sexta-feira, 29 de abril de 2016

Tríade-texto da fala na aula pública do dia 31 de março de 2016 no CPAN/UFMS



Tríade-texto da mesa do dia 31.03.2016
Num dia como hoje, 52 anos atrás, a então jovem democracia brasileira, nascida depois da promulgação da Constituição Federal de 1946, era estuprada, violentada com a conivência cínica de setores das elites brasileiras, representadas por organizações como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ao lado da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), e suas repetitivas edições da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Cínica, sim, porque os conspiradores juravam de pés juntos que não era golpe, era (sic) defesa da democracia e da liberdade. E, por isso, toda a nação pagou 21 longos anos de censura, repressão, arbítrio, cassações, supressão de direitos, prisões ilegais, sequestros, tortura, desaparecimentos, assassinatos, perseguições, delações, cooptações, medo, desesperança, corrupção e entreguismo.
Depois das importantes reflexões em alto e bom tom da Professora Doutora Elisa Freitas, uma aula-magna acerca da geopolítica global e a crise no Brasil, e do Professor Mestre Fabrício Santiago, uma fecunda digressão sobre a gênese da democracia e sua evolução ao longo da história ocidental, cabe a mim o óbvio: discutir com Vocês, colegas professore(a)s e aluno(a)s, alguns aspectos conjunturais sobre esta crise, que como bem disse o Professor Fabrício, se constitui em importante momento de aprendizado e superação da sociedade como um todo.
Antes, porém, vou reiterar o que tenho insistido com o(a)s aluno(a)s em sala: que o contexto histórico é determinante para compreender qualquer fato histórico. Assim como na História, também no Jornalismo, o contexto é fundamental, e omiti-lo se constitui em crime, pois se trata de uma ação dolosa que pereniza o legado nefasto de Joseph Goebbels, o homem da propaganda de Hitler, e seu princípio da transferência; como se usássemos um programa de edição de imagens para recortar uma inocente foto de um grupo de amigos dentro da universidade e o inseríssemos num ambiente totalmente adverso – como um motel ou um prostíbulo, por dizer – com o único afã de destruir a dignidade das pessoas deliberadamente vitimadas.
Ouso insistir, então, que a importância do papel do historiador e do jornalista no registro dos fatos está intrinsecamente vinculada ao relato honesto dos fatos e da análise do processo rigorosamente articulado ao contexto, ao cenário, de que fazem parte, sob pena de sua honrada labor cair na canhestra reprodução da funesta engenharia publicitária de Goebbels e de sua cínica receita de que uma mentira repetida inúmeras vezes vira uma verdade irrefutável, como a que a grande mídia vem nos oferecendo irresponsavelmente com a ajuda de grupos empresariais, dirigentes políticos e altos funcionários públicos dos diferentes poderes da República.
A seguir, gostaria trazer um dado importante no tocante à evolução da análise da história: em meados do século XIX, precisamente em 1848, numa das inúmeras crises vividas pelo capitalismo desde seu nascimento, Marx e Engels [data vênia, senhores, não confundir com Hegel, por favor!] explicitam, por meio do Manifesto Comunista, o que até então era inconcebível, porque não convinha aos “donos” do poder: que a História evolui por meio da luta de classes, isto é, a legítima disputa de interesses antagônicos, demandas ou objetivos opostos, entre os que exploram e os que são explorados, ou seja, entre os poderosos empresários e os trabalhadores da cidade e do campo, no atual contexto. Obviamente, uma democracia contemporânea tem como razão de ser levar esse legado em conta, pois é inadmissível que o que é bom para as elites tenha que ser bom para as camadas populares, em pleno século XXI!
Que fique destacado, então, que a compreensão de que toda sociedade possui interesses legítimos antagônicos é contemporânea e que a democracia brasileira precisa ter isso em conta, superando a visão positivista anacrônica, e que promover inversão de prioridades para atender aos autênticos interesses de amplas camadas da população não só é patriótica, pois assegura a soberania do povo, e é profundamente justa, em razão de promover políticas públicas afirmativas de caráter distributivo e de reparação, há séculos postergadas ou simplesmente ignoradas.
E antes que alguém diga que a compreensão dialética da História foi derrotada com o fim do chamado socialismo real (o soviético), gostaria de trazer à lembrança que o capitalismo só deu certo apenas e tão-somente para menos de um por cento da humanidade (repito: menos de 1% da população humana), deixando um rastro trágico de poluição, miséria, pirataria, quadrilhas organizadas, confrarias ilícitas, injustiças, escravidão, fome, genocídios, infanticídios, etnocídios e guerras, centenas de milhares de guerras, ao longo de sua hegemonia, ascensão e decadência, que vem se arrastando por quase cinco séculos.
Aliás, o capitalismo só tem se mantido e se renovado por meio de saques, pilhagens, escravidão, massacres e guerras. Preciso dar exemplos? Como, então, Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda se tornaram potências no ocidente, senão depois das Cruzadas, do mercantilismo, das grandes navegações, a colonização e o comércio de pessoas escravizadas da África? Como a Europa matou a fome e combateu a miséria senão com a batata andina (que virou inglesa), o chocolate asteca (que virou suíço), o milho e o tomate, a mandioca e o abacate, todos da América? Em nome da fé, levaram a opressão aos povos originários da América, África, Ásia e Oceania, impunemente: e como os mouros (árabes) é que são os atrasados e intolerantes, quando entregaram de bandeja todo o conhecimento existente na Antiguidade Clássica, permitindo o Renascimento ocidental? Em caso de dúvida, então como explicar o apogeu cultural, antes do fim da Idade Média, da Península Ibérica, cujos idiomas, culturas e religião cristã e a proteção dos judeus sefarditas foram mantidos durante a ocupação dos mouros, de trezentos anos em Portugal e de oitocentos anos na Espanha, diferentemente da colonização eurocêntrica genocida em todos os territórios colonizados, seja por Portugal e a Espanha, ou Inglaterra, França, Holanda e Turquia?
Se, por um lado, a guerra cumpre um nefasto objetivo de extermínio de populações indesejáveis, serve, por outro lado, para desovar estoque de arsenais de material bélico em processo de obsolescência e obter um lucro desavergonhado com a morte de populações indefesas. Ou o, então, que foram, entre outras, as guerras da Crimeia, do Ópio, as Napoleônicas, da Secessão, da Tríplice Aliança, do Pacífico, do Panamá, de Porto Rico, da Etiópia, as Italianas, a Franco-Prussiana, do Acre, Primeira Guerra Mundial, do Chaco, da China, Segunda Guerra Mundial, da Coreia, do Camboja, do Vietnã, da Palestina, da Argélia, do Kuwait, dos Seis Dias, de Guatemala e Honduras, da Biafra, do Yom Kipur, do Líbano, da Eritreia, Irã-Iraque, do Sudão, do Iraque, do Afeganistão, da Bósnia-Herzegovina, da Líbia, da Síria, do Iêmen e mais recentemente da Ucrânia?
Por outra parte, como explicar o acesso de verdadeiros arsenais de armas com sofisticada tecnologia por organizações criminosas e grupos paramilitares e/ou terroristas se as poucas indústrias de armamento bélico sofrem rigoroso controle das potências militares ocidentais? Logicamente, porque há um mercado negro abastecido criteriosamente pelos próprios falsos paladinos da civilização e do progresso, dentro de uma estratégia em que o lucro desse comércio macabro coaduna com o abominável propósito de deixar espalhar a guerra para atender aos mesmos propósitos acordados desde os tempos de Thomas Malthus e sua teoria insana de entender como “obstáculos positivos” para o crescimento da humanidade as guerras, a fome, a desnutrição, as epidemias, os flagelos naturais, as doenças e as pragas, por meio do aumento das taxas de mortalidade – cujos seguidores contemporâneos são suspeitos de estarem empenhados no desenvolvimento de projetos macabros dessa índole em pleno século XXI (em que epidemias causadas pelo ebola, zika, AIDS e dengue, para muitos estudiosos latino-americanos não deixam de ter certa mãozinha do “grande irmão do norte” e seus aliados terroristas por todos os cantos do planeta).
Recorreremos, agora, ao dado observado providencialmente pela Professora Elisa: tal qual a “primavera árabe”, a crise brasileira iniciada em junho de 2013 com as mobilizações contra o aumento das passagens de ônibus, têm sua origem fora do Brasil, dentro da nova estratégia sobejamente estudada pelo historiador e cientista político brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira em seu livro “A Segunda Guerra Fria”, citado, analisado e exposto pela Professora Elisa nesta oportunidade. Obviamente, o governo brasileiro deixou de merecer o status de “amigo” a partir do momento em que o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma se distanciaram da área de influência dos EUA, tendo se empenhado na articulação da UNASUL (ampliação do MERCOSUL), e sobretudo dado decisivos passos para a consolidação dos BRICS (bloco formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e depois do banco de desenvolvimento dos BRICS, cuja implementação ficou inviabilizada no início do segundo mandato da presidenta por conta das pressões políticas que vêm enfrentando desde a sua posse, em janeiro de 2015.
Segundo a lógica desta nova Guerra Fria, a Rússia e a China têm uma conotação muito mais perniciosa que o Irã, a Coreia do Norte e Cuba para o império em decadência. Não por acaso, a aproximação com Cuba e o Irã enquadra-se na estratégia da “dominação de espectro total”, nestes tempos de dificuldades financeiras e militares estadunidenses, em que a China é a maior credora dos EUA (em 2009, os chineses detinham nada menos que mais de 740 bilhões de dólares em papéis da dívida estadunidense) e a Rússia repeliu a estratagema imperial contra a Síria e sua ânsia de controlar todo o Oriente Médio e o Golfo Pérsico, tendo criminosamente causado um inimaginável fluxo migratório humano de proporções abismais, tornando o Mediterrâneo palco de mortes de inocentes que, sete anos antes, esbanjavam uma vida saudável com excelente formação universitária e um nível de vida de fazer inveja a muitos europeus e estadunidenses.
É, pois, de Moniz Bandeira a grande revelação, em 2009, dessa nova estratégia desenvolvida pelos estrategistas do Pentágono, em seu desesperado esforço de prorrogar o fim do império estadunidense: trata-se da estratégia da “dominação de espectro total”, em que armas convencionais não têm mais razão de ser, pois a mídia e a internet passaram a cumprir um papel muito mais eficaz na consecução de seus propósitos inconfessáveis. Instituições como a USAID (do governo estadunidense), NED (do Congresso dos Estados Unidos), Fundação Soros (do banqueiro bilionário George Soros), entre outras, são determinantes nas iniciativas para a desestabilização de governos que não se submetem às prioridades de interesse dos EUA, da OTAN e da União Europeia – como os governos de esquerda na América do Sul, países nacionalistas na África, do Oriente Médio e da Ásia, além daqueles que foram rotulados como os do “eixo do mal”, numa lógica maniqueísta extemporânea e bizarra.
Numa entrevista para o brilhante Jornalista Luís Nassif, Moniz Bandeira adverte que um império em decadência é muito mais perigoso que um em ascensão: o que se encontra em ascensão costuma ser no mínimo cordial, na ânsia de obter apoio em seu processo de conquista hegemônica; já um império em decadência, como o romano nos tempos de Nero, costuma ser extremamente imprevisível e caótico, pois nada tem a perder em seu desesperado esforço por prorrogar sua dominação: ou se mantém hegemônico ou que vença o caos, a barbárie – a tese nefasta do quanto pior melhor.
Nesse sentido, cabe a todo(a)s nós, que nos pretendemos educadore(a)s e formadore(a)s de opinião, enfrentar de com muito denodo e habilidade esse cenário de caos e barbárie para preparar cidadãos, seres humanos, para a vida, e não mão de obra barata e consumidores manipuláveis para o mercado – cuja deusificação é responsável pela corrupção entranhada nas instituições desde a gênese do capitalismo, em que sua acumulação ocorreu por vias tortuosas, como a pirataria, o saque, a escravidão, o comércio negreiro e os genocídios dos povos colonizados e oprimidos em nome de uma civilização que tem sido “generosa” na produção e reprodução de atos de barbárie que vêm culminando com os sucessivos holocaustos dos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX, XX e XXI.
Para concluir, trago à lembrança das novas gerações a célebre anotação de Marx em suas observações sobre as teses de Ludwig Feuerbach (filósofo hegeliano), em 1845 (três anos do emblemático Manifesto de 1848): “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diferentes formas; a questão, porém, é transformá-lo.” Em outras palavras, é fundamental que promovamos os estudos, os debates, as reflexões, mas sem perder de vista a atuação, a transformação inerente ao acúmulo, o que é a própria práxis.
Corumbá (MS), 31 de março de 2016.

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS E DE MÍDIA ALTERNATIVA
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Caros Amigos: www.carosamigos.com.br

CartaCapital: www.cartacapital.com.br
Revista Fórum: www.revistaforum.com.br
Opera Mundi: www.operamundi.com.br
Agência Carta Maior: www.cartamaior.com.br
Conversa Afiada (Paulo Henrique Amorim): http://www.conversaafiada.com.br/
Jornal GGN (Luís Nassif): http://jornalggn.com.br/luisnassif
Diário de Centro do Mundo (Luiz Carlos Azenha): http://www.diariodocentrodomundo.com.br/
O Cafezinho (Rodrigo Vianna): http://www.ocafezinho.com/
Pepe Escobar (repórter internacional brasileiro): http://www.iranews.com.br/category/colunistas/pepe-escobar/
Pravda (Rússia): http://port.pravda.ru/
Rebelión (América Latina): http://www.rebelion.org/
La Jornada (México): http://www.jornada.unam.mx/ultimas
El Libertador (Honduras): http://www.web.ellibertador.hn/
Aporrea (Venezuela): http://www.aporrea.org/
Blog Carlos Tena (Espanha): https://tenacarlos.wordpress.com/
Portal Desenvolvimentistas (Brasil): http://www.desenvolvimentistas.com.br/
Contrainjerencia (Argentina): http://www.contrainjerencia.com/
La Onda Digital (Uruguai): http://www.laondadigital.uy/
TV Pública (Argentina): http://www.tvpublica.com.ar/
Programa 6,7,8 - crítica à mídia contemporânea (Argentina): http://www.tvpublica.com.ar/
Rusian Today (Rússia): https://actualidad.rt.com/
Rede Voltairenet (França): http://www.voltairenet.org/pt
La Jornada (México): http://www.jornada.unam.mx/ultimas
Prensa Latina (Cuba): http://www.prensa-latina.cu/
La República (España): http://larepublica.es/
Cuba Debate (Cuba): http://www.cubadebate.cu/
Argenpress (Argentina): http://www.argenpress.info/
Bolpress (Bolívia): http://www.bolpress.com/
TV Al-Manar (Lìbano): http://spanish.almanar.com.lb/main.php?
Blog do Porfírio: http://www.blogdoporfirio.com/

Composição n.4 -- Óleo sobre tela de Wega Nery (1912 -- 2007), de 1953, reproduzido como arte de capa do livro Geopolítica e política exterior: Estados Unidos, Brasil e América do Sul, de Moniz Bandeira, editado pela Fundação Alexandre de Gusmão (Ministério das Relações Exteriores), 2009. Wega Nery Gomes da Silva é uma artista plástica vanguardista do século XX, nascida em Corumbá (MT) e falecida em Guarulhos (SP), onde morou seus últimos anos de vida. É mãe do renomado Jornalista Tão Gomes Pinto, que trabalhou nas maiores redações do Brasil entre as décadas de 1970 e 2000. Desconhecida pela maioria da população sul-mato-grossense, o Jornalista Luiz Taques produziu um videodocumentário em 2006 com a última entrevista por ela concedida, da qual o Jornalista Dary Jr., outro corumbaense, participou. (Disponível em: <https://collections.mfah.org/art/detail/74726?returnUrl=%2Fart%2Fsearch%3Fculture%3DBrazilian%257CBritish%26page%3D7>.)

OBRIGADO E ATÉ SEMPRE, CPAN/UFMS!

Estimado(a)s Colegas e Aluno(a)s,

Com esta mensagem quero reiterar minha sincera gratidão pelo generoso convívio fraternal e profícuo durante estes brevíssimos dois anos, encerrados no sábado retrasado, dia 9 de abril, com o fim da vigência de meu contrato como professor substituto do CPAN/UFMS, ao(à)s Colegas Docentes, ao(à)s Servidore(a)s e, obviamente, ao(à)s Aluno(a)s que me deram a honra de ter sido seu facilitador -- sim, porque entendo que, no meio universitário, o papel do docente, além de orientar na pesquisa e de vivenciar no compromisso com o efetivo progresso humano e tecnocientífico da sociedade, deve ser, sobretudo, o de facilitador -- na formação humanista e profissional das novas gerações, não para o mercado, mas para a vida e para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária, livre e solidária.

Num momento crítico da vida nacional como o que vivemos hoje, ouso trazer à lembrança o sábio legado de um dos grandes brasileiros do século XX, o Professor Paulo Freire, que nos alerta humildemente para ensinar aprendendo e aprender ensinando, oportunidade em que faço reconhecimento público ao Professor Waldson Diniz, generoso e cordial Coordenador do Curso de História, cuja postura humilde e fraternal, verdadeiramente de companheiro, foi determinante em minha breve passagem pelo Campus Pantanal, de cuja trajetória participei ainda no tempo em que se chamava Centro Pedagógico de Corumbá, vinculado à extinta UEMT (Universidade Estadual de Mato Grosso), como aluno no curso de Letras, nos idos de 1978, ano derradeiro do estado de Mato Grosso uno, capital Cuiabá, aliás, sede de governo historicamente bem mais identificada com os anseios regionais da população do Pantanal.

E com o mesmo reconhecimento e gratidão pelo Professor Doutor Waldson Diniz, recebam todo(a)s o(a)s Docentes com quem tive a honra de conviver: Professore(a)s Doutore(a)s José Luiz Peixoto, Marco Aurélio Machado (estes dois, ao lado do Professor Waldson, "culpados" pela minha passagem pela UFMS, e por quem tenho um profundo reconhecimento e sincera admiração: quando "crescer", quero ser, ainda que de longe, parecido a eles na inovadora cosmovisão transfronteiriça da História do Peixoto, na empreendedora ousadia interdisciplinar do Marco Aurélio e na insólita perspectiva verdadeiramente revolucionária do Waldson, que deu visibilidade e protagonismo aos meus conterrâneos e vizinhos da quase invisível Feira Boliviana das décadas de 1960 e 1970, então sinônimo de "boca do lixo"), Nathália Monseff (Amiga que humilde e generosamente compartilhou seu rigor profissional com este eterno aprendiz), Elaine Cancian (discreta Colega por cujas obras pude conhecer outro lado da história de Corumbá), Gilliard Prado (grande Amigo que ganhei em sua breve mas marcante estada em nossa querida Corumbá de todos os desafios dialéticos), Marcelo Dias (de Matemática, jovem talentoso que tem aportado para a valorização das ciências exatas e humanas), Luiz Galvão (de Psicologia, querido Amigo, verdadeiro peregrino da ciência e da cidadania cujo olhar fraternal lembra o grande e sempre contemporâneo Paulo Freire), Elizabeth Bilange (de Letras, valorosa e incansável catedrática-guerreira em cujo rastro de honradez traz a marca da tenacidade insofismável), Elisa Freitas (de Geografia, jovem pesquisadora-cidadã que sem titubeio semeia a esperança indignada em nossa muitas vezes pouco alentadora rotina acadêmica, trazendo na alma a rebeldia transformadora, tão necessária para a postergada evolução universitária), Cláudia Mondini (de Psicologia, apesar da pouca convivência, pude constatar a determinação e o profissionalismo que pauta sua atuação), Edelir Salomão (de Pedagogia, docente cuja tenacidade e vigor inspiram novas gerações de educadores/as voltados/as para os interesses maiores da sociedade), Teresa Cristina Brasil (de Letras, cordial e solícita, uma docente que vem contribuindo para a valorização das letras nesta sociedade cada vez mais pragmática e metalizada), Ilidio Roda (de Psicologia, presente em todas as atividades acadêmicas, pude constatar sua inquietude cidadã), Fabiano dos Santos (de Educação Física, colega incansavelmente irrequieto e instigante, de uma geração que está a fazer história), Jorge Pinto (de Ciências Contábeis, destacou-se com propriedade nas reuniões promovidas pela ADUFMS durante a paralisação, ousadia cidadã que o torna imprescindível ao ambiente universitário), Dirce Soken (de Ciências Contábeis, gentil e solidária, nos poucos momentos compartilhados revelou sua profunda identidade com o mundo acadêmico), Iliane Esnarriaga (de Psicologia, Amiga que sempre me deferiu com seus convites a suas aulas sobre ética e cidadania, desde os memoráveis tempos do FORUMCORLAD no controle social das políticas públicas de Corumbá, ao lado das queridas Denise Mansano e Janán Hany e dos hoje saudosos Aurélio Tórrez e Heloísa Urt), Alcione dos Santos (de Letras, dos raros momentos compartilhados, ficaram suas iniciativas cidadãs, como o trote solidário de 2015 -- pena não termos podido desenvolver outras iniciativas tão importantes quanto essa), Sérgio Isquierdo (de Geografia, Amigo de mais de três décadas atrás, poder tê-lo reencontrado foi motivo de muito regozijo), Júlio Galharte (de Letras, recém-empossado e que entrou logo quando eu estava de saída, querido Amigo do final da década de 1980, quando a Vida generosa me presenteou queridos/as Amigos/as da estatura dele, do saudoso Gilson Sávio, de Mara Amaral, Edson Barbosa, Jorge Eremites, Joaquim Amaral, Simone Leone, Grace Kelly Bastos, Márcia Amaral, Marco Antônio Monje e João Carlos Urquidi, entre outros/as não menos queridos/as e sempre lembrados/as, do nosso imortal projeto de jornal universitário "Embrião" e das chapas "Mãos à obra" e "Mãos ao alto" para o então recém-fundado DSE) e Wadia Hanny (de Geografia, mais que querida Irmã, orientadora sábia e generosa, não só nas vicissitudes da tecnologia digital, mas nos desafios da docência universitária, sempre comprometida com a responsabilidade social, como em sua inesgotável lealdade/perseverança compartilhada com as senhoras integrantes do "Projeto Fibras", depois"Mulheres de Fibras", que vem sendo executado sem financiamento desde 2007, apenas com parcerias pontuais).

Da mesma forma e em igual intensidade aos Professores Mestres Vivian Silva (jovem docente que abre novas oportunidades aos/às alunos/as do CPAN/UFMS), Felipe Maropo (discreto e dedicado, docente que tem contribuído para as inovações tão necessárias na véspera do cinquentenário Curso de História), Thays Gomes Monteiro (de Matemática, talentosa e incansável mestra e mãe, cujo exemplo de dedicação àquilo que ama se renova em atitudes eloquentes de suas maiores riquezas: seus estudos, as queridas Ana Júlia e Thaíssa, e a fé inarredável), Gilberto Rodrigues dos Santos (de Matemática, generoso docente, coordenador exemplar por cujo convívio pude conhecer a amplitude dos que amam a lógica matemática e se revelam literalmente grandes pais), Benedito Rodrigues Brazil (de Matemática, embora discreto, sempre presente, generoso e colaborador),Fabrício Santiago (de Pedagogia, docente que faz da filosofia um instigante instrumento do pensar acadêmico),Osmar Nascimento (de Matemática, cuja juventude e dinamismo contagiam até os veteranos), Maria Auxiliadora Figueiredo-Nery (de Pedagogia, discreta e incansável pesquisadora cuja generosidade vem abrindo caminhos para os talentos das novas gerações, e faz da educação usina de encantamento e evolução da espécie humana), Fernanda Esteves (de Administração, cordial e generosa mestra, comprometida com os novos paradigmas institucionais), Newton Gane (de Administração, nos poucos momentos compartilhados, a presença afável da idiossincrasia ancestral do Oriente Médio), Roberto Galeano (de Administração, um docente atencioso e presente em diferentes circunstâncias), Rosa de Almeida (de Administração, discreta em seu proceder, docente que sabe distribuir confiança entre os/as alunos/as), Wilson Roberto (de Administração, solícito e atento, sua cordialidade tem a marca do desprendimento de uma geração), Marta Fernandes (de Ciências Contábeis, afável e gentil colega que faz de sua lide uma celebração da vida), Roberto Ribeiro (de Ciências Contábeis, colega sincero e cordial, que se caracteriza pela irreverência a proporcionar momentos descontraídos no dia-a-dia sisudo da academia), Itzhak Kaveski (de Ciências Contábeis, discreto e reservado, docente com grandes aspirações e objetivos), Caio Avellar (de Direito, jovem docente que vem imprimindo em sua área uma importante atuação), Bruno Marini (de Direito, atuante docente que, inclusive fora do âmbito da academia, está sempre presente em momentos de afirmação da cidadania), Angélica Ferreira (de Direito, docente que com seu dinamismo permitiu avanços significativos para o curso sob sua coordenação), Camilo Henrique (de Direito, sua cordialidade e o foco nos direitos da cidadania marcaram sua presença no campus),Eduardo Ferrufino (de Ciências Contábeis, docente jovem que faz de seu ofício polo irradiador de novos cidadãos), Suzana Mancilla (de Letras, incansável militante da integração latino-americana que conheci muito antes, em Campo Grande, e cuja atuação na UFMS revigora a certeza de que o CPAN será um dos artífices da realização dessa longeva utopia cidadã) e Janan Hany (de Matemática, querida Irmã-companheira que toda vez que me leva a um desafio me prova que ousadia e cidadania não são quase mera rima, mas razão de ser de quem traz na alma a obstinação peregrina, cujo gene revolucionário nos leva ao que se consagrou chamar de progresso da humanidade, sobretudo neste lúgubre momento da história em que o ocaso do império nos impõe barbárie e caos, a destruir não só valores consagrados mas também vidas e culturas milenares, comprovadamente bem mais iluminadas que a nossa vã "civilização").

Obviamente, não poderia deixar de me dirigir e, intensa e igualmente, manifestar meu reconhecimento ao(à)s Colegas professores substitutos, como eu, com os quais tive as mesmas honra e felicidade de conviver nestes efêmeros dois anos: Giovanni de Oliveira (ainda que por muito pouco tempo de convívio, mostrou-se incansável e obstinado, além de solícito e competente), Sanderson Fardin (embora discreto, bastante dedicado e, quando quis, soube surpreender e polemizar com sua opinião política, para muitos inimaginável), Marcel Giordano(dedicado e discreto, faz de seu ofício um estímulo para os/as alunos/as), Célia Rodrigues (de Matemática, brilhante recém-graduada, em seu breve período de substituição se revelou excelente docente e grande Amiga, ao lado de seu querido Companheiro, Leonardo de Castro, o que prova que as novas gerações só precisam de oportunidade, surpreendendo pela competência), além dos dois Professores de Libras, Maurício e Nelson, cordiais, solícitos e de uma generosidade ímpar, e que me perdoem por não ter memorizado os seus respectivos nomes completos, pois os conheci por intermédio da querida Amiga e Professora Andrea Madalone, por meio de quem saúdo com efusiva gratidão o(a)s imprescindíveis e estimado(a)s: Eunice Pereira (da SEAC, cordial e afável, sempre eficiente e generosa, desde os tempos dos bancos escolares), Jacqueline (da COAC, sempre gentil e colaboradora, disponibilizando seu conhecimento para qualificar seus serviços), Maycon, Sebastião,Mercado, Glauter Cavalheiro (Amigo e Companheiro de lutas cidadãs, sempre atento e solícito), Antônio, Valcir, Leopoldo, Leia (da Biblioteca, atenciosa e cordial, que considero uma Amiga), Valeska (aguerrida e perseverante, uma verdadeira lutadora pela justiça, ainda que nem sempre compreendida), Laura, Lúcia, Lecir e Jacinto (prestativo e solícito, trata-se de um verdadeiro monumento vivo à lealdade acadêmica, patrimônio da Universidade), bem como ao(à)s demais funcionário(a)s, inclusive ao(à)s vinculado(a)s às empresas prestadoras de serviços terceirizados, todo(a)s digno(a)s do maior respeito.

Também à direção do Campus Pantanal, na pessoa do Professor Doutor Edgar Aparecido da Costa, diretor do CPAN; dos Professore(a)s Doutore(a)s Luciano Édipo e Márcia Sambugari, titulares da COAC; à querida Amiga de mais de quatro décadas Eunice das Neves Pereira, da SEAC, e Denilson dos Santos, da COAD, e suas gentis equipes de colaboradores, meu sincero e grato reconhecimento pelo convívio profícuo ao longo deste período.

Não posso deixar de citar, com igual reconhecimento, o(a)s querido(a)s Amigo(a)s Professore(a)s Doutore(a)s José Carlos Ziliani, Paulo Roberto Cimó Queiroz, Hélvio Rech, Guto Josman, Gisela Bluma, Neimar Machado, Maria Augusta de Castilho, Maria Izabel Padilha e Celeida Maria de Souza, nas diferentes instituições em que se encontram, bem como ao(à)s Amigo(a)s aposentado(a)s ou transferido(a)s, como o(a)s Professore(a)s Doutore(a)s e Mestre(a)s Valmir Corrêa, Lúcia Salsa, Gilberto Luiz Alves, Masao Uetanabaro,Angélica Bezerra, Carla Villamaina Centeno, Gisela Levatti, Moacir Lacerda, Júlio Paro, Geraldo Damasceno, Ieda Bortolotto, Eudes Fernando Leite, Sílvia Britto, Arnaldo Sakamoto, João Bortolanza,Tito Carlos Machado, Iria Ishii, Maria Lúcia Paniago, Rosângela Pontara, Carlos Patusco, Catarina Costa Marques e Ruthênio Fernandes, e, com ele(a)s, os igualmente querido(a) Amigo(a)s Lejeune Mirhan Xavier de Carvalho, Denise Campos Diniz, Amyra El Khalili, Joel Carvalho Moreira, Ana Cláudia Salomão, Luiz Taques, José Maschio, Edson Moraes, Márcio Licerre, Augusto César Proença, Marlene "Peninha" Mourão, Anísio Guató, Lindivalda dos Santos, Tânia Nozieres, Aguinaldo Rodrigues, Arturo Ardaya, Cristiane Sant’Anna,Edimir "Abelha" Moraes, Andrés Menacho, Aníbal Monzón, Ivaneide Minozzo, Erisvaldo Ajala, Simone Yara Benítez, Padre Pasquale Forin e Jorge José Katurchi, todo(a)s incansáveis semeadore(a)s de cidadania e de empoderamento para a afirmação da soberania popular, pois, como diz o irreverente ditado espanhol, "lo que natura no da Salamanca no presta" (em tradução livre, "o que a natureza não dá, a Sorbonne não empresta").

Houve algumas atividades extracurriculares que não poderia deixar de mencionar, durante estes dois anos, que ficaram na memória, sobretudo pela generosidade de muito(a)s do(a)s Colegas mencionado(a)s: "Primeiro Encontro de História do CPAN" (sob a coordenação da Professora Doutora Nathalia Monseff); "Dias de História", do Curso de História da UFGD, em Dourados (sob a coordenação do querido Amigo e contemporâneo de estudos e de movimento estudantil, Professor Doutor José Carlos Ziliani, que me proporcionou um reencontro memorável com os igualmente queridos Amigos Professores Doutores Paulo Roberto Cimó Queiroz e Eudes Fernando Leite); "Recepção aos Calouros de História de 2015" (atividade programada pelos Professores Doutores Nathalia Monseff, Gilliard Prado e Waldson Diniz, com a participação dos Professores Doutores José Luiz Peixoto, Marco Aurélio Machado e Elaine Cancian); "Semana da Matemática", de 2014 e 2015, coordenadas pelo Curso de Matemática, respectivamente Professores Mestres Osmar Nascimento, Gilberto Rodrigues dos Santos e Janan Hany; "O ofício de professor e a globalização", fala da Professora Denise Campos Diniz; "Questão palestina, Primavera Árabe e a intervenção ocidental na Síria", uma eloquente aula de história e geopolítica dada pelo Professor Lejeune Mirhan Xavier de Carvalho, sociólogo, professor universitário e analista internacional em visita à sua cidade-natal, Corumbá (um reencontro depois de mais de trinta anos com esse brilhante e grande Amigo e Companheiro); "Geopolítica global e a crise no Brasil: um convite à reflexão", aula pública planejada e coordenada pela Professora Doutora Elisa Freitas e a participação do Professor Mestre Fabrício Santiago.

Gostaria ter enumerado todo(a)s o(a)s Amigo(a)s que fiz no CPAN, que, creiam, não só estão na memória como no coração. Lamentavelmente, a esta altura da vida, os "neurônios" podem ter-me levado ao inexorável constrangedor risco de ter cometido injustiças, o que me faz abreviar minha "lista". Mas, para não perder o hábito, apenas insisto, como há quase um ano e meio me atrevi a propor (quando da apresentação dos projetos de intervenção social "História em Movimento" e "Pró-história do CPAN/UFMS"), na importância do transcurso do cinquentenário do CPAN -- desde a sua gênese como Instituto Superior de Pedagogia de Corumbá (ISPC), em 1967; sua transformação em Centro Pedagógico de Corumbá (CPC), em 1972, vinculado à extinta UEMT; Centro Universitário de Corumbá (CEUC), em 1983, já no contexto da UFMS, e, a partir de 2003,Campus de Corumbá (CPCO), antes da nova denominação, de Campus Pantanal (CPAN) -- para aproveitar e promover uma série de projetos (e eventos, como gincanas juvenis e concursos de logomarca do jubileu, slogan e redação, por exemplo) em prol de sua memória e, sobretudo, para a apropriação pela população de Corumbá e Ladário da única universidade pública há quase cinquenta anos em atividade na região, responsável pela formação de, senão quase a totalidade, a imensa maioria do(a)s profissionais universitário(a)s da região, e que ainda não foi devidamente assumida por amplos setores da sociedade local, muitos dos quais ainda a veem com indiferença ou desdém.

Por fim, dedico este momento particularmente ao(à)s Aluno(a)s, com o(a)s quais tive a honra de conviver nestes últimos dois anos e que, longe de qualquer demagogia, constituem-se na verdadeira razão de ser da Universidade, desde sempre. Sou, aliás, da geração que ousou recuperar o protagonismo juvenil no âmbito da academia, ao conquistarmos não só a liberdade de organização do movimento estudantil, mas, sobretudo, a gratuidade da universidade pública brasileira, ainda antes da Constituição Cidadã, de 1988, e do fim das taxas e sobretaxas então existentes tanto nas instituições públicas como privadas. Portanto, sinto-me no direito de insistir na provocação feita, fora de aula, ao longo de meu convívio com o alunado, de que o sentimento de pertencimento da UFMS (e por tabela do CPAN), pelo(a)s estudantes, passe a ser efetivo, e que o necessário empoderamento por ele(a)s protagonizado torne a vida acadêmica mais dinâmica, proativa, produtiva e de vanguarda, em todos os sentidos -- nos estudos, pesquisas e projetos, no exercício de sua cidadania e no indissociável desenvolvimento do humanismo, lamentavelmente perdido pela lógica do mercado, há décadas hegemônica em nossa sociedade globalitária pós-Consenso de Washington: mais que agir como consumidores -- regido(a)s pelo Código de Defesa do Consumidor --, é indispensável e imprescindível atuar como cidadão(ã)s do mundo e de seu tempo. No dizer de Chico Buarque e Pablo Milanés, "lo que brilla con luz propia nadie lo puede apagar, su brillo puede alcanzar la oscuridad de otras cosas" ("aquilo que brilha com luz própria ninguém pode apagar, seu brilho pode alcançar a escuridão de outras coisas").

Por ter mencionado a caríssima Constituição Cidadã, de 1988, devo salientar algo que é oportuno e fundamental para afirmar o protagonismo da juventude: não é nenhuma "caretice" lutar pela defesa e efetivação de nossa Lei Maior. Muito mais que uma norma constitucional escrita coletivamente e em total sintonia com os setores organizados da sociedade, em efetiva mobilização e participação ao longo dos quase dois anos de trabalhos da Constituinte de 1986, em meu modesto entendimento de aprendiz de cidadão reputo o Título da Ordem Social como o de profunda relevância, sobretudo naquilo que se efetivou como Controle Social das Políticas Públicas, isto é, a participação do(a) cidadão(ã) anônimo(a) na definição de prioridades e na fiscalização das ações dos gestores nas três esferas de governo. Hoje me atrevo a dizer que, por conta da intersetorialidade das políticas públicas e a efetivação do Sistema de Garantia de Direitos, é inadiável que todo(a)s lutemos pela implantação em nível regional dos Direitos Humanos como política pública de afirmação da soberania popular. É o que vem acontecendo, ainda que de forma tímida, em nossa região, por meio de reuniões públicas periódicas, mas que o resultado será transformador para todo(a)s nós, sobretudo para a juventude, para o(a)s atuais universitário(a)s, que precisam aplicar seus conhecimentos profissionais no seio de uma sociedade mais democrática e efetivamente plural.

E, como despedida, trago deles -- Chico Buarque e Pablo Milanés -- uma das definições mais geniais de História, igualmente consagrada em "Canção para a unidade da América Latina", de 1972: "E quem garante que a história é carroça abandonada numa beira de estrada ou numa estação inglória. A história é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue. É um trem riscando trilhos, abrindo novos caminhos, acenando muitos braços, balançando nossos filhos..." (Disponível em <http://www.vagalume.com.br/milton-nascimento/cancion-por-la-unidad-de-latino-america.html)

Obrigado e até sempre, CPAN-UFMS!

Fraternalmente,

Schabib



PS: Anexo à presente mensagem quatro arquivos em PDF: o primeiro deles com o texto-base de minha participação na aula pública do dia 31 de março, ao lado dos eminentes Professores Elisa Freitas e Fabrício Santiago, respectivamente Doutora em Geografia Humana e Mestre em Filosofia Contemporânea, que me honraram com tamanha distinção, um presente para um aprendiz de cidadão; o segundo arquivo é o que havia preparado antes de ter conhecimento da impossibilidade de o Jornalista José Maschio chegar a Corumbá, por motivos de saúde em sua família, em que o foco era o período de trevas representado pelo regime de 1964; o terceiro arquivo se refere ao projeto de intervenção social História em Movimento, que propõe um conjunto de atividades permanentes que visam a valorização da História (e por extensão, do curso de História) no contexto da sociedade contemporânea, e o quarto arquivo trata do projeto de intervenção social Pró-História do CPAN/UFMS, que visa o resgate da memória do quase cinquentenário curso de História do CPAN, desde os tempos do ISPC, do CPC (tempos da UEMT), do CEUC e depois CPCO, bem como da criação de um centro de dados ou banco de teses, dissertações, monografias e artigos científicos produzidos pelo(a)s docentes e aluno(a)s ao longo da existência da instituição, entre outras propostas que poderiam fazer parte das comemorações do jubileu de ouro do CPAN, para as quais poderiam ser planejados certames abertos à sociedade local (sobretudo para a juventude estudantil) de concurso de redação, logomarca do jubileu etc.

domingo, 6 de março de 2016

O VIGÉSIMO QUARTO ASSALTO

O VIGÉSIMO QUARTO ASSALTO
Pouco mais de quatro décadas atrás, o incansável Jornalista Mohamad Heikal – o egípcio que, como assessor do estadista Gamal Abdel Nasser registrou momentos únicos da história contemporânea do Oriente Médio sob a liderança laica e lúcida de um socialista moreno (no dizer do não menos lúcido Leonel Brizola) – batizava de “Terceiro Assalto” sua obra-testemunho sobre a maior derrota sofrida pelos árabes desde que os sionistas do mundo inteiro, na esteira do holocausto cometido na Europa por europeus que usavam o discurso da “superioridade racial” como pretexto para promover a barbárie, se instalaram avassaladora e impunemente na pátria milenar do também milenar Povo Palestino.
Valemo-nos, pois, deste termo contundente para denunciar o ódio, o acinte, o ranço, a soberba cínica, de funcionários públicos sobejamente remunerados pelo erário para, apenas e tão-somente, cumprir a lei – e jamais se sobrepor a ela –, como temos visto reiteradamente nos últimos anos, depois que Luiz Inácio Lula da Silva, um retirante de alma peregrina que a história guindou ao papel de estadista da maior democracia do planeta, se tornou referência no hemisfério, melhor, na Terra e na alma do(a)s cidadão(ã)s e amantes da emancipação do proletariado, e dos povos oprimidos em todos os quadrantes do mundo.
E, pior, em conluio com uma imprensa preconceituosa e ardilosamente mentirosa, sonegadora de impostos e explicitamente corrupta, vem a público repudiar a animosidade que provocou deliberada e irresponsavelmente com sua iniciativa, e ainda querer advertir quem discordar de seu proceder fascistoide como quem conspirasse contra valores democráticos que o próprio desconhece por ação ou omissão, ou talvez por conta da ideologia que cultiva certa predileção pelos camisas-negras de algum fürer ou duce extemporâneo.
Não esqueceremos. Nunca nos intimidaremos. Jamais recuaremos. Sexta-feira, 4 de março de 2016. Impunemente, não mais que impune e acintosamente, nossa jovem democracia foi humilhada, aviltada, amealhada, estuprada. A arrogância e o ódio de classe de uma geração de ex-concurseiros envaidecidos pela (sic) meritocracia que sequer conheceu a (mal)ditadura e o(a)s que corajosa e generosamente ousaram construir o Estado Democrático de Direito puseram, arrogantemente, a perder o patrimônio maior de todo(a)s o(a)s brasileiro(a)s, e não apenas de funcionários públicos bem pagos para desempenhar suas atribuições a rigor, sem abusos nem excessos.
Feriram, sim, de morte – apunhalaram, ou melhor, defenestraram, bem ao estilo inquisitorial, de triste memória – o digno legado de homens e mulheres altivos e corajosos como Rubem Paiva, Ulysses Guimarães, Bertha Lutz, Heloneida Stuart e Cristina Tavares, cujas vidas em nada se assemelham às dos ridículos camisas-negras de vozes ensaiadas e terninhos justinhos, dadores de epítetos bisonhos, a fim de demonstrar uma erudição que qualquer computador já sepultou por conta da cultura da web.
Qual é a sua grandeza, seres infelizes, mal-amados, arremedo de atores canastrões do tempo do macarthismo delirante! Peçam desculpas por existir! Farsantes, obtusos, cínicos! A alma democrática da cidadania nada lhes deve, além da indiferença e o desprezo, como o que a vida cobrou de seus originais, Filinto Müller e amos, do outro lado do hemisfério. Devolvam-nos o direito à emancipação, à esperança e ao protagonismo que a história nos legou. E recolham-se à sua desprezível insignificância, retornem ao seu peçonhento ninho sibilino, do qual jamais deveriam ter saído!

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

PROFESSOR DEUSMAR JATOBÁ ESPÍNDOLA (1952 - 2016)

PROFESSOR DEUSMAR JATOBÁ ESPÍNDOLA (1952 – 2016)

Com profundo pesar compartilho com Vocês a consternadora notícia sobre a eternização do Professor Deusmar Jatobá Espíndola, vítima de câncer, em Campo Grande, neste fatídico 3 de fevereiro, a um mês de seu aniversário de 64 anos.

Ele era um dos raros corumbaenses inquietos, desassossegados, que perseguiam incansavelmente seus sonhos, ainda que solitariamente. Já casado, pai de filhos e com todas as dificuldades que a Vida de proletário impõe aos que ousam sair da mesmice, licenciou-se em Estudos Sociais em 1984 e em História em 1988 pela UFMS, no então Centro Universitário de Corumbá (CEUC), e bem mais tarde, depois de tentar em diversas universidades de Mato Grosso do Sul, tornou-se Mestre em História pela Universidade Salgado de Oliveira, no Rio de Janeiro, em 2012.

Ex-técnico em eletricidade e ex-ferroviário, Deusmar era um crítico sincero de nosso amigo comum Manoel do Carmo Vitório, então dirigente sindical da categoria ferroviária e ex-colega universitário no curso de licenciatura em Estudos Sociais. Passou a exercer o magistério em 1985 nas redes municipal e estadual de ensino e, em meados da primeira década do século XXI, realizou sua experiência como docente universitário, temporário, na UFMS. Da mesma forma, conhecendo as minhas convicções ideológicas, fazia questão de demarcar as nossas diferenças políticas, até porque ele se definia como um democrata cristão, fiel à sua formação salesiana.

Aliás, durante décadas ele foi, no teatro amador, o Cristo crucificado que comovera gerações de corumbaenses e ladarenses que assistiam à peça Paixão de Cristo, escrita, produzida, dirigida e encenada a quatro mãos com outro(a)s Amigo(a)s, nos idos de 1970, antes da divisão de Mato Grosso. Da mesma forma, foi pioneiro na produção dos "Debates Populares", em 1988, quando os radialistas João Luiz Gonzales e Andersen Navarro, sucessivamente, eram as estrelas da programação da imponente Rádio Clube de Corumbá,  sob a direção da falecida Doutora Laurita Anache.

Nós nos conhecemos no início da década de 1980, quando eu ainda estudava em Campo Grande, na FUCMT, e ousava dar meus primeiros passos no meio jornalístico. Foi numa de minhas vindas a Corumbá que o conheci ao lado de meu saudoso Pai, por conta de suas instigantes conversas -- é que ele se declarava um "curioso nato, amante da boa e produtiva conversa", como ficou registrado no perfil de sua página do portal "Café História" --, ao ver o senhor Mahoma Hossen Schabib falando com naturalidade vários idiomas, cercado de turistas mochileiros, ou absorto na leitura de pilhas de livros, revistas e jornais, também em diversas línguas.

Mas a nossa Amizade (dessas com letra maiúscula) se solidificou precisamente quando ele, produtor do então programa semanal "Debates Populares" da Rádio Clube de Corumbá, me "intimara" a participar (foi esse o verbo usado quando me convidou para ser um dos debatedores enquanto ele esteve como produtor e os mencionados radialistas se sucederam). E diferentemente da linha posteriormente adotada pelo Jornalista Armando de Amorim Anache, com a participação do Jornalista e Advogado José Carlos Cataldi (ex-radialista da Rádio Nacional, do Rio), o programa teve, também, edições memoráveis, como a que discutiu os rumos da Constituinte presidida pelo saudoso Deputado Ulysses Guimarães, ou a que debateu sobre a dívida externa brasileira, ou aquela que questionou os cinco anos para Sarney, ou a discussão sobre Parlamentarismo, ou a respeito da adoção da pena de morte no ordenamento jurídico brasileiro etc.

Nos últimos dez anos, raramente nos encontramos, por puro acaso. Mas tive a grata satisfação de recebê-lo em casa para lermos o seu anteprojeto de Mestrado sobre a Coluna Prestes (o exílio, por Cáceres, de seus integrantes na Bolívia e sua repatriação por Corumbá), com o qual queria ingressar no programa de uma universidade pública. Apesar da consistência e originalidade do projeto, não fora feliz nesse intento, tendo se decidido posteriormente pela universidade do Rio de Janeiro, e dessa vez com outra temática.

Nosso derradeiro encontro foi em Miranda, numa parada obrigatória para quem viaja em ônibus de carreira, quando ambos retornávamos de uma insólita experiência, depois de participarmos da primeira etapa de um processo seletivo realizado na capital, extremamente concorrido. Bastante consternado com seu desempenho naquela prova, revelou-me um lado até então desconhecido por mim: o do incansável guerreiro visivelmente esgotado, cético e que jogara a toalha. Menos de um mês depois, soube por sua companheira que se submetera a uma nova cirurgia, desta vez no pâncreas, já em vias de viajar para Campo Grande.

Deusmar é uma das mais eloquentes expressões da multifacética Corumbá de todos os povos, de todos os credos, de todas as culturas, de todos os tempos: determinado, conquistou seu lugar na história (em todas as acepções), mas, obviamente, como todo intelectual oriundo da classe trabalhadora brasileira, precisava fazer a "conversão" burguesa que, ainda que outrora pudesse ter desejado, as bizarras elites jamais lhe concederam. Sua personalidade, muitas vezes controversa e irreverente, e sobretudo sua cordialidade inesgotável, farão muita falta neste torrão cada vez mais dominado pela mediocridade totalitarista, fruto da abominável globalização contra a qual nossa geração se insurgiu assim que tomamos consciência de nossa cidadania -- e, como disse o grande Darcy Ribeiro, fomos derrotados, mas jamais gostaríamos de estar no lugar dos que nos venceram, "donos" de uma sociedade perversa e aviltante para a espécie humana e todo o planeta.

Até sempre, querido Amigo, e obrigado pelas inúmeras lições que generosa e sabiamente nos deu!


Ahmad Schabib Hany