quinta-feira, 13 de julho de 2023

FOME, DE COMIDA E DE PODER

Fome, de comida e de poder

O relatório bienal da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) constata o retrocesso do Brasil sob o desgoverno dos ‘patrioteiros’: mais de 21 milhões de brasileiros passavam fome entre 2022 e 2023, isto é, mais de 5 milhões que no período anterior (2020 a 2021).

Uma vergonha para o país que é dos maiores produtores e exportadores de alimentos no mundo.

De um lado, fome de comida: mais de 21 milhões de brasileiros, como revelou o mais recente relatório da Organização das Nações unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Do outro, fome de poder: as elites saudosas do tempo da casa grande e da senzala, do tempo em que resolviam tudo por suas leis, sem a existência de direitos individuais, sociais, coletivos, trabalhistas e difusos (as diferentes gerações, ou dimensões, dos direitos humanos, consignados de modo didático na Constituição de 1988), e que para se locupletar em 2016 recorreram a toda sorte de ‘aliados’, por sinal, muito parecidos: milícias, grileiros, garimpeiros, madeireiros, sonegadores, contrabandistas, traficantes, quadrilheiros, falsos religiosos (atrás do ‘oro, oro, oro’) e políticos corruptos de toda estirpe.

Depois de ter saído do mapa da fome em 2008, o Brasil voltou a registrar mais de dois por cento da população abaixo da linha da pobreza a partir de 2016, quando os golpistas caem de paraquedas, sob a batuta do ‘brimo’ Temer, Romero Jucá, Aéreo Never e Eduardo Cunha, e com a maior cara deslavada desmontam todas as conquistas sociais e econômicas implantadas a partir da implementação da Constituição Federal de 1988, mais exatamente nos governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Ninguém precisa morrer de amores por Dilma, Lula, Fernando Henrique e Itamar, mas é inegável que sua -- de todo(a)s ele(a)s -- formação democrática, forjada na luta contra o regime de 1964, foi determinante para ir construindo o Estado Democrático de Direito com todas as políticas sanitárias, socioassistenciais, educacionais, culturais, habitacionais e econômicas paulatinamente implantadas desde 1993 e até abril de 2016.

Porque com o ‘brimo’ Temer e o inominável (agora inelegível) tudo isso foi desmontado, num retrocesso nunca antes visto em qualquer democracia. Antes de 2018 os sinistros de Temer já se empenhavam em ‘flexibilizar’ as políticas de Educação, Saúde, Assistência Social, Cultura, Habitação, Saneamento e Soberania Nacional, Energética e Tecnológica.

Ao lado de Henrique Meirelles (que com Lula tinha sido um grande presidente do Banco Central, mas que capitulou perante o desavergonhado ‘batrício’, da terra-natal de meus saudosos Pai e Avô materno, o Líbano), do presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República Sérgio Etchegoyen e do comandante do Exército Augusto Heleno, em nome de um patriotismo do tempo de Sylvio Frota, o ministro do Exército demitido sumariamente pelo presidente Ernesto Geisel por atentar contra o processo de redemocratização articulado pelo general Golbery do Couto e Silva em seu governo.

Foi esse patriotismo exacerbado e nada racional que levou o inominável açambarcar os destinos de uma população com mais de 200 milhões de habitantes deste país-continente, e deu no que deu: no lugar de políticas sociais e sanitárias, promoveu a flexibilização da venda de armas e munições, inclusive de uso restrito das forças de segurança; ao invés de valorizar a equipe técnica do IBAMA, ICMBio e INPE, desmontou o sistema de vigilância e controle ambiental que potencializou a ação de organizações criminosas em todos os biomas existentes no país, sobretudo na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado; em vez de fortalecer o SUS (Saúde), o SUAS (Assistência Social), o SUSP (Segurança Pública) e a rede de proteção infanto-juvenil, feminina, das populações em situação de vulnerabilidade social, disseminou o ódio contra indígenas, afrodescendentes, quilombolas, ribeirinhos, as mulheres, casais homoafetivos, populações lgbtqia+ e nordestinos.

Sabem aquele adágio popular, de que “vergonha é roubar e não conseguir carregar”?

Foi o que esses arremedos de ‘democretinos’ fizeram: forjaram factoides por meio da ‘Leva Jeito’ da dupla Marreco (de Maringá) e Urinol e as famiglias (que se fingem de éticas agora que a máscara da quadrilha caiu) da meia dúzia de oligopólios midiáticos que sugam as verbas públicas e desinformam as pessoas de boa-fé. E aí, zap!, a corja de ‘patrioteiros’ fascistas não perdeu tempo e usurpou bem ao seu estilo, mancomunada aos milicianos, grileiros, madeireiros, garimpeiros, sonegadores, traficantes, contrabandistas, jagunços, falsos religiosos, falsos patriotas e falsos democratas, que na calada da noite saem por aí delinquir, prevaricar, procrastinar, fornicar e ‘otras cositas más’...

Mas por quê? Ele(a)s, afinal, não são ‘patriotas’? Não são, como se declaram, ‘cristãos’? É que há diversas formas de serem patriotas, diversas formas de serem cristãos...

No caso dos fascistas, partem de princípio bem narcisista, de que só o(a)s ‘capazes’, como ele(a)s, são merecedore(a)s do bem-estar proporcionado por aquilo que ele(a)s entendem ser um ‘mérito’, uma ‘conquista’. Dessa forma, a fome, a miséria e as vulnerabilidades são decorrência de sua ‘incapacidade’, ou da ‘fatalidade’, de ‘seres inferiores’.

Da mesma forma com os plutocratas (com ‘l’, por favor!). Fazem questão de não conceber que o Estado de Direito seja democrático e seja provedor dos mínimos sociais, coisa que a Europa e os Estados Unidos (cuja sociedade é modelo para si) resolveram isso no início do século XX, logo depois do crash de 1929 da Bolsa de Valores de Nova York, quando o economista John Maynard Keynes desenvolveu a política do Estado de bem-estar social para atender às populações desamparadas decorrentes desse processo propriamente capitalista, a volatilidade do mercado.

Em poucas palavras, pois os fatos falam por si: o descalabro em que nos encontramos não é fruto do acaso ou da própria incompetência do ‘brimo’ Temer e do inominável (e agora inelegível). É resultado da forma como compreendem a administração pública, a gestão do Estado, na ótica do ‘Estado mínimo’, como Ronald Reagan, o ator canastrão que depois de ser dedo-duro no macarthismo (foi ele que fez com que Charles Chaplin fosse expulso para a Inglaterra, acusado de comunista durante a guerra fria) virou presidente dos Estados Unidos, e a ‘dama de ferro’ Margareth Thatcher, primeira-ministra da Inglaterra, em fins da década de 1980, decidiram como seria a ‘globalização’, naquilo em que eles definiram como a doutrina do Consenso de Washington.

Por trás, obviamente, Jeffrey Sachs (não confundir com Ignacy Sachs, grande pensador, junto com o longevo e lúcido Noam Chomsky; Jeffrey é um economista do ‘Chicago boi’s’ que ganhou fama ao formular a transição do socialismo para o capitalismo na Polônia de Lech Walesa e que terminou numa crise econômica popular sem precedentes na história), um dos mestres do ‘posto Ipiranga’ do inominável, Paulo Guedes. Estiveram também no Chile do ditador sanguinário Augusto Pinochet, na Bolívia claudicante de Gonzalo Sánchez de Lozada (antes da Guerra da Água, que fez com que renunciassem, paulatinamente, Gony e Carlos Mesa, levando Evo Morales e depois Luis Arce e o MAS ao governo) e na Argentina paupérrima de outro ‘brimo’, Carlos Saúl Menem, de tristes memórias.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 4 de julho de 2023

AOS 27 ANOS DE SAUDADE DO INCANSÁVEL PEREGRINO

Aos 27 anos de saudade do incansável Peregrino

Neste 4 de julho transcorrem 27 anos da eternização do incansável Peregrino que a Vida nos presenteou como Pai. Em homenagem à sua memória, posto novamente este texto, publicado no centenário de seu nascimento.

Postagem original: <https://schabibhany.blogspot.com/2014/10/aos-cem-anos-do-incansavel-peregrino.html>.

AOS CEM ANOS DO INCANSÁVEL PEREGRINO

 

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AOS CEM ANOS DO INCANSÁVEL PEREGRINO

 MAHOMA HOSSEN SCHABIB (1º/10/1914 – 04/07/1996)

 

Se estivesse vivo, o Peregrino que a Vida generosamente nos presenteou como Pai estaria completando 100 anos nesta quarta-feira, dia 1º de outubro de 2014.

Nascido no dia em que eclodira a Primeira Guerra Mundial na bucólica e formosa Rasen-Hache (província de Batroun), no Líbano, o incansável Peregrino chamado Mahoma Hossen Schabib ficara órfão de Mãe, dona Maquie Madi, aos 5 anos de vida. O Pai, Hussein Schabib, não quisera que os sete filhos (quatro meninas e três meninos) tivessem madrasta. Como caçula, coube às irmãs, bem mais velhas, cuidar dele. Por influência do primo mais velho, matemático e poeta Scandar Shalak, alfabetizara-se precocemente, e logo fora para o internato na distante Damasco (capital da Síria), onde concluíra com destaque os níveis fundamental e médio.

Ele contava, emocionado, que tivera o privilégio de ver a comoção popular quando da chegada do corpo do imortal poeta libanês Gibran Khalil Gibran (autor de “O Profeta”, entre outras obras) a Damasco para as homenagens póstumas na Síria e Líbano, quando professores participaram como oradores das celebrações ecumênicas. Igualmente, narrava com indisfarçável indignação sobre a repressão, pelos gendarmes franceses, ao movimento juvenil sírio contrário à opressão colonialista em meados da década de 1920, em que milhares de intelectuais e universitários foram torturados e mortos sem piedade, logo por aqueles que se diziam agentes da civilização e do progresso ao substituir o igualmente obscurantista e opressor império turco-otomano, de triste memória.

Obstinado, não sossegara enquanto não transpusesse as fronteiras políticas da Arábia, dividida à época pelos impérios britânico e francês (Líbano e Síria, colônias francesas; Palestina e Egito, colônias britânicas). Para tanto, passou-se por beduíno e atravessou todo o território da Palestina (ainda livre da ocupação sionista), pela fronteira do sul do Líbano e chegar, por Gaza, ao Cairo, no Egito, para cursar Filosofia na milenar Universidade Al-Azhar – fechada em 1954, início do governo de Gamal Abdel Nasser, por causa de seus arqui-inimigos da Irmandade Islâmica, contrária ao Estado laico implantado pelo maior estadista árabe dos últimos cinco séculos. Mas ele (meu Pai) não pôde concluir o curso universitário por causa da eclosão da Segunda Guerra Mundial: o Egito era colônia da Grã-Bretanha e o ardil colonialista obrigava os jovens mais instruídos ao alistamento militar – uma acintosa forma de eliminar a juventude inquieta porque esclarecida, feito bucha de canhão.

Mesmo a contragosto, acabou interrompendo os estudos no final do curso (1939), aceitando o conselho de seu irmão mais velho, Ale Hossen Schabib (que, naturalizado boliviano, virou Alejandro Hossen, pois, como em todo país hispânico, o primeiro sobrenome é o que conta). Esse irmão havia emigrado para a América no fim da Primeira Guerra Mundial e, depois de incursionar pela Amazônia brasileira, decidira estabelecer-se na Bolívia, de onde custeava os estudos do irmão caçula, além de ajudar a família com o que fosse possível naquele período de miséria e tragédias no Hemisfério Norte. A sua esperança – e consolo – era que a guerra não levasse muito tempo e que ele não demorasse a retornar ao Cairo para concluir seus estudos e seguir seu projeto de vida no Oriente Médio.

 

OUTRA CULTURA, NOVOS DESAFIOS

Mas não foi bem assim. Para começar, foi uma verdadeira epopeia chegar até a América do Sul, atravessando dois oceanos num barco de cruzeiro da companhia italiana de navegação Costa, o “Ana C”. Aportou em Arica, no Chile, após a travessia do Canal do Panamá com as suas comportas deslumbrantes. Em seguida, voou literalmente sobre a Cordilheira dos Andes até chegar a La Paz, a mais de três mil metros de altura, e seguir em outro voo até a capital do departamento de Beni, Trinidad, na Amazônia boliviana, para finalmente conhecer o irmão mais velho com quem só se relacionara até então por cartas – afinal, ele partira quando meu Pai era de colo. Adaptar-se à vida de mascate num país de cultura totalmente diferente da sua foi outra proeza. Com a ajuda do irmão que era como Pai, procurou estabelecer-se num povoado menor, Magdalena, para capitalizar-se e logo ganhar autonomia financeira. Mas as adversidades (entre elas, o naufrágio de seu batelão carregado de mercadorias) o fizeram descapitalizar-se e quase lhe custaram a própria vida, em 1940, que ele passara a grafar como “0000” (quatro zeros), pois os prejuízos o fizeram voltar à estaca zero.

Perseverante, em cinco anos – praticamente o período da sangrenta guerra que acabou com a inocência da humanidade –, entre a disciplina nos estudos (não abandonara o hábito de estudar, nem quando atingiu a terceira idade, lendo sistematicamente no mínimo quatro horas diárias) e no trabalho, aprendeu a arte do comércio e dois novos idiomas (espanhol e inglês), e logo era detentor de um capital monetário respeitável. Por essa razão, o irmão que fazia as vezes de Pai o aconselhara a ir se preparando para casar-se. Coincidência ou não, nessas incursões como mascate havia conhecido um dentista muito popular, de nacionalidade libanesa, o assim chamado doutor José (Yussef) Al Hany, Pai de dez filhos (seis meninas e quatro meninos) com uma única companheira, a jovem senhora Guadalupe Ascimani de Hany, afável, culta e hospitaleira.

O doutor Hany, druso (ou derzi, religião espiritualista oriental); a dona Guadalupe, católica, de Pai maronita (variação libanesa de catolicismo cujo sacerdote pode se casar). Meu Pai, muçulmano. Como os árabes, a exemplo dos brasileiros, vivem e celebram a diversidade, não demorou muito para que a mais velha das filhas, a bela Wadia Hany Ascimani, decorrido algum tempo, viesse a contrair núpcias com o jovem imigrante. Não é demais dizer que naquela época, entre os árabes, não era tão acirrada a intolerância religiosa de hoje, alimentada pelas potências ocidentais dentro da ignóbil lógica do “dividir para reinar”, iniciada com a imposição do Estado sionista no território da Palestina em 1948, como perniciosa reparação dos danos causados pelos europeus nazistas em território europeu, e que nada têm a ver com os árabes, estes também vítimas dos abusos colonialistas até a presente data.

Casaram-se em abril de 1948 (ironicamente três semanas antes da formalização, pelas potências mundiais, do Estado de Israel), uma relação conjugal que durou 48 anos e dois meses (meus Pais já planejavam comemorar suas bodas de ouro, quando uma parada cardíaca interrompeu, em 1996, seus projetos comuns de Vida). Mas essas quase cinco décadas, como em tudo na Vida, não foram um mar de rosas, pois tiveram altos e baixos. Os primeiros cinco anos de vida conjugal, sim, por conta da estabilidade econômica então reinante na Bolívia, foram tranquilos: minha Mãe aprendeu logo as habilidades comerciais, tendo se tornado referência nos negócios crescentes da família. Deixaram a Amazônia depois do nascimento da segunda filha, indo residir na chamada cidade-jardim boliviana, Cochabamba, localizada num formoso vale da Cordilheira dos Andes e com excelente qualidade de vida, cultura e cosmopolitismo.

 

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VOLTA ÀS ATIVIDADES INTELECTUAIS

Nesse importante centro cultural boliviano, até por conta da estabilidade da economia familiar, meu Pai decidiu retomar os estudos na Bolívia, e não demorou muito para que exercesse com maestria o jornalismo, além de conduzir um programa radiofônico sobre a cultura árabe e as relações com a América Latina. (Era um período de efervescência política em todo o mundo: além da consolidação do socialismo como alternativa real para todos os povos vítimas do saque e da exploração de suas riquezas naturais e de sua gente, na Bolívia viviam-se as transformações decorrentes do triunfo da Revolução de 1952 boliviana, e na Arábia espalhavam-se os ideais de Nasser, um dos jovens líderes da Revolução de 1952 egípcia, que acabou com o jugo pró-inglês do rei Faruk no Egito e mudou os rumos do povo árabe disperso em 22 Estados divididos pelo Ocidente e das nações do Terceiro Mundo no século XX, ao fundar, com Broz Tito, Jawaharlal Nehru e Chu En-Lai, o Movimento dos Países Não Alinhados.) Talvez a excessiva visibilidade tivesse exposto muito meu Pai diante de adversários poderosos, até então desconhecidos, que se valeram da crise sociopolítica e econômica na Bolívia para desencadear contra ele uma série de ações judiciais e fragilizá-lo comercial e economicamente. Em meio a uma avalanche inflacionária de mais de nove mil por cento ao ano, no início da década de 1960, meus Pais decidiram vender todo o seu patrimônio, construído com muito esforço ao longo de três décadas, a fim de reunir o máximo possível para adquirir as passagens para dez pessoas (dois adultos e oito crianças) de trem e navio a fim de retornar ao Líbano, onde nasceu a caçula dos filhos e permanecemos por quase quatro anos. Nesse meio-tempo, meu Pai cobriu para a Rádio Cairo em espanhol, uma revista árabe-chilena chamada “Mundo Árabe” e uma edição em espanhol da revista brasileira “O Cruzeiro” a luta pela independência das nações árabes do norte da África (Argélia, Líbia e sobretudo o Egito, que passara a se denominar República Árabe Unida, um Estado confederado com a Síria e o Iraque, mas que não durou muito por conta das investidas ocidentais e de seus fantoches dos reinos, emirados e sultanatos árabes, temerosos de que a experiência socialista de Nasser no Egito irradiasse para os demais países do Oriente Médio).

Como o jornalismo não lhe proporcionara o suficiente para o sustento de uma família de onze pessoas (nove delas crianças e adolescentes), meu Pai lançara mão de suas últimas economias para tentar se estabelecer com um restaurante na segunda maior cidade libanesa, Trípoli (capital da província de Batroun), em sociedade com um primo que já fora seu sócio na fronteira da Bolívia com o Brasil (Guajará Mirim, Rondônia), Hussein Khalil Schabib. Entre as atividades comerciais e a agricultura (nas terras herdadas do Pai), tentou se recuperar financeiramente, mas decidiu por retornar para a América do Sul, pois o clima político no Líbano não lhe inspirava bons augúrios. Ele pressentira, pela insustentabilidade do cotidiano do cidadão comum libanês, a revolta das camadas populares contra as oligarquias libanesas, fato que eclodiu em 1974 com a trágica guerra civil que durou duas décadas, dizimou e empobreceu a população e destruiu a infraestrutura do país após a invasão de tropas israelenses e americanas, no início da década de 1980, provocando uma série de massacres nunca antes vistos no Líbano ou qualquer outra nação árabe, à exceção da Palestina e da Argélia em sua luta pela independência (depois, sim, vimos, em maior escala, a invasão do Iraque e da Líbia – e agora na Síria – pelos mesmos gendarmes e mercenários de Israel e Estados Unidos, em pleno século XXI). 

 

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A ESCOLHA DE CORUMBÁ

Nos quase 25 anos que vivera na Bolívia, inúmeras vezes viajara de avião ou trem pela região do Pantanal, tendo ficado em Corumbá por breves estadas, sobretudo depois que fixara residência em Cochabamba. Rumo a São Paulo, de onde comprava muitos itens para abastecer seu comércio atacadista, havia se encantado com o desenvolvimento desta região, que, depois da inauguração da ferrovia Corumbá – Santa Cruz de la Sierra, passou a compará-la à região de Milão pelo tronco ferroviário e a importância desse transporte para a integração do continente. Por isso, quando se decidiu por retornar para a América do Sul, sua escolha recaiu sobre Corumbá, de modo que os três filhos mais velhos (que estavam por chegar à universidade) ficassem na casa da Vovó Guadalupe e os demais não tão distantes do país que o acolhera na juventude e, a despeito das adversidades, lhe ensinara muito. Ele era muito grato ao povo boliviano por tudo que lhe ocorreu na Vida. Obviamente, como todo imigrante, amava todos os países que o acolheram. E sua relação com o Brasil foi como o coroar de seus sonhos e lutas, até pelo fato de haver feito a escolha em plena maturidade. Assim, quando se estabeleceu com um modesto comércio de armarinhos, à rua Joaquim Murtinho, plena Feira Boliviana (a poucas quadras da estação ferroviária da Red Oriental da Bolívia, à época separada por uma centena de metros da ferroviária da Noroeste), semanas antes do golpe militar de 1964, iniciava uma nova fase em sua renhida existência de Peregrino incansável.

Seis meses mais tarde, início da primavera de 1964, meu Pai deu início a seu projeto de trabalho (e de Vida) no coração do Pantanal e da América do Sul (era assim como ele via Corumbá, centro do bioma e do subcontinente): abrir uma sorveteria (com a solidária assessoria de um Amigo libanês, Fauze Rachid e sua esposa boliviana Pura Ceballos de Rachid, proprietários da popular Sorveteria Superbom, e que anos depois se mudaram para Puerto Suárez) e construir uma hospedaria (pousada) com menos de uma dezena de quartos, que em pouco mais de cinco anos se transformara em referência para comerciantes bolivianos e jovens turistas de todo o mundo por causa da higiene, segurança e atenção de seu proprietário poliglota e bem informado (como recomendavam os guias pioneiros que descobriram a rota dos Incas e os safáris fotográficos do Pantanal, sem qualquer incentivo das instâncias de governo federal, estadual e municipal de todos os países sul-americanos, que viam os mochileiros barbudos como suspeitos, quer fosse como “subversivos” ou como “maconheiros”), depois de ter conseguido comprar, com o pouco que lhe restava da venda de seus bens do Líbano, uma casa modesta de um simpático casal de idosos (o senhor Afonso, português, e dona Paulina, corumbaense, irmã de uma vizinha que logo ganhou status de vovó, a dona Ventura, muito cordial e sempre presente nos primeiros anos da chegada de toda a Família).

Foi com essa modesta pousada que, por quase trinta anos, assegurou o sustento digno de uma numerosa família de nove filhos, tendo como meta dar-lhes formação universitária. Quando um amigo bem próximo lhe propôs um empréstimo para ampliar as instalações da pousada, diante do movimento e do reconhecimento de seus serviços, ele revelou que não pretendia ser dono de rede de pousadas ou fazendas, mas pai realizado por ver todos os seus filhos a concluir os seus estudos, independentemente da profissão escolhida. Obviamente que a perda do filho mais velho (ocorrida em circunstâncias não elucidadas pela polícia em 1974, que me induziu a declarar, aos 15 anos, que fora por suicídio, fato questionado por seus colegas universitários e sobretudo por um investigador de uma seguradora que por coincidência se hospedara dois meses depois da tragédia), Mohamed (ou carinhosamente “Tchítchi”), o abatera profundamente: ainda que não abandonara as metas que traçara para sua Vida, com a maior dignidade e responsabilidade, não era difícil pegá-lo lacrimejando ao ler ou conversar com jovens que lembrassem o espírito arrojado do saudoso filho.

A propósito dessa tragédia, houve quem propusesse que denunciássemos o governo do mais sanguinário, corrupto e mercenário dos ditadores bolivianos, Hugo Banzer Suárez, pela morte de nosso irmão, cuja memória foi criminosamente vilipendiada pela chefia da polícia local nos tempos nefastos da ditadura. Lembro-me como hoje que, acompanhado de dois queridos Amigos (Juvenal Ávila de Oliveira, então radialista, e João de Souza Álvarez, fotógrafo à época da tragédia), visitamos quase todas as redações de jornais locais que haviam estampado a manchete sensacionalista do tipo “estudante (sic) universitário se fuzila sem deixar carta” (coisa típica de crônica policial chapa-branca, espreme-sai-sangue) a fim de esclarecer os fatos e pedir que republicassem a matéria dando-nos o direito de mostrar o outro lado dessa notícia. Alguns, obviamente, nem se deram a esse trabalho. Mas o velho Diário de Corumbá, então dirigido pelo jornalista Carlos Paulo Pereira Júnior, corrigiu a notícia com o devido destaque. O Pai dele, fundador do jornal em 1969, jornalista Carlos Paulo Pereira, tinha uma relação de amizade com o meu Pai, que desde as primeiras edições colaborava com matérias de política internacional. Por conta desse gesto, a partir de então meu Pai passou a assinar também matérias de fundo espiritual, não doutrinário, em que homenageava de alguma forma meu saudoso Irmão. Talvez o artigo dele que mais tenha repercutido na década de 1970 tenha sido “De onde viemos, para onde vamos e por quê?”, o qual foi publicado em dois idiomas em diversos jornais do Brasil e da Bolívia.

 

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A MILÃO SUL-AMERICANA

Ainda na década de 1970, por ocasião do bicentenário da fundação de Corumbá, publicou outro emblemático artigo, desta vez voltado para as perspectivas de desenvolvimento da região do Pantanal, quando explicou por que o turismo, ao lado do comércio, eram a vocação natural de Corumbá – tendo então comparado a posição estratégica do coração do Pantanal a Milão, na Itália. Essa matéria foi levada por um turista para publicá-la num jornal espanhol e em outro italiano. Desde então, quando calhava de se hospedar algum jornalista em sua pousada, meu Pai fazia questão de entregar alguns artigos de sua autoria, autorizando-o a publicar como quisesse, ainda que sequer publicasse a autoria. Ele foi um defensor declarado de que as ideias não têm “dono”, e é um dever fazê-las circular, em benefício da humanidade.

Mas foi ao lado de outros dois imigrantes como ele – William “Bill” Sefusatti, o ítalo-britânico dono dos barcos Califórnia, e Hermann Pettersen, alemão casado com Dona Maria, cuiabana, dono do Restaurante El Pacu, ambos localizados no Casario do Porto – que anonimamente deu sua contribuição para a consolidação do turismo contemplativo no Pantanal entre os fins da década de 1970 e início da década de 1990, quando alguns guias pioneiros brasileiros também passaram a integrar a atividade, tais como Clóvis Brandão Carneiro, Rodrigues, Guilherme Carstens, Armando Duprat, Roberto Kassar, Joaquim, Catu, Gilberto, José Bobadilha, José Paraguaio, Johnny Índio, entre outros. De forma bem profissional, ao lado da pioneira La Barca Tours, da família Nader, o também pioneiro J. Carneiro e seu Expresso do Pantanal consolidaram de forma sustentável o turismo voltado para as famílias que vinham conhecer o bioma pantaneiro pelo majestoso Rio Paraguai.

No início da década de 1990, frustrado com a sucessão de equívocos cometidos pelos gestores do turismo em nível estadual e municipal, que em troca de favores eleitoreiros, permitiam que os chamados guias piratas prostituíssem a atividade em Corumbá, iniciou uma série de artigos sobre a importância do turismo e fazendo explícitas advertências às instâncias administrativas. Recebia telefonemas de cumprimentos “pela coragem”, mas as sugestões reiteradas para a organização da atividade na região jamais viu serem implementadas. Tanto assim, em maio de 1994 encerrou as atividades de sua modesta pousada, depois de trinta anos de trabalho ininterrupto, em protesto contra a pirataria que então tomava conta do turismo.

Para não se deprimir, fez sucessivas viagens com a minha Mãe – ao México, onde mora um de meus irmãos e suas filhas; ao Líbano, onde deixou praticamente toda a Família, e à Bolívia, onde visitou a Família e amigos contemporâneos seus, ainda saudáveis – e, quando se preparava para organizar sua “segunda lua-de-mel”, para comemorar suas bodas de ouro, faleceu subitamente, ao meio-dia de uma quinta-feira, 4 de julho de 1996, aos 82 anos incompletos.

Minha Mãe, dona Wadia, viveu mais treze anos, tendo resistido estoicamente a um câncer virulento que a silenciou sem lhe tirar o gosto pela Vida, em menos de seis meses. Internada num hospital de Campo Grande, ela deu seu último suspiro no início da manhã de uma segunda-feira, dia 15 de junho de 2009, aos 83 anos de idade. Eles tiveram nove filhos (seis mulheres e três homens) e um legado de trabalho e muita dignidade, um exemplo para todos nós que nos orgulhamos de sermos filhos seus.

Ahmad Schabib Hany
1º de outubro de 2014

SEPÚLVEDA PERTENCE, BRILHANTISMO E COERÊNCIA

Sepúlveda Pertence, brilhantismo e coerência

Discreto como viveu, o Ministro Sepúlveda Pertence se eterniza num momento crucial, em que seu brilhantismo, sua coerência e sua lealdade aos princípios da Democracia e do Estado de Direito têm urgência inegociável.

José Paulo Sepúlveda Pertence. Brasileiro de uma dimensão gigantesca, desde a juventude viveu para o Direito, e tão logo se formou foi aprovado no concurso público de Promotor de Justiça do Distrito Federal. No entanto, sua lealdade aos princípios do Estado de Direito o levou a ser alvo da ira fascista dos mandarins de plantão, no auge da sanha canhestra de autoproclamados ‘patriotas’, depois desmascarados pela História como peçonhentos e serviçais de interesses inconfessáveis.

Sepúlveda Pertence é da geração de bravos brasileiros. Quando saiu de sua pacata Sabará, Minas Gerais, para melhorar o mundo, destacou-se com brilhantismo durante o curso de Direito na UFMG, não tendo aberto mão de sua atuação no movimento estudantil, de cuja direção nacional fez parte, como vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em seu período mais fecundo, época dos Centros Populares de Cultura (CPC). Tão logo a capital foi transferida para o Planalto Central, lá estava ele atuando ora como operador de Direito, ora como auxiliar docente da recém-criada UnB (Universidade de Brasília), tendo assumido a cadeira do renomado constitucionalista Hermes Lima, sob a direção do igualmente grande brasileiro Waldir Pires (candidato a Vice-presidente da República ao lado do Doutor Ulysses Guimarães em 1989).

Durante dois anos, quando exercia cargo no Ministério Público do Distrito Federal, foi chamado pelo célebre jurista Evandro Lins e Silva para ser seu secretário jurídico em seu gabinete no Supremo Tribunal Federal. Com o fechamento do STF e do Congresso Nacional na imposição violenta do Ato Institucional nº 5, teve cassado o cargo no Ministério Público, tendo-se dedicado à advocacia e à luta pela redemocratização do país. Foi vice-presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) nos emblemáticos mandatos de Raymundo Faoro (1977-1979) e de Eduardo Seabra Fagundes (1979-1981), ápice da luta pelas liberdades democráticas: anistia ampla, geral e irrestrita; assembleia nacional constituinte, e eleições diretas em todos os níveis.

Em 1985 foi indicado por Tancredo Neves para assumir a Procuradoria Geral da República, cargo que exerceu com rigoroso espírito republicano. Nessa condição, contribuiu com os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, como membro da Comissão Afonso Arinos, no âmbito do Poder Judiciário e do Ministério Público, razão pela qual é reconhecido como o principal responsável pela independência da Procuradoria Geral da República (do MPF) na defesa da sociedade ante o Estado. Em 1989, José Sarney o indicou para o STF na vaga decorrente da aposentadoria do ministro Oscar Corrêa, cujo desempenho foi fundamental para a efetivação de direitos inovadores constantes da nova Carta Constitucional.

Sempre leal aos princípios republicanos e democráticos, Sepúlveda Pertence tem marcas indeléveis em sua passagem na presidência do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), neste último por dois mandatos. Embora discreto, deixou significativos aportes na gestão da corte constitucional do país. Eloquente prova dessa postura, sensível e inarredável aos parâmetros do Estado de Direito, Pertence não só recebeu cordial e pessoalmente o Cidadão (maiúscula) Joel de Carvalho Moreira em seu gabinete, em junho de 1999, como atendeu com acuidade republicana o então servidor sob risco de demissão do Judiciário de Mato Grosso do Sul (à época dirigente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário, SINDJUS/MS). Ele e a presidente da entidade sindical vinham sendo alvo de arbitrariedades por terem proposto ação popular contra o nepotismo no Tribunal de Justiça (TJ-MS).

Sem alardes e da maneira discreta que lhe era peculiar, própria de Advogado e Juiz (com letras maiúsculas) garantista, Pertence deu provimento às demandas do servidor do Judiciário. Assim, a hoje histórica (e divisor de águas) Reclamação 1725, ele considerou procedente, ficando impedidos os desembargadores do TJ-MS, nos termos do artigo 102, inciso I, alínea n da Constituição Federal. Ela estabelece que o STF julgue originariamente as ações em que mais da metade dos membros do tribunal local sejam impedidos ou diretamente interessados. Vinte e quatro anos desse encontro que assegurou seu direito de servidor e de cidadão, o querido Amigo e Conterrâneo Joel Moreira se despede do imortal Ministro Sepúlveda Pertence: “Inesquecível Ministro do Supremo, relator de todos os meus processos no STF. Graças ao Doutor Sepúlveda Pertence e ao Doutor Jorge Batista da Rocha, não fui demitido.”

Cidadão íntegro, brasileiro da estatura dos protagonistas maiores da Constituição Cidadã, Sepúlveda Pertence não se furtou, depois de aposentado do STF, a continuar seu aporte à Democracia, ao Estado de Direito: entre 2007 e 2010 foi presidente da Comissão de Ética da Presidência da República, quando o seu Amigo e Companheiro da década de 1960 Waldir Pires também se encontrava no Governo do Presidente Lula, ora na Controladoria Geral da União e ora no Ministério da Defesa. Coerente e leal a seus princípios, não hesitou em fazer a defesa junto à mais alta Corte de Justiça, ao lado do agora Ministro Zanin Martins, do ex-presidente Lula, durante a perseguição dos ‘farsistas’ (farsantes fascistas) da ‘Leva Jeito’.

Pessoalmente, nunca estive perto do Doutor Sepúlveda Pertence, mas desde os tempos dos saudosos Raymundo Faoro e Seabra Fagundes à frente da OAB (1977-1981), sendo Vice atuante, esse gigante do Direito e da Cidadania sempre despertou confiança e admiração. Sua firmeza, lealdade e discrição como Companheiro desses dois bravos que enfrentaram sob riscos à própria Vida durante a (mal)ditadura -- a ponto de Faoro ter sofrido ameaças de Sylvio Frota e Fagundes ter sido alvo de atentados, inclusive o que matou a secretária da sede nacional da OAB no Rio de Janeiro, Dona Lyda Monteiro -- são atributos raríssimos de poucos iluminados, que desde a eternidade levam e levarão a luz às novas gerações. Sepúlveda Pertence, presente!

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 30 de junho de 2023

ENTRE O TITANIC E O TITAN

Entre o Titanic e o Titan

Até parece coisa de tantãs: alguns homens poderosos gastam milhões (senão bilhões) de dólares para fazer turismo surreal nas profundezas do oceano ou no espaço sideral enquanto milhões (senão bilhões) de seres humanos travam luta sem fim sem saber se conseguirão sobreviver àquele dia.

Entre 1912 e 2023 não se passaram ‘apenas’ 111 anos, mas aconteceram inúmeros fatos, transformações indescritíveis -- além, obviamente, das que puderam ter sido registradas pela pretensa inteligência humana -- que mudaram os destinos da humanidade.

No alvorecer do século passado, quando da tragédia daquela que seria a mais eloquente prova da capacidade inventiva humana, o mundo despertava para significativas mudanças do cotidiano, mas também as maiores tragédias que abateram a humanidade causadas por iniciativas humanas.

Os primeiros veículos mais pesados que o ar, isto é, os aviões; as primeiras transmissões radiofônicas; os primeiros carros, caminhões, jardineiras, utilitários; os primeiros trens elétricos; as primeiras usinas hidrelétricas; os primeiros antibióticos, as primeiras vacinas para epidemias temidas, como poliomielite, sarampo, tétano, coqueluche e meningite; as primeiras geladeiras, rádio receptores, toca-discos, alto-falantes; os primeiros periódicos ilustrados, impressos em cores; as primeiras transmissões ao vivo em cadeia mundial; as primeiras fotografias com imagem reproduzida à distância pelo rádio ou por telefone (radiofoto ou telefoto); os primeiros discos as primeiras produções cinematográficas; os primeiros transplantes de coração, rins, córneas e outros órgãos humanos; os primeiros registros da história do processo de urbanização (aumento da população urbana e redução da população rural); os primeiros grandes eventos artísticos, esportivos e de celebrações; a Declaração dos Direitos Humanos da ONU; a Declaração dos Direitos da Criança; a Declaração dos Direitos da Mulher; a Declaração dos Direitos dos Povos Originários; a Carta da ONU contra o Racismo, Contra a Fome, a Agenda 21, a Carta da Terra e tratados sobre o clima e o meio ambiente,  etc.

O chamado ‘período entre guerras’ (de 1914 a 1945) teve como principal fator propulsor a crash, ou queda da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, que não poupou vítimas em todo o mundo. A debacle, ou desastre, teve um impacto tão grande quanto o naufrágio do Titanic: centenas de milhares de empresários de todos os tamanhos não resistiram e foram a pique, até porque os governos nacionais não conheciam mecanismos de mitigação para atenuar a repercussão contra a quebra do sistema financeiro internacional.

Nessa época, o mundo era constituído de diversos impérios coloniais -- britânico, francês, belga, japonês, russo e turco-otomano, estes dois últimos derrocados no final da Primeira Guerra Mundial --, e as revoluções Bolchevique, Indiana e Chinesa (que deram origem à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, República da Índia e República Popular da China, desde a primeira metade do século passado) começava a repercutir por todos os continentes, em especial nas lutas dos movimentos de emancipação nacional na Ásia (Síria, Iêmen, Palestina, Líbano, Iraque, Irã, Coreia e Indochina, sobretudo Vietnã e Camboja), África (África do Sul, Rodésia, Botsuana, Egito, Argélia, Líbia, Tunísia, Tanzânia, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola, Moçambique) e América (Cuba, Panamá, Porto Rico, Nicarágua, Costa Rica, Haiti, El Salvador, Argentina, Bolívia, Peru, Colômbia, Chile, Venezuela, Uruguai e Equador).

Ainda que timidamente, o Brasil deu sua contribuição nos anos 1920 a 1970, mas as ditaduras do estado novo e do regime de 1964, ambas de inspiração fascista, causaram retrocessos (como o experimentado entre 2016 e 2022). Além do reconhecimento de brasileiros como Luiz Carlos Prestes, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, os nomes de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva são vistos com muito respeito, ao lado de Paulo Freire, Oscar Niemayer, Josué de Castro, Milton Santos, Joel Rufino dos Santos, Darcy Ribeiro, Edson Arantes do Nascimento (Pelé), Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Wega Nery, Lígia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Cecília Meirelles, Florinda Bolkan, Maurício de Sousa etc.

Mas o pior é que no rastro da crise econômica nasceu a cultura do nacionalismo extremista e a intolerância perniciosa. Na Alemanha e na Itália, os dois Estados tardios a se constituir na Europa, o nazismo e o fascismo delirantes e perversos, são pivô de tragédias da primeira metade do século que deveria ser apenas de bem-estar para todos os habitantes do globo terrestre. Campos de extermínio, Estado policial, perseguições perversas com requintes de crueldade, ufanismo deslavado e delírios supremacistas, armas de destruição em massa teleguiadas. Nos Estados Unidos, a obsessão da minoria puritana branca por dominar o mundo, valendo-se de desertores nazistas, como Werner Von Braun e associados, e assim copiar a nefasta bomba atômica que os nazistas não tiveram coragem nem tempo para despejar sobre seus inimigos durante a guerra, mas os ‘democratas’ estadunidenses, sim.

Por certo, o que mais tenha marcado o século XX, também século da ascensão e colapso de experiências revolucionárias socialistas (mas também de tragédias protagonizadas pelo nazifascismo, como o extermínio, em maior ou menor escala, de Hitler, Mussolini, Franco, Salazar, Stroessner, Medici, Banzer, Pinochet, Videla, Bermúdez e García Meza) tenha sido o desenvolvimento tecnológico, mas restrito a uma reduzida parcela da população. O bem estar proporcionado pelo progresso da ciência e dos valores civilizatórios foi aos poucos se distanciando tanto das amplas maiorias da população humana e o que deveria ser para todos acabou sendo privilégio para uns poucos.

Até a democracia acabou dando lugar à plutocracia. A Europa pretensamente civilizada foi capaz de protagonizar, além dos campos nazistas, as experiências mais indignantes de tráfico de seres humanos para fins de trabalho escravo e de exploração-opressão dos povos originários (o comércio escravista e o saque colonizador que deu às elites ocidentais muito dinheiro e poder ao preço de genocídio, etnocídio e extermínio cultural insólito). Quando a União Soviética chegou ao colapso e os países do Pacto de Varsóvia dissolveram sua união depois de vencer a Alemanha nazista e a Itália fascista, numa espúria expansão da OTAN, como que vivêssemos ainda na guerra fria, imprimiram sua vocação hegemonista colonial para manter todos os povos e nações ‘inferiores’ a serviço deles.

A humanidade, contudo, é generosa tal como a natureza, e sempre dá mais uma chance aos néscios, arrogantes e soberbos. A despeito da tirania impregnada em todos os povos submetidos ao seu jugo, a Europa que depois de viver na miséria durante a Idade Média e desconhecer o legado dos povos que lhe compartilharam o conhecimento da Idade Clássica em bandeja de ouro e as riquezas literalmente de ouro e prata, além dos alimentos que saciaram a fome milenar de suas nações, teima em perpetuar a tirania e a opulência.

O tristemente célebre transatlântico Titanic e a tragédia que interrompeu vidas e sonhos de centenas de seres humanos de diferentes classes sociais, nacionalidades, convicções e credos em 1912 e o trágico fim da tripulação do submersível Titan, dias atrás, perto do que resta daquilo que um dia foi o ‘maior barco de passageiros construído pelo homem’ têm os mesmos contornos de delírio, pretensão e imbecilidade que dominam certa parcela da população humana e sua insana obsessão por ‘dominar o mundo’. Mas a humanidade é maior que a insanidade desses seres soberbos, e a sonhada emancipação de nossa espécie (e das demais, igualmente submetidas ao seu jugo) haverá de iluminar o porvir de nossos descendentes.

Ahmad Schabib Hany

terça-feira, 20 de junho de 2023

CONTRA FATOS NÃO HÁ ARGUMENTOS

Contra fatos não há argumentos

Ainda que os presidentes da Câmara dos Deputados e do Banco Central teimem em atravancar a volta do Brasil ao mundo real, fatos recentes sinalizam a consistência e inexorabilidade desse processo em construção.

“Contra fatos não há argumentos.” Essa frase me remete, com uma dose de saudade, às falas (verdadeiras aulas) de Amigos muito queridos, como o Doutor Carmelino de Arruda Rezende, ex-presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso do Sul. Mais que competente profissional, trata-se de um Amigo querido que, em minha juventude, nos anos de chumbo, foi um verdadeiro Mestre em Cidadania: em fins da década de 1970 (depois da implosão da candidatura vitoriosa do Doutor Plínio Barbosa Martins ao Senado Federal, em 1978, fraudada pela invencionice da sublegenda imposta pelo Pacote de Abril, a fim de dar sobrevida ao regime de 1964), a posse do Doutor Wilson Barbosa Martins à presidência da recém-criada OAB-MS e o lançamento de memoráveis campanhas pela democratização do país, ora em prol da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, pela convocação da Assembleia Nacional Constituinte e a campanha inesquecível das Diretas-Já.

A frase ganha ainda maior relevância nestes tempos de pós-verdade (ou mistificação?), quando defensores do indefensável se acham no direito de impor uma absurda disputa de narrativas, mas o que está por trás é a acintosa negação da realidade. É imperativo informar às novas gerações que a disseminação de fakenews, por meio das corporações noticiosas pertencentes a poucas famiglias, é de sua responsabilidade, eis que os ‘bons moços’ surrupiaram cinicamente o manual de Joseph Goebbels (aquele que ensinou que a repetição de uma mentira tantas vezes acaba tornando-a ‘verdade’ perante os mal, ou melhor, desinformados) e o adotaram nas emboloradas redações pelo mundo afora, e depois da guerra fria a transformaram em dogma, presentes nos gabinetes acarpetados e, sobretudo, nos templos opulentos em que parasitas manipuladores da fé espalham mentiras e ódio, impunemente.

Mas vamos aos fatos. Apesar da torcida contra, as taxas de inflação estão baixando como consequência das iniciativas da equipe econômica do Presidente Lula. Ato contínuo, a pontuação de credibilidade do Brasil sobe um ‘degrau’, e depois de sete anos (justo os anos de má gestão dos golpistas!) retorna à categoria de confiança, para desgosto dos abutres do mer(d)cado e seus paus-mandados Roberto Campos Neto e Artur Lira (ou seria Eduardo Cunha Junior?). E as estatísticas referendam o retorno da confiança popular na gestão pública, com a adesão de mais de 600 mil ‘desalentados’ (pessoas desempregadas que já haviam perdido a vontade de procurar emprego), que pela primeira vez desde que a turma de Romero Jucá, Eduardo Cunha, Michel Temer e Moreira Franco deram o golpe em Dilma Rousseff e desmontaram todas as políticas de inclusão econômica, social e educacional.

Isso não é tudo: a política de distribuição de renda por meio de conjunto consistente de programas de habitação (a geração de renda com a oferta de empregos na construção e a inclusão habitacional em um país em que rentistas, verdadeiros latifundiários urbanos, mantêm nas alturas os valores dos aluguéis e loteamentos nas periferias das cidades), de qualificação e requalificação profissional, revigoramento do financiamento dos cursos universitários e técnicos de níveis médio e superior, além do fortalecimento de linhas de crédito ao setor produtivo, seja ele urbano ou rural, do micro ao macro, do produtor familiar às corporações industriais.

Que ironia... Enquanto o palerma inominável passou quatro anos no ócio (que é a oficina do diabo), protegendo milicianos e todo tipo de contraventores e fora de lei ou em suas matociatas de meia pataca, em menos de seis meses Lula não só desinfeta o serviço público civil e militar, livrando-nos do fascismo e todas as suas variantes, como revigora a estrutura estatal abrindo vagas nas carreiras de Estado, o que ajuda a acabar com o clientelismo coronelista (que nos dois desgovernos anteriores, do brimo e do inominável, até graúdos de pijama ganharam suas boquinhas, tirando a oportunidade dos jovens e de carreira assegurarem seu ganha-pão).

Deixemos de hipocrisia. Patriotismo não é bravata, e governar não é exclusividade de uma classe ou categoria profissional (ou até denominação religiosa, como tentaram fazer acreditar por meio de arremedos de sacerdotes com trejeitos de maus samaritanos). Em vez de promover a discórdia, açodar as desavenças, masturbar os endiabrados e fornicar os empedernidos, é hora de trabalhar, de arrumar a casa, de retomar o desenvolvimento de que o Brasil precisa, e merece. Até mesmo os ditos ‘empresários verde-amarelos’ já caíram na real e se deram conta de que só colhe quem semeia, e de quem semeia vento só pode colher tempestade.

Passou a hora da prevaricação, procrastinação, prostração e putrefação. Quem tiver contas com a Justiça, que as resolva com quem de direito. O governo tem que trabalhar, até porque não tem por missão controlar a consciência e o óio cego de ninguém, e muito menos as preferências libidinosas ou afetivas de quem quer que seja. Passaram seis anos de orgia, vilipendiando o patrimônio nacional, entregando as riquezas a verdadeiros bandidos (ou são o que os ‘madeireiros’, ‘garimpeiros’, ‘pescadores’, ‘fazendeiros’, grileiros, milicianos, traficantes, contrabandistas, sonegadores e jagunços que tiveram carta-branca para fazer de tudo, menos cumprir a lei?).

Sem arminhas, sem fakenews, sem terrorismo, sem ameaças, sem canalhice. A hora é de arregaçar as mangas e, com responsabilidade política, social e fiscal, dar passos certos na reconstrução nacional para que as atuais e as futuras gerações possam viver com dignidade, civilidade, harmonia e, sobretudo, paz o tempo que tiverem que existir sobre a face da Terra. Não é mais possível ver jovens na flor da idade, mulheres e pessoas que fazem opção de gênero, indígenas e afrodescendentes e moradores das periferias sendo vítimas da violência fomentada e retroalimentada pelo ódio e pela impunidade. A Vida é princípio de direitos e a ninguém cabe poder sobre ela, ainda mais se se declarar ‘de fé’.

Ahmad Schabib Hany