidadania, irmanada à sociedade científica,
chama para si a responsabilidade de construir novos paradigmas de formação
profissional de nível universitário, aliás, já em pleno desenvolvimento Brasil
adentro.
Contexto local e regional
De um lado, o compasso de espera em que Corumbá se
encontra nos últimos anos, em decorrência de tentativas frustradas de modelos
de desenvolvimento já esgotados pelo, digamos, mercado. Na verdade, pelo
próprio sistema capitalista, que há décadas recorre ao setor financeiro como
principal agente propulsor da economia, em detrimento do setor produtivo rural
e urbano, cujo processo de industrialização sofreu interrupção por um conjunto
de fatores que não cabem discuti-los neste texto. O fato é que o indiscutível e
extraordinário entreposto comercial continental representado por Corumbá e todo
o seu potencial econômico têm sido relegados a enésimo plano na ordem econômica
regional.
Por outro lado, as mudanças climáticas têm
sacrificado não só a rica e diversa fauna e flora, em sua grande maioria ainda
sem a devida catalogação e estudo pela ciência, como a população humana, seja
originária, tradicional e temporária. Apesar da modernização, por conta dos
recursos tecnológicos, da produção agropecuária e, ainda que tímida, da
agricultura familiar, os efeitos devastadores das tragédias ambientais -- como
os incêndios avassaladores em extensas áreas do Pantanal e os flagelos como
secas prolongadas e, em outras vezes, assoreamentos perversos -- requerem
estudos contínuos e arrojados, óbvia e logicamente, dentro do tempo requerido
pela ciência moderna.
Mas estas pesquisas têm que ser, também,
realizadas pelos pesquisadores dentro da região do Pantanal, sob pena de as
instituições situadas na região perderem a razão de ser. Que a ciência não tem
fronteiras, é óbvio, mas também é uma urgência que as instituições existentes
no coração do Pantanal desenvolvam pesquisas contínuas, em parceria com as suas
congêneres que já vêm desenvolvendo, isso é uma necessidade real e inadiável,
até para a formação de pesquisadores locais. É uma das razões da criação da
Universidade Federal do Pantanal, no legado das instituições antecessoras, como
a UFMS e a UEMT, mas no contexto do século XXI, inovadora e inclusiva.
Investir na ciência, tecnologia e inovação no coração
do Pantanal e da América do Sul é preparar, com excelência e qualificação, as
próximas gerações. Quanto talento, quanto cérebro vem sendo ‘exportado’ pela
falta de condições materiais para que se desenvolvam aqui, com igual nível, e
possam retribuir à sua própria região todo o conhecimento desenvolvido. A
evasão da juventude, das novas gerações, é prova eloquente desse triste e
criminoso processo de ‘cegueira’ institucional que perdura há anos. Mais que
aventuras em megaprojetos que representam desperdício sem qualquer retorno para
a sociedade local, o investimento na formação qualificada de nossos cérebros,
de nossa juventude, é uma urgência, uma questão de resgate e reparação humana.
Reconhecimento histórico
Consta do livro de
memórias do ex-reitor João Pereira da Rosa, da UEMT e da UFMS, que em plena
comemoração do centenário da Retomada de Corumbá, em 13 de junho de 1967, o à
época governador Pedro Pedrossian, eleito pela oposição ao regime de 1964,
saudou solenemente com o anúncio da criação da Faculdade de Pedagogia em
agradecimento à população do bastião do trabalhismo, cujo eleitorado votara em
1965 massivamente nele e derrotara o candidato da situação, Lúdio Coelho.
Além do mais tarde -- na
verdade, cinco meses depois -- denominado Instituto Superior de Pedagogia de
Corumbá, mediante decreto, como explicou o então deputado José Ferreira de
Freitas, primeiro diretor da Escola Estadual Rural Alexandre de Castro (depois
Cidade Dom Bosco), amigo pessoal do Padre Ernesto Saksida, Pedrossian anunciara
outras obras para Corumbá: construção de nova adutora e nova estação de
tratamento de água para a cidade; aquisição de nova termelétrica a diesel para
o fornecimento de eletricidade, que até então somente funcionava até as 22
horas, e o início das obras da futura estrada de rodagem Transpantaneira, que
atravessaria o Pantanal rumo à capital, Cuiabá.
O Professor José de
Freitas, eleito para a Assembleia Legislativa pela situacionista Aliança
Renovadora Nacional (Arena) com o decisivo apoio do criador da Cidade Dom Bosco
em 1966, era o líder do governo Pedrossian e como representante governista da
população (o outro deputado era o oposicionista Rômulo do Amaral, do MDB), principal
beneficiada com a implantação do ensino universitário em Corumbá, coube a ele articular
e viabilizar a faculdade reivindicada pelo médico e Professor Salomão Baruki,
que antes de 1964 tinha sido vereador do PSD e presidente da Câmara Municipal.
A toque de caixa, mas
observadas todas as exigências legais, a tramitação do projeto de criação dos
cursos universitários em Corumbá foi possível graças à colaboração de pessoas
generosas que emprestaram seus conhecimentos e sua reputação para a conformação
de uma comissão organizadora, depois transformada em colegiado diretor do ISPC
(Instituto Superior de Pedagogia de Corumbá), tendo sido escolhido como
primeiro diretor o médico e Professor Salomão Baruki, mais tarde vice-reitor,
reitor interino e secretário de Estado de Educação no governo derradeiro de
Mato Grosso uno.
Entraram para a história
os nomes dos médicos Lécio Gomes de Souza (também general e historiador), Cleto
Leite de Barros (responsável pela implantação do SAMDU -- Serviço de
Assistência Médica de Urgência -- em Corumbá quando era ministro da Saúde
Wilson Fadul, do presidente deposto João Goulart) e Salomão Baruki (médico
radiologista, professor e fundador de uma série de entidades e órgãos de
imprensa -- entre eles o Museu Regional do Pantanal, ao lado do advogado e
benfeitor Gabriel Vandoni de Barros, e o jornal vespertino Folha da
Tarde, ao lado do Padre
Ernesto Saksida e do advogado e pecuarista José Feliciano Baptista Neto), da
Professora Edy Assis de Barros (licenciada e mestra em História, primeira
diretora do Centro Educacional Julia Gonçalves Passarinho, inaugurado em 1971)
e do engenheiro civil Pedro Luiz Ametlla (formado dez anos antes, em 1957, e
empresário da construção civil e executor de projetos para a prefeitura e
governo do estado), além dos suplentes, igualmente generosos e relevantes.
Em síntese, precisamos sair de nossa ‘zona de
conforto’ e arregaçar as mangas em favor de um projeto generoso, próspero e
perene, como é o de investir no ser humano, na formação humanista e ética, até
para não correr o risco de entregar as próximas gerações aos espertalhões que
se vangloriam por auferir milhões por vias tortuosas e nada éticas. Como os
educadores que nos antecederam já o disseram inúmeras vezes, basta de deixar
para depois, de procrastinar, o porvir de nossos jovens e o progresso pleno de
nossa gente se tudo que temos a fazer é nos darmos as mãos e lutarmos por algo
que, no mínimo, dá oportunidades, gera empregos qualificados e, sobretudo,
fortalece os valores civilizatórios num tempo em que a ignorância e a
desfaçatez são atributos preconizados pelos tiranos.
Ahmad Schabib Hany