sexta-feira, 29 de abril de 2016

OBRIGADO E ATÉ SEMPRE, CPAN/UFMS!

Estimado(a)s Colegas e Aluno(a)s,

Com esta mensagem quero reiterar minha sincera gratidão pelo generoso convívio fraternal e profícuo durante estes brevíssimos dois anos, encerrados no sábado retrasado, dia 9 de abril, com o fim da vigência de meu contrato como professor substituto do CPAN/UFMS, ao(à)s Colegas Docentes, ao(à)s Servidore(a)s e, obviamente, ao(à)s Aluno(a)s que me deram a honra de ter sido seu facilitador -- sim, porque entendo que, no meio universitário, o papel do docente, além de orientar na pesquisa e de vivenciar no compromisso com o efetivo progresso humano e tecnocientífico da sociedade, deve ser, sobretudo, o de facilitador -- na formação humanista e profissional das novas gerações, não para o mercado, mas para a vida e para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária, livre e solidária.

Num momento crítico da vida nacional como o que vivemos hoje, ouso trazer à lembrança o sábio legado de um dos grandes brasileiros do século XX, o Professor Paulo Freire, que nos alerta humildemente para ensinar aprendendo e aprender ensinando, oportunidade em que faço reconhecimento público ao Professor Waldson Diniz, generoso e cordial Coordenador do Curso de História, cuja postura humilde e fraternal, verdadeiramente de companheiro, foi determinante em minha breve passagem pelo Campus Pantanal, de cuja trajetória participei ainda no tempo em que se chamava Centro Pedagógico de Corumbá, vinculado à extinta UEMT (Universidade Estadual de Mato Grosso), como aluno no curso de Letras, nos idos de 1978, ano derradeiro do estado de Mato Grosso uno, capital Cuiabá, aliás, sede de governo historicamente bem mais identificada com os anseios regionais da população do Pantanal.

E com o mesmo reconhecimento e gratidão pelo Professor Doutor Waldson Diniz, recebam todo(a)s o(a)s Docentes com quem tive a honra de conviver: Professore(a)s Doutore(a)s José Luiz Peixoto, Marco Aurélio Machado (estes dois, ao lado do Professor Waldson, "culpados" pela minha passagem pela UFMS, e por quem tenho um profundo reconhecimento e sincera admiração: quando "crescer", quero ser, ainda que de longe, parecido a eles na inovadora cosmovisão transfronteiriça da História do Peixoto, na empreendedora ousadia interdisciplinar do Marco Aurélio e na insólita perspectiva verdadeiramente revolucionária do Waldson, que deu visibilidade e protagonismo aos meus conterrâneos e vizinhos da quase invisível Feira Boliviana das décadas de 1960 e 1970, então sinônimo de "boca do lixo"), Nathália Monseff (Amiga que humilde e generosamente compartilhou seu rigor profissional com este eterno aprendiz), Elaine Cancian (discreta Colega por cujas obras pude conhecer outro lado da história de Corumbá), Gilliard Prado (grande Amigo que ganhei em sua breve mas marcante estada em nossa querida Corumbá de todos os desafios dialéticos), Marcelo Dias (de Matemática, jovem talentoso que tem aportado para a valorização das ciências exatas e humanas), Luiz Galvão (de Psicologia, querido Amigo, verdadeiro peregrino da ciência e da cidadania cujo olhar fraternal lembra o grande e sempre contemporâneo Paulo Freire), Elizabeth Bilange (de Letras, valorosa e incansável catedrática-guerreira em cujo rastro de honradez traz a marca da tenacidade insofismável), Elisa Freitas (de Geografia, jovem pesquisadora-cidadã que sem titubeio semeia a esperança indignada em nossa muitas vezes pouco alentadora rotina acadêmica, trazendo na alma a rebeldia transformadora, tão necessária para a postergada evolução universitária), Cláudia Mondini (de Psicologia, apesar da pouca convivência, pude constatar a determinação e o profissionalismo que pauta sua atuação), Edelir Salomão (de Pedagogia, docente cuja tenacidade e vigor inspiram novas gerações de educadores/as voltados/as para os interesses maiores da sociedade), Teresa Cristina Brasil (de Letras, cordial e solícita, uma docente que vem contribuindo para a valorização das letras nesta sociedade cada vez mais pragmática e metalizada), Ilidio Roda (de Psicologia, presente em todas as atividades acadêmicas, pude constatar sua inquietude cidadã), Fabiano dos Santos (de Educação Física, colega incansavelmente irrequieto e instigante, de uma geração que está a fazer história), Jorge Pinto (de Ciências Contábeis, destacou-se com propriedade nas reuniões promovidas pela ADUFMS durante a paralisação, ousadia cidadã que o torna imprescindível ao ambiente universitário), Dirce Soken (de Ciências Contábeis, gentil e solidária, nos poucos momentos compartilhados revelou sua profunda identidade com o mundo acadêmico), Iliane Esnarriaga (de Psicologia, Amiga que sempre me deferiu com seus convites a suas aulas sobre ética e cidadania, desde os memoráveis tempos do FORUMCORLAD no controle social das políticas públicas de Corumbá, ao lado das queridas Denise Mansano e Janán Hany e dos hoje saudosos Aurélio Tórrez e Heloísa Urt), Alcione dos Santos (de Letras, dos raros momentos compartilhados, ficaram suas iniciativas cidadãs, como o trote solidário de 2015 -- pena não termos podido desenvolver outras iniciativas tão importantes quanto essa), Sérgio Isquierdo (de Geografia, Amigo de mais de três décadas atrás, poder tê-lo reencontrado foi motivo de muito regozijo), Júlio Galharte (de Letras, recém-empossado e que entrou logo quando eu estava de saída, querido Amigo do final da década de 1980, quando a Vida generosa me presenteou queridos/as Amigos/as da estatura dele, do saudoso Gilson Sávio, de Mara Amaral, Edson Barbosa, Jorge Eremites, Joaquim Amaral, Simone Leone, Grace Kelly Bastos, Márcia Amaral, Marco Antônio Monje e João Carlos Urquidi, entre outros/as não menos queridos/as e sempre lembrados/as, do nosso imortal projeto de jornal universitário "Embrião" e das chapas "Mãos à obra" e "Mãos ao alto" para o então recém-fundado DSE) e Wadia Hanny (de Geografia, mais que querida Irmã, orientadora sábia e generosa, não só nas vicissitudes da tecnologia digital, mas nos desafios da docência universitária, sempre comprometida com a responsabilidade social, como em sua inesgotável lealdade/perseverança compartilhada com as senhoras integrantes do "Projeto Fibras", depois"Mulheres de Fibras", que vem sendo executado sem financiamento desde 2007, apenas com parcerias pontuais).

Da mesma forma e em igual intensidade aos Professores Mestres Vivian Silva (jovem docente que abre novas oportunidades aos/às alunos/as do CPAN/UFMS), Felipe Maropo (discreto e dedicado, docente que tem contribuído para as inovações tão necessárias na véspera do cinquentenário Curso de História), Thays Gomes Monteiro (de Matemática, talentosa e incansável mestra e mãe, cujo exemplo de dedicação àquilo que ama se renova em atitudes eloquentes de suas maiores riquezas: seus estudos, as queridas Ana Júlia e Thaíssa, e a fé inarredável), Gilberto Rodrigues dos Santos (de Matemática, generoso docente, coordenador exemplar por cujo convívio pude conhecer a amplitude dos que amam a lógica matemática e se revelam literalmente grandes pais), Benedito Rodrigues Brazil (de Matemática, embora discreto, sempre presente, generoso e colaborador),Fabrício Santiago (de Pedagogia, docente que faz da filosofia um instigante instrumento do pensar acadêmico),Osmar Nascimento (de Matemática, cuja juventude e dinamismo contagiam até os veteranos), Maria Auxiliadora Figueiredo-Nery (de Pedagogia, discreta e incansável pesquisadora cuja generosidade vem abrindo caminhos para os talentos das novas gerações, e faz da educação usina de encantamento e evolução da espécie humana), Fernanda Esteves (de Administração, cordial e generosa mestra, comprometida com os novos paradigmas institucionais), Newton Gane (de Administração, nos poucos momentos compartilhados, a presença afável da idiossincrasia ancestral do Oriente Médio), Roberto Galeano (de Administração, um docente atencioso e presente em diferentes circunstâncias), Rosa de Almeida (de Administração, discreta em seu proceder, docente que sabe distribuir confiança entre os/as alunos/as), Wilson Roberto (de Administração, solícito e atento, sua cordialidade tem a marca do desprendimento de uma geração), Marta Fernandes (de Ciências Contábeis, afável e gentil colega que faz de sua lide uma celebração da vida), Roberto Ribeiro (de Ciências Contábeis, colega sincero e cordial, que se caracteriza pela irreverência a proporcionar momentos descontraídos no dia-a-dia sisudo da academia), Itzhak Kaveski (de Ciências Contábeis, discreto e reservado, docente com grandes aspirações e objetivos), Caio Avellar (de Direito, jovem docente que vem imprimindo em sua área uma importante atuação), Bruno Marini (de Direito, atuante docente que, inclusive fora do âmbito da academia, está sempre presente em momentos de afirmação da cidadania), Angélica Ferreira (de Direito, docente que com seu dinamismo permitiu avanços significativos para o curso sob sua coordenação), Camilo Henrique (de Direito, sua cordialidade e o foco nos direitos da cidadania marcaram sua presença no campus),Eduardo Ferrufino (de Ciências Contábeis, docente jovem que faz de seu ofício polo irradiador de novos cidadãos), Suzana Mancilla (de Letras, incansável militante da integração latino-americana que conheci muito antes, em Campo Grande, e cuja atuação na UFMS revigora a certeza de que o CPAN será um dos artífices da realização dessa longeva utopia cidadã) e Janan Hany (de Matemática, querida Irmã-companheira que toda vez que me leva a um desafio me prova que ousadia e cidadania não são quase mera rima, mas razão de ser de quem traz na alma a obstinação peregrina, cujo gene revolucionário nos leva ao que se consagrou chamar de progresso da humanidade, sobretudo neste lúgubre momento da história em que o ocaso do império nos impõe barbárie e caos, a destruir não só valores consagrados mas também vidas e culturas milenares, comprovadamente bem mais iluminadas que a nossa vã "civilização").

Obviamente, não poderia deixar de me dirigir e, intensa e igualmente, manifestar meu reconhecimento ao(à)s Colegas professores substitutos, como eu, com os quais tive as mesmas honra e felicidade de conviver nestes efêmeros dois anos: Giovanni de Oliveira (ainda que por muito pouco tempo de convívio, mostrou-se incansável e obstinado, além de solícito e competente), Sanderson Fardin (embora discreto, bastante dedicado e, quando quis, soube surpreender e polemizar com sua opinião política, para muitos inimaginável), Marcel Giordano(dedicado e discreto, faz de seu ofício um estímulo para os/as alunos/as), Célia Rodrigues (de Matemática, brilhante recém-graduada, em seu breve período de substituição se revelou excelente docente e grande Amiga, ao lado de seu querido Companheiro, Leonardo de Castro, o que prova que as novas gerações só precisam de oportunidade, surpreendendo pela competência), além dos dois Professores de Libras, Maurício e Nelson, cordiais, solícitos e de uma generosidade ímpar, e que me perdoem por não ter memorizado os seus respectivos nomes completos, pois os conheci por intermédio da querida Amiga e Professora Andrea Madalone, por meio de quem saúdo com efusiva gratidão o(a)s imprescindíveis e estimado(a)s: Eunice Pereira (da SEAC, cordial e afável, sempre eficiente e generosa, desde os tempos dos bancos escolares), Jacqueline (da COAC, sempre gentil e colaboradora, disponibilizando seu conhecimento para qualificar seus serviços), Maycon, Sebastião,Mercado, Glauter Cavalheiro (Amigo e Companheiro de lutas cidadãs, sempre atento e solícito), Antônio, Valcir, Leopoldo, Leia (da Biblioteca, atenciosa e cordial, que considero uma Amiga), Valeska (aguerrida e perseverante, uma verdadeira lutadora pela justiça, ainda que nem sempre compreendida), Laura, Lúcia, Lecir e Jacinto (prestativo e solícito, trata-se de um verdadeiro monumento vivo à lealdade acadêmica, patrimônio da Universidade), bem como ao(à)s demais funcionário(a)s, inclusive ao(à)s vinculado(a)s às empresas prestadoras de serviços terceirizados, todo(a)s digno(a)s do maior respeito.

Também à direção do Campus Pantanal, na pessoa do Professor Doutor Edgar Aparecido da Costa, diretor do CPAN; dos Professore(a)s Doutore(a)s Luciano Édipo e Márcia Sambugari, titulares da COAC; à querida Amiga de mais de quatro décadas Eunice das Neves Pereira, da SEAC, e Denilson dos Santos, da COAD, e suas gentis equipes de colaboradores, meu sincero e grato reconhecimento pelo convívio profícuo ao longo deste período.

Não posso deixar de citar, com igual reconhecimento, o(a)s querido(a)s Amigo(a)s Professore(a)s Doutore(a)s José Carlos Ziliani, Paulo Roberto Cimó Queiroz, Hélvio Rech, Guto Josman, Gisela Bluma, Neimar Machado, Maria Augusta de Castilho, Maria Izabel Padilha e Celeida Maria de Souza, nas diferentes instituições em que se encontram, bem como ao(à)s Amigo(a)s aposentado(a)s ou transferido(a)s, como o(a)s Professore(a)s Doutore(a)s e Mestre(a)s Valmir Corrêa, Lúcia Salsa, Gilberto Luiz Alves, Masao Uetanabaro,Angélica Bezerra, Carla Villamaina Centeno, Gisela Levatti, Moacir Lacerda, Júlio Paro, Geraldo Damasceno, Ieda Bortolotto, Eudes Fernando Leite, Sílvia Britto, Arnaldo Sakamoto, João Bortolanza,Tito Carlos Machado, Iria Ishii, Maria Lúcia Paniago, Rosângela Pontara, Carlos Patusco, Catarina Costa Marques e Ruthênio Fernandes, e, com ele(a)s, os igualmente querido(a) Amigo(a)s Lejeune Mirhan Xavier de Carvalho, Denise Campos Diniz, Amyra El Khalili, Joel Carvalho Moreira, Ana Cláudia Salomão, Luiz Taques, José Maschio, Edson Moraes, Márcio Licerre, Augusto César Proença, Marlene "Peninha" Mourão, Anísio Guató, Lindivalda dos Santos, Tânia Nozieres, Aguinaldo Rodrigues, Arturo Ardaya, Cristiane Sant’Anna,Edimir "Abelha" Moraes, Andrés Menacho, Aníbal Monzón, Ivaneide Minozzo, Erisvaldo Ajala, Simone Yara Benítez, Padre Pasquale Forin e Jorge José Katurchi, todo(a)s incansáveis semeadore(a)s de cidadania e de empoderamento para a afirmação da soberania popular, pois, como diz o irreverente ditado espanhol, "lo que natura no da Salamanca no presta" (em tradução livre, "o que a natureza não dá, a Sorbonne não empresta").

Houve algumas atividades extracurriculares que não poderia deixar de mencionar, durante estes dois anos, que ficaram na memória, sobretudo pela generosidade de muito(a)s do(a)s Colegas mencionado(a)s: "Primeiro Encontro de História do CPAN" (sob a coordenação da Professora Doutora Nathalia Monseff); "Dias de História", do Curso de História da UFGD, em Dourados (sob a coordenação do querido Amigo e contemporâneo de estudos e de movimento estudantil, Professor Doutor José Carlos Ziliani, que me proporcionou um reencontro memorável com os igualmente queridos Amigos Professores Doutores Paulo Roberto Cimó Queiroz e Eudes Fernando Leite); "Recepção aos Calouros de História de 2015" (atividade programada pelos Professores Doutores Nathalia Monseff, Gilliard Prado e Waldson Diniz, com a participação dos Professores Doutores José Luiz Peixoto, Marco Aurélio Machado e Elaine Cancian); "Semana da Matemática", de 2014 e 2015, coordenadas pelo Curso de Matemática, respectivamente Professores Mestres Osmar Nascimento, Gilberto Rodrigues dos Santos e Janan Hany; "O ofício de professor e a globalização", fala da Professora Denise Campos Diniz; "Questão palestina, Primavera Árabe e a intervenção ocidental na Síria", uma eloquente aula de história e geopolítica dada pelo Professor Lejeune Mirhan Xavier de Carvalho, sociólogo, professor universitário e analista internacional em visita à sua cidade-natal, Corumbá (um reencontro depois de mais de trinta anos com esse brilhante e grande Amigo e Companheiro); "Geopolítica global e a crise no Brasil: um convite à reflexão", aula pública planejada e coordenada pela Professora Doutora Elisa Freitas e a participação do Professor Mestre Fabrício Santiago.

Gostaria ter enumerado todo(a)s o(a)s Amigo(a)s que fiz no CPAN, que, creiam, não só estão na memória como no coração. Lamentavelmente, a esta altura da vida, os "neurônios" podem ter-me levado ao inexorável constrangedor risco de ter cometido injustiças, o que me faz abreviar minha "lista". Mas, para não perder o hábito, apenas insisto, como há quase um ano e meio me atrevi a propor (quando da apresentação dos projetos de intervenção social "História em Movimento" e "Pró-história do CPAN/UFMS"), na importância do transcurso do cinquentenário do CPAN -- desde a sua gênese como Instituto Superior de Pedagogia de Corumbá (ISPC), em 1967; sua transformação em Centro Pedagógico de Corumbá (CPC), em 1972, vinculado à extinta UEMT; Centro Universitário de Corumbá (CEUC), em 1983, já no contexto da UFMS, e, a partir de 2003,Campus de Corumbá (CPCO), antes da nova denominação, de Campus Pantanal (CPAN) -- para aproveitar e promover uma série de projetos (e eventos, como gincanas juvenis e concursos de logomarca do jubileu, slogan e redação, por exemplo) em prol de sua memória e, sobretudo, para a apropriação pela população de Corumbá e Ladário da única universidade pública há quase cinquenta anos em atividade na região, responsável pela formação de, senão quase a totalidade, a imensa maioria do(a)s profissionais universitário(a)s da região, e que ainda não foi devidamente assumida por amplos setores da sociedade local, muitos dos quais ainda a veem com indiferença ou desdém.

Por fim, dedico este momento particularmente ao(à)s Aluno(a)s, com o(a)s quais tive a honra de conviver nestes últimos dois anos e que, longe de qualquer demagogia, constituem-se na verdadeira razão de ser da Universidade, desde sempre. Sou, aliás, da geração que ousou recuperar o protagonismo juvenil no âmbito da academia, ao conquistarmos não só a liberdade de organização do movimento estudantil, mas, sobretudo, a gratuidade da universidade pública brasileira, ainda antes da Constituição Cidadã, de 1988, e do fim das taxas e sobretaxas então existentes tanto nas instituições públicas como privadas. Portanto, sinto-me no direito de insistir na provocação feita, fora de aula, ao longo de meu convívio com o alunado, de que o sentimento de pertencimento da UFMS (e por tabela do CPAN), pelo(a)s estudantes, passe a ser efetivo, e que o necessário empoderamento por ele(a)s protagonizado torne a vida acadêmica mais dinâmica, proativa, produtiva e de vanguarda, em todos os sentidos -- nos estudos, pesquisas e projetos, no exercício de sua cidadania e no indissociável desenvolvimento do humanismo, lamentavelmente perdido pela lógica do mercado, há décadas hegemônica em nossa sociedade globalitária pós-Consenso de Washington: mais que agir como consumidores -- regido(a)s pelo Código de Defesa do Consumidor --, é indispensável e imprescindível atuar como cidadão(ã)s do mundo e de seu tempo. No dizer de Chico Buarque e Pablo Milanés, "lo que brilla con luz propia nadie lo puede apagar, su brillo puede alcanzar la oscuridad de otras cosas" ("aquilo que brilha com luz própria ninguém pode apagar, seu brilho pode alcançar a escuridão de outras coisas").

Por ter mencionado a caríssima Constituição Cidadã, de 1988, devo salientar algo que é oportuno e fundamental para afirmar o protagonismo da juventude: não é nenhuma "caretice" lutar pela defesa e efetivação de nossa Lei Maior. Muito mais que uma norma constitucional escrita coletivamente e em total sintonia com os setores organizados da sociedade, em efetiva mobilização e participação ao longo dos quase dois anos de trabalhos da Constituinte de 1986, em meu modesto entendimento de aprendiz de cidadão reputo o Título da Ordem Social como o de profunda relevância, sobretudo naquilo que se efetivou como Controle Social das Políticas Públicas, isto é, a participação do(a) cidadão(ã) anônimo(a) na definição de prioridades e na fiscalização das ações dos gestores nas três esferas de governo. Hoje me atrevo a dizer que, por conta da intersetorialidade das políticas públicas e a efetivação do Sistema de Garantia de Direitos, é inadiável que todo(a)s lutemos pela implantação em nível regional dos Direitos Humanos como política pública de afirmação da soberania popular. É o que vem acontecendo, ainda que de forma tímida, em nossa região, por meio de reuniões públicas periódicas, mas que o resultado será transformador para todo(a)s nós, sobretudo para a juventude, para o(a)s atuais universitário(a)s, que precisam aplicar seus conhecimentos profissionais no seio de uma sociedade mais democrática e efetivamente plural.

E, como despedida, trago deles -- Chico Buarque e Pablo Milanés -- uma das definições mais geniais de História, igualmente consagrada em "Canção para a unidade da América Latina", de 1972: "E quem garante que a história é carroça abandonada numa beira de estrada ou numa estação inglória. A história é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue. É um trem riscando trilhos, abrindo novos caminhos, acenando muitos braços, balançando nossos filhos..." (Disponível em <http://www.vagalume.com.br/milton-nascimento/cancion-por-la-unidad-de-latino-america.html)

Obrigado e até sempre, CPAN-UFMS!

Fraternalmente,

Schabib



PS: Anexo à presente mensagem quatro arquivos em PDF: o primeiro deles com o texto-base de minha participação na aula pública do dia 31 de março, ao lado dos eminentes Professores Elisa Freitas e Fabrício Santiago, respectivamente Doutora em Geografia Humana e Mestre em Filosofia Contemporânea, que me honraram com tamanha distinção, um presente para um aprendiz de cidadão; o segundo arquivo é o que havia preparado antes de ter conhecimento da impossibilidade de o Jornalista José Maschio chegar a Corumbá, por motivos de saúde em sua família, em que o foco era o período de trevas representado pelo regime de 1964; o terceiro arquivo se refere ao projeto de intervenção social História em Movimento, que propõe um conjunto de atividades permanentes que visam a valorização da História (e por extensão, do curso de História) no contexto da sociedade contemporânea, e o quarto arquivo trata do projeto de intervenção social Pró-História do CPAN/UFMS, que visa o resgate da memória do quase cinquentenário curso de História do CPAN, desde os tempos do ISPC, do CPC (tempos da UEMT), do CEUC e depois CPCO, bem como da criação de um centro de dados ou banco de teses, dissertações, monografias e artigos científicos produzidos pelo(a)s docentes e aluno(a)s ao longo da existência da instituição, entre outras propostas que poderiam fazer parte das comemorações do jubileu de ouro do CPAN, para as quais poderiam ser planejados certames abertos à sociedade local (sobretudo para a juventude estudantil) de concurso de redação, logomarca do jubileu etc.

domingo, 6 de março de 2016

O VIGÉSIMO QUARTO ASSALTO

O VIGÉSIMO QUARTO ASSALTO
Pouco mais de quatro décadas atrás, o incansável Jornalista Mohamad Heikal – o egípcio que, como assessor do estadista Gamal Abdel Nasser registrou momentos únicos da história contemporânea do Oriente Médio sob a liderança laica e lúcida de um socialista moreno (no dizer do não menos lúcido Leonel Brizola) – batizava de “Terceiro Assalto” sua obra-testemunho sobre a maior derrota sofrida pelos árabes desde que os sionistas do mundo inteiro, na esteira do holocausto cometido na Europa por europeus que usavam o discurso da “superioridade racial” como pretexto para promover a barbárie, se instalaram avassaladora e impunemente na pátria milenar do também milenar Povo Palestino.
Valemo-nos, pois, deste termo contundente para denunciar o ódio, o acinte, o ranço, a soberba cínica, de funcionários públicos sobejamente remunerados pelo erário para, apenas e tão-somente, cumprir a lei – e jamais se sobrepor a ela –, como temos visto reiteradamente nos últimos anos, depois que Luiz Inácio Lula da Silva, um retirante de alma peregrina que a história guindou ao papel de estadista da maior democracia do planeta, se tornou referência no hemisfério, melhor, na Terra e na alma do(a)s cidadão(ã)s e amantes da emancipação do proletariado, e dos povos oprimidos em todos os quadrantes do mundo.
E, pior, em conluio com uma imprensa preconceituosa e ardilosamente mentirosa, sonegadora de impostos e explicitamente corrupta, vem a público repudiar a animosidade que provocou deliberada e irresponsavelmente com sua iniciativa, e ainda querer advertir quem discordar de seu proceder fascistoide como quem conspirasse contra valores democráticos que o próprio desconhece por ação ou omissão, ou talvez por conta da ideologia que cultiva certa predileção pelos camisas-negras de algum fürer ou duce extemporâneo.
Não esqueceremos. Nunca nos intimidaremos. Jamais recuaremos. Sexta-feira, 4 de março de 2016. Impunemente, não mais que impune e acintosamente, nossa jovem democracia foi humilhada, aviltada, amealhada, estuprada. A arrogância e o ódio de classe de uma geração de ex-concurseiros envaidecidos pela (sic) meritocracia que sequer conheceu a (mal)ditadura e o(a)s que corajosa e generosamente ousaram construir o Estado Democrático de Direito puseram, arrogantemente, a perder o patrimônio maior de todo(a)s o(a)s brasileiro(a)s, e não apenas de funcionários públicos bem pagos para desempenhar suas atribuições a rigor, sem abusos nem excessos.
Feriram, sim, de morte – apunhalaram, ou melhor, defenestraram, bem ao estilo inquisitorial, de triste memória – o digno legado de homens e mulheres altivos e corajosos como Rubem Paiva, Ulysses Guimarães, Bertha Lutz, Heloneida Stuart e Cristina Tavares, cujas vidas em nada se assemelham às dos ridículos camisas-negras de vozes ensaiadas e terninhos justinhos, dadores de epítetos bisonhos, a fim de demonstrar uma erudição que qualquer computador já sepultou por conta da cultura da web.
Qual é a sua grandeza, seres infelizes, mal-amados, arremedo de atores canastrões do tempo do macarthismo delirante! Peçam desculpas por existir! Farsantes, obtusos, cínicos! A alma democrática da cidadania nada lhes deve, além da indiferença e o desprezo, como o que a vida cobrou de seus originais, Filinto Müller e amos, do outro lado do hemisfério. Devolvam-nos o direito à emancipação, à esperança e ao protagonismo que a história nos legou. E recolham-se à sua desprezível insignificância, retornem ao seu peçonhento ninho sibilino, do qual jamais deveriam ter saído!

Ahmad Schabib Hany

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

PROFESSOR DEUSMAR JATOBÁ ESPÍNDOLA (1952 - 2016)

PROFESSOR DEUSMAR JATOBÁ ESPÍNDOLA (1952 – 2016)

Com profundo pesar compartilho com Vocês a consternadora notícia sobre a eternização do Professor Deusmar Jatobá Espíndola, vítima de câncer, em Campo Grande, neste fatídico 3 de fevereiro, a um mês de seu aniversário de 64 anos.

Ele era um dos raros corumbaenses inquietos, desassossegados, que perseguiam incansavelmente seus sonhos, ainda que solitariamente. Já casado, pai de filhos e com todas as dificuldades que a Vida de proletário impõe aos que ousam sair da mesmice, licenciou-se em Estudos Sociais em 1984 e em História em 1988 pela UFMS, no então Centro Universitário de Corumbá (CEUC), e bem mais tarde, depois de tentar em diversas universidades de Mato Grosso do Sul, tornou-se Mestre em História pela Universidade Salgado de Oliveira, no Rio de Janeiro, em 2012.

Ex-técnico em eletricidade e ex-ferroviário, Deusmar era um crítico sincero de nosso amigo comum Manoel do Carmo Vitório, então dirigente sindical da categoria ferroviária e ex-colega universitário no curso de licenciatura em Estudos Sociais. Passou a exercer o magistério em 1985 nas redes municipal e estadual de ensino e, em meados da primeira década do século XXI, realizou sua experiência como docente universitário, temporário, na UFMS. Da mesma forma, conhecendo as minhas convicções ideológicas, fazia questão de demarcar as nossas diferenças políticas, até porque ele se definia como um democrata cristão, fiel à sua formação salesiana.

Aliás, durante décadas ele foi, no teatro amador, o Cristo crucificado que comovera gerações de corumbaenses e ladarenses que assistiam à peça Paixão de Cristo, escrita, produzida, dirigida e encenada a quatro mãos com outro(a)s Amigo(a)s, nos idos de 1970, antes da divisão de Mato Grosso. Da mesma forma, foi pioneiro na produção dos "Debates Populares", em 1988, quando os radialistas João Luiz Gonzales e Andersen Navarro, sucessivamente, eram as estrelas da programação da imponente Rádio Clube de Corumbá,  sob a direção da falecida Doutora Laurita Anache.

Nós nos conhecemos no início da década de 1980, quando eu ainda estudava em Campo Grande, na FUCMT, e ousava dar meus primeiros passos no meio jornalístico. Foi numa de minhas vindas a Corumbá que o conheci ao lado de meu saudoso Pai, por conta de suas instigantes conversas -- é que ele se declarava um "curioso nato, amante da boa e produtiva conversa", como ficou registrado no perfil de sua página do portal "Café História" --, ao ver o senhor Mahoma Hossen Schabib falando com naturalidade vários idiomas, cercado de turistas mochileiros, ou absorto na leitura de pilhas de livros, revistas e jornais, também em diversas línguas.

Mas a nossa Amizade (dessas com letra maiúscula) se solidificou precisamente quando ele, produtor do então programa semanal "Debates Populares" da Rádio Clube de Corumbá, me "intimara" a participar (foi esse o verbo usado quando me convidou para ser um dos debatedores enquanto ele esteve como produtor e os mencionados radialistas se sucederam). E diferentemente da linha posteriormente adotada pelo Jornalista Armando de Amorim Anache, com a participação do Jornalista e Advogado José Carlos Cataldi (ex-radialista da Rádio Nacional, do Rio), o programa teve, também, edições memoráveis, como a que discutiu os rumos da Constituinte presidida pelo saudoso Deputado Ulysses Guimarães, ou a que debateu sobre a dívida externa brasileira, ou aquela que questionou os cinco anos para Sarney, ou a discussão sobre Parlamentarismo, ou a respeito da adoção da pena de morte no ordenamento jurídico brasileiro etc.

Nos últimos dez anos, raramente nos encontramos, por puro acaso. Mas tive a grata satisfação de recebê-lo em casa para lermos o seu anteprojeto de Mestrado sobre a Coluna Prestes (o exílio, por Cáceres, de seus integrantes na Bolívia e sua repatriação por Corumbá), com o qual queria ingressar no programa de uma universidade pública. Apesar da consistência e originalidade do projeto, não fora feliz nesse intento, tendo se decidido posteriormente pela universidade do Rio de Janeiro, e dessa vez com outra temática.

Nosso derradeiro encontro foi em Miranda, numa parada obrigatória para quem viaja em ônibus de carreira, quando ambos retornávamos de uma insólita experiência, depois de participarmos da primeira etapa de um processo seletivo realizado na capital, extremamente concorrido. Bastante consternado com seu desempenho naquela prova, revelou-me um lado até então desconhecido por mim: o do incansável guerreiro visivelmente esgotado, cético e que jogara a toalha. Menos de um mês depois, soube por sua companheira que se submetera a uma nova cirurgia, desta vez no pâncreas, já em vias de viajar para Campo Grande.

Deusmar é uma das mais eloquentes expressões da multifacética Corumbá de todos os povos, de todos os credos, de todas as culturas, de todos os tempos: determinado, conquistou seu lugar na história (em todas as acepções), mas, obviamente, como todo intelectual oriundo da classe trabalhadora brasileira, precisava fazer a "conversão" burguesa que, ainda que outrora pudesse ter desejado, as bizarras elites jamais lhe concederam. Sua personalidade, muitas vezes controversa e irreverente, e sobretudo sua cordialidade inesgotável, farão muita falta neste torrão cada vez mais dominado pela mediocridade totalitarista, fruto da abominável globalização contra a qual nossa geração se insurgiu assim que tomamos consciência de nossa cidadania -- e, como disse o grande Darcy Ribeiro, fomos derrotados, mas jamais gostaríamos de estar no lugar dos que nos venceram, "donos" de uma sociedade perversa e aviltante para a espécie humana e todo o planeta.

Até sempre, querido Amigo, e obrigado pelas inúmeras lições que generosa e sabiamente nos deu!


Ahmad Schabib Hany

sábado, 2 de janeiro de 2016

DILMA NÃO É COLLOR: IMPEACHMENT É GOLPE!

DILMA NÃO É COLLOR: IMPEACHMENT É GOLPE!

Um dos legados do marxismo -- ou melhor, do materialismo dialético -- é a análise com base no contexto histórico. Até os mais avessos às ideias revolucionárias de Marx reconhecem essa fundamental contribuição para o conhecimento. É como se antes disso, ao se conhecer um fato, ele ficasse “solto”, desvinculado do conjunto de circunstâncias ou fatores intrínsecos à realidade em tela.

Foi a partir da adoção desse método que a humanidade passou a compreender o processo histórico de forma crítica e profunda, inclusive e sobretudo a vanguarda das classes proletárias. Tanto é verdade, que as máquinas de propaganda do nazismo e do fascismo, nas primeiras décadas do século XX, funcionaram mediante a negação desse procedimento. Isto é, ao ser manipulado o contexto histórico, determinado fato, fora de contexto, virava factoide, ficção, instrumento de propaganda.

Pois, em plena segunda década do século XXI, nos vemos às voltas com manipulações dessa natureza, feitas com o maior cinismo e acinte, como se tivéssemos sido abduzidos por algum extraterrestre e nossa memória estivesse definitivamente comprometida. Desta vez, porém, com a participação explícita de setores autointitulados de “democratas”, “socialdemocratas” e, pior, ex-“marxistas” (ou marxistas arrependidos).

Curiosamente, é que estes, sobretudo os ex-“marxistas”, na ânsia de se legitimarem no conjunto da pseudovanguarda neoliberal, procuram fundamentar a intolerância golpista dos órfãos da ditadura de 1964 e dos grupos políticos que a gestaram (como a UDN, de triste memória), praticando a cartilha bizarra e anacrônica de Goebbels, o homem da propaganda de Hitler.

Insistem, teimam copiosamente, em reiterar fatos inverossímeis como se todos fôssemos a “velhinha de Taubaté”, criação do extraordinário Luís Fernando Veríssimo, em sua magistral crônica dedicada ao último general-presidente, em 1983. Repetem as absurdas mentiras até torná-las verdade no senso comum, no afã mesquinho e sórdido de arranjar um atalho espúrio para chegar onde não tiveram capacidade de conquistar pelo voto democrático.

Nem que para tanto venham a comprometer a jovem democracia, destruir a economia do país, causar danos irreparáveis à população e imolar a primeira mulher a exercer o principal cargo da República, cientes que são de sua probidade e, sobretudo, determinação republicana de não permitir que alguém obste o curso dos inquéritos da Polícia Federal ou do Ministério Público.

Não há como não reconhecer a diferença abismal entre Collor de 1990 e Dilma de 2015.

Depois de implantar um conjunto de medidas contra o país ao escancarar sem qualquer critério o mercado brasileiro às multinacionais -- promovendo uma quebradeira de indústrias nacionais e demissões de trabalhadores --, de confiscar impunemente a poupança de toda a população e de achatar o poder aquisitivo dos assalariados, Collor se envolveu (ou foi envolvido por seus principais assessores) em falcatruas que direta e irrefutavelmente o beneficiavam e à primeira-dama.

Dilma, ainda que tenha sido levada a tomar medidas impopulares em seu segundo mandato, manteve os programas sociais, as políticas habitacionais e a economia do país sob controle: apesar da torcida e boataria dos sabotadores, a inflação anual não chegou a 11%, quando FHC, antecessor de Lula, emplacou em 1999 e 2000 índices próximos de 15%, as maiores taxas de desemprego pós-1985 e arrocho salarial sem precedentes.

Além disso, a atual presidente não só não interfere no processo de investigação das diferentes denúncias -- que remontam a outros mandatos presidenciais, inclusive do cardeal-mor do tucanato --, como em nenhum momento houve qualquer evidência de alguma suposta participação sua, seja por ação ou omissão deliberada.

Esses são, a bem da verdade, aspectos do contexto histórico que os ex-“marxistas” omitem ainda que os dominem como bons alunos que foram das organizações predecessoras do PPS e do PSDB (não esqueçamos o passado “subversivo” dos cardeais dessas duas legendas, reduzidas a reles serviçais da direita provinciana, obtusa e intolerante).

Na verdade -- e eles conhecem sobejamente esse fato --, entre os mais afoitos pela destituição da Presidente Dilma Rousseff estão os que são alvo das investigações, mas cujos nomes ainda não vieram à tona. Sejam eles membros da oposição ou do governo (neste ou em mandatos anteriores, no de Lula, FHC e inclusive Itamar), por sua prática promíscua, não demorarão a serem levados às barras dos tribunais, tal qual Eduardo Cunha, eleito presidente da Câmara com seus votos “éticos”.

Ainda que por caminhos tortuosos e duros, a esquerda, mais uma vez, dá a sua contribuição à história republicana ao incorrer em erros primários, como o de não ter realizado uma profunda auditoria tão logo assumiu o Executivo nacional e denunciado os esquemas e quadrilhas existentes desde os mais remotos tempos de nossas precárias instituições públicas -- sempre, aliás, privadas, em razão da promiscuidade entre a “casa grande” e o Estado, antes vinculado a uma corte corrupta, gananciosa, primitiva e ignorante.

Mas Dilma, como Lula, vem pagando o preço de haver promovido uma verdadeira ascensão social multitudinária por meio de políticas públicas outrora relegadas a meras promessas eleitorais, além de -- particularmente Dilma ao final de seu primeiro mandato -- ter empreendido uma política externa que não apenas reafirmou a soberania nacional, mas deu eloquentes provas de o Brasil se distanciar dos Estados Unidos e de sua política beligerante e intervencionista, protagonizando a inimaginável conformação do novo bloco econômico, dos BRICS, e de seu banco de desenvolvimento. Não tenhamos dúvida de que por trás de bizarros “líderes” de organizações como o (sic) “Movimento Brasil Livre” encontra-se a “mão invisível” dos maiores controladores do deus-mercado.

Atribuída a um combatente comunista, meticulosamente escolhido pelo núcleo de poder do regime de 1964 como “inimigo público número 1”, Carlos Marighela teria sentenciado, num dos infindáveis debates da vanguarda marxista nos anos de chumbo, que “a prática é o critério da verdade”. Ex-“marxistas”, “socialdemocratas” e “democratas” têm conhecimento disso. E a história, mais cedo ou mais tarde, os chamará à razão, pois sua ação, ou omissão, não passa despercebida neste contexto crítico -- e por isso de avanço, de superação --, queiram ou não as peçonhentas pitonisas do retrocesso.

(Ahmad Schabib Hany)

sábado, 26 de dezembro de 2015

O POETA SE FOI, SUA UTOPIA FECUNDOU

O poeta se foi, sua utopia fecundou

Para Geraldo Roca

Em pleno dia de Natal deste longo e duríssimo 2015, no início da tarde, pela voz consternada de meu querido Amigo Luiz Taques, chega-me a fatídica notícia da partida derradeira de um dos criadores do Chalana de Prata, em meados da década de 1990. Mal tentava me refazer de outra triste notícia, sobre a prematura partida de um querido sobrinho do pesquisador e Professor Masao Uetanabaro, próximo de sua bucólica Fernandópolis, interior de São Paulo.

Geraldo Roca, um dos autores do célebre “Trem do Pantanal”, o maior compositor sul-mato-grossense de sua geração, se fora, em silêncio e solitariamente. E nisso tenho a concordância avalizada do criterioso Jornalista Luiz Taques, que o considera “nosso Chico Buarque” (e ao lado do outro Geraldo, Espíndola, o “nosso Caetano”). Num tempo em que mediocridades ganham status de celebridades de uma sociedade de consumo, nossos verdadeiros talentos se vão, anonimamente.

Tive o privilégio de conhecê-lo por meio de outro Amigo comum, o incansável e querido Armando Lacerda, então dirigente da Urucum Mineração (estatal), o mesmo que me presenteou conhecer pessoalmente o saudoso ex-ministro da Saúde Wilson Fadul, de João Goulart, um mato-grossense de mãos limpas, sem qualquer risco de, inclusive nos tenebrosos tempos do regime de 1964, ter sido preso por peculato ou qualquer ato que pudesse desabonar sua conduta como homem público.

Geraldo Roca, então, estava empenhado na realização do emblemático projeto Chalana de Prata, cujo ponto de partida era seu torrão-natal, a cosmopolita Corumbá da década de 1950. Ainda que os necrólogos de plantão insistam que ele era carioca de nascimento, ele bebeu da fonte fecunda do coração do Pantanal. O seu pai, de origem hispânica, era dono de uma concorrida panificadora situada em pleno centro do baluarte cultural representado pela terra de Lobivar de Matos e de Pedro de Medeiros (e então frequentada pelo imortal Poeta, o eterno e terno Manoel de Barros).

O mesmo compositor que profetizou com o Trem do Pantanal tinha outra convicção inarredável: a unificação do Pantanal, desde Cáceres (MT) até Porto Murtinho (MS). Isso ele deixara claro em sua estada, nos idos da década de 1990, a despeito da opinião quase unânime de que se tratava de utopia (hoje, diria, utopia cidadã). Ainda que poucos conheçam o sonho acalentado – quase inconfessável, por conta de seu convívio na capital sul-mato-grossense –, cada dia que passa essa utopia cidadã se torna mais presente, mais plausível, mais realizável.

Se o provincianismo que usurpou o sonho libertário de um Mato Grosso do Sul de vanguarda, tendo reduzido a mero saudosismo ufanista os versos condoreiros do Trem do Pantanal (de vocação latino-americanista, integracionista e até internacionalista), o verdadeiro ideário, pelo menos para Geraldo Roca, do projeto Chalana de Prata era a reunificação cultural do Pantanal, vitimado pelo oportunismo do regime de 1964 e de seus apaniguados sedentos de mais cabides de emprego e maior longevidade para o arbítrio, já cambaleante em 1977.

Mais que necessária homenagem, pois, este modesto desabafo de um fã desolado pretende clamar pelo resgate das motivações históricas de nosso agora saudoso menestrel pantaneiro. Que o talento libertário e vanguardista celebre a renascença do Pantanal, no rastro de nosso compositor maior, precocemente silenciado. O poeta se foi, mas a sua utopia fecundou. Para a redenção do Pantanal.

(Ahmad Schabib Hany)

domingo, 9 de agosto de 2015

ABRIL, A FACE OCULTA DOS OLIGOPÓLIOS MIDIÁTICOS


ABRIL, A FACE OCULTA DOS OLIGOPÓLIOS MIDIÁTICOS
Parodiando Chacrinha, nessa editora quase nada se cria, quase tudo se copia...
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Dias atrás, a revista Veja, da Editora Abril, teve que reconhecer, depois de algumas semanas de reiteradas manifestações de repúdio do público, que o documento de uma conta de banco suíço usado como base de uma “denúncia” contra o senador Romário (PSB-RJ) era falso e os, digamos, jornalistas envolvidos na produção e edição da matéria caluniosa sequer tinham feito o mais elementar procedimento, desde os tempos de Gutemberg: checar a fonte e a procedência da “denúncia”. Carro-chefe da Abril, a Veja tem se valido de uma prática recorrente de antijornalismo a toda prova, pondo a perder a sua gênese de projeto editorial bem-sucedido, com um time de Jornalistas renomados, como Mino Carta (fundador e primeiro diretor,  depois de ter criado a Quatro Rodas para a mesma editora e o Jornal da Tarde para a empresa da família Mesquita, a S.A. O Estado de S. Paulo), Fernando Morais, Audálio Dantas, Hugo Estenssoro, Hélio Campos Mello, Walter Firmo, Antônio Carlos Fon, Sílvio Lancelotti, Tárik de Souza e Jairo Arco e Flecha.
Quase todo(a) brasileiro(a) – ou estrangeiro(a) residente no Brasil –, nos últimos 65 anos, tem desenvolvido alguma empatia pela Abril, seja por conta das revistas infantis, fascículos, publicações dirigidas, revistas para o público jovem ou adulto, feminino ou masculino, e obras clássicas do saudoso Círculo do Livro, Guia do Estudante e Almanaque Abril. Se revisitarmos o Brasil dos primeiros 50 anos dessa que outrora foi a vanguarda das editoras brasileiras, quando a internet sequer era algo na ficção, veremos a dimensão de suas contribuições para o desenvolvimento cultural e editorial do País.
E não é preciso ser um aficionado colecionador de revistas ou “enciclopédias” e obras clássicas adquiridas por fascículos ou correio para lembrar ou reconhecer nomes que ficaram na memória coletiva, como Jeronymo Monteiro, Luis Carta, Domingo Alzugaray, Mino Carta, Odylo Costa (vírgula) Filho, Mylton Severiano, Audálio Dantas, Fernando Morais, José Hamilton Ribeiro, Amilton Almeida Filho, Tárik de Souza, Sílvio Lancelotti, Hugo Estenssoro, Antonio Carlos Fon, Walter Firmo, Elifas Andreatto, Hélio Campos Mello, Alberto Dines, Hugo Estenssoro, Waldir Igayara de Souza, Claudio de Souza, Sílvio Fukumoto, Maria Christina Pinheiro, Ziraldo Alves Pinto, Mauricio de Sousa, Eli Barbosa, entre outros não menos importantes.
No entanto, a despeito do período de inovações introduzidas ao mercado editorial brasileiro, a Editora Abril, desde a sua fundação, em 1950 – sob o nome de Editora Primavera Ltda. –, é uma pródiga usina de clonagens que não respeitou os mais elementares princípios éticos e, pior, nem reconheceu direitos autorais de terceiros. O fundador, Victor Civita, indiscutivelmente um ousado e competente empreendedor, recebeu graciosamente de seu irmão mais velho, Cesar Civita (este, sim, fundador e inovador da Abril, em 1941 na Argentina e em 1966 no México), a ideia de se estabelecer no Brasil com cópia do projeto editorial por ele realizado no país platino – a estratégia, o nome, a logomarca, os títulos e até parte de sua produção editorial, por sinal, pioneira e inovadora, de fazer inveja aos demais concorrentes latino-americanos.
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Mas como “desde a sua fundação”? É que, como Victor Civita e seus sócios eram todos estrangeiros – e, portanto, não podiam, por razões legais, ser titulares numa empresa do ramo editorial –, precisaram de um brasileiro de nome ilibado para assumir a titularidade. Assim, ainda com o nome de “Editora Primavera Ltda.”, o Jornalista, radialista e escritor de ficção científica Jeronymo Monteiro aparecia como diretor (isto é, editor) para que pudesse se instalar em uma modesta sala à rua Líbero Badaró, 158, no centro de São Paulo, aquela que mais tarde se transformaria na poderosa Abril dos Civita, como se vê nos expedientes acima deste parágrafo, copiados de duas edições diferentes da revista Raio Vermelho, disponível no site Guia dos Quadrinhos, bem como em alguns trabalhos acadêmicos do Brasil, Argentina, México e Itália.
Jeronymo Barbosa Monteiro, que nada deve aos Civita por sua brilhante biografia, é o “Pai da Ficção Científica Brasileira”, e como primeiro diretor da mais antiga revista de histórias em quadrinhos em circulação no Brasil batizara alguns dos personagens Disney com os nomes de Tio Patinhas, Huguinho, Zezinho e Luizinho, por exemplo. Autor de verdadeiros clássicos da ficção científica – entre eles “Três meses no século 81”, “A cidade perdida” e “Tangentes da realidade” –, em nosso país de pouca leitura, tornou-se célebre desde que fez roteiro para uma série de radiodramaturgia para as rádios Nacional e Tupi. Mas precisou usar o pseudônimo anglo-saxão Ronnie Wells para ganhar reconhecimento no gênero.
Como muito(a)s brasileiro(a)s digno(a)s, Jeronymo Monteiro foi preso em 1964, experiência que relatou em um dos contos de sua obra derradeira, com o sugestivo título de “O copo de cristal”. Foi diretor do suplemento Gazeta Juvenil de A Gazeta de São Paulo, e editor na Editora La Selva e na versão brasileira de Isaac Asimov Magazine, renomada revista internacional de ficção científica, além de ter criado, em 1957, a memorável seção Panorama, na Folha Ilustrada da Folha da Manhã (a partir de 1960, Folha de S. Paulo), tendo sido substituído por sua filha, Theresa Monteiro, a partir de 1971. Curiosa e acintosamente passou a ser ignorado pelos ex-patrões depois de ter deixado a Abril, em 1951, para dar continuidade ao seu projeto literário-editorial até morrer, em 1970, mesmo tendo apresentado o seu sucessor a Victor Civita, o então jovem Jornalista Cláudio de Souza, um amigo seu e autor de reconhecidos relatos sobre a generosidade e o talento deste brasileiro que ajudou a abrir as portas do País à família de imigrantes que construiu um império midiático, mas padece do mal da ingratidão.
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Portanto, ao contrário da lenda de que “tudo começou com um pato” (paródia à afirmação de Walt Disney, de que “tudo começou com um rato”), a primeira publicação da ex-“Editora Primavera Ltda.” foi Rayo Rojo, isto é,Raio Vermelho. Por quê? É que a Editora Brasil-América Ltda. (EBAL), de Adolfo Aizen (também chamado de “Pai das Histórias em Quadrinhos do Brasil”), publicava, em sociedade com Victor Civita, entre 1946 e 1948,Seleções Coloridas com as primeiras histórias dos personagens Disney, negócio avalizado pelo representante de Walt Disney para a América Latina, César Civita, que além de editor da Abril argentina era ex-funcionário da Editora Mondadori, de Roma, representante da Disney na Itália, na década de 1930, até fugir, por ser judeu, da perseguição nazifascista. Acima deste parágrafo vemos algumas edições da revista Seleções Coloridas, de 1946 e 1947, cujo primeiro episódio principal, “O ‘crack’ Pato Donald”, foi publicado originalmente na edição nº. 45 de El Pato Donald, da Editorial Abril (Argentina) com o título “Donald, el gran goleador”, além de primeiras edições de Raio Vermelho e Rayo Rojo.
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Faremos, agora, um parêntese para adentrar nos bastidores das logomarcas. O Folhetim, de saudosa memória – versão paulistana do também saudoso semanário irreverente Pasquim –, era um suplemento dominical da então vanguardista Folha de S. Paulo (sob a direção do genial Jornalista Claudio Abramo), fundado por Tarso de Castro, Nelson Merlin e Fortuna, que circulou entre 1976 e 1988. Pois bem, ele trazia uma insinuante seção do chargista e ilustrador Fortuna chamada Diz, Logotipo!, na qual os leitores participavam, ora enviando logotipos recortados ou fotocopiados da mídia impressa, ora criando legendas, sempre com a irreverência que caracterizava esses hoje saudosos jornalistas. Nem a logomarca da Abril escapou ao escárnio do(a)s leitore(a)s. Até porque as diferentes logomarcas podem, sim, dizer muito, tal como o saudoso Fortuna ensinava nos idos da década de 1980.
Há quem diga que as logomarcas “chupadas” sob as ordens de Roberto Civita, o primeiro-filho do fundador da Abril brasileira, causaram diversas vezes desconforto e até constrangimento entre os diretores mais profissionais, como Jeronymo Monteiro, Mino Carta, Luis Carta, Domingo Alzugaray e Claudio de Souza. Detentores de uma competência a toda prova, os ex-diretores da Abril contribuíram para o desenvolvimento editorial brasileiro dentro e fora da casa dos Civita: Jeronymo Monteiro dirigiu a Editora La Selva e a bem-sucedida edição brasileira Isaac Asimov Magazine; Mino Carta fundou a Encontro Editorial e mais tarde a Editora Confiança, da CartaCapital; Luis Carta, com Fabrizio Fazano, a Carta Editorial, da Vogue Brasil; Domingo Alzugaray, a Editora Três, da Status, Planeta, Repórter Três, Istoé Gente etc, e, com Mino Carta, a Encontro Editorial, da Istoé e do memorável embora meteórico Jornal da República; Claudio de Souza, com Domingo Alzugaray, a Ideia Editorial, de Mister Magoo, Don Piloto, Capitão Bigbom, Tico e Teca, Puff-Puff, Zartan, Playcolt etc.
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Ao usar, com pródiga maestria, o nome Abril, a ainda modesta congênere brasileira usou também, com sutil inversão (como se estivesse ao espelho), a arvorezinha símbolo da Editorial Abril (argentina), como se pode constatar nas figuras logo acima. Mas há uma explicação para a inversão original, dada por Cesar Civita a uma pesquisadora italiana cuja tese de doutorado na Universidade de Bolonha tratou de sua façanha: muitas edições tipográficas de sua editora, compostas em oficinas de terceiros, trouxeram a logomarca acidentalmente invertida – isso nos idos de 1940, como a imagem acima à esquerda.
Em 1968, quando a Abril brasileira já se impunha como potência editorial (então estava constituída a Abril Cultural, dos fascículos, discos e livros; a Sociedade Anônima Impressora Brasileira – SAIB –, futura Gráfica Abril; Abril Educação, ainda que incipiente, com tímidos livros paradidáticos e didáticos, e até a Distribuidora Abril – depois Distribuidora Nacional de Publicações, DINAP –, para se libertar do monopólio exercido então pela Distribuidora Fernando Chinaglia, do Rio de Janeiro), a arvorezinha símbolo da Editorial Mex-Abril (criada em 1966 na Argentina expressamente para a Mex-Abril, do México, por uma agência de publicidade que prestava serviços para a Editorial Abril, em Buenos Aires) foi estilizada, sem perder a concepção original publicada em todos os produtos editoriais da Mex-Abril entre 1966 e 1969, como se pode constatar nas imagens abaixo deste parágrafo, retiradas da revista Nocturno mexicana de 1967 (23 de junho de 1967).
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Os dois primeiros títulos – Raio Vermelho (Rayo Rojo, em espanhol) e O Pato Donald (El Pato Donald, em espanhol) – também foram, digamos, “emprestados” da Abril argentina para o pai de Roberto Civita, aquele que levou o fundador da Abril brasileira a dividir em vida o patrimônio para não deixar o irmão Richard Civita partilhar da direção do até então exitoso grupo editorial. Foi, aliás, o primeiro-filho, com uma sugestiva “ajuda” da Caixa Econômica Federal (CEF) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), nos tempos da ditadura, que “trocou” com Armando “nada a declarar” Falcão (o mesmo sinistro da Lei Facão) os seus melhores diretores (Mino Carta, Luis Carta, Domingo Alzugaray, Claudio de Souza etc) por empréstimos para quitar as contas contraídas com a construção do majestoso prédio da Avenida Otaviano Alves de Lima (Freguesia do Ó), São Paulo, os equipamentos gráficos de última geração para a ex-SAIB e os hotéis Quatro Rodas Nordeste nas paradisíacas praias brasileiras – estes, aliás, objeto de uma CPI no Congresso Nacional, em 1982, em que um dos filhos de Civita e um dos então diretores da Abril brasileira foram convocados para depor, além de alguns serviçais da ditadura, acostumados à impunidade – ou, na linguagem atual, “blindagem” – que até 2005 era assegurada aos membros da elite brasileira (fac-símile do Diário do Congresso Nacional, de 6 de dezembro de 1982, mais abaixo).
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E por falar em títulos “emprestados”, a Abril brasileira “adotou” – muitas vezes com logomarca e conteúdo, a exemplo de Raio Vermelho e O Pato Donald –, revistas de sucesso da congênere platina, como Noturno - Capricho (Nocturno, fotonovelas), Contigo (Contigo, idem), Ilusão (Idilio, idem), Claudia (Claudia, revista feminina; em homenagem a uma filha de César Civita precocemente falecida), Casa Claudia (Claudia Casa, decoração e interiores), Manequim (Maniquí, moda e corte-costura), Intervalo (TV, revista sobre a TV e seus artistas), Homem (Adam, revista masculina, antes de ser 100% Playboy), Quatro Rodas (de automobilismo, que, na Argentina, teve duas fases, a segunda com o nome Parabrisas, que circula até hoje, pela Editora Perfil, da família do dono da Editora Caras, associada à Abril brasileira), Realidade (Panorama, revista de reportagens) etc. Graças ao talento de Jornalistas como Mino Carta e Luis Carta (e às equipes que eles formaram), revistas como Quatro Rodas e, depois, Realidade passaram a ser referência na América Latina. Foi, aliás, o caso de Veja (e Leia) sob a direção de Mino (entre 1968 e 1975), mas, pouco depois, assim como Realidade, ficaram descaracterizadas quando passaram para o comando (literalmente “comando”) de profissionais submissos aos caprichos do primeiro-filho, Roberto Civita, indubitavelmente responsável pela decadência editorial, econômica e ética da editora que contribuiu, ainda que com evidentes contradições, para afirmar a identidade brasileira.
Expressão literal dessa decadência, o agora panfleto semanal denominado Veja teve a sua gênese forjada na história profissional de Jornalistas com letra maiúscula – tal qual a saudosa Realidade, retirada irresponsavelmente de circulação, em pleno auge, por iniciativa de Roberto Civita – como Mino Carta, tirado da direção da revista (e da editora) em 1975 para atender aos apelos bizarros do regime ditatorial e obter vantagens, como um milionário empréstimo do governo federal e a promessa de um canal de televisão que nunca lhes foi concedido, a ponto de a Abril Vídeo (e depois a TVA) não ter passado de caro devaneio do primeiro-filho. O nome Veja (e Leia) foi usurpado da célebre revista semanal argentina Vea y Lea, que circulou entre as décadas de 1940 e 1960. Esse título, a bem da verdade, não pertencia a César Civita (a Abril argentina possuiu duas semanais, Siete Días Ilustrados e Panorama Semanal, além de uma experiência frustrada anterior, dirigida por Carlos Civita, filho de Cesar, chamada Semana Gráfica), mas foi do país que ele escolhera o “empréstimo” feito, como podemos ver nas capas abaixo, publicação da Editorial Emilio Ramírez, respeitada concorrente dos Civita da Argentina.
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Em síntese, usando a linguagem maniqueísta da decadente Veja de hoje, a farsa tem nome e endereço: Editora Abril, Avenida Otaviano Alves de Lima, 4400, Freguesia do Ó, São Paulo. A editora que se rendeu a interesses menores depois que o patriarca Victor Civita faleceu, em 1990, e que a partir de 2003, quando foi empossado o primeiro presidente operário do Brasil, passou a praticar a panfletagem e o antijornalismo, a serviço de propósitos inconfessáveis, ainda que tendo pago um elevado preço pela soberba. Desde então, uma sucessão de fracassos empresariais vem se acumulando, colocando todo o seu patrimônio financeiro e editorial numa iminente avalanche falimentar. Mas é em 1996, auge do neoliberalismo tucano, que a Abril brasileira começou a abrir mão de negócios de elevado significado estratégico por inépcia administrativa dos que herdaram de Victor Civita a outrora dinâmica editora.
Não bastasse a “adoção” nada ética de títulos, logomarcas, logotipos, produtos editoriais e conteúdos e a inescrupulosa permuta de diretores por empréstimos, absurdamente vergonhoso foi ter aceitado como sócio o grupo empresarial ligado à funesta política de apartheid da África do Sul e, pior ainda, ter-se submetido aos anacrônicos interesses da bizarra Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), com sede em Washington (submissão anteriormente recusada por Cesar Civita, na Argentina, e Victor Civita, no Brasil, durante toda a guerra fria, período em que as editoras eram mais frágeis). Uma flagrante negação do legado dos patriarcas Civita e dos grandes Jornalistas que emprestaram seu talento, caráter, nome e dignidade àquela que aparentara ser um projeto editorial autêntico e de empoderamento da cidadania brasileira.
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Mas a deslealdade com os membros de sua própria família, como o ocorrido com César Civita (foto acima) – ao não querer submeter-se às absurdas exigências da (mal)ditadura de Rafael Videla, de demitir os “comunistas” (isto é, os profissionais competentes) que ele empregava em sua editora e, por isso, ter sido alvo de um atentado da famigerada AAA (Ação Anticomunista Argentina), em 1976, contra a sua residência, fato que o levou a se autoexilar nos Estados Unidos e depois no México –, o primeiro-filho Roberto Civita negara ao tio o apoio para não fechar e ter que se desfazer da Editorial Abril. Quando lhe conveio, é verdade, o então todo-poderoso primeiro-filho chamou seu primo Carlos Civita, então um bem-sucedido empresário do ramo de produtos esportivos (de tênis) na região norte do Brasil, para representar os interesses da Abril brasileira na Colômbia (Editora Abril-Cinco), um projeto frustrado, como também não vingara anteriormente em Portugal (com o nome Editora Morumbi) e Espanha (com o nome Editorial Primavera).
Preferiu, décadas depois, fazer parcerias com concorrentes, como a Editorial Perfil da Argentina e a Rede Globo dos descendentes de Roberto Marinho. Talvez o primeiro-filho tivesse esquecido que o patriarca dos Marinho usara seu, digamos, “prestígio” junto aos generais de plantão para cassar a concessão da extinta TV Tupi, sua concorrente, e impedir que os Civita, concorrentes ainda maiores no mercado editorial, pudessem ficar com essa concessão, deixando a um apresentador de televisão, já sócio em outra rede de televisão, a “gentileza” de acumular durante mais de uma década dois grupos de televisão.
Prova disso, é a inusitada parceria entre as fundações Victor Civita e Roberto Marinho no evento anual “Prêmio Educador Nota 10”, logo no ano em que os netos do fundador da Abril brasileira se desfizeram de expressiva fatia do Grupo Abril, sobretudo do segmento Educação (outrora Abril Educação), formado por editoras como a Ática e Scipione e cursos como o Anglo, extremamente caro para o patriarca Civita, que pessoalmente o constituiu ao final da década de 1960. De resto, já é de domínio público a encalacrada financeira em que atualmente seus herdeiros se encontram, a ponto de passar títulos emblemáticos da Abril, como Recreio (criada por um grupo de educadores e jornalistas em 1969) e Placar (outro importante projeto editorial do início da década de 1970), para a editora que tem crescido à sombra dos erros e da soberba do hoje falecido primeiro-filho, Roberto Civita.
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Ainda que sem ilusões, torcemos sinceramente para que, ao contrário da Editorial Abril, de Buenos Aires, a Editora Abril, de São Paulo, pelas relevantes contribuições feitas durante o (breve) período de vanguarda editorial, com todos os seus equívocos do período pós-1973, consiga sobreviver e se reencontrar com o legado dos dois velhos fundadores e das equipes profissionais que constituíram, para resgatar seu papel histórico, abandonando executivos incompetentes, sócios intolerantes e sobretudo posições maniqueístas que ameaçam a jovem democracia brasileira, ainda em construção. Afinal, tanto Cesar como Victor Civita tiveram de abandonar a Itália de sua juventude por causa da intolerância dos partidários do ditador Benito Mussolini e de seu aliado Adolf Hitler, para vir a se refugiar e realizar o sonho de suas vidas em dois países latino-americanos cuja população generosa os acolheu fraternalmente, tornando-os referência, ainda que com as contradições inerentes à economia de mercado praticada ao sul do Equador, onde, no dizer do grande compositor Chico Buarque, “não existe pecado”, desde os tempos coloniais, de triste memória.
Ahmad Schabib Hany